1º semestre de 2010

Salve o prazer! Salve o prazer!

Por Ana Paula Severiano

Sacanagem é com a gente mesmo. Mesmo que velado, o sexo sempre esteve presente na música popular brasileira e as décadas de 60, 70 e 80 foram cruciais para mudar a trilha sonora da cama brasileira.

“De quatro, de lado/ Na tcheca e na boquinha/ Depois vem pra favela/ Toda fresca e assadinha”. Ainda há quem se choque com o funk sacana de Deize Tigrona, Tati Quebra-Barraco e demais representantes do movimento que nasceu dos bailes da periferia carioca. Os mais puritanos desconhecem que a sem-vergonhice, no entanto, é tão antiga quanto a nossa música popular. Para o jornalista, produtor musical e pesquisador Rodrigo Faour “a reação de repúdio das elites ao sucesso do maxixe (na virada do século XIX para o XX) é bem parecida à que acontece hoje com o funk carioca, mais de um século depois”. Faour é o autor do livro História Sexual da MPB (Record, 2006), em que são esmiuçadas letras de canções e histórias. Assim, o leitor descobre que a música também é um espelho da evolução de costumes e do comportamento sexual do brasileiro.

Ai, sim, meu bem ataca! Ataca sem descansar

Rui Barbosa ficou indignado quando em 1914 a primeira-dama do país, Dona Nair de Teffé, dedilhou ao violão a melodia de Corta-jaca: “é a mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba! Mas, nas recepções presidenciais, o Corta-jaca é executado com todas as honras da música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte!” A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens era o tal do maxixe, ritmo “indecente” e “imoral” que também surgiu nos bairros mais pobres da periferia carioca, na metade do século XIX. Ele se difundiu pelo país com as apresentações dos teatros de revistas e fazia os casais requebrarem sensualmente de corpo colado nos bailes da vida.

O Corta-jaca foi lançado em 1895 por Chiquinha Gonzaga e regravado muitas vezes com mudanças na letra, mas sempre fazendo referência à jaca, uma curiosa metáfora para a vagina: “Sou gostosa/ Que dá gosto de talhar/ Sou a jaca saborosa/ Que amorosa/ Faca está a reclamar/ Para a cortar/ Ai que bom cortar a jaca/ Sim, meu bem ataca!/ Assim, assim/ Toda a cortar/ Ai, ai que bom cortar a jaca/ Ai, sim, meu bem ataca!/ Ataca sem descansar!”

E muita gente achava que a putaria declarada era invenção recente. Na verdade, o maxixe é um exemplo de uma irônica libertinagem restrita e comedida daqueles tempos e que perdurou até a década de 60. A revolução sexual virou tudo de cabeça pra baixo (enquanto os censores da ditadura militar tentavam impedir o que não tinha remédio nem nunca teria). Faour afirma que “90% das letras de nossa música ao falar de amor versavam sobre relações mal resolvidas, interditadas, tristes, melancólicas e vingativas. Os outros 10% dessas letras eram a mais pura sacanagem, algo que cresce à proporção que ocorre uma liberação maior dos costumes em nossa sociedade, especialmente a partir da década de 60”. Até lá, a sensualidade e o erotismo eram expressos principalmente durante as ofegantes epidemias, que se chamavam Carnaval, como se pode confirmar nessa marchinha de Ary Barroso, lançada em 1937: “Eu dei!/ O que foi que você deu, meu bem?/ Eu dei!/ Guarde um pouco para mim também (….)/ Eu dei!/ Diga logo, diga logo, é demais!/ Não digo e adivinhe se és capaz!”.

Se a sedução e o sexo entre homens e mulheres já era um tabu impublicável, imagine entre o mesmo gênero. O homossexualismo só virou pauta da MPB depois da década de 70. A brecha da festa da carne deixou que se prestasse uma homenagem ao Zezé, mas já era 1964: “Olha a cabeleireira do Zezé!/ Será que ele é? Será que ele é?/ Será que ele é bossa nova?/ Será que ele é Maomé? / Será que ele é transviado?/ Mas isso eu não sei se ele é!”.

