1º semestre de 2010

Quando a gente vai dessa pra melhor, ainda rola uma trepada?

Por Luiz Prado

Cansado de viver subjugado pelas atribulações mundanas, tomei a resolução de me dedicar, tal como Cristo no deserto, às questões cruciais do gênero humano. Guiado por esse propósito, decidi peregrinar, sob o sol e as estrelas, sendo levado e deixando-me levar por inclinações superiores, almejando respostas para uma inquietação interior:

Quando a gente vai dessa pra melhor, ainda rola uma trepada?

O lugar errado

Começo a jornada rendendo homenagem a minha displicente formação religiosa e deixo meus passos serem conduzidos até o Mosteiro de São Bento, edificado na região central de São Paulo. Acima do pórtico da Basílica de Nossa Senhora da Assunção, o próprio Santo, em versão pétrea, dispõe a palma de sua mão direita em minha direção. Um gesto misto de advertência e benção; estará São Bento me prevenindo acerca da heresia que estou prestes a cometer ou apenas pede aos céus revelação durante a demanda?

Com a dúvida pesando em meu espírito adentro a casa do senhor e encontro mais de cem fiéis sentados, em pé, ou de joelhos, escutando a palavra do calvo e santo padre ao meio-dia. Atrás dele, seis velas sustentadas por seis castiçais se dispõem ao lado da cruz, todos se elevando rijos aos céus.

Já na sala ao lado, conhecida como parlatório, na área do mosteiro, Irmão Gregório titubeia ao ouvir minhas inquietações de ordem celeste-sexuais. Por trás do hábito escuro, um jovem com menos de 30 anos remexe-se na poltrona estofada. Discorre, vacilante, acerca dos gêneros no além. Em termos laicos, me explica se eu vou continuar sendo homem lá em cima.

– Nós falamos da ressurreição da carne, da pessoa como um todo. Cremos que, no último dia, quando toda a criação for renovada, também nossos corpos mortais serão transfigurados. Mas nós não sabemos como.

Há cinco anos e meio no mosteiro, Irmão Gregório é um professo simples – ainda em fase de preparação, com votos monásticos temporários – e, com a humildade de um servo do Senhor, me aconselha a buscar alguém mais versado nos mistérios teológicos, uma pessoa capaz de falar de sexo no além. Antes de se despedir, entretanto, mostra empenho em acabar com minhas expectativas de que um espírito seria capaz de vir a Terra à cata de traquinagens eróticas.

– Isso não é possível. Depois que a pessoa morre, vai para junto de Deus, não tem mais contato com a gente. Pode existir uma comunhão, a pessoa interceder por nós, mas não contato físico.

Deixo o mosteiro abatido, a perspectiva de uma morte sexual retira o ânimo de todos meus membros. Ainda assim sigo na direção da fé católica. Dou mais uma oportunidade da Igreja me oferecer um futuro animado ao lado dos anjos do Senhor.

Ninguém para contar a história

Quando padre Eugênio entra na sala com sua camisa azul cobrador de ônibus, estou entretido com Nathália, a filha ilustre de Cariacica, que conquistou o mundo country. Ou ao menos assim avisa a manchete na capa do Jornal Capixaba-Paulista deixado sobre o balcão da secretaria da paróquia.

Padre Eugênio Mezzomo atua desde 2001 como pároco da Igreja do Calvário, no bairro de Pinheiros. Um senhor de cabelos brancos e voz sotaqueada, que permanece em silêncio, olhos fixos em mim durante toda minha confissão de incertezas, apenas para retificar as palavras do Irmão Gregório.

– Tudo indica que não haverá nem homens nem mulheres. Anjos não tem sexo, portanto não terão homens nem mulheres.

A sagrada escritura é a fonte utilizada por padre Eugênio para enterrar minha esperança. Em Mateus, capítulo 22, a Bíblia conta que os saduceus inquiriram Jesus sobre o matrimônio no além. Queriam saber com quem ficaria uma mulher, viúva de sete irmãos, quando todos se encontrassem no céu.

