1º semestre de 2010

Inferninho cafetão

Por Raul Teixeira Pinto Montenegro

Correntes douradas, roupas extravagantes e pose de bandido. O cafetão sempre foi figura marcante no imaginário popular e no mundo do entretenimento. O rapper americano Curtis James Jackson III, mais conhecido como 50 Cent, já vendeu mais de 10 milhões de cópias no mundo inteiro apenas com seu álbum de estreia, Get Rich or Die Trying, onde celebra o estilo do vida do P.I.M.P., em sua música de maior sucesso e mesmo nome. “I don’t know what you heard about me / But a bitch can’t get a dollar out of me / No Cadillac, no perms, you can’t see / That I’m a motherfucking P.I.M.P.”, canta 50 Cent. O bandido também dá as caras em Taxi Driver, filme de 1976 dirigido por Martin Scorsese. Nele, Al Pacino é reverenciado como herói depois de meter bala em um sujeito conhecido como Sport, agenciador da prostituta adolescente Iris, interpretada por Jodie Foster.

Estes são apenas dois dos inúmeros exemplos da presença do cafetão na cultura popular. O proxeneta, rufião ou gigolô, cuja variedade de apelidos só é menor do que os das putas que explora, no entanto, é uma espécie em extinção – ao menos na forma como costumamos imaginá-lo.

Entre as garotas de programa, ninguém sabe, ninguém viu. “Cafetão não existe”, sentencia Carmen, conhecida pelas outras meninas da casa onde trabalha, o Cabana Café, no número 590 da Rua Augusta, como “Chaveirinho” – por ser “pequenininha”, entrega uma colega. Prostituta veterana, ela está há 11 anos na vida. Começou com 20, logo depois de chegar a São Paulo, capital. Em Presidente Prudente, de onde veio, estudou até a 6ª série do antigo Ginásio e trabalhou como bóia-fria. Ela afirma que “todas as boates da rua só cobram o uso do quarto. Aqui é R$ 20”.

Evangélica, Chaveirinho curiosamente usa a mesma expressão de outra quenga para explicar por que os lucros da prostituição seguem a regra do easy come, easy go. Também para Maria Luiza, 28 anos, que faz ponto na mesma rua Augusta, há poucos metros de dois dos points boêmios mais famosos da área – a pizzaria Vitrine e a padaria Charm – o dinheiro da atividade não é “abençoado”.

Maria Luiza, puta há  10 anos, não segue nenhuma religião, mas acredita em Deus, “que não deve gostar nada do meu trabalho”. Para ela, o único nome inaceitável para a atividade que exerce é “prima”. “Não sou parente de ninguém”, esbraveja. Ela concorda com Carmen, a Chaveirinho, quanto às razões extraterrenas pelas quais o dinheiro sai tão rápido quanto entra. Mas é só. Apesar de não estar sob a tutela de nenhum proxeneta, Malu, como provavelmente já foi apelidada, admite que algumas casas noturnas cobram taxas das garotas que ali trabalham: “meio a meio. Ou 10%, 20%. Neste tipo de casa eu nunca trabalhei, mas sei que tem”. A garota, que guarda alguma semelhança com a VJ da MTV Penélope Nova, no entanto, não vê a prática com maus olhos. “Se dá segurança, acho que com 10% ou 20% tudo bem. Metade já é demais.”

Duas outras meninas explicam melhor como funcionam as coisas na maioria das casas noturnas da Consolação. Uma delas é Raquel, ou Taiara. A “profissional do sexo”, como prefere ser chamada, adotou o nome de guerra depois de uma troca com sua melhor amiga que, por sua vez, passou a se apresentar como Raquel. De acordo com ela, que afirma trabalhar com “divulgação e locação do corpo”, e Luciana, ex-garota de programa que hoje é barman do puteiro Love Love, as boates ganham com o consumo dos clientes, o aluguel dos quartos e o preço da entrada. “Mas tem coisa que a casa não ganha. Strip a casa não ganha. Eu negocio com o cliente e coloco no meu bolso”, diz Raquel. Muitos puteiros obrigam as prostitutas a só prolongar o papo com o freguês caso este lhes pague uma bebida, mas Luciana não vê problema na estratégia. Ela argumenta que a puta “ganha uma parte do dinheiro da bebida. Pode ser R$ 10, R$ 5 ou R$ 3, dependendo do drinque. Os dois ganham”.

Raquel, ou Taiara, de apenas 19 anos, revela uma exceção: os privês, locais que fazem programas baratos de dia e de noite. “Tem até casa de R$ 10, R$ 20 ou R$ 30. Eles ficam com metade do que a menina ganha, mas pra mim não compensa. Por que eu vou dar metade do meu salário se a pessoa não ficou metade do tempo com o cara que eu aturei?”.

