1º semestre de 2010

Let’s Swing Again – 7 noites de prazer

Por Caroline Carrion e Ligia Azevedo

Quem nunca swingou? Todo mundo um dia foi, ou irá. Se não por desejo, por mera curiosidade sobre esse ambiente que atiça a mente. Ao menos para os menos puritanos, ou “mais liberais”. Não foi, no entanto, com essa motivação que iniciamos esta matéria. Como repórteres (ou como as swingers Bel e Júlia) fomos tentar entender um pouco melhor esse mundo. Visitamos sete das doze casas de swing mais renomadas na cidade, dedicando-nos a essa atividade noite sim, noite não, por duas semanas.

Nós nos passamos por um casal de lésbicas, casais héteros formados por nossos amigos gays, garotas que traíam seus namorados uma com a outra. Numa dessas, talvez fomos convincentes demais: quase não escapamos de um beijo quádruplo, tivemos que fugir de investidas pesadas e nos esquivar de passadas de mão indiscretas. Colecionamos cantadas, admiradores e telefones escritos em guardanapos. E, pela primeira vez na vida, nunca fez tanto sentido a frase: “você vem sempre aqui?”. (Todos os nomes são fictícios, mas as situações são bem reais.)

Noite 1 – Domingo – Casablanca

Quem iria num domingo a uma casa de swing? Provavelmente os freqüentadores assíduos que querem começar bem a semana. Ou um casal iniciante, que quer aproveitar a entrada VIP. Como toda primeira noite, precisa-se de uma preparação especial. Passo um: a roupa. Melhor ir de saia para parecer mais convincente. Passo dois: escolher os nomes. Nomes que se lembrem depois e que se pareçam com os originais para qualquer esquecimento ser prontamente corrigido. Dois nomes que sejam comuns para não soar falso, e ao mesmo tempo não tão óbvios. Rodrigo e Júlia.

Destino: Moema, onde estão as principais casas de swing da cidade. Talvez pelas ruas pouco movimentadas, garantia da discrição que as casas demandam. 23h30. Chegam e o vallet abre a porta dela. O segurança revista Rodrigo. “O celular de vocês têm câmera?”, confere. Celular, só se pode atender no banheiro ou no hall de entrada da casa. A garantia de privacidade deve ser total. “Os nomes?” Os dois exitam por um instante. “Melhor dar os nomes de verdade, pra não perder a comanda depois”, a recepcionista aconselha, como se fosse muito comum.

Entram. Há algumas mesas brancas de buffet dispostas ao redor do palco. Meia-luz e um telão ao fundo com shows de Shakira e Pussycat Dolls. Alguns poucos casais sentados nas mesas, num clima de bar. É o dia menos freqüentado da casa, o público não vai passar de 15 casais. Querem pedir um aperitivo. Júlia encara bem o garçom e pergunta “o que você tem para… comer?”. Beliscam a porção enquanto olham ao redor, à espera de algum olhar sobre eles. Vários casais em clima de namoro, entre beijos e carinhos contidos. Dois casais sentados juntos em uma mesa, como velhos conhecidos. Um cara chega com mais duas mulheres. Os três se sentam num banco, as duas juntas e ele na ponta. Elas se olham e trocam sorrisos e carícias, bastante atentas às reações dele. Pouco depois mais três caras se juntam a eles. Elas continuam bastante interativas entre si, alimentando o fetiche dos outros três. Mais tarde sumiriam da parte social sem serem mais vistos pelo resto da noite.

Por vezes, um casal ou outro desaparecia por entre a porta que conduzia ao labirinto. O clima começa a mudar quando se aproxima a 1 da manhã. “It’s showtime, baby”, o DJ anuncia que o show está próximo. Passa um casal com malas – ela, uma loira com coxas dignas de um gladiador romano e ele, o típico “negão 3/4″ que povoa o imaginário de muitas. Sem dúvidas são os protagonistas. Pouco depois baixa-se a luz, e a fumaça de gelo seco varre o palco. Os dois entram e começam o espetáculo. Pouco a pouco as roupas dão lugar à pele. Os dois deixam tudo à mostra. Ele, com o membro rígido, contrariando a maioria do que se iria ver nos outros dias.
Terminado o show, o DJ convida todos para a sala coletiva, onde os strippers continuariam a “performance”. Saem alguns, logo outros, todos. Rodrigo e Júlia: “Acho que temos que ir, não?”.

Entram. Realmente um labirinto, com luz vermelha. No caminho, as cabines, algumas já ocupadas. Há do tipo privativas, sem conexão externa. Outras têm telas de madeira com visão para o exterior, vidros transparentes ou vidros espelhados. Outras ainda, com buracos para o toque e comunicação com outras. Vêem-se corpos e ouvem-se gemidos femininos dignos de atrizes de filme pornô. No final do corredor, a sala coletiva povoada dos que quiseram apreciar o que começou com o strip na pista de dança.

Um voyeur solitário grudado nos vidros parece “estimular” os casais com frases do tipo “nossa, que mulher gostosa! Isso, assim!”. Mas ele não se contenta em olhar e participar com palavras, e esmurra as portinhas dos buracos de toque. Invariavelmente enxotado, vaga de cabine em cabine em busca de alguém que possa se interessar em incluí-lo no prazer. Rodrigo e Júlia não escapam. “Não estão a fim de um ‘a três’?”. Uma vez. Outra. E mais outra. A insistência irrita Rodrigo. Os nervos se exaltam e parece não haver muito mais para ver sem escapar das investidas.

“Vamos?”. Parece ser a vontade de Rodrigo e de muitos outros casais que ali estavam. Na saída, todos os comentários têm o mesmo tom e o mesmo personagem. A personificação de por que homens sozinhos têm que pagar mais. A noite acaba ali, às 3h. A segunda-feira que chega parece menos convidativa do que todas as outras normalmente o são. Melhor dormir, para não chegar ao trabalho com cara de noite virada em pleno primeiro dia da semana. E nada que uma terça-feira não possa compensar.

Noite 2 – Terça – Noite do Ménage, Marrakesh

Terças-feiras podem representar o ápice do marasmo. Mas, para alguns clubes de swing paulistanos, é a “noite do ménage”, ou então “a noite das sedutoras”. Uma noite em que as mulheres devem tomar controle, experimentar novas sensações, explorar sua sexualidade. Júlia e Rodrigo convidaram sua amiga Isabel para irem como um trio ao Marrakesh, um dos clubes mais antigos da cidade. Sua fachada vermelha pretende ser um convite à fantasia. Uma fantasia elegante, mas considerada por alguns obscena. Talvez uma fantasia “safada”. Não seriam todas as fantasias assim?

Para os calouros, um pequeno tour pela casa. Um hostess, simpático e voluntarioso, apresenta as dependências ao swinger: bar, pista de dança, lounge e a parte íntima, composta por salas de diversos tamanhos, mais ou menos privadas, para o divertimento do casal. Tudo recoberto por plástico em estampas florais. Higiênico e talvez conferindo o “clima família” tão caro a esse mundo. A higiene também se faz lembrar nos papéis-toalha e pequenas embalagens de álcool gel nos cômodos íntimos. No fundo do salão social, uma cascatinha como se esperaria encontrar num motel barato. “Querem ficar?”, pergunta o hostess como quem diz “não diga que não foi avisado. Você sabe onde está entrando”. Oferece, então, uma mesa, um cardápio e um sorriso cúmplice.

O movimento só começou a aumentar depois da meia-noite. Ainda assim, a casa não ficou lotada. Na “noite do ménage”, o único trio eram eles. E também os mais novos, dando a sensação incômoda de atrair todos os olhares. Pouco antes do show, Júlia, Isabel e Rodrigo foram abordados por um casal. Ele, um senhor distinto, com ares de um avô atencioso, veio cumprimentar Rodrigo. “Parabéns, hein! Com essas duas belezas aqui do seu lado!”, apertando as bochechas das duas. Foram para a mesa, mas o senhor os encarou durante toda a noite.

