1º semestre de 2010

Chicote na carne

Porque com prazer é mais doloroso

Por Luis Ricardo Bérgamo e Camila de Lira

De jeans desbotados e um tênis velho nos pés, nada se sabe sobre sua vida particular. Como é comum nas grandes cidades, ele se confunde na multidão que precisa encarar o dia-a-dia de seu trabalho no centro de São Paulo. A pessoa que senta do seu lado do metrô desconhece seus desejos, assim como a mulher com quem divide mesa no trabalho. Mas a quem interessa?

Sandro* é um sub, ou submisso. Ele gosta da dor, entre quatro (ou duas) paredes. Quando sente seu sangue escorrer, diz que é o paraíso. Seus limites são testados cada vez que vai para cama com sua dona, e, ao mesmo tempo, são ditos.

A primeira coisa que faz ao encontrar com ela é descobrir o que fará na noite, o que ela quer que seja feito. Palavras de emergência são estabelecidas: se qualquer ato sair do limite, um tapa ou uma gota de sangue a mais, a palavra será dita, e tudo parará. O sub explica que pouco usa a palavra – na verdade, nunca a usou -, mas é importante que ela exista, para dar segurança.

Por mais oblíquo que pareça, é a segurança, e não a dor, o mais importante. “É como uma montanha russa. Você sabe que está preso e a possibilidade de algo dar errado é mínima. Mesmo assim, não consegue evitar o frio na barriga”, explica o sub, que confessa ter mais tesão em práticas menos “arriscadas” do mundo BDSM (Bondage, Disciplina, Sadismo e Masoquismo): bondage, mordaça e spanking.

Para o mundo baunilha (ou dos “virgens de BDSM”), bondage é a pratica de amarrar a outra pessoa. Existem vários tipos de cordas, e muitos – mais do que podemos imaginar – estilos de nós; os japoneses são os preferidos por Sandro. Já o spanking, “espancamento” em inglês, é o ato de bater repetidamente em alguma área do corpo.

Alguns sinais marcam suas costas e bunda, fios de carne cicatrizada que se cruzam no meio de sua coluna, símbolos de suas donas, e perdeu a conta de quantas já teve. Não se relacionou com nenhuma por mais de três vezes em dez anos de BDSM.

Acha-as na internet e em classificados pelos jornais. Como descobriu as suas preferências no mundo informatizado, não sabe afirmar como eram marcados os encontros na era pré-internet. “Só não gosto dos clubes temáticos. Acho que são exagerados e pesam a mão nos clichês do mundo S&M”, desabafa Sandro.

Das muitas histórias que já passou na cama, a mais prazerosa: a primeira vez que sangrou numa sessão S&M. Tinha 25 anos na época, há dois anos praticava o sadomasoquismo, e aquela era a segunda vez que faria o spanking. Encontrou-se com a Rainha numa noite quente de sexta-feira. Como ainda não morava sozinho, isso tudo ocorreu na casa de um amigo, que lhe emprestava o apartamento ocasionalmente. O amigo em questão não sabia o que acontecia quando Sandro usava o apartamento na região da Liberdade. Para ele, bastava saber que Sandro levava meninas para o local.

Estava muito calor, e a primeira ordem da rainha foi para que tirasse a roupa, e assim o fez. Ela mandou que ficasse de quatro, e assim o fez. Logo depois, ela começou a açoitá-lo com o chicote. “Cada vez que as tiras de couro batiam nas minhas costas, sentia um prazer imenso”, lembra Sandro.

Depois do trigésimo ou quadragésimo açoite, Sandro sentiu que seu limite tinha chegado, e cogitou em falar a palavra de segurança, mas decidiu aguentar só mais um pouco, por curiosidade. Ele conta que sentia o suor escorrer nas suas costas, o que fazia com que cada ferida ardesse mais.

A rainha disse que estava perto do fim, porque tinha planejado outras atividades para aquela noite. Tudo ocorreu ao mesmo tempo: a última chicotada arrancou-lhe sangue das costas e o seu gozo escorreu pelo chão. Sentiu um êxtase que nunca tinha atingido antes. “O sangue era tão quente quanto a porra. Me senti gozando duas vezes, com dois paus”, diz Sandro.

O sub revela que, mesmo depois de oito anos, se masturba pensando nesta noite. Ainda assim, não consegue se lembrar com clareza da aparência da rainha, com quem não conseguiu se encontrar de novo depois daquela vez. Ele brinca que foi bom para manter um tom de platonismo.

Consegue lembrar, porém, do minuto que antecedeu o êxtase, quando achou que seu corpo iria perecer, como se estivesse se esvaziando, e foi exatamente este sentimento que fez o êxtase ser tão grande. “Foi como se eu tivesse vencido o meu corpo”, afirma, triunfante.

