1º semestre de 2010

O tabu que virou chavão: uma tarde no sex shop

Por Eliza Casadei e Rafael Duarte

“Mãe também é mulher… dê um presente diferente para ela”. A faixa que chamava atenção para a data comercial mais sentimental (e, por isso mesmo, a mais lucrativa!) do ano combinava perfeitamente com a banalidade e cotidianidade do estabelecimento. Localizado numa das principais avenidas de Santo André, em frente a um ponto de ônibus ininterruptamente lotado, as pessoas iam para o trabalho e voltavam para suas casas sem dar maiores atenções àquele tipo de comércio. Ele era tão inocente quanto a padaria do outro lado da rua ou a farmácia da próxima esquina.

Quem temesse algum riso de deboche ou algum muxoxo de desaprovação por entrar ali, sofria quase que uma espécie de decepção. O que era para ser uma transgressão de valores, uma aventura em um mundo de perversão, uma alteração das funções normais impostas pela sociedade se tornava um ato quase tão surpreendentemente avassalador quanto esperar um ônibus. Cidadão nenhum iria reparar, imerso demais que estava em sua própria trivialidade para se preocupar com a frivolidade alheia.

E é assim que Elizabeth Góes de Oliveira, dona do sex shop Libet, gosta que seja. Rejeita a combinação de cores fortes comuns nos estabelecimentos de produtos eróticos dos romances baratos e qualquer outro sinal que transpire marginalidade. Com a porta sempre aberta e com o olhar iluminado que faz com que ela pareça bem mais jovem e bela quando fala de sexo, Beth explica que a parede forrada de vibradores e dildos são, verdadeiramente, a materialidade da história de homens e mulheres comuns que procuram objetos para melhorar o estado de vida em que se encontram.

O casamento e a salvação dessa instituição por meio do bom relacionamento sexual entre os parceiros são as preocupações principais de suas falas. Assim, em meio a uma enorme quantidade de objetos fálicos, cuecas de elefante e de cremes que esquentam, que esfriam, que retardam, que apertam e que estimulam, ela se mostra um tanto quanto conservadora.

Assim como rejeita a marginalidade do ambiente, também não aceita que seus produtos sejam vistos como perversões. Ressaltando as qualidades medicinais e salvadoras de casamentos de seus produtos, ela conta que “alguns homens com problemas de saúde como diabetes não conseguem mais manter ereções e vêm aqui em busca de vibradores. Eles amam as suas esposas e não querem que o sexo se esvazie”.

Feminista, sempre defende o direito da mulher ao prazer e ressalta que boa parte dos divórcios se dá pelo estado de rotina em que os casais se vêem envolvidos depois de certo tempo. E, segundo ela, esse é o seu grande público: trata-se, afinal de contas, de um sex shop- família.

Sex shop coxinha

Ao ler o mundo através dos olhos das revistas femininas, é como se gostássemos de pensar os sex shops como grandes espaços que permitem algumas viagens a um mundo público de violações das regras privadas. É como se o tabu quebrado nos transformasse, mesmo que por alguns instantes, naquele exército de Dons Juans e pervertidos descritos por Marcuse como paradigmas da nossa sociedade. Mas é como se esquecêssemos do outro lado da equação: o sentimento de don juanismo existe, justamente, para ser normalizado. E é esse mecanismo que está envolto na lógica dos sex-shops desde o boom da comercialização dos produtos eróticos. No final das contas, percebemos que não há nada mais coxinha do que um sex shop.

Referências a objetos eróticos são muito antigas. Na própria Bíblia existem referências a dildos e o primeiro vibrador foi criado em meados do século XIX com finalidades medicinais. O que a experiência da prática comercial já dizia a Elizabeth foi objeto de estudo sério em 1872 pelo médico americano George Taylor, que concebeu o vibrador como um auxiliar no tratamento da histeria feminina.

Quando a primeira loja com o nome “sex shop” foi lançada na Inglaterra, o objetivo de Ann Summers não poderia ser menos conservador: a jovem senhora queria retirar a venda de ajudantes sexuais e matrimoniais dos becos e lançá-los à luz nas grandes avenidas, de uma forma aceitável e higiênica. Além de insistir veementemente que, apesar de tudo, não existia pornografia naquele lugar.

