1º semestre de 2010

Alguma coisa acontece na Avenida São João

Por Guilherme Barros

Homens bem apessoados. Ternos engomados, cabelos e bigodes bem feitos. As gravatas eram obrigatórias, sem elas não se podia entrar nas salas de projeção. As mulheres usavam seus melhores vestidos. Na década de 50, os cinemas da rua São João eram o lugar de ver e ser visto. Com o tempo, alguma coisa mudou. O anonimato passou a ser essencial. Mais que isso, faz parte da mística do local.

Nos tempos de antanho as telas exibiam as peripécias de um caipira chamado Pedro Malasartes, que enganava os ricos e poderosos para ajudar pobres crianças. O Cine Art Palácio lançava todos os filmes do Mazzaropi, com direito à presença do próprio ator nas estréias. Hoje em dia o filme exibido no cinema é outro. São as peripécias de dois homens e uma mulher em busca dos segredos do sexo a três. Várias posições, pinto de borracha, sexo anal e oral de todas as formas possíveis. O único filme lançado hoje em dia é a produção mais recente do cinema pornográfico nacional.

A região do Largo do Paissandu, do tão caetaneado cruzamento da Ipiranga com a São João, da Praça da República, sempre foi o centro dos cinemões de São Paulo. Com a decadência da região nos anos 80 e o começo da popularização do cinema nos shoppings centers, as antigas salas passaram a apelar para outro público e diversificaram os negócios.

Fazendo parte da “Boca do Lixo”, região central que aglutina prostitutas, travestis, mendigos, ladrões, traficantes e tudo de mais nebuloso que a cidade grande pode jogar no mundo, as ruas congregam o que o melhor que São Paulo tem a oferecer em termos de cinema pornográfico. Ali operam o Cine Saci, Cine Las Vegas, Cine Art Palácio, Cine Roma, Cine Paris, Cine Dom José, Cine República. E, atrás da cortina que separa o mundo de fora do escurinho do cinema, a putaria rola solta.

Apostas no escuro

O primeiro Cine que visitei foi o Las Vegas (Av. São João, 341). Diferente dos outros, sua entrada é bem discreta, o saguão onde fica a bilheteria é escondido por um tapume azul. O que me atraiu a começar por ele foi a chance de poder comprar meu ingresso sem que todos os pedestres ficassem reparando neste depravado entrando no cinema. Medo de iniciante que não foi totalmente superado até o final da reportagem.

O ingresso custou 6 R$ e a bilheteira pegou o dinheiro sem nem olhar na minha cara. Depois da catraca uma escada leva a andares superiores, onde ficam as salas de cinema. No térreo, no pouco espaço entre o tapume e a escadaria, dois homens conversam calmamente sobre coisas da vida, fumam um cigarrinho, riem como se estivessem no lugar mais normal do mundo.

A sala fica dois lances de escada acima. Num efeito quase artístico, as luzes vão diminuindo conforme os degraus vão ficando pra trás. Quando se chega na sala, a primeira coisa que chama a atenção é a penumbra quase completa. Mal consigo distinguir as primeiras cadeiras. A única luz vem da tela, que exibe uma mulher em trajes mínimos. Conforme meus olhos se acostumam com a escuridão, começo a ver uns vultos passeando pela sala e consigo avistar algumas cadeiras vazias. Vou para os fundos da sala, pois espero ter privacidade para poder invadir a privacidade alheia. Dirijo-me à mais isolada das cadeiras e, depois de ver se ela não está suja nem grudenta, me sento discretamente.

A sala é razoavelmente grande e está um pouco esvaziada. Vários homens passeiam pelo ambiente, vasculhando cada poltrona e lançando olhares analíticos para cada um que chega. Alguns outros ficam em pé na parte dos fundos, avermelhados pela luz rubra que vem dos banheiros.

Assim que eu volto a prestar atenção no filme, percebo que não é bem uma mulher que está rebolando na tela. Ela abaixa a calcinha e percebo que estou assistindo um filme de travesti. Nas cadeiras, vejo homens com o pinto pra fora, se masturbando sem o menor pudor.
Os espectadores eram abordados pelos homens que andavam pela sala. Eles se aproximavam discretamente e falavam no ouvido da pessoa. Se eu não conseguia ouvir o que era dito, o sentido da conversa foi bem fácil de perceber. Quando a pessoa abordada concordava, o homem sentava na cadeira ao seu lado e ambos começavam a trocar carícias. Às vezes um deles se encurvava e sua cabeça sumia por detrás das costas da cadeira.

Enquanto isso, na tela, um homem aparece e o travesti começa a acariciá-lo, a carícia evolui para o sexo oral. Na minha frente, um senhor dorme pesado, incólume a tudo que se passa a seu lado. O travesti e o homem trocam de posição. Agora quem chupa é o homem. Ele faz com a língua todo o caminho do pênis até o ânus do travesti.
Percebo agora que várias pessoas dormem durante o filme. De fato, muitos usam os Cines como dormitórios. São bem mais baratos que hotéis, mais seguros que as ruas e a maioria fica aberta 24 horas.

No filme, os dois já se entregaram à sodomia sem freios. Um penetra o outro alternadamente. A única coisa que se escuta são gemidos. Não consigo distinguir os que vêm da boca dos atores e os que vêm do público.

Quando o filme acaba –com uma apoteótica gozada na cara- me sinto cansado e resolvo ir embora. No caminho para a saída, ainda vejo um casal na porta do banheiro. Um imprensando o outro contra a parede, debaixo da luz vermelha, trocando beijos e apertos. Na tela, um outro filme de travesti começa.

Eu saio na rua e a sensação é de estar voltando ao mundo real. O vento e a luz no rosto te trazem de volta daquela realidade paralela onde tudo é permitido. As pessoas na rua não parecem te olhar com segundas intenções. Agora é hora de um bom banho.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s