Isso é bossa nova, mas sexo não é muito natural

Se em 90% das canções a sexualidade aparecia de forma mascarada, poucos eram os compositores que se arriscavam a falar mais abertamente do que acontecia embaixo dos lençóis, à meia luz. Amendoim Torradinho é um samba-canção antecessor da bossa nova, composto por Henrique Beltrão e cantado por Sylvinha Telles, muito abusadinho para o período, ainda mais quando interpretado por uma mulher: “Meu bem, esse teu corpo parece/ Do jeito que ele me aquece/ Um amendoim torradinho/ Eu sinto uma vontade louca/ De gritar pela rua/ Que eu já colei minha boca/ Na boca que é tua”.

Um pouco antes, em 1951, Emilinha Borba não pode cantar o bolero Dez Anos numa festa religiosa de São Paulo, pois o padre avaliou que a letra era pecaminosa: “Recordo junto a uma fonte, nos encontramos/ Que alegre foi aquela tarde para nós dois/ E o canto daquela fonte nos envolveu/ O sono fechou meus olhos, me adormecendo/ Senti sua boca linda a murmurar/ Abraça-me, por favor, minha vida/ E o resto desse romance só sabe Deus”. Aos ouvidos do padre, os casais teriam cometido atentando ao pudor e se encontrado “nus” junto à fonte.

A bossa nova trouxe para a música popular brasileira uma sedução delicada. O violão de João Gilberto emoldurou de maneira envolvente a paisagem do Rio, a boemia e cantou a mulherada carioca. Havia muito cheiro de sexo no ar, mas nada explícito. Depois do amor, de 1961, foi interpretada de forma pungente por Maysa e talvez tenha sido a primeira a versar sobre o pós-orgasmo: “E depois do amor/ Cai a paz sobre nós/ E depois do amor/ Nossos corpos tão sós/ Houve tudo de bom/ A seu corpo entreguei/ Uma flor, todo o amor/ No seu corpo nu, existi/ Tudo é paz pra nós/ Nossos corpos sós. Não à toa, a obra de Normando e Ronaldo Bôscoli foi censurada em São Paulo.

Pare de tomar a pílula

Nossa expressão sexual era reprimida e isso se refletia na arte. Como conta Chico Buarque (a Roberto de Oliveira, em 2005): “O meu primeiro alumbramento foi ver mulheres francesas expostas nas bancas de jornais, nas vitrines, nos anúncios de cabarés quando eu vivia em Paris. Hoje em dia é difícil de imaginar isso. O máximo que eu tinha visto com 10 anos eram as minhas irmãs, mas irmã não vale. Nessa época, também sempre havia um primo que tinha umas coleções de Playboy americana”. Depois de explorar com ampla liberdade o tema em suas canções, não curiosamente, em 2006, Chico lançou o álbum Carioca e nele gravou As atrizes: “Os meus olhos infantis/ Só cuidavam delas/ Corpos errantes/ Peitinhos assaz/ Bundinhas assim”.

A popularização do anticoncepcional e de todos os ideais revolucionários de 60 chegaram ao Brasil, mas foi a partir de 70 que o bicho pegou. Antes, era preciso enfrentar os anos de chumbo, os censores federais e usar a música como arma política.

Nesse período, uma importação causou polêmica. Era a Je t’aime moi non plus, em que Jane Birkin e Serge Gainsbourg simulavam uma relação sexual. A canção, obviamente, foi censurada, até ser vendida num compacto com uma edição d’O Pasquim. O exemplo francês motivou a produção de similares made in Brazil. Mulheres gemendo ocupavam faixas de coletâneas como Erótica – The magnetic sounds. É claro que ninguém estava disposto a se identificar na ficha técnica.

