1º semestre de 2010

Yaoi: uma descoberta com muito sentido

Por Bárbara Matte e Fabiana Cambricoli

Sem clímax, sem resolução, sem sentido. Depois de alguns anos de estrada, infelizmente pra uns, felizmente pra outros, vamos nos convencendo de que o sexo é muitas vezes tratado, buscado e pensado como um simples fim. Sem nenhum sentido, partimos rumo a “jornada vital da fornicação” (JVF), sem perceber que quanto mais parceiros contabilizamos, mais vazios nos sentimos. Assumo que depois dos 25, essa realidade começou a me incomodar. Sentia que o mundo era regido pelo sexo, assistia as investidas das indústrias e comércio com esse apelo e, nesse momento, minha mente já estava condicionada a enxergar qualquer produto do sexo como uma putaria qualquer, mais barata que aqueles filmes pornôs exibidos nos famosos cinemas do centro de São Paulo, os quais colaboravam pra essa minha visão de mundo, já que meu emprego no centro me obrigava a conviver com esses locais.

Em um desses dias, rumo ao escritório, depois de tomar um pé na bunda de quem eu pensava ser meu próximo “amor da minha vida”, queria parar de pensar que eu também fora um objeto e que as pessoas com quem me relacionava estavam dentro da JVF. Tentando arejar meu pensamento, entrei em uma banca de jornal um tanto bagunçada, mas com uma grande quantidade de revistas. Não era daquelas banquinhas de esquina, mas também não era uma loja. Digamos que quem entrasse ali, estaria bem servido.

Como ainda tinha alguns minutos antes de começar o expediente, fiquei lá olhando para os lados procurando algo que me interessasse. Não estava procurando nada em específico, buscava apenas desviar meu olhar daqueles montes de revistas masculinas. Dei de cara com aqueles quadrinhos japoneses, os populares mangás, e fiquei instigada a comprar um. Quem sabe um desses me distrairia com algo mais leve e ingênuo. Diante de tantos títulos, eu não sabia o que escolher. Resolvi pedir a opinião de uma garota que estava ao meu lado e segurava um nas mãos. Descendência oriental, uns 15 anos, carinha de nerd, devia manjar tudo de mangás, e com certeza teria um bom pra me indicar.

Ao questioná-la sobre aquele volume que segurava, ela falou eufórica: “É o Gravitation, acabaram de publicar no Brasil, compra logo que eu tenho certeza que vai esgotar nessa semana!”. Envergonhada, imaginando que esse tal de Gravitation era conhecido por todas as pessoas minimamente informadas, tentei escapar de ter minha ignorância reconhecida através de um: “Ah, quer dizer que já foi lançado, então?! Puxa, uma amiga minha comentou sobre essa história, sobre o que é mesmo?”. Foi aí que começou minha surpresa: o Gravitation era a mais famosa publicação do Yaoi, gênero de mangá que tem como foco relações homossexuais entre homens e que é feito para o público feminino.

Sem saber até onde iria a relação homossexual da história, pedi pra garota me indicar algo mais “leve”. Sua resposta? Frustrante: “Leve? Mas nesse nem tem sexo, Tia. Se você tá procurando Yaoi, não vai encontrar nada mais leve que esse aqui”. Frustrada por descobrir o universo do qual eu fugia até mesmo dentro de um quadrinho oriental e querendo socar a menina pelo “tia”, saí da banca sem mangá nenhum. O jeito foi confiar na ingenuidade histórica de um exemplar da “Turma da Mônica”.

Hã??

Cheguei no escritório, olhei pra secretária jogando paciência, as salas dos chefes fechadas (estavam viajando) e logo constatei que o dia seria morto. Enquanto fazia as tarefas corriqueiras, não contive minha curiosidade e abri uma página de busca na internet. Precisava entender a mais nova moda de mulheres lendo quadrinhos japoneses que falavam sobre relações (sexuais ou não) entre homens. De onde vinha aquela idéia? Seria mais uma banalização do sexo?