Rainha da Luxúria

Unhas escuras, sapatos de salto e classe, muita classe. É assim que Hanna se prepara para cada balada. Para completarseu visual, meia calça fumê preta, saia de couro preta, blusa de botão branca, colares variados, cordas e um chicote.

É assim mesmo que a dominatrix Hanna se arruma antes de cada aventura. Não se preocupa muito para o julgamento dos outros, mas prefere viver de maneira discreta. Seus pais, por exemplo, apenas sabem que ela tem um “gosto por corsets e sapatos”.

Da sua vida baunilha, guarda lembranças de quando “brincava” de bater nos namorados quando estavam transando, ou de quando mandava que um deles fizessem alguma coisa que queria. Gostava da sensação, assim como amava seus próprios pés e mãos, mas não sabia explicar o que lhe dava prazer. “Tinha unhadas, mordidas, dor. Elementos que sempre tiveram presentes nas minhas relações”, diz. Foi quando uma amiga lhe mostrou um vídeo BDSM e passou sites sobre o assunto que Hanna identificou o prazer que sentia ao marcar os namorados.

As marcas que fazia nos parceiros sexuais, antes e depois de se descobrir dominatrix, sempre tiveram o significado de posse. Cada cicatriz que causava era uma etiqueta que colocava em seus companheiros. “Se está marcado, é MEU”, explica Hanna, que confessa que gostava de morder seus antigos namorados na região perto do coração. “Outra não passaria ali”, completa.

A dominatrix ri quando fala de sua possessividade, mas diz que hoje é mais controlada. O BDSM deu a Hanna uma disciplina que ela não tinha: não conseguia controlar o seu tesão e acabava machucando seus namorados.

Numa relação BDSM, tudo é colocado de forma muito clara, e os dois conhecem bem os limites dos seus corpos. Mesmo quando querem testá-los, o outro parceiro é avisado, o que faz com que a dor seja “controlada” e voltada para o prazer.

“Hoje sei quando começar e parar. Sei até onde provoco uma dor de prazer e uma dor dor!”, diz Hanna. Ela namora, hoje em dia, um de seus subs e explica que nunca lhe aplicaria agulhas, uma prática que está entre suas preferidas, porque sabe que ele não aguenta.

Para saciar seus desejos de Rainha da Luxúria, Hanna tem outros sub, como um podólatra que cuida de seus pés e alguns outros que encontra nos clubes que frequenta. Hanna diz que tem vários servos por conta de seus gostos variados. “Amo essa loucura. Comer arroz e feijão todo dia cansa a minha beleza”, brinca a dominatrix.

Palavras não conseguem fazer juz ao prazer que Hanna diz sentir. É importante frisar que o sexo nem sempre entra na jogada. Às vezes, sessões de agulhadas e apresentações de shibari (técnica japonesa de bondage) são o bastante para satisfazê-la.

O poder da posição de dominatrix, para Hanna, vem tanto pela vulnerabilidade que a outra pessoa mostra quanto pelo agradecimento que esta pessoa terá. “Ela não vai virar para mim e revidar e sim se ajoelhar, agradecer e beijar meus pés”, explica.

Sobre a dor que faz seus submissos sentirem, ela simplifica: “Você já tomou um tapinha de leve na bunda na hora do sexo? Você tomaria esse tapa em estado normal? A dor não seria a mesma”.

Para ela, dominar é um ato que exige respeito, classe e sensualidade. Essa mesma sensualidade que tem para usar scarpins pretos e fazer performances em festas fechadas ao público fetichista, Hanna usa para explicar como coloca e retira agulhas do corpo de um de seus sub. Ela diz que o sangue tem um gosto delicioso, “gosto de vida”, e que dividi-lo com a pessoa que sangra apura muito mais o sabor.

Sua transa mais prazerosa vem na cabeça quando o assunto é sangue. Ela conta que foi com um ex-namorado. Prendeu os dois braços dele na cabeceira de ferro da cama e o vendou. Brincou um pouco com a situação até que, sem que ele esperasse, posou-se em seu colo e agulhou-lhe os mamilos. O prazer a cegou no momento, mas não a impediu de usar mais duas agulhas nas partes íntimas dele. Hanna fala que o homem quase enlouqueceu de prazer e, na hora de retirar as agulhas, o sangue escorreu timidamente.

A mesma dor que Hanna produziu provavelmente elevaria o tesão de Sandro nas alturas, e, mais do que certamente, deixaria algumas pessoas enojadas ou chocadas. Enquanto a maioria foge da dor, os praticantes de BDSM descobriram como torná-la controlável, prazerosa, e, mais importante, digna de expectativa.

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