1º semestre de 2010

Todos os segredos merecem ser descobertos

Por Bárbara Matte

Há muito tempo, em uma rua lotada de pessoas nas imediações da 25 de março, uma amiga se deslumbrava em um loja de “artigos esotéricos”. “Vou levar esse disco. O que você acha?”. Era um disco de um grupo que se intitulava “Krishna Das”. Com o conhecimento que tinha na época, supus que era algo Hare Krishna, doutrina da qual eu só ouvira falar e que de pronto associamos a pessoas vestidas de laranja que tentam nos convencer a nos livrar de nossos bens materiais. Com essa imagem do “exótico que desperta o fascínio e constitui uma alternativa ao nosso modo de vida”, acabei convencendo-a a comprar o CD. Assim que chegamos em casa, colocamos no rádio. Eram o que eu achava que seriam mantras (aliás, o que são mantras?) talvez escritos pelos integrantes do grupo, ou talvez célebres entre os Hare Krishna, ou talvez alguma outra coisa que não podíamos, naquele momento, supor. Apenas ouvimos o disco ininterruptamente sem saber que língua era aquela ou do que se tratava. Levei o disco emprestado e ouvi tantas vezes que seria capaz de reproduzir o que escutei. Apenas reproduzir como um papagaio, sem juízo, sem reflexão, sem consciência. Depois de um tempo, enjoei daquelas “músicas” e troquei o disco por um outro qualquer, de um músico qualquer, de um país qualquer.

Anos depois, me vi diante daquele disco de novo, agora no formato uma fitinha k7 que eu nem lembrava quando havia gravado, jogada no meio de tantas outras. Coloquei no aparelho e o som saiu falhado, problema da mídia ou do aparelho? Aquele compartimento de fita não via uma mídia há décadas, bem como aquela fitinha não tinha tido a chance de falar em muito tempo. Não me importei e apenas deixei tocar, com as falhas irritantes que me impediam de ouvir com clareza. Mas por que me preocupava tanto em ouvir aquilo se nem ao menos eu sabia sobre o que versava? Talvez por causa do ritmo, ou então por causa das repetições constantes que produziam uma sensação de frenesi intensificada pelas batidas, pelas palmas. Logo eu não sabia o que sentir ou como me sentir diante daquilo e me envergonhei da minha ignorância. Era como uma daquelas pessoas que tatuam o símbolo do om porque acham “espiritual”. Como quando estive em estúdio de tatuagem por motivos que não recordo, e vi tatuado no pé de uma das pessoas que esperavam na fila, o dito símbolo do om – que alguém uma vez descreveu como “tipo um 3 mais cheio de enfeites” – ao contrário. Estava espelhado! A vergonha me invadiu novamente. Não pelo símbolo do om ao contrário, mas pelo fato de eu saber que era o símbolo do om e não saber o que era o bendito om!

Em vez então de contemplar minha ignorância ou simplesmente empurrá-la para debaixo do tapete, resolvi que o certo seria tentar descobrir do que se tratava. Meu primeiro passo foi, então, procurar na internet. No entanto, em pouco tempo descobri que não era uma boa idéia. O fato é que eu não sabia absolutamente nada sobre o assunto, e portanto, ficaria vulnerável a qualquer porcaria que eu lesse. Se alguém dissesse que om é um som que remete ao som que Deus fez quando sentiu a energia cósmica que o invadia na criação do mundo, eu acreditaria. Infelizmente, quanto mais eu buscava, mais confusa eu ficava. E mais a desconfiança aflorava. O que eu precisava era de fontes confiáveis, de pessoas que respeitassem a cultura de que falam e que por isso se importassem em transmiti-la de forma fidedigna. Não conseguia pensar em outro lugar que não na universidade. Felizmente, para nossa sorte, existe um departamento de Sânscrito na USP. Logo pensei em me inscrever em uma das matérias oferecidas naquele semestre. “Literatura Sânscrita Épica”. Eu não tinha a menor idéia do que me aguardava, mas tinha a esperança de que, finalmente, obteria respostas.

