1º semestre de 2010

Canções para odiar o Senhor

Batismo pelo fogo
Sinta a ira das chamas implacáveis de Satã
Desejos incrédulos
Quando deus está  perdido e em seu planeta o fogo do inferno reina

Por Alexandre Soares e Rodrigo Barros

Não bastariam o vocal gutural, as guitarras pesadas e o visual agressivo com pintura no rosto e roupas extravagantes, era necessário uma pitada a mais de maldade. É aí que entram as letras anticristãs do estilo mais macabro do já obscuro heavy metal: o Black Metal. Os quatro primeiros versos de Baptism by Fire, da banda sueca Marduk, são um exemplo clássico disso e de quanto demônio e inferno são figuras freqüentes nesse estilo de metal extremo.

Na verdade, é  bem provável que a oposição às doutrinas cristãs tenha vindo antes mesmo de todo o resto – esta, aliás, é comummente considerado  o único traço comum a todos que tocam Black Metal. As bandas consideradas precursoras do estilo, como Venom, Hellhammer e Celtic Frost datam do começo da década de 1980 e são inspiradas em grupos de Heavy Metal como como Black Sabbath e Iron Maiden. O que os fãs e músicos de Black Metal fizeram foi transformar a oposição às doutrinas cristãs num dos objetos centrais de sua “filosofia”, valendo-se de elementos que vão do paganismo ao satanismo e até à filosofia para expor suas ideias pela música.

A história do estilo é bem controversa, principalmente na década de 1990, quando ele alcançou os países escandinavos com mais força. A denominação do gênero está ligado ao segundo disco da banda inglesa Venom, Black Metal, de 1982, e que está muito mais para o metal tradicional do que para o estilo que o batiza. Ainda na ativa, o leque de bandas influenciadas pelos ingleses chegam a grupos que se tornaram muito mais famosos que os próprios como o Slayer e o Metallica, que chegou a abrir algumas apresentações para o Venom no início da carreira.

A notoriedade desse movimento chegou apenas com sua popularização nos países nórdicos, no começo dos anos 90, quando a imprensa mundial começou a dar maior atenção ao gênero. O Black Metal tem uma relação que, não raramente, é considerada especial com esses países justamente pela singularidade das religiões locais e sua vocação para se opor ao cristianismo. Ai, mistura-se também o orgulho nacionalista e o antagonismo ao cristianismo para formar um estilo peculiar de adoradores do estilo. As páginas ocupadas, porém, não eram as de arte e cultura, mas sim o noticiário internacional ligado à política e violência.

O primeiro caso aconteceu em 1991 quando Per Yngve “Dead” Ohlin, vocalista da banda norueguesa Mayhem, suicidou-se com um tiro de espingarda na cabeça. O guitarrista da banda, Øystein “Euronymous” Aarseth, fotografou o cadáver de Dead e a imagem se tornou a capa do álbum seguinte do Mayhem, “Dawn of the Black Hearts”. Entre as lendas que circundam este caso constam a história de que Euronymous teria comido partes do cérebro de Dead e que ele teria feito colares com fragmentos do crânio de seu companheiro de banda.

Euronymous se envolveria num outro caso de morte, desta vez como vítima. Aarseth foi assassinado a facadas por Varg Vikernes, na época líder de outra banda de Black Metal, o Burzum. Os dois faziam parte de um grupo chamado Black Metal Inner Circle, algo como círculo interno do Black Metal, cujo principal objetivo era lutar contra o cristianismo na Noruega. O principal ato promovido pelos membros do Círculo era o incêndio de igrejas em todo país, algumas com mais de 200 anos. Varg e Euronymous divergiam quanto ao satanismo, o líder do Burzum não aceitava a imagem satânica, o oposto de Aarseth, adorador do demônio.

Quanto a Varg, ele foi condenado a 21 anos de prisão e desde maio de 2009 cumpre liberdade condicional. Junto com sua liberdade, o Burzum deve voltar à ativa. O Black Metal Inner Circle, por sua vez, perdeu força e os atos contra igrejas nos países nórdicos – pelo menos ligados à esse grupo – minguaram.

Com a virada do século, o Black Metal, como qualquer gênero do rock, acabou se subdividindo e criando diversas vertentes conforme ele foi se popularizando. Pode-se dizer até que a única característica inerente ao gênero é o anticristianismo. Desde o início, os temas ultrapassavam o satanismo e o anticristianismo. A morte, a guerra, a misantropia (aversão ao ser humano) e o paganismo são temas muito freqüentes nas letras. No caso escandinavo, a mitologia viking se faz bastante presente. O importante não seria, necessariamente, cultuar o demônio ou o inferno, mas sim fazê-lo caso a banda julgue que esta é a rebelião máxima aos dogmas cristãos.

Junto com a popularização do gênero, veio também o profissionalismo e o sucesso para alguns grupos, principalmente na escandinávia. As novas bandas incluíram no conjunto vocal gutural e cozinha rápida influências da música clássica e, algumas vezes, teclados e um segundo vocal lírico, deixando a música mais limpa. Hoje em dia, bandas como Dimmu Borgir e Cradle of Filth tocam para grandes públicos em turnês mundiais.