Sozinha em um canto, uma senhora de meia-idade, na casa dos seus 50 anos, vestia um pretinho básico. Ela não demorou a ganhar companhia e sumir pelas cabines. Pouco depois, dançava novamente solitária na pista de dança. Outros três casais se dividiam entre a pista e as cabines. Elas ficavam dançando enquanto eles assumiam o papel de voyeurs. No meio da noite, os três casais foram expulsos. Os haviam entrado num esquema usual: “pegue qualquer uma na rua pra pagar mais barato”. Sozinhos, pagariam 180 reais. Com elas, seriam 44 consumíveis.

Bel, Júlia e Rodrigo também foram dar seu passeio pela zona sexual. A sala coletiva ficou vazia por toda a noite. As luzes fracas das cabines iluminavam corpos que se sobrepunham. Em uma delas estavam dois casais, mas era uma das menos iluminadas, um pedido de privacidade. Os três entraram em uma privativa. Sem visão externa, mas com portinhas de buracos para toque, que seriam insistentemente golpeadas durante todo o tempo que eles a ocupavam. Na porta, um aviso de que o local seria reservado aos strippers a partir da 1h15. Eram 1h. “O que fazemos agora?”. “…” … “…” … “Joquempô!”. E assim passaram seus 15 minutos ali. Desarrumaram os cabelos, amassaram as roupas e saíram, fazendo caras de prazer.

As duas meninas foram ao banheiro. Lá, a acompanhante do distinto senhor de antes ajeitava um fio-dental preto por entre o vestido de oncinha, revelando a marca de um chupão na bunda. E um olhar de prazer realmente sincero. Outras duas bochechavam o Listerine do galão que havia na pia. Na saída, encontraram Rodrigo ao lado de uma janelinha muito disputada. Na cabine, sete vultos: dois femininos e cinco masculinos. Uma das mulheres ajoelhadas, em posição oral. A outra, deitada em um dos sofás, recebendo um por um.

Já era hora do show. As luzes se focaram no meio do palco e entrou o casal de strippers. Ela, uma morena bem desenhada, vestida no estilo western. Ele, um mulato cheio de “ginga”. Chamavam um e outro para dançar. A stripper chamou Rodrigo. Ele relutou em ir, tímido e com medo de que Júlia o repreendesse. “Vai, amor, vai lá”, ela incentiva. Ele foi, mas ficou contido. Logo o stripper chamou Bel. A mesma timidez e retração. Depois, a stripper chama Júlia. As duas vão, ao som de “Man, I fell like a woman”. Elas dançam, encoxadas, alegrando a ala masculina. Levou-a de volta para o sofá. Depois de tirarem toda a roupa, não chamaram mais ninguém. Fizeram o show entre eles, numa coreografia simulando posições sexuais.

Terminado o show, as músicas de elevador deram lugar a um funk. Meninas com botas de couro falso requebravam freneticamente. Outros casais partiam para as cabines. Júlia e Rodrigo deixaram Bel sozinha por um momento, e ela logo conquistou várias amizades. Um gordinho que estava com sua namorada, mais um casal e um homem sozinho. Os três rapazes encararam a menina sozinha por muito tempo, mas, seguindo as regras do swing, o contato só foi feito depois de “aprovada” pelas parceiras. Uma garota se apresentou. “Oi, você está sozinha aí? Por que você não vem comigo e com os meus amigos?”. Claro, por que não?

Ela contava que era sua primeira noite no swing. Porém, um dos amigos a desmentiu sem saber, dizendo que ela já o havia acompanhado outras vezes. Davam notícias do Nefertitti, que naquela noite tinha uma festa fechada. “Só tinha gente bonita lá, a entrada tinha uma fila enorme. Mas não pudemos entrar por causa dele.”, o gordinho conta, apontando para seu amigo solteiro. Esse pega a mão de Isabel. “Você já conhece aqui atrás?”. “Não, só dei uma olhada antes”, mente. “Ótimo, então eu te acompanho. Não precisa ter medo, você não tem que fazer nada que não queira”.

De mãos dadas, entraram na sala só para casais. Lotada. Em um canto, duas mulheres e um homem faziam carícias a três, nas preliminares que muito em breve se tornariam sexo. Ao redor, muitos casais observavam, beijando-se ou se masturbando enquanto isso. O tempo todo, o rapaz só segurou sua mão. Isabel pediu para sair, esbarrando com Júlia e Rodrigo do lado de fora. “São meus amigos”. “Ela é sua irmã?”. “Não… ela é namorada dele… e nós meio que estamos juntos, os três”. Eles são convidados a “dar um passeio” com o grupo de amigos, mas “sem compromisso, só pra ver se rola, mas se não rolar, tudo bem”. Uma coisa era uma volta de mãos dadas pela sala para casais, outra era se trancar em uma cabine com cinco desconhecidos. “Acho que precisamos beber um pouco mais. Mais tarde voltamos aqui para encontrar vocês”, mentem com um sorriso.

Despediram-se, mas não voltaram para a mesa nem foram ao bar. Por uma noite já haviam vivenciado o suficiente. Ainda mais para uma terça-feira. Ao entrar no carro, risadas animadas pela experiência nova, nesse ambiente que acabaria por se tornar tão corriqueiro para as duas amigas. Uma dúvida os perturbava, e que acabou por se repetir nas demais noites: e as camisinhas? Um amigo que já conhecia o lugar disse que são vendidas no bar, mas não viram nem sinal disso. E será que numa sala com nove pessoas alguém realmente pratica sexo seguro? Era só mais uma das tantas coisas que deveriam ser observadas nas próximas semanas.

Noite 3 – Quinta – “Noite das mulheres: Os Gângsters”, Nefertitti

Luzes, música frenética e pista lotada. É o que normalmente se espera de uma balada. E não seria diferente no Negertitti, a auto-proclamada “balada mais liberal de São Paulo”. No Brooklin, no meio de muitas casas e ruas desertas, a fachada chama a atenção pelo clima Vila Olímpia. Um vallet recebia os carros, seguranças guardavam a entrada. É a casa mais cara de toda a cidade. Os preços podem chegar a R$ 170 o casal, R$ 200 para homens sozinhos. Naquela noite, dedicada especialmente às mulheres, cada garota sozinha pagava R$ 30, não consumíveis. A entrada não dava direito a sentar nas pequenas mesas que cercam a pista de dança. Isso custaria mais R$80 para o casal. As meninas se sentaram no clube do whisky, separado do resto da balada por uma parede de vidro. Lá o ambiente era outro: música calma, DVD de algum show na TV de plasma e possibilidade de sentar sem pagar o adicional. Foi lá que decidiram sua história para a noite.

Seriam um casal. Na noite das mulheres, esperavam encontrar outras lésbicas. E assim teriam uma desculpa plausível para afastar investidas mais fortes. Surge então o casal BelJu. Duas universitárias que se conheceram na faculdade. Uma veterana da outra, há seis meses vivem um relacionamento estável. As duas já tiveram experiências com homens, mas não gostaram muito. Isabel, no entanto, sente que Júlia sente falta de sexo com homens. Por amor a Bel, Júlia só quer outras meninas. Um relacionamento cheio de questões mal-resolvidas. Como muitos ali também seriam.

Depois da meia-noite o lugar começou a lotar. Após beber um “pecado” (todos os drinks têm nome de sexo) e um energético, elas estavam prontas para encarar a noite. O balcão do bar era também palco para o show de strip. No meio da pista, o mastro, como o de costume. Ao fundo, uma porta giratória leva às “atividades liberais”. O lugar parece um misto das 1001 noites com uma decoração mais japonesa ou chinesa. Além das usuais cabines de diferentes tipos, tinha também cabines fechadas somente por cortinas vermelhas, como um pequeno harém.

