1º semestre de 2010

A Dança do Pentagrama Invertido

Estupre um cabrito, é muito engraçado
Depois ateie fogo num cadáver desmembrado
Vou te bater com um prato de alface
Cagar na sua boca e esporrar na sua face
Pegue uma velha, deixe ela pelada
Ponha fogo no cabelo e apague na paulada
Funkeiro sangue bom é funkeiro sangue-frio
Estrupa mãe, estrupa pai e também estrupa filho

(UDR –  “Bonde da Mutilação”)

Por Thais Carrança

As paredes pretas grudam quando se encosta nelas, a cerveja é Crystal, quente, servida em copos plásticos de 300 ml à proporção de quatro partes de espuma pra uma de líquido, que se pega após longa fila e bebe-se no tempo de enfrentar a fila de novo, num motocontínuo de alcoolismo pé-de-chinelo (ou você realmente acreditou que por R$ 15 para mulher e R$ 18 pra homem, numa festa chamada FUCK MACHINE, você ia ter um Open Bar digno?).

Estamos esperando o show da U.D.R, no andar subterrâneo de um puteiro desativado, próximo à Praça Roosevelt, perto daquele outro puteiro com uma decoração externa medieval excelente – o toque de mestre é o caldeirão de óleo fervente paralisado no ar no momento em que é entornado. Festa no puteiro, grande coisa, hoje em dia qualquer batizado de criança no baixo Augusta é em puteiro, nada demais.

No andar térreo, tem um bar pago às moscas, espelhos nas paredes, postes de dança nas bancadas, bandas horrendas de New Metal tocando e um público majoritariamente masculino e feio pra caralho, composto de metaleiros, um ou outro gótico e carecas. Sempre tem careca nazi em show da U.D.R. Na vinda anterior deles a São Paulo, quando tocaram no Inferno, cantaram uma música do disco novo, Bolinando Straños, chamada “Todos os nossos fãs são gays” (numa óbvia citação de Anal Cunt): “Você tem todos nossos discos/ Você é gay/ Você tem todas as camisas/ Você é gay/ Você é gay, você é gay/ Todos os fãs da UDR são gays/ (…)/ Não entende a piada/ E ainda dá risada/ Pois é, meu camarada/ Você é gay”. A platéia esvaziou na hora.

O público tinha ido lá pra saudar o satanismo (“Corta os pulsos, desenha o pentagrama/ Acende as velas pretas porque Satanás te ama/ Pode ser Satã, Belzebu ou Ferrabrás/ O que importa é o demônio, seu nome tanto faz”), ofender Jesus (“Jesus era alegre, um cara cheio de luz/
O sonho dessa bicha era poder sentar na cruz”), Maria (“Mãe de Jesus, eu tirei o seu cabaço/
Com um martelo de pedreiro preso num cabo de aço”), zoar deficientes (“Cintura pra baixo, tudo paralisado/ UDR 666, esse é o bonde do aleijado/ Quando vejo um aleijado, não consigo sentir dó/ Roubo logo sua carteira pra poder comprar meu pó”), cantar sobre parafilias (“Bonde louco do bukkake, porra dentro do nariz/ Hora do suco de pica é a hora mais feliz/ (…)/ Essa é a dança do bukkake, pegajosa e ofensiva/ Seus girinos do amor vão nadar na minha saliva”) e ter orgasmos múltiplos com o “Bonde da Orgia de Travecos” (“Sem orgia de traveco fico triste e deprimido/ com orgia de traveco viro soropositivo./ Vou fazer um fist fuck entao traz a vaselina/ Também traz um meião pra gente cheirar benzina”). Perceber que estavam rindo de você e não com você estava fora dos planos (“MC Carvão, super gigolô U.D.R., estrategicamente localizado entre um monte de mulheres diz: Você é burro”).

U.D.R. a essa altura do campeonato – show no Inferno: 16 de fevereiro de 2008, show na Ocean: 14 de junho de 2008, fim da banda: 1º de setembro de 2008 (mal aê, contei o fim da história) – era  MC Carvão e Professor Aquaplay, fazendo ROCK AND ROLL ANTI CÓSMICO DA MORTE, ainda que seus detratores insistam em chamar o som de “funk satânico”. MC Carvão, o Porquinho, ou Thiago Machado, é formado em Relações Públicas, geek de computador e tem sempre uma meia dúzia de projetos paralelos em comunicação e música. Professor Aquaplay (ex-MC Abutre), o Screw, ou Rafael Mordente, é peludo, graduado em Jornalismo e tem tatuagens nerds adoráveis de tags HTML. Ambos são de Belo Horizonte.

No princípio, era Screw, que gerou o “Bonde da Depressão”, sob a dupla alcunha de MC Dor e MC Sofrimento. Screw converteu-se em MC Abutre, e MC Abutre e MC Carniça geraram a “Dança do Pentagrama Invertido” e o “Bonde da Mutilação”. Juntou-se a eles MS Barney e do trio fez-se a primeira versão de “Bonde de Jesus”. Tudo isso aconteceu de 2000 a 2002.

“MC Abutre e MC Carniça foram convidados para um show de estréia de um curta-metragem cuja trilha sonora era Dança do Pentagrama Invertido. A partir daí, outra apresentação foi agendada. Dessa vez, tratava-se de um show completo. Neste momento é marcado o ingresso oficial de MC Carvão na jornada. Com ele, surgiu a criação de nosso primeiro hit feito em grupo: Vômito Podraço. Além disso, tivemos aquilo que pode se chamar de “primeiro show”.” Estamos em 2003, quem narra é o Professor Aquaplay na biografia da banda, publicada no blog oficial – texto editado para fins dessa matéria.

