1º semestre de 2010

Bens indevidos bem florescem

Porque não querem esperar dinheiro brotar em árvore, construtoras verticalizam a cidade de São Paulo e colhem o melhor custo-benefício por metro quadrado. Lá do alto, paulistanos reconhecem cada vez menos a cidade em que vivem.

por Marcos Ritel

O metrô da Linha 3-Vermelha  atravessa as entranhas do centro de São Paulo com a indiferença de quem cumpre uma obrigação. Foge da estação da Sé em direção à Itaquera. Passar por ali é o preço de se livrar do tumulto e da aglomeração da superfície. Tudo isso para, algumas estações à frente, emergir da escuridão e respirar livre a calmaria que espraia dos antigos bairros operários paulistas. Margeando o leito dos trilhos que no século XIX ligavam as grandes fazendas de café ao litoral do estado, ele para ao pé da colina da Penha, quase tão antiga quanto a cidade de São Paulo. Os prédios coloniais que caracterizam o bairro impõem-se à distância, já da estação do metrô. Lá em cima, moradores ensaiam junto à polícia uma cena anacrônica: um ato de resistência.

Ainda é segunda feira, dez horas da manhã. O objetivo é fechar a rua e causar tumulto. O motivo? Sabe aquele barulho de rodovia que a gente houve quando para no acostamento para comprar frutas? Vruuummm, vruuuummm. Micro-ônibus escalam a Penha com a mesma voracidade com que descem, sacodem os passageiros em meio a calçadas tão estreitas que deve ser difícil instalar um semáforo. Na semana anterior ao protesto um deles entrou à esquerda na rua Itapuracá e deu de cara com um poste.  Mas que não se debite todo o saldo final de uma morte e seis feridos na conta do motorista. Afinal, o asfalto lisinho, lisinho em cima dos paralelepípedos coloniais e a ausência de cruzamentos não deixam de ser um convite à velocidade, além de ser impossível não se lembrar dos melhores trechos da Bandeirante ao ver as duas faixas amarelas que cortam o tráfego de mão dupla da rua Betari.

Francisco Folco, criador do Memorial Penha de França, queria fechar não mais que um trecho. Vieram as mulheres da rua, as trabalhadoras da escola, e fecharam além, para incomodar e chamar a atenção. Montaram uma cena de atropelamento, como um episódio de C.S.I.: boneca cheia de sangue jogada com violência no chão, corpo coberto de jornais e fita amarela e preta tapando o acesso de quem vem pela rua. A polícia não demorou a chegar, cheia de perguntas. Queriam o chefe, o líder do protesto. “Os moradores, somos todos nós aqui”, não demorou a responder uma voz coletiva. “Não tem liderança?” “Os moradores”, reafirmaram com convicção. “Mas pra fazer isso precisa de autorização”. Foi a deixa: “Quando os bandidos botam fogo na favela precisam de autorização? Quando eles botaram fogo nas peruas eles pediram autorização para o senhor?” “Não”. “Então ninguém aqui vai pedir autorização não, e se não der resultado nós vamos fechar de novo e nem vocês vão passar por aqui”. O policial sentiu que o assunto era sério e fez seu relatório. Os caras ficaram com medo. Ele deu um sorrisinho e disse: “vocês vão conseguir isso”.

Eram senhoras, crianças e senhores respeitáveis lutando pela sinalização da rua, com a inspiração vinda lá de baixo: perceberam que está na hora fazer igual aos maloqueiros. Ele conseguem tudo. Conseguem até passarela em cima da rodovia, onde não passa ninguém. Isso porque eles se unem. E os moradores da Penha nem precisaram ir tão longe, colocar fogo na rua, apanhar da polícia. Parece fácil, mas se importar com uma calçada, uma praça ou uma esquina virou algo excêntrico na imensidão do anonimato de São Paulo. “Se essa rua fosse só de prédio, nunca ia conseguir fazer isso. Nunca. Porque ninguém está nem aí. Dentro do condomínio eu tenho a minha praça, minha piscina, meu clube, minha quadra e não preciso mais sair. Aí eu me fecho, me fecho, me fecho”, diz Folco

Tsunâmi

No começo do século XX a Penha era um tradicional destino para quem precisava de tratamentos médicos. Apelidada de “Colina Verdejante”, o clima 800 metros acima do nível do mar e as generosas correntes de ar garantiram o ambiente arejado capaz de barrar a propagação do vírus da gripe espanhola. Muitos paulistanos foram para lá se refugiar. O milagre é atribuído tanto ao clima quanto à Nossa Senhora de Penha, cuja basílica repousa no alto do morro. Entretanto parece que nenhum dos dois vai ser capaz de livrar a região de um outro vírus que se espalha por São Paulo: a especulação imobiliária.

