1º semestre de 2010

Inferno – 2º semestre de 2009

O diabo como álibi

Por Natália Viri e Tiago Ribas

Ilustração: Renato Gualberto Botelho

Naquele domingo, Maria Cândida acordou disposta a levar Claudio para passar o reveillon no litoral. O cunhado não estava bem. No dia anterior, havia ido até sua casa para levar alguns documentos do pai, os quais ninguém havia pedido e dos quais nem ele mesmo sabia a serventia. A fala desconexa e o comportamento arredio deram a pista: ele havia parado de tomar os remédios. Logo após o almoço, na companhia do marido Osvaldo e do irmão dele, Jesse, partiu rumo à casa de Claudio, na Vila Mazzei, zona Norte de São Paulo. Assistir a chegada de 2009 na companhia da família havia de lhe fazer bem.

Ao chegarem, Osvaldo notou a aparência abatida do irmão e logo perguntou se ele estava tomando seus medicamentos corretamente. Claudio correu para dentro do quarto, bradando: “Peraí que eu vou mostrar quem precisa tomar remédio!”. Cândida, que sempre fora muito próxima do cunhado, logo alertou o marido: a raiva de Claudio estava fora dos padrões.

Prevendo o que estava por vir, Osvaldo desceu as escadas do sobrado. Ao chegar no quintal, no andar térreo, ouviu um disparo acompanhado de um grito do irmão Jesse e, logo em seguida, novos tiros, acompanhados de silêncio total. Correu de volta ao andar de cima para verificar o que ocorrera e deparou-se com Claudio de arma em punho, descendo as escadas e o acuando para fora da sala.

Osvaldo foi caminhando até o portão de entrada, mas, em pânico, não conseguiu abrir o trinco. Encolheu-se junto a uma caixa de luz no quintal. Cobriu a cabeça com as mãos e fechou os olhos. Claudio estava cara a cara com ele. Ouviu um disparo, mas percebeu que não havia sido atingido. Conseguiu abrir o portão e correu até a rua.

Claudio tentava carregar o revólver calibre 38. Havia disparado as 5 balas que estavam no tambor. A polícia o surpreendeu de pé na calçada, arma em punho, letárgico. Não resistiu à prisão, apenas soltou a arma e entrou na viatura. Um dos oficiais acompanhou Osvaldo até a parte interna do sobrado, e foi só então que ele notou o sangue que vertia de uma ferida nos ombros. Fora baleado, mas sem gravidade.

A porta por onde Osvaldo escapara estava trancada, assim como todas as outras entradas, que estavam fechadas à chave pelo lado de dentro. Através da janela da sala no térreo, avistaram Jesse com o peito e braços ensangüentados, mas vivo e alerta. Arrombaram a porta e foram em busca da Cândida. A dona-de-casa estava no andar de cima, caída de bruços, rosto no sofá e corpo no chão. Fora atingida fatalmente por uma bala na cabeça.

A descrição é baseada no depoimento de Osvaldo, parte do inquérito para apurar o crime. No mesmo documento, Osvaldo explica que o irmão, esquizofrênico, já havia passado por diversas internações. Sempre que suspendia a medicação, ficava violento – certa vez, agredira o pai de mais de 80 anos. O laudo do perito José Roberto de Paiva, anexado ao processo, com efeito, marca F20, a sigla para esquizofrenia, de acordo com a Classificação Internacional de Doenças (CID-10).

O caso ainda está em julgamento, mas o advogado de defesa, Romualdo Sanches Calvo, presidente da Associação Paulista de Direito Criminal, afirma que entrará com um pedido de “absolvição imprópria”. Nesses casos, o réu é absolvido pelo juiz e recebe uma medida de segurança – isto é, internação em Casas de Custódia e Tratamento, os antigos manicômios judiciários. Com efeito, no parecer, o médico psiquiatra atesta que, por conta da doença, no momento em que cometeu o crime, Claudio era “inteiramente incapaz de entender a ilicitude ético-jurídica de sua ação”, e, portanto é inimputável, ou seja, não pode ser considerado responsável pela morte da cunhada e pelas lesões corporais contra os irmãos.

O comportamento violento e agressivo de muitos doentes mentais explica a associação, presente desde a Antiguidade, entre loucura e possessão demoníaca. A mais antiga doença sistematizada, a epilepsia, tem sua origem etimológica no grego epi, “o que está em cima”, e lepsis, “abater”, ou seja, aquele é abatido por cima, como assinala o psiquiatra forense Guido Arturo Palomba: “Os antigos pensavam que o diabo vinha de cima e abatia o indivíduo, e o ataque podia ser de duas maneiras, total, quando jogava-o ao chão e sacudia, ou parcial, quando ‘entrava’ no indivíduo e promovia desordem nas ideias e nos atos”.

Com mais de dez mil perícias no currículo, Palomba afirma que casos de crimes cometidos por doentes mentais que alegam estar efetivamente possuídos pelo diabo ou algum tipo de entidade maligna são relativamente comuns. Um dos casos que Palomba considera paradigmático ocorreu na década de 70. Marina, nome fictício atribuído à personagem no livro “Loucura e crime”, foi a uma casa que vendia artigos de umbanda com uma amiga. Lá, conheceu um rapaz, e o convidou a participar de um dos rituais em sua casa. À noite, iniciada a sessão, incorporou uma pomba-gira, e, ao sair do transe, deparou-se com o cadáver do rapaz, ferido no peito com uma faca. Desesperada, chamou por socorro. Porém, na verdade, era ela quem havia cometido o crime enquanto encarnava a pomba-gira.

Fora do transe, Marina é lúcida e articulada. Questionada sobre o crime, afirma que não tem nenhuma lembrança – não fora ela que assassinara o rapaz, e sim a pomba-gira. O laudo assinado por Palomba atesta que Marina sofre de epilepsia, na sua forma condutopática. Nesse caso, em vez de sofrer crises convulsivas, a disritmia cerebral provoca uma espécie de “convulsão mental”, que afeta o comportamento. “É como se fosse uma descarga do cérebro. O sujeito só se sente plenamente aliviado depois que comete o delito”, explica. Como foi a doença que determinou o assassinato que cometeu, o crime não pode ser imputado a ela. Foi absolvida e internada em uma Casa de Custódia e Tratamento.

Os crimes cometidos por pessoas com epilepsia condutopática ou psicótica – forma na qual o doente sofre alucinações – obedecem a pelo menos seis de nove critérios: ausência de premeditação, ausência de motivo plausível, instantaneidade da ação, ferocidade na execução, multiplicidade de golpes, ausência de dissimulação, ausência de remorso, ausência de cúmplice e amnésia ou lembranças desencontradas.

Esses elementos estão presentes em outra tragédia emblemática, que ocorreu em 2003, em Campinas e teve grande repercussão nacional. Após uma batida de carro, o produtor Alexandre Alvarenga arremessou o filho de um ano contra um veículo em movimento. Logo em seguida, foi a vez da filha mais velha. Alexandre pegou a menina de seis anos e começou a bater repetidamente a cabeça da filha contra um tronco de árvore. Ao mesmo tempo, sua mulher, Sara, batia a própria cabeça na árvore, em transe, em meio aos gritos do marido de “Ah, Satanás!”. O espetáculo horrendo só teve fim quando os policiais aplicaram em ambos uma injeção de tranqüilizante. O bebê, que atravessou o vidro de um Fiat Palio, morreu no hospital. A filha mais velha, felizmente, não teve sequelas.

No período que passou na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, aguardando julgamento, Alexandre entrou em depressão profunda e manifestou diversas vezes intenção de suicídio. Não acreditava no que sua vida havia se tornado após o incidente, do qual não guarda a mais remota lembrança. Foi absolvido por unanimidade no Tribunal de Justiça de São Paulo e internado Casa de Custódia e Tratamento.

Sara também foi absolvida e obrigada a passar por tratamento ambulatorial em hospitais psiquiátricos. Na prática, isso significa que ela fica em liberdade, mas tem de efetuar tratamento médico sob a supervisão da justiça. O entendimento do Tribunal de Justiça foi de que o transe da mulher foi estimulado pelo comportamento psicótico do marido, no que se chama de loucura a dois (“folie a deux”), ou psicose compartilhada.

De acordo com o artigo 26 do Código Penal Brasileiro vigente, de 2001, é “isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou determinar-se de acordo com esse entendimento”. Nessa categoria, dos inimputáveis, estão os menores de idade e os índios não adaptados, que por seu “desenvolvimento mental incompleto” – entendido aqui como imaturidade ou aculturação –, não são capazes de compreender o caráter criminoso de seus atos, e os doentes mentais, cujo distúrbio prejudica totalmente sua capacidade de compreensão e auto-determinação.

O parágrafo único do artigo 26 estabelece ainda a imputabilidade parcial: “a pena pode ser reduzida de um a dois terços de o agente, em virtude de perturbação de saúde mental ou desenvolvimento mental ou incompleto ou retardado não era inteiramente capaz de entender o caráter ilícito ou determinar-se de acordo com esse entendimento”. Aqui, são enquadrados, os indivíduos que, no momento do crime, possuíam capacidade parcial de entender que estavam cometendo um ato ilícito.

Os inimputáveis não podem ser culpados pelos seus crimes, mas são considerados socialmente perigosos. Daí a “absolvição imprópria”: o réu é absolvido, mas, em nome do segurança da sociedade, é internado em um hospital psiquiátrico judiciário ou recebe tratamento ambulatorial. Já os semi-imputáveis, como o próprio nome sugere, são uma categoria mista. Ao mesmo tempo, são culpados pelo crime e considerados socialmente perigosos. Dessa forma, podem receber uma pena, reduzida em um ou dois terços, ou uma medida de segurança, se necessitarem de tratamento curativo.

Em um primeiro momento, quem determina se o réu é ou não imputável e o tipo de medida de segurança cabível é o perito nomeado pelo juiz. Sempre que a promotoria ou a defesa levantam dúvidas quanto à sanidade mental do réu, instaura-se um Incidente de Insanidade Mental (IIM) e um médico psiquiatra elabora um laudo com seu parecer técnico. Através do exame do processo, de entrevistas com o réu e testemunhas e do levantamento do histórico familiar, o perito analisa se, à época do crime, o réu era capaz de entender o caráter ilícito de seu ato e agir de acordo com essa compreensão. Por fim, opina quanto à necessidade ou não de tratamento para esse distúrbio e o tipo de medida de segurança cabível.

Para Palomba, determinar a sanidade mental de uma pessoa é uma tarefa relativamente simples: “Se você examinar uma pessoa demente vai ver que ela tem um olhar específico, se você examinar uma pessoa delirante vai ver que ela tem um olhar específico, se você examinar uma pessoa que se sente perseguida, não adianta falar que você foi perseguido, ele tem que ter o olhar do perseguido, a postura. É aquele negócio: o corpo fala, existe uma linguagem pré-verbal que não dá para simular”.

De acordo com o criminalista Romualdo Sanches Calvo, tentativa de simulação de loucura para forjar a inimputabilidade não é uma manobra recorrente nas defesas. “O sujeito sabe que se fingir que é louco, vai passar o resto da vida no manicômio”. De fato, a internação no manicômio judiciário não tem prazo máximo, apenas mínimo, de um a três anos, conforme determinado pelo juiz. Periodicamente, o interno é submetido a um exame de Verificação de Cessação de Periculosidade e só é libertado se o médico psiquiátrico alegar que o indivíduo não representa mais perigo à sociedade. “E, me diz, qual vai ser o psiquiatra que vai comprar essa responsabilidade? E se o cara sair e matar de novo? Com raras exceções, vai passar a vida toda no manicômio”, afirma Romualdo. Palomba concorda: “Juiz, promotor, advogado, preferem pena de cadeia, pena normal. Doenças mentais, em geral, não têm cura, e o cara vai morrer no manicômio”. A decisão de internar o doente em uma Casa de Custódia e Tratamento, na prática, se torna uma sentença à prisão perpétua.

O número de manicômios judiciários é constante. Muitos entram todos os anos e poucos saem. Como resolver essa equação? Palomba explica que as pessoas acabam saindo num determinado momento, mas não direto pra sociedade. “Geralmente, eles saem porque termina a periculosidade, mas não direto pra sociedade, eles vão para hospitais psiquiátricos comuns. Digamos, você cometeu um crime hediondo, está no manicômio judiciário, passa vinte, trinta anos, você fica demente, não é mais capaz nem de comer sozinha, quem dirá matar alguém. Você continua louca, mas sem periculosidade. Daí vai para um hospital psiquiátrico comum”.

Quando ser louco vale a pena
Em virtude da possibilidade de atenuação da pena, a tentativa de enquadramento na semi-imputabilidade é mais recorrente, segundo Romualdo. Essa foi a principal tese utilizada pela defesa de Mateus da Costa Meira, que, em 1999, metralhou uma sala de cinema no shopping Morumbi, matando três pessoas e ferindo seis. O estudante de medicina de fato tinha comportamento paranoico-esquizoide de acordo com o laudo da perícia, e, por isso, teria apenas determinação parcial para o ato cometido. Contudo, o entendimento do júri foi de que, apesar de sofrer de um tipo de esquizofrenia, o distúrbio não foi determinante para o crime. Dessa forma, foi condenado a 120 anos e seis meses de prisão, 19 anos e seis meses por cada um dos homicídios que cometeu, mais 13 anos para cada uma das quatro tentativas de homicídio e oito meses para cada uma das pessoas que expôs a risco – 15 no total, número de balas que restaram em sua arma. Após recurso da defesa, a pena foi reduzida para 48 anos e 9 meses, pois os desembargadores entenderam que apenas uma ação originou o crime, e não várias, como na sentença anterior.


Nas masmorras do homem

O inferno da tortura praticada hoje sob a tutela agentes do estado brasileiro.

Por Beatriz Flausino e Tatiane Klein

Quando fala da tortura dentro da prisão José Costa* não altera a voz, não demonstra emoção. Apesar de a raiva emergir em alguns momentos, ela é passageira. Há 23 anos, José foi preso por tráfico de drogas, permaneceu encarcerado por 15 anos e, dentro da cadeia, sofreu violências cujas marcas carrega até hoje em seu corpo: “Eu conheci o inferno, fui até lá e voltei”.

José  arrasta a perna esquerda enquanto caminha pelo escritório cheio de computadores. Sentado em sua mesa, ele explica que estava na Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru, quando aconteceu o massacre. No dia 2 de outubro de 1992, a Tropa de Choque da Polícia Militar invadiu o pavilhão 9 do Carandiru e matou, pelos números oficiais,111 presos. Mas esse homem conta uma história diferente da que circulou oficialmente. Um dos responsáveis pela faxina no Pavilhão 4, José estava trancado em sua cela, quando começou uma briga entre os faxineiros do segundo e quinto andares do Pavilhão 9. “Nada ia acontecer. No máximo, uma furada em um ou no outro. Só que o guarda de presídio que estava de vigia era novato. Viu os presos discutindo com as facas na mão e acionou o diretor da cadeia. Daí, para frente, a coisa saiu do controle”.

“Eles invadiram pra matar. Porta sim, porta não matavam todo mundo. Eu era porta não, graças a Deus”. No dia seguinte ao massacre, José revela que os presos tiveram que carregar os corpos e limpar o Pavilhão 9: “Não morreram só 111 presos, foi muito mais. Os 111 eram os que tinham visitas. Quem não tem visita, o corpo não é reclamado, então, não consta como número para a estatística”. O ex-detento diz que a história verdadeira do Carandiru não é conhecida, porque os presos que tentaram contar a verdade nos depoimentos que se seguiram ao massacre, foram ameaçados de morte.

Ainda demoraria algum tempo até que o maior presídio da América Latina fosse desativado de fato. O Pavilhão 9 foi trancado como que para esquecer os corpos que haviam quedado ali, esconder o acontecido, mas os outros pavilhões continuavam funcionando. Ainda no Pavilhão 4, José, que continuou na equipe de faxina, sofreu um acidente enquanto fazia a limpeza: “Eu caí no dia duma lavagem com um tambor de 200 litros que a gente usava. Quebrei a perna e fui operado. Passou muito tempo até o Carandiru ser desativado de verdade e, nesse tempo, eu consegui me recuperar”.

Quando as últimas remoções da Casa de Detenção aconteceram, uma penitenciária do interior tornou-se o destino de José: “Inauguraram aquelas trinta e poucas penitenciárias que o Governo do Estado fez. Nessa remoção, eu já tinha uma haste de platina na perna com 18 pinos e já corria, já tava bem. A minha perna não tinha articulação total, meu joelho não dobrava totalmente, só que, dentro do avião, eu tinha que colocar as pernas e as mãos algemadas em volta de um cano – como se fosse um pau de arara sentado. Eu tentei explicar para o policial que a minha perna não dobrava totalmente, que eu não ia conseguir ficar naquela posição”. O policial retrucou a José dizendo: “Agora sua perna vai dobrar” e deu um chute em sua perna. “Imagina você, dentro do avião com 80 outras pessoas. Não sabe o que está acontecendo, umas gaiolas de cano amontoadas como se fossem beliches. Uma coluna embaixo, uma em cima. Os policiais, cada um com um rottweiler. Ele me agrediu e eu não pude nem gemer de dor, senão apanhava”.

Após chegar à penitenciária, José teria de ser levado à enfermaria: “Só que como era uma penitenciária nova, não tinha enfermaria ainda, não tinha nada implantado direito”. Até conseguir uma remoção, pois sua perna começou a encurtar, José esperou quase dois anos: “Eu estava caminhando em volta da quadra e um guarda viu que uma perna minha estava menor do que a outra. Encaminhou um pedido de remoção. Me puseram numa ambulância-viatura e, quando vi, tava de volta no Carandiru”.

A prótese de platina José havia se quebrado e, por entre as carnes de sua perna, os pedaços fraturados sobrepuseram-se, fazendo a perna diminuir. Cinco anos mais tarde e com 11 centímetros a menos na perna esquerda, José voltou a ver as ruas: foi posto em liberdade sem ter tido qualquer atendimento médico ou a cirurgia necessária para a recuperação.

No sistema carcerário, a tortura é fato comum. Seja entre presos ou realizada por policiais, a tortura faz parte do cotidiano dos detentos, como relata José: “Tortura tinha todo dia. Tinha um rapaz que atendi, quando fiquei encarregado da enfermaria, que queria atravessar de um pavilhão para o outro. A guarda não gostou dele. Quebrou ele no cano de ferro e ele ficou aleijado. Perdeu todo movimento de um lado apanhando sem mais nem menos. Não gostaram da cara dele. Tava no lugar errado na hora errada”.

José, que hoje tem seu próprio negócio, pensa que a tortura da negligência talvez tenha doído mais que o chute em sua perna fraturada: “Na verdade, a tortura contra mim aconteceu depois da agressão que eu sofri no avião”. Ele já ganhou na justiça o direito de indenização, mas ainda não começou a receber a pensão vitalícia: “Foram cinco anos marcando e desmarcando consultas, porque não tinha algema para me levar até o médico. Você acha que um aleijado, que anda de muleta, precisa de algema?”.

Xampu, condicionador, ácido

Maria Aparecida de Matos também estava presa quando foi violentamente torturada. A história desta mulher, que possui transtornos psiquiátricos e esteve detida na 4ª Cadeia Pública de Pinheiros, está relatada em uma ação de indenização do Ministério Público Estadual. Em 17 de maio de 2004, aos 23 anos, a mulher foi presa em flagrante por tentativa de furto de um frasco de xampu e um de condicionador. Por conta dessas migalhas, Maria foi à cadeia e seu corpo sofreu penalidades desumanas.

Depois da prisão, ela teve o contato com a família cortado, o que agravou seus transtornos e dificultou muito sua relação com as outras presas. Entre gemidos e gritos  atormentados, Maria não tomava banho; por isso ela era constantemente agredida pelas outras detentas. Chegou a ser ameaçada de morte. Levada a uma cela em separado, Maria ganhou a marca do isolamento.

Um mês na cela de isolamento, Maria passou a ser alvo da tortura dos agentes penitenciários. Outra presa, então, decidiu entrar em contato com a família de Maria para denunciar a situação. Pela primeira vez, em meses, a família soube do paradeiro da moça.

O delegado da cadeia recebeu informação, através da mãe de Maria, das violências que estavam sendo realizadas contra a presa, mas nada foi feito. As torturas se intensificaram e, no começo de agosto, o agente carcerário, como de costume, permitiu a entrada das outras presas no isolamento para que agredissem Maria. Dessa vez, os torturadores jogaram um líquido corrosivo em seu rosto que causou queimaduras de segundo grau e a perda da visão do olho direito.

Em 17 de agosto do mesmo ano, Maria foi encaminhada ao Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Professor André Teixeira Lima, o Manicômio de Juqueri, em Franco da Rocha. Julgada no dia 19 de abril de 2005, Maria foi absolvida pelo crime de furto, mas o Tribunal de Justiça Paulista revogou a decisão e a condenou a mais um ano de prisão. Sob pressão, o Superior Tribunal de Justiça concedeu liberdade à moça do rosto deformado.

O estrangeiro e a auto-tortura

Em um caso relatado pela ONG Justiça Global de Direitos Humanos, a tortura se deu em um contexto diferente. Chan Kim Chang, um comerciante chinês, foi preso aos 46 anos, ao tentar embarcar para os EUA com cerca de 30.500 dólares não-declarados à Receita Federal. O calendário marcava o dia 25 de agosto de 2003 e Chang foi levado à carceragem da Polícia Federal, o presídio Ary Franco no Rio de Janeiro. Após o encarceramento, que durou apenas dois dias, o estrangeiro foi encontrado inconsciente, com as roupas molhadas e bastante ferido.

Chang foi encaminhado ao Hospital Salgado Filho, no Rio de Janeiro, em coma. Ele carregava em seu corpo diversos edemas, muitos ferimentos e lesões do lado direito da cabeça.  A morte veio após oito dias de coma, em 4 de setembro; causa mortis: traumatismo craniano e pneumonia dupla.

O relatório elaborado pelo diretor da unidade, o Major Luiz Gustavo Matias, afirma que Chang teria chegado ao presídio bastante machucado, tendo sido levado até a enfermaria. O documento diz ainda que, ao dar entrada na enfermaria, o comerciante teria sofrido um surto e se arrastado pelo chão até bater com a cabeça na quina de um arquivo, o que explicaria os ferimentos.