A cabeça dos fãs

Mas o que pensa um fã de tudo isso? Ele se comporta como os músicos que admira? Na verdade, ao menos no Brasil, o Black Metal não é levado tão a sério e a admiração vem mais da afinidade com o som.

É o que explica Thiago Silva, estudante de história e fã do gênero desde adolescência. “Ah, antes eu até tinha essa vibe meio rebelde, mas não dou mais bola não. Acho meio escroto esse negócio de ritual e tal, minha galera não é muito disso não. Gosto do ‘dark side’, mas acho ridículo ficar matando ovelha pra oferecer pra satã. Essa porra é meio paranóia. Não dou muita bola pra ideologia da coisa, gosto do som”, diz ele.

Na entrevista, Thiago – filho de católicos que “não aguentam que seu filho escute música de satã” – usava roupas que aparentemente fogem ao radicalismo. Ele não trajava preto, nem camisas com caveiras e elementos sinistros, mas uma camiseta branca e jeans. Ele justifica sua escolha pela pressão social. ” Tem que se sentir bem tá ligado? Lógico que não vou assim [com roupas ligadas à “tribo” do Black Metal] em todos os lugares, mas foda-se, me visto como eu quero. Só tenho que ter noção pra não virar tipo um palhaço. Tudo tem seu lugar”, conta ele, exibindo com orgulho fotos dele com amigos em um show recente em que todos usavam maquiagem e roupas “excêntricas” como seus ídolos. Olhando com um pouco mais de cautela, porém, nota-se que Thiago não abandona alguns dos elementos da cultura do Black Metal quando está, como ele define, com “roupas de gente”. No pescoço, ele carrega um crucifixo invertido, simbolizando seu desgosto pelo cristianismo, e um pé de coelho (verdadeiro), encapado com resina.

O fato de não agir com o radicalismo de alguns dos pioneiros do gênero não lhe tira o desprezo pelo cristianismo. Segundo ele, quanto mais ele se aprofunda no curso de História, mais repulsa adquire pela Igreja, de acordo com ele “a maior assassina de todos os tempos”. Porém, ele repudia atos de violência contra prédios cristãos. “Esse negócio de queimar igreja é zuado. Pra mim, se a pessoa quiser ir a igreja, que se foda. Preferia comer merda, mas beleza. É meio absurdo você queimar um prédio porque não concorda. Se todo mundo fizesse isso a gente tava morando em caverna”, pondera.

A cabeça dos músicos

Para saber o que os músicos pensam, entrevistamos Count Imperium (ou Marcelo), fundador e baterista da banda Ocultan, do ABC paulista. O horário não poderia ser mais adequado: a partir das dez e meia da noite, após se encerrar a rotina de gravação do Ocultan. Formada em meados da década de 90, a banda é considerada hoje uma das mais organizadas do gênero no país e se prepara para lançar mais um CD no início de 2010.

Mesmo assim, o Ocultan não consegue viver só da música. Count Imperium afirma, sem sombra de dúvidas, que nenhuma banda de Black Metal no Brasil – ou qualquer estilo considerado extremo – consegue se dedicar exclusivamente à essa atividade. “Na verdade eu e minha mulher [a guitarrista da banda, Lady of Blood] tem ligação com rock porque a gente tem uma empresa de acessórios, relacionado a rock, heavy metal. Os otros dois são de áreas totalmente diferentes da música. Se a gente quisesse ganhar dinheiro a gente seria uma banda pop, seria muito mais fácil, mas não é a nossa. Fazemos nossa musica, se tiver sendo bem aceito ótimo, se tiver quem não goste foda-se”.

Outro fator que dificulta a ascenção de uma banda no cenário nacional e internacional é, segundo ele, a rejeição das gravadoras e ao fechamento do espaço em poucas bandas e pessoas. “Tem essa parada de mp3 que fode com as vendas e no geral as gravadoras não gostam do Black Metal porque não atingem um minimo de vendas. Não tem como fazer como as bandas gringas que fazem 160 shows por ano.”

Seguidores da Quimbanda, religião trazida para o Brasil pelos escravos africanos, o Ocultan utiliza os elementos históricos e depoimentos desse credo nas suas músicas. “A gente escracha mesmo os dogmas da Igreja, essas porra, a gente não respeita e ao mesmo tempo a gente enaltece o que a gente acredita, como os rituais do Quimbanda. Antigamente, quando não tinhamos tanto conhecimento, a gente falava mais com o coração, hoje em dia a gente procura aliar mais o coração com o conhecimento”. O Ocultan, por sinal, é um exemplo claro de como o satanismo não é uma tendência obrigatória para o Black Metal.

E mesmo quem vive o Black Metal nos palcos, às vezes, não ostenta o radicalismo de alguns fãs. Isso pode causar espanto, já que a impressão que se tem é a oposta. “A gente tem nossa musica e se dedica a isso, mas temos a nossa forma de curtir. A gente sai com nossos amigos, sai pra beber, tem uma vida normal”. Todo o clima sombrio, criado pela pintura dos corpos dos artistas (o corpse painting) e atuações quase teatrais, fica restrito às músicas e aos palcos. “Tudo isso cria um clima morbido, obscuro, que é o que tem a ver com o Black Metal. A banda só ganha com isso”.

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