1º semestre de 2010

Os diversos aspectos do prazer solitário

Por Adonay de Muccio

Justiça com as próprias mãos, cinco contra um, busca do prazer sem parceiros, “arte” do sexo solitário, ou ainda em latim masturbatio ou manustrupare. Independente das várias denominações possíveis, a masturbação é indubitavelmente conhecida por toda e qualquer pessoa que tenha passado pela adolescência. Antes disso, no período de vida em que os jovens começam a desvendar e explorar a própria sexualidade, a masturbação ganha particular espaço e relevância, e pode acompanhar os indivíduos em seus vários anos subseqüentes. Segundo o sexólogo Jairo Bouer, “é com a masturbação que muitos meninos e meninas aprendem como funciona o seu corpo e o que lhes dá prazer”.

A masturbação é muitas vezes fonte de fortes mitos, tabus e dúvidas. Em chats, páginas de internet e programas de radio e TV nos quais os protagonistas são conhecidos sexólogos, o tema da masturbação está sempre presente. Muitas das indagações dizem respeito a alterações físicas decorrentes do ato em questão – crescimento de pêlo nas mãos e espinhas são apenas os mais comuns exemplos. Segundo Roseli Sayão em um bate-papo, tais dúvidas surgem porque “é na adolescência que todas essas coisas costumam acontecer ao mesmo tempo. É na adolescência q os garotos começam a se masturbar com mais intensidade por causa do tesão, que aparece por causa dos hormônios, que provocam também as malditas espinhas”.

Além disso, o tema é muito mais aceito em ambientes masculinos. Segundo sexólogos, não há razão para tratar de forma diferente a masturbação de meninos e meninas, e a única explicação para tal distinção seria o histórico preconceito. A sociedade muitas vezes machista parece ser a única responsável pela visão de que homem que se masturba é “normal” e mulher masturbar-se é “feio”, errado, vexaminoso ou qualquer outra adjetivação do tipo. Segundo o Dr. Oswaldo M. Rodrigues Jr, psicólogo e diretor do Instituto Paulista de Sexualidade, “as mulheres aprendem desde bebês que a auto-manipulação é errada. Isto ainda faz com que metade das mulheres chegue aos 20 anos de idade sem terem experienciado a masturbação como fonte de prazer sexual, e este fato se associa com as mulheres não saberem como obter orgasmos quando iniciam a vida sexual a dois”.

A masturbação e a indústria pornográfica

Outro aspecto relevante ao abordar a temática da masturbação é sua relação com as publicações eróticas. A polulante indústria da pornografia, extremamente desenvolvida nos Estados Unidos e em franca expansão no Brasil, é combustível para fantasias de todos os consumidores e serve de “material de apoio”, por assim dizer, na masturbação. Provavelmente o mundo do erotismo não seria a mesma coisa se a masturbação não existisse. Revistas de nudez, sites de fotos e vídeos pornográficos, além de uma infinidade de títulos da indústria cinematográfica pornô atuam como parceiros da masturbação e têm seu crescimento fortemente impulsionado pelo interesse humano no sexo. E essa indústria tem crescido substancialmente.

Nos Estados Unidos o mundo pornô mostra-se extremamente forte, desenvolvido e impressionantemente rentável. Em 2004 a revista Veja publicou uma reportagem segundo a qual o cinema pornográfico por lá movimentava entre 7 e 11 bilhões de dólares ao ano. Para efeito de comparação, o faturamento anual de Hollywood no mesmo período era estimado em 35 bilhões de dólares.

Os números atuais são ainda mais impressionantes. Segundo pesquisas, a indústria verdadeiramente imperial da pornografia arrecadaria incríveis 3 milhões de dólares por segundo no mundo. Obviamente tais estimativas têm uma considerável margem de erro, mas os números são de fato embasbacantes. Alguns dados e comparações dão uma mensuração mais clara do quão incrível é tal poderio de arrecadação do mercado pornô. As informações foram levantadas em um estudo do site americano TopTenReviews:

• Em 2006 a indústria da pornografia faturou 97 bilhões de dólares nos 16 principais centros consumidores de produtos de “sacanagem”. O Brasil foi o décimo sexto colocado em uma lista encabeçada por China, Coréia do Sul, Japão e Estados Unidos, na quarta colocação, com 13,3 bilhões de dólares arrematados. O faturamento no mercado tupiniquim foi de 100 milhões de dólares.

