1º semestre de 2010

Editorial: O inferno é dos outros

Por José  Ismar Petrola

Inferno de jornalista é o leitor. E também as fontes que nós entrevistamos e nem sempre se dispõem a liberar as informações, os editores que insistem em cortar fora as partes importantes dos nossos textos, os prazos curtos para entrega de matérias, enfim, nosso próprio trabalho.

O tema desta edição da Babel é o inferno. Não só aquele que conhecemos das aulas de catecismo, com diabos cozinhando os condenados em caldeirões de água fervente. Inferno pode ser um local como a rua 25 de Março, evitada por muitos e procurada por outros tantos – uma aglomeração infernal de camelôs, lojistas, brasileiros, estrangeiros, assaltantes, suicidas, policiais etc. Ou o lugar onde se faz o que é considerado ilegal e imoral – não é por acaso que os bordéis, na linguagem popular, são chamados de “inferninhos”. Pode mesmo ser uma atividade estressante e perigosa, como a dos bombeiros. Ou ainda um estado mental, como o ciúme doentio ou o vício no jogo. Enfim, inferno é onde se sente muita dor, onde as pessoas estão condenadas a toda sorte de torturas. Mas, por incrível que pareça, há pessoas que sentem prazer com o sofrimento (deles ou de outros).

Ou, para citar uma frase conhecida do filósofo Jean-Paul Sartre, “o inferno são os outros”. Esta frase ao fato de que não aceitamos os outros como eles são. As relações entre as pessoas – entre o trabalhador e o patrão, a prostituta e o cliente, o namorado cafajeste e a namorada ciumenta – tendem a ser infernais. Não aceitamos certas características dos outros – justamente as que não aceitamos em nós mesmos.

Pensando um pouco mais, o que é o inferno senão o lugar para onde vão os maus, cujas atitudes são estranhas ou erradas? Ou o lugar onde acontece tudo o que consideramos bizarro e pecaminoso – orgias sexuais, sessões de tortura, terror psicológico, etc.

Judeus, cristãos, muçulmanos e praticantes de vários outros credos afirmam que, após a morte, muitos de nós irão para este lugar dominado pelo Diabo. O julgamento será feito no fim dos tempos. Há até quem creia que o dia do juízo está próximo – alguns chegam a afirmar que o mundo vai acabar em 21 de dezembro de 2012, de acordo com o calendário maia (segundo a versão do filme de Roland Emmerich que, por enquanto, está arrasando as bilheterias de cinemas). Num mundo em crise, no qual se perdem certezas financeiras e morais, é reconfortante imaginar que está próximo o dia em que os maus (sempre os outros) serão castigados com o inferno.

Enfim, “o inferno são os outros”

Esta frase foi cunhada pelo filósofo e dramaturgo francês Jean-Paul Sartre, fundador do existencialismo, na peça teatral Entre quatro paredes (no original, Huis clos), escrita em 1945. A peça se passa no inferno e as três personagens são mortos que já foram condenados. O cenário é um quarto onde uma pessoa está trancada com outras duas, sem poder desviar o olhar. Como todos estão mortos, ninguém pisca nem dorme. A sala tem apenas três sofás, posicionados de forma tal que quem senta em um precisa encarar quem está no outro. Não há como escapar ao olhar de ninguém. Um por um, entram os condenados ao tormento eterno: primeiro Garcin, jornalista e cafajeste que morreu fuzilado como desertor na guerra; depois Inês, a lésbica que levou sua amante ao suicídio, e por fim Estelle, que matou o próprio filho ilegítimo para manter as aparências sociais. Os sofás coloridos e a decoração da sala – estilo Segundo Império – não agradam às mulheres. Já Garcin não suporta ter de olhar para a estátua de bronze de um herói, que o faz lembrar de sua própria covardia. Mas o mais insuportável é ter de agüentar o olhar e a voz dos outros. Por que você está aqui no inferno? – pergunta cada um aos outros dois. As vozes dos que ainda estão vivos podem ser ouvidas na sala – na redação onde Garcin trabalhou, já existe até a expressão “covarde como Garcin”. Uma faca de cortar papel (por algum motivo colocada na sala) só serve para lembrar os habitantes do recinto de que eles já estão mortos e não adianta cortar os próprios pulsos. A porta está trancada e os três desgraçados estão condenados a passar a eternidade juntos. Não há nenhuma possibilidade de fuga. Como se vê, não é necessário um carrasco para que a tortura comece. A partir do momento em que as pessoas começam a implicar umas com as outras e não admitir as próprias fraquezas, o inferno está armado.

