1º semestre de 2010

Uma espera verde e amarela

Abrindo um pacotinho, encontrando a pessoa certa, mandando um pedido pelos Correios: há várias formas de acabar com essa expectativa que não tem idade

Por Mariane Domingos e Tainara Machado

A lista de convocados para a Copa da África do Sul saiu na tarde do dia 11 de maio de 2010. Engana-se quem pensa que definir seleções com potencial para história do mundial é trabalho apenas das comissões técnicas. Seis meses antes do anúncio oficial dos treinadores, a equipe da multinacional Panini já se esforçava para reunir os 544 nomes hoje presentes nas páginas do Álbum Oficial da Copa. Essa tarefa pode ser ainda mais ingrata que a dos técnicos, pois há menos vagas e mais critérios de seleção. Além do bom futebol e da participação nas últimas partidas disputadas pelo time, o jogador precisa ser carismático para ter seu rosto estampado em uma figurinha.

Enquanto as equipes convocadas pelos treinadores devem lutar pelo título, a seleção da Panini tem a obrigação de conquistar o consumidor. O interesse do colecionador precisa se manter vivo até o final do álbum, ou seja, a figurinha mais aguardada deve ser a última. Para chegar à fórmula que garante essa espera, é preciso entender como as pessoas se relacionam com o álbum.

Gabriela Tiago é professora de Educação Artística de crianças de sete e oitos anos das escolas municipais de Diadema. Ela acompanha de perto a febre das figurinhas no ambiente infantil. “Meus alunos fazem as trocas durante a aula. Pedimos para eles guardarem, mas é só virarmos as costas que já estão folheando o álbum de novo”, afirma. Conforme relata Gabriela, apesar da pouca idade, as crianças sabem completar o álbum e reconhecem alguns jogadores, principalmente os do Brasil. “As figurinhas da nossa seleção são as que elas mais querem ter”.

Essa aproximação entre o colecionador e o craque admirado por ele nem sempre foi uma realidade no universo dos álbuns. O escritor João Carlos Marinho é testemunha de uma época na qual essa relação de reconhecimento era totalmente secundária. Ele é autor do livro infanto-juvenil “O Gênio do Crime”, lançado em 1969. A história começa com a busca empreendida por uma turma de crianças (a Turma do Gordo) para conseguir uma figurinha muito difícil do álbum. Apesar de esse cenário tipicamente infantil ser essencial para o início do livro, João Carlos afirma que o tema logo passa para um segundo plano, pois o centro do enredo são as aventuras dos amigos para achar a fábrica clandestina de cromos.

O autor também não aceita grandes comparações entre essa história e a atual febre pelas figurinhas da Copa, pois, segundo ele, “O Gênio do Crime” retrata uma fase diferente dos álbuns, na qual o conteúdo não era tão importante. “Como havia as ‘figurinhas difíceis’, colecionar era quase como um jogo de azar. E, em jogos de azar, é natural que o objeto representado não tenha o mínimo interesse”.

João Carlos diz nunca ter conseguido completar um álbum. “O que cheguei mais perto foi o de 1949: me ficou faltando só o Gilmar, goleiro do Jabaquara. E gastei meses e fortunas da minha avó para isso. Hoje, não há mais figurinha difícil. Tem gente que acaba a coleção em uma semana!”.

O lojista Uenil Cantafaro, 39 anos, demorou um pouco mais que isso para completar o álbum de 2010. Em quinze dias, ele já tinha conseguido todas as figurinhas! “Quando eu estava no final, começou a epidemia das pessoas trocando, então ficou fácil para mim”.

Epidemia

Menos de uma semana depois do lançamento do álbum, era fácil encontrar bancas de jornal com o estoque de figurinhas esgotado, às vezes sem previsão de reposição. Esta repórter chegou a visitar três quiosques em pontos diferentes de São Paulo, para em todos obter a mesma resposta: não havia mais cromos.

Segundo a Panini, isso aconteceu, pois, em algumas localicadades, a venda foi superior à esperada, com compradores levando mais de 50 pacotinhos por vez. A multinacional afirma que sua filial brasileira já reabasteceu todas as praças, mas a irritação dos colecionadores serviu, de certo modo, como ponto de partida para a repercussão do álbum nas redes sociais.