Jesus teria dito: Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus. Porque na ressurreição nem casam nem são dados em casamento; mas serão como os anjos de Deus no céu.

De certa forma, é Cristo quem me aconselha a aproveitar as delícias da libertinagem ainda em vida, oferecendo-me pouco mais do que harpas e anjinhos quando a hora chegar. Hesito em aceitar essa sina e indago ao padre sobre espíritos vagando na Terra em busca de prazer. Mais uma vez sua resposta passa ao largo de meus desejos.

– Nós achamos isso impossível, porque o corpo fica no cemitério. Por enquanto não há como afirmar. A igreja não fala nada sobre isso. Alguém deveria ter voltado para dizer!

Nesse momento o santo padre começa a gargalhar. Será da graça do próprio chiste ou da minha expressão melancólica, similar a de uma criança a quem lhe toma o pirulito da boca?

Energia Racional

– Pode acontecer de uma energia tomar conta de você, ou de uma namorada sua, e vocês estarem transando e, na realidade, quem está transando é aquela energia.

Com a segurança de 19 anos em contato com a coleção de livros Universo em Desencanto, Janete – nome fictício – é a primeira a dissipar as nuvens cinzentas sobre o sexo além deste mundo. Atrás do balcão da única livraria especializada na Cultura Racional de São Paulo, ela se empenha em não me deixar escrever bobagens sobre os ensinamentos de Manoel Jacintho Coelho, autor dos 1006 livros racionais.

– Para entender essa mecânica aí você precisa se conhecer, porque não adianta nada querer conhecer um dos lados se você não conhece o outro. Por isso é aconselhável você estudar o primeiro volume. Você vai conhecer a mecânica material, a mecânica celeste e a mecânica racional.

Fundada em 1935, na Tenda Espírita Francisco de Assis, no bairro carioca do Méier, a Cultura Racional pretende apresentar aos homens a verdadeira origem da humanidade. Ganhou status pop nos últimos anos por conta de seu mais ilustre adepto, Tim Maia. Em 1974 o soul man tupiniquim recebeu em mãos um exemplar da obra de M.J. Coelho e pirou nas escrituras, gravando dois álbuns-pregação, hoje totens entre os fãs de black music e a molecada descolada. Pouco tempo depois, Tim renegaria a seita e os álbuns, mas a história já estava escrita.

É justamente a notícia do lançamento em CD do volume um de Tim Maia Racional, em 2006, que aparece numa fotocópia da Folha de S.Paulo, exibida no balcão da livraria. Três quadros de Coelho – mão direita erguida em testemunho – distribuídos pelo lugar, prestam homenagem ao fundador. Quebrando a monotonia das paredes brancas, um diagrama com os mundos e a mecânica do Universo em Desencanto e um quadro com a Lei 11.203 de 1992, instituindo o dia da Cultura Racional, ao 3º domingo de março.

Para Janete, o conhecimento oriundo dos livros Universo em Desencanto representou o fim da angústia e do vazio que tomavam conta do seu corpo nos idos de 1989. Através da Cultura Racional ela afirma ter encontrado uma resposta para a própria existência.

– A morte não existe, existe a transformação. Eu não me resumo neste corpo de matéria, isso aqui é apenas uma roupa que veste minha vida verdadeira, que é o raciocínio. Nós, antes de sermos matéria condensada, éramos energia. Esse corpo era energia eletromagnética. A matéria vai voltar a ser energia eletromagnética e o raciocínio vai ficar no espaço, esperando o tempo determinado para ele materializar. A matéria vai para debaixo da terra passar pelo processo de transformação dela. Agora, a energia que está embrionada na glândula pineal vai resgatar as virtudes para formar um outro corpo de energia, puro, limpo e perfeito, para poder voltar ao natural.

