1º semestre de 2010

Don Maroni

Por Rafael Duque e Piero Locatelli

Qualquer referência à boate Bahamas mexe com as cabeças, e muito mais, de todos homens paulistanos. O lugar já foi frequentado por algumas das figuras mais ricas da cidade, por políticos, celebridades e pilotos de F-1 — na época do GP de Interlagos, a casa sempre lota — e também pelas mulheres mais cobiçadas da capital paulista. Mas as pessoas que hoje passam pela frente da boate, em um dos quarteirões mais valorizados de São Paulo, percebem que o Bahamas está longe de ser tudo aquilo que já foi. Do lado de fora, suas paredes estão estampadas pelo cartaz da subprefeitura escrito LACRADO, já comum ao redor de toda capital. Já dentro dele, as cadeiras com texturas de zebra e os aquários não parecem fazer muito sentido com a luz acesa e sem uma única mulher.

Foi dentro desse Bahamas fechado, onde atualmente funciona seu escritório, que o dono desse império do sexo, Oscar Maroni, nos atendeu para uma conversa de mais de duas horas. Com óculos escuros, chapéu e cara inicialmente fechada, ele também estava acompanhada por Docinho, seu inseparável poodle de estimação.

Milionário, ele é dono de fazendas de gado e também promotor de lutas de artes marciais — onde atende por “Don Maroni”. Nesse ramo já tentou até organizar uma luta entre Rickson Gracie e Mike Tyson em Dubai — sonho que não se concretizou graças as altas quantias desejadas por Gracie.

Porém, não é nem pelo gado e nem pelas lutas que ele ganhou sua fama. Maroni fez seu nome sendo dono, além do Bahamas, do Oscar´s Hotel, gigante hotel ao lado do aeroporto de Congonhas e ligado ao Bahamas por uma passagem subterrânea, e também de algumas revistas relacionadas ao sexo, como a Penthouse e a Hustler brasileiras.

Perdendo o cabaço

Mas antes de seu nome ser relacionado ao que há de melhor em termos de sexo, Maroni teve uma iniciação bem diferente do que seu status atual aparenta: ele perdeu a virgindade com uma prostituta, fato que muitos deveriam imaginar. Mas nada comparado às cobiçadas freqüentadoras do Bahamas.

Com cerca de 17 anos, depois de assistir um filme em que Jane Fonda aparecia “de peitinhos de fora” no Cine Ipiranga, centro de São Paulo, ele resolveu que já era a hora. “Eu fui na zona lá atrás, tinha uma loira que era uma velha horrorosa. Mas era loira. Eu fui.” Nervoso, deu uma rapidinha com a moça enquanto ela lia uma revista de fotonovela.

De tão ruim, a transa fez o empresário tremer nas bases. “Pô, será que eu sou viado? Será que sexo é essa merda que aconteceu comigo?” Quem tirou de vez essas dúvidas foi seu cunhado, hoje marido de sua irmã, que o apresentou a duas putas da zona de Santos em seu apartamento. Daquela vez a impressão foi bem diferente: “Eu me lembro que no outro dia de manhã, nós estávamos os quatro tomando café e elas com os peitos de fora. Puta, eu achei aquilo bonito, eu contava pra todo mundo”.

O ponto crucial da mudança de sua carreira veio anos depois. Ainda na faculdade de psicologia e, sob os auspícios de João Carlos Di Genio, dono do conglomerado Objetivo, conseguiu vender lanches, seu primeiro negócio. Enquanto cursava a faculdade, também começou a atender um certo nipônico que sofria de ejaculação precoce, cuja a cura mudaria o rumo de sua vida.

Primeiros passos como empresário

A solução achada por Maroni para seu paciente foi dupla: o tratamento psicológico e idas regulares a uma “casa de massagens”. O resultado não podia ter sido melhor. “O japonesinho ficou uma bala”, conta. “Aí eu falei: vou montar em São Paulo uma instituição que tem como objetivo o tratamento terapêutico. É mentira, era uma roupagem que eu queria dar a essa atividade que eu gosto tanto que é a sexualidade humana.”

Da história do japonês, até o Bahamas, a trajetória parece fácil ao ser contada por Maroni: “Aí eu monto uma casa, duas três, quatro e fui crescendo com as boates, com as casas noturnas. Aí eu abri o Bahamas Club.”