É no final da peça que Garcin, exausto após horas de jogo de gato e rato a três com Inês e Estelle, desabafa:

“Digo a vocês que estava tudo previsto. Eles previram que eu havia de parar diante desta lareira, tocando com minhas mãos esse bronze, com todos esses olhares sobre mim. Todos esses olhares que me comem. (Volta-se bruscamente) Ah! Vocês são só duas? Pensei que eram muito mais numerosas. (Ri). Então, isto é que é o inferno? Nunca imaginei… Não se lembram? O enxofre, a fogueira, a grelha… Que brincadeira! Nada de grelha. O inferno… são os Outros”

A frase “O inferno são os outros” ficou mais conhecida do que o próprio texto de Sartre, pela polêmica que traz. Não é fácil admitir, francamente, que o outro pode ser um carrasco. O cristianismo deixa explícito o mandamento bíblico: “Amai-vos uns aos outros” (João 13, 34). Esta máxima – amar ao próximo como a si mesmo – é comum a muitas religiões. Vários filósofos, como Rousseau, apontam para a importância da solidariedade na construção de uma sociedade harmônica. No marxismo, a solidariedade de classe é essencial para que os homens exerçam seu papel na História – sem a união do proletariado não será possível derrotar a burguesia.

O professor Franklin Leopoldo e Silva, da Universidade de São Paulo, parte da seguinte explicação para a frase de Sartre: em toda a filosofia moderna, há uma dificuldade de entender a existência do outro como sujeito. Em termos mais cotidianos: para nós é quase impossível enxergar outras pessoas como pessoas, dotadas de consciências e vontades próprias, e não meros objetos. Para Sartre, essa dificuldade gera uma tensão extrema – digamos, infernal – entre as pessoas, pois elas não conseguem tratar o outro como igual. Por isto, o inferno sartreano é uma sala onde três pessoas, condenadas a estarem frente ao outro, fazem cada um dos outros presentes se sentirem mal. “Este é o inferno: o outro te olha como coisa”, resume Franklin.

Esta situação de ser visto como “coisa” se torna um inferno constante – e, ao contrário daquele que vemos em gravuras assustadoras, é um inferno que vivemos todos os dias. Um relacionamento autêntico entre as pessoas é impossível. É difícil olhar para alguém e não dizer que é um “outro”, uma “coisa”.

Assim, cada um de nós se torna um carrasco para o outro – como na peça, em que se encontram três condenados ao inferno: Inês, a lésbica, assediando Estelle e apontando o dedo para Garcin, como um espelho que lhe diz: “seu covarde”. Garcin, que se finge de herói para esconder que foi ao inferno por covardia (desertou da guerra e traía a esposa sem o menor escrúpulo), por sua vez, tenta jogar na cara das duas mulheres todas as maldades que elas próprias tinham feito e não admitiam.

“Inês: Vão ver como é tolo. Tolo como tudo. Não existe tortura física, não é mesmo? E no entanto estamos no inferno. E ninguém mais chegará. Ninguém. Temos que ficar juntos, sozinhos, até o fim. Não é isso? Quer dizer que há alguém que faz falta aqui: o carrasco.

Garcin (a meia voz): Bem sei.

Inês: Pois é. Fizeram uma economia de pessoal. Só isso. São os próprios fregueses que se servem, como nos restaurantes cooperativos.

Estelle: Que quer dizer?

Inês: Cada um de nós é o carrasco para os outros dois.”

Mas, adverte o professor Leopoldo e Silva, a filosofia de Sartre não é individualista. O outro não é um inferno porque merece ser eliminado, mas porque somente ele pode ter acesso à nossa verdadeira consciência. Ele vê o que nós não vemos em nós mesmos. São os outros que apontam a responsabilidade que temos sobre nossos atos. Como alguns devem se lembrar, o existencialismo de Sartre também diz que estamos “condenados à liberdade” e que o homem se define não pelo que é, mas pelas escolhas que faz ao longo da vida. Acontece que a nossa liberdade é limitada pela relação com o outro. Na sociedade, todo mundo está em relação e depende do outro. E aqui mora o inferno: as pessoas não são naturalmente solidárias com as outras. É preciso ultrapassar a barreira do egocentrismo individual para construir uma sociedade.

