1º semestre de 2010

Disk-puta

Por Cinthia Toledo

“Luana – loira gostosa com peitão. 1,65 de altura, 58 kg de muita gostosura. Faço todo tipo de serviço. Preço a combinar.” Esse era o anúncio, até que discreto se comparado aos demais, da Luana em um orelhão da Praça da Sé.

Ligo para ela numa manhã de sexta-feira, às 10h45 da manhã. Ela atende com voz de sono. “Oi, queria chamar você para animar a despedida de solteiro do meu noivo”. Ela estranha. “Você é a noiva dele?” “Sim”, eu respondo. “Onde e quando?”, pergunta em um tom de mau humor.

Percebo que assim que eu der o endereço e negociar o valor, ela vai desligar sem me dar chance para saber mais de sua vida. Tento, então, enrolar mais um pouco, antes de “chegar aos finalmente”. “Não costumam pedir esse tipo de serviço?”. “Não a noiva. Principalmente porque eu faço o serviço completo. Não sou mulher de só atiçar o pinto, não.” “Mas, como seria o serviço completo?” “Faço o que o cliente pedir. Mas, é claro que o preço varia”. “Varia quanto?” “A senhora vai querer contratar o que, afinal? Não tenho muito tempo para conversar.” “Então, eu queria que você animasse a festa. Mas só isso.” “Posso até fechar assim com você, mas, se chegando lá algum endinheirado, mesmo que seja o seu noivo, quiser algo mais, eu faço. Já aviso logo de cara porque sei o que é uma traição.” Ela começa a se abrir. “Não consigo entender como alguém pode contratar uma prostituta para a festa do noivo. Olha que eu tenho várias colegas que viraram putas fixas de pessoas que conheceram assim”.

“Você já foi traída?”, pergunto. “Peguei meu homem na cama com outra. E tenho certeza de que você também já foi corna. Pode ser que nunca tenha ‘descobrido’, mas que foi, foi. Nenhuma mulher escapa”. “E foi aí que você virou prostituta?” “Não, eu já era. Me prostituo desde os 13 anos, quando meu pai saiu de casa.” “Foi por necessidade, então?” “No começo sim, mas hoje eu não sei se quero outra vida não. É claro que têm uns clientes que é foda. Quando é muito velho ou quando ta bêbado, eu acho pior. Tem hora que dá nojo, mas você acostuma.” “E por que você não sabe se quer outra vida?” “Apesar ‘das confusão’, principalmente com polícia, que às vezes têm, o dinheiro é mais fácil. Por exigência de um namorado, larguei uma vez, virei vendedora no Brás. O salário não era nem metade do que eu consigo agora”.

“Você tem namorado?” “Hoje, não. Mas o povo pensa que puta não namora. Namora, sim. Mas nem sempre tem respeito”. “Do namorado, você diz?” “É”. “E seus namorados você conhece onde?” “Ué, em qualquer lugar. Onde você conhecesse os seus?”, ela devolve para mim.

A essa altura, já pegamos certa intimidade. Resolvo perguntar sobre seus relacionamentos. “Mas, quando você namora, como faz com os seus programas?” “Os meus programas ‘é’ o meu trabalho, não tem nada a ver.” “Mas, os caras entendem?” “A maioria, não. Por isso que agora eu tô sozinha. Tem cara que faz a gente largar. Mas eu só largo se ele me sustentar. De homem a gente não pode ter dó. Nem um por um segundo. É só virar as costas…” “Você me parece bem leal às mulheres”, digo a ela. “E sou mesmo. Depois que uma me fudeu, eu fiquei assim.” “Você sabe quem é a mulher?” “Uma vaca aí. Tenho que desligar agora. Afinal, mocinha, você vai querer ou não o programa?”

Penso em falar a verdade, que é um trabalho de faculdade e tal. Mas, temo pela reação dela. “Não, não, acho que é melhor não. Mas obrigada pelo seu tempo e pelo papo”, digo. “Você me pegou com tempo. Geralmente, não dou mole assim não. Valeu. E se tiver alguma amiguinha, estamos aí, é só avisar.” “Você atende mulheres também?” “Pagando… Valeu, tchau.”

Valeu mesmo. O “disk-puta” pareceu mais um “disk conversa” para mim. Fiquei depois me perguntando se ela teria com quem conversar aquelas coisas. Mas, depois me dei conta de que, na verdade, ela já não está muito aí para as coisas. Parece calejada pela vida. Mas, mesmo puta, mantém valores. E amores.

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