1º semestre de 2010

Fobia: um inferno particular

Por Naiara Bertão

Olhos fixos, tensão, suor, ofegação, arrepios, desespero, tensão, contorções, gritos, choro, vômito, desmaio e medo. Numa sala escura, um homem está  deitado amarrado pelos pés e as mãos a uma espécie de maca. Seu corpo repousa nu e tenso à espera do desafio. Sua mente se concentra apenas no que virá e em mais nada. Não importa que há pessoas em sua proximidade porque elas não podem ajudar.

Quando o momento chega, o corpo começa a dançar. Mexendo-se de um lado ao outro, os músculos contraem e tentam rasgar as amarras que o prendem. Óbvio, em vão. A tensão aumenta quando finalmente o perigo está bem ali, embaixo da fina camada que separa sua nudez de seus repugnantes inimigos.

Aos poucos, eles vão se aproximando e tateando sem saber exatamente o que tocam. É nesse momento que os gritos começam, a ofegação se intensifica e o medo entorpece todos os seus membros. Sua mente não responde mais racionalmente. Seu instinto animal já venceu e luta, usando toda a sua energia, para sobreviver.

As ataduras não o deixam correr para longe dos hostis. Sem meios para fugir e sem força racional suficiente para suportar seu temor, ele é derrotado: clama por redenção e tem seus oponentes tirados de seu campo de visão. A batalha acabou. Sua respiração e coração começam a se normalizar, enquanto seu corpo sente ainda os efeitos da adrenalina circulando nas veias.

Vista por milhares de pessoas em maio deste ano, a cena acima descrita mostra a reação de um fóbico diante de seu medo de ratos. A agonia e o desespero do homem amarrado fazem parte de uma experiência cinematográfica de Kiko Goifman, intitulada FilmeFobia.

Seja através do homem nu contorcendo-se diante de roedores, seja através da mulher gritando diante da cobra, seja através do desmaio do próprio diretor diante de sangue, ou até mesmo do homem que não reage diante de seu medo de palhaços, o Filmefobia surgiu para levar as pessoas à reflexão sobre seus próprios medos.

“A ideia do Filmefobia partiu de um interesse particular meu pelo tema medo”, conta Kiko. “Medo é um tema tabu porque as pessoas não gostam de falar de seus próprios medos, fobias, por passarem a sensação de fraqueza”, fala.

Aliado a Hilton Lacerda no roteiro e Jean-Claude Bernardet no papel de protagonista, Kiko constrói a discussão do inferno do medo com cenas de fóbicos enfrentando, voluntariamente, sua fobia. O filme gira em torno de um making of de um documentário sobre fobia, que se propõe a confirmar a tese de que “a única imagem verdadeira é a de um fóbico diante de sua fobia”.

No jogo cinematográfico, Jean-Claude atua interpreta o diretor do documentário fictício inserido dentro do Filmefobia, que busca incessantemente a imagem autêntica. Na vida real, Jean-Claude conta que também possui repulsas. “Tenho uma profunda rejeição à minha imagem e voz. Acho minha voz insuportável e fecho os olhos quando me vejo em entrevistas ou filmes. Não tenho nenhuma fotografia, nem de infância”, fala.

Não só Jean-Claude, mas o próprio diretor, Kiko, rende-se ao tema, mostrando sua aversão à sangue em duas cenas do filme. Com o líquido girando em sua volta através de tubos desenhados pela artista plástica Cris Bierrenbach e também ao jogar um baralho de imagens de feridas, Kiko reage e desmaia.

“Minha fobia de sangue se manifestou na infância, quando um médico me fez desmaiar quando meu nariz sangrava. Depois disso, tive problemas em uma aula de educação física, sobre primeiros socorros, porque desmaiei na sala de aula. Péssimo. Na infância o pior era desmaiar com pequenos cortes, às vezes na casa de amigos…isso era duro…crianças são cruéis! Depois na adolescência foi ruim também, tive que ser dispensado de aulas de biologia sobre aparelho circulatório “, conta Kiko.