Contradizendo o relatório do Major, a autópsia do corpo de Chang apontou que o comerciante estava em posição fetal quando apanhou: em posição de defesa. O laudo também indicou que o comerciante pode ter sido agredido em momentos diferentes: o corpo possuía manchas roxas e avermelhadas, o que aponta para ferimentos mais antigos e outros mais recentes. Segundo o perito legista Nélson Massini, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o conjunto de lesões de Chang indicia espancamento: “Ele tinha lesões no corpo todo, o que mostra que foi agredido por várias pessoas, e também lesões de defesa”.

Fotos de Chang tiradas por outros presos no interior do presídio, revelam o estrangeiro com uma mancha de sangue na blusa, em pé, na sala de triagem do Presídio Ary Franco. O homem chinês aparece com os olhos fechados e apoiado nas grades, o que reforça ainda mais as suspeitas de que ele teria sido espancado em dois momentos distintos.

Três dias antes de Chang ser preso e 13 antes de morrer, dois relatórios sobre as condições do presídio Ary Franco foram entregues ao Secretário de Administração Penitenciária do Estado. Esses relatórios denunciavam a prática de tortura no interior desse presídio. Nada foi feito a respeito pelas autoridades, que já tinham conhecimento sobre a situação da carceragem. Esse é mais um indício de que a morte de Chang provocada por tortura.

Tronco, chicote, cassetete, eletrochoque

Se o terror da tortura ainda hoje açoita muitos brasileiros, isso se deve ao fato de que esta prática adentrou as instituições do país como uma forma freqüente de operação de policiais e agentes penitenciários.

Ao que os fatos apontam, a tortura no Brasil está historicamente relacionada a práticas do Estado. Já na época colonial era amplamente utilizada como forma de produção de provas. Apesar de proibida pela Constituição promulgada por D. Pedro I em 1984, a tortura continuou sendo utilizada contra escravos: tronco, viramundo e pelourinho eram alguns dos instrumentos de violência contra os negros. Os atos de tortura voltaram a aparecer na Era Vargas, quando foi instituído regime ditatorial e houve repressão político-social.

Apesar de signatário de instrumentos internacionais de proteção à  tortura, a evolução normativa com relação ao crime no país  é muito pouco ordenada. O Brasil é signatário da Declaração Universal dos Direitos Humanos; do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos; e da Convenção Contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes da ONU, ratificada em 1991 pelo país. Também a Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura, aprovada pela OEA em 1985, foi ratificada e promulgada pelo Brasil em 1989.

Com a Constituição Federal de 1988 a tortura deixou de ser apenas um agravante do crime de homicídio no Código Penal para constar na carta magna: “Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento desumano ou degradante”, firma o inciso III do artigo 5º. O mesmo artigo determina que a prática da tortura é inafiançável e insuscetível à graça ou anistia. A Constituição Cidadã e a adesão aos tratados internacionais fortaleceram as ações de acompanhamento internacional e por ONGs de casos de tortura no Brasil. No entanto, só em 1997 é que o crime de tortura foi tipificado. De acordo com a Lei 9.455, de 7 de abril de 1997, constitui crime de tortura: “Constranger alguém com emprego de violência ou grave ameaça, causando-lhe sofrimento físico ou mental; submeter alguém, sob sua guarda, poder ou autoridade, com emprego de violência ou grave ameaça, a intenso sofrimento físico ou mental, como forma de aplicar castigo pessoal ou medida de caráter preventivo”.

De 1980 a 2006, o Banco de Dados da Imprensa do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP registra um total de 158 casos noticiados de tortura e 22 de tortura seguida de morte em São Paulo perpetradas por policiais. No Rio de Janeiro, segundo dados do mesmo banco são 98 notícias sobre tortura e 18 de tortura seguida de morte por policiais nesses 26 anos.

Dignidade diminuída

Anônima e informalmente, um policial de baixa patente fala de seu cotidiano. Lembra que a tortura, psicológica e física, faz parte de práticas suas e de seus colegas – em geral, muito mal pagos. “Se eu contar quantas vezes torturei…”, começa o homem, com um misto de tristeza e conformismo. A ele parece que a precariedade do trabalho, sob constante pressão por resultados, é o que leva a essas atitudes.

Contador de casos, ele exemplifica com uma história: um grupelho de “nóias” usando drogas à beira de um córrego; nenhum com passagem pela polícia; ao invés da voz de prisão, o policial escolhe dar um susto nos jovens. “Vou dar trabalho levando nóia para delegacia?”. É com um pedaço de borracha de pneu, encontrado no meio do mato, que o homem atinge os meninos, mandando-os sair correndo sem olhar para trás. Essa história ele complementa com outra: a de uma colega que, por ter cometido infração em serviço, foi levada a cumprir pena na corregedoria. Além da prisão, usual, a mulher foi submetida a três dias de isolamento e proibida de tomar banho, conforme o relato.

O polícia relata que, desde os primeiros treinamentos, os policiais são torturados e ensinados a torturar. Ele gesticula de forma agitada e com indignação quando fala dos impactos psicológicos de seu ofício. Com plena consciência de que a tortura é um crime e de que pode ser punido por suas práticas, ele constata: “Infelizmente é assim”.

Um operário do Estado

Quando fala com veemência, Herwin de Barros empina o rosto com altivez, arregala os olhos e dá a ver os círculos azul-cortantes de sua íris. Assim ele fala sobre a Ditadura militar brasileira e a tortura, embora comece a conversa lembrando de educação, valores familiares, moral. Para ele, que carrega nas mãos um anel dilapidado com o nome de Jesus: “Moral é a coisa mais linda que existe”.

Seu nome não circula como os do delegado Sérgio Paranhos Fleury, do coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, de Carlos Metralha, mas, apesar de pouco conhecido como um agente da repressão política do regime, Herwin carrega a insígnia de ser o homem que deteve José Dirceu com uma arma branca, no 30º Congresso da UNE, em Ibiúna. Ele, que chama a Ditadura de Revolução e que já teve por alcunha Brucutu, diz nunca ter criado qualquer situação de degradação humana ou tortura para presos políticos à época: “Nunca presenciei, nem nunca participei de tortura. Que, é óbvio, deve ter havido, é óbvio. Não vou ser nenhuma vestal e dizer: ‘Não, não houve’”.

Herwin entrou aos 19 anos na Polícia Civil. Trabalhou na Delegacia de Vadiagem, no Setor de Assaltos e Roubos, e também junto ao Departamento de Investigações. Mas é no final de 1963 que se inicia sua aproximação com os militares: “No final de 1963, fomos conclamados, pela cúpula da instituição da Polícia Civil (PC), para que indicássemos elementos para um curso especial que aconteceria na Escola de Polícia, hoje Academia, na Rua São Joaquim, Liberdade. A PC indicou alguns membros – dos quais eu fazia parte”.

Segundo Herwin, a Polícia Marítima, sediada em Santos, a Força Pública, hoje Polícia Militar, e a Guarda Civil do Estado de São Paulo também indicaram elementos. “Após vários testes, físicos, psicológicos, entrevistas pessoais íntimas, foram eliminando elementos para selecionar dez de cada instituição. Para a aprovação neste curso especial, o último teste era o polígrafo, ou detector de mentiras. As perguntas eram desde a sua tenra infância, fatores de trauma, caminhando pela adolescência até chegar ao momento próprio que ali estava”. Ele relata a existência de perguntas filosóficas, ideológicas, de como o interrogado via as questões políticas do Brasil e do mundo – passado esse teste, Herwin foi aprovado.

O curso acontecia em um local especial. Os 40 elementos selecionados iam para a Escola de Polícia, no bairro São Joaquim, para as aulas. “Um loiro, daqueles bem brancos, muito simpático” foi quem ministrou o curso prático acompanhado por um intérprete. Tratava-se de Peter Costello, do Ponto 4 da Escola das Américas (uma instituição mantida pelos EUA que ministra cursos sobre assuntos militares a oficiais de outros países), da CIA (Agência Central de Inteligência dos EUA). “Ele começou a nos ministrar aulas teóricas e depois aulas práticas: como deter multidões; como resistir a um embate físico com mais de um ou dois elementos; como suportar um ataque de bombas de gás lacrimogêneo, inclusive nu, em um recinto fechado. Essas aulas práticas de controle de multidões eram dadas na Academia da Polícia Militar, no Barro Branco. Ali era um campo propício, um descampado, já no início da Serra da Cantareira”.

Herwin afirma ter percebido, então, que se tratava um curso especial ministrado por agentes da CIA para uma mudança política de regime que deveria suceder-se, fato que se confirmou: “O diploma que eu tenho da Escola de Polícia, cujo título é Curso de Segurança Pessoal de Dignitários, data de 14 de março de 1964. A revolução, ou a mudança de regime, deu-se no dia 31 de março. Então, quando veio essa mudança de regime, tinha pelo menos 40 homens especializados em como combater multidões; como dissolver multidões; como interferir em passeatas; como questionar ou interrogar; e saber, com toda a acuidade, ideologias de pessoas que eram contra o regime”. Após o curso, cada um dos elementos retornou a seu local de origem, sendo convocado, quando necessário, ao Deops (Departamento de Ordem Política e Social) para participar de investigações especiais.

Questionado sobre as técnicas de tortura que possam ter sido repassadas aos 40 policiais que estudaram com o representante da Escola das Américas, Herwin responde: “O ser humano não precisa de treinamento para torturar, já tem isso dentro de si. Ninguém ensina tortura a ninguém. Na CIA, nos ensinaram interrogatórios psicológicos. Interrogatórios psicológicos existem, só que também são interrogatórios por vezes vagos. Ninguém tem bola de cristal, só se sabe de uma coisa por informações ou por provas cabais, porque, se você servir uma lagosta a termidor acompanhada de um [vinho] chadornnay, ninguém vai dizer ‘fui eu’. Não é verdade? Ninguém vai dizer. Tem que ter uma forma de conduzir para chegar a uma prova concreta que seja um agravante para dar início ao processo judicial. Se um ser humano quiser torturar outro ser humano, ele cria com tudo que estiver no seu entorno, porque a criatividade para o mal é muito maior que a criatividade para o bem. Isso desde os primórdios”.

Neste momento, o ex-policial civil reitera que nunca praticou tortura: “Eu não vi ninguém ser torturado. Eles dizem ‘eu fui torturado’. Podem ter sido torturados? Podem. Eu, porém, nunca torturei ninguém e nunca vi ninguém ser torturado. Meu trabalho era um trabalho de inteligência, profundo conhecedor da alma humana que era. Eu observava um preso”. Ele segue explicando como elaborava seus “interrogatórios psicológicos”: “A mulher do preso foi libertada antes dele. Tenho uma informação. Esse marido está preso, a mulher foi solta e tem um amigo que está pousando na casa dele. Posso criar uma situação com as informações que tenho. Como fica a cabeça daquele que continua preso?”. Segundo ele, “esse tipo de coisa psicológica é fácil de fazer, sem haver qualquer mal físico”, especialmente se mobilizados sentimentos como o ciúme, a raiva, o desejo pelo poder. “Você põe que houve uma delação do outro. Você usa todas as armas psicológicas que você tem em mãos. As novelas ensinam isso. Você sabe como deixar uma amiguinha sua com ciúme, não sabe?”, provoca o Brucutu.

Esquadrão da Morte: “policiais que eliminavam bandidos comuns”

O homem afirma ter sido amigo de Fleury e então a pergunta emerge: “Como, estando no Deops, o senhor desconheceria as atividades do Esquadrão da Morte?”. “Mas existia Esquadrão da Morte?”, secunda Herwin à repórter. Ao invés de palavras sobre o famoso delegado e sua milícia de torturadores, o advogado enuncia o que seria a outra história do referido Esquadrão. “Esquadrão da Morte. Esse nome foi ventilado, mas não era com relação aos subversivos. Teve muitos colegas meus que fizeram parte, mas era com relação a marginais mesmo, bandidos. Não era com relação a subversivos. O famoso nome Esquadrão da Morte era contra marginais. Muitos marginais, segundo consta em alguns processos, foram mortos graciosamente. Foram tirados da cadeia, de presídios, para serem mortos. Então, marginais! Marginais! Nada com políticos, com subversivos. Eram policiais que eliminavam bandidos comuns”.

A tempo, Herwin adiciona outro detalhe à composição: o Esquadrão da Morte não teria nascido para matar ninguém, mas para “enfrentar a morte” representada por aqueles que ele chama de marginais. “Quando eu estava no setor de assaltos, tinha um programa na TV Tupi que se chamava Diário de São Paulo na TV, cujo âncora era um grande jornalista, Orlando Criscuolo. Pois bem. Teve uma época em que chegaram armamentos novos para nós, no Setor de Assaltos, da Delegacia de Roubos. Eram metralhadoras, muitas armas para combater marginais. Nós fomos para o programa do Orlando Criscuolo para dar uma entrevista e então surgiu o título: ‘Essas armas novas… É um esquadrão da morte?’. Ficou Esquadrão da Morte: não para matar, mas para enfrentar a morte. Esse título realmente foi criado, não sei se tem arquivado. Depois disso, passou a haver mortes, uma série de desmandos por uma parte dos colegas. Degenerou-se o título”.

Sobre os debates que têm movido a opinião pública brasileira no tocante à tortura na Ditadura militar, Herwin cerra fileiras com os representantes das Forças Armadas e políticos de direita, contrários à revisão da Lei de Anistia. “Querem colocar a tortura como crime imprescritível”, o que, em sua opinião, é mostrar-se como “uma pessoa amarga, de ranço”. Brucutu defende a anistia “ampla, geral e irrestrita” não só para os militantes da esquerda que combateram a Ditadura, mas também para os militares que perpetraram a repressão a esses movimentos – ainda que a Constituição Brasileira não considere a tortura um crime passível de anistia. “Se não vamos ficar nisso até as calangas”, reclama.

O ex-agente do Deops é confrontado com o fato de que até hoje há um sem número de denúncias de tortura praticadas por agentes policiais, inclusive da Polícia Civil. “Com todo respeito aos órgãos corregedores, creio que há muita radicalidade na apuração de pseudo-denúncias de agressão ou corrupção. Isso acaba fazendo um policial nem terminar ou começar a fazer operações. Isso refreia o policial”. Ele, que afirma manter intenso contato com a PC, identifica excessos da parte das corregedorias: “Psicologicamente ele é tratado pior que um marginal”. Para Herwin, “é muito raro comprovar uma agressão”, o que o faz não encorajar seus clientes a alegar confissão por meio de tortura: “Confessou sobre coação? Quem viu?”.

Contra a dor que “moraliza”

É justamente contra o tipo de discurso deslindado por Herwin que a socióloga Gorete Marques de Jesus trabalha. Pesquisadora do NEV-USP, ela defendeu este ano a dissertação de mestrado O crime de tortura e a justiça criminal: um estudo dos processos de tortura na cidade de São Paulo.

Produzido junto ao Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da universidade, o estudo constata que, nos processos analisados, há diferença de tratamento judicial nos casos de tortura cometidos por agentes do Estado e por pessoas comuns. Gorete analisou 51 processos do período de 2000 a 2004, somando 203 réus: 181 agentes do estado, 12 civis e 10 presos acusados de torturar outros presos. Apesar da maior incidência de agentes do estado no banco dos réus, a pesquisa indica que apenas 18% desses agentes condenados por crime de tortura; no caso de pessoas comuns, 50% sofreram condenação.

Em consonância com diversas organizações de defesa dos Direitos Humanos, a voz dócil de Gorete situa a Ditadura militar como o período de sedimentação das práticas de tortura no interior das instituições policiais, ao contrário de Herwin. Em entrevista, ela  lembra o uso de moradores de rua como cobaias por torturadores durante a Ditadura e confirma: a impunidade que vale para os torturadores do estado ditatorial continua a viger no estado democrático.

Um problema central para que essa situação se mantenha é, para Gorete, o fato de que existem múltiplas interpretações jurídicas sobre a lei que tipifica a tortura no país. “A Lei da Tortura é uma lei aberta e comum. Qualquer pessoa pode ser acusada desse crime no Brasil. Nas convenções internacionais, geralmente, são apenas agentes do Estado que podem ser condenados pelo crime. A tortura é vista como um crime próprio”, explica ela.

Por aqui, muito depende da interpretação de cada jurista e a legislação internacional gera polêmicas. Em sua pesquisa, apenas um promotor de justiça tinha por referência convenções internacionais, que determinam o caráter de lesa-humanidade ao crime e endereçam-no apenas aos agentes estatais.

A vítima sem crédito

Com base em sua pesquisa, a jovem moça exemplifica: “Quando é um caso de violência doméstica, contra a criança, o que está em foco é o agressor” e o crédito é remetido à vítima. “No caso dos agentes de estado a coisa muda. Quem é o réu? O réu é um agente do Estado”; nesse cenário, a fala da vítima é que é colocada em questão: “Será que ele mesmo não se machucou?”, reproduz Gorete, em referência aos discursos dos operadores de direito. O que esses operadores consideram como tortura é o que importa para a pesquisadora: “Meu foco foi perceber os obstáculos existentes para o julgamento de um caso de tortura”.

No caso dos agentes do estado, Gorete identifica filtros que remontam ao inquérito policial. O próprio laudo que registra se a lesão aconteceu ou não por tortura é passível de questionamento. Argumentos como “foi a própria vítima que se automutilou”, lembra ela, é um recurso muito utilizada pela defesa dos agentes. Há deficiência na produção de provas e um dos casos analisados registra assimetria no número de testemunhas: “A vítima tinha uma; o acusado tinha 14 testemunhas. Os policiais conseguem um monte de testemunhas”.

Entre os agentes mais condenados estão Policiais Militares, carcereiros da Fundação Casa (ex-Febem) e do Complexo Penitenciário Raposo Tavares: “Raramente um Policial Civil é condenado”. Gorete detecta também que os crimes de violência sádica e de maus tratos (quando a violência tem caráter de correção) costumam ser aplicados em lugar da tortura: “A lei não contribui para isso” e, nesse caso, o papel e a interpretação dos operadores de direito é decisivo.

Além disso, a atuação das corregedorias, bem como do Ministério Público é pouco freqüente. Em casos em que as vítimas são acompanhadas, a probabilidade de condenação do réu é maior, destaca a socióloga. É o que aconteceu no caso da Favela Naval, em Diadema, Grande São Paulo: “A Lei [da Tortura] só surgiu depois do caso da Favela Naval. Foi promulgada em seguida, a toque de caixa, sem debate com a sociedade civil”. Segundo ela, o episódio, que chocou a opinião pública, teve acompanhamento da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil e forte atuação do Ministério Público Estadual.

Nesse ponto, a pesquisadora retoma o pensamento da antropóloga Teresa Pires do Rio Caldeira: são características da cultura brasileira “a centralidade do corpo em considerações sobre punição e a aceitação do uso da dor em práticas disciplinares não só contra supostos criminosos, mas também contra todas as categorias de pessoas que supostamente ‘precisam’ de controle especial (crianças, mulheres, pobres e loucos)” [do livro Cidade de muros]. Com um traço forte do sangue, associando tortura e verdade, a dor levada aos “corpos torturáveis” da sociedade ganha significado de autoridade.

“A dor tem uma funcionalidade moral”, analisa a Gorete, registrando que uma das mentalidades marcantes em nossa cultura é a de que o “preso pode apanhar, porque tem que aprender”. Para a moça, a instrumentalização da tortura como forma de alcançar eficiência policial e a definição das periferias como um setor torturável, são indícios, de que a normatização das dessas práticas no interior das instituições brasileiras tem raiz na mal-resolvida e mal-distribuída cidadania que se constituiu no país. Enquanto impera a barganha de direitos, perpetuam-se “resistências seguidas de morte”, execuções sumárias, espancamentos, estupros, choques, afogamentos, “interrogatórios psicológicos”, chantagens: toda a sorte de “demônios” a espreitar a alma humana.

Vídeo:
Documentário sobre a escola das américas

Links relacionados:
ACAT (Ação dos Cristãos para a Abolição da Tortura)
ITTC (Instituto Terra, Trabalho e Cidadania)
ONG Justiça Global
ONG Conectas
NEV-USP (Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo)

Texto recomendado:
Tortura – A História da Repressão Política no Brasil, Antonio Carlos Fon


Inferninho cafetão

Por Raul Teixeira Pinto Montenegro

Correntes douradas, roupas extravagantes e pose de bandido. O cafetão sempre foi figura marcante no imaginário popular e no mundo do entretenimento. O rapper americano Curtis James Jackson III, mais conhecido como 50 Cent, já vendeu mais de 10 milhões de cópias no mundo inteiro apenas com seu álbum de estreia, Get Rich or Die Trying, onde celebra o estilo do vida do P.I.M.P., em sua música de maior sucesso e mesmo nome. “I don’t know what you heard about me / But a bitch can’t get a dollar out of me / No Cadillac, no perms, you can’t see / That I’m a motherfucking P.I.M.P.”, canta 50 Cent. O bandido também dá as caras em Taxi Driver, filme de 1976 dirigido por Martin Scorsese. Nele, Al Pacino é reverenciado como herói depois de meter bala em um sujeito conhecido como Sport, agenciador da prostituta adolescente Iris, interpretada por Jodie Foster.

Estes são apenas dois dos inúmeros exemplos da presença do cafetão na cultura popular. O proxeneta, rufião ou gigolô, cuja variedade de apelidos só é menor do que os das putas que explora, no entanto, é uma espécie em extinção – ao menos na forma como costumamos imaginá-lo.

Entre as garotas de programa, ninguém sabe, ninguém viu. “Cafetão não existe”, sentencia Carmen, conhecida pelas outras meninas da casa onde trabalha, o Cabana Café, no número 590 da Rua Augusta, como “Chaveirinho” – por ser “pequenininha”, entrega uma colega. Prostituta veterana, ela está há 11 anos na vida. Começou com 20, logo depois de chegar a São Paulo, capital. Em Presidente Prudente, de onde veio, estudou até a 6ª série do antigo Ginásio e trabalhou como bóia-fria. Ela afirma que “todas as boates da rua só cobram o uso do quarto. Aqui é R$ 20”.

Evangélica, Chaveirinho curiosamente usa a mesma expressão de outra quenga para explicar por que os lucros da prostituição seguem a regra do easy come, easy go. Também para Maria Luiza, 28 anos, que faz ponto na mesma rua Augusta, há poucos metros de dois dos points boêmios mais famosos da área – a pizzaria Vitrine e a padaria Charm – o dinheiro da atividade não é “abençoado”.

