1º semestre de 2010

A vida é Bela

Por Frederico Viotti

Tatiane é solitária. Desde que chegou a São Paulo em 2004, não consegue ter um relacionamento sério e estável. Diz que todos homens com os quais tem um caso não ligam de volta após as primeiras noites. Romântica como qualquer moça de 28 anos na mesma situação, se entristece com essa recorrente falta de sorte no amor, sente-se desvalorizada como mulher. Mas no final das contas, Tatiane, conhecida também por Belinha, se conforma. Sua atual profissão não ajuda muito na arte da conquista. Há um ano, Belinha é atriz pornô. Só nesse período, já atuou em mais de 70 filmes.

Natural de Matosinhos, interior de Minas Gerais, Belinha vem de uma família simples. Seu pai tem mais de oito empregos, é mecânico, enfermeiro, soldador… Por ironia do destino, sua mãe vende peças íntimas. Belinha trabalha desde criança, já foi recepcionista, balconista e faxineira. Em sua cidade natal, era namoradeira. Mas ficava só nos beijinhos, tinha o sonho de casar virgem. Perdeu esse sonho e outras coisas mais aos dezoito anos, com um ex-patrão bem mais velho. “Ele disse que ia me levar para uma festinha, eu inocente fui, e a festinha era eu, em um motel.”

Do início da vida adulta na pacata cidade mineira, lembra dos forrós que tanto gostava, dos namoros pela janela e do trabalho em uma grande montadora de carros italiana, como apuradora de produção.

Início profissional

No começo de sua carreira como atriz, tentou escondeu de todos, mas logo fracassou. Após o segundo filme, todos em Matosinhos já sabiam de sua nova profissão. “A partir daí decidi não esconder das pessoas o que eu sou. Assumi e passei até a dar autógrafos na minha cidade, para os 35 mil habitantes. Hoje sou muito popular lá.”

E o começo veio aparentemente por acaso. De início, Belinha conta que estava se divertindo em uma danceteria quando um cara a abordou dizendo que tinha o perfil de atriz, e perguntou se não queria participar de um filme. Ela não achou má idéia e decidiu encarar o desafio. Depois, mais desinibida, Bela conta o que fez em São Paulo nos primeiros anos que morou aqui. “Não tenho que mentir para ninguém. Trabalhei em uma boate, como garota de programa por um mês, só para ver como é que era. E ganhei 50 mil reais em um mês! Quando você ganha muito dinheiro e seus pais nunca tiveram condições de te ajudar, você pensa em comprar tudo o que vê pela frente. Mas a vida não é assim. Eu comprei tudo o que eu quis, tudo o que eu quero, tenho. Mas hoje em dia vejo como faz falta esse dinheiro que poderia ter juntado. Fiz programa durante um mês nessa boate, ganhei 50 mil e gastei tudo. Esse foi o único período em que fiz programa, não faço mais. Se pintar, eu vou. Só que esse mercado está ruim, hoje as boates tão todas fechando.”

Depois do primeiro filme, as oportunidades foram surgindo e Belinha entrou de vez no mercado. Hoje é nome conhecido nessa indústria. Como ela mesmo se orgulha de dizer, especialista em cenas “hards”.

Como funciona

Falando em números, se em um ano já fez mais de 70 filmes pornôs, nesse mesmo período estima que já foram mais de 200 shows de strip-tease. Durante o mês na boate, contabiliza uns 300 programas. E revela ter feito mais uma centena deles, com seus clientes habituais. “De vez em quando tenho meus clientes fieis. Agora cobro uma graninha a mais, já sai em capa de revista. Não sou mais bobinha.”

Em termos de valores, não há do que reclamar. Uma atriz pornô em atividade intensa chega a ganhar 40, 50 mil reais por mês. A média gira em torno dos 15 mil. Fazendo programa, esse valor cresce e muito. Os shows é que geram menos dinheiro, não chegam a 500 reais por apresentação. Só que são muito mais recorrentes.

Esclarecendo dúvidas de um repórter leigo, Belinha conta que uma cena, quando bem feita, dura menos de uma hora. Por cada cena, recebe-se entre mil e dois mil reais. Em épocas boas, filmam-se duas ou três delas por dia, cada uma delas consiste em mais ou menos cinco posições diferentes. Se depender da atriz, esse ritmo só tende a aumentar. “Trabalho para todos que me chamam, mesmo que um valor seja mais baixo que outro. Tenho várias oportunidades e não quero perder nenhuma delas.”