Desconstruindo o real e verdadeiro

Seja através de cenas de fóbicos de sangue, de cobra, ratos, borboletas, agulhas, ralos de banheiro, botões, anões ou da morte, o Filmefobia não se limita à discussão sobre medos, ele também propõe uma nova abordagem sobre o gênero cinematográfico. “Eu acho que se trata de um filme de ficção com atmosfera de documentário”, comentou Kiko em um festival de cinema na Suíça ano passado.

A mescla de gêneros começa com a escolha das personagens, já que o filme possui tanto fóbicos reais, quanto atores fóbicos e atores não fóbicos. Sem saber quem é quem, o espectador não consegue identificar se o que está vendo é real ou fictício, documentário ou ficção. Essa mistura entre os dois campos cognitivos também pode ser relacionada a própria concepção da fobia.

Segundo o psicanalista Ariel Bogochvol, a fobia se diferencia do medo comum por ser uma reação exagerada diante de uma situação irreal, que é ameaçadora apenas na mente do fóbico. Enquanto o medo comum se manifesta apenas diante um perigo real, muito associado à sobrevivência das espécies.

“A fobia nada mais é que a reação ansiosa de medo, temor, diante de um objeto, situação ou condição que lhe amedronta”, explica Ariel Bogochvol, que atualmente é médico assistente do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. Ariel também participou do Filmefobia no papel de um psiquiatra entrevistado por Jean-Claude que tenta desvendar as entranhas psicológicas desses medos.

“Há fobias que são respostas adaptativas ao perigo, que podem ser relacionadas com a evolução da sociedade, uma herança da espécie, como por exemplo, o medo de cobras, catástrofes e feras”, fala. “Mas há também fobias que são muito específicas, singulares, que não são partilhadas com a cultura, como no caso do medo de palhaço, botões de roupa, anões, ralos de banheiro e penetração”, comenta Ariel.

O psiquiatra explica ainda que algumas pessoas conseguem conviver bem com seus temores, a exemplo de uma alguém que tem medo de cobra, mas, por morar em uma grande cidade, dificilmente terá que encarar seu medo.

Apesar de a limitação eventual incomodar menos, quando o medo atinge locais essenciais, como ônibus, carros, metrôs ou trens, a vida do fóbico fica bastante comprometida, tornando-se um verdadeiro inferno, a exemplo dos agorafóbicos.

Confinamento

De origem grega, a palavra agorafobia advém da junção de dois vocábulos: agora (mercado, lugar aberto) + phobos (medo). Ao pé da letra, seu significado é medo de estar em espaços abertos ou no meio de uma multidão. Mas, na realidade, o agorafóbico teme a multidão pelo medo de que não possa sair do meio dela caso se sinta mal, ou mesmo de não receber socorro se algo de ruim acontecer, mas não pelo medo da multidão em si. Este transtorno está ligado a uma ansiedade antecipatória e a uma sensação de desamparo.

“A principal característica da agorafobia é estar associada ao transtorno de pânico. Geralmente, a pessoa relaciona esse transtorno a determinadas situações ou ambientes e passa a evitá-los com medo que resultem em ataques de pânico”, explica o psiquiatra Tito Paes de Barros, supervisor do Amban, o Ambulatório de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP).

Tito fala que muitos agorafóbicos evitam sair de casa sozinhos, estar  em meio a uma multidão, como em shopping centers, restaurantes, filas, cinemas, teatros e elevadores, viajar de automóvel, ônibus ou avião, ou até mesmo passar por uma ponte, passarela, túnel ou avenida larga.

“As situações que desencadeiam o processo são muitas. O agorafóbico teme enfrentar congestionamentos, passar por túneis e pontes, viajar em estradas que não tenham telefones de emergência instalados a uma determinada distância, isso porque julga que sair dali será difícil ou embaraçoso ou, ainda, porque o socorro não estará disponível se ocorrer uma emergência”, conta Tito.

A agorafobia pode impedir o paciente de ir ao trabalho, ao médico ou também de comparecer a eventos especiais como casamentos e festas, o que acaba prejudicando a própria convivência com a família. “Fobia significa um prejuízo na vida da pessoa e dos familiares próximos”, afirma o psiquiatra.