O show de strip foi o mais elaborado até então. Quem comanda é o DJ Carlão, que além de animar grande parte das casas de swing, também organiza outros tipos de eventos, como festas infantis. O tema da noite era “Os Gângsters”. Homens com cara de mau, ternos de risca de giz e chapéus sobre o olho. Mulheres de preto, salto alto, sobretudo. O show começava numa espécie de mezanino e terminava na pista de dança e sobre o balcão do bar, com participação do público. As strippers ficam completamente nuas. Os homens, como sempre, cobrem o membro, para tristeza da mulherada muito animada, principalmente das que subiram no balcão para dançar junto.

O clima é Vila Olímpia: a luz, as músicas, o público, as cabeças oxigenadas das mulheres, todas no mesmo tom de louro-médio que provavelmente só pode ser encontrado no Jacques Janine. Os homens sarados, cabelos espetados com gel, as roupas da moda. Às vezes chama a atenção um ou outro velho que destoa no visual, terno e calça jeans, sempre parecendo ter muito dinheiro.

Apesar de a maioria do público não ser swingers habituais, as abordagens foram mais sutis, exceto por uma ou outra muito agressiva. Um casal veio conversar com as duas garotas e o contato, ao contrário do normal, foi feito pelo homem. “Isso, vocês têm que dançar aqui mais perto da gente mesmo”. Ambos com mais de quarenta anos, mas ainda se portavam como se tivessem 20 e não conseguissem deixar a Era de Aquário e os anos 80 para trás. Ele, cabelos brancos, barriguinha de chopp, mas conservado, e um jeito meio afeminado. Ela, bonita, mais em forma que muitas mulheres de 20, cabelos com luzes louras, para não fugir do clichê. Blusa branca, calça jeans, salto alto. Contam que são donos de um famoso bar na Vila Madalena e de outro restaurante no litoral paulista.

O homem insiste no contato: “A gente chegou e notou vocês logo de cara. Porque vocês estão em outra vibe. O tempo todo se tocando, de mãos dadas, dançando juntas. É carinho isso que a gente viu e é o que a gente quer. Tem muita gente que vem aqui só pra meter e pronto, não quer nada além disso. Mas nós não, nós queremos outra vibe. Um negócio de respeito, de se gostar. Porque mesmo que só fique com você hoje à noite, nunca mais te veja de novo, hoje vou te amar e te respeitar”. Ela conta que tem medo de encontrar lá as filhas, de 22 e 18 anos. Ele não, mas que se encontrasse, “desde que ela estivesse com um cara legal”, não ia ter problema. “Porque o que importa na vida é ser feliz. Não faz diferença como, mas a pessoa tem que ser feliz”. Mas afirmou com convicção que isso não aconteceria: “elas são tão inocentes, não namoram, não bebem, não usam drogas. Mesmo quando a gente fuma maconha no nosso quarto, elas sabem, sentem o cheiro, mas nunca vieram pedir, nunca usaram”. Aparentemente até os pais mais liberais nutrem fantasias de inocência em relação a suas filhas…

Depois de conversar muito, começaram a investir mais pesado. Muitas recusas não aceitas, e a desculpa final foi que Isabel não estava conseguindo lidar muito bem com isso tudo, estava com ciúme. Algum tempo depois foram deixadas em paz, mas o casal aparecia ocasionalmente, com investidas discretas, sem nunca desistir de verdade.

Após uma discussão pelo ciúme de Isabel, as garotas se separaram. Júlia foi para a pista de dança, Bel continuou no bar. Abordada por um homem de cerca de 25 anos, digno da palavra brutamontes, Ju disse que não estava com cabeça para aquilo, que tinha acabado de discutir com a namorada. “Namorada? Mas que desperdício. Esquece dela e fica comigo!”. “Quanto preconceito, cara. Dá licença que vou cuidar da minha mina”. E foi o que fez, num timing perfeito, quando a resgatou de uma menina, mole de tão bêbada, que se jogava para cima dela. Ao perceber a discussão das duas, tinha ido conversar com Isabel, disse que era psicóloga, que podia ajudá-la. Depois confessou: “Não sou psicóloga. Sou estudante de enfermagem. Falei isso porque achei que assim seria mais fácil me aproximar de você. Eu não sou lésbica nem bissexual, sabe. Lá fora eu não teria coragem de fazer nada disso. Mas aqui eu posso me soltar, realizar minhas fantasias. É pra isso que este lugar serve. Aqui eu beijo meninas, gosto disso, mas não tenho medo de ser lésbica nem nada. Nunca transei com uma menina, só beijo”.

Depois de uma troca de olhares ciumentos, era hora de visitar o labirinto. Se na pista de dança já se podiam avistar casais se acariciando e meninas com seios de fora, lá dentro estava lotado. Na primeira sala, as cabines individuais estavam fechadas, mas podiam-se ouvir gritos de fazer inveja à atriz pornô mais experiente. Em frente às portas, uma rodinha de homens estava de pé, com os paus de fora, esperando uma mulher que, agachada no centro, fazia sexo oral em todos eles. Deviam ser cinco ou seis. A sala ao lado, com as cabines de toque, também estava absurdamente lotada, tornando impossível observar o que realmente acontecia lá. Numa tenda, havia um casal deitado numa cama: ele a masturbava, ainda completamente vestida, só sem a calcinha. Nos outros quartos, homens, principalmente, observavam casais através das cortinas vermelhas. A sala comum estava praticamente vazia todo o tempo.

É impossível transitar por esses ambientes sem que passem a mão em sua bunda na área da virilha. Também, apesar (ou talvez principalmente por isso) da condição de casal lésbico de Bel e Ju, era impossível dar cinco passos sem serem paradas por algum homem que queria um pouco de ação a três. Um deles, bêbado, ofereceu a mulher às duas garotas: “Fiquem com ela, olhem como ela é bonita. Eu não vou participar, vou ficar só olhando, prometo”. Ela claramente não estava disposta, mas ele insistia “está sim, ela gosta disso”. Uma das várias mulheres que não gostam da troca, ou do sexo a três, mas que vão a essas casas por medo de perder o companheiro.

Um último homem veio falar com as duas, com uma proposta quase criativa. “Olha, se vocês não gostam de homem, tudo bem. Não vou insistir para fazerem nada comigo. Mas só vocês duas não vão conseguir nada sozinhas, porque o marido sempre vai querer participar. Então me deixem acompanhar vocês porque, quando o marido chegar, eu o mantenho afastado, falo pra ele ficar só olhando, e vocês aproveitam a noite”. Já que ele não estava com sorte aquela noite, bem que podia fazer uma boa ação. Ele se auto-declarou, então, o guarda-costas das duas. Acompanhou as duas até a sala das cabines privadas. Elas entraram sozinhas, mas não sem dificuldade. Enquanto observavam o pequeno quarto, só com uma cama de solteiro reclinável, estilo hospital, papel-toalha (sem gel bactericida) e um lixo com uma camisinha usada, várias pessoas batiam na porta e tentavam forçar a entrada. Saíram, aparentemente frustradas e bravas. Despediram-se do guarda-costas, que as observou sair, na esperança de pelo menos um pouco de prazer voyeurístico para a noite.

Eram três da manhã. Estavam cansadas. A noite estava encerrada. A balada liberal tinha um ambiente de investidas muito mais agressivas que aquele das casas de swing, investidas talvez atiçadas pelo fetiche masculino pelo lesbianismo. Após um repouso na sexta, Isabel e Júlia teriam um dia para decidir qual seria a próxima casa.

