1º semestre de 2010

Fé e esperança

Como igrejas evangélicas trabalham a serviço da espera alheia

Por Eliseu Barreira Junior e Stephany Tiveron


– Voltei para a Igreja Universal do Reino de Deus há um mês. Eu cresci na Universal e nunca fui para o mundo. Me casei e, depois de dois anos, meu esposo decidiu frequentar a [Igreja] Mundial [do Poder de Deus]. Fui com ele por submissão. A princípio estava me sentindo bem, mas minha vida espiritual foi caindo a cada dia que se passava. Começaram a aparecer problemas de saúde que nunca tive. Mas continuava quietinha, acompanhando o meu esposo. Este ano, no final de janeiro, decidi pela minha vida e voltei para a Universal. Sozinha. Meu marido concordou, mas no fundo ele não quer que eu vá, pois me critica todos os dias. Quer que eu vá com ele lá na Mundial e disse que não está contente com essa situação. Muitas vezes, ele me trata muito mal, é áspero nas palavras e me humilha na frente dos meus pais e de seus parentes, gritando comigo se eu vacilar em alguma palavra ou atitude. Estou feliz, pois me reencontrei com o Senhor Jesus na Universal. Fui curada. Eu nem sabia mais o que era ter a presença de Deus.

O relato acima foi publicado no dia 14 de março no blog do bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. A história é reflexo de uma luta silenciosa que duas das mais controvertidas denominações neopentecostais do Brasil vêm travando em nome dos corações e mentes de pessoas que procuram ajuda espiritual movidas por angústias, ansiedades, doenças, misérias e outros sofrimentos. De um lado, está o profissionalismo da Universal, criada em 1977; do outro, o improviso da Igreja Mundial do Poder de Deus, fundada em 1998 pelo autodenominado apóstolo Valdemiro Santiago de Oliveira. Nos 5200 templos de Macedo e nos 2350 de Oliveira, materializam-se diariamente correntes de libertação do diabo e de sua ação sobre a vida dos fiéis, espetáculos produzidos por pastores que buscam fornecer respostas para aflições de diferentes tipos e arrecadação de dinheiro “para a honra de Deus”. Mais do que isso: é por meio de mensagens transmitidas de forma elaborada ou não que Universal e Mundial se comunicam com aqueles que vão até seus cultos cansados de esperar pela cura, pelo crescimento financeiro, por uma vida melhor.

À espera de um milagre

A poucos metros do templo-sede da Igreja Mundial do Poder de Deus no bairro do Brás, São Paulo, vendedores ambulantes disputam a atenção de fiéis que caminham em procissão até o culto de Valdemiro. Bíblias de todos os tamanhos e cores, CDs e DVDs gospel falsificados e espetos de queijo coalho são alguns dos produtos oferecidos. No mercado a céu aberto, um mendigo implora por uma moeda; outro dorme protegido do frio por sujas cobertas de lã. Paradoxalmente, uma vendedora de bebidas alerta para o calor dentro do templo de 43 mil metros quadrados, antes utilizado por uma fábrica, e aproveita para faturar uns trocados. Naquela manhã de domingo, o número 439 da rua Carneiro Leão estava apinhado de gente: pelo menos 15 mil pessoas.

Em meio à multidão, Tatiana observa apreensiva o cenário que vê pela primeira vez – com cinco minutos de atraso é difícil até mesmo encontrar espaço para assistir ao culto em pé. A solução é ver Valdemiro por meio dos seis telões espalhados pela igreja. Com 16 anos de idade, cursando o primeiro ano do Ensino Médio e batizada na Congregação Cristã do Brasil, a garota foi convidada por um colega de sala a conhecer a Mundial. Wilton, diz ela, costumava propagandear as mudanças que sua vida sofreu depois que começara a frequentar a igreja. À procura de paz espiritual, ela espera encontrar na palavra de Deus respostas para suas aflições.