Com essa trajetória, ficou quase inevitável perguntar: quantas mulheres nesse tempo, Maroni? “Segundo a revista G Magazine eu já tive mais de 2 mil mulheres.” Verdade? ” O repórter me falou, seu Oscar antes de vir pra cá eu fiz uns cálculos… Naquela época, o senhor falou que tinha trinta anos de noite. Trezentos e sessenta dias tem o ano, vamos fazer trezentos por ano, vezes 30 anos de noite. São três vezes três, nove. Seriam nove mil mulheres, uma por dia, impossível. Eu falei, é, coloca uma a cada três dias. Já daria 3 mil.”

Três mil? “Realmente, eu já me relacionei muito sexualmente. Mas acho que isso não é mérito nenhum, essa quantidade é até meio cafajeste. Eu amei, perdidamente, seis, sete mulheres. ”

Família

Dentre essas seis, sete mulheres, a que passou mais tempo com ele foi Marisa, sua esposa durante 27 anos. Mãe dos quatro filhos de Oscar, ela mora hoje em dia com a prole numa cobertura de 700m². Mas, e as outras três mil mulheres? Marisa não tinha ciúmes? “Tinha problema de ciúmes, mas depois eu comecei a virar ela”, e ainda relembra: “Uma vez um amiga dela perguntou a mesma coisa. Ela falou: Eu sei que meu homem ta lá, o Oscar ta lá no Bahamas. A diferença é que eu sei onde ele tá, você não sabe onde o teu homem tá.”

Ao falar sobre a filha, Maroni é um pai que se sensibiliza. Nos contou até que chorou vendo o filme Juno, ao lembrar da história da gravidez indesejada da sua herdeira. Contando sobre essa história, Maroni não mede palavras: “Hoje eu sou avô e digo o seguinte, o pau do meu genro comeu a minha filha e maravilhosamente me deu um ser que eu amo muito que é o meu neto. ”

Os outros três filhos, todos homens maiores de idade, frequentam o Bahamas e todo domingo, almoçam junto com o pai, que hoje em dia namora Maíra, uma menina décadas mais nova que ele.

Fuga

Era com ela que Oscar estava quando foi decretada sua prisão, logo após a queda do avião da TAM. Segundo ele, era uma noite como qualquer outra e ele estava em seu flat. “Liguei pra Maíra e disse: vamos pedir para vir uma amiga minha aqui? Vamos fazer uma festa a três?”. Quando pegou o celular para ligar para a tal amiga, viu um recado do advogado, alertando sobre a prisão. “Nossa! Eu levantei de pau duro e desesperado”, lembra. A partir desse momento, o empresário começou uma seqüência de fugas e disfarces até se entregar à polícia.

Na sua rota como foragido passou pela casa da namorada e sua casa de praia, no litoral norte paulista. Durante esse tempo, Maroni chegou a dar entrevistas para alguns canais de televisão. “Aí me encheu o saco e eu voltei pro meu flat. Tava um saco pra sair na rua, teve um dia que eu saí disfarçado de gay”, relembra, enquanto faz uma imitação do personagem que encarnou para não ser descoberto. Ele ainda revela que esteve muito perto de ser preso, mas se safou ao se passar por deficiente mental para um policial. “O cara olhou eu babando e foi embora”, contou.

Apesar de saber que sua pequena aventura fugindo da polícia pode ser considerada crime, Maroni diz que em nenhum momento quis desrespeitar a Justiça. “Não vou desrespeitar a Justiça porque é a Justiça que me julga”, afirma. Quando cansou do papel de fugitivo, ele se entregou aos policiais e passou 57 dias preso.

Prisão

“Acho que todo ser humano deve ser preso por uma semana para dar valor à liberdade”, profere Maroni. Os dias que passou atrás das grades fizeram ele pensar em muitas coisas da vida — hoje afirma que dá um valor diferente para algumas coisas que antes passavam despercebidas, como tomar café na padaria. Além da depressão, o empresário também se sentia desconfortável com a comida servida aos presidiários, “eu olhava pra quentinha e tinha vontade de vomitar”. Apesar de todos esse problemas, Maroni admite que a estadia no xilindró rendeu boas histórias.

