1º semestre de 2010

Começa pela boca

Por Gustavo Basso

Atenção! Tenha mais sensibilidade na próxima vez em que estiver prestes a usar seus dedos, língua, pênis ou qualquer outro órgão de sua preferência na consumação de uma relação sexual.

Você estará prestes a iniciar uma manifestação cultural. Parece estranho? Mas o modo como nós, seres humanos, tratamos e fazemos sexo não se trata apenas de desejo animal. E por mais animal que possa parecer a sua relação, é com essa teoria que concordam médicos e terapeutas sexuais.

Sexualidade, erotismo, linguagem erótica, pornografia – em suas variantes verbais e visuais – são todos invenções da fértil imaginação humana pra preencher o aquele vazio temporal que existia entre uma gestação e outra, numa época em que as mulheres tinham nove, dez filhos. Calcule: são sete anos ininterruptos de gravidez e praticamente sem sexo; motivo de sobra pra fazer pipocar caraminholas na cabeça do homem.

Sexo, cultura e sociedade têm uma estreita relação; qualquer modificação na sociedade pode provocar mudanças no modo com que nos relacionamos com a sexualidade. Somos todos reféns de um inconsciente coletivo, que ritualiza as relações: jantar fora, ir pra balada, comprar o carro da moda são todos rituais em prol do prazer.

“Tudo o que a gente faz é pra ver se come alguém”

Qualquer exemplo de nossos comportamentos mais animais geralmente remete a sexo ou comida, logo não é tão surpreendente que na língua portuguesa uma coisa possa significar a outra. Obviamente não é assim; tanto o sexo quanto as refeições são, entre outras coisas, maneiras criadas pelo ser humano para se relacionar socialmente.

Ao menos é o que diz o psicólogo e terapeuta Oswaldo Rodrigues Jr., diretor do Instituto Paulista de Sexualidade: “A sexualidade é inventada. Ela é um mecanismo humano de relacionamento e tem sido cada vez mais importante a partir do momento que a gente inventa a palavra sexualidade pra incluir mais que o contato genital, pra incluir mais do que o contato físico de carícias. Pra incluir emoções, e conceber a troca de emoções.” E ainda completa: “Você convida uma pessoa para ir jantar, o jantar tem uma função de seduzir… é um rito! Aliás, é tão rito que você vai ver no dia 12 de junho como vai ser um rito.”

O amor como o conhecemos data, na melhor das hipóteses – ou na pior, depende de quem opina – do século XI; outros estudos o datam do fim da Idade Média (século XV). Segundo Rodrigues, “o amor só vai ser administrado como um sentimento chamado de nobre, estável e que mantém as pessoas juntas há 100 anos.” O amor, ao longo da história, mudou de sentido e função. E o sexo também.

Mas sexo tem função, além da reprodução? Vários. Quem nunca ouviu a história do ‘teste do sofá’? Até onde se saiba, o tal teste não tem nenhuma função reprodutiva. Quem ressalta esse ponto é a psiquiatra e professora da USP Carmita Abdo, coordenadora do Programa Sexualidade do Hospital das Clínicas: “O sexo para nós é um instrumento de relacionamento social, e às vezes até em situações excusas. Troca; o sexo pode ser uma moeda muitas vezes, quando você busca outros valores que não o prazer sexual”.

Segundo os terapeutas, não há dúvida de que o ser humano inventou o sexo. Assim como inventou o amor, a sexualidade, a religião, a prostituição, a pornografia. E alteramos os significados da maioria. A pornografia, por exemplo, significava o escrito que se referisse às prostitutas.

E Rodrigues lembra: “A prostituição no mundo antigo tinha muito de divindade. No Império Romano as vestais eram prostitutas sagradas; você pagava pra ter relações com elas e na verdade pagava ao Império, pagava pro povo. As sacerdotisas de Stein, ali na Mesopotâmia, recebiam dinheiro para sexo e o dinheiro ia para o templo, era uma questão religiosa.” Se o modo com que tratamos, relatamos e nos expressamos com prostitutas já foi algo sagrado, hoje está longe disso. As prostitutas, apesar de sofrerem preconceito e discriminação são hoje as salvaguardas da linguagem erótica. As salvadoras de muitos casamentos sem ‘boca-suja’ – pudicos, corretos e responsáveis. “O sexo se alimenta dos palavrões”.