Tito conta que um paciente já falecido ficou 28 anos em sua casa, mais especificamente em seu quarto, sem nunca pisar para fora do apartamento em que morava com a família. Além de ter sua própria qualidade de vida prejudicada, os familiares tiveram que se adaptar a nova situação, com alguém sempre ficando em casa para acompanhar o fóbico e ajudá-lo nas atividades diárias.

Segundo o médico-psiquiatra Rodrigo Marot, que escreve sobre psicologia no portal Psicosite, essa dificuldade só pode ser superada pela companhia de alguém, mesmo que seja uma criança. Contudo, ao mesmo tempo em que a companhia passa segurança e tranqüilidade ao agorafóbico, ela também o deixa mais dependente, inclusive para fazer coisas mais elementares como comprar um pão na padaria.

Este é o caso da carioca Thairine Pereira. Atualmente com quase 19 anos (a serem completados em janeiro), Thairine ficou durante um ano apenas dentro de casa, após ter sido assaltada. “A agorafobia surgiu inesperadamente, foi como se uma coisa ruim iria acontecer… trabalhava no centro da cidade, aqui, no Rio de Janeiro, e fui assaltada, mas tempos antes eu já estava me sentindo insegura comigo mesma, passei a ter medo de ir à rua, medo das pessoas, via coisas e escutava coisa alienadas”, conta.

Thairine explica que ao sair na rua ela sentia uma insegurança tamanha de que as outras pessoas poderiam lhe fazer mal que começou a ter crises de pânico. “Eu sentia medo, falta de ar, minhas pernas tremiam e eu queria sair corrrendo”, fala.  Por causa do medo das crises Thairine largou tudo: trabalho, escola, cursos e sua vida social para se trancar dentro de sua casa, com medo de ir a qualquer lugar. “Minha família ficou totalmente desestruturada devido a minha doença. E os amigos, eu nem queria que eles me vissem, sentia vergonha e me via como uma fracassada na frente deles. Perdi minha vida social”.

Ela conta que em meados de maio, teve uma crise tão forte que ficou quatro dias sem dormir, mesmo tomando calmantes. “Me sentia como um fantasma vagando, com o olhar perdido, a única coisa que eu fazia era fumar, usei o cigarro como alimento e emagreci muito”, fala.

Com a perda da vontade de viver, Thairine até sentiu vontade de se matar, mas na hora não conseguiu, porque percebeu que não queria morrer. “Aos olhos dos outros me sentia uma inútil por não conseguir vencer os próprios medos. Fobia não é frescura, algumas pessoas pensam que isso é palhaçada, preguiça e etc., mas na verdade é um medo muito maior que o normal… o medo patológico é uma doença que precisa sim ser tratada, se eu não tivesse tratando a minha, eu poderia estar com uma doença psicológica bem pior”, comenta.

Há alguns meses Thairine começou a fazer terapia e tomar medicamentos para conseguir se controlar, como Rivotril e Cebrelin. Mas, mesmo assim, ela ainda sente muita dificuldade em sair de casa, mesmo acompanhada. “O máximo que vou é na casa de parentes”, fala.

Para ajudar a expor o que sente, ela criou um blog em outubro deste ano chamado Criatura Fraca!. Em um dos seus posts, em 12 de novembro, ela conta um pouco como é a sensação de sair na rua: “(…) quando eu to em casa é uma coisa que passa na minha cabeça quando eu to na rua é outra, tenho um tremendo pânico do mundo! De gente… Hoje de volta para casa me senti como se fosse aquelas meninas perdidas na vida… muito ruim! Como se eu fosse uma viciada, uma prostituta que fuma e cheira cocaína e não ta nem aí pra vida… é tão ruim ter esses pensamentos… Só eu sei o que passa aqui. Na verdade queria uma casa no campo, bem longe de tudo e todos acho que me recuperaria melhor, minha mãe queria que eu fosse pra São Paulo com ela e nem isso eu quis fazer, me divertir, ver meus amigos… eu não quis, como pode? Mas o melhor de tudo é que eu penso em melhorar e ficar bem e é assim que eu vou ficar e ponto final!”

PâââÂÂÂnico

Embora a agorafobia e transtorno do pânico estejam estreitamente conectados, nem todos os casos de pânico são necessariamente de agorafóbicos. Como explica Marot, do portal Psicosite, cerca de 1/3 ou até metade dos pacientes com pânico apresentam agorafobia. “As crises de pânico são bastante desagradáveis, mas não afetam o ritmo de vida como a agorafobia faz”, fala.

