1º semestre de 2010

Fertilização in fórum

Relatos de uma gestação difícil, com parto nada normal de crianças já nascidas

Por Ana Paula Manzalli e Rafael Benaque

Imagine uma sala de espera com 27.342 senhas distribuídas. Do outro lado, 4.809 crianças tentam se distrair na sala de recreação. Esse é o cenário de quem se envolve – e de quem é envolvido – no burocrático mundo da adoção: um lugar onde as contas não batem e o chá de cadeira não tem previsão para acabar.

Uma das senhas está nas mãos de Alexandra Nascimento Resende e Marcelo Ganzarolli Resende. Eles estavam entre as pessoas que conhecemos em uma reunião do grupo de apoio à adoção A Casa de Helena. O encontro acontece duas vezes por mês e tem a intenção de promover uma troca de experiências, medos, dúvidas e ansiedades entre aqueles que estão nesse processo. O presidente e fundador do grupo, Hélio Ferraz de Oliveira, conhece bem essa situação – por diferentes pontos de vista. Ele é advogado, voluntário em um abrigo para crianças e membro do projeto A OAB Vai à Escola, que trata de assuntos como esse nas salas de aula.

A reunião em si – na véspera do Dia das Mães – ao contrário do esperado, não teve a participação da maioria dos frequentadores. Em uma sala com menos de 20 pessoas, Hélio, Alexandra e Marcelo conversaram sobre a visita que o casal tinha feito ao fórum naquela semana. A partir dessa experiência, Hélio explicava o funcionamento do sistema. Além deles, só mais uma mulher interferia, um tanto confusa com o processo e impressionada com boatos de casos mal sucedidos de adoção.

Depois da reunião, Alexandra, Marcelo e Hélio falaram com a reportagem da Babel sobre o assunto. Apesar do som alto da televisão do bar e de um bêbado que insistia em atrapalhar, todos se sentiram à vontade para confessar suas aflições e contar casos curiosos de quem passa por um processo de adoção.

Alexandra, durante muito tempo, não conseguia ir a festas infantis. Marcelo não se conformava com o fato de ter sua casa vazia e ver a rua cheia de crianças. “Já passamos por uma mulher no farol que eu falei ‘se amanhã essa menina ainda estiver aqui com você, eu vou levar embora!’” Foi uma brincadeira, um desabafo. Mas a pedinte não apareceu por lá no outro dia.

O casal sempre quis formar uma família, mas anos de tentativas frustradas mostraram que Alexandra não poderia ter filhos. Ela chegou a engravidar aos 23 anos, mas perdeu o bebê por causa da endometriose.

Depois de muitos tratamentos para tentar reverter a situação, Alexandra e Marcelo ainda levaram cinco anos para amadurecer a ideia de adotar. “No começo, eu fui muito duro em relação a isso. Eu queria ter o meu filho”, conta o marido. Mas o sofrimento da esposa e o apoio da família o convenceram.

Foram oito meses de avaliação para o casal ser considerado apto à adoção. O processo é longo: entrevistas, solicitação de documentos, fotos, atestados de saúde física e mental, sem contar a investigação que os técnicos do fórum fazem na casa dos futuros pretendentes. Nem amigos e conhecidos escapam. “Quando eles vão na casa, eles batem nos vizinhos, perguntam se conhece e tal. E viram sua casa de ponta-cabeça! Reviram tudo, abrem todas as gavetas…”, explica Marcelo. “Além de revirar tua vida, ainda fazem isso na tua casa”, completa a esposa.

Por trás da rigidez do processo de avaliação está a ideia de que os pais adotivos nunca podem errar. Muito mais do que em qualquer outra situação, quem quiser ter um filho dessa forma terá que provar sua competência e suas condições para isso. Já pensou se todos tivessem que passar por um processo como esse para ter um filho biológico? A população do mundo seria menor. A dos abrigos também.

Por fim, quando a habilitação é concedida, os pretendentes à adoção traçam um perfil da criança – ou crianças – que esperam. Quanto mais exigências, mais tempo. Afinal, há muito mais crianças com até sete anos do que meninos brancos com menos de um. Sabendo disso, Alexandra e Marcelo não determinaram o sexo nem a raça do futuro filho. Especificaram apenas a quantidade (um) e a idade máxima (cinco anos).

Sílvia e seu marido Francisco Figueiredo, de Jundiaí, foram recompensados por tomar uma decisão parecida. Depois de enfrentar problemas para ter filhos biológicos, o casal decidiu adotar até três de uma vez, sem distinção de raça ou sexo, desde que o mais novo tivesse no mínimo dois anos. Pouco mais de seis meses depois de se inscreverem, eles receberam Maria e Giane, com quatro e três anos de idade na época.