Belinha faz questão de dizer que leva seu trabalho muito a sério. Diferente de grande parte das atrizes e atores que na maioria das vezes fingem o prazer durante uma cena, ela diz que raramente deixa de gozar. Afirma que nunca se machucou, nem sentiu dor alguma. Toda essa dedicação ela justifica pelo fato de encarnar profundamente sua segunda identidade, a Belinha, a Belinha Que Dá o Cuzinho na Janelinha. “Acho que não tem que misturar a Tatiane e a Belinha, uma personagem. São muito diferentes. As pessoas dizem que eu me transformo tanto no set de filmagem que parece uma drogada, e isso me machuca. O meu jeito de trabalhar é natural, não bebo nada. Antigamente eu bebia, antes de um anal, ou quando via o dote de um ator… Hoje em dia já encaro numa boa, qualquer tamanho. Me entrego na cena, faço tudo com muita vontade, com muito tesão. Me envolvo tanto que gozo várias vezes. Tento fazer uma puta cena, fazer uma coisa legal.” Confessa que em uma filmagem recente, ficou receosa de contracenar com um ator conhecido por “Kid Bengala”, cujo nome serve de introdução, e que neste dia fraquejou. Teve que tomar um “copão” de uísque.

Mercado pornô

Para Belinha, a relação com as outras atrizes é boa, mas está longe de ser saudável. “Há muita falsidade, muita concorrência. Mas posso te falar uma coisa: me dou bem com todo mundo. Não consigo sempre agradar a todos, mas onde eu chego sou bem recebida. Tinhas varias amigas no pornô, que depois se mostraram falsas. Apesar disso, conheci muitas pessoas maravilhosas nesse meio.” Já com os atores, a história parece ser outra. “Adoro eles, me tratam muito bem. Nunca sai ou fiz muita amizade com nenhum deles, porque rola um interesse de ficar. E não quero me envolver.”

Sobre as celebridades que emergem de maneira instantânea nesse mercado, Belinha diz aceitá-las, mas não perde a oportunidade de fazer uma crítica. “Quem sou eu para julgá-las. Só sei que elas recebem muitíssimo mais. E às vezes entram só para ganhar ainda mais fama, fazem um filme e pronto. Quem atua sempre somos nós, e eles (produtores) não dão o devido valor para a gente. Eu sei do que sou capaz, mas é muito difícil chegar ao patamar dessas famosas. Sou conhecida no mercado, mas não tenho nome de estrela. É um pouco de discriminação, isso não é justo. Tem que dar valor para aquelas que batalham.” Em um de seus ídolos, ela encontra uma exceção a essa regra. “Minha única experiência com celebridades foi com o Alexandre Frota, e ele é um amor de pessoa, maravilhoso. Carinhosíssimo na cama, parecia que eu estava com um namorado, foi muito legal.”

Em sintonia com essa declaração, Bela diz que o filme mais importante que já fez é justamente o protagonizado pelo famoso pitboy, o “Especial de Natal do Frota”. Já aquele que mais gostou fazer foi o “Forró Sem Calcinha”, onde reviveu a paixão de infância pelo ritmo nordestino. Durante a entrevista, ela recebeu a ligação de uma produtora, agendando uma filmagem para seu mais novo projeto: “A Festa da Belinha”, da qual é protagonista e mentora. Uma produção só com mulheres. As cenas serão(ou foram?) gravadas em plena quinta-feira, dentro de um casarão localizado em um bairro nobre da capital. Belinha adora quanto ilustra a capa de um de seus filmes. Imagine só dar nome a ele.

Quando assume suas opiniões pessoais, Belinha não é lá muito liberal. É categoricamente contra o aborto, contra a legalização das drogas e da prostituição. Tem limites profissionais a serem respeitados. “Não gosto das bizarrices, animais, não há dinheiro que me compraria para fazer isso. Bonecas (travestis), não pensei ainda, tenho um pouco de receio. Já fiz com duas anãs, um anão e um boy (homem).” Mas tratando-se do ato sexual ordinário, a história muda um pouco de figura. “Adoro que me batam. Gosto de putaria, de fazer a três, com vários homens, quanto mais melhor. Já fiz com oito homens, e quero mais, é um desafio meu. Tenho vontade de filmar em uma borracharia, com quinze caras.” Apesar de toda essa empolgação, Bela é consciente quanto aos perigos que corre. “Profissionalmente, prefiro fazer com camisinha. Sempre que faço sem, me sinto um pouco incomodada, me encuca. Fico pensando no risco. Arrisco minha vida por dinheiro e dinheiro não é tudo.”