É essa energia contida na glândula pineal que pode possuir a mim ou a minha namorada, de acordo com Janete. E não é apenas durante o ato sexual tradicional que ela pode surgir e roubar a cena.

– Quando a pessoa se masturba muito, às vezes você está se masturbando e na realidade é aquela energia que está se masturbando, entendeu? Uma energia feminina vai lá e enfim…

Apesar dos comentários de Janete parecerem animadores, ela nega que uma pessoa depois de morta possa vir a ser uma dessas energias sexualmente pueris. Para entender quais energias têm esses atributos ela recomenda a leitura do livro Universo em Desencanto. E para me deixar ainda mais confuso, extermina as ínfimas esperanças suscitadas momentos antes.

– Energia não faz sexo, só quem faz sexo é a matéria.

É a deixa para picar a mula.

Deus é Amor, não sexo

Na baixada do Glicério, encravado no coração de São Paulo, encontra-se o Templo da Glória de Deus, sede Mundial da Igreja Pentecostal Deus é Amor. Situado num terreno de 27 mil metros quadrados é o maior templo evangélico das Américas, com capacidade para 60 mil pessoas. Em sua fachada, bandeiras de países africanos, americanos e europeus juntam-se às latitudinais faixas multicoloridas que ocupam toda a parte superior da edificação, marca registrada da igreja.

No salão, a irmã indaga aos fiéis: Você quer a vitória?. Lá e cá uns e outros erguem os braços, na ânsia de serem escolhidos. “Então recebe!” Alguns se levantam e se encaminham para o altar, prostrando-se de joelhos. Ela continua, em transe epifânico, sua voz sibilante e pranteadora: Exalta o senhor porque ele é Deus, ele é Deus, ele é Deus!

Enquanto isso, um segurança munido de revólver e cacete me guia em direção à sala da pastoral, onde minhas inquietações fazem o irmão João – camisa e calça sociais em tons pastéis, sotaque nordestino e olhar desconfiado – repreender meus parcos estudos bíblicos. Pergunto-lhe se é possível o sexo no além e recebo, como resposta, Mateus 22.

– A bíblia diz, o próprio Jesus diz, lá nem se casam nem se dão em casamento. Ué, você não examina a escritura? Tem que procurar examinar a escritura, rapaz. Vocês ficam só na base do conhecimento materialista e esquecem o espiritual. Você não tem Bíblia? Adquira uma Bíblia, rapaz!

Irmão João segue comigo até a portaria do templo, onde aguardo algum pastor trazer-me orientação espiritual. No momento, infelizmente ninguém pode me atender, e termino por travar diálogo com outro irmão, que desce do alto e chega até minha presença pelo elevador. Lanço-lhe aos ouvidos as angústias arrojadas que permeiam meu espírito e não me surpreendo com mais uma resposta brochante. Deus pode ser Amor, mas está longe de ser sexo.

– Não há sexo, não há envolvimento físico. Os anjos por exemplo. Você vai falar que os anjos têm sexo? Não se pode pensar nisso. Eles não têm essa parte. Não existe. Você pode ter contato com alguém, mas em sonho. Você vai ver na realidade e não é.

Dias depois, em outra parte da cidade, eu ouviria versão completamente diferente sobre sonhos, sexo, anjos e todas as coisas naturais e as feitas pelo homem.

Íncubos e Nefelins

Nove horas da noite de uma sexta-feira treze. Casais passeiam no shopping Penha e a juventude materialista gargalha ingerindo cevada nas imediações. Estou em frente à Escola de Bruxas – indicação de Salem, sacerdotisa Wicca e colega de profissão. Do outro lado do vidro uma caveira sorri em tons lúgubres. Toco a campainha e uma moça, trajando sobretudo negro, me introduz na sala aromatizada com incensos.