Esperando o início do semestre, retirei da minha estante um livro, que como aquela fitinha, permaneceu ali jogado, esperando o momento certo para ser lido. Pertencia à minha mãe (e que passou a ser meu porque ninguém estava interessado em ler). Estava velho, embolorado e certamente ganharia o prêmio de uma das piores edições já realizadas pela humanidade (esteticamente falando…)! Não tinha orelha, por exemplo. Então, os textos que deveriam estar impressos ali, estavam no verso da capa. Sem contar que foram impressos de forma torta! A “tortice” da impressão se repetia por algumas páginas adentro e, depois de um tempo, a gente acabava se acostumando com ela. Mas o que mais despertava surpresa, era a capa. O título no topo escrito da seguinte forma “Hesse/Sidarta”. Bom, na época em que minha mãe comprou o livro (ela mesmo escreveu “julho/79”), Hermann Hesse era tão popular quanto os Beatles e talvez, essa forma de colocar o título não gerasse confusão. Mas hoje, não sei se teria o mesmo efeito… Além disso, a foto de um “homem indiano” com um fundo azul chapado não era exatamente o que se chamaria de “bonito” ou “atraente”. Apesar dos esforços em afastar leitores, aquele livro sempre teve a minha simpatia. Desde criança, o olhava na estante, meio sozinho, meio empoeirado na última prateleira, deslocado entre os outros títulos aparentemente mais palpáveis como O Despertar dos Mágicos ou A Ciência dos Cristais, que mesmo sendo mais convidativos (pelo menos entendíveis a uma criança, pelo menos em português!), não me chamavam a atenção como aquele. Certo dia, o peguei nas mãos, com um pouco de receio, porque era estranho. Não tinha flores na capa, não tinha um desenho. Eu me propus a ler algumas vezes, mas como quem prova uma comida que não gosta, jogava-o de lado depois de um ou dois parágrafos. Até que, anos depois, muitos Hesse’s depois ,pareceu chegada a hora de descobrir, afinal, quem era o tal do Sidarta que dava nome ao livro. Quanto mais eu lia, mais compreendia porque não o tinha feito quando criança: porque não era pra criança.

A história, contada de um jeito que só o Hesse sabe contar, continha muitas referências ao mundo indiano, ao modo de vida indiano. E, conseqüentemente, termos que só diziam respeito à cultura indiana. Dentro ou fora do contexto, quase incompreensíveis a uma ocidental leiga como eu. Por mais que o Hesse tivesse tentado passar a idéia, aquilo continuava intangível. Dúvidas brotavam em minha mente, ainda que mascaradas pela forma envolvente como a narrativa era levada. Soma-se a isso o fato de a edição não possuir “notas do editor” suficientes, mantendo o ar misterioso com o qual ela, a edição, teimava em se apresentar. No entanto, isso não me impediu de chegar ao final e descobrir que eu poderia entender a história, mas não como deveria. Deixado novamente de lado, o livro ficou em cima da bancada ao lado de muitos outros que eu chegava a pensar, estavam ali apenas pra fazer volume ou para dar dinamismo ao quarto.

O semestre finalmente começara e eu, graças a uma maravilhosa dor de dente ocasionada por um siso (que só servem para enriquecer dentistas), acabei perdendo as duas primeiras aulas de “Literatura Sânscrita Épica”. Assim, na terceira aula do curso, e a primeira a que eu assistia, me senti a pessoa mais deslocada do mundo! Não era mais a internet com suas mentiras disfarçadas de verdades, não era mais o om ao contrário no pé de um sujeito, nem o livro do Hesse, nem a fitinha em petição de morte do Krishna Das. Índia Védica e Bramânica. A palavra “védica” me era familiar porque, há algum tempo, existia em um shopping qualquer, uma banca de cosméticos que se diziam feitos com base nos princípios ayurvédicos (que mais tarde eu descobriria serem os princípios da medicina indiana dos tempos védicos). Mas eu sabia tanto quanto uma barata o que significava “védico” ou mesmo “Veda”. Tive uma reação de desespero inicial, aquelas palavras em sânscrito (mesmo que transliteradas), termos que encerravam significados diversos, sociedade sagrada. Era muito para minha pobre cabeça cartesiana! A filosofia ocidental, que é responsável pelo nosso modo de pensar, nada tinha em comum com a “filosofia” indiana! Eu estava sendo obrigada a abandonar os princípios básicos que regiam a minha vida, pelo menos por alguns instantes, para pensar do modo indiano. Pra dificultar ainda mais, a Índia antiga não contém qualquer tipo de registro histórico. Não porque se perderam, mas porque foram negados! A história da Índia é a que está escrita nos textos sagrados (afinal, são textos revelados). Apesar disso, há muita gente que está tentando escrever essa história, que está sempre sujeita a modificações.