Noite 4 – Sábado – GA10

Grupo de Amigos 10. Poderia ser qualquer organização de amigos para fins dos mais variados. Um grupo de amigos quarentões que se conheceram na faculdade e se encontram todo mês para relembrar os bons tempos. Um grupo de recuperação para pessoas com dependência emocional. Ou um grupo de jogos de RPG. Mas o nosso GA10 é um grupo de casais swingers que começou com 10 casais e hoje conta com mais de 200. Segundo o gerente da casa, conhecido por JC (siglas e fusões dos nomes do casal são comuns no mundo swinger), alguns casais começaram a se sentir incomodados com a mudança de público das casas de swing. A presença de curiosos, jovens e prostitutas passou a deturpar a ideologia original de troca de casais com carinho e respeito. “Teve gente que já encontrou até o próprio filho”, conta. Mas o clube tampouco é uma irmandade fechada, com entrada restrita, como o Rota 69. Pelo contrário. Foi um dos ambientes mais “convidativos” para Bel e Júlia.

Sábado à noite, Vila Mariana. No meio de um conjunto residencial, um pequeno corredor, ao final do qual se esperaria encontrar um típico hall de prédio. No fundo dele, o que temos é uma recepção com quadros de sexo nas paredes – todos eles pintados pela mesma pessoa (Cristiane Ribeiro?). Ainda, estátuas pseudo-gregas com um pequeno Eros e uma vitrine cheia de revistas especializadas – capas com grandes traseiros e seios à mostra. A recepcionista lhes dá as comandas – 30 reais para cada, com buffet livre. Refrigerante, cerveja, vinho, licor, e petiscos à vontade. Demais bebidas à parte. Mas com direito também a um roupão, se quiserem aproveitar sauna.

O plano dessa noite era ver como seria a experiência para duas mulheres sozinhas. Elas entram. Não só não levantam suspeitas como levantam a libido de todos os homens. Caem em um suposto cineminha. Uma televisão 29′ com uma cena de penetração explícita faz a alegria de um cara que se masturbava no sofá. Poucos passos e já são encoxadas. Atraem membros excitados como um ímã. Dessa vez pareceu mais difícil saírem ilesas do lugar. Elas se entreolham e, em uníssono: “Solteiras?… não!!!!!!! Pega na minha mão!!!!!!!”. Entra em ação novamente o casal BelJu.

Fazem o tour pela casa. Ninguém se deu ao trabalho de pegar o roupão a que tinham direito. A pequena sauna e um protótipo de piscina parecem abandonados, assim como um palco improvisado no meio do salão social. Nada de shows de strip dessa vez. Os casais conversavam em um tom de intimidade de amigos de longa data. Parece que ali não há iniciantes. No bar, o clube do whisky ostenta garrafas pela metade com nomes dos casais a que pertencem. A sala coletiva, exclusiva para casais, é a mais movimentada.

Logo JC se aproxima, como bom anfitrião. Conta um pouco da casa e tenta saber qual o que buscam ali. Já adianta: “aqui é sexo. Não tem aquela enrolação, não é que nem balada. O pessoal vem, conversa, dá vontade e vai lá. Aqui o negócio é sexo mesmo”. O ambiente do clube é realmente mais explícito que o das casas anteriores. Diante do lesbianismo declarado, diz que talvez ali elas não seriam tão bem sucedidas. Uma melhor oportunidade seria os churrascos de domingo, quando a casa realmente lota e recebe casais mais iniciantes. Ainda assim tenta agradá-las. Tentou nos apresentar um casal, sem sucesso.

BelJu se sentam no salão social, e buscando encontrar alguém que lhes poderia ser interessante. Chama-lhes a atenção duas mulheres sentadas, uma loira e uma morena, sozinhas numa mesa. Seria um casal? Júlia vai ao banheiro enquanto Bel tenta a aproximação, cumprindo a etiqueta. No mesmo momento, o namorado da loura apareceu, demarcando o território como um bom macho, mas logo se perdeu novamente pelos corredores. A curiosidade das duas se revelou, perguntaram bastante sobre BelJu. Comentaram que não acharam nada estranho um casal de lésbicas e que já haviam tido experiências sexuais com outras mulheres. Por sinal, se conheciam de uma das noites do GA10, mas a loira – Elisângela – não se lembrava muito bem. Júlia chega e logo depois, o namorado da segunda garota. No caso de ambos os casais, o namorado foi quem tomou a iniciativa de ir ao swing. Eles já freqüentavam casas do tipo antes do início do namoro. Elas os acompanham para evitar conflitos. Elisângela, estudante de enfermagem, namora há seis anos e meio. “Não vale a pena brigar por isso, ele gosta de vir e olhar. Se brigo, o relacionamento fica desgastado. É melhor vir junto”. Ela diz que demorou três anos para aceitar a idéia, no começo se sentia muito mal. Hoje não liga mais, mas também não gosta de participar. Sua cara de tédio e seu jeito retraído demonstram que o tema não é tão bem resolvido como ela diz.

Sem muito mais o que conversar, BelJu fazem um último passeio pelo labirinto. Lá, uma fila de homens esperava para enfiar seus membros num buraco na parede. Do outro lado, alguém lhes fazia sexo oral. Não demora muito e as duas são abordadas de novo. Era o namorado de Elisângela, cheirando a álcool e bastante interessado nelas. Puxando o assunto, disse que ele normalmente só olhava o que acontecia nas casas mas, quando se relacionava, era com sua namorada e outra mulher, nunca com outro cara. E não lhe atraía a idéia de ver sua mulher com outro. “Voyeur é tudo bicha. Homem que gosta de ver a mulher ser comida na verdade tá se realizando pela mulher dele, porque na verdade ele é que queria estar lá”. Como um bom ébrio, começa um discurso notável. “Vocês deviam conhecer o Inner (Club). Lá é muito bom, é a melhor das casas. É mais balada liberal, porque aqui é mais casa de swing mesmo. Aqui vêm mais casais, não tem tanta mulher sozinha. E, tem outra, casa de swing é um negócio de mais respeito, troca de casais. Swing não rola, eu gosto mesmo é de putaria!… Não reparem, tá? Eu sou meio louco assim mesmo. Aqui todo mundo tem distúrbio! Aqui ninguém é normal. Se a pessoa não tivesse algum problema, não estaria aqui, não é mesmo?”.

As duas concordam com tudo – há de se concordar sempre com bêbados – mas se esquivam, tentando sair do falatório embriagado. Eis que virando o corredor surge a oportunidade: a loira e a morena de antes tinham ido atrás de BelJu. A curiosidade as havia atiçado. Mas, ao verem o namorado de Elisângela, o plano parece broxar. Sorriram, disseram alguma coisa qualquer e saíram. Hora de BelJu irem também. Pouco depois, o namorado já perdido de novo no labirinto, Elisângela volta a procurá-las, timidamente. “Vocês não querem pegar meu telefone? Quem sabe um dia a gente não combina alguma coisa, toma um suco e se conhece melhor…” E anota o número numa folha de guardanapo. “Sem medo, viu? Sou feia mas não mordo não”.

Na saída, um homem pega uma chave de uma porta qualquer e dez reais a hora por algum serviço especializado. Logo ao lado da recepção, na sala de vídeo, duas portas que permaneceram fechadas por toda a noite. O que seria: um cine pornô privativo, para os mais tímidos? Algum serviço de prostituição? Uma cabine privativa para casais? Saem com a dúvida, mas tampouco parecia adequado perguntar.