Maria Luiza, puta há  10 anos, não segue nenhuma religião, mas acredita em Deus, “que não deve gostar nada do meu trabalho”. Para ela, o único nome inaceitável para a atividade que exerce é “prima”. “Não sou parente de ninguém”, esbraveja. Ela concorda com Carmen, a Chaveirinho, quanto às razões extraterrenas pelas quais o dinheiro sai tão rápido quanto entra. Mas é só. Apesar de não estar sob a tutela de nenhum proxeneta, Malu, como provavelmente já foi apelidada, admite que algumas casas noturnas cobram taxas das garotas que ali trabalham: “meio a meio. Ou 10%, 20%. Neste tipo de casa eu nunca trabalhei, mas sei que tem”. A garota, que guarda alguma semelhança com a VJ da MTV Penélope Nova, no entanto, não vê a prática com maus olhos. “Se dá segurança, acho que com 10% ou 20% tudo bem. Metade já é demais.”

Duas outras meninas explicam melhor como funcionam as coisas na maioria das casas noturnas da Consolação. Uma delas é Raquel, ou Taiara. A “profissional do sexo”, como prefere ser chamada, adotou o nome de guerra depois de uma troca com sua melhor amiga que, por sua vez, passou a se apresentar como Raquel. De acordo com ela, que afirma trabalhar com “divulgação e locação do corpo”, e Luciana, ex-garota de programa que hoje é barman do puteiro Love Love, as boates ganham com o consumo dos clientes, o aluguel dos quartos e o preço da entrada. “Mas tem coisa que a casa não ganha. Strip a casa não ganha. Eu negocio com o cliente e coloco no meu bolso”, diz Raquel. Muitos puteiros obrigam as prostitutas a só prolongar o papo com o freguês caso este lhes pague uma bebida, mas Luciana não vê problema na estratégia. Ela argumenta que a puta “ganha uma parte do dinheiro da bebida. Pode ser R$ 10, R$ 5 ou R$ 3, dependendo do drinque. Os dois ganham”.

Raquel, ou Taiara, de apenas 19 anos, revela uma exceção: os privês, locais que fazem programas baratos de dia e de noite. “Tem até casa de R$ 10, R$ 20 ou R$ 30. Eles ficam com metade do que a menina ganha, mas pra mim não compensa. Por que eu vou dar metade do meu salário se a pessoa não ficou metade do tempo com o cara que eu aturei?”.

De acordo com o Código Penal brasileiro, no entanto, tanto o esquema dos prives quanto o das casas noturnas são proibidos. Os artigos 228 e 229 afirmam que facilitar a prostituição ou “manter, por conta própria ou de terceiro, estabelecimento em que ocorra exploração sexual, haja, ou não, intuito de lucro ou mediação direta do proprietário ou gerente” pode dar de dois a cinco anos de cadeia caso não haja nenhum agravante. Se houver emprego da violência, a reclusão pode saltar para até dez anos, além da pena correspondente à agressão. A prostituição em si não é crime, pois toda pessoa é dona de seu corpo e pode usá-lo como quiser. Já a indução à satisfação da lascívia (ou luxúria), o rufianismo e o tráfico de pessoas para exploração sexual também são enquadráveis nos artigos 227, 230 e 231, respectivamente.

A lei é mais dura com aqueles que Luciana classifica como “gigolôs” – homens que, ligados a uma mulher por laços de parentesco, obrigam-na a vender o corpo. Para estes, a pena é aumentada em 50%.

O delegado titular do 4º  Distrito Policial, João Roberto Pacífico – o Dr. Pacífico, como é respeitosamente chamado pelos demais tiras – atesta que realiza ações, principalmente de prevenção no combate à exploração do lenocínio na região da Consolação. “A polícia prende, desde que seja comprovado. Antigamente havia a delegacia de costumes que trabalhava em cima da prostituição. Hoje, a corporação realiza rondas constantemente.” Mas aponta uma dificuldade para o combate: “não está escrito na testa da mulher que ela é uma prostituta, e o que caracteriza a prostituição é a habitualidade”. Este pode ser o maior problema para a polícia, pois as sindicâncias com diversas idas aos locais suspeitos foram consideradas abuso de autoridade pelo Judiciário.

O Dr. Pacífico, com a autoridade de quem é delegado desde 1969 – sem contar os anos como escrivão –, explica que outro empecilho é que até se “fecha uma casa noturna hoje, outra amanhã. Mas é um volume muito grande [para a força policial combater]”. Luciana, a barman da Love Love, de sua parte, afirma que a casa nunca teve nenhum tipo de problema com a lei. “A polícia não entra aqui nem pra pegar coxinha ou quibe.”

Segundo Pacífico, a presença das garotas de programa ainda favorece a ocorrência de outros tipos de crimes. “Aqui nos barzinhos sempre tem confusão. E olha que hoje melhorou muito em relação há 30 anos atrás. Era pior. O grande problema eram os travestis. Era a área dos travestis.” E continua: “a prostituição degrada a região. No passado, os grandes crimes que aconteceram se davam nos prostíbulos. Agora, dentro de um ambiente assim corre droga, com certeza. Em todo boteco você vai encontrar as prostitutas bebendo, fumando e se drogando”.

Pelo menos de acordo com Luciana, as duas coisas realmente podem ter alguma relação. “Todas as casas têm uma barraqueira – a gente conversa ou manda embora. Brigas acontecem direto, de tapa mesmo, mas nós separamos. Já chegamos até a expulsar menina.” Ela mesma só descobriu as vantagens “da vida” através de outros contatos no mundo do crime. “Eu era garçonete num bar e tinha um moço que perguntou pro dono se podia fazer uma banca lá. Eu achei que eu ia ganhar mais, aí parei de ser garçonete e fui pro bicho.” Foi através de amigos no jogo que ela soube que ser puta poderia render um dinheiro ainda maior. Daí para o ingresso no novo ramo foi um pulo.

Com ou sem relação com a criminalidade, a única coisa certa é que as garotas envolvidas na prostituição vivem perigos dignos de filmes de ação. Maria Luiza, a menina que se parece com apresentadora de videoclipe, conta que passou por situações para lá de cabeludas durante o expediente. “Tem cliente que saca a arma e quer parar em terreno baldio com você. Já tive que puxar volante e até pular do carro pra me safar”.

A cena é bastante rotineira. Letícia hoje se prostitui a céu aberto na Rua Augusta, mas já esteve na equipe de acompanhantes de puteiros luxuosos como o Bahamas e o Café Photo, ambos em São Paulo. Ela trocou os programas caros dos locais pelos maiores riscos de trabalhar no clima “pesado” das ruas: “já tentaram me seqüestrar, já pulei do carro na Radial Leste e já apanhei. Uma vez tentaram me estuprar, mas o ato não foi consumado. A gente sempre acompanha casos de meninas que foram estupradas, espancadas ou assaltadas.” Então quais são as vantagens? Financeiras, ora. “Aqui fora o programa é R$ 150, enquanto nas casas de luxo ele nunca sai por menos de R$ 300. Em compensação, são muitas mulheres lá. Você faz um programa num valor alto e pode ficar dois, três ou quatro dias sem trabalhar. Na rua você faz pelo menos um por dia e uma garota que se porta um pouquinho melhor acaba faturando uma grana legal”, diz.

Outro medo comum a todas elas é o de clientes muito drogados. Estes, no entanto, também podem render histórias engraçadas. “Já teve um que cismou que o colchão estava pegando fogo e quis me colocar pelada para fora do hotel”, ri Maria Luiza. Raquel, aquela que se apresenta como Taiara, vê pelo menos uma vantagem nestes casos: “não sei se você sabe, mas pelo que eu sei – e até hoje não teve ninguém pra contradizer minha tese – todo homem que cheira não consegue ficar de pau duro”. Ela adora. “Pra mim é muito melhor quando eu não preciso fazer nada.”

Com todos estes perigos, não é de se pensar que nas horas de aperto seja melhor que as putas tenham um cafetão por perto para protegê-las? Letícia, que, como todas as demais, alegou jamais ter estado nas mãos de um rufião, tem certeza que não. “Em alguns lugares na Augusta ainda têm esse esquema de cafetão. O cara cuida da garota, cuida do lugar e você tem que pagar [a ele] 20 reais por programa. Ele simplesmente te permite ficar num lugar que ele diz que é dele. Mas não compensa a proteção que o cafetão vai dar porque ela vale enquanto eu estiver ali na frente dele. A partir do momento que eu entrar no carro acabou.”

Apesar de possuírem visões opostas das coisas do mundo, as prostitutas e o delegado concordam em um ponto: os costumes estão mudando, e com eles a vida nos inferninhos de São Paulo. Dr. Pacífico acredita que a prostituição hoje é mais tolerada porque “perderam-se os valores” e “as tradições daqueles legados que nos deixaram nossos antepassados”.

Para a barman Luciana, o aumento da permissividade pode não ser de todo mal. Ela alimenta a esperança de no futuro contar ao caçula e às duas filhas mais velhas (de 7, 9 e 13 anos, respectivamente) que um dia já foi puta. “Hoje em dia as coisas estão tão modernas, ninguém liga mais pra nada. Se fosse em outros tempos – na época da minha mãe – eu não contaria. Mas agora acho que eu conto quando eles estiveram maiores.”

Com as prostitutas saindo do submundo, também está sumindo a presença do cafetão. “A cafetinagem ficou muito pra antigamente, quando fazer programa não era uma coisa muito comum, quando a sociedade encobria bastante”, explica Letícia. O proxeneta quase não existe mais “naqueles moldes de antigamente, quando era localizado”, concorda Dr. Pacífico.

A figura em voga no mundinho agora é a do ‘cafetão 2.0’. O delegado conta que o rufião moderno atua de modo muito mais sofisticado que os pimps cantados pelo hip-hop e fixados no imaginário popular. “Hoje você os encontra nos hotéis de luxo, não só no baixo clero da prostituição. Estão aí empresas que trabalham na base dos folhetos e books as fotografias das mulheres. Eles acabam conduzindo a uma grande máfia da exploração do lenocínio que envolve até porteiros de flats.”

Ainda segundo o delegado, existem também “aqueles que fazem o tráfico de mulheres para outros países. É outra vez a figura do cafetão”. Mas a explicação não vem sem o julgamento do velho homem da lei: “eles até iludem oferecendo emprego, dizendo que é para trabalhar. Mas na realidade a maioria das mulheres sabe que vai lá pra mercadejar o corpo”. Carmen “Chaveirinho”, que afirmou que cafetinagem “não existe”, está entre elas. Ela narra as aventuras de sua viagem à Espanha, onde correu muito da imigração e se viu no meio de uma briga judicial. “Eu vou ter que voltar lá para prestar depoimento em um processo que a casa onde eu trabalhei moveu contra uma rede de TV, porque o canal me filmou com uma câmera escondida enquanto eu trabalhava na boate”, alega.

De acordo com Pacífico, a cafetinagem contemporânea é uma grande empresa que não só aumentou a abrangência de suas ações, mas modernizou os métodos utilizados. “Hoje por telefone ou internet você chama. É só ver a foto no book e mandar buscar a garota de programa”, revela Pacífico. “A prostituição sempre existiu e vai continuar existindo, apenas em outros moldes”, finaliza.

As putas que rodam a bolsinha nas esquinas da Rua Augusta já adotaram uma nova forma de organização para se protegerem dos clientes violentos e dos poucos cafetões old school que restaram. São as cooperativas do sexo. “No meu ponto trabalhamos eu e mais seis. A gente cuida pra não ter meninas diferentes, nem as drogadas ou que roubem”, diz Letícia. As mais novas são colocadas junto das mais velhas, para que as mais antigas passem o ponto às novas gerações.

Para se começar no ramo, tudo depende da educação e humildade. “Você chegar do nada e querer parar fica complicado. Mas conversando com as meninas você vai ganhando seu espaço. Fica de um lado que não tem ninguém… Os pontos vão se definindo assim”, diz Maria Luiza.

Foi exatamente deste jeito que Letícia começou a atender ao ar livre. Ela trabalhava numa boate e foi “aos pouquinhos fazendo amizade com as meninas que estavam na rua”. “Uma nova menina precisa chegar e falar ‘estou precisando trabalhar, será que eu posso ficar aqui?’. Fazer tudo numa boa e trabalhar unida. Todos nós trabalhamos unidas. A gente sempre expele aquelas pessoas que possam trazer alguma desunião”, resume.


Doze horas e meia na 25

Por Carlos Giffoni

Todo paulistano já visitou alguma vez e muito brasileiro conhece de nome. A rua não é pequena, mas também não é grande. A concentração de pessoas em dias de semana, em vésperas de feriado, do Carnaval ao Natal, assusta. Muita gente foge dali. Muita gente sabe que aquele é o melhor lugar para resolver os seus problemas. Encontra-se de tudo. De tudo mesmo. Encontra-se todo o tipo de gente, inclusive gringo. Ô, como tem gringo. Não no sentido turista da palavra, mas no sentido internacional mesmo. Tem peruano e boliviano, tem chinês e japonês, tem americano e árabe, tem até alemão perdido. Em média, cerca de 500 mil pessoas passam todos os dias por ali. No final do ano, esse número chega a 1,2 milhão. A Rua 25 de Março, localizada no centro de comércio popular em São Paulo, é considerada por muitos um inferno – principalmente em dias de sol! –, mas esse inferno deve ter um ímã para gente, porque (bem) freqüentado, ele é.

Manhã

Chego no meu destino às 7h30 do dia 2 de dezembro, uma quarta-feira. Para mim, seriam apenas mais algumas horas de entrevistas com pessoas que, por algum motivo, estavam no mesmo lugar. Enfim, nada de especial. Uma série de surpresas mudou completamente o rumo que eu – e esta reportagem – tomamos. Meu primeiro passo é abordar Márcia, 42 anos, que tinha acabado de chegar e montava sua barraquinha de lingerie. Ela me conta que trabalha na rua há quatro anos. Os biquínis são o seu carro-chefe. “Venho com duzentos quilos de mercadoria por dia numa perua, do Brás até aqui.” Seu lucro é de 40% sobre as peças, e no final de ano ela chega a vender até R$ 1.700,00 por dia. Faça as contas.

Em seguida, acho graça em ver a loja do Mc Donald’s aberta (desde as 7h). Cliente no horário, os funcionários garantem: tem. Cada caixa registra em média 1.700 pedidos por dia – contando que o Mc fica aberto até as 19h, isto resulta em 140 pedidos por caixa, por hora, ou 2,3 pedidos por caixa, por minuto. Ou seja, cerca de 25 segundos para cada pedido. São três ou quatro caixas funcionando simultaneamente. Haja fôlego. Gustavo, 22, é um dos gerentes. Hoje responsável por 63 funcionários, ele está na empresa há seis anos. Na 25, há um mês. Acabou de ser promovido. Ele acordou às 3h30, em Cidade Tiradentes, na zona leste da capital paulista, para sair de casa às 5h30 e abrir a loja. Ali fica até as 16h30, quando começa a arrumar suas coisas para ir à faculdade. Gustavo estuda Administração na Uninove, à noite. Depois da faculdade, casa. Dormir? “Vou dormir depois de meia-noite e meia.” Você dorme três horas por noite? – eu pergunto. “É, a gente se acostuma.”

Como já  é de costume para quem está na rua todos os dias, uma aglomeração começa a se formar. O barulho de apitos ecoa na cabeça de quem passa. O major Tamoshino, 49, que é responsável por mais de cem policiais na região, explica: “Os camelôs queriam causar tumulto, mas já estamos conversando com eles”. Ele acrescenta que, além das manifestações dos ambulantes, ocorre muita apreensão de material ilegal e, principalmente, furto na 25 de Março. Veja o principal porquê, segundo ele: “Aqui tem muito chinês que anda cheio de dinheiro no bolso. Já que estão irregulares no país, eles não podem abrir conta no banco. Quando um é roubado, nem faz a ocorrência, porque senão ele é que vai para a cadeia. Muito dólar rola aqui, isto atrai a criminalidade”. E claro, o major não deixa de citar as donas que saem com dinheiro e cartões nas mãos de loja em loja, ou barraquinha em barraquinha. Durante esta conversa, escuto um policial militar falando para um ambulante: “Vai trabalhar em outro lugar. Aqui vocês não podem mais. Nós também queremos tranqüilidade”.

Vamos aos fatos – explicados por uma vendedora ambulante que estava no meio da discussão: a Guarda Civil Metropolitana era a responsável pela fiscalização na Rua 25 de Março há muito tempo. Evidentemente, acordos entre os guardas e os ambulantes já tinham sido feitos. Vez ou outra, quando a Prefeitura mandava ou os lojistas da região exigiam, a Guarda mostrava serviço. O resultado desse serviço, os paulistanos acompanhavam no noticiário (confusão, confronto e pancadaria). Aquela quarta-feira era a primeira em que a tal fiscalização passava a ser responsabilidade da Polícia Militar. Isto, em qualquer profissão: o primeiro dia é dia de mostrar serviço. Os policiais não faziam diferente, impedindo os camelôs de vender suas mercadorias.

Quem me contou tudo isso foi Telma, 30. A primeira frase que a escuto falar, dirigindo-se ao major Tamoshino, foi: “Mas e o leite das crianças?”. A segunda e a terceira, foram: “Assistência e emprego, ninguém dá. A gente vem trabalhar e ainda querem nos impedir”. Telma trabalhava como cozinheira em shopping, mas diz que desistiu do emprego porque não ganhava o suficiente para sustentar a casa. Então, passou a vender bijouterias na 25 de Março, como ambulante. A culpa de tudo aquilo, segundo ela, era do Executivo e dos lojistas: “Político só lembra de pobre em época de eleição. A gente entende a profissão dos policiais, mas eles podiam liberar ao menos a feirinha na rua. Quem não deixa são os donos das lojas”. “É só a gente quebrar tudo”, grita uma mulher que escutava a nossa conversa. Quando pergunto a Telma em quem ela votou para o cargo de prefeito nas última eleições, ela responde: “Não votei em ninguém, meu voto é da Bahia”, com o sotaque já completamente disfarçado pelos anos na cidade de São Paulo.

Telma tentou me levar para outros pontos da região em que policiais e camelôs discutiam. Vi que ela era uma das líderes. Mas aquilo não parecia que duraria muito. Vários mini-grupos de ambulantes, com cinco ou seis pessoas, formavam-se em pontos diferentes da 25 de Março. Tudo o que eles faziam era discutir, opinar, contar a própria história e como tinham chegado ali, mas não parecia ser mais do que isso. Então, decidi continuar minha caça a entrevistas com outros públicos na rua. Fui a uma lanchonete, na esquina da 25 com a Rua Basílio Jafet, onde Carla, 34, e Fabiana, 29, vizinhas, tomavam café da manhã: suco de laranja e esfiha de carne para as duas. “Viemos comprar pisca-pisca, Papai Noel e outros enfeites de Natal, mas a árvore já está montada”, conta Carla. “De repente, compro uma bolsinha também”, acrescenta. Elas, que chegaram às 9h20, pretendiam ficar até o meio-dia. “Estamos carregando as baterias para encarar isso aí”, diz Fabiana, referindo-se ao movimento que àquele horário já se fazia ver na rua. Quem fez o suco que as duas amigas bebiam foi Eduardo, 22. Aquele era o seu primeiro dia de trabalho na lanchonete. Ele chegou às 6h; para isso, saiu de sua casa, no bairro do Ipiranga, na zona sul de São Paulo, às 5h. “Minha primeira função foi espremer o bagaço da laranja, mas acho que vão me dar outras coisas para fazer.” Até as 9h30, ele tinha espremido cerca de 300 laranjas, ou 600 metades de laranja.

Da lanchonete, vou à maior loja da 25. Na Armarinhos Fernando, o ventilador estava em promoção. O gerente, na porta, manda descer mais. Lá, oito bolas vermelhas para enfeitar árvore de Natal saíam por R$ 5,10. A boneca Maria Chiquinha “com cheiro de brincadeira” custava R$ 19,90.  E uma mangueira de 10 metros em PVC flexível para uso geral podia ser comprada por R$ 9,20. Informações não tão úteis à parte, às 10h20 ainda se ouvia o apitaço dos ambulantes na rua.

A poucos metros dali, vejo uma vendedora se aventurar entre pedras e peças diferentes na desmontagem de uma vitrine. Antônia, 28, na verdade, não é vendedora, mas vitrinista. Aquela é a sua profissão. Ela insiste que seria melhor para a minha matéria se eu conversasse com uma das vendedoras da loja. Eu digo que a sua história me bastava. Antônia já viu muita confusão na 25, pois tem vários clientes na rua. Enquanto conversa comigo, ela deixa várias pedras da vitrine que desmontava caír, mas diz para eu não me preocupar em pegá-las porque era normal. O segurança da loja começa a abaixar as portas com a aproximação dos ambulantes, que tinham crescido em número e faziam cada vez mais barulho. Ela me explica: “Geralmente, eles fecham as lojas com medo dos ataques. É comum jogarem ovos, aí fica aquele cheiro ruim”. O trabalho que Antônia ia colocar no lugar da vitrine que desmontava era para o Carnaval – já em dezembro. Ela, que fez um curso no Senac para exercer essa profissão, tinha começado o serviço quatro dias antes e pretendia acabá-lo ainda na quarta-feira.

Vejo que a manifestação não foi a lugar nenhum e saio da loja. Logo na calçada, em frente, encontro João, 42. Ele trabalha na 25 há dez anos, sempre com o “Pegue Ball” – a pessoa A joga uma bolinha para a pessoa B que pega essa bolinha com uma mini-bandeja acoplada à sua mão. O jogo é mais simples do que parece. Cada par custa R$ 12. João paga R$ 5 ao seu fornecedor. “Começo a trabalhar às 9h e vou até as 17h, isso quando a fiscalização deixa.” O movimento dos ambulantes que protestavam pela presença da PM se aproxima do local onde estávamos e João para de jogar o Pegue Ball com o seu parceiro. “Eles podem achar ruim de a gente não participar. Eu sempre participo e nunca resolve nada. Só queima o filme da gente.” Quando eles se afastam, o jogo recomeça, com a abordagem aos clientes: “Aceito dólar, euro e conta atrasada. É o Pegue Ball, R$ 12”.