• O lucro do mercado pornográfico superou em 2006 o faturamento somado das oito multinacionais de maior destaque no mundo da tecnologia (Microsoft, Google, Amazon, eBay, Yahoo!, Apple, Netflix e EarthLink).

• 12% do total de websites são eróticos, resultando em 4,2 milhões de sites no final de 2007. Dos downloads feitos, 35% do total eram de material pornô.

• 90% dos internautas com idade entre 8 e 16 anos já viram algum tipo de pornografia na internet.

No Brasil a indústria também tem crescido fortemente. A produtora de vídeos eróticos Brasileirinha é a mais renomada no ramo, e passou recentemente não a apenas multiplicar suas produções e seu faturamento, mas também a contratar artistas de “segunda linha” para estrelar suas produções – algo totalmente inédito até pouco tempo atrás. O movimento de famosos rumo ao mundo pornô foi inaugurado há poucos anos pelo “artista multiuso” Alexandre Frota. Uma decisão ousada em um campo espinhoso. Apesar de polemica, a “atuação” de Frota não atrapalhou sua participação nos programas de TV, e prova cabal foram suas inúmeras interpelações artísticas em quadros do programa Melhor do Brasil, apresentado então por Marcio Garcia, na emissora – quem diria – dos evangélicos da Igreja Universal, Rede Record.

Após Alexandre Frota uma serie de artistas semi decadentes passaram a aventurar-se nas atuações sexuais. É a lista dos ex: a ex-chacrete Rita Cadilac, a ex-malandrinhaVivi Fernandes, o ex-Casa dos Artistas Mateus Carrieri, os ex-pupilos de João Kleber, Márcia Imperator e Oliver (protagonistas do quadro Infidelidade), e ainda a ex (ou eterna) “rainha do rebolado” Gretchen. Novos nomes tendem a estrelar a lista das produtoras pornôs com o desenvolvimento deste segmento e a inflação nos cachês.

Toda esta gigantesca indústria do apelo erótico seguramente deve parte substancial de seu sucesso e evolução à existência da masturbação. O consumo desses materiais são em sua maioria feitos de forma individual, privativa, anônima, constituindo-se em combustível para a vazão de fantasias eróticas e estímulos visuais para a satisfação sexual solitária.

A masturbação nas diferentes etapas da vida

A masturbação é parte fundamental do período de autoconhecimento corporal particularmente na pré-adolescência e juventude. Conforme os sexólogos afirmam, é errado condenar o ato de masturbar-se, sendo que ele ao contrário de prejudicar, contribui para que a pessoas tenham maior ciência das próprias sensações, da própria sexualidade.
No entanto, há especificidades em cada período da vida no que tange a masturbação. Em cada estagio a “prática do amor próprio”, por assim dizer, tem um papel característico, e fato é que com maior ou menor importância, variando de individuo para individuo, ela se faz presente nos mais diversos anos do homem, e com menor freqüência, das mulheres.
A professora catarinense Jimena Furlani, autora do premiado livro “Mitos e Tabus da Sexualidade Humana”, estabeleceu em sua pesquisa o papel da masturbação nas etapas da vida. Basicamente são quatro períodos:

• Na infância, em especial dos 3 aos 6 anos, a masturbação é uma forma de descoberta das diferenças anatômicas entre meninos e meninas. É uma forma prazerosa de contato corporal, quer seja individual, quer seja entre duas crianças.
• Na adolescência, além do apelo erótico biológico, ou seja, da necessidade orgânica pela ação hormonal, garotos e garotas se masturbam para extravasar a tensão sexual, para o conhecimento do prazer corporal e de suas sensações.
• Na idade adulta, a masturbação é uma entre as possibilidades de práticas sexuais, quer individual, quer com parceiros, inclusive entre os casais. É uma forma de sexo seguro e, uma forma, também, de extravasamento das tensões sexuais da vida cotidiana.
• Na terceira idade pode ser um reflexo da falta de sexo com parceiros, em especial para aqueles homens e mulheres que erroneamente acreditam que a sexualidade acaba após a idade fértil (no caso da menopausa, para as mulheres; ou perda do vigor físico no caso dos homens). Nesta idade a masturbação cumpre papel, à semelhança da idade adulta, como uma possibilidade sexual entre os parceiros ainda ativos.