“MC Carniça decidiu trilhar sua própria vida, existindo num mundo onde as conspirações descem pelo ralo. Éramos três, novamente. Professor Aquaplay, MC Carvão e MS Barney. Ao trio remanescente, foi dado o nome de U.D.R.”, conta. A primeira demo seria finalizada naquele ano, como o nome de Seringas Compartilhadas Vol.2 – Concertos  Para Fagote Solo, em Si Bemol. Além das músicas já citadas, o disco trouxe as inéditas “Bonde do Amor Incondicional”, “Bonde da Orgia de Travecos”, “O Evangelho Segundo Serguei” e “Bonde do Aleijado”. A turnê O Amor Move Montanhas teve como souvenir uma camiseta que hoje é artigo raro, e que, nas palavras de alguém muito fino da internet, “mostrava de forma sutil a silhueta de um homem defecando na boca de uma mulher”.

Em 2005, MS Barney deixaria a banda (“O MS Barney saiu da nossa banda/ Agora dá a bunda num terreiro de quimbanda”).“Eu e Carvão conseguimos tocar o bonde pra frente e, para minha surpresa, estávamos em uma banda que agora buscava – e conseguia – resultados. Nunca havia me acontecido antes. Saiu WARderley [2006], saiu O Shape do Punk do Cão [2007], saiu Bolinando Straños [2008]”. Apesar do tipo de humor pouco afeito às FMs e aos lares de família, a banda conseguiu visibilidade, através da disseminação viral de suas músicas pela internet. A dupla conquistou um séquito de fãs fiéis, fazendo shows Brasil afora, com platéias cantando em coro de ponta a ponta.

No começo de 2008, para o lançamento do último ep, os garotos U.D.R. “armam uma brincadeira para azucrinar os fãs e a cena musical tupiniquim. Fingem a saída do Carvão e armam um concurso para novos integrantes.” No suposto show de estréia dos novos integrantes, veio a “volta” triunfal, com a estréia de Bolinado Straños. Poucos meses depois, acontece o fim de verdade. Professor Aquaplay, cansado de orgias regadas a cocaína, da fama e das dezenas de travestis enlouquecidos a seus pés, pede penico em texto publicado no blog oficial da banda. “Eu gostava mais da UDR quando era underground”, declara.

Mas voltemos a junho de 2008, ao puteiro desativado, ao subsolo de paredes pretas grudentas, à Crystal quente em copos de plástico. Pergunto aos meus amigos o que eles lembram do show. A resposta é uma mistura de amnésia provocada por aditivos diversos (“Eu tava doidão, não lembro de nada, só lembro da brisa”) e impressões que confundem os três shows que assistiram ao longo de 2008 – eles juram que teve mais um no Inferno, depois do da Ocean, que eu não fui e que foi o último em São Paulo antes do fim da banda, mas não me lembro e não achei nenhuma menção a ele no site da banda ou via Google.

Eles se lembram dos caras parando o show toda hora pra falar bosta. De uns caras gigantes com cara de redneck dançando: “Os caras eras enormes, achei que iam bater em todo mundo, daí eles começaram a dançar como se não houvesse amanhã, que nem minhoca no chão, pulando com a bunda”. Eu me lembro de uma amiga groupiando o MC Carvão (“É isso menininha, não fica no meu pé/ Jesus pode te amar, mas só a UDR te quer/ Fogo do capeta, brasa na calcinha, deformo tua buceta e arrombo tua bundinha”). Do enfado tremendo com que eles introduziam o grande hit “Orgia de Travecos”, que sempre encerrava os shows: “Esse é aquele momento do show que a gente não aguenta mais, mas que vocês adoram” – seguido do delírio da platéia cantando a música inteira duas ou três vezes seguidas. Pergunto para os meus amigos sobre o show propriamente dito, as músicas, os caras. “Sei lá, durou mó tempo, eles tocaram todas as músicas e foi legal pra caralho”.

Estamos num bar em Pinheiros, eu tento inutilmente entrevistá-los enquanto uma televisão ligada draga a atenção de todos. Na novela das 8, uma gostosa que está tetraplégica (Aline Morais, em Viver a Vida) começa o processo de reabilitação, só de camiseta. Todos olham vidrados, torcendo para aparecer a calcinha. “Porra, pessoal, é a calcinha da mina da tv, desencana. E a mina tá tetraplégica ainda por cima, mó sujeira”, eu digo. Alguém responde: “Mó sujeira nada, e daí que ela tá tetraplégica, manda ela fechar as pernas então, ‘Aô, fecha as pernas, ô tetraplégica’”. Pra curtir a U.D.R. tem que andar com pau no cu.

Pega esse cacete mole que eu transformo num bambu
Pra curtir a UDR, tem que andar com pau no cu
Nóis te leva pr’uma gruta e desmaia com Dramin
Pra cobrir você de porra e te chamar de Curumim

Bebe o sêmen do Carvão, do Barney, do Aquaplay
Hidratando sua pele num grande bukkake gay
Vai na boca, vai no olho, festa da ejaculação
Se o gosto não agrada, tu tempera com limão

(UDR – “Dança do Bukkake”)

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