Para o psiquiatra Paulo Freitas, professor da UNISA – Universidade de Santo Amaro e administrador do portal Psicologianet.com.br, a agorafobia e o transtorno de pânico são os mais incapacitantes entre os transtornos de ansiedade.

Ele explica que no caso do pânico, a pessoa fica numa expectativa aterrorizante de que algo vai lhe acontecer e que não terá escapatória. Isso leva a uma ansiedade intensa e acaba resultando no aparecimento de sintomas físicos, tais como taquicardia, sudorese, tonturas, falta de ar, etc., que por sua vez, fortalecem ainda mais seu medo, como o que aconteceu com a jornalista Marina Leão Costa.

“Há uns anos atrás eu estava no parque temático da Disney com minha família. Ficamos um tempão na fila de um brinquedo que simulava uma viagem ao espaço, que inclusive era novidade na época. Sempre ouvia o aviso de que pessoas que tivessem claustrofobia não podiam entrar, mas como tinha tido nenhum problema com isso eu nem liguei. Quando entramos e sentamos, as portas se fecharam. Eu não sei exatamente porque, mas comecei a ficar com falta de ar e me sentir trancada sem ter como sair dali. Era um lugar bem apertado com quatro cadeiras uma ao lado da outra. Eu estava com meu pai e meu irmão”.

“Quando meu desespero aumentou, eu levantei e tentei abrir a porta, mas não consegui. Aí sim que entrei em pânico. Comecei a gritar, espernear, bater com violência na porta, pedir ajuda, mas ninguém abriu a porta. Minha família já não sabia mais o que fazer para me acalmar. Eles me fizeram sentar e tentar respirar. Fiquei fazendo isso por uns minutos até que a sensação ruim começou a passar. Acabei tendo que participar do brinquedo porque eles não abriram a porta, mas não curti nada porque ainda estava apreensiva, apesar de mais calma. Desde então tenho receio até de andar de elevador”, conta Marina.

Segundo Ariel, psiquiatra entrevistado para o Filmefobia, as crises de pânico, como a de Marina, costumam não ter um objeto claro, definido, desencadear da reação. Por isso, algumas pessoas podem acabar desenvolvendo fobias ao associarem a experiência ruim com a situação em que ela emergiu. “Elas elegem um objeto ou lugar como objeto fóbico de sua angústia e acabam evitando-o a partir daí”, diz.

Big Brother

Imagine-se sendo observado 24 horas por dia durante meses. Sua privacidade se reduzindo a zero enquanto desempenha tarefas simples do dia-a-dia como comer, dormir, ir à academia ou ainda tomar banho. O que milhões de pessoas estariam dispostas a lidar para alcançar visibilidade e fama, outras, os fóbicos sociais, já sentem calafrios só de imaginar.

Para o médico Rodrigo Morat, do Psicosite, a fobia social nada mais é que o excesso de ansiedade ou medo que certas pessoas sofrem quando observadas por terceiros durante alguma tarefa comum como falar, comer, dirigir, escrever, por exemplo. Esse incômodo é tamanho que pode impedir ou prejudicar significativamente a realização da tarefa.

“Conheci vários fóbicos sociais que deixaram de se formar na faculdade ou num curso de especialização porque no final seria necessária uma apresentação para a turma e isto seria intolerável. Conheci também pacientes (enfatizo aqui o plural) que recusaram promoções no trabalho apesar de saberem que eram competentes o suficiente para a função, mesmo deixando de ganhar mais e bloqueando sua ascensão na empresa, unicamente pelo medo de terem que falar em reuniões de trabalho”, conta Rodrigo Marot do Psicosite.

Por começar de forma muito discreta, dificilmente os fóbicos apontam uma data ou evento a partir do qual os sintomas começaram, ao contrário do transtorno do pânico. Rodrigo alerta que na maioria das vezes a fobia social começa no início da idade adulta, quando a personalidade e os traços de comportamento estão em fase final de consolidação. “Se não for tratada levará a consequências para o resto da vida, porque neste período são tomadas as decisões que direcionarão a vida de cada um”.