Filha de pais divorciados, Tatiana mora com a mãe, o padrasto e o meio-irmão de dois anos de idade. A mulher trabalha como empregada doméstica, fica praticamente o dia todo fora de casa e ainda sofre com as dores de um problema ortopédico há cinco anos. Seu marido é taxista, tem problemas no coração, mas mesmo assim abusa do álcool e do cigarro. O ambiente doméstico não é dos melhores. Tatiana ajuda a mãe como pode: durante o dia, cuida do irmão pequeno, lava roupa e faz o trabalho pesado da casa; à noite, vai para a escola. Ela quer ter um futuro diferente. Seu sonho é fazer faculdade para trabalhar como secretária. Diante da situação, indaga-se: “Só Deus para ajudar, né? Sem ele, a gente não é nada.”

Valdemiro parece compreender tais sentimentos. De cima do altar, que mais parece uma arena, prega a “palavra de Deus” por cerca de três horas ininterruptas iluminado por refletores que emitem uma forte luz branca. Enquanto discursa, anda de um lado para o outro secando o suor com uma toalha de rosto azul clara, disputada ferozmente pelos fiéis após o culto. O religioso faz questão de se definir como “homem do mato”, “roceiro” ou “comedor de angu”. Natural da cidade de Palmas, interior de Minas Gerais, ele exibe um forte sotaque mineiro em uma fala rouca, com erros de português e mal elaborada. Tudo captado pelas lentes de quatro câmeras que transmitem o culto ao vivo pela televisão. Tatiana está atenta às palavras daquele homem que é tratado como um profeta milagreiro pelos mais fervorosos seguidores da Mundial.

Após alguns cânticos, em que o chão chega a tremer tamanha a devoção dos fiéis, Valdemiro se dirige aos corações daqueles sofredores com as constantes investidas do diabo. Pede que todos fechem os olhos e coloquem as mãos sobre a cabeça. Tatiana obedece. Começa o exorcismo coletivo. Evocando Jesus Cristo para que a Aids, o câncer, a cegueira, a surdez, a paralisia, as ideias de suicídio e as dores do corpo e da alma “saiam” de dentro dos fiéis, o apóstolo ordena: “Diabo que age no corpo dessas pessoas, saia agora!”. A plateia acompanha o ritual gritando “Sai!”. Todos erguem as mãos como que para expulsar o mal que estaria no interior de seus corpos.

São cerca de 30 mil braços fazendo movimentos sincronizados. Nos quatro cantos do templo, ouvem-se gritos de dor, medo, horror. “É o diabo que estava agindo no corpo desse povo”, diz Valdemiro. “Isso mesmo, podem gritar. Gritem, gente! Ele está lutando porque não quer sair”, incita. Dezenas de obreiros e obreiras que circulam pelo templo vão de encontro aos fiéis mais escandalosos e fazem a expulsão do “coisa ruim” pessoalmente. Enquanto isso, a “Brigada Mundial”, formada por membros da igreja uniformizados como bombeiros e baseados em pontos estratégicos do prédio, cruza a igreja carregando pessoas que passaram mal por conta da emoção ou do ambiente abafado. Minutos depois, Valdemiro mostra os milagres de cura que a sessão de descarrego coletiva teria produzido.

Acompanhado por um cinegrafista e com um microfone em punho, o religioso começa a entrevistar fiéis que teriam sido “agraciados” com milagres.

– Qual era o seu problema, minha filha?

– Era minha mãe que não enxergava, nem conseguia andar.

– E ela tá vendo agora?

– Tá, sim. Ela voltou a enxergar.

– E ela não andava também?

– Não.

– E agora ela anda?

– Anda… – responde a mulher emocionada.

– Pera aí… Traz ela (sic) aqui. Deixa eu ver se ela tá andando e vendo mesmo!

A mulher, de 89 anos de idade, sobe as escadas que levam ao altar.

– Vem me dar um abraço, vem – diz Valdemiro.

Ele anda de um lado para o outro como que para testar se a senhora consegue vê-lo. A mulher vai em sua direção. A plateia, à loucura.

– Quer dizer então que a senhora não andava, nem enxergava? – pergunta o apóstolo novamente.

– Não! – responde.

Os dois se abraçam. Todos começam a aplaudir efusivamente. A câmera registra o momento. Vários fiéis gritam “Glórias” e “Aleluais”. Valdemiro pergunta à mulher:

– A senhora está feliz agora?