Além de atuar, Belinha também apresenta e participa de programas de televisão, em canais adultos. Mas são os filmes que impulsionam sua carreira. Em julho, ela viajará pela primeira vez para fora do Brasil. Vai gravar na Espanha. E sabe como o mercado pornô internacional é atraente, já que paga-se mais do que o dobro de um cachê brasileiro.

Segundo reportagem da revista Istoé, a indústria pornô no Brasil movimenta mais de 300 milhões de reais por ano em 2006 e 2007. Dada sua experiência pessoal, Belinha fica em dúvida se esse valor tende a subir ou a cair. “Produtoras como a Brasileirinhas e a Sexxy estão crescendo. Mas acho que o mercado está caindo, porque antes eu gravava muito, muito e agora quase nada. Esse ano eu acho que vai dar menos dinheiro. Tem muitas produtoras por aí, a concorrência é enorme.”

Lado pessoal

O apoio da família é fundamental para ela que prossiga na profissão. “É triste para os pais saberem que a filha é uma atriz pornô e uma garota de programa? É. Mas eles me amam de qualquer jeito, não tem o q reclamar de mim. Aceitam minha decisão. Independente do que eu sou, eles me amam de qualquer forma. A única que me dizem é: queremos que você saia logo disso. Junte seu dinheiro, não gaste com a gente e saia. Não queremos isso para você.” Além dos pais, Belinha tem duas irmãs das quais se orgulha muito. As duas completaram os estudos e têm diplomas universitários, ao contrário de Bela, que teve que largar a escola após o primeiro grau para trabalhar. “Jamais deixaria um filho ou sobrinho meu parar os estudos por qualquer motivo.”

Esperançosa de um dia achar alguém que goste dela, a respeite e com quem possa construir uma família, Belinha continua com sua rotina. Caseira, adora filmes românticos e de terror (só não pode vê-los sozinha porque tem medo), mas é fissurada mesmo por novelas. Come muito pouco,é viciada em sorvetes e salgadinhos, que chama de Milhopan.

Pensa em parar de se dedicar ao trabalho em poucos anos, quando tiver juntado dinheiro o suficiente para tocar sua vida. “Pretendo fazer meu pezinho de meia, ter uma casinha tranqüila, uma família que eu possa respeitar e amar. Filhos, só um ou dois. Paro quando eu vir que chega para mim. Como meus pais dizem, quando eu vir que consegui uma grana legal. Não quero parar para voltar depois. A gente que costuma ganhar muito dinheiro não consegue ter um serviço normal, onde se ganhe muito menos. É difícil mudar assim, mas basta a gente querer. Tem que colocar na cabeça e dizer eu consigo, eu posso.” Humilde, pensa até em voltar a trabalhar na montadora, só duvida que a aceitem de volta.

Indagada se no futuro, terá dúvidas sobre o seu presente, Belinha é decidida. “Não esconderia nada dos meus filhos. Meu passado será passado. Quero poder dar muito respeito e carinho para eles. Não falarei que eu não vou me arrepender nunca de tudo o que eu fiz, porque não se sabe do dia de amanhã. Só me arrependo hoje do que não faço, das oportunidades perdidas.”

E assim Belinha segue, vivendo em um universo de contrastes, entre a dominante atriz pornô e a menina carente que desenvolveu-se fisicamente jogando bola no interior de Minas Gerais, mora sozinha em uma pensão de Pinheiros, passa o tempo em casa de pijamas, dorme como um recém-nascido (no dia da entrevista, tinha dormido quinze horas seguidas) e ainda fala “Uai”. Fiel à sua profissão e a um amor, que ainda não bateu em sua porta.

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Uma resposta

  1. Carlos Lima

    Como consigo falar com a Belinha tem algum tel de contato? Abraços.

    agosto 17, 2010 às 5:00 pm

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