Eu imaginava meus olhos se arregalando cada vez mais enquanto eu me esforçava em acompanhar o andamento da aula. Idéias muito inovadoras pedem certo tempo de reflexão. Entendi que a Índia antiga era dividida em Védica e Bramânica. Como já dito, “védico” vem de “Veda”. Certo. O que são vedas? Na aula, eu não pude descobrir. Quer dizer, dava para deduzir que eram escritos, só não dava pra saber qual o seu teor, ou seu significado. Para a minha salvação, havia um livro que eu tinha comprado, um ano antes, e que ainda estava no plástico na mesma bancada bagunçada em que se encontrava o Sidarta. Um livro pequeno, A História das Religiões – Índia e Extremo Oriente. Assim que o livrei de sua prisão, fui direto ao sumário e uma imensa onda de alegria se espalhou pelo meu corpo: o primeiro item era “Hinduísmo”, seguido dos subitens “Introdução” e… “A sabedoria antiga do Veda”. Até esse momento, eu não sabia que autores poderiam me ser mais úteis, que livros seriam os mais indicados, afinal, não é só na internet que existem informações duvidosas. Mas tive sorte. Com o correr das aulas e nas leituras dos textos complementares a elas, eu viria a descobrir que o livrinho era mesmo confiável. Talvez uma escorregada ali ou aqui, mas confiável. Também não dava pra exigir aquela exatidão, porque o livro era um resumo e que se propunha didático. Veda é, em termos bem gerais, uma coletânea de textos que guardam a sabedoria, a maneira de vida que regia aquela época. Existem quatro Veda sendo o Rigveda, o mais antigo de todos, que foi considerado durante muito tempo, fonte mor de inspiração sacra. Os Veda eram lidos e estudados por uma casta privilegiada da sociedade, a dos sacerdotes, que tinham obrigação de conhecê-los.

Até aí, tudo bem. Mas ritual? Sacrifício? A mente ocidental logo pensa em cerimônias estranhas com propósitos sombrios. A Índia Védica é basicamente uma Índia ritualista. Acreditava-se que a realização de rituais era necessária para a manutenção da vida. Por exemplo, os rios correm porque os sacerdotes fizeram tal ritual aos deuses que permite que isso aconteça. Isso estava no livro, estava nos textos complementares, mas, por mais que eu lesse, não conseguia entender plenamente. Os termos exigiam um pouco mais de… sensibilidade. Mais tempo para adaptação.

Continuando na tentativa de saciar minha curiosidade sobre os conceitos e sobre as idéias que compunham o pensamento indiano, continuei lendo o livrinho e a freqüentar as aulas. Até que, novamente, me surge um termo que passara desapercebido. Estava no sumário do livro e, como não me interessava na época, eu simplesmente não vi. Tantrismo. Tantrismo? Será que é daí que vem aquela história de sexo tântrico que a gente tanto ouve falar? Que promete milagres? Que promete orgasmos infinitos e conquistas certas? Será? Sim, era isso mesmo. Assim, como om ao contrário no pé do cara e a fitinha do Krishna Das, era um termo que se perdia no meio das releituras (pra não dizer outra coisa) feitas pela sociedade ocidental acerca de outros mundos. Eu nem sabia que existia algo como “Tantrismo”. Uma doutrina religiosa! Não era então um manual de posições eróticas parecido com aquelas revistas de baixa qualidade que vendem a granel nas bancas. Ou ainda, nada que fornecesse dicas para “uma noite quente” em outras publicações. “Como enlouquecer um homem na cama em 10 passos” e coisas do gênero. Para minha infelicidade, eu não encontraria informações sobre Tantra em um romance singelo… Era algo que me pareceu muito sério, alicerçado em conceitos que remontam aos Veda, e às Upanishads, e ao Budismo, e a tanta coisa que eu já me desesperava em pensar de que modo reuniria as informações necessárias… O livrinho dedicava poucas páginas à explicação do Tantrismo e essas não eram das mais animadoras. Passagens em que se dizia que era uma doutrina obscura, quase secreta e sobre a qual quase nada se sabia permeavam o texto e traziam desespero. Novamente!

Mas, me controlei. Não era o fim do mundo. Como eu disse, o livro era só um resumo! Tinha que existir alguma publicação mais específica e ninguém melhor que o pessoal do Departamento de Sânscrito para me indicar algumas. Em um primeiro momento, achei que fizesse parte das Letras Orientais, mas não. Era parte do Departamento de Letras Clássicas! Não era exatamente um departamento, era uma sala. No final do corredor mais frio, estreito e gélido da FFLCH. Era uma quinta-feira e os dois únicos professores responsáveis estavam lá. Expliquei a situação e eles me indicaram uma lista de livros que seriam fáceis de serem encontrados. Pois é… Não foi nada fácil! Comecei pelas bibliotecas da faculdade e… havia um livro da lista que se apresentava como um breve história da literatura tântrica. Ele podia ser muita coisa, menos breve. Tinha 600 páginas além de ser em inglês! Não haveria tempo hábil pra ler o livro inteiro e com a atenção necessária. Se eu não conseguia assimilar os conceitos em português, imagine em inglês! Mesmo depois de consultar o catálogo e de descobrir que autores da lista não estavam nas estantes, fui para a biblioteca. Quem sabe eu não achasse no meio daqueles livros algum que pudesse dar uma pista, uma luz! Mesmo que fosse só uma citação! E fui retirando o máximo que podia das estantes, folheando um a um. Acabei me deparando com livros em sânscrito com algumas coisas em inglês no meio e pensava “se eu soubesse sânscrito…”, como se fosse espanhol ou como se existisse no jornaleiro “Sânscrito em 10 dias”.