Não! Logo eu viria a concluir que era algo bem mais profundo que isso. Optei por digitar “yaoi” e acabei descobrindo um mundo todo que girava em torno de um único conceito. Dentro do yaoi existiam subníveis: romances água-com-açúcar que eram os chamados shounen-ai; sexo explícito com consentimento das partes envolvidas, lemon; e, finalmente, sexo explícito sem consentimento das partes envolvidas, o dark lemon! Tinha até medo de descobrir o que se passaria em cada subgênero desse… Estupro? Eu tinha lido certo, né? Quadrinhos com cenas de estupro! Homens sendo estuprados! Era tenebroso demais para ser real… Eu estava achando tudo aquilo de um tremendo mau gosto!

Pesquisando um pouco mais, descobri que esses mangás não só tinham como alvo um público feminino, como também eram feitos por mulheres! Agora, me diga se eu posso? Se eu já achava estranho o fato de uma menina se interessar por esse tipo de “literatura”, imagine como não fiquei quando soube que eram mulheres que escreviam, que pensavam naquelas histórias… Seria até ingênuo achar que isso tinha um único fim como tantas outras publicações que existem por aí.

Resolvi que deveria fuçar um pouco mais. Em um dos textos disponíveis, encontrei o que seria a história do surgimento daquele gênero japonês, até então, totalmente bizarro diante dos meus olhos. Existia no Japão, até os anos 70, uma hegemonia masculina no mercado editorial de mangás. A maioria das publicações era feita por homens e havia um grande desprezo pela figura feminina nas histórias. As mulheres eram meros enfeites e em nada lembravam mulheres do mundo real.

Isso fazia mesmo sentido. Eu me lembro dos “Cavaleiros do Zodíaco”, que eu assistia tempos atrás, quando era pequena. E por mais poderosas que fossem as mulheres no desenho animado (o chamado anime, no Japão), elas nunca se equiparavam aos homens, além de existirem em quantidade ínfima na história. Sem contar que elas não representavam bem a classe feminina.

Refletindo, constatei que o tratamento dado à figura feminina nos mangás não fugia tanto ao que se passava na sociedade japonesa.

Foi entre as décadas de 70 e 80, época em que o mercado mundial começou a se abrir para os mangás, que as mulheres japonesas começaram a reagir frente a sua condição e representação social. Iniciou-se assim a produção dos Shoujo Manga, que são os mangás produzidos exclusivamente para um público feminino e que tem como mangakás (artistas de mangás) somente mulheres.

Foi na mesma época que aparecem as primeiras histórias com temática homossexual entre rapazes. Esse tema é incorporado nas produções dos Shoujo, o que seriam os primeiros passos do Yaoi. Anos depois, o Yaoi se consolida como um gênero de mangás escritos “por mulheres para mulheres” e que não se preocupa em apresentar um desfecho lógico ou resoluções verossímeis, daí o nome Yaoi que é resultado de uma abreviatura para “yama nashi, ochi nashi, imi nashi” (“sem clímax, sem objetivo, sem sentido”).

Começa a fazer sentido

Diante desse bombardeio de informações, eu ainda não conseguia entender a atração que uma história homossexual entre rapazes exercia sobre um público feminino. Como as jovens japonesas poderiam ficar entretidas e até excitadas por histórias como essas? Não entendia também como histórias como essas poderiam ser contadas por mulheres. A primeira resposta para a minha inquietante questão veio de um artigo acadêmico sobre o Yaoi: esse gênero fazia sucesso entre o público feminino pois as mulheres se sentiam representadas nas histórias! Como assim???

Na verdade, em cada casal homossexual presente nas histórias yaoi, um dos indivíduos representa a figura feminina. Percebemos isso através do próprio desenho, já que geralmente um dos membros do casal é mais baixo, magro, tem traços e vestimentas mais femininos, além de demonstrar maior sensibilidade e fragilidade. Continuando a leitura do artigo, chego a uma conclusão que talvez responda as minhas questões: “o yaoi é um espaço de expressão do imaginário feminino oriental, que se vale das relações homossexuais masculinas como ferramenta, tendo em vista que apesar de tais relacionamentos não serem estimulados, eles são aceitos no universo sociocultural japonês. O deslocamento do foco para uma relação entre homens colocaria as partes envolvidas em um estado de equivalência e paridade perante a sociedade oriental, dando margem para que as mulheres possam se manifestar em condições de igualdade em relação aos homens”.