Lá do alto é possível ver o paredão de concreto avançando, vindo do Tatuapé. As imobiliárias tratam a colina como a “Pinheiros da zona leste” e o que se vê por lá é o começo de um processo que já modificou a paisagem e o ritmo de vida de bairros residênciais do centro de São Paulo. É um movimento sem fim: deixado à própria sorte, o especulador triunfa sobre a espera, dissolve o próprio tempo e fatura de acordo com o capricho dos seus desejos. Não há mais o curto ou o longo prazo, nem tampouco o agoniante adiamento do consumo que caracteriza o processo de produção. A verticalização avança no ritmo diuturno da valorização do dinheiro, na temporalidade liquefeita do capital financeiro. Atropela a cidade, corrompe políticos, despreza planejamento urbano e põe abaixo o patrimônio histórico. Seu movimento é incessante e seu ciclo de reprodução cada vez mais curto e vertiginoso, como monstros aracnídeos de filmes de terror B .

É claro que a especulação imobiliária não se arrasta pela cidade no corpo de um carrasco. Ela veste as roupas que adquiriu no empório do consumo. Suas curtas saias de tons neoclássicos provocam desejo, sua pose tem ares de requinte e sua abundância de volumes atrai aplausos ao desfilar entre o público. Há um sentimento de fatalidade no processo inteiro. Encaixota-se a cidade porque é preciso acomodar mais gente: São Paulo de braços abertos. Mas talvez não para todos. Ros Mari Zenha, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e integrante do Movimento Contra a Verticalização (MOVER) da Lapa, se lembra de uma pequena favela atrás da Cidade Universitária. “Eu lembro porque a molecada pulava o muro para nadar no laguinho, ou até para pegar alguma coisa. Coisa moleque mesmo”. Não nadam mais. A população que lutava pela regularização fundiária foi expurgada do local. Hoje quem olha em direção ao monumento a Ramos de Azevedo, no fim da Avenida Luciano Gualberto, se depara com quatro torres de alto padrão com vista privatizada para a Cidade Universitária.

O método de limpeza de terrenos não é caro, ainda mais quando se trata de ocupação irregular. Varrer os moradores para a periferia não custa mais de cinco mil reais. O morador, sem escolha, aceita. Vez ou outra fazem algum protesto, vê-se no jornal choradeira, a polícia com bombas de gás lacrimogêneo, mais choradeira, mulheres sem ter para onde ir e trânsito na Marginal. Depois volta tudo à normalidade. Pegam os cinco mil, vão alugar um outro barraco em alguma favela da periferia onde a vista não alcança.

Outro, mas com movimento muito similar, é o caso dos bairros de classe média residenciais, como Tatuapé, Vila Romana, Perdizes, Ipiranga e Pompéia. Quando as incorporadoras desejam um imóvel, oferecem preços acima do de mercado, enchem os olhos do morador. Alguns caem no canto da sereia e aceitam, necessitados do dinheiro. No lugar onde havia uma casa de 200 mil reais erguem um prédio em que cada um dos 30 apartamentos custa o dobro ou o triplo disso. O morador sai do jogo e é, assim, expelido para a periferia, onde a infraestrutura é deficiente. Outros não aceitam, mas aí a solução vem a cavalo. ” Uma socióloga na Lapa ficou psicologicamente comprometida com o cerco da incorporadora”, diz Ros Mari. Ela se recusou a vender seu sobrado, mas conseguiu resistir apenas um ano. A casa ficou isolada em meio a três prédios. Ela dizia que estava cercada de inimigos: era o barulho do bate-estaca o dia inteiro, cimento que caia no quintal, até que ela capitulou. Vendeu e logo em seguida a casa foi abaixo. Eles acompanham tudo. Chegam a saber se a pessoa tem idade, se está doente, se está prestes a morrer e contactam os herdeiros. “Com isso vão criando um  banco de terras imenso. Essas grandes incorporadoras têm milhões de metros quadrados de terras. Um tsunâmi nos espreita”.

“Basta de demoler!”