Noite 5 – Segunda – “Segunda Romântica”, Inner Club

Segunda-feira. “Segunda Romântica”. Dois casais foram juntos em busca do clima de romantismo: Júlia e Rodrigo, Isabel e André. Júlia e Rodrigo, já não mais iniciantes, velhos conhecidos do Casablanca. André: um historiador, amigo de amigos de Bel, que topou ir à casa e a partir de então se tornou seu namorado de 2 anos. A entrada já antecipa o clima, com um painel onde se via a silhueta de uma stripper à contra luz. Chegam no meio do show. A stripper já está semi-nua, jogada sobre um dos freqüentadores, trocando beijos calientes com o moço. Isso, com a namorada dele do lado. Mais alguns ainda iriam provar da sua boca – e dos seus seios. Foi show mais interativo até então. Ela termina sua performance e entra o stripper masculino.

Vestido de moletom com muitas peças de roupa a serem despidas. Ele começa o show. O stripper pega duas mulheres da platéia para interagir. Uma morena e uma negra, a morena com uma calça jeans bem grudada nas coxas, a negra vestindo roupas coladas de oncinha. Tira a roupa das duas, deixando só a lingerie. Elas respondem muito bem aos seus movimentos, dançam com ele como uma coreografia. Seriam parte da equipe da casa? Ou só duas mais saidinhas? Dúvidas e hipóteses ficaram sem resposta.

Sentam-se André e Bel, Júlia e Rodrigo. Observam os casais ao redor. Depois do show, poucos continuaram na parte social. Era mais obscuro o ambiente do Inner. A luz mais baixa, quase não se enxergava a mesa do lado. Sentia-se algo mais pesado no ar. O clima era mais de inferninho do que de casa de swing. Talvez ali o público também era dos que “gostam mesmo é de putaria”.

Elisângela estava lá. Sentada, sozinha como sempre, imersa na escuridão da mesa ao lado. Calafrios de mentira pega. BelJu, o casal de lésbicas tão simpático da noite anterior, agora eram duas namoradas hétero de dois caras bonitinhos, com a cumplicidade de um longo relacionamento, no clima da segunda romântica. E agora? O que dizer? Caso perguntasse algo, Bel e Júlia na verdade tinham sim namorados. Mas gostavam de sair juntas e tinham um caso paralelo, eles não sabiam. No sábado, foram conhecer a casa de swing e tentar se divertir, mas a intenção era depois levar os dois propondo um swing entre eles, e, assim, oficializar o tesão de uma pela outra. Nada melhor do que um caso consentido. História montada, mas talvez desnecessária. Logo um homem se aproxima, numa conversa ao pé do ouvido com Elisângela. Talvez ela não fosse a namorada submissa que parecia ser. Todos têm suas meias-verdades, ainda mais em um ambiente desses.

Os dois casais se aventuram pela zona sexual. Um cineminha pornô – esse sim cinema, quase uma Sala Lilian Lemmertz. No fundo, algumas cortinas faziam dois ambientes para os casais que se empolgassem com o filme, onde um casal já se masturbava. Várias cabines: privativas, com buracos de toque, com janelas de treliça de madeira, o habitual. O labirinto sempre vazio. E com uma novidade: ao lado da porta de entrada, havia a “porta dos prazeres”. Uma porta com vidro fumê fosco, com buracos que davam para a parte externa. Duas mãozinhas convidativas lhes chamavam com o dedinho para se aproximarem. Mas a visão suscitou mais uma crise de risos contidos do que curiosidade.

Os quatro entram em uma sala privativa, mantendo o teatrinho. Ali também poderiam soltar todos os risos. “Não temos que fazer algum barulho, caso estivéssemos fazendo alguma coisa de verdade?”, alguém propõe. Rodrigo bate nas paredes. Simulam gemidos e respirações ofegantes. Enquanto isso, tiram fotos com o celular (ali ninguém veria) e jogam joquempô. Do lado de fora se ouvem os ruídos de gente curiosa que esperava a porta ser aberta para poderem participar. Quinze minutos depois, saem. Uma rapidinha estimulante. Encaram os olhares que os esperavam ansiosamente do lado de fora, sem correspondê-los. Passam pela sala coletiva, vazia. Na sala de casais, sexo explícito. Uma mulher sentada sobre o homem, com os seios à mostra, gritando que ia gozar. Um outro casal se masturba e outro faz sexo oral enquanto observa.

Enquanto em casal, ninguém foi abordado. Bel e Júlia se separaram dos namorados, e a situação muda. No caminho, um homem as seguiu. Thiago, profissão indefinida mas aparentemente bem rentável, vive uma semana num flat alugado ao lado do Shopping Ibirapuera, e outra nos Estados Unidos, onde trabalha. Prefere ir sozinho a pegar uma mulher qualquer só para pagar mais barato. Insistiu para ficar com as garotas, parou de pressioná-las quando essas disseram que deixaram seus namorados no salão. “Mas você vêm se divertir sozinhas e deixam eles lá?”, pergunta. “Ah, sim. Eles estão meio cansados e devem estar falando de futebol ou algo parecido. E a gente também se curte faz já algum tempo, mas eles não sabem.” (“Corno, broxa e burro.” Era essa a definição indignada que Rodrigo e André se dariam ao saber da história mais tarde.) Mesmo assim, Thomas busca um guardanapo para deixar seu telefone. Enquanto as duas esperavam que ele voltasse, um casal e um homem sozinho as encaravam fortemente a fim de ver alguma demonstração de lesbianismo. “Tenho muitas amigas bonitas que posso chamar para uma festa no meu flat. É bem espaçoso, aconchegante…”, diz Thomas enquanto anota.

As duas voltam à mesa, e os “namorados” realmente estavam conversando de futebol, mais animados do que durante o show de strip. Quase 4h, decidem ir. Bel e Ju vão ao banheiro antes de sair. Com mármores e um sofá de couro no centro, era digno do Pátio Higienópolis. Na saída do banheiro, Júlia cruza com o namorado de Elisângela. Ele olhou como quem reconhece vagamente aquele rosto, mas sem se lembrar de onde. Provavelmente seria mais um de seus delírios de bebedeira. Sim, Elisângela era mesmo a namorada submissa que o seguia com medo de perdê-lo. Na mesa, ela estava sozinha de novo e jogava joguinhos no celular. Ela e seu namorado foram embora sem falar com Júlia e Bel. Sensação de alívio ao mesmo tempo em que se sentiam mal por terem mentido para Elisângela. Nessas horas quais os limites de envolvimento com os personagens? Melhor dormir e tentar não pensar muito nisso.

Noite 6 – Quarta – “A fantástica sauna dos prazeres”, Bar Bacantes

Após visitar noites “tradicionais” para casais, noite do ménage e noite das mulheres, ainda faltava a experiência da possibilidade do ménage masculino. A única casa que oferecia uma programação nesse sentido era o Bar Bacantes, em Perdizes. “A Fantástica Sauna dos Prazeres” parecia a noite ideal para confirmar a inexistência na comunidade swinger de homossexualismo masculino. Por sorte, era a quarta-feira anterior ao final de semana da Parada Gay, a população GLS estava inflada pelos visitantes e turistas.

Isabel convidou um amigo gay, Marcelo. Foram como um casal. Curioso, Rafael, o namorado de Marcelo (e mais que obviamente gay) também foi, acompanhado de uma amiga, Cátia. Definitivamente não eram casais muito convincentes, mas isso era ainda melhor. Como os swingers, aparentemente tão homofóbicos, reagiriam a rapazes com calças justas e botas da Ellus? Os rapazes esforçaram-se, e muito, para não olhar horrorizados para o monte de seios e vaginas que veriam naquela noite. Provavelmente mais do que viram – e gostariam de ter visto – durante toda sua vida.

O Bar Bacantes é a maior de todas as casas de swing visitadas pelas meninas. A maior parte de seus três andares é ocupada por ambientes destinados ao sexo. Uma pista de dança, com um bar e algumas mesas, constitui o espaço social.