Dois anos depois de uma adoção bem-sucedida, a família de Sílvia se envolveu novamente no processo para ter o terceiro filho. Desta vez, por causa de um perfil mais fechado (menino entre dois e três anos), a espera se estende. “Queremos, primeiro, que ele não demore muito mais. Depois, que ele venha completar a nossa família, do jeitinho dele, assim como as meninas vieram e nos completaram”, conta a mãe de Maria e Giane. Segundo ela, a ansiedade só não é maior – apesar de estarem na fila há três anos – porque as filhas os mantêm ocupados o tempo todo.

Alexandra e Marcelo estão em uma situação parecida. Apesar do perfil amplo, já se passaram dois anos e meio de ansiedade e entrevistas de recadastramento, feitas para checar se eles ainda estão vivos, casados, empregados e em busca do filho adotivo.

O processo

Toda essa relação de exigências vem da Vara da Infância e Juventude do fórum regional mais próximo da casa dos candidatos. Depois que técnicos bem preparados e munidos de toda a aparelhagem necessária para decidir o destino das famílias desempenham seu papel, os agora futuros pais são colocados no Cadastro Nacional de Adoção (CNA). Alexandra, com o exaspero de quem passa por uma gestação de mais de três anos, dá um exemplo da eficiência desse sistema. “Eles falam que vão te colocar na fila, e você imagina uma lista no computador. Aí eles chegam com um caderno! Um caderno! Com outras anotações em algumas páginas! Eu fico imaginando como eles vão conseguir cruzar nossos dados com o das crianças.”

Segundo o presidente do grupo de apoio que o casal frequenta, esse processo é bastante suscetível a falhas por conta da falta de aparelhamento do Tribunal de Justiça, de pessoal, de material, de incentivo, de reciclagem dos funcionários… “Essa falta de uma série de condições acaba resultando em profissionais mal remunerados e mal preparados para fazer uma avaliação extremamente séria, que define a situação de uma criança.”

A deficiência, no entanto, começa muito antes de chegarem os funcionários do fórum e os cadernos. Hélio explica que a mesma Vara que cuida das adoções também trabalha com crianças infratoras e com casos de abuso e violência (na rua ou em casa) envolvendo menores. Por isso, nessa lista de prioridades, a criança em abrigo sofre menos do que aquela que está sendo violentada pelo pai. Assim, os profissionais que poderiam agilizar o encontro entre pretendentes e abrigados acabam se dedicando a áreas em que o risco para o menor é mais iminente.

No entanto, apesar de soar contraditório do ponto de vista imediato, o abrigo também representa um risco muito grande. “Se a criança abrigada não for encaminhada para uma nova família logo, quando ela atingir a maioridade, ela vai ser simplesmente colocada na rua e passar a morar como um indigente dentro de um albergue”, destaca Hélio.

A rua será uma realidade depois dos 18 anos, quando o Estado já não se considerar responsável pela vida desses jovens. Mas a sentença começa a ser lida antes disso. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça, pouco mais de 0,1% dos pretendentes cadastrados no CNA aceita crianças com mais de 13 anos. E não só o órgão sabe disso. Em uma visita a um abrigo, percebe-se que as crianças mais novas tentam, de todas as formas, chamar a atenção daqueles que lhes parecem procurar um filho; enquanto isso, os grandinhos, algo resignados, se preocupam em tomar conta dos pequenos.

Para evitar que o jovem vá do abrigo ao albergue, uma solução poderia ser a separação dos processos de adoção em uma repartição específica. Assim, enquanto uma parte do fórum se encarregaria do próximo passo dessas filas, outra estaria cuidando dos casos de risco mais imediato. Além disso, Hélio acredita na necessidade de reduzir o tempo na casa transitória. “Não encontro outra palavra para representar o abrigamento a não ser o limbo. Eu vou pra lá e me acabo de brincar com as crianças, só que elas não têm uma situação jurídica definida, não têm pai nem mãe, mas também não deixam de ter pai e mãe. É um período em que a criança fica sem referência”. Quanto antes isso for resolvido, maior a chance de a criança ter uma família – biológica ou adotiva – antes dos 18.