Ele fala que normalmente os sintomas se relacionam com o foco da fobia. Por exemplo, se o fóbico tem medo de falar com o chefe ou perante uma platéia, ele pode simplesmente ficar mudo. Se seu temor é de escrever, suas mãos podem ficar trêmulas a ponto de impedir que escreva.

Além dos específicos, Rodrigo conta que há sintomas mais gerais, como palidez, taquicardia, suor excessivo, falta de ar, mãos e pés frios, tonturas, tremedeiras, alterações de consciência, enjoos e desmaios. “Não é raro o paciente ter uma crise de pânico se insistir em enfrentar o problema por suas próprias forças, ou numa situação em que é pego de surpresa”, fala.

Fera contra fera

Além da agorafobia e da fobia social, há também as fobias consideradas mais comuns, como as de animais (zoofobias), agulhas e injeção, ambientes naturais e sangue. De acordo com o doutor Tito Paes de Barros do IPq da USP, as fobias de animais são as mais comuns, atingindo 11% da população.

Recentemente, o site científico norte-americano Live Science publicou uma pesquisa que aponta os dez principais medos dos norte-americanos. No ranking, o primeiro, segundo e nono lugar são zoofobias. (Veja a tabela)

O medo que mais arrepia os norte-americanos é o de cobras, ou ofidiofobia. Esta fobia é muitas vezes atribuída a causas evolutivas, experiências pessoais, ou influências culturais. De acordo com a matéria, o medo extremo de cobras pode evolutivamente ter deixado marcas nas pessoas, como sugerem alguns estudos. Eles falam que no passado, reconhecer uma serpente teria sido uma vantagem para a sobrevivência na selva.

Atrás do medo de cobras, ocupando o segundo lugar, está o medo de aranhas, bicho que atormenta Priscila Gonçalves Queiroz, estagiário de TI de 19 anos. Ela conta que desde criança sempre teve medo de insetos, em especial os aracnídeos, mas que viu seu pavor aumentar quando uma aranha caiu do pé de goiaba direto na sua mão.

“Foi uma sensação horrível, comecei a gritar, foi um escândalo. Minha tia que estava por perto pensou que eu tivesse me machucado”, fala. Na época, Priscila estava com quatro anos e desde então quando vê uma aranha começa a ficar nervosa, tremer, suar, sentir calafrios.

Calafrios estes que sentem também os cinofóbicos, ou medrosos de cães. Ocupando o nono lugar no Top 10 das fobias norte-americanas, o medo dos caninos acomete Julio, há mais de 20 anos. “Eu tenho uma imensa dificuldade de passar perto de um cachorro na rua se eu estiver sozinho. Acompanhado dá certa segurança, mas ainda assim existe uma tensão. Se eu vejo que tem um cachorro no meu caminho, normalmente eu troco de lado da calçada”, conta o revisor de São Paulo.

Julio fala que quando se confronta com um cachorro, não importando o tamanho, ele sente um medo excepcional de que o cão possa atacá-lo. “Mas quando o cachorro já foi embora e o ‘perigo’ passou, eu fico relembrando o que passei e imaginando desfechos terríveis que poderiam ter acontecido. E isso gera raiva e ansiedade”, fala.

Apesar de sua fobia ter se manifestado há mais de duas décadas, Julio só foi procurar ajuda há cinco anos, quando outros transtornos psicológicos começaram a aparecer, como TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Segundo conta, a terapia e a medicação o têm ajudado a amenizar os sintomas da cinofobia.

“Tenho conseguido ficar em casa fazendo minhas coisas com o cachorro da vizinha latindo por vários minutos seguidos sem me desesperar. Também consegui passar do lado de um cachorro que apareceu de repente sem sentir aperto no peito ou falta de ar e, depois também não fiquei imaginando coisas ruins. Eu sinto que está melhorando”, conta.

A despeito do ranking gringo, outro bicho que tira o fôlego (literalmente) de muitas pessoas são os roedores. Cecília Barroso foi uma das inúmeras pessoas que deixaram a sala de cinema quando viram seus objetos fóbicos performando no Filmefobia. “Quando os ratos começaram a aparecer foi me dando uma agonia insuportável. Eu saí da sala passando mal”, fala.