Passei a procurar nas bibliotecas do Estado usando o catálogo on line. A maioria dos livros era em inglês, um ou outro em francês e quase nada em português. Tentei, então, buscar pelo título dos livros e novamente… nada! Comecei a entrar em desespero pela milésima vez nessa história! Tentei pelos autores, afinal, se estavam na lista, eram confiáveis. Julius Evola. Nada. Tara Michael. Nada também. Os com nomes indianos só procurei por desencargo de consciência… Achei um em espanhol do Arthur Avalon, que parecia bastante… revelador! Infelizmente, não circulava e realmente não teria tempo de passar tardes em uma biblioteca… Até que apareceu um, Mircea Eliade. Não o livro de que eu precisa, mas pelo menos, era alguma coisa. Como o site mantinha um mecanismo de busca que incluía também “por assunto”, resolvi arriscar e digitar “Tantrismo”. Nem precisa dizer o que não apareceu…

História das Idéias e das Crenças Religiosas. Na biblioteca do Estado, encontrei mais de uma edição do II volume, de Gautama Buda ao Triunfo do Cristianismo. Claro que descobrir a localização do livro dentro da biblioteca facilitaria a minha pesquisa porque o que me interessava também eram os livros que estariam em volta e que tratariam, muito provavelmente, do mesmo assunto. Foi certo. Outros livros! Comecei a abrir um por um, procurando no sumário ou alguma foto, sei lá. Qualquer coisa. Cheguei a tentar ler um em francês que estava por ali, mas meu conhecimento não vai muito além de croissant, soutien. Mesmo assim, dava pra deduzir algumas coisas. Parecia ser um livro que tratava de rituais. O que era muito interessante, mas… Enquanto lia o que podia, lembrei que no livrinho havia algo que associava as posições de Hatha-Yoga ao Tantrismo. Parece que faziam uso das posições da Hatha. Eu já estava na biblioteca mesmo, achei que seria uma boa idéia ir à seção de yoga (será que existiria tal coisa?). Nem pensei em perguntar a um atendente, logo fui pro catálogo escolher algum que tivesse “yoga” como título apenas pra poder saber onde era a seção e novamente, dar uma olhada nos livros que tinham ao redor.

Não lembro exatamente o que escolhi, mas cheguei onde queria. Pra minha sorte, um grande livro em que se lia “Hatha-Yoga” na lombada se destacava na prateleira. Tão velho e maltratado que cheguei a pensar que talvez fosse um manuscrito original. Era em português, felizmente. Comecei a folhear como havia feito com os outros. Mas aquele livro era diferente… Umas fotos coloridas estranhas. E ainda com temática sexual. “Caraca, encontrei! Não sabia que a ligação era assim tão direta que eu já fosse achar no primeiro livro que abrisse!”. Depois desse lapso, percebi que aquelas páginas não faziam parte do livro. Alguém tinha colocado aquelas imagens agradáveis ali. E não eram poucas! A cada umas 20 páginas, me surgia um negócio daquele. Até um conto pornô tinha lá dentro! Eu comecei a ler, mas logo perdi o interesse… E ainda eram umas imagens da década de 80! Será que aquele livro era tão impopular que ninguém o pegou desde àquela época? Folheei o máximo que pude, mas não havia nada lá (quer dizer, sobre Tantrismo, né). Queria levar comigo, mas novamente eu estava diante de um livro que não circulava (dava pra perceber que não…).