Gal Costa – com um visual extremamente sensual – cantava Pérola Negra, de Luiz Melodia, no show Fatal de 1971. Em alto e bom som a platéia escutava a palavra “sexo” e, de quebra, ainda se colocava em xeque o amor romântico: “Tente entender tudo mais sobre o sexo/ Peça meu livro/ Querendo te empresto/ Se intere da coisa/ Sem haver engano/ Baby, te amo, nem sei se te amo!”

Nas camadas mais populares, sucesso era Odair José: “Eu observava que os artistas de linha mais popular ficavam muito no mundo do faz-de-conta. Nas músicas não era muito claro que haveria esse contato de sexo entre as pessoas. (…) O que tocava no rádio naquela época era muito amor de portão (…) Enquanto o Roberto Carlos prometia o céu, eu dava a cama”, conta o cantor no livro História Sexual da MPB. Na canção Noite de desejos, de 1974, ele narra a primeira vez de um homem: “Noite de desejos/ Noite de mil beijos/ Momentos que eu também vivi/ Foi naquela noite/ A primeira vez/ E eu nunca esqueci/ Foi com você, meu bem/ Que tanta coisa eu aprendi/ Meu desejo era tanto/ E eu não sabia/ Nem mesmo o que falar
O meu corpo esquentava/ Eu tremia/ Tentando me guardar”.

O tempo fechou quando Odair lançou o clássico Pare de tomar a pílula. Ela foi censurada em 1973, os discos recolhidos das lojas e os shows vigiados de muito perto. Afinal, a mensagem da música poderia atrapalhar a campanha de planejamento familiar do governo Médici.

O rei Roberto Carlos, contrariando o comentário de Odair, não ficou para trás. A partir da década de 70, as metáforas sexuais passaram a fazer parte de sua obra com muito mais freqüência. É Ilegal, imoral ou engorda (que recentemente foi regravada por Erasmo e Adriana Calcanhotto) não era nada sutil: “Se eu conheço alguém num encontro casual/ E tudo anda bem num bate-papo informal/ Uma noite quente sugere desfrutar/ No meu terraço a vista de frente pro mar/ Mas a noite é uma criança/ Delícias no café da manhã/ Então o que fazer, já não quero mais saber/ Se como alguma coisa que não devo comer/ Se tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda”.

Depois, várias composições passaram a integrar a pasta de “Canções de motel” da dupla, que escancarou de vez para os próprios padrões, como em Café da manhã: “Amanhã de manhã/ Vou pedir um café pra nós dois/ Te fazer um carinho depois/ Te envolver em meus braços/ E em meus abraços/ Na desordem do quarto esperar/ Lentamente você despertar/ E te amar na manhã”. Rei nunca perde a majestade e até hoje ninguém sabe como a censura permitiu a execução de “Cavalgada”, de nome bastante sugestivo.

Palavras proibidas

O vocabulário da MPB foi ficando aos poucos menos sisudo e mais coloquial. Antes dos anos 80, era muito raro ouvir inclusive a palavra “sexo”. Aborto, gay, orgasmo, peitos e bunda também não.

A palavra “tesão” apareceu pela primeira vez numa música em 1980. Era Bye, bye Brasil, de Chico Buarque: “Eu tenho tesão é no mar”. Quatro anos depois, compondo O Quereres, Caetano repetiria a dose: “Onde queres o ato sou o espírito/ Onde queres ternura eu sou tesão”. Antes, em 1970, Juca Chaves teve Rimas sádicas proibidas por conta do tal tesão.

Aborto não podia. Vitor Martins foi muito questionado quando escreveu Começar de novo: “Eu limpei minha vida/ Te tirei do meu corpo/ Te tirei das entranhas/ Fiz um tipo de aborto/ E por fim nosso caso acabou/ Está morto…”

Paulo César Pinheiro teve Sagarana censurada no IV Festival Internacional da Canção da TV Globo, de 1969, por usar a palavra “macho”: “Esse pessoal da década de 50 do samba-canção, da fossa, era cheio de pudores. Não diziam certas coisas”.