Também há uma sala de espera, com uma televisão ligada na Globo e três sofás de couro, na qual os homens solteiros esperam a oportunidade de entrar na casa (só são permitidos na proporção de um homem para cada três casais). Mas lá mesmo ocorreu a única manifestação de ménage masculino vista, e que nada tinha de homossexual: uma mulher com as pernas apoiadas em um homem e as costas em outro. Os dois homens vestidos, e ela só com uma blusinha, vermelha, levantada na altura dos seios. Calças e sapatos jogados no chão. Um dos homens a masturbava e, o outro acariciava seu corpo, particularmente os seios cobertos. Seus gemidos leves competiam com a voz do Jô, que entrevistava, muito apropriadamente, uma atriz pornô. E por mais surpreendente que possa parecer, a atenção de todos os demais estava muito mais focada no Jô e sua atriz pornô do que na pornografia ao vivo que se passava a apenas alguns passos de distância.

Ao entrar na casa, os dois casais, que se apresentavam como principiantes (e, exceto por Bel, realmente o eram), tiveram direito a uma visita pela casa. O habitual tour de reconhecimento. No primeiro andar, uma sala comum, duas salas para casais, um quarto enorme com duas camas gigantes e duas salas de toque, além de banheiros e dos camarins dos strippers. Lá os banheiros são mistos. No térreo há o vestiário, um mezanino de onde se vê a pista de dança e os quartos individuais. Como suítes de motel, mas menores, ficaram ocupados praticamente toda a noite. Já no subsolo é onde acontece a maior parte das atividades eróticas. Além do bar e da pista de dança, é lá que ficam o labirinto e a sauna.

A maioria dos freqüentadores são swingers de longo prazo. Um deles, o primeiro com que o casal MaBel conversou, explicou o verdadeiro significado de ménage masculino: “Homem com homem é proibido! Não acontece nunca, não pode acontecer! O que pode é a troca de casais, duas mulheres juntas ou dois homens com uma mulher. Mas só”. Além de homofóbica, a comunidade swinger também é machista: mulher com mulher é algo desejável, sexy; dois homens juntos seriam “viados”, o que é impensável. Ele já freqüenta o swing há mais de dois anos. Sua primeira vez foi no Bacantes, com uma ex. “Ninguém sabe que venho aqui. O sigilo é total. Até porque pode prejudicar outras pessoas, minhas companheiras. Eu digo que vim e logo alguém pode associar isso à minha ex-namorada, por exemplo. E aí, como ela fica?”.

Ele contou que conhece sete casas de swing: Bar Bacantes, Image Night, Inner Club, Enigma, Vogue, GA10 e Angels, este último no interior paulista, perto de Valinhos. “O melhor é o Angels. No interior as pessoas são mais doidas. O lugar sempre lota e o clima é muito mais quente. Agora, aqui em São Paulo, o único em que não vou é o Marrakesh. Costumava ser o melhor, mas eles começaram a liberar para prostitutas… eu acho uma falta de respeito. O cara tá lá, com a esposa dele, e entra outro com uma garota de programa só pra pagar mais barato. Mas aqui é ótimo. Vocês vão adorar!”.

Depois da conversa, Marcelo e Isabel desceram. Logo que chegaram ao subsolo, encontraram Rafael e Cátia parecendo assustados e falando com um outro casal. “Nós viemos mais para conhecer mesmo. Esses são nossos amigos que estão dispostos a algo”. A conversa começou. Ele, alto, gordo, com entradas, um jeito afeminado, professor de história, geografia e filosofia. Ela, corretora de seguros, cabelos curtos e maneiras masculinizadas. Ambos entre os 30 e os 40. “É nossa primeira vez aqui. Já experimentamos ménages, com homens e mulheres, mas em nossa casa. Com pessoas pagas para isso. Agora decidimos tentar o swing”. Casados há um ano, sua história parecia convincente, até que Isabel perguntou por quanto tempo namoraram antes disso. Hesitação. Ela diz, depois de um tempo, “um ano também”. Tudo pareceu falso demais. Mas, na sexta noite, já havia compreendido que todos têm suas meias-verdades.

Eles se mostraram insistentes. Queriam troca de casais, ou então ménage, com o homem olhando: “sou voyeur, gosto de vê-la com outros”. Isabel se esforçou para não rir, ao se lembrar da teoria do namorado de Elisângela “todos os voyeurs são bichas”. Com todos os quartos privados estavam ocupados, ofereceram sua própria casa: “É aqui perto, em Perdizes mesmo. Tem um ambiente legal, uma varanda. E temos toda a privacidade que quisermos”. Ao perceber a relutância do casal, desistiram. Mais tarde, encontraram Cátia e Rafael e disseram que tinham “umas substâncias bem legais na mochila, pra animar a noite, não querem ficar sozinhos com a gente e descobrir?”. Após várias negativas, deixaram os dois casais em paz pelo resto da noite.

O show de strip correu como o habitual: o homem, a mulher e, por fim, os dois juntos. Sentados em uma das mesas em frente ao palco, Isabel, Marcelo, Cátia e Rafael chamaram a atenção da stripper. Ela despiu-se na frente de Marcelo e atirou a blusa em sua direção. Rafael e Cátia saíram para não gargalhar e estragar o disfarce. Marcelo agüentou bravamente, quase convencendo que achava aquilo realmente sedutor. Quase.

Após o show, como sempre, o clima começou a esquentar. A maioria das pessoas se vestiu com os roupões disponibilizados na recepção. Todos se sentiam muito à vontade. Os homens se sentavam com as pernas confortavelmente abertas, sem se importar com o que ficava à mostra. Algumas poucas mulheres andavam só de lingerie.
Os quartos fechados continuaram ocupados por quase toda a noite. As salas coletivas quase não foram utilizadas. O labirinto estava lotado, com mulheres que faziam sexo oral em seus parceiros, cercadas por outros homens que se masturbavam enquanto observavam. A grande maioria estava na sauna. Mas nenhum dos quatro entrou para conferir o que realmente acontecia.

Bel abriu a porta para, vestida, tentando espiar alguma coisa e um homem completamente nu apareceu no meio da névoa. “Pode entrar se quiser”. Com um sorriso polido de “deixa pra depois”, ela fechou à porta e voltou ao salão. Mais tarde, ela e Marcelo perguntaram a um homem se ele havia ido à sauna, porque queriam ir mas não sabiam muito bem o que esperar. “Podem ir tranqüilamente. É só pegar um roupão. É bem sossegado. Não fiquei muito tempo porque minha acompanhante não gosta de sauna, os olhos dela ardem. Mas pelo que vi é bem calmo, podem ir sem receio”.

Depois de ver esperma no chão, sacos enrugados, vaginas completamente expostas e uma mulher vomitando no salão, além da oferta para consumo de drogas, os dois casais acharam melhor dar a noite por encerrada. Eram 2h30. Marcelo e Rafael brincavam: “Nunca vi tanta vagina na minha vida! Vou ter pesadelos por uma semana!”. Cátia ria, mas estava chocada. A experiência valeu como conhecimento antropológico. Bel pensava que só faltava uma noite agora. Uma sexta-feira, para encerrar a semana.

Noite 7 – Sexta – Oficina Pamela Vogue, Vogue Club

Era a última noite. Depois de duas semanas imersas no swing, Bel e Júlia finalmente iriam experimentar a única noite que lhes faltava, uma sexta-feira. Ainda tinham, em sua lista, algumas opções. Enigma, Image Night, Vogue. O escolhido foi o último. Já haviam escutado muito a seu respeito. Além disso, de todas as casas, era o que apresentava o site mais atraente e atualizado. Por fim, a programação era “Oficina Pamela Vogue”. As meninas reconheceram o nome, renomado no meio swinger.