Voltei insatisfeita, quase desistindo. O livro do Eliade era fantástico, mas não trazia informações profundas sobre o Tantrismo. Olhei a lista novamente como que se em um passe de mágica eu pudesse retirar os livros dela… Um deles me chamou mais a atenção. O Tantrismo, era da Martins Fontes. Se existia algum livro que eu precisava ter em mãos, era aquele!  A data de publicação era 1986. Achei que não o encontraria, mas resolvi ligar em umas das livrarias da editora. “Esse livro está esgotado. Era de uma série chamada Oriente Secreto”. “E não existe nenhum meio de eu consegui-lo?”. “Só em sebo mesmo”. Procurar livro em sebo é tão difícil como agulha no palheiro. Se é um “pop”, tudo bem, mas aquele livro não exatamente o que se chamaria de “pop”. Liguei para os que eu freqüentava, na João Mendes. “É O Tantrismo. Separado!”. O medo que eu tinha de alguém escrever “otantrismo” e por causa disso, eu acabasse perdendo uma chance. Não consegui. Agora, estava a ponto de desistir mesmo. Mas… pensei em outra estratégia. Talvez eu conseguisse baixar algum trecho de livro da lista pela internet! Mas logo me veio na cabeça “quem ia ficar se preocupando em jogar um livro desses na internet?”. Eu tinha que tentar. Logicamente, não consegui nada. Tentei procurar então por sebos que mantinham catálogos virtuais. Minha última cartada. E foi um flash! Nem acreditei quando encontrei! Lá estava no catálogo de uma O Tantrismo, 12 reais. Era um domingo. Eu entrei em polvorosa! Eu mandaria vir aquele livro de qualquer lugar, até da China (ou da Índia), se preciso! Mas não precisei fazer isso, a livraria era bem perto da minha casa até. Peguei o telefone pra reservar a maldição, não poderia deixar que ele fosse vendido! Aquele livro era meu por direito! A loja fecharia às 17h. Eram 16h55min. Pensei “o vendedor vai me odiar… mas e daí? Eu preciso desse negócio!”. Liguei. “Deixa eu verificar se ele está aqui e já retorno”. Pronto, ele não vai retornar! Está quase na hora de fechar! 17h10min, 17h20min…  Eu vou acampar na porta desse lugar! 17h30min, o telefone toca. Nem acredito! Isso é que é atender decentemente! “Ele está aqui! Tão novo que parece que nem foi lido!”. “Moço, guarda pra mim! Eu estou que nem louca atrás disso!”. “Pode deixar. Vou colocar aqui no caixa com o seu nome. Esse livro é raro, hein. Chegou sexta na minha mão”. Ou seja, se eu tivesse procurado na internet na quinta, dia em que fui à biblioteca, não o encontraria no catálogo da loja.

Segunda costuma ser um dia particularmente cheio. E naquela segunda não foi diferente. Eu só consegui pensar em buscar o livro lá pelas cinco da tarde, o que significa só uma coisa: trânsito infernal. Mas, o que se pode fazer? A livraria ficava em Moema e eu precisaria pegar apenas um ônibus pra chegar até lá. Um ônibus e algumas horas de engarrafamentos. Ele tinha me passado o número da loja e me atentou para o fato de que havia duas nessa praça, uma em cada extremo. E que a dele ficava do lado… esquerdo ou direito? Direito de frente pra avenida ou de costas? Eu não lembrava mais! Apenas arrisquei qualquer uma das duas. Como manda a lei de Murphy, entrei na errada. E cheguei já perguntando do livro que estaria no caixa! Momento de vergonha total. Atravessei a praça a passos rápidos. Ao chegar à dita loja, corri para o caixa e lá havia muitos, mais muitos livros embalados com o nome de muitas pessoas que como eu, talvez, tinham ligado em desespero. E a moça não encontrava o meu. Ela foi tirando, puxando e nada do meu aparecer! “Você tem certeza que ele disse isso?”. Claro que eu tinha! Depois de um tempo, ela encontrou. Ele era bem pequeno mesmo, por isso havia ficado escondido debaixo dos obesos. Tirando o fato de haver um amassado profundo na lombada, o livro estava em muito bom estado. Mal sabia que estava prestes a ler um dos livros mais estranhos que já tive em mãos…

Finalmente… Tantra!