Douglas Nascimento, jornalista que mantém o site São Paulo Abandonada & Antiga, acabou de chegar da Argentina. Lá conversou com um grupo chamado “Basta de Demoler”, chega de demolir em português. “Eles são bravos. Sabem onde vão demolir,  vão à casa do dono da incorporadora, pixam no muro ‘Basta de demoler, carajo!’, cercam a casa e fazem piquete”.

Aqui a história é outra. Ano passado ele fotografou para o seu site um casarão na rua Machado de Assis, na Aclimação. No começo de abril desse ano a família que construiu a mansão em 1920 entrou em contato com ele. O filho do arquiteto regozijava com emoção o fato de ter passado a infância no local. Ainda na Argentina, um internauta escreveu para Douglas: “Cara, eu acho que esse endereço está errado, não tem nenhuma casa lá”. Ele explicou que  deveria ser um equívoco e apontou de novo o mesmo endereço. Os dois estavam certos. “Semana passada eu voltei à esquina onde havia a casa e realmente só tinha o muro”. Ele atualizou o site com a foto do cadáver. Mandou as notícias ao filho do arquiteto e ele quase teve um treco. A filha escreveu brava ao jornalista, dizendo que ele quase matou o pai. Não pense, porém, que quem tombou fica impune. Há uma multa pesada em torno de 200 reais. Isso pra quem vendeu um imóvel histórico, bem intangível, por 200 ou 300 mil reais.

É curioso o fato de as próprias incorporadoras fazerem uso da paisagem que destroem com o fim de realizarem seus imóveis. Em uma manhã de sábado, Ros Mari levou o repórter para um passeio na região da Vila Romana, xodó das construtoras, uma espécie de turismo dos horrores. Placas de demolidoras marcam o território em meio a imóveis pequenos, monumentos a uma quixotesca resistência, com suas janelas abertas para a rua. Colocam tapumes pretos em volta de terrenos vazios para esconder a obscenidade a céu aberto. O pó levantado desenha figuras no ar, prenunciando o porvir: o próprio deserto alocando seu recurso, a areia, de forma mais eficiente. No fim de semana ensolarado, idosos trafegam pelas calçadas com seus carrinhos de feira enquanto automóveis tomam sol nas ruas em um inesperado congestionamento. Mas quem sabe o quanto já esperaram no subsolo frio das garagens? Hoje paulistanos já saem de casa com um gostinho aperitivo do trânsito que vão enfrentar na rua.

Mas há quem goste, simplesmente porque pode gostar. Folco, na Penha, nunca usou tanto carro na vida. Escolhe um diferente de acordo com a ocasião, de limusines a jipes com tração nas quatro rodas. Mas para isso trai um dos atrativos dos automóveis, a finalidade do objeto em si mesmo. Ele não possui veículo na garagem, não tem uma chave para balançar e pendurar no coldre. Mesmo assim, não hesita em alugar sempre que precisa. “É muito mais barato e eu estou fazendo uma economia que você não tem ideia”. O fato de morar na Penha permite que ele faça todas as trivialidades do cotidiano a pé. “Estou ao lado do metrô, ao lado do shopping, ao lado de uma área verde grande. Se eu for morar no Jardim Anália Franco sou obrigado a ter carro, como é que eu vou andar a pé no meio dos automóveis?” Quando ele sai, às vezes demora mais de uma hora para voltar. “Vou fazer uma comprinha ao lado no shopping, levo uma hora porque encontro um, encontro outro, começo um bate papo…”

Folco compara São Paulo a Dallas: com viadutos por todos os lados, as pessoas saem de um prédio e entram no outro. Ninguém anda na calçada porque ela foi abandonada ao cocô do cachorro. Opinião divergente têm os anúncios de prédios de alto padrão. No meu passeio com Ros Mari, entramos em uma padaria para um café e logo nos tentaram convencer da mentira daquilo que tínhamos acabado de ver lá fora. Ela pega um jornal do bairro e retira o encarte de propagandas de residenciais com nomes italianos e franceses. Nele, vende-se a ideia de que a revitalização de bairros “decadentes” é a nova tendência mundial. As referências são o Soho novaiorquino, Puerto Madero em Buenos Aires e o Sesc fábrica Pompéia. Nas fotos, os futuros prédios têm o horizonte limpo e azul, visão privilegiada de parques. O único entrave à visão do infinito são os raios do sol. Espio pela janela para conferir. Vejo prédios tímidos e cabisbaixos com sua imponência natural reduzida no aperto claustrofóbico.