Foi com essa intenção que a nova lei de adoção entrou em vigor em 3 de novembro de 2009. De acordo com ela, o fórum tem dois anos para decidir se a criança será definitivamente retirada de seus pais ou se voltará para eles. A família de origem, durante esse tempo, tem a chance de se reestruturar para manter o direito de cuidar de seu filho. E o abrigo que o assiste enquanto isso tem a obrigação de planejar esse reacolhimento. A tentativa do Estado é, primeiro, preservar o vínculo biológico. Se, vencido o prazo, a família não tiver se reestruturado, a criança é destituída e encaminhada para adoção. Traduzindo, ela vai perder o registro de nascimento – toda ligação familiar será cancelada – e só ganhará uma nova certidão quando outra família for encontrada.

Enquanto esse processo se arrasta, a ansiedade de Alexandra e Marcelo só faz crescer. “Este ano, a gente estava quase desistindo. A gente já estava pensando que essa demora é pra gente pensar bem e não adotar mais. Porque machuca muito…”, contam. Apesar de querer se proteger do sofrimento, o casal não desistiu, ao contrário do que muitos fazem. “A última informação que eu tive sobre isso é de um fórum específico que chamou todos os casais para fazer o recadastramento e 60% desistiram da adoção”, afirma o advogado. Os pretendentes até podem fugir dessa angústia; as crianças não.

Lar transitório

A primeira coisa que sentimos quando entramos na casa transitória foi uma atmosfera de ansiedade. As crianças passam o tempo todo em cima dos visitantes e voluntários. Todas as brincadeiras com os adultos envolvem abraços, mãos dadas, carinho no cabelo… algum tipo de contato físico. O exemplo máximo disso é que, enquanto uma menina de quatro anos se esparramava no colo de um dos jornalistas que assinam este texto, uma de oito sentou-se ao lado da outra repórter para brincar de um pega-pega que se limitava a cutucões no ombro.

A maioria delas é muito ciumenta e passa o tempo disputando atenção, brigando com os amiguinhos e fazendo as pazes cinco minutos depois. Duas crianças de cerca de seis anos se estranharam porque queriam pentear o cabelo da repórter e não aceitavam dividi-lo em mechas para que elas pudessem brincar ao mesmo tempo.

Todas as crianças do abrigo que visitamos foram tiradas de suas famílias. Quando chegam à casa transitória, elas costumam lidar com isso de duas formas: ou morrem de medo e querem voltar para os pais ou acham que o abrigo é um parque de diversões enquanto esperam uma família nova. Isso fica bastante evidente para quem vai a um desses lugares sem a ansiedade de quem busca o filho.

E, para ser adotado, vale até mentir. Em nossa visita, um menino de cerca de oito anos, já mais espertinho, nos abordou com uma pergunta direta e surpreendente: “Tio, quem é que você quer?”. Depois de balbuciar alguma bobagem, saímos pela tangente com outra pergunta: “Você tem irmãos?”. “Não”, respondeu rápido. Uma criança, mais nova, ingenuamente o corrigiu: “Tem, sim, aqueles ali…”. O outro virou as costas e voltou a correr pela sala de visita. A tentativa de esconder os quatro irmãos tem uma justificativa simples. O Estado não separa grupos de irmãos para adoção, e apenas quatro dos 27.342 pretendentes aceitariam mais de cinco crianças de uma vez.

Apesar dessa atitude egoísta, as crianças são muito pouco individualizadas nesse ambiente. A noção de coletividade só começa a mudar quando surge a perspectiva da adoção. “Quando uma criança chega no momento do desabrigamento e as outras começam a perceber isso, meio que como uma autodefesa, elas começam a excluir essa criança do grupo”, relata Hélio.

Nesse momento de transição, um medo de algumas crianças é serem colocadas num lar como o da família de origem. “Tem muitos pretendentes que falam ‘ah, será que ele vai me chamar de pai?’. Muitas vezes, não, e isso não é ruim. Porque a experiência que ele tem com o pai não é necessariamente positiva, então ele tem medo de ligar a palavra e acontecer a mesma coisa: sofrer um abandono, alguma situação assim”, explica o voluntário, que tem 12 anos de experiência nesse ambiente. Na conversa na mesa de bar, Marcelo pareceu aliviado ao ouvir esse comentário.

Mas não é só isso que aflige pais e filhos que ainda não se conhecem. Muitos pretendentes temem não saber lidar com uma criança adotada. Dizer “não” e ser rejeitado pelo filho é uma das preocupações. Alexandra, em tom de brincadeira, mas com uma dúvida sincera, se pergunta: “E se ele quiser dois carrinhos de controle remoto? O que eu faço?”. O presidente do grupo de apoio tem uma resposta simples: “Peça dois presentes de Dia das Mães!” Segundo ele, é preciso entender que o filho não deve ter privilégios – nem prejuízos – por ser adotado.