Pela primeira vez, foram como duas meninas heterossexuais. Duas amigas que deixaram seus namorados em casa para se divertir um pouco. Assim poderiam dar continuidade à história do “corno, burro e broxa”. Os namorados pensavam que estavam fazendo um trabalho para a faculdade. Não era de todo mentira.

Como a maioria das demais, a casa fica em Moema. Uma entrada com sinalização em néon vermelho já indica o clima de sexo. Após deixar bolsas, casacos e celulares na chapelaria, as meninas atravessam uma porta de madeira de vai-e-vem, como aquelas de desenhos de velho oeste. Uma mulher as recebe, pergunta se é a primeira vez que visitam a casa. “Bem-vindas. Aproveitem a noite”.

Era, sem dúvida, a casa mais glamurosa, com um quê de cabaré antigo que chega a ser irresistível. As poltronas das mesas são em couro vermelho. No centro da pista de dança, há um círculo, como um disco de vinil em mármore preto e branco, em cujo centro fica o poste para o show de strip-tease. O bar ostenta garrafas, jovens garçons e uma garçonete que depois se mostrou a melhor go-go do mundo.

Sem jantar, Júlia e Isabel se sentaram e pediram por algo para comer. A casa não serve porções, só bebidas. Só no final da noite servem um café da manhã. Com pelo menos um energético no estômago, era a hora de conhecer o labirinto antes que ele estivesse lotado demais para se locomover com segurança. Logo de cara, uma das salas lhes foi barrada por um segurança. “Aqui é só para casais”. Continuaram pelo outro lado. Viram cabines privativas sem porta, só com cortinas, como no Bacantes. Salas comuns, cabines com portas, um pequeno cinema pornô e cabines para toque.

A casa foi lotando aos poucos. O público era bastante variado. Havia alguns casais mais jovens, por volta de seus 25 anos. Outros na casa dos 40. Poucos acima disso, talvez um ou outro homem cinquentão, mas sempre acompanhado de uma mulher mais nova. Poucos de aventuravam na pista, sobre o disco de vinil. Duas meninas, que já pareciam bêbadas, brincaram um pouco no poste, dando voltas como crianças. Pouco tempo depois, o DJ, que parecia mais ser DJ da A lôca, anunciou o show, que “arrasa!”.

Primeiro a mulher. Um suposto número de dança cigana, com uma loura tingida vestida de bailarina do ventre ao som de uma música cubana. Chamava os homens para participar, mas eles se contentavam em ser meros adereços, ficavam encostados no poste, enquanto ela abria seu soutien ou o deixava pendendo sobre os seios siliconados. Depois, ele, um moreno. Como todos os strippers, era enorme, provavelmente dedicava boa parte de seu dia à musculação. Estava todo de couro, no melhor estilo bad boy, com uma bandana com a bandeira dos Estados Unidos amarrada no joelho. Ao contrário dos homens, as mulheres interagiam. Duas delas pareciam ainda mais empolgadas, doidas para participar do show. Desciam rodando pelo poste, apoiadas em seus punhos. Rebolavam, dançavam e se esfregavam. Ele chama uma outra, que agora parecia ser mais uma stripper. Num só movimento ágil, tira todo seu vestido e a deixa só de fio dental. Pouco depois, nua em pêlo. Eles ficam completamente nus, numa dança que simularia o ato sexual.

Após o show, como sempre, as pessoas ficaram mais predispostas à ação. Depois de um momento de indecisão entre labirinto, abordar um casal ou esperar que as abordassem na pista de dança, Ju e Bel optaram pela pista, lotada. Garotas sem blusinhas, só com seus soutiens de renda, já dominavam os postes secundários, sobre uma pequena plataforma que cercava parte da pista. A garçonete, vestida ao melhor estilo militar (“porque a bota é indispensável para deslizar no poste”), dançava freneticamente no poste, tirando a suposta cigana da mente de qualquer um dos presentes. Tinha uns 40 anos, mas o corpo dava inveja a qualquer uma de 20. Chamou Júlia para dançar com ela. Júlia foi, Bel também. Fizeram um sanduichinho em volta do mastro, que logo se tornou uma muvuca com todos os que estavam na pista.

As duas meninas se perderam e, quando percebeu, Isabel estava num “sanduíche”, entre uma garota bonita de longos cabelos castanho-claros e um homem forte, ambos na casa de seus vinte e tantos anos. Eram um daqueles dois casais que dançavam animadamente e participaram sem receios dos shows de strip. “Oi, meu nome é Diana. Esse aí é meu irmão, Antônio”. Impossível não pensar em Bertolucci. As apresentações continuaram: “Sabe aquele outra casal que estava com a gente, antes? É meu pai e a namorada dele. E sabe o stripper? É meu namorado”.

Depois a história se explicou, ao menos o máximo que poderia. Principalmente partindo de uma Diana muito bêbada. O irmão havia se separado da esposa há duas semanas. Ela quis levá-lo ao swing para que ele se soltasse. “Aqui é a balada mais firmeza que tem, só tem gente bonita e legal. Meu namorado se apresenta em todas as casas de swing, mas é só aqui que eu o acompanho”. Quanto ao pai, parecia não haver motivo para ele estar lá. Apesar do clima de entrosamento, Antônio confessou não se sentir muito à vontade: “Ah, eu fui lá atrás, no labirinto, para conhecer, mas dei de cara com meu pai e a namorada dele. Voltei na hora”. E Diana, cada vez mais bêbada, confessou depois para sua mais nova melhor amiga, da qual ela provavelmente não se lembraria no dia seguinte: “Meu relacionamento está indo por água abaixo… Eu namoro um stripper!”. E não, de acordo com ela, eles não são swingers.

Pouco depois, Isabel encontra Júlia conversando com um homem no bar. Ele tentava conseguir um ménage à trois. Estava acompanhado da mulher que se despiu completamente no show, e que pensavam ser uma outra stripper. Júlia comentou, mas o suposto namorado negou. Ela não era da equipe da casa. Tampouco parecia sua namorada. Sua aparência lembrava, e não pouco, a de uma prostituta. Após diversas recusas de Júlia, ele continuava tentando convencê-la falando de suas diversas “namoradas” e “amigas”, que adoram sexo a três. Enquanto Isabel bebia uma água apoiada no bar, era sua vez, de ser abordada por um personagem estranho.

“Oi. É a primeira vez que você vem aqui, né? Dá pra perceber, pelo seu jeito retraído, de quem tá achando tudo novo e estranho, mas não se preocupa não”. Ele se apresentou como Roberto Carlos. “Sabe, Roberto Carlos, o rei do rock”, e fez um sinal meio punk, balançando a cabeça, para ilustrar seu próprio nome. “Você sabe, se você quiser eu posso acompanhar você, para mostrar a casa. Com respeito, você não tem que fazer nada se não quiser”. Ele obviamente a estava encarando como sua passagem livre para a sala exclusiva para casais. Por que ela não devia fazer o mesmo?

O que se seguiu foi praticamente uma visita monitorada à casa de swing. Se fosse realmente sua primeira vez, aquilo tudo teria sido muito instrutivo. Ele explicou as regras, que a abordagem deve ser feita pela mulher, que é tudo muito sutil, pelo toque ou olhar. Disse que há todo tipo de atividade, gente que gosta de ver, de ser visto, de fazer troca de casais ou sexo a três. Insistiu que homossexualismo masculino não acontece. Mas perguntou, com interesse, se ela e sua amiga eram um casal.

A sala para casais era maior que as outras. Com duas camas e bancos estofados ao longo da parede, poderia comportar cerca de vinte casais. Além disso, havia uma pequena sala contígua, revestida por vidro para aqueles que gostam de observar à distância. Nada acontecia no momento. Dois casais trocavam carícias leves, enquanto outros conversavam com a mesma naturalidade que o fariam numa mesa de bar.