Acho que eu começava a ver sentido naquilo tudo. O que acontece é que frente a um paradigma ainda presente no extremo oriente no qual a mulher é geralmente menos valorizada que o homem, as mangakás, também submetidas a uma lógica machista no mercado editorial de mangás, passam a produzir yaoi, que conta histórias de amor entre rapazes, nas quais os dois membros do casal homossexual se vêem numa situação de igualdade e paridade. Nenhum personagem é subjugado pelo outro. Nessa relação, a mulher se sente (bem) representada.

Mas por que não representar a mulher através de um papel feminino, forte e marcante, que fugisse do modelo de mulher oriental submissa ou inferior ao homem? Porque a indústria editorial é igualmente machista, ainda mais se pensamos nas décadas de 70 e 80, quando o Shoujo estourou. Dominado por homens, o mercado editorial não aceitaria uma publicação cujo foco fosse um papel feminino forte.

Mergulhada no mundo yaoi, o qual havia conhecido, julgado e revisitado no mesmo dia, não percebi as horas passarem, já eram quase cinco da tarde e eu não tinha feito nem metade das tarefas do dia. Tudo bem, no outro dia chegaria mais cedo pra pôr tudo em dia antes que meus chefes voltassem de viagem. Antes de voltar pra casa, queria a resposta pra minha última inquietação: como a mulher se sentia representada no subgênero do yaoi que contém sexo explícito sem consentimento, o tal de dark-lemon?

A questão do dominado-dominador é mais uma ferramenta das mangakás para questionar o papel da mulher na sociedade japonesa e propor uma inversão de papéis. Em uma história em que o personagem mais fraco sofre (geralmente, o passivo, ou seja, a representação feminina) nas mãos do ativo, geralmente ao final da história, há um momento de redenção e brilho em favor do “mais fraco”. Podemos ver isso nos Yaoi que mostram estupros ou humilhações. Quando o personagem que “oprime” se arrepende de seus atos ou é desmascarado pelo oprimido fica clara a inversão de papéis. A mulher se vê como vitoriosa ou vingada em uma relação marcada anteriormente pela desigualdade. Neste momento, de certa forma, ela se equipara ao homem ou o supera.

Estava na hora de sair da teoria e ver como era a coisa na prática. Tinha que ver alguns desenhos… Eu estava no trabalho! Não poderia sair baixando qualquer coisa no computador. E se eu entrasse em algum site pornográfico… Bom, primeiro que nem ia entrar porque é barrado; segundo, se por ventura entrasse, ia ficar registrado no meu histórico! No mínimo, constrangedor. Descobri que o yaoi não se restringia a páginas escritas, a quadrinhos, mas também existia no formato de desenho animado, os animes. Decidi, então, apelar pro youtube.

Eu não esperava encontrar tanta coisa, mas… me enganei! Tinha coisa pra caramba! Eu tinha escrito “yaoi” e o que apareceu foi um monte de vídeos, como se fossem videoclipes com imagens de animes do gênero. Cliquei no primeiro lá da lista. Era só cena de beijo… Mas eu achava estranho. Mesmo depois de ler tudo aquilo, eu ainda achava estranho. Em algumas cenas dava pra perceber quem representaria a mulher: realmente, um bonequinho mais baixinho, pequeno, os olhos eram maiores, em muitos casos, que os do parceiro… Se colocasse um cabelo comprido, virava mulher!

Que tal procurar com “Gravitation”? Foi o que eu fiz! Também apareceram vários clipes no mesmo estilo, os AMV (anime music video, procurei na internet). Lógico que não dava pra eu entender a trama, mas podia ver como soava um desenho daqueles.

Muito sentido

O engraçado de tudo isso é que todas essas descobertas sociológicas não fazem o menor sentido para explicar o sucesso do Yaoi no Ocidente e no Brasil, já que possuímos modelos sociais totalmente diferentes daqueles do Oriente. Assim, nossas mulheres não deveriam sentir-se representadas por esses mangás. De fato, a maioria não se sente. Embora haja algumas jovens ligadas as modinhas japonesas que acompanham os quadrinhos e animes yaoi, o público majoritário do gênero em terras ocidentais são os jovens do sexo masculino homossexuais. Aí sim, talvez o yaoi apareça como mais um instrumento da busca da excitação, do prazer, do sexo…

Mas nessas alturas, o Yaoi já tinha me provado que não era mais “uma putaria mais barata que cine pornô do centro”. Ao contrário, me surpreendeu como uma forma de usar relações homossexuais, muitas vezes com as mais diversas práticas sexuais, para questionar o papel da mulher e para protestar contra a condição da mesma na sociedade.