Outro problema que costuma acontecer na adaptação da criança à nova casa é quando ela tenta descobrir até onde vai o medo de rejeição dos pais. Na criação biológica, é mais difícil perceber o filho testando limites porque isso acontece aos poucos – com o bebê chorando toda hora para ter atenção, por exemplo. “Quando você pega uma criança com mais idade, ela já tem o seu eu consciente formado. Então ela vai testar ‘vamos ver, será que eu consigo ficar sem tomar banho uma semana aqui?’ e vai tentar”, conta Hélio.

Toda relação precisa ter diálogo para funcionar; ou seja, esconder a adoção (se a criança não lembra) ou deixar o irmão biológico contar vantagem por ser “de sangue” não é uma boa opção. “Nós queremos que nosso filho saiba pela gente que foi adotado, e vamos fazê-lo entender que ele foi muito desejado, muito esperado. Ele foi escolhido pra ser adotado pela gente”, afirma Alexandra.

Para a convivência entre irmãos adotivos e biológicos, Hélio tem outra resposta pronta. “Criança é um bichinho muito ruim, porque ele não tem filtro nenhum, ele fala o que pensa e acabou. Agora, tem que lidar muito bem com isso. Se acontece uma vez, você avisa que não é bem assim; aí acontece outras, até que você fala ‘olha, cuidado, porque ele eu escolhi, você eu não pude’. Quero só ver se o menino vai usar esse argumento de novo.”

Infelizmente, não são só os irmãos e os coleguinhas da escola que têm preconceito. “É engraçado que quando filho adotivo agride alguém da família vira manchete de primeira página. Agora, em casos como o da Suzane von Richthofen, não sai ‘Filha biológica mata os pais no quarto’”, desabafa Hélio.

Os próximos da fila

Depois de três anos que Alexandra e Marcelo fizeram sua primeira entrevista no fórum, e de apenas nove dias que cederam uma entrevista para a gente, uma ligação acabou com a espera. Do outro lado da linha, uma voz deu a notícia: “Temos uma criança para vocês conhecerem. É uma menina, chama Lara”.

E, apesar da força da novidade, o maior impacto ainda estava por vir. “Perguntei a idade. Quando ela falou ‘cinco meses’, bambeou minhas pernas!”, conta Alexandra. “Você pode vir hoje ou amanhã”, sugeriram ao telefone. Adivinhe quando eles foram…

No abrigo, a assistente social explicou que eles poderiam ficar à vontade para aceitar ou não a criança. O que, segundo Sílvia, não é bem verdade. “Geralmente, como aconteceu com as minhas meninas, temos que dar um ‘sim’ ou um ‘não’ no próprio dia, sob pena de eles já ligarem para o próximo da fila. Procedimento esse que eu condeno, pois não tivemos nenhum tipo de contato com elas antes”.

Apesar da possibilidade de recusa, Alexandra e Marcelo se apaixonaram pelo bebê. E só a devolveram para a assistente quando souberam que, com o quarto pronto, Lara estaria em casa no dia seguinte. “Voamos para o shopping!”

Com os móveis em casa e a documentação na mão, os pais finalmente receberam sua filha. “Quando a gente pegou ela, eu não aguentei e caí no choro. Veio tudo aquilo que passamos e eu me senti muito feliz, parece que passou tudo”, conta Alexandra, segurando o choro.

Marcelo explica que a esposa parou de trabalhar por um tempo para curtir a maternidade. “Depois de 15 anos tentando ter um filho, não vamos pegar a criança para deixar na creche e buscar oito horas da noite. Prefiro me apertar aqui pro dinheiro dar.”

E como não poderia deixar de ser, os pais se mostraram grandes corujas. “Vira e mexe a gente chora. Ela é muito alegre, nossa, ela é…tudo de bom!”, se derrete a mãe em tempo integral. O pai também não fica atrás. “Ela é da minha cor! E franze a testa igual a mim!”

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2 Respostas

  1. É realmente complicado o processo adotivo, entretanto quando concluído podemos olhar para trás e ver que cada minuto de angustia, cada segundo de espera valeu a pena!
    Parabéns pela matéria!

    julho 13, 2010 às 10:07 am

  2. Alexandra N Resende

    Ao ler a reportgem relembro tudo o que passei, é realmente duro, mas ao ver a Lara crescendo e feliz, percebo que a espera valeu a pena.
    A matéria está ótima!!
    Um abraço.

    fevereiro 21, 2011 às 12:02 pm

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