Paredes roxas, sustentáculos de espadas japonesas e quadros de índios xamãs norte-americanos são o cenário da conversa, acompanhada pela voz de Alcione cantando suas paixões. Iniciada há dois anos no xamanismo celta, Paula cruza as pernas, traga lentamente o cigarro e só aí me oferece sua palavra.

– Algumas entidades ou algumas categorias de anjos acham que a vida terrestre é interessante e, por curiosidade, preferem se materializar para poderem experimentar inclusive o sexo.

De acordo com Paula, o misticismo, os oráculos e alguns remédios tiveram origem em filhos e filhas dessas entidades fornicadoras. Alguns descendentes de Enoch, personagem bíblico bisavô de Noé, foram parte dessa descendência angelical. São os chamados Nefilins. Tempos depois, os seres celestiais proibiram aos anjos tratar a terra como a joy division do além e eles tiveram de encontrar outra maneira de brincar com os mortais.

– Eles costumam pegar a pessoa no transe do sono, quando o espírito sai do corpo para uma outra dimensão. Nesse tramite, alguns espíritos se apossam de algumas pessoas, tanto faz homem como mulher. Espíritos masculinos, por exemplo, procuram mulheres que tenham alguma afinidade com ele. Algumas são molestadas, outras são usuárias de droga, ou não têm espiritualidade forte. Acontece uma relação sexual chamada Íncubo. A mulher sente um homem em cima dela, ou perto dela, tocando nela, mas não propriamente materializado. Ela sabe que está acontecendo, tem consciência de que não é só um sonho e acorda até com vestígios da relação. Não sêmen propriamente dito, mas acorda como se tivesse mantido relação com alguém.

Em seguida a essa perspectiva deveras otimista, Paula logo trata de abater minhas ilusões. íncubo – ou súcubo, para espíritos femininos – são demônios da tradição medieval, a quem se atribuem visitas noturnas de caráter sexual. Desejar ser um deles é almejar status dificilmente adquirido pelos mortais do século XXI.

– Geralmente a pessoa que desencarnou daqui já teve experiências sexuais em vida. Ela vai almejar ficar perto de pessoas que ela ama, resgatar algum trabalho que ela não fez, mas dificilmente vai querer manter relação sexual.

A Escola de Bruxas da qual Paula faz parte ensina que todos nós somos compostos de três elementos: matéria, espírito e ego. Quando abotoamos o paletó, eles se separam e cada um segue um caminho diferente. O ego, responsável pela luxúria, pode, em algumas circunstâncias, permanecer na Terra. Daí ele se torna uma alma penada.

– A pessoa que não evoluiu espiritualmente tende a ficar agarrada com a matéria. Parte desse gosto dela fica aqui. É o que chamamos de alma penada.

Incapazes de aceitar uma condição de vida não materializada, as almas passam a tentar uma sub-vida . Daí advém as incorporações que, segundo Paula, são estratagemas dessas almas para sugar nosso ectoplasma, nossa energia vital.

– Nós temos o fôlego de vida, que essa alma ali vagando não tem mais. E ela não aceita isso. Uma forma de ela tentar manter um pouco mais de aproximação da matéria é tomar o seu corpo, ou o meu corpo, por alguns minutos que sejam.

Será esse o momento pelo qual ansiosamente aguardei? Paula acende outro cigarro, um carro passa lá fora e eu pergunto se é possível, durante os instantes da possessão, acontecer o ato sexual.

– Não. Essas almas que estão penadas, que estão sem condições de querer aceitar a ida delas para um outro plano já viveram a matéria da carne com sentido sexual. O prazer dessas almas é estar no meio dos seres humanos.

Fica esclarecida também a inexistência de sexo entre duas almas penadas. A distância de intenções entre elas é tamanha que impossibilita o estabelecimento de alguma relação, mais ainda de caráter íntimo.

– Eu não estou nem visualizando você, eu estou desnorteada, numa outra dimensão.Você está ali, junto comigo, mas também não está me observando. São dois espíritos tão perturbados, que estão em condições semelhantes, mas não têm porque se aproximar. Cada um tem objetivos diferentes.