– Muito.

Ao fundo, a banda gospel toca acordes no piano que reforçam o caráter emocional do momento.

– Há quanto tempo sua mãe tinha isso?

– Ah, faz tempo.

– E os médicos diziam o que pra você?

– Que não tinha jeito, que o problema da minha mãe não tinha mais como resolver.

– E agora ela se curou?

– É. Depois que a gente começou a frequentar a Mundial, ela se curou.

– Glorifica de pé, Jesus! – grita Valdemiro. Ele se dirige à idosa.

– Olha para sua filha, olha. Você tá vendo ela, né? Dá um abraço na sua filha.

As duas se abraçam. A plateia aplaude mais uma vez. Valdemiro parece se emocionar.

– Ela tá curada, então?

– Tá curada em nome do Senhor Jesus! – responde a filha.

O apóstolo pede que a mulher conte a história novamente.

– Ela tinha o que mesmo?

E todo caso é repetido. A cena ocorrerá outras vezes. Mais histórias de supostas curas serão exibidas para a igreja, sempre em polvorosa. Muitos ali se emocionam. Tatiana fica admirada.

Ela ainda não sabe, mas a igreja que começou a frequentar é chefiada por um homem com uma história de vida cinematográfica. Em 20 de maio de 1996, Valdemiro, hoje com 46 anos de idade, estava em viagem com alguns amigos por Moçambique, na África. Eles decidiram pescar em alto mar. A 20 quilômetros de distância da praia, o barco começou a afundar. Valdemiro, com 153 quilos na época, teria distribuído os únicos três coletes salva-vidas do barco entre os companheiros e disse que nadaria em direção à praia para obter ajuda. O apóstolo conta que durante quinze horas nadou contra a correnteza, teve um pedaço de uma de suas pernas arrancado por um tubarão branco e os olhos queimados por águas-vivas gigantes. O socorro teria sido enviado por Deus: ele afirma que ficou inconsciente por algum tempo e que, ao acordar, era carregado por dois anjos. Estava salvo.

Durante 18 anos, Valdemiro foi pastor e bispo da Igreja Universal do Reino de Deus. Discípulo de Edir Macedo, ele acabou se desentendendo com o patrão após consagrar um novo bispo para a igreja – tarefa que Macedo faz questão de executar pessoalmente. Em 1998, foi expulso da Universal. No mesmo ano, na cidade de Sorocaba, a 90 km da capital paulista, realizou uma pequena reunião familiar com a esposa Franciléa Santiago e outros membros da família. Nascia ali a Igreja Mundial do Poder de Deus. Além dos templos espalhados pelo Brasil, a denominação possui hoje sedes em Buenos Aires, Moçambique, Colômbia, Japão, Paraguai, Portugal, Suíça e Uruguai. A Mundial ainda compra 22 horas diárias da programação do canal 21, da rede Bandeirantes, para transmitir sua mensagem.

Curandeiro

Desde que sobreviveu ao naufrágio, Valdemiro teve a certeza de que deveria ajudar os necessitados com seu “poder”. Em doze anos de Mundial, o apóstolo já traz no currículo a cura de uma doença que até agora nenhum cientista conseguiu obter: a cura da Aids. No site da igreja, há relatos de pessoas que teriam se livrado do HIV. “Eu pesava 35 quilos, tinha várias feridas no rosto, fora as dores no corpo”, diz uma mulher em um vídeo. “Não conseguia andar, mas graças a Deus eu me sinto fortalecida agora. Fui curada depois que você me abençoou, Valdemiro. Não tenho mais Aids”. Movidos por histórias como essas, os fiéis fazem verdadeiras romarias ao templo do Brás da Mundial. Deficientes físicos, cegos, pessoas em cadeiras de rodas, pessoas com câncer vêm ao local. Eles estão à espera da cura. Quando não podem se dirigir à igreja, contam com a ajuda de parentes que trazem fotos, objetos pessoais e garrafas d’água para serem abençoados por Valdemiro ou por algum obreiro.