Quando nós desejamos o inferno

A idéia de que o outro pode se transformar num inferno não foi criada por Sartre. Antes dele, a psicanálise já mostrava por quais linhas tortas nós criamos um “Diabo” que serve de bode expiatório para problemas que poderíamos enxergar melhor num espelho.

O psicanalista Christian Lenz Dunker, do Instituto de Psicologia da USP, explica que a afirmação de Sartre “não se refere ao caráter maligno ou diabólico do outro em si, mas ao fato de que os outros são demasiadamente importantes para nós”. Ele define o inferno sartreano como a situação em que alguém “depende demasiadamente do outro e por isso pode ser considerado ausente de sua própria vida, como um morto-vivo, reproduzindo costumes, preocupações e formas de vida inautênticas que nos impedem de amar”.

Dunker também chama a atenção para o fato de que só conseguimos perceber o outro como objeto. “Quando elegemos o outro como carrasco, nos fazemos de objeto e de instrumento para a tortura que este praticará contra nós. Nos dois casos vigora uma oposição do tipo atividade (conhecedor, torturador) e passividade (conhecido, torturado).” Segundo ele, esse problema se torna ainda maior porque só conseguimos perceber nossas próprias fraquezas através do outro. É a situação retratada no inferno de Sartre, onde não há espelhos e somente através da opinião dos outros podemos saber de nossa aparência – coitada de Estelle, que para corrigir sua maquiagem precisa se submeter ao olhar devorador de Inês, o “espelho das cotovias”… Nesta relação, a fraqueza do outro se transforma na minha força: o masoquismo de um se transforma no sadismo de outro.

Na peça Entre quatro paredes, cada um dos condenados utiliza os podres dos outros para agredi-los. A personagem que diz “o inferno são os outros” é justamente uma das que tem maior dificuldade de admitir sua própria responsabilidade pelos atos – Garcin, o desertor, que se agarra a Estelle como um náufrago a uma tábua, implorando que ela o considere um homem corajoso.

Mas o outro não é apenas indesejável. Como resume o psicanalista: “eu faço do outro livremente o carrasco de minha tortura”. Em certa passagem da peça, sem nenhum motivo aparente, a porta do inferno se abre. E os três condenados, mesmo com a possibilidade de fugir, decidem ficar na sala. Então, quer dizer que o outro é um carrasco – mas é o carrasco que eu quero para mim?

“Esta inversão é de fato a versão psicanalítica do inferno” – afirma Dunker – “os outros são infernais porque eles nos devolvem uma imagem, na qual eu posso ou não me reconhecer, à qual eu posso de fato depender”.

A origem do Diabo

Segundo Christian Dunker, “nossas figuras diabólicas são, via de regra, uma inversão de tudo o que gostaríamos de fazer e por medo, covardia, ou assimilação simbólica nos recusamos a fazer. Em outras palavras: diga-me aquilo que você mais veementemente nega e te direi quem és.”

Ele cita alguns exemplos: a bruxa e a possessa, figuras diabólicas criadas no Renascimento. A bruxa vive na floresta, nos confins da civilização, em comunhão com a natureza, preserva um modo de vida primitivo. Segundo a psicanálise, representa a infância do sujeito – um sujeito que é estranho a si mesmo em seus limites. Já a possessa é urbana, vive nos conventos e cidades, e se caracteriza por falar demais. É a pessoa que sonha acordada, revela sua intimidade e segredos em praça pública, perde sua individualidade. Nela habitam os demônios e por isso é preciso exorcizá-la – o que pode representar uma espécie de repressão ou recalque do sujeito. Referindo-se à teoria de Freud, o psicanalista afirma que “o conceito de inconsciente é forjado sobre o imaginário infernal. O inconsciente é este Outro, infantil, recalcado e sexual”, representado por imagens como a bruxa e a possessa.

Na teoria freudiana, a psique humana se divide em três instâncias: id, superego e ego. As duas primeiras são inconscientes: o id é responsável pelos processos mais primitivos do pensamento, as pulsões de amor (ligadas ao desejo sexual e de autopreservação) e pulsões de morte (desejo de destruição). É a parte mais instintiva da nossa alma. Já o superego se contrapõe ao id, representando os pensamentos morais e éticos internalizados. Ele é quem controla os impulsos do id e nos faz obedecer às normas que a sociedade nos impõe (sob pena de ir para a cadeia ou para o inferno). É o responsável pelo recalque de certos desejos que consideramos imorais e, por que não, infernais? Espremido entre os dois, permanece o ego, tentando alternar nossas necessidades primitivas e crenças éticas e morais. Esta é a parte de nós responsável pela nossa consciência, pensamentos, idéias, sentimentos e lembranças –  é a parte da mente que  você costuma considerar como sendo você mesmo. O superego vem de fora, das normas da sociedade; o id está no seu inconsciente e pensa barbaridades que você odiaria saber. Pelo menos, é o que Freud explica.