Na década de 80, a MPB ficou com a boca mais suja. No entanto, a música Posando de star, do primeiro disco do Barão Vermelho, teve que ser alterada para passar pela censura. Dar virou “dar-se”: “Vem me experimentar/ Você sem texto, sem cinema! Não faz do sexo um problema/ Eu armo uma cena!/ Quebro garrafa!/ Morro de chorar/ Mas ainda te faço dar (-se)”. Assim não tem graça.

Mas o Brasil mudou. Em 1986, a canção Vitoriosa (de Vitor Martins) interpretada por Ivan Lins foi até trilha de novela: “Quero tua alegria escandalosa/ Vitoriosa por não ter/ Vergonha de aprender como se goza/ Quero tua pouca castidade/ Quero tua louca liberdade/ Quero toda essa vontade de passar dos seus limites/ E ir além, e ir além…” Antes disso, gozar não estava nos planos dos poetas menos assanhados.

Chico: um jeito manso que é só seu

Para Faour: “A partir da década de 1970, Chico superou todas as expectativas, mostrando mulheres cada vez mais ousadas, cheias de si, de opinião, sem vergonha do corpo e muito provocantes. A sensualidade desconcertante da mulher e seus desejos mais secretos passaram também a permear suas letras, transformando o compositor num símbolo sexual, num mito e no guru musical de 9 entre 10 mulheres brasileiras de classe média ou alta e intelectual”. Pois é, para muitas mulheres Chico fala de sexo como ninguém. De sua obra podemos citar Sem Fantasia: “Vem, meu menino vadio/ Vem sem mentir pra você/ (…) Vou te envolver nos cabelos/ Vem perder-te em meus braços, pelo amor de Deus/ Vem que eu te quero fraco/ Vem que eu te quero tolo/ Vem que eu quero todo meu”. Em O que será (À flor da pele) o tesão – que havia aparecido tão inocente em Bye, bye, Brasil é certeiramente descrito:

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
E todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem juízo

Chico também não teve vergonha de escrever Tatuagem – “E nos músculos exaustos do seu braço/ Repousar frouxa, murcha, farta/ Morta de cansaço; Sem Açúcar – “Longe dele eu tremo de amor/ Na presença dele me calo/ Eu de dia sou sua flor/ Eu de noite sou seu cavalo”; Eu te amo – “Como?/ Se nos amamos feito dois pagãos/ Teus seios ainda estão nas minhas mãos”; Geni – “Ela é feita para apanhar/ Ela é boa de cuspir/ Ela dá pra qualquer um/ Maldita Geni”; O Meu amor – “O meu amor tem um jeito manso que é só seu/ De me fazer rodeios/ De me beijar os seios/ De me beijar o frente, me deixar em brasa/ Desfruta do meu corpo como se meu corpo/ Fosse a sua casa”. Está explicado porque a mulher fotografada aos beijos com Chico não pôde resistir.

Eu sei que eu sou bonita e gostosa

Com o amortecimento da censura e a transformação da sociedade, as mulheres passaram a conquistar espaço e a afirmar que não tinham nenhuma saudade da Amélia, gostavam de sexo, inclusive o casual, e podiam seduzir e sentir prazer.

Em 1983, Simone cantou Paixão, de Kleiton e Kledir, enquanto fingia se masturbar numa cama em cima do palco que foi cenário para o show Delírios, delícias: “Amo tua voz e tua cor/ E teu jeito de fazer amor/ Revirando os olhos e o tapete/ Suspirando em falsete/ Coisas que eu nem sei contar”. Anos antes ela já anunciava o que viria interpretando Medo de amar nº 2: “Eu sinto o corpo mole e eu quase que faleço/ Quando você me bole, bole e mexe, mexe/ E me bate na cara, e me dobra os joelhos e me vira a cabeça”.