Os brasileiros, segundo pesquisa do Ibope/Nilsen de maio de 2010, lideram o ranking de adesão às redes sociais: 86% dos conectados acessam-nas e passam, em média, 5h20 em sites como o Orkut, o Facebook e o Twitter por mês. Isso explica os números relativos ao álbum de figurinhas na web: em apenas sete dias, mais de 10 milhões de pessoas interagiram sobre o assunto nas principais comunidades. Não por acaso, a Panini batizou a edição deste ano de “Álbum da Copa das Redes Sociais”.

A comunidade de Walison Silva sobre o tema no Orkut tem mais de 368.000 membros. Embora o grupo exista desde 2004 (quando ainda era dedicado ao álbum de 2002) e venha ganhando integrantes aos poucos, neste ano, o crescimento foi exponencial, um “recorde”, nas palavras de Walison. Em suas contas, a comunidade ganha hoje mais de mil membros todos os dias. Logo após o lançamento do álbum, foram cerca de 150 mil novos integrantes em apenas um mês.

O interesse em comum? Trocar figurinhas. Antes um hábito entre conhecidos, vizinhos e colegas de colégio, a prática ganhou novas modalidades, como os postos de troca. Em São Paulo, os dois mais populares são o vão do Masp e o Museu do Futebol. Walison, colecionador de álbuns desde 1998, visitou o Masp duas vezes e, em cerca de 45 dias, conseguiu coletar todas as figurinhas deste ano. “É o meio mais rápido. Não importa quantas repetidas você tenha, lá é possível trocar tudo”, disse, entusiasmado.

O shopping Eldorado, em São Paulo, também cede um ambiente para intercâmbio de cromos. Em um espaço de convivência, estão dispostos vários sofás. Embora o movimento tenha início por volta das 18 horas, é mais para o final da noite que se concentra o vai e vem de pessoas.

Leandro Stein completou seu álbum nesse ponto de troca. Ele terminou a coleção em cinco semanas, mas desde a terceira parou de comprar cromos em bancas, pois já tinha repetidas suficientes para apenar ir trocando. “Gastei pouco mais que o mínimo necessário para completar, uns 10 reais a mais”, explica.

Embora não existam regras pré-defenidas, em geral uma figurinha brilhante deve ser trocada por outra de mesmo tipo. Para Leandro, como neste ano, os cromos mais diferentes não estão tão raros, é aceitável trocá-los por uma figurinha comum. Quando ele colou todas as brilhantes, ainda faltavam 30 normais. Em 2006, a situação era outra. “As brilhantes eram mais escassas e, por isso, dependendo do desespero, era possível trocar uma delas por dez figurinhas normais”.

Nem sempre as pessoas presentes nos postos de troca estão interessadas em completar seu álbum e voltar pra casa. No Eldorado, uma senhora com uma montanha de figurinhas, talvez umas cinco mil, vende cada cromo por R$ 0,20, com uma especificidade: só quem tem o direito de adquirir são aqueles com apenas cinco ou menos espaços ainda em branco no álbum.

Um outro senhor, com uma pasta enorme, procura figurinhas para completar 10 livros, para seus sobrinhos e filhos. Por isso, com ele, só é possível conseguir a imagem faltante em troca de três repetidas. Nesse esquema, ele guarda cerca de cinco réplicas de cada uma das 640 imagens autocolantes do álbum.

Leandro também trocou algumas figurinhas na praça de sua cidade, São José dos Campos, para onde volta nos finais de semana. Embora pipoquem na internet postos de troca, trocas virtuais e até mesmo por correio, o prazer de correr atrás de figurinhas com amigos ainda não ficou obsoleto.

Numa sexta-feira, um grupo de amigos, todos na casa dos 20 e poucos anos, se reúne na casa de Roberta Yunes. Prontos para a balada, parte dos integrantes que chega à reunião traz nas mãos, além das bebidas para a noite, o álbum de figurinhas e bolos de repetidas amarrados em elásticos. Em vez de se reunir com as pessoas no jardim da casa, parte estende na mesa de jantar os seus apetrechos e assim começa a troca frenética de cromos, com direito a um bolinho temporariamente desaparecido e várias frases esparsas que não costumam fazer parte de um “esquenta”, como: “Quem tem a 563?”, “E a brilhante da Espanha?”, “Cadê meu bolo?”.