Pau – pênis – pipi

Mas, afinal, por que o palavrão é excitante? A resposta está muito próxima do fato de que a transgressão é excitante, que o proibido é excitante. Quando se é criança, tocar a campainha do vizinho e sair correndo é excitante; brincar com fogo e depois provar que não fez xixi na cama é excitante. Mas crescemos, o sentido de excitante, que antes era tão amplo acaba se restringindo a uma situação: duas ou mais pessoas sob forte atração física em situações eróticas.

Se ao aprendermos a falar nosso campo de imaginação se restringe, ao crescermos e absorvermos a cultura sexual, fica mais restrito ainda. Mas afinal de contas: por que diabos é mais excitante falar palavrão no sexo? Aliás, por que grande parte dos xingamentos tem a ver com o sexo? Termos como “vai se foder”, “vai tomar no c*”, “filho da puta” ou “veado” tem todos, direta ou indiretamente uma relação com o sexo; e ao modo como a sociedade brasileira se relaciona com sexo. Pode-se até arriscar que é o modo como o mundo ocidental lida com o sexo, mas é muita pretensão.

Ana Flávia Madureira, doutora em psicologia pela UnB, aponta para o sentido da transgressão de convenções sociais no uso do palavrão: “Na esfera do erotismo, muitas vezes, o sentido de transgressão pode ser vivenciado como algo estimulante. Obviamente, desde que o casal esteja de comum acordo em relação às práticas e à linguagem a ser compartilhada no momento do ato sexual.” Esse consenso do uso dos termos entre parceiros parece ser um ponto de comum acordo entre os entrevistados. Qualquer comportamento forçado é negativo. E o que era um palavrão excitante passa a ser um xingamento.

“Quando a gente está xingando a outra pessoa, nós estamos querendo dizer que a outra pessoa é subalterna, é menos. Nós estamos tentando, nesse jogo de palavras, impor poder e fazer uma negociação onde o outro fique por baixo.” E esse jogo de palavras não é só utilizado para outras pessoas, mas a coisas ou fatos que nos desagradem. Seu amigo quebrou uma perna? “Nossa, que merda” Terá que botar pino? “Puta, se fodeu!” Experimente dizer “Nossa, se deu mal” Nem de longe isso exprime todo o sentimento que a situação exige.

Isso porque, segundo o psicólogo cognitivo Steven Pinker, da Universidade Harvard, em seu livro Stuff of Thought (citado pela revista Super Interessante, Ed. 249) os palavrões são elaborados no sistema mais primitivo do cérebro, aquele mais associado aos sentimentos e menos à razão. E essa expressividade vale muito para a relação sexual. O uso de eufemismos pode prejudicar muito a intensidade da relação sexual; e atrapalhar relacionamentos.

É o que aponta Rodrigues: “Se existe uma emoção, um peso que tem que falar aquela palavra mesmo, se usar um eufemismo você está tirando toda a emoção e sexo exige emoção. E alguns eufemismos são, por exemplo, infantilizados, tipo: “vamos fazer nhen-nhen-nhen!”. Isso são formas das pessoas falarem pra substituir palavrões. Po, é disso aqui que nós estamos falando, não é outra coisa! Não é batatinha, não é periquita, não é pipi; se a gente baixar o grau de emoção… vamos assistir novela e futebol que fica mais emocionante.”

Toda essa expressividade emotiva na hora do sexo é moldada por nossa cultura e sua bagagem histórica. Como expõe Madureira, nossa língua e linguagem são todas marcadas por um preconceito, e “a linguagem cotidiana para se referir à sexualidade é uma linguagem com forte conotação de imoralidade”. Não só a linguagem marca o sexo como imoral, mas ao longo da história ele foi considerado algo indecente, pra se fazer dentro de quatro paredes… como um banheiro! Nos escondemos pra ir ao banheiro, nos escondemos para fazer sexo.