O Tantrismo, de Jean-Michel Varenne. Dando uma folheada por alto, percebo algumas ilustrações nem um pouco chamativas, até mal feitas às vezes. Mas eu não estava interessada nas figuras, e sim no que aquele livro poderia acrescentar ou esclarecer. Na verdade, ele não trouxe tanta luz quanto eu esperava e, em alguns momentos, chegou a confundir mais ainda! Começa tentando montar um quadro do que seria o Tantrismo hoje, que me pareceu de início o discurso de uma pessoa muito revoltada com as distorções que o ocidente faz quando se trata de assunto. Logo eu descobriria que essa revolta não se restringiria apenas ao primeiro capítulo… Como boa parte das palavras sânscritas, “tantra” não é uma palavra que guarde um sentido único. Em uma tradução literal, significa “prática”, mas com o tempo, passou a se relacionar com o compêndio de textos que regem o Tantrismo. De acordo com Varenne, “o tantrismo promove uma via espiritual revolucionária; em vez de negar ou fingir ignorar os impulsos sexuais, ele os enaltece e os proclama como a mais bela e mais alta expressão da energia divina”. O fato é que, até então, eu tinha me esforçado pra entender que o pensamento indiano predominante nesse período tão fértil era a tal “negação do não-ser”. De acordo com o pensamento indiano hinduísta, tudo que pensamos que somos, na verdade, é o não-ser. É mais simples do que parece! O ser simplesmente é, ou seja, não precisa de complementos. Portanto, corpo, mente , tudo isso é desnecessário e nos afasta ainda mais do verdadeiro ser, que recebe o nome de “átman”. Alcançar o átman significa unir-se ao todo, ao Absoluto sagrado (o “Brahman”. O átman é o Brahman que reside em cada um), alcançar a plenitude! De repente, aparece uma prática que muda tudo, que contesta tudo, que subverte essa ordem… Nega a organização de castas, enaltece a mulher e valoriza o mundano como forma de libertação!

O tom de revolta e indignação que se sobressaía em uma passagem ou outra do livro me fazia crer que era quase impossível não soltar uma risadinha, por menor que fosse, ao lê-lo (Varenne desejando minha morte ao saber disso…). O motivo maior da insatisfação do autor é a suposta constante deturpação que os ocidentais fazem de umas das linhas do Tantrismo (como se não bastasse, ainda existiam duas tendências no negócio), no caso, a via da mão esquerda. A via da mão direita propõe o alcance da libertação através da retidão e do yoga. Já a da mão esquerda, possui outros meios…

Mas vamos por partes. No Tantrismo, se realiza o chamado culto à Deusa (que sempre existiu na Índia, mas que depois do surgimento dos Veda, havia sido colocado em certa marginalidade por se considerado pela cultura dominante uma louvação errônea. Esse culto se repopulariza nos séculos VI d.C., mas esteve lá… desde de antes de Cristo). Existiria uma energia denominada çákit (shákit) que seria a motivadora da existência do cosmo. Essa energia assumiria a forma de uma Deusa, alvo de muitos cultos, e teria se originado dos próprios deuses. Essa energia também é representada por uma serpente que ficaria enrolada na base da coluna vertebral, entre a genitália e o ânus. A idéia é acordar essa serpente e fazer com que ela ascenda pela coluna vertebral girando todos os chakras. Começou de novo! O que são chakras? A mesma história: uma mesma palavra carrega mais de um significado. Chakra, literalmente, é “roda, lótus”, mas são também centros energéticos alinhados ao longo da coluna vertebral. Os chakras giram em sentido horário e anti-horário. Dependendo do modo como giram, dispersam ou concentram a energia. A passagem da Kundalini, a serpente adormecida no primeiro chakra, o muladhara chakra, na base da coluna (aquele mesmo entre o ânus e a genitália), giraria todos os outros em sentido anti-horário e faria suas pétalas se levantarem (cada chakra possui uma cor, um número de pétalas e influencia em determinada atividade. O muladhara chakra, por exemplo, coordena funções do olfato e o poder da palavra).

Daí, temos duas vias para promover do despertar de Kundalini: a que usa o yoga e a que usa o “sexo”. Na verdade, nesse momento me surgiram diversas dúvidas e o livro não dava conta respondê-las. O Tantrismo se apresenta como uma via revolucionária, que vê na corporeidade das coisas as vias de libertação, que vê em tudo que o Vedismo condenava – álcool, sexo, carne – as verdadeiras formas de se obter libertação. Como poderia existir uma prática yóguica no meio disso tudo se o yoga proclama a abstinência e a retidão?… Eu não sabia mesmo mais o que pensar. Os adeptos da mão direita, a via da yoga, proclamam “Que necessidade eu tenho de uma mulher exterior? Eu tenho a mulher em mim”. Essa mulher seria a shákti que, quando despertada, suprimiria qualquer tipo de experiência comum. O despertar viria da retidão?

Já a linha da mão esquerda, proclama “Não possuirás a mulher amada”. Ou seja, fazer com que a shákti realize núpcias com Shiva numa espécie de reencontro através do sexo que na verdade, não seria bem sexo, e sim apenas parte de um ritual. Daí, entra a revolta máxima do Varenne. Essa via é que tem mais facilidade de ser corrompida pelos ocidentais. Não se tratam de “atos ‘primários’ onde prevalece a exigência única de um impulso degenerado”(definição curiosa do autor do que seria o “sexo no ocidente”), e sim de uma união que tem por única finalidade despertar a kundalini e promover as núpcias celestiais entre Shiva e sua Shakti (em um orgasmo cósmico!) que ocorreria no topo da cabeça. Depois dessa união, ela, a kundalini, voltaria pela coluna reorganizando os chakras e tornando o corpo imortal.