Outra ambulante que não participava do apitaço era Celma, 27. Ela trabalha na 25 de Março há dois anos. Já vendeu cesto de roupas, “Bateu, colou” – o mesmo “Pegue Ball” do João –, e agora sua mercadoria é o ímã chinês (dois ímãs de formato cilíndrico que, jogados para o alto, produzem um barulho causado pela atração, choque e repulsão entre eles). Um par custa R$ 3, dois, R$ 5. Este Natal está fraco para Celma, que tem vendido cerca de 100 pares por dia. Em 2008, ela vendia 200. Mais uma vez, os manifestantes se aproximam de onde eu estava, com os apitos, que denunciavam sua movimentação. Celma desmonta o estande feito de papelão e os espera passar. “Faço isso mais ou menos oito vezes por dia, ou por causa dos camelôs ou por causa da Guarda.” Eu peço a ela que me demonstre como faz para vender os ímãs, que, aparentemente, não têm atrativo nenhum: “Ímã chinês, vem dar uma olhadinha, cliente. Se cair no chão, não quebra. É difícil encostar e não levar. O ímã é diferente. Serve também para segurar alfinete, moeda e recado na geladeira.” Segundo ela, o barulho que os ímãs fazem incentiva a compra. Celma para de me dar atenção e diz: “Eu acho que eles estão vindo”. Ela desmonta mais uma vez a barraca improvisada – e assim foi durante todo o dia.

“Ão, ão, ão, polícia é pra ladrão”, gritavam os camelôs às 10h30.

Bem, o que veio a seguir durou muitas horas, mas parece que se passou em minutos. Daquele momento em diante, a Rua 25 de Março, no centro de São Paulo, virou um cenário de guerra. Ou o inferno, como muitos preferiam classificar.

Por volta das 10h40, a multidão corria na rua fugindo das bombas que os policias jogavam. Os PMs andavam pela 25 para espalhar os grupos de manifestantes e jogavam bombas de gás lacrimogênio. À medida que caminhavam, não economizavam no gás de pimenta que iam deixando para trás. Eu entro numa loja frações de segundo antes do segurança abaixar as portas. Lá dentro, vejo uma senhora que tinha corrido na minha frente para dentro do estabelecimento. Vendo-me com bloquinho e caneta nas mãos, ela me diz: “Agora não é mesmo a hora”. Cerca de 30 pessoas estavam presas dentro da loja, de 200 m2. Vejo mãe e filha conversando, como se nada estivesse acontecendo, decidindo qual seria o melhor enfeite para a árvore de Natal. “Mãe, este, para por na árvore lá fora, não fica bom?”, diz Nádia, 30. Ela conta que sempre acompanha a mãe porque na 25 encontra de tudo também para a sua casa, e mais barato. “Até agora gastamos R$ 300 em decoração de Natal, mas esta é a última loja. Estamos aqui há duas horas e meia. Só não fomos embora quando a confusão começou porque fecharam as portas.”

Helayne Cortez, 27, repórter do SBT Brasil há oito meses, aborda, com microfone em mãos, pessoas que passam na rua depois da confusão. Ela, como eu, não esperava que sua matéria fosse se transformar naquilo: “Cheguei aqui às 8h para fazer uma reportagem sobre funcionários temporários e agora estou cobrindo o factual. Fico até acabar”. Meio assustada, ela diz: “Levei gás de pimenta na cara!”. Eu também, Helayne.

Às 11h, minha unha, no tênis apertado, quebrou e começou a doer muito. Àquela altura, Folha de S. Paulo, Record, SBT, RedeTV, Band e Mix TV já estavam na 25 de Março. Eu cheguei antes de todo mundo. Diz-se no jornalismo que o bom profissional tem que contar com a sorte: estar no lugar certo, na hora certa. Imagino que seja assim em várias outras profissões. Enquanto eu procurava quem mais da imprensa estava por ali, um transeunte passa e diz em voz alta: “Mundo cão. Deus me livre”. Deus nos livre.

Antes do meio-dia eu já tinha muita fome e optei por fast-food. Era necessário que fosse “fast”, porque eu não podia correr o risco de perder nada importante. Volto ao Mc Donald’s, peço minha promoção do Big Mac que custa os usuais R$ 12,50 e subo ao segundo andar para me sentar. Durante a refeição, eu – e todo mundo que estava perto de mim – reparo em três jovens mochileiros que se comunicavam em alemão. Depois de comer, puxo assunto (em inglês) com Kai, 25, Jakob, 25, e Philipp, 27. Kai me conta que eles estão em São Paulo de passagem. Na verdade, os jovens de Frankfurt moraram um ano em Santiago, Chile, estudando Engenharia Mecânica e Administração de Negócios. Agora, antes de voltar para casa, foram conhecer o Brasil. Entenda-se por Brasil o Rio de Janeiro. Na ida, desceram do avião em São Paulo e passaram uma noite na região da Avenida Paulista. No Rio, conheceram a capital, Ilha Grande, Búzios e outras cidades da costa. Philipp me conta que o Natal passarão na Patagônia, já que a viagem antes da volta para casa ainda durará três meses. Eu pergunto se eles tinham escutado alguma coisa sobre a Rua 25 de Março e eles, ao negarem, perguntam em resposta o que tinha acontecido no dia 25 de março. Envergonhado, digo que não sei, mas que não era nada muito importante. [Ao chegar em casa, procurei na internet e vi que era importante, sim. Neste dia, em 1824, o imperador Dom Pedro I outorgou a 1ª Constituição do país.] Explico a situação dos camelôs aos alemães e encerro com uma pergunta: “What about the Brazilian girls?”, Philipp responde, em nome do grupo: “We’ve met some, but nothing serious”.

Tarde

Como se não fosse suficiente confronto entre camelôs e policiais militares até  agora, que não tinha acabado, apenas diminuído de intensidade – e gravidade, com menos bombas –, às 12h02 um homem, sentado na janela do sétimo andar do prédio de número 817 da 25 de Março, chama a atenção de quem passa por ali. Para mim, estava claro que ele só tentava arrumar alguma coisa na janela, mas a suspeita de tentativa de suicídio fez com que todo mundo fique olhando para cima. As pessoas gritavam “Puuuuuuuula”. Em menos de 15 minutos, mais de 300 homens, mulheres e crianças miravam o rapaz na janela, foi então que eu me dei conta de que devia, realmente, ser uma tentativa de suicídio. Algumas frases que escuto nos momentos de apreensão com o homem pendurado na janela: “Pula logo, infeliz. É uma ajuda moral, ué, já que ele quer pular, pula”; “Depois que ele se jogar a gente volta” – diz uma mãe para a sua filha, que não tinha mais de sete anos; “Vem pra cá, mano. Você vai ver o cara se estourar no chão” – jovem falando ao telefone; “Tá mó inferno aqui. Tem briga de polícia com camelô, tem um cara querendo pular do prédio” – também ao telefone. Chego a me sentir mal por achar graça na falta de sensibilidade da população. Mas nem tenho tempo para isso. Ao meu lado, uma contagem regressiva foi iniciada para incentivar o suicídio daquele que tinha conquistado seus 15 minutos de fama. Na verdade, uma hora e quarenta e dois minutos de fama, porque às 13h46 os bombeiros resgataram o pretensioso suicida. Confesso que durante esse tempo dei uma escapada ao Mercado Municipal e conversei com outras pessoas na 25, mas a situação permanecia exatamente a mesma quando voltei para a frente do número 817.

Na agência 0084-1 do Bradesco na 25 de Março conheci Sandra, 37. Ela trabalha ali como atendente de contas há quatro anos e foi a primeira pessoa que abriu o jogo comigo: “Este lugar é um inferno. A rua é muito tumultuada, suja. Não gosto de comer aqui, tenho nojo. As pessoas são mal educadas, principalmente os lojistas que têm dinheiro, porque eles acham que dinheiro é poder. Nem freqüento o comércio, apesar de saber que tem coisa barata e que vale a pena”. Todos os dias, antes de voltar para casa, Sandra para no Rei do Mate da estação de metrô São Bento para tomar um café: “É para passar o estresse”.

Por volta das 14h, o cenário de guerra voltou a tomar conta da rua. Criativos, os manifestantes jogam cocos do alto da Ladeira Porto Geral, que atingem os policiais localizados lá embaixo, na 25 de Março. Grupos atiram ovos nas vitrines das lojas. Focos de incêndio aparecem em vários pontos da rua. Dá-lhe gás lacrimogênio e de pimenta na nossa cara. Duas horas depois de vai-e-vem no confronto, começa a chover. Os lojistas não sabiam o que fazer. Às vezes, por minutosm, parecia que a paz tinha voltado, mas isto durava minutos. Assim, abre, fecha, sobe e desce porta em toda a rua. O batalhão de choque da PM perdeu o controle: balas de borracha eram atiradas contra a população – e os camelôs se misturavam no meio de clientes da 25 e de pedestres.

Maria Aparecida, 59, pagava no caixa da Armarinhos Fernando as compras que tinha feito. Pergunto se não tem medo de toda a situação e ela responde: “Infelizmente, eu vim hoje para a 25. Nunca tinha passado por isso. Via na televisão, mas não imaginava que podia acontecer comigo. Minha irmã e eu viemos de São Bernardo para comprar presentes para os netos. Eu tive vontade de ir embora, só não fomos porque ela é teimosa. É muito triste. Jogaram spray de pimenta na minha cara, senti tudo queimando. Não quero voltar mais aqui neste ano”. Ao nos despedirmos, ela me diz: “Você vai dar um lindo repórter” – espero que sim, dona Maria Aparecida. Sorri e desejei boa volta para a casa.

Noite

Às 17h, os vendedores de água foram embora, porque seus isopores tinham se esvaziado. A ocasião (pimenta no olho de todo mundo e muita tosse devido aos gases) contribuiu, e eles não deixaram de usar isso ao seu favor: ‘Pra garganta com gosto de pimenta, olha a água gelada!’.

Às 17h30, alguns lojistas se cansaram do jogo de gato e rato, ou melhor, do fecha e abre das portas de acordo com a movimentação dos manifestantes na rua e as abaixaram de vez.

Às 18h, muitas lojas chegavam ao fim do expediente, no seu horário normal. A chuva e a polícia na rua fizeram com que alguns lojistas antecipassem o fim do dia comercial.

Às 19h, os últimos moicanos se despediam dos clientes que ainda passavam pela região.

Às 20h, a 25 de Março se passava por qualquer outra rua comercial da cidade. O lixo já tinha sido recolhido e o fogo, controlado. À parte os resquícios de ovos em algumas vitrines, não dava para imaginar o que tinha se passado ali nas últimas doze horas e meia.

E às 20h15, depois de 15 minutos sentado nos degraus da entrada do Bradesco esperando para ver se algo ainda acontecia, este repórter deu fim ao seu expediente.

Balanço do dia: eu vi muitas pessoas de todos os tipos, diferentes gostos, estilos, e que me disseram de tudo, menos o que eu queria ouvir. Não encontrei ninguém que só fosse elogios à 25. Certamente, a culpa é toda minha, pois em algum lugar haveria de se encontrar  alguém que me dissesse: “Este lugar é o paraíso”.

No dia seguinte àquela quarta-feira, mais protesto. Desta vez, sem tentativas de suicídio.


Canções para odiar o Senhor

Batismo pelo fogo
Sinta a ira das chamas implacáveis de Satã
Desejos incrédulos
Quando deus está  perdido e em seu planeta o fogo do inferno reina

Por Alexandre Soares e Rodrigo Barros

Não bastariam o vocal gutural, as guitarras pesadas e o visual agressivo com pintura no rosto e roupas extravagantes, era necessário uma pitada a mais de maldade. É aí que entram as letras anticristãs do estilo mais macabro do já obscuro heavy metal: o Black Metal. Os quatro primeiros versos de Baptism by Fire, da banda sueca Marduk, são um exemplo clássico disso e de quanto demônio e inferno são figuras freqüentes nesse estilo de metal extremo.

Na verdade, é  bem provável que a oposição às doutrinas cristãs tenha vindo antes mesmo de todo o resto – esta, aliás, é comummente considerado  o único traço comum a todos que tocam Black Metal. As bandas consideradas precursoras do estilo, como Venom, Hellhammer e Celtic Frost datam do começo da década de 1980 e são inspiradas em grupos de Heavy Metal como como Black Sabbath e Iron Maiden. O que os fãs e músicos de Black Metal fizeram foi transformar a oposição às doutrinas cristãs num dos objetos centrais de sua “filosofia”, valendo-se de elementos que vão do paganismo ao satanismo e até à filosofia para expor suas ideias pela música.

A história do estilo é bem controversa, principalmente na década de 1990, quando ele alcançou os países escandinavos com mais força. A denominação do gênero está ligado ao segundo disco da banda inglesa Venom, Black Metal, de 1982, e que está muito mais para o metal tradicional do que para o estilo que o batiza. Ainda na ativa, o leque de bandas influenciadas pelos ingleses chegam a grupos que se tornaram muito mais famosos que os próprios como o Slayer e o Metallica, que chegou a abrir algumas apresentações para o Venom no início da carreira.

A notoriedade desse movimento chegou apenas com sua popularização nos países nórdicos, no começo dos anos 90, quando a imprensa mundial começou a dar maior atenção ao gênero. O Black Metal tem uma relação que, não raramente, é considerada especial com esses países justamente pela singularidade das religiões locais e sua vocação para se opor ao cristianismo. Ai, mistura-se também o orgulho nacionalista e o antagonismo ao cristianismo para formar um estilo peculiar de adoradores do estilo. As páginas ocupadas, porém, não eram as de arte e cultura, mas sim o noticiário internacional ligado à política e violência.

O primeiro caso aconteceu em 1991 quando Per Yngve “Dead” Ohlin, vocalista da banda norueguesa Mayhem, suicidou-se com um tiro de espingarda na cabeça. O guitarrista da banda, Øystein “Euronymous” Aarseth, fotografou o cadáver de Dead e a imagem se tornou a capa do álbum seguinte do Mayhem, “Dawn of the Black Hearts”. Entre as lendas que circundam este caso constam a história de que Euronymous teria comido partes do cérebro de Dead e que ele teria feito colares com fragmentos do crânio de seu companheiro de banda.

Euronymous se envolveria num outro caso de morte, desta vez como vítima. Aarseth foi assassinado a facadas por Varg Vikernes, na época líder de outra banda de Black Metal, o Burzum. Os dois faziam parte de um grupo chamado Black Metal Inner Circle, algo como círculo interno do Black Metal, cujo principal objetivo era lutar contra o cristianismo na Noruega. O principal ato promovido pelos membros do Círculo era o incêndio de igrejas em todo país, algumas com mais de 200 anos. Varg e Euronymous divergiam quanto ao satanismo, o líder do Burzum não aceitava a imagem satânica, o oposto de Aarseth, adorador do demônio.

Quanto a Varg, ele foi condenado a 21 anos de prisão e desde maio de 2009 cumpre liberdade condicional. Junto com sua liberdade, o Burzum deve voltar à ativa. O Black Metal Inner Circle, por sua vez, perdeu força e os atos contra igrejas nos países nórdicos – pelo menos ligados à esse grupo – minguaram.

Com a virada do século, o Black Metal, como qualquer gênero do rock, acabou se subdividindo e criando diversas vertentes conforme ele foi se popularizando. Pode-se dizer até que a única característica inerente ao gênero é o anticristianismo. Desde o início, os temas ultrapassavam o satanismo e o anticristianismo. A morte, a guerra, a misantropia (aversão ao ser humano) e o paganismo são temas muito freqüentes nas letras. No caso escandinavo, a mitologia viking se faz bastante presente. O importante não seria, necessariamente, cultuar o demônio ou o inferno, mas sim fazê-lo caso a banda julgue que esta é a rebelião máxima aos dogmas cristãos.

Junto com a popularização do gênero, veio também o profissionalismo e o sucesso para alguns grupos, principalmente na escandinávia. As novas bandas incluíram no conjunto vocal gutural e cozinha rápida influências da música clássica e, algumas vezes, teclados e um segundo vocal lírico, deixando a música mais limpa. Hoje em dia, bandas como Dimmu Borgir e Cradle of Filth tocam para grandes públicos em turnês mundiais.

A cabeça dos fãs

Mas o que pensa um fã de tudo isso? Ele se comporta como os músicos que admira? Na verdade, ao menos no Brasil, o Black Metal não é levado tão a sério e a admiração vem mais da afinidade com o som.

É o que explica Thiago Silva, estudante de história e fã do gênero desde adolescência. “Ah, antes eu até tinha essa vibe meio rebelde, mas não dou mais bola não. Acho meio escroto esse negócio de ritual e tal, minha galera não é muito disso não. Gosto do ‘dark side’, mas acho ridículo ficar matando ovelha pra oferecer pra satã. Essa porra é meio paranóia. Não dou muita bola pra ideologia da coisa, gosto do som”, diz ele.

Na entrevista, Thiago – filho de católicos que “não aguentam que seu filho escute música de satã” – usava roupas que aparentemente fogem ao radicalismo. Ele não trajava preto, nem camisas com caveiras e elementos sinistros, mas uma camiseta branca e jeans. Ele justifica sua escolha pela pressão social. ” Tem que se sentir bem tá ligado? Lógico que não vou assim [com roupas ligadas à "tribo" do Black Metal] em todos os lugares, mas foda-se, me visto como eu quero. Só tenho que ter noção pra não virar tipo um palhaço. Tudo tem seu lugar”, conta ele, exibindo com orgulho fotos dele com amigos em um show recente em que todos usavam maquiagem e roupas “excêntricas” como seus ídolos. Olhando com um pouco mais de cautela, porém, nota-se que Thiago não abandona alguns dos elementos da cultura do Black Metal quando está, como ele define, com “roupas de gente”. No pescoço, ele carrega um crucifixo invertido, simbolizando seu desgosto pelo cristianismo, e um pé de coelho (verdadeiro), encapado com resina.

O fato de não agir com o radicalismo de alguns dos pioneiros do gênero não lhe tira o desprezo pelo cristianismo. Segundo ele, quanto mais ele se aprofunda no curso de História, mais repulsa adquire pela Igreja, de acordo com ele “a maior assassina de todos os tempos”. Porém, ele repudia atos de violência contra prédios cristãos. “Esse negócio de queimar igreja é zuado. Pra mim, se a pessoa quiser ir a igreja, que se foda. Preferia comer merda, mas beleza. É meio absurdo você queimar um prédio porque não concorda. Se todo mundo fizesse isso a gente tava morando em caverna”, pondera.

A cabeça dos músicos

Para saber o que os músicos pensam, entrevistamos Count Imperium (ou Marcelo), fundador e baterista da banda Ocultan, do ABC paulista. O horário não poderia ser mais adequado: a partir das dez e meia da noite, após se encerrar a rotina de gravação do Ocultan. Formada em meados da década de 90, a banda é considerada hoje uma das mais organizadas do gênero no país e se prepara para lançar mais um CD no início de 2010.

Mesmo assim, o Ocultan não consegue viver só da música. Count Imperium afirma, sem sombra de dúvidas, que nenhuma banda de Black Metal no Brasil – ou qualquer estilo considerado extremo – consegue se dedicar exclusivamente à essa atividade. “Na verdade eu e minha mulher [a guitarrista da banda, Lady of Blood] tem ligação com rock porque a gente tem uma empresa de acessórios, relacionado a rock, heavy metal. Os otros dois são de áreas totalmente diferentes da música. Se a gente quisesse ganhar dinheiro a gente seria uma banda pop, seria muito mais fácil, mas não é a nossa. Fazemos nossa musica, se tiver sendo bem aceito ótimo, se tiver quem não goste foda-se”.

Outro fator que dificulta a ascenção de uma banda no cenário nacional e internacional é, segundo ele, a rejeição das gravadoras e ao fechamento do espaço em poucas bandas e pessoas. “Tem essa parada de mp3 que fode com as vendas e no geral as gravadoras não gostam do Black Metal porque não atingem um minimo de vendas. Não tem como fazer como as bandas gringas que fazem 160 shows por ano.”

Seguidores da Quimbanda, religião trazida para o Brasil pelos escravos africanos, o Ocultan utiliza os elementos históricos e depoimentos desse credo nas suas músicas. “A gente escracha mesmo os dogmas da Igreja, essas porra, a gente não respeita e ao mesmo tempo a gente enaltece o que a gente acredita, como os rituais do Quimbanda. Antigamente, quando não tinhamos tanto conhecimento, a gente falava mais com o coração, hoje em dia a gente procura aliar mais o coração com o conhecimento”. O Ocultan, por sinal, é um exemplo claro de como o satanismo não é uma tendência obrigatória para o Black Metal.

E mesmo quem vive o Black Metal nos palcos, às vezes, não ostenta o radicalismo de alguns fãs. Isso pode causar espanto, já que a impressão que se tem é a oposta. “A gente tem nossa musica e se dedica a isso, mas temos a nossa forma de curtir. A gente sai com nossos amigos, sai pra beber, tem uma vida normal”. Todo o clima sombrio, criado pela pintura dos corpos dos artistas (o corpse painting) e atuações quase teatrais, fica restrito às músicas e aos palcos. “Tudo isso cria um clima morbido, obscuro, que é o que tem a ver com o Black Metal. A banda só ganha com isso”.


Advogado dos diabos?

José  Luis de Oliveira Lima fala porque defende José  Dirceu, Cacciola, Dantas e Abdelmassih

Aos 43 anos, José  Luis de Oliveira Lima comanda um dos 30 escritórios de advocacia que concentram os grandes casos criminais do país. Advogado do ex-ministro José Dirceu, do médico Roger Abdelmassih e dos banqueiros Daniel Dantas e Salvatore Cacciola, Oliveira Lima acredita no otimismo do povo brasileiro, não defende apenas quem não lhe é simpático e lamenta ter sua atuação questionada. O que o faz prosseguir? “Até o mais cruel dos acusados tem que ter um advogado”.

Por Fábio Brandt

“Já disse isso pra cliente: o trabalho pra você aqui é que você tenha uma pena e um julgamento justos, porque a condenação, diante do que se apresenta, é certa”. Ao recordar essa passagem, o advogado criminalista José Luis de Oliveira Lima tirou os olhos do mini notebook que o obrigava a se encurvar sobre a escrivaninha e os colocou em mim. Sem mudar o tom de voz suave e cauteloso dos momentos anteriores, quando trabalhava e dava entrevista ao mesmo tempo, declarou: “qualquer pessoa, até o mais cruel dos acusados tem que ter um advogado, até pra dar legalidade ao julgamento”.

Os fios de cabelo castanho-escuros, lisos e soltos, parecem ser os únicos elementos em desacordo com a placidez quase permanente da expressão de Oliveira Lima. O rosto fino e sem barba, o queixo protuberante e, principalmente, os óculos – de lentes redondas e pequeníssimas, quase da mesma circunferência dos olhos – coroam a tranqüilidade transmitida pelo advogado nas mais diversas situações: rindo, dando entrevistas coletivas e mesmo fazendo argüições no Supremo Tribunal Federal.