Para a psicanalista e professora da PUC Caterina Koltai, no livro Política e psicanálise: o estrangeiro, o conceito de inconsciente está relacionado com o de estrangeiro, que é representado como algo indesejável que deveria ser eliminado. Aponta ela que as tendências indesejáveis do próprio inconsciente são projetadas sobre o estrangeiro, e que antes de tudo é preciso aprender a reconhecê-las como parte do próprio sujeito – como ocorre na psicanálise. Só assim seria possível acabar com o ódio que desemboca em ações de xenofobia, racismo, fanatismo religioso, brigas de torcida etc.

Segundo ela, o que leva ao ódio é este processo de projetar no outro as características indesejáveis do nosso inconsciente. O outro, no caso, pode ser o estrangeiro, o negro, o judeu, a pessoa com deficiência, o homossexual… Koltai explica que isto é o que constitui a base do totalitarismo: ódio ao outro rejeitado e a si próprio.

E aqui partimos para as idéias do psicanalista Jacques Lacan – que se inspirou, e muito, em Freud e Sartre. O professor Dunker, especialista no pensamento lacaniano, explica as idéias do psicanalista francês: “O outro imaginário funciona como um depositário de minhas próprias projeções, em quem localizo tudo o que não admito em mim mesmo (imagem negada); em quem idealizo como concluídas minhas próprias limitações (imagem virtual)”. O outro que vemos como diabo não é o outro real, mas a imagem que nós temos do outro.

Caterina Koltai lembra em seu livro que o estrangeiro – um “outro” por excelência – é freqüentemente vítima desta idealização. Numa sociedade onde há limitações ao gozo, o outro é visto como alguém que pode gozar de outra forma, ou seja, desfrutar de um prazer que é proibido a nós. Daí vêm os efeitos de paixão, fascinação, agressividade, oposição e ódio em relação ao outro. A estudiosa comenta que esta relação pode ser tanto uma motivação para o turista que viaja a países “exóticos”, em busca de prazeres a que não tem acesso em sua própria terra (o contato com a natureza, os costumes estrangeiros, o sexo com prostitutas…) como para o xenófobo, que vê no estrangeiro uma ameaça para seu país, pois seria ganancioso, indolente e dotado de uma sexualidade sem limites, entre outras características diabólicas.

Outro detalhe muito importante: nós precisamos saber quem é o Diabo, não sossegaremos enquanto não tivermos uma definição. Segundo o psicólogo francês Jacques Hassoun num artigo publicado na coletânea O estrangeiro (também organizada por Caterina Koltai), nada irrita mais o racista do que o negro tão miscigenado que não se diferencia mais do branco, ou o árabe integrado à cultura europeia que assume um cargo público. Se o Diabo não existir, precisamos inventar um.

O psicanalista Christian Dunker comenta que, infelizmente, parece mais fácil entender o funcionamento deste processo de demonização do que tratá-lo. Ele explica, passo a passo, como se constrói um diabo:

A partir da identificação com um grupo, define-se também um contra-grupo, no qual se depositam todos os nossos medos e insuficiências. São os nossos inimigos: os torcedores do time rival, os estrangeiros, as pessoas que consideramos ser de outra “raça”, etc.

A partir do ódio que temos ao outro, construímos nossa identificação com um líder, figura privilegiada ou idéia. Por isto, exercer o ódio ao outro de forma coletiva (como numa torcida organizada, por exemplo) é uma forma de satisfação inconsciente.

Nas palavras de Dunker: “uma vez criado o ‘demônio’ ele começa a atrair para si um conjunto de figuras auxiliares, de paisagens, de complementos que formam gradualmente o inferno como depósito de tudo o que não conseguimos admitir ou tolerar em nós mesmos”. Na verdade, “o demônio serve para a sustentação de uma identidade defensiva, e tal identidade depende de um desconhecimento progressivo e continuado do próprio desejo.” O que significa que o inferno é formado pelos nosso próprios desejos que não aceitamos.

Outra característica do diabo, segundo o psicanalista, é que existe um “curioso vínculo erótico” entre ele e seu exorcista: “há uma espécie de curiosidade, um desejo libidinal oculto nas relações entre nazistas e judeus, misóginos e mulheres, homossexuais e homofóbicos, estrangeiros e nativos, etc.”