O mundo, para o Tantrismo, é uma manifestação do divino, portanto, unir-se a ele, entrar em sintonia com ele é uma forma de alcançar a libertação. Ao contrário do que vêem a Yoga e os Vedas, e as Upanishads, o mundo como obstáculo que deve ser superado.

A via da mão esquerda possui tantos mistérios que talvez não fosse possível compreendê-la também! Essa linha acredita que a liberação da energia da shákti que permitiria a união dos dois mundos (a consciência divina, Shiva, alvo de grande parte dos cultos tântricos, deus da destruição, e o ser divino, a Shákti) seria uma união “sexual” bem sucedida. Essa união seria a parte de final de um ritual que exigiria uma preparação árdua, de talvez anos dos adeptos. O mestre escolhe os envolvidos e, muito provavelmente, eles nunca se verão outra vez. A energia é a própria mulher, a mulher é aqui objeto de veneração. Sendo assim, o homem é o passivo da relação, e a mulher… o ativo. Sim! O homem está mercê dela. O livro traz vários detalhes no mínimo curiosos sobre o ritual que culminaria no que nós, ocidentais, chamaríamos de sexo.

Antes de mais nada, uma pergunta, como saber que linha seguir? Varenne responde que a o adepto não escolhe a linha, é a via que o escolhe… Além disso, ele, o autor, traça perfis! Os escolhidos pela mão direita, seriam seres altamente espiritualizados descritos como “tipos divinos” (não sei o que definiria um “tipo divino”, mas gostaria de saber…). Já os da mão esquerda, são do tipo “heróico” (seja lá o que isso quer dizer…). Uma coisa é certa “as duas vias vão chegar, em princípio, a resultados idênticos: o despertar da Kundalini, domínio perfeito da energia sexual (seja pela abstinência, seja pela prática) e, portanto, o controle do corpo”.

A via da mão esquerda

“Os ocidentais, em geral, se interessam pela segunda, mas os espíritos lascivos tiveram que renunciar às suas pretensões quando da leitura dos textos (tantras)! A via da mão esquerda não é uma orgia de baixo nível, mas sim uma sadhana (prática) muito árdua, de resistência, vedada tanto aos medíocres quanto aos libertinos…”. Isso é o que diz o Varenne, sempre defendendo seu maravilhoso tantrismo… Apesar de sua clara tendenciosidade, ele descreve algumas etapas pelas quais os adeptos dessa via têm que passar. E se for mesmo isso, não é uma prática nada simples.

Primeiro, recomenda-se que os adeptos tenham plena certeza de que querem seguir com tudo isso, afinal, o treinamento que estar por vir não será fácil. Considera-se, então, o termo virya que seria virilidade, que serve tantos aos homens quanto às mulheres. Ser viril é ter força. O discípulo do Tantrismo tem que ser obrigatoriamente viril. Existem também características físicas que devem ser preenchidas pelos que pretendem ser seguidores da doutrina. As mulheres devem ter pele suave, beleza perfeita, corpo saudável, espírito viril e audacioso! E os homens devem ter boa condição física, possuir um membro receptivo e capaz de sustentar uma ereção prolongada (afinal, um ritual tântrico pode demorar).

O ritual tântrico é também chamado de “rito dos cinco M’s” em que temos: Madya (vinho), Mamsa (carne), Matsya (peixe), Mudra (cereal tostado) e Maithuna (práticas sexuais). Somente os iniciados mais experientes podem fazer parte desses rituais.

Maithuna de Varenne

Os mestres prescreviam aos discípulos “preliminares amorosas” que não eram nada fáceis de serem cumpridas. Na realidade, encontro um dilema aqui. Nesse momento, Varenne começa a tratar o ritual como sexo mesmo e no meio, vai jogando o amor. Pelo que eu havia lido até agora, não existe amor, existe um objetivo muito maior que o amor, que seria o retorno ao Uno, ao Absoluto. Mas…mesmo que tudo isso talvez não seja o mais correto, é interessante saber a que nível de complexidade um ritual tântrico poderia chegar.