Em 9 de outubro, conversei com José Luis por 36 minutos, na mesma sala em que se acomodaram, para tratar de suas defesas, José Dirceu (suposto líder do mensalão, esquema milionário de compra de apoio parlamentar para o governo Lula), Daniel Dantas (acusado de financiar o mensalão, desviar verbas públicas, subornar delegado da Polícia Federal e muito mais) e Roger Abdelmassih (cujas ex-pacientes acusam de tê-las violado, acariciado e beijado à força). Sem grandes problemas, marquei o encontro por telefone, em meados de setembro, diretamente com Oliveira Lima. Foi mais ou menos assim:

- Qual é seu prazo?, perguntou.

- Final de outubro.

Ele apenas pediu uma semana para sair de um momento muito complicado – provavelmente relacionado à prisão preventiva do doutor Roger – e então combinarmos o encontro.

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No dia marcado, cheguei cinco minutos atrasado ao trigésimo segundo andar do edifício 50 da avenida São Luis, no cruzamento com a Ipiranga. A fachada ostenta esplendorosa escultura negra de um cavalo rampante, erguido nas patas traseiras com a cabeça inclinada para o lado, mas não indica claramente o número da construção. Precisei confirmar com o jornaleiro:

- O cinqüenta? É o Itália mesmo, rebateu o interlocutor, referindo-se a um dos prédios mais tradicionais e altos (46 andares) do centro velho de São Paulo, construído na década de 60 por iniciativa de imigrantes da península itálica, integrantes do ainda existente clube Circolo Italiano, fundado em 1911.

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Driblei poças d’água e vendedores ambulantes de guarda-chuvas naquela manhã chuvosa para, de repente, encontrar-me na sala de reuniões do escritório Oliveira Lima, Hungria, Dall’Acqua e Furrier, fundado em 31 de maio de 1960 pelo pai de José Luis, o também criminalista Aerobaldo Espínola de Oliveira Lima Filho. Ali fiquei por cerca de uma hora até ser finalmente chamado à sala do entrevistado.

Minha estadia solitária no vasto ambiente de reuniões, no entanto, nada teve de tediosa. Circulei pelo local imaginando os movimentos ali realizados por grandes figurões vistos como vilões pela sociedade. Pé ante pé, caminhei pausadamente, pisando o carpete muito semelhante a um mármore escuro. Contornei a grande mesa oval de madeira clara e espessa, rodeada por dez cadeiras pretas cujo estofado macio de formato anatômico já recebeu o peso de muitos empresários e políticos em busca de soluções para seus imbróglios jurídicos.

O que desviou minha atenção dos espectros foi a ampla janela, verdadeiro portal para um privilegiado panorama da região sudoeste de São Paulo. Um horizonte formado, majoritariamente, por prédios – incluindo o tête à tête refinado entre os gigantes Copan e Hilton. Ao fundo, o verde sedutor das serras limítrofes do município.

A nove andares do badalado restaurante Terraço Itália e a catorze da cobertura do prédio (segundo mais alto da cidade, só perde para o Mirante do Vale), a sala retangular de reuniões do escritório de Oliveira Lima repousa entre suas paredes brancas. Ela também possui uma televisão de tela fina conectada a um aparelho de DVD, uma parede falsa de plástico opaco, lustres em forma de disco voador cortado ao meio e um grande vaso, encostado num canto da parede oposta à TV, do qual sai uma enorme folha verde.

Dois quadros, pendurados lado a lado na parede oposta à janela, retratam o mesmo homem de máscara preta e cartola vermelha. Num deles, o sujeito está ereto, com as palmas das mãos estendidas e equilibradas à altura do abdome, sendo sobrevoadas cada uma por um pássaro. No outro, ele tem o tronco inclinado para o lado, as alturas das mãos desequilibradas – mas as palmas ainda estendidas – e os pássaros voam aleatoriamente sobre sua cabeça.

Já havia abandonado a decisão de aguardar em pé quando uma moça alta, em tailleur azul marinho ou preto, impecável, entrou no cômodo e pediu para acompanhá-la até a sala do entrevistado. Passamos pelo saguão de entrada, onde permanecia risonha a mesma jovem recepcionista que me recebera uma hora antes. Entramos em um salão onde, em mesas diferentes, trabalhavam duas moças que aparentavam ser secretárias de José Luis e, finalmente, chegamos a ele.

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Oliveira Lima me recebeu calma e informalmente. Usava paletó claro, levemente quadriculado por marcas riscadas. Por trás de sua mesa, tomada por pilhas de papéis e livros misturadas a porta-retratos com fotos de seus quatro filhos, ele logo disparou:

-Não vem com essa de me chamar de senhor, né? Por favor…

Desculpando-se pelo atraso e por falar comigo enquanto trabalhava, adiantou que não tinha se livrado do turbilhão de complicações e que aquele era mais um dia cheio. Concentrei-me em obter as respostas necessárias para a matéria e, por isso, os detalhes físicos da sala me escaparam.

Mencionei o tema da entrevista, inferno, e que ele costuma aparecer nos jornais como advogado de pessoas demonizadas pela sociedade – como um dos mais recentes Judas malhados em público, o médico Roger Abdelmassih.

Especializado em reprodução assistida, o doutor Roger tem reconhecimento internacional e, no Brasil, é o mais conceituado do ramo. Ou “era”. Até ser preso, em 17 de agosto de 2009, sob acusação de estuprar mais de 50 pacientes enquanto sedadas, Roger gozava as graças da alta sociedade: aparecia no programa Amaury Jr, foi levado por José Serra num encontro com o Papa e recebeu agradecimentos de Pelé, Fernando Collor e outras celebridades pelo tratamento de fertilidade ministrado às respectivas companheiras.

- Eu fui interpelado na rua várias vezes: ‘Doutor o senhor é um advogado já tão conhecido, tão respeitado, por que vai defender esse senhor?’, contou Oliveira Lima sobre o caso Abdelmassih. Teve uma pessoa que foi muito agressiva, então meu filho virou e falou: ‘pai você não vai se defender?’.  Você fica exausto. É um problema… A sociedade não entende o que é presunção de inocência. Eu digo o seguinte: todo juiz, todo promotor de justiça e todo jornalista deveria figurar como réu pra entender o que é o princípio de presunção de inocência.

Sempre com voz tranquila, acrescentou:

- Um homem que tem vinte mil clientes. Oito mil vidas que esse homem deu. Quer dizer, será  que ele é tão ruim assim que não merece… – e não encerrou a sentença.

Para explicar a situação, o criminalista hipotizou: uma pessoa que chegasse ao Brasil entre setembro e outubro pensaria que Abdelmassih já fora condenado à prisão perpétua, mesmo com o processo “ainda no início”, sem sentença proferida. Lima lembrou que o médico fora estampado na capa da revista Veja e citado nas capas da Época e da Isto É ainda em setembro, bem antes das sessões de depoimentos das testemunhas de acusação – ocorridas na semana do 13 de outubro, com a apresentação de 56 testemunhas de acusação e 180 de defesa e encerrada com a perspectiva de o Supremo Tribunal de Justiça julgar um habeas corpus para o réu.

- Os Tribunais Superiores vêm aplicando com muita propriedade o principio da presunção de inocência. O problema é a imprensa. Os homens de redação não se conformam com uma decisão que não atenda o desejo deles, acho isso inaceitável. Daí eles colocam de uma maneira brutal, esculhambam com o juiz, esculhambam com a juíza. Dizem que o juiz é fraco, não estudou…

Questionado sobre como o médico poderia restabelecer a vida, caso inocentado, Lima encerrou o ponto:

- O Roger, infelizmente, está com uma vida destruída. Esquece, a vida dele está  destruída. Estamos tentando ver se ele consegue se reerguer, entendeu? É uma pena, eu acho uma pena – disse, fazendo uma pausa antes de concluir. Mas não posso falar sobre o caso, porque está em sigilo. Só posso falar sobre essas questões de imprensa.

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José Luis de Oliveira Lima se formou em direito em 1989, aos 23 anos, pela FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas) e desde então trabalha no escritório fundado pelo pai. Nunca fez mestrado ou doutorado e afirma que isso decorre de sua opção pela advocacia, profissão que visou “desde menino”.

- Sou advogado, tenho um prazer enorme em advogar, é a melhor profissão que existe. Fui coordenador de uma faculdade uma vez. Lembro que cheguei pro diretor e falei: não dá. Também gosto de política, sempre fiz política.

Antes de se tornar, aos 31 anos, o mais jovem presidente da Caasp (Caixa de Assistência dos Advogados de São Paulo, órgão responsável pela assistência social aos inscritos na OAB paulista), Lima trabalhou, na época da faculdade, com o ex-governador do Estado, Franco Montoro. Outra ponte com o poder é o tio José Carlos Dias, ministro da Justiça durante o governo FHC, a quem José Luis chama “segundo pai” e agradece as indicações dos primeiros grandes clientes.

- Meus clientes hoje são fundamentalmente empresários e políticos, por causa de crimes contra o sistema financeiro. Não só acusados, mas também vítimas – disse o advogado. Hoje eu tenho uma ligação muito forte com o PT, mas também com os tucanos. Transito muito bem entre os dois, apesar de advogar também pro DEM e outros partidos, esclareceu, ressaltando ter o perfil de eleitor do PSDB e que, apesar de considerar “bons” os governos de Lula, o de Serra vai ser melhor.

Lima nunca foi estagiário. Durante os cinco anos de faculdade, foi funcionário concursado: primeiro, escrevente em cartório de fórum criminal e, depois, assistente jurídico na vara criminal. Achava que assim aprendia mais sobre a profissão. Formado, foi direto trabalhar com o pai, na área criminal.

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Outra coisa que ele nunca fez foi estudar religião, nem sob perspectiva histórica. Ateu desde que lembra saber da existência dos credos, apesar da família católica, José Luis diz que sua crença é “na vida e nas pessoas”. Mas a história das religiões explica muito sobre a origem de alcunhas comumente atribuídas aos advogados criminalistas envolvidos em casos notórios e controversos.

As pessoas começaram a associar seus inimigos e rivais com a imagem maligna de Satanás em torno do ano 60 d.C., expõe a historiadora da Universidade de Princeton Elaine Pagels em seu livro “As origens de Satanás”. Nessa época, explica ela, houve uma revolta dos judeus palestinos contra seus dominadores romanos. Detalhe: o termo referente a Satanás não era aplicado pelos judeus aos romanos, mas sim a outros judeus. Os favoráveis à revolta satanizavam os contrários a ela e vice-versa.

Pagels ressalta que, na tradição judia original Satanás não possuía a mesma imagem bestial disseminada pelo cristianismo. Apesar de cometer alguns desvios de conduta, ele era um dos anjos da corte divina, com aparência humana e capacidades superiores. Ou seja: ele era a ovelha negra, mas permanecia à família. Assim, o povo judeu associava seus rivais-semelhantes a Satanás e não a monstros, como faziam com os estrangeiros.

Conforme as disputas entre os grupos judeus se acirraram e o cristianismo se fortaleceu, Satanás passou a ser representado nas crônicas de época com uma imagem cada vez mais monstruosa. As teorias dos “anjos caídos”, expulsos do paraíso por diversos motivos, ganharam força e, na vida mundana, começam a orientar fortemente a relação entre adversários. Hábito que, aliás, atravessou séculos, chegando, em 2006, à Assembleia da ONU (quando Bush foi chamado de diabo por Hugo Chávez) e às presidenciais brasileiras (quando Lula foi taxado de demônio por FHC e de Judas por Geraldo Alckmin).

Antes de aparecer na política pós-moderna, destaca Pagels, o hábito de demonizar tornou-se mais intenso nos evangelhos do Novo Testamento (escritos por seguidores de Cristo, em sua maioria, entre 70d.C. e 90d.C., após a revolta contra Roma). Segundo a historiadora, esses textos narram batalhas de Jesus Cristo contra Satanás, já retratado como entidade maligna infiltrada entre os que, por exemplo, não aceitavam o novo messias – caso dos judeus.

O evangelho de Marcos, por exemplo, apresenta muitas queixas contra as lideranças judias, responsabilizadas pela marginalização dos cristãos, e fala do julgamento divino, algoz dos judeus que aceitaram fazer a guerra contra Roma (os cristãos, claro, eram contra a realização da revolta).

Após diversas guinadas de mesa, apedrejamentos e fogueiras – nas quais vítimas e carrascos, demônios e salvadores, trocaram de lugar de acordo com a alternância de poder – a mente humana foi capaz de aperfeiçoar o Direito, construir tribunais e estabelecer profissões, como a de tapibaquígrafo, promotor, juiz e, voilà, advogado.

- Tem uma passagem do Waldir Trancoso Peres, um dos maiores advogados criminalistas do país, recordou o advogado Oliveira Lima enquanto digitava em seu computador e falava comigo. Ele tava dando uma entrevista e o jornalista perguntou: ‘doutor Waldir, o senhor defenderia Hitler?’. Aí ele respondeu: ‘Você é um jornalista tão respeitado. Você gostaria que Hitler fosse condenado sem advogado? Teria credibilidade uma condenação de Hitler sem um advogado?’. Daí o jornalista virou e disse: ‘o senhor tem razão’.

Após breve pausa, Lima ergueu a cabeça e acrescentou:

- Não tem um traço de paralelo entre Hitler e meus clientes, não estou comparando. Mas estou dizendo o seguinte: qualquer pessoa, até o mais cruel dos acusados tem que ter um advogado. Até pra dar legalidade ao julgamento, até pra ele ter uma pena justa. Muitas vezes, o papel do advogado num caso muito difícil é exatamente defender que seu cliente tenha uma pena justa.

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Mesmo não dormindo mais que quatro ou cinco horas por noite, José Luis teve, em 2009, que abrir mão de algumas atribuições. A começar pelas eleições da seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil. Convidado para ser vice-presidente de uma das chapas concorrentes, deixou o compromisso de lado por esperar que, no próximo ano, surja um grupo com “visão diferente dos dois que estão aí”, mas também por falta de tempo.

Quase semanalmente, Lima vai para Brasília e, quinzenalmente, para o Rio. Fora isso, diz viajar bastante para o exterior a trabalho (quando telefonei em seu celular, em 29 de outubro, para pedir o número de Carlos Dias, participava de uma audiência em Lisboa).

- Aprendi a gostar muito de Brasília. Brasília me ajudou muito. Tem o Supremo Tribunal Federal, tem CPI. Atuo muito em CPI, relatou o advogado, confessando não ter um local de lazer preferido na capital federal. Brasília não tem distração, é business e trabalho. Se estou almoçando, estou almoçando a trabalho. Se estou jantando, estou jantando a trabalho. Minha distração são meus filhos e minhas viagens. Religiosamente, eu tiro férias.

Sempre atento às palavras, o ateu explicou que a religiosidade das férias fazem estrita referência à necessidade de dedicar seu tempo aos filhos, três do primeiro e uma do segundo e atual casamento.

- O mais velho tem 13 [anos] que é o Bruno. Depois, tem o João que tem 11 e meio. O Dalmo que tem 10 e a Luiza que tem 4.

- Você  não acumula férias então?, retruquei.

- Não, não, não. Tiro de 15 a 20 dias em janeiro, 15 dias em julho e viajo quando tem feriado. Disso não abro mão. Mesmo quando tem trabalho, não abro mão da relação com meus filhos, não há cliente que vá fazer isso.

-Ele é louco pelos filhos, pelos ‘juquinhas’, me disse algumas semanas depois o tio de José Luis, o também criminalista e ex-ministro, José Carlos Dias – cujo escritório também fica no edifício Itália, seis andares abaixo do Oliveira Lima.

“Juquinhas” foi uma clara referência ao apelido com que José Luis gosta de ser chamado. “Foi meu pai que me colocou o apelido de Juca e o Luis não leva acento”, respondeu o advogado às questões que fiz sobre seus apelativos.

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Antes de desfrutar do mundo da advocacia, Oliveira Lima foi um garoto levado – encapetado talvez. Ele se recorda um “péssimo aluno”, tão indisciplinado que foi expulso do colégio Rio Branco e do Objetivo durante o ensino médio.

- Também fui um aluno bem medíocre na faculdade, exceto em direito penal, que eu gostava. Acho uma pena, me arrependo de não ter estudado mais. Tive que estudar depois! Aí estudei muito, adquiri um prazer enorme pela leitura, leio muito. Mas, infelizmente, não fui um bom aluno.

Apesar de arrependido, José  Luis admite, sorrindo, ter passado infância e adolescência “muito divertidas”. Após momentos de hesitação, aceitou relatar, rapidamente, dois de seus feitos (não sem fazer um mea culpa sobre problemas vividos por sua mãe):

- Quando ela ia nas reuniões de pais e mestres, do Rio branco, por exemplo, saia com a orelha vermelha. Uma vez eu desci com o extintor de incêndio na rampa do Rio Branco. Outra vez, tinha uma festa do centro acadêmico, comprei 10 galinhas e joguei lá no meio, isso entre 12 e 14 anos…

Nessas situações de culpa incontestável, não tinha o que fazer. Foi suspenso uma, duas, três vezes. Perdeu a bolsa de estudos gradualmente e foi expulso do colégio. Cena difícil de imaginar, não só para quem vê o doutor Oliveira Lima de toga, nas sessões do STF, mas também em situações mais cotidianas.

- Hoje sou absolutamente tranquilo. Calmo! Calmo, sou um cara calmo. Faço minha acupuntura toda semana, corro muito, faço muito esporte, contou, emendando que cultiva esse gosto desde pequeno. Joguei basquete dos 11 aos 17 anos. Jogava bem. No [Clube Atlético] Paulistano, no Palmeiras, em seleções. Mas, enfim, eu era um cara que queria ser advogado, sempre. Meu prazer hoje é exercer minha profissão e ficar com meus quatro filhos. E poder assistir aos jogos do Palmeiras. Esse é o meu lazer maior! Adoro!, exultou, animando-se com time que também defendeu jogando futebol de campo, antes dos dez anos de idade.

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- Quando você  reconhece a hora de admitir a culpa de seu cliente no tribunal?, perguntei a Oliveira Lima.

Misturando incompreensão e indignação pela pergunta, ele soltou:

- Eu não julgo meu cliente. Por isso eu sou advogado. Aliás, eu seria um péssimo juiz. Quando meus filhos brigam, tenho uma dificuldade enorme em julgar quem está certo e quem está errado. Essa coisa de julgar não é do meu perfil. Eu seria péssimo juiz. Além disso, o cliente, em regra, diz a verdade pro advogado, ele não mente.

- Que tipo de cliente você  não aceita defender?

- Só  não posso defender alguém se eu estiver em conflito, se eu já  defender outra pessoa que possa ser inimigo dele. O que eu preciso é olhar no rosto do meu cliente. Se eu for com a cara dele, eu defendo. É isso que eu preciso.

- E como dizer um ‘não’ nesses casos?

- Eu viro e digo: ‘olha não vou te defender’. Falo abertamente, ‘não simpatizei com o senhor’. Na advocacia criminal tem que ter empatia com o cliente. Se não tiver, acabou. Tem que gostar do seu cliente e pronto. Tem que ter um feeling gostoso com ele, do contrário eu não atuo bem. Se faço uma reunião e a reunião não fluiu bem, eu vou embora, saio de cara.

A mesma regra parece seguir o tio do entrevistado, José Carlos Dias, que me contou ter indicado o sobrinho para o ex-ministro José Dirceu porque já era advogado dos diretores do Banco Rural – acusados de prover recursos para o mensalão e que apresentam depoimentos conflitantes com os de Dirceu.

- Ele tem os requisitos que considero fundamentais num advogado: a dedicação ao cliente, a ética, a seriedade. Não tenho dúvida de que quando indico um cliente pra ele, estou indicando um bom advogado, comentou Dias.

Para preservar o sigilo da relação com os clientes, Oliveira Lima só comenta fatos já bastante divulgados. Deixa bem claro que sua condição de advogado o impede de expor palavras trocadas com seus representados em reuniões que ocorrem, segundo ele, “99% das vezes” na mesma sala em que me recebeu.

Por isso não fala muito sobre Daniel Dantas – que já deixou de representar – e de Salvatore Cacciola. Este último, diga-se de passagem, talvez tenha sido seu primeiro cliente de destaque midiático. Nascido em Milão, em 1944, Cacciola migrou para o Brasil com a família na década de 50 por causa da depressão econômica gerada pela segunda Guerra Mundial. Fez a vida e, nos idos da virada do século 20 para o 21, era proprietário do Banco Marka, que apostava alto na estabilidade do real. Quando o governo brasileiro mudou o regime de câmbio de fixo para flutuante, em 1999 – para fazer frente à crise emanada da Rússia – Cacciola solicitou ao Banco Central a venda de dólares abaixo do preço de mercado para não falir.

A operação se tornou pública e uma Comissão Parlamentar de Inquérito concluiu: ela gerou prejuízo de R$1,5 bilhão aos cofres públicos. O Ministério Público Federal pediu prisão preventiva do banqueiro, que se via envolvido num emaranhado de acusações (de gestão fraudulenta e tráfico de influência, por exemplo) contra ele e conhecidos, incluindo membros da alta cúpula do BC – como o ex-presidente da instituição, Francisco Lopes. Encarcerado, Cacciola recebeu habeas corpos do STF e fugiu para a Itália, que não acolheu pedido de extradição. Condenado à revelia (sem estar presente no julgamento), só foi capturado novamente quando passou por Mônaco. Em setembro de 2009, completou dois anos de estadia no presídio Bangu 8. Mas Oliveira Lima não comenta o caso.

Sobre Dirceu, cuja situação é constantemente lembrada pelos jornais, ele fala:

- Não tenho a menor dúvida da inocência do José Dirceu e não tenho a menor dúvida de que o processo dele foi um julgamento político. Eu tenho muita tranqüilidade quanto ao caso do José Dirceu, muita tranquilidade, muita tranquilidade. Conheço esse processo de trás pra frente. Não tem nada contra ele. A cassação do mandato representou uma vitória da oposição e foi um julgamento político. Num julgamento técnico, no Supremo Tribunal Federal, eu tenho muita tranqüilidade de que ele será absolvido.

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Se Oliveira Lima for malignamente surpreendido pelo destino e Dirceu considerado culpado, no entanto, o ex-deputado pode não só sofrer a punição determinada pelas autoridades como ser colocado pelos cronistas de nossa época, para servir de exemplo, no vasto hall de personagens agregados pelo tempo à Divina Comédia, escrita no início do século 14 por Dante Alighieri.

Nesse caso, Dirceu seria retratado certamente nos lugares mais profundos do Inferno, onde Dante localizou diversos tipos de fraudadores: sedutores, aduladores, praticantes de nepotismo, traficantes, adivinhos, hipócritas, ladrões, maus conselheiros, traidores de parentes, traidores da pátria, dos hóspedes e dos bem-feitores.