Mas o traço mais marcante é um sempre presente machismo na língua: “O órgão sexual masculino é associado, freqüentemente, a armas, como: “pau”, “cacete”, “vara”, etc. O ato sexual é interpretado, muitas vezes, através de uma visão polarizada e hierarquizada: o homem come; a mulher dá”, afirma Madureira.

Esse preconceito estigmatiza palavras que antes tinham significados neutros; pau, nada mais é no dicionário do que um galho; boceta era uma caixa pequena e redonda e assim por diante. E as prostitutas, que já foram sagradas, hoje são consideradas um dos nichos mais baixos da sociedade; o que vale uma pergunta: no fundo, no fundo, não fazemos todos nós uma venda de parte do corpo para trabalhar?

A tão sonhada vida fácil

Há um ponto a se ressaltar em relação às prostitutas: a dificuldade para se conversar com elas para uma reportagem. A simples menção ao termo “matéria” já causa uma repelência. Um pouco de sensibilidade basta para não abordar assim e para entender essa resistência. Diante de uma profissão tão estigmatizada, como não temer algo que se possa falar?

Em compensação essa busca por uma conversa que trouxesse algum repertório empírico leva a diálogos insólitos, como a criação de personagens clientes ao falar com uma acompanhante pelo telefone: “Me diz uma coisa, você costuma ouvir coisas estranhas?” “Ah, não sei… o que você considera estranho?” “Ah, eu não fico muito a vontade pra falar.” “Pode falar, sem medo.” “Tá bom, tipo, quero que você me coma…” “Ah, mas isso não é tão estranho.” “Você ouve coisas piores? Tipo o que?” “Ah isso eu te conto pessoalmente”.

Prostitutas ouvem de tudo no campo erótico e precisam falar de tudo. Abdo aponta uma das razões: “O homem se restringe muito no sexo que faz com a sua parceira doméstica. Ele acha não só que determinados termos não devem ser utilizados como também que determinadas práticas não devem ser utilizadas. Então o repertório sexual com a esposa é meio sem graça, repetitivo, muito menos animado do que ele faria com uma garota de programa, onde ele se permite todo tipo de prática liberdade de expressão.”

E dá-lhe sacanagem; Bete*, ao ser perguntada sobre o que eles querem ouvir, lançou um “amor, você pega o cara e diz: ‘vem e me come, seu safado’” e ainda emendou “e o homem ter que ser direto; botar a mulher no canto e falar ‘e aí, por quanto você sai daqui?’” O respeito que ele se sente obrigado a ter pela mulher amada lhe impede de xingar, oprimir – afinal, é pra isso que existem os xingamentos – a senhorita que está sob ele na cama. Porém nada lhe impede de assumir esse comportamento em uma situação de cliente. E o cliente tem sempre razão.

Se fosse apenas isso, seria mais fácil se acostumar. Eva* conta que muitos homens pedem pra que ela fique quieta na cama, no máximo emita um gemido. E nesse comportamento há, algumas vezes, um agravante: alguns desses homens pedem ainda para que as prostitutas tomem um banho frio antes da relação. Algo para simular um corpo morto. Agora, o que impede um indivíduo que deseja a esse ponto transar com uma morta de matar a mulher e transar logo com um corpo verdadeiro? O fetiche não tem limites em muitos casos.

E grande parte dos fetiches vem dos homens. Seria um reflexo dessa liberdade maior que os homens têm para com o sexo? Liberdade paradoxal essa, pois ao mesmo tempo os homens podem “tudo”, não podem uma série de coisas: não pode beijar outro homem, nem no rosto; não pode vacilar com os olhos no banheiro; não pode ter uma vaidade maior. Todos comportamentos tacháveis de veado, nada lisonjeiro, como sabemos.