Dentre elas, consta até um problema com as visitas íntimas. Segundo ele, a sua ex-namorada ficou desesperada quando soube da prisão e foi até a delegacia para “consolá-lo”. Resultado: acabou usando a visita íntima com a namorada numa semana e com a ex na outra. “Eu confesso que é um barato, uma fantasia diferente. Depois o delegado soube, cortou [as visitas] e tive que oficializar uma.”

Como a visita íntima era apenas uma vez por semana, Maroni dava um jeito para conter o seu apetite sexual nesse meio-tempo. E ninguém melhor do que ele para explicar como funcionava. “No meio da madrugada você pega uma meia e bota no pau, bate uma punheta e põe embaixo da cama. No dia seguinte você pega aquela meia gozada e leva pra lavar. Isso porque já fechou as grades e não pode ir pro banheiro lavar durante a noite.”

O empresário conta também que a passagem pela delegacia fez com que ele descobrisse que muitos mitos em relação aos presos são mentira. “Esse preconceito que dizem que comem o rabo de preso também é mentira”, protege-se. “Tinha um gay que dormia embaixo da minha cama e ele dizia que tava lá há um ano e ninguém comia ele”.

Intercalando essas histórias com constatações de teor mais sério durante toda a entrevista, , logo em seguida Maroni frisou que foi muito respeitado dentro da cela e mostrou comoção ao falar da situação dos presos. “Não pode colocar esses milhões de seres humanos dentro de um cárcere, onde se fabricam bandidos e assassinos, e depois soltar eles achando que eles vão ser bonzinhos”. Para concluir sua indignação, ele desabafa: “O que mais falta na nossa sociedade é justiça”.

Enemies

Justiça, ao lado de liberdade, é a palavra mais falada por Maroni durante a entrevista. Nos primeiros quarenta minutos dela, Maroni fez um monólogo, na defensiva, ressaltando como a tal justiça esteve bem longe dele nos últimos tempos.

A irônia é uma constante nessas defesas. Seu primeiro alvo é uma matéria do Fantástico em que um anônimo piloto falava que o hotel de Maroni obrigava os aviões que iam pousar no aeroporto de Congonhas a desviarem sua rota de pouso. Irônico, afirmava que, para isso ser possível, ele era mais poderoso que o presidente do Brasil, dos EUA, e completava: “Então, eu consegui, com o meu hotel, reduzir o tamanho da pista do aeroporto em 150 metros. Percebe puta pica grossa que eu sou? Eu sou um pau de provolone!”

O hotel, matéria da reportagem, é o único grande prédio numa região de casas e deve causar estranhamento em qualquer ser humano que passe na região. Porém, Maroni diz que possui a autorização da aeronáutica para a construção do estabelecimento, e que seu problema não estaria ligado à altura mas, na verdade, ao barulho. O que de fato não deve ser um problema: a sensação de dentro do hotel é a de uma sala hermeticamente isolada, em que os aviões passam fora da janela como numa televisão ligada no mudo.

Dentro do imenso hotel, a construção segue parada, causando prejuízos e trazendo ainda mais lamentos ao nosso entrevistado. “Eu sou um homem rico pobre. Eu tenho propriedades, fazenda, moro em cobertura, ando de Jaguar, Mercedez, tenho Jet-ski. Mas isso aqui é a liquidez, e isso aqui está fechado.” Sem titubear, ele elenca o prejuízo que vem tomando com o fechamento da boate e o hotel parado: “Eu tenho 130 empregados que até três meses atrás eu estava pagando o salário. Segundo, você sabe o que cobre um prédio deste tamanho? São 17.000 m², 223 apartamentos. Parado! Então isso está me dando uma situação financeira muito delicada por incompetência do Estado, por falhas de informação do Estado. Hoje eu diria até que não foi nem uma perseguição direta do prefeito [Gilberto Kassab]”.

Sobre ele, Maroni ainda complementa: “Eu diria aqui, sem puxação de saco, que nosso prefeito fez até coisas boas, como por exemplo tirar aí os outdoors. Eu tava vendo na bandeirantes, a cidade tá mais limpa… mas em relação ao meu hotel, à minha boate, ele errou sim.”