Alighieri descreveu a terra do Capeta como uma cavidade cônica, composta por nove círculos que se afunilam até chegar ao posto ocupado por Lúcifer. Nos seis primeiros círculos, cumprem pena os que levaram uma vida marcada pela incontinência (gulosos, luxuriosos, avaros e héreges, por exemplo); no sétimo círculo, ficam os violentos e bestiais; no oitavo e no nono, os fraudadores – sendo os locais mais profundos reservados à penitência dos que cometeram as fraudes mais graves.

Caso os contadores de causo tenham a chance de assentar Dirceu no oitavo círculo, provavelmente o colocarão entre os hipócritas, por ter negado sua culpa em público durante muito tempo. A pena imposta a esses danados, na obra de Dante, é caminhar, eterna e lentamente, vestindo pesadas capas de chumbo com uma bela aparência dourada.

Mas não faltará gente para jogar o petista no nono círculo, o mais profundo e próximo de Satanás. Se considerado culpado de chefiar o mensalão, ele será, possivelmente, colocado entre os traidores da pátria, por ter se envolvido com a corrupção de representantes do povo. O castigo desse grupo é permanecer mergulhado num mar de gelo, apenas com a cabeça para fora.

Essa possibilidade, no entanto, não deve integrar as previsões mais pessimistas de José Luis de Oliveira Lima. Para ele, a influência de forças negativas passa muito longe do ar respirado pelos brasileiros. Morador dos Jardins, bairro nobre de São Paulo, ele confia no otimismo tupiniquim, povo que responde às mazelas da desigualdade social com simpatia e espírito de progresso. Além disso, sente-se muito bem e confiante fazendo o que faz onde faz. Não trocaria a pauliceia por qualquer outra cidade.

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No fim da conversa, o entrevistado esclareceu como funciona o escritório que comanda há 20 anos. “Hungria, Dall’Acqua e Furrier” são sobrenomes dos sócios que se juntaram ao Oliveira Lima ao longo dos anos. A sócia mais recente é Jaqueline Furrier, chamada por José Luis de “minha parceira nos casos de crime contra o sistema financeiro”.

- Ela é, talvez, a melhor advogada nessa área, comentou, lembrando que Jaqueline é também sua melhor amiga e o apresentou à esposa.

Rodrigo Dall’Acqua é o sócio que trabalha com Lima nas CPIs. Camilla Soares Hungria, a sócia mais antiga, cuida do escritório inteiro, define José Luis. Por fim, Giovanna Cardoso Gazola é a associada especialista em contenciosos de massa (que envolvem clientes de partidos políticos).

- O Processo de adesão  é simples: eu convido pra ser sócio. Acho que é um merecimento de um advogado q trabalhou por muito tempo. Então convido pra ser sócio. Temos uma relação muito boa.

A situação de seu escritório no mercado, ele descreve sem rodeio nenhum, com uma assertiva tão objetiva quanto a pincelada final da última mão de tinta em um quadro:

- Fundamentalmente quem atua na área criminal são 30 escritórios especializados que tem em São Paulo, dois ou três em Brasília, três ou quatro no Rio de Janeiro. Se não está comigo, está  com outro, ou com outro. Tanto, que todos são muito amigos, freqüentam a casa um do outro.

Faz sentido: uma simples fração da cena criminalista paulista nos dá a dimensão de quão circular é este ramo. Se puxarmos a lista por Ricardo Tosto, famoso por ter assumido a defesa do ex-prefeito de São Paulo e atual deputado federal Paulo Maluf, veremos que ele divide esse feito com Roberto Batochio, que também está no caso mensalão, representando o ex-ministro da fazenda Antônio Palocci. Por acaso, Batochio garantiu a liberdade dos estudantes de medicina da USP acusados de matar um calouro twaianês afogado na piscina da faculdade durante um trote. Nessa empreitada, ele trabalhou junto com Márcio Thomaz Bastos, ex-ministro da justiça – igual ao tio de Oliveira Lima – que tam,bem está no caso Abdelmassih, junto a José Luis.

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Anunciando que ainda deveria ir ao Rio de Janeiro, Oliveira Lima se despediu e me acompanhou até  a porta do escritório. Passamos pelas secretárias e pela recepcionista antes de nos despedirmos novamente.

- Bixo, qualquer coisa me liga!, recomendou, virando-se rapidamente na direção de sua sala.

Entrevista: Eduardo Bittar, professor de filosofia do direito da USP

“Cada profissional tem livre convicção sobre os clientes que pretende defender”

Advogados lidam, inevitavelmente, com comportamentos imorais, ilegais e até bárbaros. Por isso, escrúpulos morais não podem impedir o profissional de defender alguém que infringiu a lei. Essas conclusões são de Eduardo Bittar, integrante do Instituto de Estudos Avançados e do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP). Professor do departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito, também na USP, Bittar respondeu, por e-mail, a algumas de nossas perguntas sobre contradições do mundo da advocacia. Confira a entrevista:

Babel: O que um advogado deve levar em consideração para aceitar ou recusar a defensa de quem se declarada culpado? A gravidade do crime cometido importa para a tomada dessa decisão?

Eduardo Bittar: Não se pode exigir que escrúpulos morais medianos impeçam a atividade judicial de representar alguém que comete um ato ilegal. Isso inviabilizaria a própria profissão. Seria o mesmo que imaginar psicanalistas policiando o comportamento de seus pacientes e desvelando segredos intimistas revelados sob proteção da ética psicanalista para a avaliação da sociedade e da polícia.

Numa sociedade policialesca, procura-se converter advogados e psicanalistas em auditores das contas mal-esclarecidas, do definhamento do projeto moral do iluminismo. Isso tem criado exacerbada perda de liberdade individual e crescente exigência de atropelo dos limites entre ética profissional e garantia social. Recentes arrombamentos de escritórios de advocacia são sintonia disso: de uma sociedade que se ressente da incapacidade de prevenir e punir e que faz desabar a garantia do sigilo profissional.

Cada profissional tem livre convicção sobre os clientes que pretende defender, dentro dos limites da lei. Isso é de fundamental importância para que, quando se lida com conflitos sociais, garantam-se condições para o tratamento equânime. Ora, qual a tarefa de quem opera com o direito senão a de operar com conflitos sociais? E os conflitos sociais envolvem condutas que tocam comportamentos imorais, ilegais e, às vezes, bárbaros. O profissional do direito deve colaborar para solucionar, democraticamente e dentro dos termos da lei, os caminhos de realização da justiça.
Babel: Muitos criticam o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos por defender pessoas perseguidas pela Polícia Federal que ele mesmo tornou mais intransigente. Há prejuízo para a sociedade quando profissionais de altíssima qualificação mudam de lado?

Eduardo Bittar:
Muitas vezes, pessoas públicas exercem seus papéis em outros contextos sociais. Não me parece exigível que a pessoa pública se restrinja, por exemplo, à atividade política. Deixado o cargo que se exerceu com seriedade e competência, a tarefa de quem exerce advocacia é responder por seus atos em conformidade com a ética da profissão. Cobrar “coerência” entre pessoa pública e pessoa privada, por vezes, é exigir algo que está além da capacidade de cada indivíduo oferecer, inclusive do ponto de vista moral.

A lógica do devassamento da vida do ex-homem-público é a mesma dos paparazzi no caso da Princesa Diana. A equação era simples: por ser pessoa pública, tem-se o direito de, literalmente, persegui-la, em sua vida pessoal. O resultado é bem conhecido de todos, com o desfecho lamentável e pranteado mundo afora. Esse cuidado é necessário quando se trata de compreender a dinâmica particular de cada papel social: do homem público, no momento em que é homem público, e de profissional da advocacia, enquanto exercente da profissão de advogado.

Babel: O que são os princípios de presunção da inocência e de ampla defesa?

Eduardo Bittar: Os princípios da presunção de inocência e da ampla defesa decorrem da necessidade de proteger a dignidade da pessoa humana. Este é o fundamento ético de uma comunidade social, política e juridicamente organizada e a base de todo o direito constitucional.

No Brasil, ambos os princípios são abrigados no artigo quinto da Constituição de 1988. Violar a Constituição, agredindo estes princípios, é inviabilizar o pacto de vida comum estabelecido por um documento jurídico de ampla significação. Mais que isto: permitir a soberanização do corpo do réu é abrir campo para a arbitrariedade, fato consumado, normalmente, em regimes autoritários – para os quais as práticas persecutórias limitadas e a autonomia do indivíduo não possuem qualquer sentido.

Do ponto de vista histórico, as primeiras escolas que testemunham a necessidade de abrandamento e limitação da pena são as Escolas Humanistas, eco direto do iluminismo. À era da concentração do poder, dos séculos 17 e 18, segue-se a era dos direitos. Nela, a desconcentração do poder se torna um tema de fundamental importância para o pensamento liberal. Suas conquistas são expressadas pelos direitos humanos das revoluções liberais do século 18, são consagradas em declarações, como a de 1789, e ganham campo dentro de documentos jurídicos constitucionais. Iniciado o período do constitucionalismo liberal, o direito é o novo elemento que compõe a forma com que o controle do poder encontrará seus limites.

Limitar o poder persecutório do Estado é garantir e reafirmar as conquistas dos direitos humanos. Desde o século 18, elas significam avanços sociais, políticos, éticos e jurídicos na definição e delimitação do próprio Estado de Direito.

Babel: Casos como o do médico Roger Abdelmassih, acusado de estuprar mais de 50 pacientes enquanto sedadas, representam a violação desses direitos? Algumas revistas e jornais o apresentaram como culpado, baseando-se apenas nos depoimentos de acusação.

Eduardo Bittar: Na sociedade do espetáculo, na leitura de Guy Debord, a imprensa exerce o poder decorrente da indústria da informação e se subroga a quaisquer outros poderes. Ou seja: o poder circulante na era da informação ainda está por ser disciplinado. Ele escorre com ampla liquidez na formação da opinião pública, na inconscientização do subliminar, na inculcação do indesejado, na irracionalização da autonomia intelectual. Ele decreta condições de livre domínio e pode se sobrepor a outras formas de poder e de normatização da vida social. Isso ocorre em tempos de transição social, chamado por muitos intelectuais de “condição pós-moderna”.

Como ensina Maria Rita Kehl, toda forma de atuação ilimitada da imprensa permite a arbitrariedade. Um caso recente, o da Escola de Base, ilustra que o papel do juiz se torna diminuto diante do poder de julgamento da mídia. A tarefa da comunicação social é de muita responsabilidade humana, política e social. A cautela deve regular sua força. O uso da força desmedida para exercer o direito de informar tem como efeito colateral a infração do direito à honra, à vida privada e outros.

A sociedade contemporânea espetaculariza porque goza na vontade de submeter o outro. Estremecer, atrair, horrorizar, causar, abalar, demolir, chocar são táticas verbais presentes no processo comunicativo midiático, de onde se extrai o poder de arruinar, nulificar direitos, arrasar existências.

O direito deve zelar para que o processo de inculpação se dê num procedimento legitimamente constituído e deve cuidar para que o próprio procedimento respeite os direitos fundamentais do investigado. Isso é algo exigível em todo procedimento persecutório dentro de um Estado Democrático de Direito.


A Dança do Pentagrama Invertido

Estupre um cabrito, é muito engraçado
Depois ateie fogo num cadáver desmembrado
Vou te bater com um prato de alface
Cagar na sua boca e esporrar na sua face
Pegue uma velha, deixe ela pelada
Ponha fogo no cabelo e apague na paulada
Funkeiro sangue bom é funkeiro sangue-frio
Estrupa mãe, estrupa pai e também estrupa filho

(UDR –  “Bonde da Mutilação”)

Por Thais Carrança

As paredes pretas grudam quando se encosta nelas, a cerveja é Crystal, quente, servida em copos plásticos de 300 ml à proporção de quatro partes de espuma pra uma de líquido, que se pega após longa fila e bebe-se no tempo de enfrentar a fila de novo, num motocontínuo de alcoolismo pé-de-chinelo (ou você realmente acreditou que por R$ 15 para mulher e R$ 18 pra homem, numa festa chamada FUCK MACHINE, você ia ter um Open Bar digno?).

Estamos esperando o show da U.D.R, no andar subterrâneo de um puteiro desativado, próximo à Praça Roosevelt, perto daquele outro puteiro com uma decoração externa medieval excelente – o toque de mestre é o caldeirão de óleo fervente paralisado no ar no momento em que é entornado. Festa no puteiro, grande coisa, hoje em dia qualquer batizado de criança no baixo Augusta é em puteiro, nada demais.

No andar térreo, tem um bar pago às moscas, espelhos nas paredes, postes de dança nas bancadas, bandas horrendas de New Metal tocando e um público majoritariamente masculino e feio pra caralho, composto de metaleiros, um ou outro gótico e carecas. Sempre tem careca nazi em show da U.D.R. Na vinda anterior deles a São Paulo, quando tocaram no Inferno, cantaram uma música do disco novo, Bolinando Straños, chamada “Todos os nossos fãs são gays” (numa óbvia citação de Anal Cunt): “Você tem todos nossos discos/ Você é gay/ Você tem todas as camisas/ Você é gay/ Você é gay, você é gay/ Todos os fãs da UDR são gays/ (…)/ Não entende a piada/ E ainda dá risada/ Pois é, meu camarada/ Você é gay”. A platéia esvaziou na hora.

O público tinha ido lá pra saudar o satanismo (“Corta os pulsos, desenha o pentagrama/ Acende as velas pretas porque Satanás te ama/ Pode ser Satã, Belzebu ou Ferrabrás/ O que importa é o demônio, seu nome tanto faz”), ofender Jesus (“Jesus era alegre, um cara cheio de luz/
O sonho dessa bicha era poder sentar na cruz”), Maria (“Mãe de Jesus, eu tirei o seu cabaço/
Com um martelo de pedreiro preso num cabo de aço”), zoar deficientes (“Cintura pra baixo, tudo paralisado/ UDR 666, esse é o bonde do aleijado/ Quando vejo um aleijado, não consigo sentir dó/ Roubo logo sua carteira pra poder comprar meu pó”), cantar sobre parafilias (“Bonde louco do bukkake, porra dentro do nariz/ Hora do suco de pica é a hora mais feliz/ (…)/ Essa é a dança do bukkake, pegajosa e ofensiva/ Seus girinos do amor vão nadar na minha saliva”) e ter orgasmos múltiplos com o “Bonde da Orgia de Travecos” (“Sem orgia de traveco fico triste e deprimido/ com orgia de traveco viro soropositivo./ Vou fazer um fist fuck entao traz a vaselina/ Também traz um meião pra gente cheirar benzina”). Perceber que estavam rindo de você e não com você estava fora dos planos (“MC Carvão, super gigolô U.D.R., estrategicamente localizado entre um monte de mulheres diz: Você é burro”).

U.D.R. a essa altura do campeonato – show no Inferno: 16 de fevereiro de 2008, show na Ocean: 14 de junho de 2008, fim da banda: 1º de setembro de 2008 (mal aê, contei o fim da história) – era  MC Carvão e Professor Aquaplay, fazendo ROCK AND ROLL ANTI CÓSMICO DA MORTE, ainda que seus detratores insistam em chamar o som de “funk satânico”. MC Carvão, o Porquinho, ou Thiago Machado, é formado em Relações Públicas, geek de computador e tem sempre uma meia dúzia de projetos paralelos em comunicação e música. Professor Aquaplay (ex-MC Abutre), o Screw, ou Rafael Mordente, é peludo, graduado em Jornalismo e tem tatuagens nerds adoráveis de tags HTML. Ambos são de Belo Horizonte.

No princípio, era Screw, que gerou o “Bonde da Depressão”, sob a dupla alcunha de MC Dor e MC Sofrimento. Screw converteu-se em MC Abutre, e MC Abutre e MC Carniça geraram a “Dança do Pentagrama Invertido” e o “Bonde da Mutilação”. Juntou-se a eles MS Barney e do trio fez-se a primeira versão de “Bonde de Jesus”. Tudo isso aconteceu de 2000 a 2002.

“MC Abutre e MC Carniça foram convidados para um show de estréia de um curta-metragem cuja trilha sonora era Dança do Pentagrama Invertido. A partir daí, outra apresentação foi agendada. Dessa vez, tratava-se de um show completo. Neste momento é marcado o ingresso oficial de MC Carvão na jornada. Com ele, surgiu a criação de nosso primeiro hit feito em grupo: Vômito Podraço. Além disso, tivemos aquilo que pode se chamar de “primeiro show”.” Estamos em 2003, quem narra é o Professor Aquaplay na biografia da banda, publicada no blog oficial – texto editado para fins dessa matéria.

“MC Carniça decidiu trilhar sua própria vida, existindo num mundo onde as conspirações descem pelo ralo. Éramos três, novamente. Professor Aquaplay, MC Carvão e MS Barney. Ao trio remanescente, foi dado o nome de U.D.R.”, conta. A primeira demo seria finalizada naquele ano, como o nome de Seringas Compartilhadas Vol.2 – Concertos  Para Fagote Solo, em Si Bemol. Além das músicas já citadas, o disco trouxe as inéditas “Bonde do Amor Incondicional”, “Bonde da Orgia de Travecos”, “O Evangelho Segundo Serguei” e “Bonde do Aleijado”. A turnê O Amor Move Montanhas teve como souvenir uma camiseta que hoje é artigo raro, e que, nas palavras de alguém muito fino da internet, “mostrava de forma sutil a silhueta de um homem defecando na boca de uma mulher”.

Em 2005, MS Barney deixaria a banda (“O MS Barney saiu da nossa banda/ Agora dá a bunda num terreiro de quimbanda”).“Eu e Carvão conseguimos tocar o bonde pra frente e, para minha surpresa, estávamos em uma banda que agora buscava – e conseguia – resultados. Nunca havia me acontecido antes. Saiu WARderley [2006], saiu O Shape do Punk do Cão [2007], saiu Bolinando Straños [2008]”. Apesar do tipo de humor pouco afeito às FMs e aos lares de família, a banda conseguiu visibilidade, através da disseminação viral de suas músicas pela internet. A dupla conquistou um séquito de fãs fiéis, fazendo shows Brasil afora, com platéias cantando em coro de ponta a ponta.

No começo de 2008, para o lançamento do último ep, os garotos U.D.R. “armam uma brincadeira para azucrinar os fãs e a cena musical tupiniquim. Fingem a saída do Carvão e armam um concurso para novos integrantes.” No suposto show de estréia dos novos integrantes, veio a “volta” triunfal, com a estréia de Bolinado Straños. Poucos meses depois, acontece o fim de verdade. Professor Aquaplay, cansado de orgias regadas a cocaína, da fama e das dezenas de travestis enlouquecidos a seus pés, pede penico em texto publicado no blog oficial da banda. “Eu gostava mais da UDR quando era underground”, declara.

Mas voltemos a junho de 2008, ao puteiro desativado, ao subsolo de paredes pretas grudentas, à Crystal quente em copos de plástico. Pergunto aos meus amigos o que eles lembram do show. A resposta é uma mistura de amnésia provocada por aditivos diversos (“Eu tava doidão, não lembro de nada, só lembro da brisa”) e impressões que confundem os três shows que assistiram ao longo de 2008 – eles juram que teve mais um no Inferno, depois do da Ocean, que eu não fui e que foi o último em São Paulo antes do fim da banda, mas não me lembro e não achei nenhuma menção a ele no site da banda ou via Google.

Eles se lembram dos caras parando o show toda hora pra falar bosta. De uns caras gigantes com cara de redneck dançando: “Os caras eras enormes, achei que iam bater em todo mundo, daí eles começaram a dançar como se não houvesse amanhã, que nem minhoca no chão, pulando com a bunda”. Eu me lembro de uma amiga groupiando o MC Carvão (“É isso menininha, não fica no meu pé/ Jesus pode te amar, mas só a UDR te quer/ Fogo do capeta, brasa na calcinha, deformo tua buceta e arrombo tua bundinha”). Do enfado tremendo com que eles introduziam o grande hit “Orgia de Travecos”, que sempre encerrava os shows: “Esse é aquele momento do show que a gente não aguenta mais, mas que vocês adoram” – seguido do delírio da platéia cantando a música inteira duas ou três vezes seguidas. Pergunto para os meus amigos sobre o show propriamente dito, as músicas, os caras. “Sei lá, durou mó tempo, eles tocaram todas as músicas e foi legal pra caralho”.

Estamos num bar em Pinheiros, eu tento inutilmente entrevistá-los enquanto uma televisão ligada draga a atenção de todos. Na novela das 8, uma gostosa que está tetraplégica (Aline Morais, em Viver a Vida) começa o processo de reabilitação, só de camiseta. Todos olham vidrados, torcendo para aparecer a calcinha. “Porra, pessoal, é a calcinha da mina da tv, desencana. E a mina tá tetraplégica ainda por cima, mó sujeira”, eu digo. Alguém responde: “Mó sujeira nada, e daí que ela tá tetraplégica, manda ela fechar as pernas então, ‘Aô, fecha as pernas, ô tetraplégica’”. Pra curtir a U.D.R. tem que andar com pau no cu.

Pega esse cacete mole que eu transformo num bambu
Pra curtir a UDR, tem que andar com pau no cu
Nóis te leva pr’uma gruta e desmaia com Dramin
Pra cobrir você de porra e te chamar de Curumim

Bebe o sêmen do Carvão, do Barney, do Aquaplay
Hidratando sua pele num grande bukkake gay
Vai na boca, vai no olho, festa da ejaculação
Se o gosto não agrada, tu tempera com limão

(UDR – “Dança do Bukkake”)


Editorial: O inferno é dos outros

Por José  Ismar Petrola

Inferno de jornalista é o leitor. E também as fontes que nós entrevistamos e nem sempre se dispõem a liberar as informações, os editores que insistem em cortar fora as partes importantes dos nossos textos, os prazos curtos para entrega de matérias, enfim, nosso próprio trabalho.

O tema desta edição da Babel é o inferno. Não só aquele que conhecemos das aulas de catecismo, com diabos cozinhando os condenados em caldeirões de água fervente. Inferno pode ser um local como a rua 25 de Março, evitada por muitos e procurada por outros tantos – uma aglomeração infernal de camelôs, lojistas, brasileiros, estrangeiros, assaltantes, suicidas, policiais etc. Ou o lugar onde se faz o que é considerado ilegal e imoral – não é por acaso que os bordéis, na linguagem popular, são chamados de “inferninhos”. Pode mesmo ser uma atividade estressante e perigosa, como a dos bombeiros. Ou ainda um estado mental, como o ciúme doentio ou o vício no jogo. Enfim, inferno é onde se sente muita dor, onde as pessoas estão condenadas a toda sorte de torturas. Mas, por incrível que pareça, há pessoas que sentem prazer com o sofrimento (deles ou de outros).