Carmita Abdo acredita que não, e acredita em um outro fator para esse fetichismo masculino: “a mulher tem muito mais contato com objetos que são potencialmente fetiche; ela pode usar um adereço, ela pode usar um brinco, ela pode usar uma peça no cabelo, etc. Mas nem sempre foi assim; nós tivemos tempos em que os homens se enfeitavam, usavam peruca, usavam aqueles babados todos, usavam aqueles brilhos nas roupas. Será que naquela época os fetiches eram menos comuns?” Ao menos a um ponto Oswaldo Rodrigues responde: “é mais comum encontrarmos grupos de sado-masoquismo em sociedades politicamente restritivas, autocráticas. Ou seja, você não briga com o governo, mas você pega sua vizinha, chicoteia ela, consensualmente, os dois adoram isso, mas você não vai fazer passeata contra o governo.”

O ser humano, em seu confuso mecanismo mental, complica as coisas; transforma reprodução em prazer; prazer em culpa; culpa em palavras, palavras em prazer; prazer em ferramentas sociais; ferramentas sociais em preceitos; preceitos em preconceitos; preconceitos em fetiches; fetiches em prazer; prazer em dor e assim por diante. Só a cabeça humana foi capaz de dar vida a tantas palavras e palavrões. E perguntas que custam a ser respondidas de uma vez. Talvez em 100 anos as respostas sejam diferentes, andemos pelados pela rua e palavras usuais como camisa se torne um palavrão.

Glossário

• Amor: viva afeição que nos impele para o objeto dos nossos desejos; inclinação da alma e do coração; objeto da nossa afeição; paixão; afeto; inclinação exclusiva;

• Boceta: pequena caixa de papel, madeira ou outro material, cilíndrica ou oval, para guarda de objetos;

• Cacete: pau curto e grosso; bordão grosso numa das extremidades; pão de trigo sobre o comprido;

• Caralho: o pênis; designa irritação, indignação

• Carícia: afago; carinho; manifestação de afeto.

• Cultura: conjunto dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores morais e materiais, característicos de uma sociedade;

• Erotismo: amor físico, prazer e desejo sexual distintos da procriação; exaltação de tudo o que é referente ao desejo sexual

• Eufemismo: ato de suavizar a expressão de uma idéia, substituindo a palavra própria por outra mais agradável, mais polida;

• Excitante: estimulante

• Fetiche: objeto animado ou inanimado, natural ou feito pelo Homem, ao qual se atribui poder sobrenatural ou mágico e ao qual se presta culto;

• Foder: copular; sair-se muito mal (de qualquer intento); entrar pelo cano; não ligar importância

• Palavrão: obscenidade.

• Pau: pedaço de madeira; bordão; cajado; vara; haste; mastro; chifre;

• Pênis: órgão da copulação, no homem.

• Pornografia: representação (por escritos, desenhos, pinturas, filmes ou fotografias) de cenas ou objetos obscenos destinados a serem apresentados a um público; coleção de pinturas ou gravuras obscenas

• Prazer: sensação ou sentimento agradável, harmonioso, que atende a uma inclinação vital; gozo

• Prostituição: comércio habitual ou profissional do amor sexual

• Ritual: Conjunto de práticas consagradas pelo uso e/ou por normas, e que se deve observar de forma invariável em ocasiões determinadas

• Sacanagem: ato, procedimento ou dito de sacana; devassidão, bandalheira, libertinagem, sacanice

• Sexo: características estruturais e funcionais que permitem distinguir os organismos macho e fêmea; fazer sexo: ter relação sexual, fazer amor, copular

• Sexualidade: conjunto dos fenômenos da vida sexual; conjunto de todas as condições anatômicas e fisiológicas que caracterizam cada um dos sexos

• Transgressão: infração.

• Vagina: designação comum a diversas formações com feitio de bainha; canal do aparelho genital dos mamíferos-fêmeas que se situa entre a vulva e o útero

• Vara: haste delgada e flexível de árvore ou arbusto; circunscrição judicial em certas cidades do país; conjunto de porcos

• Veado: quadrúpede ruminante, de galhos redondos e ramosos; espécie de mandioca, de talo vermelho e raiz curta e grossa

• Xingamento: insulto com palavras afrontosas, zombaria, injuria

• Xoxota: a vulva

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