1º semestre de 2010

Amigos anônimos

Por Rachel Tavares

Naquela noite, no meio da semana, uma noiva atravessava o altar. Pensei em entrar na igreja e assistir ao casamento daqueles dois desconhecidos, mas a minha missão era andar mais algumas quadras e me juntar a um grupo maior de desconhecidos para conversar sobre sexo e amor.

Não que fosse bem uma conversa, pois são seguidos muitos protocolos para apresentar o grupo, as diretrizes e a agenda da noite. Cada pessoa fala na sua vez, sem réplica, tréplica, sem interação. Mas, mesmo assim, com muito impacto nos ouvintes.

Sentei na sala abafada, nem pequena, nem grande, e demorei a ficar confortável. Quer dizer, não fiquei confortável até a hora de ir embora, mas pelo menos venci minha inibição de estar ali.

Precisei decidir de qual reunião participar, pois achava que seriam muitos os grupos de reunião disponíveis. Não encontrei tantos quanto imaginava e praticamente todos seguiam o formato de reunião dos Alcoólatras Anônimos, com os 12 passos e o lema de viver um dia de cada vez. Mesmo depois de saber endereço, premissas, estrutura, não conseguia juntar coragem de levar meu rosto e o resto do meu corpo até o local. Tinha vergonha de ir, de ouvir sobre o assunto, de invadir a privacidade dos outros. Eu desconhecia totalmente o assunto e, por mais que pesquisasse, não conseguia nem descobrir o nome oficial do transtorno.

Rotulando

Antes de me infiltrar nesse mundo, tentei definir o que iria encontrar, mas não é fácil. O desejo patológico pela relação sexual, ele recebe dois nomes: ninfomania para a mulher e satiríase ou Don Juanismo para o homem. Nomes que soam pejorativos para alguns e sensuais para outros (afinal, a expressão “Don Juan” também é usada para conquistadores). Primeiro indício de como a sociedade encara o sexo e como mulheres e homens – que sofrem ou não desse impulso excessivo – costumam reagir sobre o assunto.

Pode se apresentar como sexo compulsivo com diversos parceiros que são encarados como objetos, compulsão por múltiplos relacionamentos afetivos, masturbação compulsiva, relacionamento sexual compulsivo com um único parceiro ou fixação na obtenção de um parceiro. Pode surgir como uma forma de tolerar o dia-a-dia, assim como se faz com álcool ou drogas. Pode ser uma atividade que preenche o tempo livre em pessoas que tem dificuldades para se sociabilizar. Pode até se manifestar pela falta de libido enquanto não for com aquela uma pessoa especial.

Os nomes são muitos: impulso sexual excessivo, dependência de sexo, transtorno sexual hiperativo, comportamento sexual compulsivo, transtorno hipersexual (com ou sem parafilia). A 10ª revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID:10) lista o Apetite Sexual Excessivo. Fica ainda mais complicado denominar o transtorno quando se leva em conta outros quadros possíveis. Se essa obsessão se manifesta como fantasias e vontades que ocupam quase todos os pensamentos, pode representar um quadro Obsessivo-Compulsivo. Já a pessoa que busca gratificação através do sexo desrespeitando valores e leis pode significar um distúrbio sociopático ou de personalidade. Confuso, não?

O traço em comum para quem sofre desse transtorno é que não se hesita em ceder aos impulsos sexuais, correndo o risco de perder o limite. Colegas de trabalhos, pornografia, prostitutas, ex-namorados, desconhecidos, pessoas do mesmo sexo, menores de idade, casos extraconjugais, são todas possibilidades para saciar o desejo sexual. Mas ao invés de satisfazer, constrange, deixa sentimento de culpa, trás traz maldita correção automática! dívidas, rompe famílias por preconceito, infidelidade ou vergonha.

A minha grande dúvida nessa história era saber se dava para definir quanto sexo é mais do que o normal. Afinal, sexo hoje em dia está em toda a parte e cada vez com mais facilidade de acesso. O escritor alemão Franz Kafka, por exemplo, propôs que é dependente o indivíduo com mais de 15 anos de idade que tenha sete ou mais orgasmos por semana, por pelo menos doze semanas seguidas. A definição mais aceita está ligada a um comportamento sexual que não seja prazeroso, ao contrário, traga sofrimento e constrangimento. Enquanto subia as escadas até a reunião, pensei em todos os corações partidos e namoros, meus e de todos os personagens de filme e televisão, e achava que todos nós poderíamos nos beneficiar um pouco desses encontros.