Maria Bethânia fez sucesso com Explode Coração, gravada em 1978, e também interpretou Infinito Desejo (1979), ambas de Gonzaguinha: “Ah! Infinito delírio chamado desejo/ Essa fome de afagos e beijos/ Essa sede incessante de amor/ Ah! Essa luta de corpos suados/ Ardentes e apaixonados/ Gemendo na ânsia de tanto se dar/ Ah! De repente o tempo estanca/ Na dor do prazer que explode/ É a vida, é a vida, é a vida/ E é bem mais…” Ela explica em entrevista para a História Sexual da MPB: “O movimento hippie liberou muita coisa. E, a partir daí, as mulheres passaram a ser muito bem representadas na música popular, com muita naturalidade e firmeza. Nunca fiquei prestando atenção especificamente no meu trabalho, no que eu estava fazendo para contribuir para isso. Nunca pensei muito, sempre fui guiada pela minha intuição, pelo meu coração e minha inteligência. E essas músicas chegavam até mim porque os compositores estavam sentindo as coisas assim, estavam em sintonia com aquele momento”.

Bethânia também gravou um jingle de motel, de Duda Mendonça. Ela ouviu a propaganda numa estação de rádio na Bahia e pediu ao publicitário que a permitisse cantar o que se tornaria a canção Cheiro de Amor (Duda Mendonça/ Joça/ Paulo Sérgio Valle/ Ribeiro): “Mas o seu jeito de me olhar, a fala mansa, meio rouca/ Foi me deixando louca, já não podia mais pensar/ Eu me dei toda pra você…”

A onda de liberação fez a mulherada soltar a franga. Muitas capas de discos apareceram com seios ou ombros e colo à mostra. Gal, incluisve, teve o disco “Índia” coberto por plásticos pretos.

Um dos grupos dessa época que não pode ser esquecido são As Frenéticas. Elas eram a expressão da ousadia feminina. Declaravam-se contra o machismo, os padrões de beleza e a moral e os bons costumes. Elas estouraram com Perigosa (“Eu sei que eu sou bonita e gostosa”) e deram o que falar dentro de macacões e maiôs justos e saltos altos dourados.

É pecado esquecer Rita Lee. Inspirada nas experiências com seu marido Roberto de Carvalho, cantou Mania de você (1979): “A gente faz amor por telepatia/ No chão, no mar, na lua, na melodia/ Mania de você/ De tanto a gente se beijar/ De tanto imaginar loucuras/ Nada melhor do que não fazer nada/ Só pra deitar e rolar com você”. “A gente tinha acabado de se amar com toda aquela descrição: no chão, no mar, na lua. Tínhamos chegado naquela loucura, quando a gente sente que está vivo, que dá um berro… Estávamos suados e Roberto pegou o violão, apanhei uma canetinha, baixou o santo e fizemos a música”. Ela contou em depoimento à revista Cláudia quando a música foi lançada.

A crônica sexual de Rita não pára por aí. “Flagra”, “Lança-perfume”, “Caso sério” são outros bons exemplos.

Na seara masculina, algumas coisas também mudaram um pouco. Alceu Valença surgia com seu tempero nordestino e sugestivo. Em Como dois animais, de 1982, a cena era selvagem: “Meu olhar vagabundo/ De cachorro vadio/ Olhava a pintada/ E ela estava no cio/ Foi mistério e segredo/ E muito mais/ Foi divino brinquedo/ E muito mais/ Se amar como dois animais”.

Em 1979, Jorge Ben e Caetano gravavam Ive Brussel, a mais insinuante das composições de Ben até ali, ainda mais quando interpretada por dois homens: “Você com essa mania sensual, de sentir e me olhar/ Você com esse seu jeito contagiante, fiel e sutil de lutar/ Ai, ai, ai, sim naquele dia você foi tudo, foi demais pra mim/ Assim você acaba me conquistando/ Assim eu acabo me entregando”. Caetano, ainda mais atrevido, gravou com música de Péricles Cavalcanti, uma Elegia à mulher baseada em poema de Augusto de Campos: “Deixa que minha mão errante adentre atrás, na frente, em cima, embaixo… (….) Nudez total: todo prazer provém do corpo/ (Como a alma sem corpo) sem vestes”.

