1º semestre de 2010

Estranhos virgens

Por Eliza Casadei e Rafael Duarte

Todos os dias, anônimos cruzam os nossos caminhos. E, como não somos possuídos de fama, acreditamos que eles possuem os mesmos hábitos autômatos que nós. A sexualidade também entra nesse nível. Não gostamos de pensar, mas os outros também transam.

O advogado Roberto Figueredo, conhecido como Beto, de 28 anos, e a nutricionista Sabrina Amaral, de 25 anos, falam claramente: “Não somos nenhum ET. Temos vontade de toda ordem como qualquer pessoa”. Namorados há seis anos e seis meses, o belo casal seria rotulado como estranho por uma única coisa: eles são virgens.

Ambos estão uma geração a frente daquela que figurou a revista Veja em 1992. Na época, os virgens do Brasil representavam quase um terço da população jovem e contradiziam tudo o que se reportava de liberalidade sexual. Por muitos motivos, o jovem do Fora Collor esperava o momento certo para ter a sua primeira vez.
Nisso, Beto e Sabrina têm em comum com os mais “velhos”. Eles estão esperando a primeira vez deles que ocorrerá logo após o casamento, previsto para 2009. A motivação de tal resguardo é também considerada tradicional na área: a religiosidade.

Santos e separados

“Olha, a Bíblia possui vários elementos sobre a relação entre humanos. Neles, o que mostra é que devemos ser santos como Cristo, ou seja, separados perante os amigos e com sua companheira”. Após essa territorialização fundamental, Beto começa a esclarecer que separado significava ter uma atitude respeitosa e que não escandalizasse os outros.

Um exemplo claro disso, para ele, é o comportamento do casal na entrevista. Ora, mesmo que estivessem entre amigos, não caberia ali o mais apaixonado dos beijos. Sabrina concordava com os olhos com tudo que ele dizia. O seu silêncio parecia aumentar o poder da eloquência dele. Era uma olhar que apoiava sem escândalos uma atitude que se transmutava em voz.

Membros da Bola de Neve Church, os dois mostravam que aquela igreja, localizada na palmeirense rua Turiassú, não significava uma religião, mas sim um modo de vida. Beto, sem perder a cadência sustentadora de sua voz, afirmava que todo aquele ethos está dentro do coração dele, nas atitudes e não em um ídolo de barro ou na prancha de surfe do altar. Aquilo era um modo de vida.

E Sabrina e Beto possuem uma vida normal de qualquer casal na faixa etária deles. A única diferença seria o trabalho espiritual deles. Como bons líderes de célula, aqueles pequenos grupos de discussão que a maioria da igrejas possuem, a palavra amiga e confortadora é a regra na conversa.

Tanto que, no final da entrevista, Beto não hesitou em dizer: “Para mim, o importante é que tudo que eu disse hoje, tenha tocado o coração de vocês. Se isso aconteceu, estou feliz”. Após isso, o casal nos convidou para acompanhar a célula, fato que o trânsito caótico de São Paulo e a vontade de chegar no mesmo dia em casa nos obrigaram a declinar.

Alfa e Ômega

No mato alto da ECA-USP, há um grupo de cinco pessoas com uma placa em português que diz: “Alfa e Ômega. Se cristão, venha para nós. Aqui às 11:45”. Assim como Beto e Sabrina, os membros faziam um plantel à la Brad Pitt: loiros, altos e de olhos claros. Resolvemos nos aproximar com o singelo “oi” brasileiro de todos os dias.

Ao primeiro som de português, agem com estranheza. Afinal, Kristin e Andrew são americanos fazendo um trabalho estudantil pela Alfa e Ômega, uma greek letter cristã muito parecida com aquelas de cinema. Parecem não entender direito o que fazemos ali e, como qualquer americano, respondem nossas perguntas com dísticos.

Só que a velha desculpa, infelizmente verdadeira, de ter estudado em colégio católico quebra o gelo tão bem representado pela nordicidade da beleza deles. Conseguimos falar sobre sexo depois do casamento com eles.

Andrew, que parece mais fluente, fala que o sexo é algo muito bonito para os esposos e precisa atingir um certo nível, sem ultrapassá-lo antes da hora. Para ele, o sexo antes do casamento representa uma antecipação de tal patamar, causando relacionamentos destruídos.