Ou, para citar uma frase conhecida do filósofo Jean-Paul Sartre, “o inferno são os outros”. Esta frase ao fato de que não aceitamos os outros como eles são. As relações entre as pessoas – entre o trabalhador e o patrão, a prostituta e o cliente, o namorado cafajeste e a namorada ciumenta – tendem a ser infernais. Não aceitamos certas características dos outros – justamente as que não aceitamos em nós mesmos.

Pensando um pouco mais, o que é o inferno senão o lugar para onde vão os maus, cujas atitudes são estranhas ou erradas? Ou o lugar onde acontece tudo o que consideramos bizarro e pecaminoso – orgias sexuais, sessões de tortura, terror psicológico, etc.

Judeus, cristãos, muçulmanos e praticantes de vários outros credos afirmam que, após a morte, muitos de nós irão para este lugar dominado pelo Diabo. O julgamento será feito no fim dos tempos. Há até quem creia que o dia do juízo está próximo – alguns chegam a afirmar que o mundo vai acabar em 21 de dezembro de 2012, de acordo com o calendário maia (segundo a versão do filme de Roland Emmerich que, por enquanto, está arrasando as bilheterias de cinemas). Num mundo em crise, no qual se perdem certezas financeiras e morais, é reconfortante imaginar que está próximo o dia em que os maus (sempre os outros) serão castigados com o inferno.

Enfim, “o inferno são os outros”

Esta frase foi cunhada pelo filósofo e dramaturgo francês Jean-Paul Sartre, fundador do existencialismo, na peça teatral Entre quatro paredes (no original, Huis clos), escrita em 1945. A peça se passa no inferno e as três personagens são mortos que já foram condenados. O cenário é um quarto onde uma pessoa está trancada com outras duas, sem poder desviar o olhar. Como todos estão mortos, ninguém pisca nem dorme. A sala tem apenas três sofás, posicionados de forma tal que quem senta em um precisa encarar quem está no outro. Não há como escapar ao olhar de ninguém. Um por um, entram os condenados ao tormento eterno: primeiro Garcin, jornalista e cafajeste que morreu fuzilado como desertor na guerra; depois Inês, a lésbica que levou sua amante ao suicídio, e por fim Estelle, que matou o próprio filho ilegítimo para manter as aparências sociais. Os sofás coloridos e a decoração da sala – estilo Segundo Império – não agradam às mulheres. Já Garcin não suporta ter de olhar para a estátua de bronze de um herói, que o faz lembrar de sua própria covardia. Mas o mais insuportável é ter de agüentar o olhar e a voz dos outros. Por que você está aqui no inferno? – pergunta cada um aos outros dois. As vozes dos que ainda estão vivos podem ser ouvidas na sala – na redação onde Garcin trabalhou, já existe até a expressão “covarde como Garcin”. Uma faca de cortar papel (por algum motivo colocada na sala) só serve para lembrar os habitantes do recinto de que eles já estão mortos e não adianta cortar os próprios pulsos. A porta está trancada e os três desgraçados estão condenados a passar a eternidade juntos. Não há nenhuma possibilidade de fuga. Como se vê, não é necessário um carrasco para que a tortura comece. A partir do momento em que as pessoas começam a implicar umas com as outras e não admitir as próprias fraquezas, o inferno está armado.

É no final da peça que Garcin, exausto após horas de jogo de gato e rato a três com Inês e Estelle, desabafa:

“Digo a vocês que estava tudo previsto. Eles previram que eu havia de parar diante desta lareira, tocando com minhas mãos esse bronze, com todos esses olhares sobre mim. Todos esses olhares que me comem. (Volta-se bruscamente) Ah! Vocês são só duas? Pensei que eram muito mais numerosas. (Ri). Então, isto é que é o inferno? Nunca imaginei… Não se lembram? O enxofre, a fogueira, a grelha… Que brincadeira! Nada de grelha. O inferno… são os Outros”

A frase “O inferno são os outros” ficou mais conhecida do que o próprio texto de Sartre, pela polêmica que traz. Não é fácil admitir, francamente, que o outro pode ser um carrasco. O cristianismo deixa explícito o mandamento bíblico: “Amai-vos uns aos outros” (João 13, 34). Esta máxima – amar ao próximo como a si mesmo – é comum a muitas religiões. Vários filósofos, como Rousseau, apontam para a importância da solidariedade na construção de uma sociedade harmônica. No marxismo, a solidariedade de classe é essencial para que os homens exerçam seu papel na História – sem a união do proletariado não será possível derrotar a burguesia.

O professor Franklin Leopoldo e Silva, da Universidade de São Paulo, parte da seguinte explicação para a frase de Sartre: em toda a filosofia moderna, há uma dificuldade de entender a existência do outro como sujeito. Em termos mais cotidianos: para nós é quase impossível enxergar outras pessoas como pessoas, dotadas de consciências e vontades próprias, e não meros objetos. Para Sartre, essa dificuldade gera uma tensão extrema – digamos, infernal – entre as pessoas, pois elas não conseguem tratar o outro como igual. Por isto, o inferno sartreano é uma sala onde três pessoas, condenadas a estarem frente ao outro, fazem cada um dos outros presentes se sentirem mal. “Este é o inferno: o outro te olha como coisa”, resume Franklin.

Esta situação de ser visto como “coisa” se torna um inferno constante – e, ao contrário daquele que vemos em gravuras assustadoras, é um inferno que vivemos todos os dias. Um relacionamento autêntico entre as pessoas é impossível. É difícil olhar para alguém e não dizer que é um “outro”, uma “coisa”.

Assim, cada um de nós se torna um carrasco para o outro – como na peça, em que se encontram três condenados ao inferno: Inês, a lésbica, assediando Estelle e apontando o dedo para Garcin, como um espelho que lhe diz: “seu covarde”. Garcin, que se finge de herói para esconder que foi ao inferno por covardia (desertou da guerra e traía a esposa sem o menor escrúpulo), por sua vez, tenta jogar na cara das duas mulheres todas as maldades que elas próprias tinham feito e não admitiam.

“Inês: Vão ver como é tolo. Tolo como tudo. Não existe tortura física, não é mesmo? E no entanto estamos no inferno. E ninguém mais chegará. Ninguém. Temos que ficar juntos, sozinhos, até o fim. Não é isso? Quer dizer que há alguém que faz falta aqui: o carrasco.

Garcin (a meia voz): Bem sei.

Inês: Pois é. Fizeram uma economia de pessoal. Só isso. São os próprios fregueses que se servem, como nos restaurantes cooperativos.

Estelle: Que quer dizer?

Inês: Cada um de nós é o carrasco para os outros dois.”

Mas, adverte o professor Leopoldo e Silva, a filosofia de Sartre não é individualista. O outro não é um inferno porque merece ser eliminado, mas porque somente ele pode ter acesso à nossa verdadeira consciência. Ele vê o que nós não vemos em nós mesmos. São os outros que apontam a responsabilidade que temos sobre nossos atos. Como alguns devem se lembrar, o existencialismo de Sartre também diz que estamos “condenados à liberdade” e que o homem se define não pelo que é, mas pelas escolhas que faz ao longo da vida. Acontece que a nossa liberdade é limitada pela relação com o outro. Na sociedade, todo mundo está em relação e depende do outro. E aqui mora o inferno: as pessoas não são naturalmente solidárias com as outras. É preciso ultrapassar a barreira do egocentrismo individual para construir uma sociedade.

Quando nós desejamos o inferno

A idéia de que o outro pode se transformar num inferno não foi criada por Sartre. Antes dele, a psicanálise já mostrava por quais linhas tortas nós criamos um “Diabo” que serve de bode expiatório para problemas que poderíamos enxergar melhor num espelho.

O psicanalista Christian Lenz Dunker, do Instituto de Psicologia da USP, explica que a afirmação de Sartre “não se refere ao caráter maligno ou diabólico do outro em si, mas ao fato de que os outros são demasiadamente importantes para nós”. Ele define o inferno sartreano como a situação em que alguém “depende demasiadamente do outro e por isso pode ser considerado ausente de sua própria vida, como um morto-vivo, reproduzindo costumes, preocupações e formas de vida inautênticas que nos impedem de amar”.

Dunker também chama a atenção para o fato de que só conseguimos perceber o outro como objeto. “Quando elegemos o outro como carrasco, nos fazemos de objeto e de instrumento para a tortura que este praticará contra nós. Nos dois casos vigora uma oposição do tipo atividade (conhecedor, torturador) e passividade (conhecido, torturado).” Segundo ele, esse problema se torna ainda maior porque só conseguimos perceber nossas próprias fraquezas através do outro. É a situação retratada no inferno de Sartre, onde não há espelhos e somente através da opinião dos outros podemos saber de nossa aparência – coitada de Estelle, que para corrigir sua maquiagem precisa se submeter ao olhar devorador de Inês, o “espelho das cotovias”… Nesta relação, a fraqueza do outro se transforma na minha força: o masoquismo de um se transforma no sadismo de outro.

Na peça Entre quatro paredes, cada um dos condenados utiliza os podres dos outros para agredi-los. A personagem que diz “o inferno são os outros” é justamente uma das que tem maior dificuldade de admitir sua própria responsabilidade pelos atos – Garcin, o desertor, que se agarra a Estelle como um náufrago a uma tábua, implorando que ela o considere um homem corajoso.

Mas o outro não é apenas indesejável. Como resume o psicanalista: “eu faço do outro livremente o carrasco de minha tortura”. Em certa passagem da peça, sem nenhum motivo aparente, a porta do inferno se abre. E os três condenados, mesmo com a possibilidade de fugir, decidem ficar na sala. Então, quer dizer que o outro é um carrasco – mas é o carrasco que eu quero para mim?

“Esta inversão é de fato a versão psicanalítica do inferno” – afirma Dunker – “os outros são infernais porque eles nos devolvem uma imagem, na qual eu posso ou não me reconhecer, à qual eu posso de fato depender”.

A origem do Diabo

Segundo Christian Dunker, “nossas figuras diabólicas são, via de regra, uma inversão de tudo o que gostaríamos de fazer e por medo, covardia, ou assimilação simbólica nos recusamos a fazer. Em outras palavras: diga-me aquilo que você mais veementemente nega e te direi quem és.”

Ele cita alguns exemplos: a bruxa e a possessa, figuras diabólicas criadas no Renascimento. A bruxa vive na floresta, nos confins da civilização, em comunhão com a natureza, preserva um modo de vida primitivo. Segundo a psicanálise, representa a infância do sujeito – um sujeito que é estranho a si mesmo em seus limites. Já a possessa é urbana, vive nos conventos e cidades, e se caracteriza por falar demais. É a pessoa que sonha acordada, revela sua intimidade e segredos em praça pública, perde sua individualidade. Nela habitam os demônios e por isso é preciso exorcizá-la – o que pode representar uma espécie de repressão ou recalque do sujeito. Referindo-se à teoria de Freud, o psicanalista afirma que “o conceito de inconsciente é forjado sobre o imaginário infernal. O inconsciente é este Outro, infantil, recalcado e sexual”, representado por imagens como a bruxa e a possessa.

Na teoria freudiana, a psique humana se divide em três instâncias: id, superego e ego. As duas primeiras são inconscientes: o id é responsável pelos processos mais primitivos do pensamento, as pulsões de amor (ligadas ao desejo sexual e de autopreservação) e pulsões de morte (desejo de destruição). É a parte mais instintiva da nossa alma. Já o superego se contrapõe ao id, representando os pensamentos morais e éticos internalizados. Ele é quem controla os impulsos do id e nos faz obedecer às normas que a sociedade nos impõe (sob pena de ir para a cadeia ou para o inferno). É o responsável pelo recalque de certos desejos que consideramos imorais e, por que não, infernais? Espremido entre os dois, permanece o ego, tentando alternar nossas necessidades primitivas e crenças éticas e morais. Esta é a parte de nós responsável pela nossa consciência, pensamentos, idéias, sentimentos e lembranças -  é a parte da mente que  você costuma considerar como sendo você mesmo. O superego vem de fora, das normas da sociedade; o id está no seu inconsciente e pensa barbaridades que você odiaria saber. Pelo menos, é o que Freud explica.

Para a psicanalista e professora da PUC Caterina Koltai, no livro Política e psicanálise: o estrangeiro, o conceito de inconsciente está relacionado com o de estrangeiro, que é representado como algo indesejável que deveria ser eliminado. Aponta ela que as tendências indesejáveis do próprio inconsciente são projetadas sobre o estrangeiro, e que antes de tudo é preciso aprender a reconhecê-las como parte do próprio sujeito – como ocorre na psicanálise. Só assim seria possível acabar com o ódio que desemboca em ações de xenofobia, racismo, fanatismo religioso, brigas de torcida etc.

Segundo ela, o que leva ao ódio é este processo de projetar no outro as características indesejáveis do nosso inconsciente. O outro, no caso, pode ser o estrangeiro, o negro, o judeu, a pessoa com deficiência, o homossexual… Koltai explica que isto é o que constitui a base do totalitarismo: ódio ao outro rejeitado e a si próprio.

E aqui partimos para as idéias do psicanalista Jacques Lacan – que se inspirou, e muito, em Freud e Sartre. O professor Dunker, especialista no pensamento lacaniano, explica as idéias do psicanalista francês: “O outro imaginário funciona como um depositário de minhas próprias projeções, em quem localizo tudo o que não admito em mim mesmo (imagem negada); em quem idealizo como concluídas minhas próprias limitações (imagem virtual)”. O outro que vemos como diabo não é o outro real, mas a imagem que nós temos do outro.

Caterina Koltai lembra em seu livro que o estrangeiro – um “outro” por excelência – é freqüentemente vítima desta idealização. Numa sociedade onde há limitações ao gozo, o outro é visto como alguém que pode gozar de outra forma, ou seja, desfrutar de um prazer que é proibido a nós. Daí vêm os efeitos de paixão, fascinação, agressividade, oposição e ódio em relação ao outro. A estudiosa comenta que esta relação pode ser tanto uma motivação para o turista que viaja a países “exóticos”, em busca de prazeres a que não tem acesso em sua própria terra (o contato com a natureza, os costumes estrangeiros, o sexo com prostitutas…) como para o xenófobo, que vê no estrangeiro uma ameaça para seu país, pois seria ganancioso, indolente e dotado de uma sexualidade sem limites, entre outras características diabólicas.

Outro detalhe muito importante: nós precisamos saber quem é o Diabo, não sossegaremos enquanto não tivermos uma definição. Segundo o psicólogo francês Jacques Hassoun num artigo publicado na coletânea O estrangeiro (também organizada por Caterina Koltai), nada irrita mais o racista do que o negro tão miscigenado que não se diferencia mais do branco, ou o árabe integrado à cultura europeia que assume um cargo público. Se o Diabo não existir, precisamos inventar um.

O psicanalista Christian Dunker comenta que, infelizmente, parece mais fácil entender o funcionamento deste processo de demonização do que tratá-lo. Ele explica, passo a passo, como se constrói um diabo:

A partir da identificação com um grupo, define-se também um contra-grupo, no qual se depositam todos os nossos medos e insuficiências. São os nossos inimigos: os torcedores do time rival, os estrangeiros, as pessoas que consideramos ser de outra “raça”, etc.

A partir do ódio que temos ao outro, construímos nossa identificação com um líder, figura privilegiada ou idéia. Por isto, exercer o ódio ao outro de forma coletiva (como numa torcida organizada, por exemplo) é uma forma de satisfação inconsciente.

Nas palavras de Dunker: “uma vez criado o ‘demônio’ ele começa a atrair para si um conjunto de figuras auxiliares, de paisagens, de complementos que formam gradualmente o inferno como depósito de tudo o que não conseguimos admitir ou tolerar em nós mesmos”. Na verdade, “o demônio serve para a sustentação de uma identidade defensiva, e tal identidade depende de um desconhecimento progressivo e continuado do próprio desejo.” O que significa que o inferno é formado pelos nosso próprios desejos que não aceitamos.

Outra característica do diabo, segundo o psicanalista, é que existe um “curioso vínculo erótico” entre ele e seu exorcista: “há uma espécie de curiosidade, um desejo libidinal oculto nas relações entre nazistas e judeus, misóginos e mulheres, homossexuais e homofóbicos, estrangeiros e nativos, etc.”

O diabo é excitante

O diabo é construído a partir dos nossos desejos inconscientes e proibidos – relação que foi investigada pela primeira vez pelo psicanalista austríaco Sigmund Freud. Num ensaio escrito em 1919, “Inquietante”, ele examina os significados do adjetivo alemão unheimlich, que se refere a coisas inquietantes, assustadoras, tenebrosas, medonhas (não há uma tradução exata em português). Unheimlich é o contrário de heimlich, que vem de Heim (lar) e significa familiar, escondido da vista dos outros (ou seja, oculto). Segundo a pesquisa de Freud, os termos equivalentes em árabe e hebraico são sinônimos de “demoníaco” – o que não é difícil de entender. O diabo não é mesmo entendido em assuntos ocultos, misteriosos, cujo nome não pode nem mesmo ser citado?

A partir daí, Freud analisa situações que são consideradas inquietantes, como a loucura, o transe epiléptico e os acontecimentos das narrativas de horror. Freud interpreta alguns contos de horror do escritor E. T. A. Hoffmann (autor de “O homem de areia”) para ilustrar que o sentimento de unheimlich se relaciona com emoções primitivas:num dos contos, a personagem teme perder os olhos – o que é uma versão do medo da  castração. O medo da morte e outras emoções presentes no próprio processo de desenvolvimento do ego também estão presentes nas histórias de terror. Autômatos, zumbis, coincidências entre pensamentos e acontecimentos, tudo isso nos parece muito estranho, por mexer com estas emoções inconscientes. O inferno talvez seja um dos exemplos mais gritantes de unheimlich. Consideramos como infernal tudo aquilo que rejeitamos, mas está presente no nosso inconsciente.

Outro psicanalista, Wilhelm Reich, inspirado em Freud e Marx, reforça ainda mais o caráter sexual da aversão ao outro. Para Reich, a principal fonte de insatisfação na sociedade capitalista é a interdição ao sexo, e esta foi a fonte que os nazistas encontraram para conseguir largo apoio na sociedade alemã, principalmente na classe média baixa. No livro Psicologia de massas do fascismo, Reich mostra como a propaganda nazista imprimia características diabólicas aos comunistas e judeus, ligadas à sexualidade. Os panfletos diziam que, entre os comunistas, haveria uma anarquia sexual, sendo permitidas aberrações como o estupro e o incesto. O judeu também era visto como lascivo, promíscuo, miscigenado, impuro e outros adjetivos. Os nazistas, ao detestarem esse judeu (que só existia na imaginação deles), estariam na verdade recalcando seu próprio impulso sexual, que desta forma só poderia se concretizar na perseguição, na agressão ao diferente.

Talvez, no fundo, a melhor definição sobre o demônio seja a do jagunço Riobaldo, personagem central do livro “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa. Após uma série de peripécias que incluem um suposto pacto com o Cão, o sertanejo conclui: “O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia”

Nesta edição de Babel, o leitor poderá conferir um verdadeiro passeio dos repórteres pelas profundezas do inferno e as artimanhas do Diabo – aliás, um dos nossos entrevistados de destaque. Nossos carrascos foram pessoas que morrem de medo de ir para o inferno, como os exorcistas que tiram demônios do corpo de seus fiéis, ou os milenaristas que crêem no fim do mundo em 2012. Ou aqueles que já têm certeza absoluta de que vão para lá – excomungados, assassinos e afins. Gente que já está no inferno – financeiro, espiritual, astral, etc. As pessoas que, por alguma ocasião, como a prisão, são submetidas a torturas diabólicas; e ainda as que querem sofrer as dores do Inferno e se sentem excitadas por isso, como os sadomasoquistas. Encontramos até mesmo adoradores do Diabo e pessoas que tentam ser o próprio Coisa-Ruim ou, pelo menos, agir como tal. Também há sacripantas que usam uma suposta possessão pelo Canhoto como álibi para não assumir a culpa por um crime. No Brasil, sobra para Exu, entidade do candomblé relacionada com a ligação entre o físico e o sobrenatural – e que não tem nada a ver com o Diabo. Na outra ponta, a busca do homem pela salvação, através do exorcismo e outros caminhos – inclusive a tecnologia, desde os barcos e as ferramentas ópticas até as formas de energia sustentável que, esperamos, impedirão que a Terra se aqueça e vire um inferno poluído.


Fobia: um inferno particular

Por Naiara Bertão

Olhos fixos, tensão, suor, ofegação, arrepios, desespero, tensão, contorções, gritos, choro, vômito, desmaio e medo. Numa sala escura, um homem está  deitado amarrado pelos pés e as mãos a uma espécie de maca. Seu corpo repousa nu e tenso à espera do desafio. Sua mente se concentra apenas no que virá e em mais nada. Não importa que há pessoas em sua proximidade porque elas não podem ajudar.

Quando o momento chega, o corpo começa a dançar. Mexendo-se de um lado ao outro, os músculos contraem e tentam rasgar as amarras que o prendem. Óbvio, em vão. A tensão aumenta quando finalmente o perigo está bem ali, embaixo da fina camada que separa sua nudez de seus repugnantes inimigos.

Aos poucos, eles vão se aproximando e tateando sem saber exatamente o que tocam. É nesse momento que os gritos começam, a ofegação se intensifica e o medo entorpece todos os seus membros. Sua mente não responde mais racionalmente. Seu instinto animal já venceu e luta, usando toda a sua energia, para sobreviver.

As ataduras não o deixam correr para longe dos hostis. Sem meios para fugir e sem força racional suficiente para suportar seu temor, ele é derrotado: clama por redenção e tem seus oponentes tirados de seu campo de visão. A batalha acabou. Sua respiração e coração começam a se normalizar, enquanto seu corpo sente ainda os efeitos da adrenalina circulando nas veias.

Vista por milhares de pessoas em maio deste ano, a cena acima descrita mostra a reação de um fóbico diante de seu medo de ratos. A agonia e o desespero do homem amarrado fazem parte de uma experiência cinematográfica de Kiko Goifman, intitulada FilmeFobia.