De acordo com o Código Penal brasileiro, no entanto, tanto o esquema dos prives quanto o das casas noturnas são proibidos. Os artigos 228 e 229 afirmam que facilitar a prostituição ou “manter, por conta própria ou de terceiro, estabelecimento em que ocorra exploração sexual, haja, ou não, intuito de lucro ou mediação direta do proprietário ou gerente” pode dar de dois a cinco anos de cadeia caso não haja nenhum agravante. Se houver emprego da violência, a reclusão pode saltar para até dez anos, além da pena correspondente à agressão. A prostituição em si não é crime, pois toda pessoa é dona de seu corpo e pode usá-lo como quiser. Já a indução à satisfação da lascívia (ou luxúria), o rufianismo e o tráfico de pessoas para exploração sexual também são enquadráveis nos artigos 227, 230 e 231, respectivamente.

A lei é mais dura com aqueles que Luciana classifica como “gigolôs” – homens que, ligados a uma mulher por laços de parentesco, obrigam-na a vender o corpo. Para estes, a pena é aumentada em 50%.

O delegado titular do 4º  Distrito Policial, João Roberto Pacífico – o Dr. Pacífico, como é respeitosamente chamado pelos demais tiras – atesta que realiza ações, principalmente de prevenção no combate à exploração do lenocínio na região da Consolação. “A polícia prende, desde que seja comprovado. Antigamente havia a delegacia de costumes que trabalhava em cima da prostituição. Hoje, a corporação realiza rondas constantemente.” Mas aponta uma dificuldade para o combate: “não está escrito na testa da mulher que ela é uma prostituta, e o que caracteriza a prostituição é a habitualidade”. Este pode ser o maior problema para a polícia, pois as sindicâncias com diversas idas aos locais suspeitos foram consideradas abuso de autoridade pelo Judiciário.

O Dr. Pacífico, com a autoridade de quem é delegado desde 1969 – sem contar os anos como escrivão –, explica que outro empecilho é que até se “fecha uma casa noturna hoje, outra amanhã. Mas é um volume muito grande [para a força policial combater]”. Luciana, a barman da Love Love, de sua parte, afirma que a casa nunca teve nenhum tipo de problema com a lei. “A polícia não entra aqui nem pra pegar coxinha ou quibe.”

Segundo Pacífico, a presença das garotas de programa ainda favorece a ocorrência de outros tipos de crimes. “Aqui nos barzinhos sempre tem confusão. E olha que hoje melhorou muito em relação há 30 anos atrás. Era pior. O grande problema eram os travestis. Era a área dos travestis.” E continua: “a prostituição degrada a região. No passado, os grandes crimes que aconteceram se davam nos prostíbulos. Agora, dentro de um ambiente assim corre droga, com certeza. Em todo boteco você vai encontrar as prostitutas bebendo, fumando e se drogando”.

Pelo menos de acordo com Luciana, as duas coisas realmente podem ter alguma relação. “Todas as casas têm uma barraqueira – a gente conversa ou manda embora. Brigas acontecem direto, de tapa mesmo, mas nós separamos. Já chegamos até a expulsar menina.” Ela mesma só descobriu as vantagens “da vida” através de outros contatos no mundo do crime. “Eu era garçonete num bar e tinha um moço que perguntou pro dono se podia fazer uma banca lá. Eu achei que eu ia ganhar mais, aí parei de ser garçonete e fui pro bicho.” Foi através de amigos no jogo que ela soube que ser puta poderia render um dinheiro ainda maior. Daí para o ingresso no novo ramo foi um pulo.

Com ou sem relação com a criminalidade, a única coisa certa é que as garotas envolvidas na prostituição vivem perigos dignos de filmes de ação. Maria Luiza, a menina que se parece com apresentadora de videoclipe, conta que passou por situações para lá de cabeludas durante o expediente. “Tem cliente que saca a arma e quer parar em terreno baldio com você. Já tive que puxar volante e até pular do carro pra me safar”.

A cena é bastante rotineira. Letícia hoje se prostitui a céu aberto na Rua Augusta, mas já esteve na equipe de acompanhantes de puteiros luxuosos como o Bahamas e o Café Photo, ambos em São Paulo. Ela trocou os programas caros dos locais pelos maiores riscos de trabalhar no clima “pesado” das ruas: “já tentaram me seqüestrar, já pulei do carro na Radial Leste e já apanhei. Uma vez tentaram me estuprar, mas o ato não foi consumado. A gente sempre acompanha casos de meninas que foram estupradas, espancadas ou assaltadas.” Então quais são as vantagens? Financeiras, ora. “Aqui fora o programa é R$ 150, enquanto nas casas de luxo ele nunca sai por menos de R$ 300. Em compensação, são muitas mulheres lá. Você faz um programa num valor alto e pode ficar dois, três ou quatro dias sem trabalhar. Na rua você faz pelo menos um por dia e uma garota que se porta um pouquinho melhor acaba faturando uma grana legal”, diz.

Outro medo comum a todas elas é o de clientes muito drogados. Estes, no entanto, também podem render histórias engraçadas. “Já teve um que cismou que o colchão estava pegando fogo e quis me colocar pelada para fora do hotel”, ri Maria Luiza. Raquel, aquela que se apresenta como Taiara, vê pelo menos uma vantagem nestes casos: “não sei se você sabe, mas pelo que eu sei – e até hoje não teve ninguém pra contradizer minha tese – todo homem que cheira não consegue ficar de pau duro”. Ela adora. “Pra mim é muito melhor quando eu não preciso fazer nada.”