O restante do labirinto estava cheio. As cabines individuais fechadas, um casal se masturbando, e depois transando, no cine pornô. Um grupo de cerca de dez pessoas se espremiam em um corredor, todos tentando observar o que acontecia em uma das cabines. Um homem fazia sexo anal com sua companheira. Do lado de fora reinava um clima de indignação. “Não dá pra ver nada, tem muita gente aqui”. Ou ainda “Que saco, a bunda dele tá bem na frente, não consigo enxergar porra nenhuma”.

Por fim, ele fez uma proposta de que as meninas já haviam ouvido falar. “Se você quiser, vamos juntos a outras casas de swing. Sem compromisso. É muito caro pra homem entrar sozinho. Eu pago a comanda, mas lá você pode fazer o que quiser”. Namorava, mas a garota não faz idéia de seus hábitos swingers. No dia seguinte, ele iria levá-la pela primeira vez ao swing: “mas não pode ser aqui, onde todo mundo me conhece pelo nome, vai pegar mal, ela vai se tocar. A gente vai ao Casablanca”.

Na parte social, algumas pessoas ainda dançavam e Júlia continuava tentando se esquivar do mesmo homem. Duas meninas, uma delas já sem camiseta, destacavam-se pelo modo como dançavam no poste. A menina só de soutien, a mais simpática das duas, explica que estavam fazendo aula de pole dance há duas semanas, em uma academia na Vila Mariana. Conheciam a dona, por isso tinham desconto. “Mas se vocês quiserem, posso indicá-las e ver se pagam mais barato. São três aulas por semana, de duas horas cada”. Como sempre, anotou seu telefone num guardanapo.

Ela não estava lá sozinha, mas praticamente não viu o namorado a noite toda. “Ele deve estar lá atrás aprontando alguma. Eu não gosto de ir lá, me sinto mal. Mas não ligo que ele vá. Eu sou mais eu. Ele vai aprontar de qualquer jeito, pelo menos assim eu sei o que ele está fazendo. Mas eu sei que aquelas meninas não têm nada perto de mim”.

Perto das 4h, o café da manhã estava servido. Melhor preparar os pratos antes que mãos cheias de sêmen pudessem tocar a comida. Salsichas, pão, bolo e café. Depois de comer, foram embora. A única frustração foi não ter encontrado Pamela Vogue, esposa do dono da casa, stripper e professora de strip-tease. Havia sido a última noite. Entraram no carro sem poder evitar um quê de nostalgia. Pensavam se seria a última noite de suas vidas numa casa de swing. Depois de todas aquelas experiências, será que voltariam? Para negócios ou prazer?

Também pra elas, a experiência do swing lhes revelou algo: uma capacidade imensa de entrar no personagem, e uma afinidade imediata entre duas colegas que mal se conheciam. As suas verdadeiras pessoas lhes eram quase desconhecidas, mas Bel e Júlia pareciam companheiras de longa data. Bel e Júlia talvez não morreriam ali, uma pontinha delas sempre estaria presente nas duas.

1/2 noite de reflexões

Inicialmente, o swing era cercado de uma aura romântica. Os casais se importavam com as histórias dos outros, era realmente um programa para dois (ou mais): eles se conheciam, tinham mais de um encontro, e provavelmente iniciavam uma espécie de relacionamento duradouro. Claro que a regra principal era que fosse sempre só sexo, sem amor, pois isso seria traição. Mas havia cumplicidade, comprometimento. Uma opção para casais sérios que queriam apimentar a relação e não tinham medo de novas experiências sexuais.

Com o tempo, isso começou a mudar. O público passou a ser mais variado: curiosos, em sua maioria jovens ou homens solteiros, em busca de sexo casual, grupal, ménages. As casas se tornaram um local para local para voyeurs, ménageurs, putas e curiosos. Homens tarados e mulheres inseguras que têm medo de ficarem sem seus maridos/namorados. Ou ainda mulheres que têm fantasia de serem Alziras e dançarem no queijo. Com o público, o clima mudou: de romantismo e intimidade para baladas liberais e glamour. As músicas de elevador e ambiente de motel, ainda vistos em alguns locais, deram lugar à batida frenética e às luzes da Vila Olímpia.

Hoje, ainda, a maioria dos freqüentadores swingers é da faixa dos 40 ou 50 anos, casais com um relacionamento estável. Nas casas de swing, impera um clima familiar, materializado no plástico de estampas florais que forra os sofás das cabines do Marrakesh, um dos mais antigos clubes da cidade. Já nas baladas liberais, o público é por volta dos 30, e mais curioso. Essas casas são caras, voltadas para pessoas mais abastadas. O preço talvez seja um modo de selecionar o público. Ou casas mais populares podem não ter sucesso pelo maior conservadorismo das classes de menor renda, talvez presas na moralidade de um cristianismo mais fervoroso?

O lema é “tudo é permitido, mas nada é obrigatório”. Há uma atmosfera de liberdade, mas que pode ser coerciva. Os drinks com nomes eróticos são o primeiro passo para “entrar no clima”. Depois de beber um “orgasmo”, quem não se sentiria mais solto? Mas parece que mesmo assim muitos não se deixam levar pelas fantasias. O que mais há é o fetiche de ver e ser visto, e não propriamente uma ação. Vimos mais masturbação do que penetração, pouca troca de casais e poucas cenas de sexo “em grupo”.

Geralmente é uma mulher que recebe vários homens, e não várias pessoas interagindo entre si. A maioria das relações sexuais é pautada pelos desejos e fetiches masculinos. Mesmo dentro do ambiente do “aqui tudo é permitido”, há certo ar de conservadorismo. Os verdadeiros swingers são machistas, não gostam muito de jovens, abominam homossexuais e prostitutas. Toda minoria é conservadora e extremista.

“Nada é obrigatório” também é relativo. Muitas vezes as mulheres se vêem forçadas a freqüentar tais ambientes com medo do que poderia implicar um “não” aos seus companheiros. Não encontramos relações bem resolvidas, e talvez nem os freqüentadores esperem encontrá-las. Como disse o namorado de Elisângela “aqui ninguém é normal”. E a maioria dos freqüentadores vai “para meter”. Um único casal com que tivemos contato demonstrou realmente fazer consensualmente e por prazer, “fazendo amor”. A maioria das relações se restringem ao ambiente da casa, e as pessoas estabelecem uma relação paralela com seus com pseudônimos.

Sexo seguro. Outro ponto que salta aos olhos. Ou, aparentemente, não. O único lugar onde vimos camisinhas à venda foi no Nefertitti, onde havia uma máquina de camisinhas ao lado de um dos banheiros da área “sexual”. A suposta venda no bar do Marrakesh não foi comprovada. Algumas camisinhas usadas eram encontradas nas cabines, mas a proporção era bem pequena se comparada ao número de trepadas. Na hora do tesão, será que alguém pensa nisso? E no sexo grupal? A higiene no geral se restringe aos bactericidas, álcool gel e toalhas de papel dentro das cabines e o Listerine nos banheiros. Porque, afinal, mau hálito é broxante.

Para alguns, todas as fantasias sobre swing se esgotaram. Para outros, é um ambiente atrativo pelas histórias. Foi o nosso caso. Outros ainda se descobrem ali e vêem o lugar como vazão para desejos reprimidos ou desconhecidos. Deixamos ao leitor a oportunidade de descobrir a sua impressão. C’mon baby, let’s swing again…

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Uma resposta

  1. Antônio Carlos

    Sou uma cara cinquentão, mas não gosto de usar roupas de velho, estou certo ou errado.

    Antonio Carlos

    novembro 24, 2010 às 3:07 pm

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