Pecado ou dádiva?

Alguns estudos tratam de remontar a trajetória da masturbação ao longo do tempo. Dentre os diferentes papeis que ela teria tido, destacam-se sua significância em períodos específicos da história. Segundo alguns especialistas, no antigo Egito a religião utilizava a masturbação do deus Atum para descrever a criação do mundo, e as mulheres, quando morriam, eram mumificadas e enterradas com os objetos fálicos com os quais se masturbavam. Dizem ainda que com a imposição da igreja judaica de que o homem deveria ser produtivo e se multiplicar, a prática da masturbação passou a ser condenada, pois era vista como um desperdício de esperma. Similarmente, na Idade Média a ejaculação só deveria ocorrer com a finalidade de procriação. Na Inquisição, por sua vez, as conseqüências eram mais severas: o acusado de masturbação era considerado um herege, podendo ser condenado à morte na fogueira.

O que se constata em tempos atuais é que, em determinados círculos religiosos, a masturbação gera certa polêmica, à semelhança de assuntos como o uso de preservativos e a prática de relações sexuais antes do matrimônio. Embora tais discussões possam soar um tanto démodé e anacrônico, elas de fato ocorrem. Nas palavras do Dr. Oswaldo Rodrigues Jr., “a masturbação tem sido negativizada pelas principais religiões devido a conceitos básicos de que o esperma contém a centelha da vida e seria um desperdício do divino”.

Sites de igrejas, seitas e organizações de visão religiosa mais ortodoxa, conservadora, procuram proibir ou desencorajar os fiéis à prática da masturbação, muitas vezes relacionando-a à lascívia e à luxuria. Há até mesmo manuais de como evitar a “tentação da masturbação”, como é o caso de artigos no site mórmon www.moonmac.com: “Steps in overcoming masturbation: A guide to self-control”.

Já outras páginas de internet (de cunho nada religioso, diga-se de passagem), fazem o oposto: ensinam técnicas para alterar, complementar e melhorar a masturbação. É uma espécie de curso em satisfação sexual solitária, com vários exercícios divididos em módulos que vão de iniciante a avançado, todos abordando uma infinidade de aprimoramentos e variações possíveis. E não são apenas os meninos que ganham “a apostila”. Há um guia voltado apenas para as garotas. O nome do site que brinda tal conteúdo “educativo” tem nome sugestivo: www.docetoque.com.br

Tira-teima

A masturbação é tema constante em todos os debates que envolvem dois ingredientes: jovens e sexo. Para especialistas acostumados a tirar dúvidas daqueles que estão ingressando na vida sexual, as perguntas relacionadas à masturbação já viraram praticamente rotineiras.

Para esclarecer algumas das principais questões que envolvem a temática, entrevistamos dois renomados terapeutas sexuais, autores de várias publicações. O primeiro, Dr. Oswaldo M. Rodrigues Jr., psicólogo pós graduado, especializado na temática sexual, autor de diversos livros como “Sexo: Tire suas dúvidas” e “Aprimorando a Saúde Sexual”, fundador da revista Terapia Sexual e diretor do Instituto Paulista de Sexualidade. A segunda, Dra Jussania Oliveira, psicóloga pós graduada em Educação e Tarapia Sexual, autora de três livros na área dentre os quais “Relacionamento, Sexo e Ejaculação”, e docente do curso de pós graduação da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana. Veja algumas das respostas:

Babel: Quais são as duvidas mais freqüentes dos jovens com relação à masturbação?
Dr. Oswaldo: Quantas vezes é normal fazer e se prejudica a saúde.
Dra. Jussania: Se pode ter algum problema quando a freqüência é grande, se é a mesma sensação para as meninas, se continua depois do início da vida sexual com a parceira, e dúvidas sobre a ejaculação (volume e pressão).

Babel: Quais são os três maiores mitos sobre a masturbação?
Dr. Oswaldo: Que a masturbação causa impotência, que tira energia, e que afeta a saúde mental e física.
Dra. Jussania: Que causa disfunção erétil quando a freqüência é grande, que interfere na formação e desenvolvimento do genital, e que não pode ser diária.