Se ao falar de Kassab, Oscar parece moderado, seu jeito de tratar Flavio Lepique, antigo subprefeito da Vila Mariana e figura carimbada na época em que o Bahamas foi fechado, é bem diferente: “ele é moleque, é irresponsável, inconseqüente. Tomou atitudes arbitrárias em relação à minha pessoa.” Não satisfeito, Maroni continua seu ataque. “O senhor Flavio Lepique, que é duma religião evangélica ou alguma coisa assim, declarou que ele é contra a prostituição, que ele não gosta. Tudo bem, respeito o ponto de vista, mas ele tem que respeitar quem gosta. Eu sou a favor de pênis eretos, vaginas molhadas e cada um colocar a boca onde bem entende, no duplo sentido, ou no triplo sentido.”

Mas seu grande karma atende pelo nome de Roberto Cabrini. Reportér da Record, na época ainda na Bandeirantes, ganhou a mesma mídia que cobria quando foi preso por tráfico de drogas neste ano. O problema de Maroni, porém, reside mais atrás: “Uns seis meses antes de cair o avião da TAM, senhor Roberto Cabrini veio me procurar. Aí ele me diz assim no meio da entrevista: é prostituição? Eu digo sim, não vamos ser hipócritas. É prostituição de luxo.”

Foi essa matéria que levou os holofotes para Maroni, ainda antes da época da matéria do Fantástico e, segundo ele, de modo injusto: “Prostituição não é ilegal, mas ilegal é manter uma casa de prostituição. Ilegal é o rufianismo, é a facilitação. Eu disse não, eu não pratico nenhum desses fatos, já fui absolvido dezena de vezes.”

Caráter e influência

Maroni não se cansa de explicar a legalidade de seu negócio. E, as vezes, até a aparente imoralidade dele, coisa que ele nega de forma veemente. “Eu não sou imoral. Eu acho a minha camisa preta mais bonita que a sua verde. Isso não me dá o direito de te cobrir de porrada, arrancar sua camisa verde e por uma camisa preta em você”. É isso que, para ele, é a liberdade.

Para comprovar o seu caráter, ele fala para todos que quiserem ouvir, em alto e bom som, que nunca corrompeu nenhuma autoridade, além de nunca ter se deixado intimar por corruptos. “Todas as pessoas aqui sabem que quando vem polícia, eles querem dar carteirada e entrar de graça, mas eu não deixo, eu não permito isso”.

Maroni revela que já foi católico, mas hoje segue seu próprio tipo de religião. “Eu acredito que existe um certo grau de evolução. Eu digo: me diga sua religião, e eu te digo em qual grau de evolução você está”.

O controverso escritor americano Henry Miller influenciou profundamente a vida do empresário. Tal qual Maroni, Miller ficou famoso ao falar de assuntos sexuais. As obras dele foram banidas de vários países sob a acusação de pornografia. Ele foi o autor da trilogia Sexus, Plexus, Nexus, que chamou de A Crucificação Encarnada. Como nos outros livros, esses romances narram trechos de sua própria vida, embora ele negasse. Além do autor americano, Maroni conta que outra parte importante para decifrar esse quebra-cabeça da formação do seu caráter são os estudos sobre a vida do naturalista Charles Darwin e do filósofo Friedrich Nietzsche, que têm feito ele repensar muitas coisas sobre a própria existência.

Futuro

E é justamente para essa existência que ele busca novo motivo. “Eu lembro que no dia 7 de setembro, durante a madrugada, em cima de um colchãozinho de 3 cm, eu decidi que iria me candidatar a um cargo público”. Petista de coração, sabia que seria difícil trilhar uma carreira de sucesso dentro de um partido tão grande. Filiou-se a uma legenda de menos fama e mirou seu foco na prefeitura, mas logo se desiludiu e agora sonha em um cargo menor.

Mesmo que não consiga realizar seu objetivo a curta prazo, Maroni tem outras metas traçadas para o seu futuro. “Se eu não entrar nesse pleito político agora como vereador, eu pretendo um cargo político futuro. E nesse espaço de tempo eu quero um programa de televisão. Eu quero ser o Michael Moore do Brasil!”, revela o empresário, se comparando ao documentarista norte-americano famoso por suas polêmicas. E para aqueles que acham que ele está apenas brincando, o programa já tem até nome: Oscar Maroni, o comprador de corruptos. Nele, o astro do show tentaria comprar os mais diversos tipos de profissionais para depois denunciá-los ao Ministério Público. Resta agora esperar para ver se o dono do Bahamas conseguirá, enfim, moralizar a política e a mídia nacional.

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