Depois de anos transcorridos e dada a proliferação de vários objetos não lá muito criativos como pênis de todos os tamanhos e materiais – grandes, pequenos, finos, coloridos, com óclinhos -, de loiras gostosas com peitos desproporcionalmente avantajados e de centenas de pequenos objetos que vibram, giram e torcem (tudo ao mesmo tempo!), as lojas tiveram que recorrer a uma estratégia mais safada e mais devassa para impressionar seus clientes: o sexo politicamente correto.

O Good Vibrations de São Francisco, por exemplo, criado no final da década de 70 por lésbicas feministas, trocou as loiras estonteantes por mulheres mais velhas e com corpos mais parecidos com os das pessoas comuns. A missão delas era deixar as pessoas mais esclarecidas quanto ao sexo, combater os preconceitos e quebrar os estereótipos. Assim como no Libet, nada de cores berrantes na entrada e nada de ambientes escuros e portas fechadas. Não que os objetos difiram muito dos outros sex shops. Mas manuais de boa conduta na prática sado-masoquista (explicitada como um jogo de poder feito em comum acordo e com respeito às vontades do outro e não como uma prática de submissão e humilhação) e a ambientação ideológica em consonância com os ideais feministas do lugar parecem fazer toda a diferença.

Mesmo uma das regiões mais devassas do planeta – o Red Light District – tem seu lado coxinha. Os sex-shops da região possuem uma tal diversidade de tipos de camisinha, que você deixaria o vendedor confuso se pedisse por uma simples. Alguns comerciantes mais espertos abriram “Camisinharias” na região.

As primeiras lojas brasileiras surgiram na década de 80 e agora passam por um período de lento declínio por causa da privacidade que a Internet inaugurou. Na mesma rua da loja de Elizabeth existiam mais três sex-shops que hoje estão fechados. O dela é o único que sobrevive com relativo sucesso. Segundo uma pesquisa da ABCNews, 50% dos entrevistados que responderam ao questionário acessam algum site de sexo explícito e 6% deles preferem fazer suas compras eróticas pela Internet.

It’s all business

Mas, mesmo em momentos desoladores, o mercado de produtos eróticos do país movimenta, em média, 800 milhões de reais por ano no país. A ajuda da Internet possibilita que esse mercado cresça 15% anualmente.

É considerado um ótimo negócio por Ana, dona da Cravo & Canela Produtos Sensuais, a principal distribuidora de artigos para sex shop do Triângulo Mineiro. Começando todas as suas frases com “Hum… deixa eu explicar direito”, ela não vê sentimentalidade nenhuma em seu ramo. É como vender louças ou perfumes. “Hum… deixa eu explicar direito. Eu não sei e nem estou interessada em qual é o perfil do consumidor final ou o que vende mais para ele. Só pego o pedido que as lojas me entregam e me esforço para adquirir o produto. E é tudo testado pelo Inmetro”.

Para Guilherme, gerente da Harém Fantasias Eróticas, a emoção de estar no ramo é a mesma que a de Ana. “Nos esforçamos para passar para o consumidor um produto de qualidade e excelência”. Nada em sua fala se deixa desviar desse ponto. Apesar de criar em seu estande em uma feira de lingeries um ambiente de eroticidade e sedução – com direito a um homem só de cuequinha dourada na entrada – nada em sua fala deixa transparecer aquela doce transgressão de regras que projetamos nas fantasias penduradas nos cabides. Sua fala é fria como seus números de venda.

A tendência seguida pelas Elizabeths, pelas Anas e pelos Guilhermes pinta um quadro de eroticidades em que o tradicional ganha espaço. Não é a toa que o produto mais vendido na loja de Guilherme seja a fantasia de noiva. O porrete do “goze, goze, goze” continua atrás de nós e nos cobra para que nossa sexualidade seja plenamente exercida e, de preferência, de uma forma que nos torne transgressores (a alegria dos fetiches!). Mas é esse mesmo porrete que fez com que os fetiches sexuais se configurassem, hoje, em um assunto tão tabu, mas tão tabu, que já virou até clichê.

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