Esposas eternas

Meu relacionamento tem início com o porteiro. Um cavalheiro deveras simpático, Roberto prontamente convoca dois rapazes para virem ter comigo. Camisas brancas, gravatas, calças pretas, mochila do lado e o crachá de identificação: Élder Moraes e Élder Filgueiras, missionários da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, ou mórmons, para facilitar.

Com uma oportunidade de exercer o trabalho missionário, os dois sorriem para mim e caminham na direção de um banco, no jardim da igreja, localizada na avenida Francisco Morato. Ambos estão no período de dois anos no qual não podem ler jornais ou assistir televisão, devendo utilizar suas energias apenas para levar a fé mórmon às pessoas. Por toda essa rotina devotada, a Bíblia e o Livro de Mórmon – livro sagrado da igreja – estão enfiados na memória dos dois. Indicar passagens dos livros é atividade costumeira para eles.

No conjunto de crenças e práticas mórmons a família tem espaço destacado. Segundo seus fiéis, as relações de parentesco existentes na Terra, enquanto vivos, serão semelhantes no além.

– A terra é só um período, não é o final de tudo. E aqui nós estamos nos preparando para a eternidade. Nós acreditamos que as famílias podem ser eternas também. Não seria justo se com a morte acabasse tudo. Quando eu morrer será que vai todo mundo ser irmão? Nós acreditamos que não. Seu pai vai continuar a ser o seu pai, sua esposa, sua esposa. Não seria justo eu apenas encontrar ela lá como uma pessoa desconhecida. Os relacionamentos que nós temos aqui na Terra são eternos.

Minha esposa continuará a ser minha esposa? As possibilidades começam a se delinear de um modo assaz satisfatório. Questiono se, com a minha esposa, vou poder dar continuidade à boa e velha fornicação. Tranquilo é a resposta dada por Élder Moraes.

– As pessoas vão poder se tocar lá? Sim, porque como Jesus Cristo, quando ressuscitou, o corpo dele desapareceu do túmulo, significando que o espírito voltou ao corpo. E é isso que nós acreditamos como ressurreição. Que o mesmo espírito que possui nossas vidas vai deixar nosso corpo, mas de uma forma miraculosa vai ressurgir novamente, com nosso mesmo espírito, com a nossa mesma consciência.

Entretanto, segundo os missionários, enquanto o espírito está afastado do corpo, o sexo está além das possibilidades. Esse é o momento no qual minhas esperanças redivivas começam a cair por terra.

– No mundo espiritual não é possível, apenas depois. O mundo espiritual é somente o período de espera. Quando as pessoas falam de vida eterna, não é só viver para sempre. Para nós é vivermos com Deus e sermos como ele é. Quando nós tivermos a vida eterna seremos como Ele é, tendo filhos, fazendo filhos, como ele sempre faz. Então, apenas depois, e se nós recebermos esse grau maior de recompensa, é que nós vamos realmente poder ter filhos.

Segundo Moraes, os espíritos podem até mesmo vir para a Terra, mas a possibilidade de travarem relações com alguém vivo é nula. Levando o sexo para ainda mais longe, o período de espera no mundo espiritual é algo desconhecido para os mórmons. Para Deus, sexo é uma questão de vida, e o espírito separado do corpo passa ao largo dele.

– Quando o espírito aparece é apenas a serviço de Deus. Ele não aparece só por vontade própria ou porque você chamou. Nunca vai aparecer um espírito como esse, sem carne e ossos, apenas para dizer um oi para você ou “Opa! tô a fim de namorar hoje, vou aparecer pra você!” Não acontece isso na igreja, nós não acreditamos.