Preliminares “amorosas”

A partir daí  o livro parece se converter em uma espécie de manual de sexo tântrico e chega a ser perigoso, pois durante toda a narrativa, o autor alerta pra o fato de se realizar essas coisas sem um mestre… Mas tudo vai do fato de quem está lendo acreditar que tudo isso realmente. A energia, o Uno que deve ser alcançado… Eu estava tentando ler tudo isso com o olhar mais cético e analítico possível, mas fica realmente difícil de manter indiferente diante de tamanha…beleza! Sim, eu estava achando aquilo tudo muito bonito, muito atraente, mas também, perigoso.

Só há um dia no mês em que se pode realizar a união tântrica e quem decide é o mestre. E assim, se iniciam as preliminares:

“No começo (cerca de três meses), o sadhaka (praticante) tornar-se o criado de sua amante (há controvérsias quanto ao uso desse termo!): não a toca, mal ousa olhar para ela, dorme ao pé do seu leito. Em seguida ele é autorizado a compartilhar de seu leito, sem ter direito a roçar nela; nos quatro primeiros meses ele dorme à sua direita, nos quatro meses seguintes à sua esquerda. O objetivo desses ritos, que alguns julgarão absurdos ou cruéis, é o de exasperar o desejo recíproco dos adeptos ao mesmo tempo que aguçam  suas percepções , regularizam seus impulsos elementares e depuram seus instintos ‘primários’, dirigindo-os para o ‘alto’…”.

Durante o ritual, deve-se manter a consciência e a concentração, caso contrário, podem ocorrer danos psicológicos e físicos causados pela passagem mal sucedida da kundalini, muitas vezes permanentes…

Parada!

Como uma coisa tão complexa pode ser tão banalizada? A quantidade de cursos oferecidos na internet, de 3 dias a preços abusivos é enorme! Promessas das mais diversas: melhore a relação com sua amada, conquiste novos horizontes. E as perguntas espalhadas por aí! “Será que rola sexo grupal?”. E a melhor de todas, “Manual de Masturbação Tântrica”! Como? Se o negócio prevê que deve haver uma complementaridade?! Logo que dei de cara com essa verdadeira overdose tântrica internética, lembrei de mais uma das colocações de Varenne: “A passividade do homem, tida como condição prévia para o êxito do empreendimento, deveria eliminar um bom número de incautos, tentados a fazer Tantrismo como Jourdain fazia prosa…” ou ainda “Estaria redondamente enganado quem associasse essas reuniões secretas (os rituais tântricos) com as assembléias de debochados descritas pelo Marquês de Sade!”.

O que se passa durante o ritual?

Tantra-loka. Como não rir diante desse nome? Por mais que eu quisesse e soubesse do que se tratava (em termos, né)… me vinha uma vontade de rir! Tantra-loka significa “luzes sobre o Tantra” e é um texto que descreve o que se passaria durante um ritual tântrico. Na verdade, não são os próprios Tantras que dizem isso, mas é uma interpretação. De acordo com o Tantra-loka, há fases durante o ato e a fusão é marcada por dois tempos: quiescência, que é um estágio em que o mundo é evacuado e mergulhas-se no ‘eu’, e o de emergência, quando há o despertar da consciência. Esses tempos se alternariam durante o ritual até a sua conclusão em cada um dos participantes! E mais um manual… A fase final do ritual, segundo o Tantra-loka descrito no livro, “A união é ‘consumada’ no meio de uma imobilidade perfeita de todos os centros psicocorporais. Os limites espaço-temporais se dissolvem, o ‘eu’(átman) se fundiu inteiramente no ‘Eu’(brahman)”. Nesse momento, o homem não pode ejacular. Na verdade, não pode haver liberação de sêmen em tempo algum! A liberação do sêmen comprometeria todo ritual e poderia gerar catástrofes na ascensão da kundalini. O sêmen possui grande energia e como tal deve ser retido dentro do corpo. Essa retenção exige grande esforço por parte do yogi. Exercícios específicos. Daí, depois de tanto penar, finalmente, os adeptos do Tantrismo atingem a libertação…

E então…

Na quinta, véspera da conclusão desse texto, tive uma aula com um professor convidado no curso de Literatura… E qual não foi a minha surpresa ao descobrir que ele falaria muito da Deusa e um pouco de Tantra e… Eu já estava particularmente cansada, mas resolvi que falaria com ele depois da aula. Ele apenas me disse que nunca havia pensado nos Tantras pelo viés do sexo, mas que não se tratava mesmo de algo que fosse melhorar seu casamento ou a sua performance na cama… E que havia alguns textos que poderiam ajudar e… Sim, eu já sabia… Certamente ainda havia muito para descobrir e explicar, mas se há mais segredos a serem desvendados (é certamente há), creio que continuarão ocultos até que alguém os resolva revelar…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s