Com todos estes perigos, não é de se pensar que nas horas de aperto seja melhor que as putas tenham um cafetão por perto para protegê-las? Letícia, que, como todas as demais, alegou jamais ter estado nas mãos de um rufião, tem certeza que não. “Em alguns lugares na Augusta ainda têm esse esquema de cafetão. O cara cuida da garota, cuida do lugar e você tem que pagar [a ele] 20 reais por programa. Ele simplesmente te permite ficar num lugar que ele diz que é dele. Mas não compensa a proteção que o cafetão vai dar porque ela vale enquanto eu estiver ali na frente dele. A partir do momento que eu entrar no carro acabou.”

Apesar de possuírem visões opostas das coisas do mundo, as prostitutas e o delegado concordam em um ponto: os costumes estão mudando, e com eles a vida nos inferninhos de São Paulo. Dr. Pacífico acredita que a prostituição hoje é mais tolerada porque “perderam-se os valores” e “as tradições daqueles legados que nos deixaram nossos antepassados”.

Para a barman Luciana, o aumento da permissividade pode não ser de todo mal. Ela alimenta a esperança de no futuro contar ao caçula e às duas filhas mais velhas (de 7, 9 e 13 anos, respectivamente) que um dia já foi puta. “Hoje em dia as coisas estão tão modernas, ninguém liga mais pra nada. Se fosse em outros tempos – na época da minha mãe – eu não contaria. Mas agora acho que eu conto quando eles estiveram maiores.”

Com as prostitutas saindo do submundo, também está sumindo a presença do cafetão. “A cafetinagem ficou muito pra antigamente, quando fazer programa não era uma coisa muito comum, quando a sociedade encobria bastante”, explica Letícia. O proxeneta quase não existe mais “naqueles moldes de antigamente, quando era localizado”, concorda Dr. Pacífico.

A figura em voga no mundinho agora é a do ‘cafetão 2.0’. O delegado conta que o rufião moderno atua de modo muito mais sofisticado que os pimps cantados pelo hip-hop e fixados no imaginário popular. “Hoje você os encontra nos hotéis de luxo, não só no baixo clero da prostituição. Estão aí empresas que trabalham na base dos folhetos e books as fotografias das mulheres. Eles acabam conduzindo a uma grande máfia da exploração do lenocínio que envolve até porteiros de flats.”

Ainda segundo o delegado, existem também “aqueles que fazem o tráfico de mulheres para outros países. É outra vez a figura do cafetão”. Mas a explicação não vem sem o julgamento do velho homem da lei: “eles até iludem oferecendo emprego, dizendo que é para trabalhar. Mas na realidade a maioria das mulheres sabe que vai lá pra mercadejar o corpo”. Carmen “Chaveirinho”, que afirmou que cafetinagem “não existe”, está entre elas. Ela narra as aventuras de sua viagem à Espanha, onde correu muito da imigração e se viu no meio de uma briga judicial. “Eu vou ter que voltar lá para prestar depoimento em um processo que a casa onde eu trabalhei moveu contra uma rede de TV, porque o canal me filmou com uma câmera escondida enquanto eu trabalhava na boate”, alega.

De acordo com Pacífico, a cafetinagem contemporânea é uma grande empresa que não só aumentou a abrangência de suas ações, mas modernizou os métodos utilizados. “Hoje por telefone ou internet você chama. É só ver a foto no book e mandar buscar a garota de programa”, revela Pacífico. “A prostituição sempre existiu e vai continuar existindo, apenas em outros moldes”, finaliza.

As putas que rodam a bolsinha nas esquinas da Rua Augusta já adotaram uma nova forma de organização para se protegerem dos clientes violentos e dos poucos cafetões old school que restaram. São as cooperativas do sexo. “No meu ponto trabalhamos eu e mais seis. A gente cuida pra não ter meninas diferentes, nem as drogadas ou que roubem”, diz Letícia. As mais novas são colocadas junto das mais velhas, para que as mais antigas passem o ponto às novas gerações.

Para se começar no ramo, tudo depende da educação e humildade. “Você chegar do nada e querer parar fica complicado. Mas conversando com as meninas você vai ganhando seu espaço. Fica de um lado que não tem ninguém… Os pontos vão se definindo assim”, diz Maria Luiza.

Foi exatamente deste jeito que Letícia começou a atender ao ar livre. Ela trabalhava numa boate e foi “aos pouquinhos fazendo amizade com as meninas que estavam na rua”. “Uma nova menina precisa chegar e falar ‘estou precisando trabalhar, será que eu posso ficar aqui?’. Fazer tudo numa boa e trabalhar unida. Todos nós trabalhamos unidas. A gente sempre expele aquelas pessoas que possam trazer alguma desunião”, resume.

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