Parte do trabalho missionário de Moraes e Filgueiras é levar os visitantes para conhecer as dependências permitidas da igreja – o templo principal é exclusivo para iniciados. Na recepção um negro estilo Mangueira, metido num terno branco e com sorriso demorado, me deseja bom dia. Numa sala à esquerda, com cadeiras, arranjos florais e poltronas organizadas simetricamente, a assepsia é das maiores que já vi. Nenhum som da movimentada Francisco Morato penetra o lugar santificado.

Notando as dúvidas e o peso em minha face, Élder Moraes busca relaxar a imagem apresentada sobre a postura sexual mórmon. Não ajuda muito, e entendo ter chegado o momento de seguir viagem.

– O sexo é uma coisa sagrada para Deus, é o que ele faz todo dia. É fazer vidas, é criar vidas. Quando nós usamos o sexo apenas por divertimento ou prazer é uma coisa tão egoísta.

Conscientemente finco ainda mais os pés em meu egoísmo e decidido a visitar uma faculdade em busca dos saberes acadêmicos.

Só lá embaixo se faz sexo

Duas dezenas de mulheres, vestidas com casacos e jaquetas para enfrentar o frio outonal da capital paulistana, fazem fila à porta da Faculdade de Teologia Umbandista. É sexta-feira, dia de ofício aberto ao público, e elas se dispõem a esperar três horas para entrar nas dependências do templo do saber da avenida Santa Catarina, na Vila Alexandria.

Roger Soares, diretor e professor da Faculdade, me recebe em trajes azul médico plantonista. Enquanto sigo com ele para a biblioteca, homens vestindo branco dos fios do cabelo às havaianas se encontram na cantina degustando salgados. Nos fundos do pátio, velas iluminam um altar com suas cores bruxuleantes, fazendo as desfocadas estatuetas dançarem como ídolos da terra sob a luz do luar.

De pronto, exponho minha dúvida. Roger hesita, recua na cadeira, abre mais os olhos. Toma fôlego.

– A gente aprende que as pessoas que desencarnam, aqueles espíritos que estão próximos do plano Terra, próximos do nosso nível espiritual, se sentem atraídos pelos mesmos desejos, mesmos anseios, mesmas carências que nós humanos. Nós mesmos quando desencarnamos vamos para o outro lado da vida, mas permanecemos com as mesmas tendências.

Segundo Roger, a tradição umbandista acredita em diversos planos coexistindo no universo. Alguns, acima da Terra, são habitados por espíritos superiores, de pessoas santas e outros tipos do gênero pureza. Nos mundos inferiores, estão espíritos cuja vida foi marcada por sentimentos negativos acumulados. É também nesses planos baixos que estão espíritos com forte apetite sexual.

– Existem planos espirituais muito superiores, que são aqueles que você atinge quando já não precisa mais encarnar. Digamos que existem planos superiores ao nosso, mas ainda próximos, e existem planos muito superiores, daqueles espíritos que já não encarnam mais no planeta e que fazem parte dos nossos ancestrais. Esses ancestrais não têm mais nada de sexo. Esse tipo de desejo, de sentimento, as paixões, os apegos, eles estão abolidos. A visão entre os espíritos é muito mais universalista.

Pessoas desencarnadas ainda têm os mesmos sentimentos dos vivos e necessitam de emoções, como as proporcionadas pelo sexo. Para a teologia umbandista, esses seres se alimentam das energias circulantes durante o ato sexual.

– Para nós, o ato sexual é um dos atos humanos que mais movimenta energia. Se, por exemplo, uma pessoa é extremamente sensual, e usa o sexo exclusivamente como uma fonte de prazer, um hedonismo desenfreado, quando ela morrer vai ser atraída pelas pessoas encarnadas que têm comportamento semelhante. Quando ela convive com essas pessoas tem a possibilidade de experimentar novamente as sensações que os encarnados estão sentindo, por estar próxima. É como se você estivesse num campo de futebol e sentisse a emoção da galera, e se emocionasse também.