Babel: E as três maiores verdades?
Dr. Oswaldo: Que ajuda a desenvolver auto-percepção erótica e isto permite a melhoria do comportamento sexual no adulto, especialmente na mulher. É uma fonte de prazer, e é diferenciada do prazer obtido no relacionamento a dois. É uma alternativa de comportamento e não um comportamento sexual que se estabelece ao invés de se ter relacionamentos sexuais.
Dra. Jussania: É importante para desenvolvimento da sexualidade, reconhecimento das zonas erógenas e descoberta das sensações prazerosas com a manipulação e toques corporais.

Babel: A masturbação tem uma grande relevância no processo de descoberta do próprio corpo e da sexualidade na pré-adolescência. Qual é a importância da masturbação nas outras etapas da vida?
Dr. Oswaldo: A masturbação mantém-se como meio de auto-conhecimento. O auto-conhecimento é necessário por toda a vida, pois os processos de percepção produzem mudanças de como vivemos e sentimos cada etapa da vida. Com o envelhecimento do corpo, as capacidades e possibilidades físicas se modificam, e a masturbação continua uma forma de se conhecer em cada nova etapa para a melhor atividade sexual ocorrer.
Dra. Jussania: A masturbação é uma variação sexual que pode e deve ser exercitada ao longo de toda a vida, pois proporciona sensações prazerosas, pode ser praticada individualmente ou com a parceria, aprimora a percepção corporal, relaxa, além dos benefícios que se referem à saúde e qualidade de vida.

Babel: A masturbação feminina ainda é encarada com mais preconceito que a masculina? Por que?
Dr. Oswaldo: As mulheres aprendem desde bebes que a auto-manipulação é errada. Isto ainda faz com que metade das mulheres chegue aos 20 anos de idade sem terem experienciado a masturbação como fonte de prazer sexual, e este fato se associa com as mulheres não saberem como obter orgasmos quando iniciam a vida sexual a dois. Mesmo que muitas pessoas considerem que o mundo ocidental viveu uma revolução sexual nos anos 1960, a virgindade continua sendo considerada um prêmio a ser guardado para o casamento. A vigilância sobre o uso dos dedos da menina próximos da vulva mantém a “virgindade” e impede o aprendizado da masturbação e auto-erotização. Assim a mulher não saberá como comunicar o que lhe traz prazer, pois não sabe para si mesma como esse prazer é obtido.
Dra. Jussania: a sexualidade feminina é muito mais reprimida do que a masculina. A começar da educação diferenciada entre meninos e meninas, forma de se comportar, início da vida sexual, número de parcerias, etc. Infelizmente não temos educação sexual nem na família, muito menos nas escolas, o que com certeza compromete o exercício pleno e saudável da sexualidade. Uma forma de se comprovar isto é verificando as estatísticas de disfunções sexuais masculinas e femininas: 40% das mulheres não sabem o que é ou como identificar um orgasmo. Existe um número muito maior de mulheres com a disfunção sexual inibição de desejo do que os homens. Óbvio que as mulheres já conquistaram muito mais espaço no exercício de sua sexualidade do que há 20, 30 anos. Mas há ainda um grande caminho a percorrer.

Na web

O mote da masturbação é certamente polêmico, assim como os vários aspectos que envolvem a temática sexual. Assunto sempre intimista, com peculiaridades nos diversos indivíduos, torna-se muitas vezes difícil de ser discutido abertamente com amigos ou pais, fazendo com que os mitos e as dúvidas se potencializem.

A internet proporcionou uma grande ajuda para pessoas que buscam tirar suas dúvidas de maneira fácil, gratuita e anônima. Não é necessário, para sanar essas indagações mais elementares, pagar uma consulta urológica/ginecológica ou ter que dissecar o espinhoso tema com os pais. Inúmeras páginas proporcionam grande e profundo esclarecimento a respeito das diversas questões que podem surgir quando o tema é sexo e, particularmente, masturbação. Dois dos mais famosos são www.doutorjairo.uol.com.br e www.blogdaroselysayao.blog.uol.com.br.

Segundo os sexólogos e terapeutas sexuais a masturbação não proporciona qualquer tipo de efeito negativo ou complicação física. Os especialistas dizem que ela é uma forma importante de autoconhecimento corporal na fase de desenvolvimento sexual, e uma alternativa relevante de prazer nas etapas de vida seguintes. Do ponto de vista médico, aparentemente não há contra-indicações. Assim sendo, quando os hormônios demandarem e a vontade aparecer, “mãos à obra”!! – sem preocupações.

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