Seja através do homem nu contorcendo-se diante de roedores, seja através da mulher gritando diante da cobra, seja através do desmaio do próprio diretor diante de sangue, ou até mesmo do homem que não reage diante de seu medo de palhaços, o Filmefobia surgiu para levar as pessoas à reflexão sobre seus próprios medos.

“A ideia do Filmefobia partiu de um interesse particular meu pelo tema medo”, conta Kiko. “Medo é um tema tabu porque as pessoas não gostam de falar de seus próprios medos, fobias, por passarem a sensação de fraqueza”, fala.

Aliado a Hilton Lacerda no roteiro e Jean-Claude Bernardet no papel de protagonista, Kiko constrói a discussão do inferno do medo com cenas de fóbicos enfrentando, voluntariamente, sua fobia. O filme gira em torno de um making of de um documentário sobre fobia, que se propõe a confirmar a tese de que “a única imagem verdadeira é a de um fóbico diante de sua fobia”.

No jogo cinematográfico, Jean-Claude atua interpreta o diretor do documentário fictício inserido dentro do Filmefobia, que busca incessantemente a imagem autêntica. Na vida real, Jean-Claude conta que também possui repulsas. “Tenho uma profunda rejeição à minha imagem e voz. Acho minha voz insuportável e fecho os olhos quando me vejo em entrevistas ou filmes. Não tenho nenhuma fotografia, nem de infância”, fala.

Não só Jean-Claude, mas o próprio diretor, Kiko, rende-se ao tema, mostrando sua aversão à sangue em duas cenas do filme. Com o líquido girando em sua volta através de tubos desenhados pela artista plástica Cris Bierrenbach e também ao jogar um baralho de imagens de feridas, Kiko reage e desmaia.

“Minha fobia de sangue se manifestou na infância, quando um médico me fez desmaiar quando meu nariz sangrava. Depois disso, tive problemas em uma aula de educação física, sobre primeiros socorros, porque desmaiei na sala de aula. Péssimo. Na infância o pior era desmaiar com pequenos cortes, às vezes na casa de amigos…isso era duro…crianças são cruéis! Depois na adolescência foi ruim também, tive que ser dispensado de aulas de biologia sobre aparelho circulatório “, conta Kiko.

Desconstruindo o real e verdadeiro

Seja através de cenas de fóbicos de sangue, de cobra, ratos, borboletas, agulhas, ralos de banheiro, botões, anões ou da morte, o Filmefobia não se limita à discussão sobre medos, ele também propõe uma nova abordagem sobre o gênero cinematográfico. “Eu acho que se trata de um filme de ficção com atmosfera de documentário”, comentou Kiko em um festival de cinema na Suíça ano passado.

A mescla de gêneros começa com a escolha das personagens, já que o filme possui tanto fóbicos reais, quanto atores fóbicos e atores não fóbicos. Sem saber quem é quem, o espectador não consegue identificar se o que está vendo é real ou fictício, documentário ou ficção. Essa mistura entre os dois campos cognitivos também pode ser relacionada a própria concepção da fobia.

Segundo o psicanalista Ariel Bogochvol, a fobia se diferencia do medo comum por ser uma reação exagerada diante de uma situação irreal, que é ameaçadora apenas na mente do fóbico. Enquanto o medo comum se manifesta apenas diante um perigo real, muito associado à sobrevivência das espécies.

“A fobia nada mais é que a reação ansiosa de medo, temor, diante de um objeto, situação ou condição que lhe amedronta”, explica Ariel Bogochvol, que atualmente é médico assistente do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. Ariel também participou do Filmefobia no papel de um psiquiatra entrevistado por Jean-Claude que tenta desvendar as entranhas psicológicas desses medos.

“Há fobias que são respostas adaptativas ao perigo, que podem ser relacionadas com a evolução da sociedade, uma herança da espécie, como por exemplo, o medo de cobras, catástrofes e feras”, fala. “Mas há também fobias que são muito específicas, singulares, que não são partilhadas com a cultura, como no caso do medo de palhaço, botões de roupa, anões, ralos de banheiro e penetração”, comenta Ariel.

O psiquiatra explica ainda que algumas pessoas conseguem conviver bem com seus temores, a exemplo de uma alguém que tem medo de cobra, mas, por morar em uma grande cidade, dificilmente terá que encarar seu medo.

Apesar de a limitação eventual incomodar menos, quando o medo atinge locais essenciais, como ônibus, carros, metrôs ou trens, a vida do fóbico fica bastante comprometida, tornando-se um verdadeiro inferno, a exemplo dos agorafóbicos.

Confinamento

De origem grega, a palavra agorafobia advém da junção de dois vocábulos: agora (mercado, lugar aberto) + phobos (medo). Ao pé da letra, seu significado é medo de estar em espaços abertos ou no meio de uma multidão. Mas, na realidade, o agorafóbico teme a multidão pelo medo de que não possa sair do meio dela caso se sinta mal, ou mesmo de não receber socorro se algo de ruim acontecer, mas não pelo medo da multidão em si. Este transtorno está ligado a uma ansiedade antecipatória e a uma sensação de desamparo.

“A principal característica da agorafobia é estar associada ao transtorno de pânico. Geralmente, a pessoa relaciona esse transtorno a determinadas situações ou ambientes e passa a evitá-los com medo que resultem em ataques de pânico”, explica o psiquiatra Tito Paes de Barros, supervisor do Amban, o Ambulatório de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP).

Tito fala que muitos agorafóbicos evitam sair de casa sozinhos, estar  em meio a uma multidão, como em shopping centers, restaurantes, filas, cinemas, teatros e elevadores, viajar de automóvel, ônibus ou avião, ou até mesmo passar por uma ponte, passarela, túnel ou avenida larga.

“As situações que desencadeiam o processo são muitas. O agorafóbico teme enfrentar congestionamentos, passar por túneis e pontes, viajar em estradas que não tenham telefones de emergência instalados a uma determinada distância, isso porque julga que sair dali será difícil ou embaraçoso ou, ainda, porque o socorro não estará disponível se ocorrer uma emergência”, conta Tito.

A agorafobia pode impedir o paciente de ir ao trabalho, ao médico ou também de comparecer a eventos especiais como casamentos e festas, o que acaba prejudicando a própria convivência com a família. “Fobia significa um prejuízo na vida da pessoa e dos familiares próximos”, afirma o psiquiatra.

Tito conta que um paciente já falecido ficou 28 anos em sua casa, mais especificamente em seu quarto, sem nunca pisar para fora do apartamento em que morava com a família. Além de ter sua própria qualidade de vida prejudicada, os familiares tiveram que se adaptar a nova situação, com alguém sempre ficando em casa para acompanhar o fóbico e ajudá-lo nas atividades diárias.

Segundo o médico-psiquiatra Rodrigo Marot, que escreve sobre psicologia no portal Psicosite, essa dificuldade só pode ser superada pela companhia de alguém, mesmo que seja uma criança. Contudo, ao mesmo tempo em que a companhia passa segurança e tranqüilidade ao agorafóbico, ela também o deixa mais dependente, inclusive para fazer coisas mais elementares como comprar um pão na padaria.

Este é o caso da carioca Thairine Pereira. Atualmente com quase 19 anos (a serem completados em janeiro), Thairine ficou durante um ano apenas dentro de casa, após ter sido assaltada. “A agorafobia surgiu inesperadamente, foi como se uma coisa ruim iria acontecer… trabalhava no centro da cidade, aqui, no Rio de Janeiro, e fui assaltada, mas tempos antes eu já estava me sentindo insegura comigo mesma, passei a ter medo de ir à rua, medo das pessoas, via coisas e escutava coisa alienadas”, conta.

Thairine explica que ao sair na rua ela sentia uma insegurança tamanha de que as outras pessoas poderiam lhe fazer mal que começou a ter crises de pânico. “Eu sentia medo, falta de ar, minhas pernas tremiam e eu queria sair corrrendo”, fala.  Por causa do medo das crises Thairine largou tudo: trabalho, escola, cursos e sua vida social para se trancar dentro de sua casa, com medo de ir a qualquer lugar. “Minha família ficou totalmente desestruturada devido a minha doença. E os amigos, eu nem queria que eles me vissem, sentia vergonha e me via como uma fracassada na frente deles. Perdi minha vida social”.

Ela conta que em meados de maio, teve uma crise tão forte que ficou quatro dias sem dormir, mesmo tomando calmantes. “Me sentia como um fantasma vagando, com o olhar perdido, a única coisa que eu fazia era fumar, usei o cigarro como alimento e emagreci muito”, fala.

Com a perda da vontade de viver, Thairine até sentiu vontade de se matar, mas na hora não conseguiu, porque percebeu que não queria morrer. “Aos olhos dos outros me sentia uma inútil por não conseguir vencer os próprios medos. Fobia não é frescura, algumas pessoas pensam que isso é palhaçada, preguiça e etc., mas na verdade é um medo muito maior que o normal… o medo patológico é uma doença que precisa sim ser tratada, se eu não tivesse tratando a minha, eu poderia estar com uma doença psicológica bem pior”, comenta.

Há alguns meses Thairine começou a fazer terapia e tomar medicamentos para conseguir se controlar, como Rivotril e Cebrelin. Mas, mesmo assim, ela ainda sente muita dificuldade em sair de casa, mesmo acompanhada. “O máximo que vou é na casa de parentes”, fala.

Para ajudar a expor o que sente, ela criou um blog em outubro deste ano chamado Criatura Fraca!. Em um dos seus posts, em 12 de novembro, ela conta um pouco como é a sensação de sair na rua: “(…) quando eu to em casa é uma coisa que passa na minha cabeça quando eu to na rua é outra, tenho um tremendo pânico do mundo! De gente… Hoje de volta para casa me senti como se fosse aquelas meninas perdidas na vida… muito ruim! Como se eu fosse uma viciada, uma prostituta que fuma e cheira cocaína e não ta nem aí pra vida… é tão ruim ter esses pensamentos… Só eu sei o que passa aqui. Na verdade queria uma casa no campo, bem longe de tudo e todos acho que me recuperaria melhor, minha mãe queria que eu fosse pra São Paulo com ela e nem isso eu quis fazer, me divertir, ver meus amigos… eu não quis, como pode? Mas o melhor de tudo é que eu penso em melhorar e ficar bem e é assim que eu vou ficar e ponto final!”

PâââÂÂÂnico

Embora a agorafobia e transtorno do pânico estejam estreitamente conectados, nem todos os casos de pânico são necessariamente de agorafóbicos. Como explica Marot, do portal Psicosite, cerca de 1/3 ou até metade dos pacientes com pânico apresentam agorafobia. “As crises de pânico são bastante desagradáveis, mas não afetam o ritmo de vida como a agorafobia faz”, fala.

Para o psiquiatra Paulo Freitas, professor da UNISA – Universidade de Santo Amaro e administrador do portal Psicologianet.com.br, a agorafobia e o transtorno de pânico são os mais incapacitantes entre os transtornos de ansiedade.

Ele explica que no caso do pânico, a pessoa fica numa expectativa aterrorizante de que algo vai lhe acontecer e que não terá escapatória. Isso leva a uma ansiedade intensa e acaba resultando no aparecimento de sintomas físicos, tais como taquicardia, sudorese, tonturas, falta de ar, etc., que por sua vez, fortalecem ainda mais seu medo, como o que aconteceu com a jornalista Marina Leão Costa.

“Há uns anos atrás eu estava no parque temático da Disney com minha família. Ficamos um tempão na fila de um brinquedo que simulava uma viagem ao espaço, que inclusive era novidade na época. Sempre ouvia o aviso de que pessoas que tivessem claustrofobia não podiam entrar, mas como tinha tido nenhum problema com isso eu nem liguei. Quando entramos e sentamos, as portas se fecharam. Eu não sei exatamente porque, mas comecei a ficar com falta de ar e me sentir trancada sem ter como sair dali. Era um lugar bem apertado com quatro cadeiras uma ao lado da outra. Eu estava com meu pai e meu irmão”.

“Quando meu desespero aumentou, eu levantei e tentei abrir a porta, mas não consegui. Aí sim que entrei em pânico. Comecei a gritar, espernear, bater com violência na porta, pedir ajuda, mas ninguém abriu a porta. Minha família já não sabia mais o que fazer para me acalmar. Eles me fizeram sentar e tentar respirar. Fiquei fazendo isso por uns minutos até que a sensação ruim começou a passar. Acabei tendo que participar do brinquedo porque eles não abriram a porta, mas não curti nada porque ainda estava apreensiva, apesar de mais calma. Desde então tenho receio até de andar de elevador”, conta Marina.

Segundo Ariel, psiquiatra entrevistado para o Filmefobia, as crises de pânico, como a de Marina, costumam não ter um objeto claro, definido, desencadear da reação. Por isso, algumas pessoas podem acabar desenvolvendo fobias ao associarem a experiência ruim com a situação em que ela emergiu. “Elas elegem um objeto ou lugar como objeto fóbico de sua angústia e acabam evitando-o a partir daí”, diz.

Big Brother

Imagine-se sendo observado 24 horas por dia durante meses. Sua privacidade se reduzindo a zero enquanto desempenha tarefas simples do dia-a-dia como comer, dormir, ir à academia ou ainda tomar banho. O que milhões de pessoas estariam dispostas a lidar para alcançar visibilidade e fama, outras, os fóbicos sociais, já sentem calafrios só de imaginar.

Para o médico Rodrigo Morat, do Psicosite, a fobia social nada mais é que o excesso de ansiedade ou medo que certas pessoas sofrem quando observadas por terceiros durante alguma tarefa comum como falar, comer, dirigir, escrever, por exemplo. Esse incômodo é tamanho que pode impedir ou prejudicar significativamente a realização da tarefa.

“Conheci vários fóbicos sociais que deixaram de se formar na faculdade ou num curso de especialização porque no final seria necessária uma apresentação para a turma e isto seria intolerável. Conheci também pacientes (enfatizo aqui o plural) que recusaram promoções no trabalho apesar de saberem que eram competentes o suficiente para a função, mesmo deixando de ganhar mais e bloqueando sua ascensão na empresa, unicamente pelo medo de terem que falar em reuniões de trabalho”, conta Rodrigo Marot do Psicosite.

Por começar de forma muito discreta, dificilmente os fóbicos apontam uma data ou evento a partir do qual os sintomas começaram, ao contrário do transtorno do pânico. Rodrigo alerta que na maioria das vezes a fobia social começa no início da idade adulta, quando a personalidade e os traços de comportamento estão em fase final de consolidação. “Se não for tratada levará a consequências para o resto da vida, porque neste período são tomadas as decisões que direcionarão a vida de cada um”.

Ele fala que normalmente os sintomas se relacionam com o foco da fobia. Por exemplo, se o fóbico tem medo de falar com o chefe ou perante uma platéia, ele pode simplesmente ficar mudo. Se seu temor é de escrever, suas mãos podem ficar trêmulas a ponto de impedir que escreva.

Além dos específicos, Rodrigo conta que há sintomas mais gerais, como palidez, taquicardia, suor excessivo, falta de ar, mãos e pés frios, tonturas, tremedeiras, alterações de consciência, enjoos e desmaios. “Não é raro o paciente ter uma crise de pânico se insistir em enfrentar o problema por suas próprias forças, ou numa situação em que é pego de surpresa”, fala.

Fera contra fera

Além da agorafobia e da fobia social, há também as fobias consideradas mais comuns, como as de animais (zoofobias), agulhas e injeção, ambientes naturais e sangue. De acordo com o doutor Tito Paes de Barros do IPq da USP, as fobias de animais são as mais comuns, atingindo 11% da população.

Recentemente, o site científico norte-americano Live Science publicou uma pesquisa que aponta os dez principais medos dos norte-americanos. No ranking, o primeiro, segundo e nono lugar são zoofobias. (Veja a tabela)

O medo que mais arrepia os norte-americanos é o de cobras, ou ofidiofobia. Esta fobia é muitas vezes atribuída a causas evolutivas, experiências pessoais, ou influências culturais. De acordo com a matéria, o medo extremo de cobras pode evolutivamente ter deixado marcas nas pessoas, como sugerem alguns estudos. Eles falam que no passado, reconhecer uma serpente teria sido uma vantagem para a sobrevivência na selva.

Atrás do medo de cobras, ocupando o segundo lugar, está o medo de aranhas, bicho que atormenta Priscila Gonçalves Queiroz, estagiário de TI de 19 anos. Ela conta que desde criança sempre teve medo de insetos, em especial os aracnídeos, mas que viu seu pavor aumentar quando uma aranha caiu do pé de goiaba direto na sua mão.

“Foi uma sensação horrível, comecei a gritar, foi um escândalo. Minha tia que estava por perto pensou que eu tivesse me machucado”, fala. Na época, Priscila estava com quatro anos e desde então quando vê uma aranha começa a ficar nervosa, tremer, suar, sentir calafrios.

Calafrios estes que sentem também os cinofóbicos, ou medrosos de cães. Ocupando o nono lugar no Top 10 das fobias norte-americanas, o medo dos caninos acomete Julio, há mais de 20 anos. “Eu tenho uma imensa dificuldade de passar perto de um cachorro na rua se eu estiver sozinho. Acompanhado dá certa segurança, mas ainda assim existe uma tensão. Se eu vejo que tem um cachorro no meu caminho, normalmente eu troco de lado da calçada”, conta o revisor de São Paulo.

Julio fala que quando se confronta com um cachorro, não importando o tamanho, ele sente um medo excepcional de que o cão possa atacá-lo. “Mas quando o cachorro já foi embora e o ‘perigo’ passou, eu fico relembrando o que passei e imaginando desfechos terríveis que poderiam ter acontecido. E isso gera raiva e ansiedade”, fala.

Apesar de sua fobia ter se manifestado há mais de duas décadas, Julio só foi procurar ajuda há cinco anos, quando outros transtornos psicológicos começaram a aparecer, como TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Segundo conta, a terapia e a medicação o têm ajudado a amenizar os sintomas da cinofobia.

“Tenho conseguido ficar em casa fazendo minhas coisas com o cachorro da vizinha latindo por vários minutos seguidos sem me desesperar. Também consegui passar do lado de um cachorro que apareceu de repente sem sentir aperto no peito ou falta de ar e, depois também não fiquei imaginando coisas ruins. Eu sinto que está melhorando”, conta.

A despeito do ranking gringo, outro bicho que tira o fôlego (literalmente) de muitas pessoas são os roedores. Cecília Barroso foi uma das inúmeras pessoas que deixaram a sala de cinema quando viram seus objetos fóbicos performando no Filmefobia. “Quando os ratos começaram a aparecer foi me dando uma agonia insuportável. Eu saí da sala passando mal”, fala.

Cecília conta que sempre manifestou repulsa à ratos, mas seu quadro se agravou quando viu um roedor próximo ao berço de sua filha há alguns anos. “Eu precisava fazer alguma coisa, tirá-la de lá e precisei chegar perto. O pior é que ele não fugiu com medo de mim. Peguei minha filha e fui pra sala. Quando meu marido chegou, eu estava muda e não queria largar minha filha por nada. Apavorante”, relata.

No universo fóbico

Medo de altura, água, agulhas, anãos, aranhas, avião, baratas, bactérias, banhos, cobras, cordas, cometas, cristãos, demônios, doenças, dor, elevador, escuro, fezes, gatos, homens, injeções, insetos, lagartos, madrasta, mar, morte, música, noite, nudez, pelos, pombos, ratos, sangue, santos, ser vigiado, sexo, simetria, trovões …

Ao todo são quase 300 tipos de fobias, cada uma com suas particularidades, mas todas com uma característica em comum: o medo excessivo, que pode ser de um objeto, circunstância ou situação específica. Esta aversão exagerada é o que diferencia um medo “normal” – associado inclusive à evolução e à sobrevivência das espécies – de uma fobia, considerada doença.

Paulo Freitas, psiquiatra, fala que toda fobia provoca um desgaste emocional, físico e comportamental, por limitar algum aspecto da vida da pessoa, causar-lhe restrições ou até mesmo sérios transtornos mentais e físicos. “Ela vai desenvolver mecanismos de evitação da situação fóbica e com isso permanecer constantemente ‘armada’ e tensa, fortalecendo um círculo vicioso de medo”. Uma verdadeira prisão particular.

Não importa quando surge nem de onde vem, nem se é considerado grave ou moderado, não importa se a repulsa será seguida por tontura, gritos ou desmaios, a única coisa que importa para o fóbico é livrar-se de seu pesadelo, um pesadelo que não passa de adrenalina mental.

Sem saber diferenciar o que é de fato ameaçador do que não é, a única percepção que um fóbico sente diante de seu medo é a vontade de fugir ou matar, reações intimidamente ligadas aos instintos naturais de sobrevivência.

Em uma sociedade em que extremos são condenados e fugir dos problemas é sinônimo de fraqueza, como conseguem os fóbicos viver? Ao julgar um fóbico e reprimi-lo, isolando-o ou taxando-o títulos, não estaria a própria sociedade se tornando um fóbico de fobias? Afinal, existe alguém que não tenha seus próprios inferninhos particulares?

Lista de fobias

A

  • Acluofobia – medo ou horror exagerado à escuridão.
  • Aerofobia – medo de ventos, engolir ar ou aspirar substâncias tóxicas.
  • Afobia – medo da falta de fobias
  • Agliofobia – medo de sentir dor. Sinônimo de algofobia
  • Agorafobia – medo de lugares abertos, de estar na multidão, lugares públicos ou deixar lugar seguro.
  • Agirofobia – medo de ruas ou cruzamento de ruas.
  • Aicmofobia – medo de agulhas de injeção ou objetos pontudos.
  • Ailurofobia – medo de gatos. Idem galeofobia ou gatofobia
  • Automatonofobia – medo de bonecos de ventríloquo, criaturas animatrônicas, estátuas de cera (qualquer coisa que represente falsamente um ser sensível)

B

C

D

E

F

G

H

I

J

  • Japanofobia – aversão e medo mórbido irracional, desproporcional e persistente de japoneses e de sua cultura.

L

M

N

O

P

Q

R

S

T

U

  • Uranusfobia – medo do planeta Urano
  • Uranofobia – medo do céu
  • Urifobia – aversão e medo mórbido irracional, desproporcional persistente e repugnante a fenômenos paranormais
  • Urofobia – medo de urina ou do ato de urinar
  • Uiofobia – medo dos próprios filhos; medo da prole.

V

X

  • Xantofobia – medo da cor amarela / medo de objetos de cor amarela
  • Xenofobia – medo de estrangeiros ou estranhos
  • Xerofobia – medo de secura, aridez
  • Xilofobia – medo de objetos de madeira ou de floresta

Z


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