O próximo passo é saber se essas pessoas desencarnadas podem participar do ato sexual. De acordo com Roger, a resposta é positiva e remete aos Íncubos e Súcubos, trazidos à tona anteriormente por Paula, na Escola de Bruxas.

– Quando se estabelece conexão entre um ser encarnado com um ser desencarnado existe uma comunicação biunívoca. Você afeta o plano espiritual, atraindo um espírito ou repulsando outros e você é afetado por esse plano. Então, pela sintonia, a entidade que você atrai pode também te induzir a certos comportamentos. como uma forma de magnetismo, uma forma de hipnotismo, te induzindo a perseverar nos comportamentos que interessam para aquele espírito desencarnado. Então, se é um espírito sedento das vibrações sexuais, ele pode te incentivar mais ainda a procurar principalmente aquele sexo sem significado,aquele sexo pura sensação. Os ocultistas europeus davam nome para isso. Súcubo e Íncubo, espíritos que se alimentam dessas vibrações. Isso para nós é a forma negativa da coisa.

Outra tradição religiosa também acredita nos espíritos das folias sexuais. E é sem sair de casa que encontro evidências positivas para assegurar um futuro sexual para toda a eternidade.

No além com o boto

É numa conversa ao telefone que tenho esperança de poder consumar o voluptuoso ato no além. Consegui o número do homem na Livraria Espírita União, lá na Rangel Pestana, do lado da Praça Clóvis, onde o Paulo Vanzolini perdeu vinte e cinco cruzeiros e o seu retrato.

Impedido de revelar a identidade do meu informante espiritual – alguns seus parentes poderiam se complicar com as declarações -, posso apenas registrar que, de seus 75 anos de vida, 70 foram dedicados à prática e estudo da doutrina de Alan Kardec.

Murilo, como o identifico, afirma, da mesma forma que Paula e Roger, a possibilidade, sim, de ter uma transa lá do outro lado. Ele se refere aos Íncubos e Súcubos e sustenta que ainda hoje eles podem se manifestar. Inclusive já estiveram no Brasil, de acordo com o kardecista.

– A pessoa que é assediada precisa ser de estado primitivo. Aquela lenda do boto é relacionada com os íncubos, espíritos muito atrasados e muito materializados, envolvidos pela parte sexual.

Oriunda da Amazônia, a lenda afirma haver a transformação do boto em um homem atraente, vestido de branco e com chapéu, em noites enluaradas. Seria ele o responsável por dançar e seduzir mulheres, as quais apareceriam grávidas sem ter conhecimento do pai, afirmando não terem tido relações sexuais.

Para Murilo, somente íncubos e súcubos – e botos – vêm a Terra em busca de tentações carnais. Sobre a possibilidade de alguém – eu? – se tornar um íncubo ou um boto nos dias de hoje, a resposta não é das mais animadoras.

– Deve existir indivíduos que desencarnaram no passado, e viraram isso aí, mas à medida que você vai evoluindo, vai perdendo as características animais e ganhando as características angelicais. O sexo vai sendo sublimado.

Estaríamos todos condenados, indo dessa para uma melhor, a colocar o sexo de lado e dedicarmos toda a eternidade aos assuntos superiores, independentemente da religião, seita ou cultura abraçadas? Católicos, racionais, protestantes, xamãs, mórmons, umbandistas, espíritas, todos, de uma maneira ou de outra, empenham-se em abandonar o sexo quando é preciso juntar as coisas imprescindíveis para a vida no além?

Munido de uma série de respostas, mas não livre de dúvidas, encontro uma espécie de conclusão para minha demanda nas últimas palavras de Murilo. Falam menos de religião do que do homem, mas oferecem algo da mesma natureza dela: esperança.

– Conforme o nível de espírito, ele faz o que você imagina que ele pode fazer. No plano espiritual existe até casamento. Eu não posso nunca usar a palavra não pode. Para dizer não pode eu tenho que conhecer o universo. O mundo está todo aberto. E a mente da gente tem que estar muito aberta.

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