No terreno do samba, o grande representante é Martinho da Vila. Gravou Manteiga de garrafa, em que dizia “eu quero lhe transar” e “eu quero lhe entender”. Na década de 80, fora da mira dos censores federais, ele abusou. Em Me faz um dengo (composição conjunta com Zé Catimba): “Se quiser me arranhe/ Me agarre, me morda/ Que eu me arrepio/ Chego quase a desmaiar/ Te dou um beijo, te ouriço toda/ Te deixo bem doida a se desvairar…”

Wando apareceu em 1975, com Moça. Na letra, o eu-lírico não se importava que sua amada não fosse mais virgem. Com um pensamento tão progressista o artista vendeu 1,2 milhões de discos. Depois, Wando acabou levando os títulos de “safado”, “sacana” e “don Juan”. Ele explica: “O que me fez vender 10 milhões de discos nesse tempo foi exatamente essas coisas que as pessoas meteram na cabeça: que as fizeram achar que sou obsceno. É que falo uns negócios assim diferentes, sobre muitos dos quais provavelmente até já falaram, mas não do jeito que eu falei”. Depois de estabelecer como sua marca as calcinhas – que tantas fãs jogavam no palco durante seus shows – Wando ainda tem um público cativo. E nos anos 90, com tudo permitido, ele emplacou Gostosa (1997): “É tão gostosa, ela é toda faceira/ (…) Doida pra ser chupadinha da boquinha até o pé/ Não me provoque com seu jeito de fogosa/ Que eu me encaixo nessas coxas/ Faço tudo com você/ Levante a saia e me guarde bem debaixo/ Vem por cima, vem por baixo/ Que eu te dou o meu querer”.

A história continua

Se os temas relacionados ao sexo surgiram junto com a música brasileira, é impossível falar de todos aqueles que ajudaram a escrever sua história sexual da MPB. Para chegar ao funk “Viemos pegar mulher/ Chatuba come cu/ E depois come xereca/ Ranca cabaço/ É o bonde dos careca!” ou a Dança do Créu, repetida com freqüência cinco em todas as rádios do país, requebramos ainda nos tempos do Brasil Colônia com ritmos como a polca e o lundu. Muitos anos mais tarde, Carmen Miranda abria espaço para a alegria e a malícia, enquanto na década de 50 belas pin-ups ajudavam a vender discos.

Depois, Alcione, Fafá de Belém, Joanna, Zizi Possi, Beth Carvalho, Simone, Zezé Motta e Maria Bethânia, Elba Ramalho mostraram os seios, os ombros ou os umbigos para provocar os sentidos de uma nova época. Ainda assim, em 2004 Preta Gil causou polêmica ao aparecer nua no encarte de seu primeiro CD.

Como não citar Gretchen, precursora de Carla Perez, com a Conga, conga, conga, que surgiu um pouco antes da lambada virar febre nacional com saias rodadas e calcinhas à mostra. Logo mais grupos como É o tchan! marcariam uma geração que cresceu ao som da Dança da Bundinha. No Nordeste, muitos deles estavam de olho na butique dela, como Genival Lacerda. Manhoso (entre seus álbuns figura A Festa da rabada) fez sucesso com pornoforrós a partir de 1975. E há outros: Zenilton, Clemilda, Messias Holanda, Trio Nordestino, Frank Aguiar.

A sacanagem (ou amor) ainda tem muito o que escrever, dançar e gozar. Amor é prosa e sexo é poesia e os dois podem render uma infinidade de composições. Que não ouçam os puritanos musicais, preservadores da moral e dos bons costumes em do, ré, mi, fá, sol, lá, si: Salve o prazer!

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