Só depois de uma bronca de alguém sem álbum, que não sabia o que estava perdendo, o grupo reunido à mesa resolve se juntar ao restante dos convivas. Isso, claro, depois de todos já terem esgotado as alternativas de intercâmbio de cromos. Ainda que o comportamento possa parecer infantil, ao menos eles não estavam jogando bafo.

Talvez por que ainda reste um pouco de orgulho aos tantos jovens, adultos e até idosos colecionadores, o ato de bater figurinhas fica restrito às crianças mais novas. Ao contrário da troca, em que todos saem ganhando, ou no mínimo empatados, no bafo, um dos dois lados deve sair perdedor. “As crianças brincam muito disso e, no final, sempre dá briga, porque os que perderam querem as figurinhas de volta”, conta a professora Gabriela.

Nesse tipo de jogo, cada participante coloca um número acertado de figurinhas, todas viradas com a imagem para baixo. Usando várias técnicas (as mãos podem estar em formato de concha ou apenas bem esticadas e, em alguns casos, vale até dar uma assopradinha antes, para aumentar o grude), cada jogador bate em cima das figurinhas dispostas entre os dois e coleta aquelas que virarem de lado, ou seja, para a parte com a imagem dos jogadores, escudos ou estádios. Os menores, em geral, saem chorando, porque as crianças de mais idade e experiência se aproveitam da situação para rapelar os cromos em disputa.

A longa (ou curta) espera

E quando a última figurinha chega e a espera acaba? O que fazer com aquele livro cheio de adesivos? Para Walison Silva, o álbum serve como uma recordação. “Já colecionei edições anteriores. Comecei com oito anos de idade, na Copa de 1998, e até hoje não parei. Amo futebol e amo guardar lembranças como essas”, afirma.

Segundo o escritor João Carlos Marinho, embora haja pessoas como Walison, para as quais o álbum é o documento de uma época, para a maioria ele será esquecido. Isso acontece porque a importância da Copa não se compara ao impacto de grandes acontecimentos históricos, como guerras, revoluções etc.

A psicóloga Eliana Martins concorda. Para ela, o álbum até pode servir de recordação, mas, na maioria das vezes, é apenas um “objeto de brincadeira”, que, depois da Copa, perde o encanto e é jogado fora.

A graça mesmo, para Leandro Stein, é conseguir os cromos. “Em 2002, eu achava bobeira fazer o álbum, pensando que o Guia da Copa o substituía. Mas não. Nem de longe é o mesmo prazer de correr atrás das figurinhas”, conta.

Eliana explica, em parte, esse impulso colecionador do país entre os meses de abril e maio: é uma maneira de melhorar o convívio social, por ser uma atividade de competição, que reúne amigos, colegas de trabalho e desconhecidos. Os indivíduos, afirma, estão sujeitos a atividades profissionais e acadêmicas bastante estressantes, e “essa pode ser uma forma de alívio do cotidiano agitado”.

Na análise de Eliana, há ainda outra explicação para a mobilização em torno do álbum do mundial e ela é ainda mais determinante que a necessidade de convívio social. Trata-se da paixão do brasileiro pelo futebol. Prova disso é a observação feita por Gabriela nas escolas: “só vejo álbuns de figurinhas nas mãos das crianças em período de Copa”.

Se, em outras épocas, a figurinha difícil e o cromo premiado estimulavam milhares de colecionadores, hoje, o futebol e a admiração pelos craques da bola sustentam a longa (ou curta) espera pelo álbum completo. O objetivo da seleção da Panini era conquistar o público e, evidentemente, ao menos no Brasil, isso foi alcançado. Agora, é esperar para ver se a outra seleção, convocada em maio, cumprirá sua tarefa. O técnico Dunga pareceu não se inspirar muito nas escolhas da multinacional e decepcionou muita gente ao “convocar figurinhas” que não estavam no álbum. Mas, assim como a febre dos colecionadores é passageira, essa insatisfação do torcedor também pode ser. Basta que os “novos cromos” consigam completar o cantinho da camisa brasileira reservado à sexta estrela.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s