Seis horas. Peguei minhas coisas. Já ia deixando a revistinha da Mônica em cima da mesa. Me arrependi de não ter optado pelo Gravitation. Com certeza, me traria mais reflexões do que a Mônica correndo atrás do Cebolinha (se bem que isso é um ensaio de inversões de papéis também…). Fiz o caminho de volta no Vale do Anhangabaú. Naquele momento, os cinemas com cheiro de transa barata já não me incomodavam tanto.

Cheguei em casa e querendo acabar com minha curiosidade, fui procurar mais coisas yaoi! Talvez um bom lugar fosse no Orkut. E era um bom lugar mesmo! Havia muitas comunidades relacionadas ao assunto. E não eram pequenas como eu achava que seriam. A primeira da lista tinha 10.000 associados! Entrei em uma formada por meninas que gostavam de yaoi. A primeira coisa que vi foram as enquetes. “Qual o casal yaoi mais kawaii?” (literalmente, “fofo”).

Vendo a lista, me deparo com uma quantidade razoável de casais… Até que um me faz ficar boquiaberta! Hyoga e Shun? Hyoga e Shun?? “Cavaleiros do Zodíaco”! Yaoi do Cavaleiros? E ainda outros vindos de Harry Potter! Eu estava embasbacada! Quer dizer então que o yaoi podia ser transferido pra qualquer situação em que a mulher não se visse bem representada? Como por exemplo, transformar Hyoga e Shun num casal… Um é rosa, o outro é azul (a saber, o Shun é o rosa)… Dei uma olhada em outras enquetes.

“Você gostaria de ser um homem?”. A maioria das meninas respondeu… SIM! Mas apenas para poder viver um yaoi. Então, cada vez mais eu começava a crer que a teoria era real. As mulheres realmente se espelhavam naquelas relações!

Eu estava com o Gravitation na cabeça. Digitei então no mecanismo de busca do Orkut. Várias comunidades! Não traziam tanta informação assim… Na verdade, eu nem bem sabia o nome dos personagens! Entrar em uma comunidade em que as pessoas conversam sobre quando tal cara fez tal coisa não deveria ter sido o primeiro passo. Wikipedia! Havia um verbete extenso sobre Gravitation. Os personagens, “biografias”, a autora…

Além da série original (que chegou até a passar na TV japonesa), havia outras historinhas oficiais lançadas e, me pareceram, no meio online. Eu não sabia bem da história original, mas os apêndices eram muitos elogiados ali e tinham temáticas… curiosas. Consegui acessar a algumas imagens que traziam cenas de sexo explícito apenas! E pelas descrições que tinha lido, não tinha história mesmo. Era só sexo. O que parece que a autora fez foi distorcer, exagerar tanto no tipo de sexo praticado, que chegava a ser ridículo! Ela estava tirando sarro de tudo aquilo! Aquele tipo de representação muito recorrente no… hentai! Pornografia heterossexual, de homem pra homem. Chega a ser repulsivo o modo com a mulher é tratada nesse gênero…

Com essa dúvida, acabei chegando a outro ponto… Existia um gênero de mangá feito de homens gays para homens gays. O bara. Não foi algo por que me interessasse muito. Ali parecia que a sacanagem era o que imperava! Os homens pareciam homens, e não garotos delicados, andróginos. Vi o suficiente para não querer saber muito do assunto…

Então, o yaoi não se concebia como algo somente para deleite da leitora (ou do leitor), mas pra demonstrar mesmo uma situação que nem sempre parece tão clara ou que se perde um pouco em meio a algumas conquistas realizadas pelo sexo feminino.

A partir daquele momento, acho que passaria a olhar o sexo e seus produtos com outra percepção. Poderia achar um novo significado pra tudo. Um mundo novo com clímax, novos sentidos e muitas resoluções.

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