São os paliteiros: a imagem de uma caixa de palitos de dente Gina olhada pelo alto, todos unidos. Ros Mari caminha com medo ao lado dos muros de cinco metros de altura . “Antigamente havia casarios, a rua conversava com a casa, as pessoas ficavam na porta, papeavam com seus vizinhos. Nesses bunkers é impossível. Isso aqui à noite vira um cemitério, um deserto. A gente vira refém no próprio bairro”. Ela evoca o conceito original que a Antiguidade deu à Urbe: espaço de convívio, aglomeração e troca. Para quem vive enfurnado nos pombais, troca é só no shopping. Nas ruas, o homem de preto, estático na frente do portão, comanda o entra e sai de carros. O outro homem ao lado, também de terno preto e óculos escuros, olha desconfiado quem passa na rua.

Um manifesto autofágico

A construção de prédios na região da Lapa mostra com clareza a capacidade do capitalismo de se recriar criativamente, com a finalidade explícita de reprodução. Se necessário, através da autofagia, com eficácia de dar inveja a Oswald de Andrade. A verticalização não nutre respeito pelas memórias da revolução industrial. Ros Mari lembra do caso em que essa digestão teve gosto de biscoito: a destruição da fábrica Petybon, na quadra das ruas Aurélia, Fábia e Tito, um dos últimos resquícios das indústrias do conde Matarazzo.”Todo mundo ia lá na fábrica comprar biscoito, o perfume dele era sentido em toda região. Aquilo ficou na memória de gerações de paulistas”. Quando a fábrica foi desativada os moradores travaram uma luta pra que ela permanecesse em pé. Ros Mari sugere usos alternativos como centro de lazer, a exemplo do Sesc Pompéia, escritórios ou faculdades. A comunidade solicitou à Justiça uma liminar para impedir o tombamento do imóvel numa sexta-feira. O proprietário ficou sabendo e tombou ele mesmo antes: em um sábado e domingo, antes do julgamento da liminar, máquinas de grande porte entraram no terreno e colocaram o prédio abaixo. No lugar da produção fabril existem cinco torres de vinte andares em tons pastéis, erguidos com o equilíbrio, a clareza e a harmonia de uma acrópole, o carimbo que as incorporadoras vão espalhando pela cidade.

E a história de São Paulo se repete como farça. No fim do século XIX e no começo do XX os barões do café viviam em suas fazendas no interior de São Paulo e tinham que negociar o produto em Santos. Trens de Bauru, Riberão Preto, Limeira, entre outras cidades do “Oeste Paulista”,  paravam em São Paulo para continuar a viagem ao litoral. Como o trajeto era longo, os barões decidiram vir morar direto na capital. A cidade, até então pequena e insignificante, começou a crescer. Os barões construiram suas mansões em estilo francês no centro da cidade, perto das estações Sorocabana, hoje Julio Prestes, e da Luz, em um bairro que se pretendia a encarnação dos Champs Elysées parisienses.

Fizeram tudo isso em cima da cidade colônia. “Hoje você praticamente não tem referências daquela época. Quando eu vou a Parati, eu vejo a cidade colônia. Em São Paulo é como se esse período não tivesse existido”, diz Douglas. O próprio Pateo do Colégio, onde o Padre Manuel de Paiva celebrou a missa que oficializou a fundação do Colégio de São Paulo de Piratininga, é uma reconstrução. Foi demolido antes.  “Achavam cafona e derrubaram. Vai lá dentro hoje e tem um pedaço do que sobrou, um muro dentro de um vidro. E esse foi o processo feito na cidade inteira. Parece que a cidade surgiu nos anos 20, quando ela tem quase 457 anos”.

Os empresários de hoje repetem os barões do café. Para Douglas, as construtoras vão passar para história, daqui a 50, 100 anos, como as grandes genocidas da cidade de São Paulo. As perspectivas não o desmentem. Basta lembrar do prefeito Gilberto Kassab, cassado por suposto recebimento de doações ilegais do Secovi, o Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo, junto com 13 vereadores. Ou o fato de que o vereador Domingos Dissei, dona da Dissei Construtora, preside a Comissão de Política Urbana da prefeitura e conduz sem causar escândalo o planejamento da cidade.

* O título desta reportagem foi tirado do sexto livro de Berlin Alexanderplatz, do alemão Alfred Döblin. Berlin, aliás, que mesmo após os traumas do século XX não mediu esforços para reconstruir sua memória e sua identidade.

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