Kristin, que parece mais assustada com o assunto, só responde a pergunta sobre a influência da mídia na antecipação sexual da juventude. “A mídia é muito malvada”, se resumiu a dizer. Se isso foi uma direta, uma indireta ou um gancho, não sabemos. Só entendemos o fato que existem greek letters aonde a oração – e não a orgia – é a atividade principal.

Jesus não escolheu

Anne Tairine estava triste quando foi entrevistada. A moça de Itu falava de um namoro cristão que não tinha dado certo. Ela e o ex, músico de Limeira, romperam os 3 meses de namoro em comum acordo, com a sensação boa que os momentos que viveram foram abençoados.

“Bom, um namoro cristão é baseado na confiança, no amor e na santidade. Sem essas três características, o namoro não pode se consolidar. Há namoros que possuem os três requisitos, mas acabam tendo fim, pois a pessoa escolhida por nós pode não ser a pessoa escolhida por Deus”, discorre Anne Tairine. A ansiedade seria o principal fator de erro na leitura da vontade divina.

Parecendo mais aberta a perguntas, disparamos o quão próximos podem ficar os namorados cristãos – acreditamos não precisar explicar para você, sagaz leitor, a entrelinha sexual de tal questionamento. A resposta foi imediata: “Polêmica, né?”, seguida de riso.

No entanto, Anne Tairine não fugiu, respondeu e aqui citamos o encadeamento de idéias: “Então, os pastores sempre nos aconselham a prestar atenção no trabalho, nos estudos, na família, na igreja e depois pensar em namorar. Quando o casal estiver junto deve sempre lembrar que a santidade do Senhor deve estar neles, sendo assim, devem evitar ficar sozinhos, no escuro onde ninguém possa vê-los”.

A aula teológica de namoro sem sexo continua com a mesma majestade de um professor catedrático: “Procurar frequentar lugares públicos, visitar novas igrejas, participar de atividades que envolvam os amigos, a família, entre outros.

Isso faz com que o foco seja a cumplicidade, e não apenas a atração física. Beijos muito demorados podem levar a outras coisas. Tudo começa no beijo, por isso temos que tomar muito cuidado. Estar sempre em oração um pelo outro é fundamental, para que a vontade do Senhor seja o foco do casal”.

Com certa melancolia cristã, Anne Tairine lembra que prefere “andar em retidão aos olhos do Senhor, pois mesmo errando sei que ele é fiel e poderoso para me perdoar e me ajudar a seguir em frente”. Ouvimos dizer que agora Anne Tairine está feliz e namorando novamente. Basta torcer para que esse seja o escolhido por Deus.

Virgem não, só não sou promíscuo

Você já viu um cara com um X na mão ou um nick com X (ex: FulanoX) na Internet? Eles, os straight edges (sXe), são conhecidos, pelo senso comum, de seguirem uma filosofia de não comerem carne, nem beberam bebidas alcoólicas, nem usarem drogas e nem mesmo fazer sexo antes do casamento.

“Isso de não fazer sexo antes do casamento, sinceramente, eu não sei de onde veio. Porque se for assim, as pessoas passam a tomar como religião. E não é bem isso, straight edge é uma questão de consciência. Uma coisa que tem a ver é, de que no começo do movimento, os caras serem contra promiscuidade”, lembra Bruno Pedroso, de 18 anos.

Bruno nos foi indicado como sXe, mas ele alega não ser muito participativo na cena. O seu primo Fernando é mais ativo do que ele, mas mesmo assim ele faz uma interessada descrição do movimento. Ele lembra que tudo começou nos anos 80 quando Ian MacKaye, do Minor Threat, pregava um punk (hardcore) sem drogas.

Depois a banda Youth of Today incluiu o vegetarianismo no movimento, fato que ecoou muito no Brasil onde quase todos sXe são vegans. Mas, o senso comum do não-sexo parece não ter nenhum relação com qualquer banda.

“Mas, eu não acho que no straight edge, isso de sem-sexo antes do casamento exista. É mais pautado em não fazer sexo promíscuo ou acho que nem isso exista mais no straight edge também. Talvez, isso pode ter sido algo do straight edge no início, contra o movimento hippie”, afirma Bruno, lembrando que isso é uma hipótese que lhe veio no momento à cabeça.

A entrevista com o não-virgem nos mostrou que, tanto no caso dele como no dos outros citados, a estranheza não pode ser ligada ao fato de serem virgens. Na verdade, não há possibilidade de valoração nesses casos. Como dizia Albert Camus, o absurdo é o conceito essencial e a primeira verdade do mundo.

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