O diabo é excitante

O diabo é construído a partir dos nossos desejos inconscientes e proibidos – relação que foi investigada pela primeira vez pelo psicanalista austríaco Sigmund Freud. Num ensaio escrito em 1919, “Inquietante”, ele examina os significados do adjetivo alemão unheimlich, que se refere a coisas inquietantes, assustadoras, tenebrosas, medonhas (não há uma tradução exata em português). Unheimlich é o contrário de heimlich, que vem de Heim (lar) e significa familiar, escondido da vista dos outros (ou seja, oculto). Segundo a pesquisa de Freud, os termos equivalentes em árabe e hebraico são sinônimos de “demoníaco” – o que não é difícil de entender. O diabo não é mesmo entendido em assuntos ocultos, misteriosos, cujo nome não pode nem mesmo ser citado?

A partir daí, Freud analisa situações que são consideradas inquietantes, como a loucura, o transe epiléptico e os acontecimentos das narrativas de horror. Freud interpreta alguns contos de horror do escritor E. T. A. Hoffmann (autor de “O homem de areia”) para ilustrar que o sentimento de unheimlich se relaciona com emoções primitivas:num dos contos, a personagem teme perder os olhos – o que é uma versão do medo da  castração. O medo da morte e outras emoções presentes no próprio processo de desenvolvimento do ego também estão presentes nas histórias de terror. Autômatos, zumbis, coincidências entre pensamentos e acontecimentos, tudo isso nos parece muito estranho, por mexer com estas emoções inconscientes. O inferno talvez seja um dos exemplos mais gritantes de unheimlich. Consideramos como infernal tudo aquilo que rejeitamos, mas está presente no nosso inconsciente.

Outro psicanalista, Wilhelm Reich, inspirado em Freud e Marx, reforça ainda mais o caráter sexual da aversão ao outro. Para Reich, a principal fonte de insatisfação na sociedade capitalista é a interdição ao sexo, e esta foi a fonte que os nazistas encontraram para conseguir largo apoio na sociedade alemã, principalmente na classe média baixa. No livro Psicologia de massas do fascismo, Reich mostra como a propaganda nazista imprimia características diabólicas aos comunistas e judeus, ligadas à sexualidade. Os panfletos diziam que, entre os comunistas, haveria uma anarquia sexual, sendo permitidas aberrações como o estupro e o incesto. O judeu também era visto como lascivo, promíscuo, miscigenado, impuro e outros adjetivos. Os nazistas, ao detestarem esse judeu (que só existia na imaginação deles), estariam na verdade recalcando seu próprio impulso sexual, que desta forma só poderia se concretizar na perseguição, na agressão ao diferente.

Talvez, no fundo, a melhor definição sobre o demônio seja a do jagunço Riobaldo, personagem central do livro “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa. Após uma série de peripécias que incluem um suposto pacto com o Cão, o sertanejo conclui: “O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia”

Nesta edição de Babel, o leitor poderá conferir um verdadeiro passeio dos repórteres pelas profundezas do inferno e as artimanhas do Diabo – aliás, um dos nossos entrevistados de destaque. Nossos carrascos foram pessoas que morrem de medo de ir para o inferno, como os exorcistas que tiram demônios do corpo de seus fiéis, ou os milenaristas que crêem no fim do mundo em 2012. Ou aqueles que já têm certeza absoluta de que vão para lá – excomungados, assassinos e afins. Gente que já está no inferno – financeiro, espiritual, astral, etc. As pessoas que, por alguma ocasião, como a prisão, são submetidas a torturas diabólicas; e ainda as que querem sofrer as dores do Inferno e se sentem excitadas por isso, como os sadomasoquistas. Encontramos até mesmo adoradores do Diabo e pessoas que tentam ser o próprio Coisa-Ruim ou, pelo menos, agir como tal. Também há sacripantas que usam uma suposta possessão pelo Canhoto como álibi para não assumir a culpa por um crime. No Brasil, sobra para Exu, entidade do candomblé relacionada com a ligação entre o físico e o sobrenatural – e que não tem nada a ver com o Diabo. Na outra ponta, a busca do homem pela salvação, através do exorcismo e outros caminhos – inclusive a tecnologia, desde os barcos e as ferramentas ópticas até as formas de energia sustentável que, esperamos, impedirão que a Terra se aqueça e vire um inferno poluído.

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