Um estudo calcula que cerca de 5% da população sofre dessa dependência – um número que deve ser maior, levando em conta todas as inibições que o assunto carrega. Esse comportamento também está mais presente em homens – outro valor que deve ter sido afetado por questões morais.

Não é um dado que surpreende, já que eu, com outro nome, com nenhuma vontade de contar história alguma, em um grupo de anônimos, fiquei com medo de que quem me visse naquele prédio me associasse àquele grupo. Fiquei com medo de eu mesma me associar àquele grupo.

Oi, meu nome é…

Os grupos de dependentes anônimos são muito importantes para o processo de recuperação e sobriedade. Nessas reuniões cercadas de preconceitos e imagens estereotipadas, o maior de todos os rótulos – o nome – perde o valor.

Para admitir um comportamento excessivo ou até mesmo reconhecê-lo, é preciso falar muito e ouvir muito também. Na reunião, só fala quem quer, e cada depoimento é um reforço para quem ouve e para quem relata. Reforço de que não se está sozinho, de que se está fazendo bem para si mesmo, de que se está colaborando na recuperação de alguém ao seu lado. E não é fácil compartilhar.

A sala pequena, nem cheia, nem vazia, não colaborou para a apreensão em ouvir os relatos. Um depoimento, depois outro, ambos um pouco vagos, traduzindo esforço em estar ali. Por um momento, quis ir embora, achava que não ia agüentar, não sabia o que pensar. Mas resolvi enfrentar o desconforto e comecei a ouvir com mais atenção, reparar nos detalhes que tornavam os depoimentos quase carinhosos.

A sensação que tive era de que a maior dificuldade era conhecer a si mesmo. Era quase como se não fosse possível se ver por inteiro até que se enxergasse no outro. Já que não se interrompe a fala do outro, cabeças balançavam durante os depoimentos num entendimento que parecia ir além do “passei por isso”. Alguns dos participantes estavam “sóbrios” há algum tempo. Estavam envolvidos em relacionamentos estáveis e procuravam continuar assim. Mesmo para quem sofre de impulso sexual excessivo, o sexo, o amor e, principalmente, a intimidade não devem ser evitados pelo resto da vida. Dizem até que estabelecer um relacionamento autêntico, independente e significativo ajuda a conter as emoções que desencadeavam o comportamento excessivo.

Outros participantes lutavam contra as recaídas. Para estes, freqüentar o grupo não parecia fácil, nem agradável. Mais do que isso, parecia intolerável. Admitiam a dificuldade em estar lá, a vontade de não ter ido naquele dia, mas repetiam e reafirmavam que estar lá e enfrentar o próprio comportamento era o que sufocava o relapso.

O mais emotivo dos depoimentos foi o de uma dependente que “ainda não estava em recuperação”. Ela dizia freqüentar o grupo há pouco tempo e afirmava não ter largado o vício que tinha por uma pessoa e por se fazer sempre disponível para essa pessoa. Com lágrimas nos olhos, relatou a dificuldade para compreender que estava dependente daquele amor, que esperava ansiosamente por recados, migalhas de atenção, mesmo sabendo como isso fazia mal para ela. Já estavam separados há algum tempo, seu parceiro estava em outro relacionamento, mas era ele ligar – e só ele – que ela ia: “largava tudo e ia. Quer dizer, vou”. Só quando descobriu o grupo, conseguiu reunir forças para admitir o problema, ainda sem solução. Com sorrisos acanhados, o resto do grupo acolheu mais um integrante. Grupo que era, na sua maioria, homens, contrariando qualquer mito de que a mulher se perde no companheiro.

Quando entrei na sala, minha maior dúvida era saber quando estamos passando do limite. Depois daquele depoimento, comecei a achar que estamos o tempo todo passando do limite e voltando para trás dessa linha indefinível.

Quando a reunião foi declarada encerrada, todo o distanciamento evaporou e os membros trocaram dicas e recomendações de leituras. Fui embora debaixo de uma profecia: um dos membros disse que eu voltaria “um dia, com certeza”. Se é verdade, só o futuro dirá, mas até lá, o jeito é também viver um dia de cada vez.

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