Cecília conta que sempre manifestou repulsa à ratos, mas seu quadro se agravou quando viu um roedor próximo ao berço de sua filha há alguns anos. “Eu precisava fazer alguma coisa, tirá-la de lá e precisei chegar perto. O pior é que ele não fugiu com medo de mim. Peguei minha filha e fui pra sala. Quando meu marido chegou, eu estava muda e não queria largar minha filha por nada. Apavorante”, relata.

No universo fóbico

Medo de altura, água, agulhas, anãos, aranhas, avião, baratas, bactérias, banhos, cobras, cordas, cometas, cristãos, demônios, doenças, dor, elevador, escuro, fezes, gatos, homens, injeções, insetos, lagartos, madrasta, mar, morte, música, noite, nudez, pelos, pombos, ratos, sangue, santos, ser vigiado, sexo, simetria, trovões …

Ao todo são quase 300 tipos de fobias, cada uma com suas particularidades, mas todas com uma característica em comum: o medo excessivo, que pode ser de um objeto, circunstância ou situação específica. Esta aversão exagerada é o que diferencia um medo “normal” – associado inclusive à evolução e à sobrevivência das espécies – de uma fobia, considerada doença.

Paulo Freitas, psiquiatra, fala que toda fobia provoca um desgaste emocional, físico e comportamental, por limitar algum aspecto da vida da pessoa, causar-lhe restrições ou até mesmo sérios transtornos mentais e físicos. “Ela vai desenvolver mecanismos de evitação da situação fóbica e com isso permanecer constantemente ‘armada’ e tensa, fortalecendo um círculo vicioso de medo”. Uma verdadeira prisão particular.

Não importa quando surge nem de onde vem, nem se é considerado grave ou moderado, não importa se a repulsa será seguida por tontura, gritos ou desmaios, a única coisa que importa para o fóbico é livrar-se de seu pesadelo, um pesadelo que não passa de adrenalina mental.

Sem saber diferenciar o que é de fato ameaçador do que não é, a única percepção que um fóbico sente diante de seu medo é a vontade de fugir ou matar, reações intimidamente ligadas aos instintos naturais de sobrevivência.

Em uma sociedade em que extremos são condenados e fugir dos problemas é sinônimo de fraqueza, como conseguem os fóbicos viver? Ao julgar um fóbico e reprimi-lo, isolando-o ou taxando-o títulos, não estaria a própria sociedade se tornando um fóbico de fobias? Afinal, existe alguém que não tenha seus próprios inferninhos particulares?

Lista de fobias

A

  • Acluofobia – medo ou horror exagerado à escuridão.
  • Aerofobia – medo de ventos, engolir ar ou aspirar substâncias tóxicas.
  • Afobia – medo da falta de fobias
  • Agliofobia – medo de sentir dor. Sinônimo de algofobia
  • Agorafobia – medo de lugares abertos, de estar na multidão, lugares públicos ou deixar lugar seguro.
  • Agirofobia – medo de ruas ou cruzamento de ruas.
  • Aicmofobia – medo de agulhas de injeção ou objetos pontudos.
  • Ailurofobia – medo de gatos. Idem galeofobia ou gatofobia
  • Automatonofobia – medo de bonecos de ventríloquo, criaturas animatrônicas, estátuas de cera (qualquer coisa que represente falsamente um ser sensível)

B

C

D

E

F

G

H

I

J

  • Japanofobia – aversão e medo mórbido irracional, desproporcional e persistente de japoneses e de sua cultura.

L

M

N

O

P

Q

R

S

T

U

  • Uranusfobia – medo do planeta Urano
  • Uranofobia – medo do céu
  • Urifobia – aversão e medo mórbido irracional, desproporcional persistente e repugnante a fenômenos paranormais
  • Urofobia – medo de urina ou do ato de urinar
  • Uiofobia – medo dos próprios filhos; medo da prole.

V

X

  • Xantofobia – medo da cor amarela / medo de objetos de cor amarela
  • Xenofobia – medo de estrangeiros ou estranhos
  • Xerofobia – medo de secura, aridez
  • Xilofobia – medo de objetos de madeira ou de floresta

Z

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