Foi um dos supostos milagres exibidos por Valdemiro em seus cultos que levou a costureira Auri, de 52 anos de idade, a se tornar fiel da Mundial – e fã do apóstolo. Certa noite, ela zapeava pelos canais da televisão do seu quarto quando a pregação daquele homem moreno “de fala simples” chamou sua atenção. Naquele dia, Valdemiro apresentava a história de um rapaz que havia recuperado a fala e a visão depois que começou a frequentar a igreja. Auri ficou espantada com o caso. “Eu pensei: ‘esse pastor é especial’.” A partir daí, não perdeu mais nenhum dos cultos transmitidos pelo canal 21. “Costumava ler a Bíblia, mas não tinha nenhuma religião”, diz. “Ficava incomodada com o comércio que muitas igrejas fazem. Percebi que na Mundial era diferente e decidi me converter”. Auri traz na cabeça um chapéu de caubói semelhante ao que Valdemiro usa em algumas celebrações. Em troca de uma oferta de R$ 10, “recebeu” o objeto de um obreiro.

Diferentemente de Tatiana, Auri, moradora de Goiânia, chegou cedo à Mundial. É a primeira vez que assiste a um culto do apóstolo Valdemiro ao vivo. Às três horas da manhã, ela e sua caravana já se postavam diante de um dos portões do prédio. “Para conseguir um lugar próximo ao altar, é comum as pessoas madrugarem”, afirma uma simpática obreira. A pedido dos fiéis madrugadores, as portas do templo foram abertas às quatro da manhã. Ao entrar, tiveram um surpresa. Valdemiro orava no altar ao lado de sua esposa. Auri e outros 150 “sortudos” evangélicos receberam pessoalmente a bênção do apóstolo. “Fiquei muito emocionada”, conta Auri. “Tem gente que vem sempre aqui e nunca consegue tocar nele. Eu consegui”, diz orgulhosa. Ela também já teve sua vida mudada por um milagre. Auri conta que depois que começou a frequentar a Mundial, sua vida financeira melhorou. “As dores que eu tinha pelo corpo também sumiram”, afirma.

Para Ricardo Bitun, sociólogo e autor da tese Neopentecostalismo e sua Inserção no Mercado Moderno, o crescimento da igreja Mundial não se dá apenas pela propagação da ideia de cura divina. Segundo ele, Valdemiro é carismático e sabe utilizar os meios de comunicação de massa, principalmente a televisão, assim como aproveitar o momento pelo qual a sociedade brasileira está passando. Ricardo é categórico ao afirmar que a Mundial não está roubando fiéis de outras denominações evangélicas: “A palavra não é roubar e sim oferecer algo religioso que o povo está desejando.”

O valor da espera

Não é sempre que Valdemiro e sua igreja conseguem realizar curas instantâneas ou trazer crescimento financeiro. Para acalmar os fiéis mais ansiosos por uma vida melhor, a Mundial precisa recorrer às sagradas escrituras. “Quem tem pressa come cru, tudo tem seu tempo determinado por Deus”, ensina o bispo Sílvio Camargo durante um culto numa segunda-feira de manhã no templo do Brás. Após uma sessão de exorcismo coletiva em que alguns pessoas se disseram curadas de várias doenças, ele se dirige aos menos sortudos. “O que é a ansiedade?”, pergunta Sílvio à plateia. De modo didático, o bispo explica o sentimento fazendo uma analogia com o tempo que leva uma gravidez. Em seguida, cita o versículo 25, presente no capítulo 6 do livro de Mateus: “Por isso, vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as vestes?”. Logo, ordena: “Não andeis ansiosos. Diga isso ao irmão que está ao seu lado”. E, com obediência, todos se viram e aconselham uns aos outros. “Amém”, diz o bispo.

Para alcançar a graça divina, é preciso ter fé, é preciso esperar. A ansiedade, mostra a Mundial, é sinônimo de falta de confiança em Deus e atrapalha a vida do fiel – “porque tudo parece demorar mais”. As contas da igreja, porém, não esperam. Os custos com a transmissão televisiva dos cultos têm data de vencimento, lembra Valdemiro em sua celebração. Cabe, portanto, aos fiéis contribuir para que mais pessoas recebam ajuda espiritual. Tais argumentos são a deixa para o pedido do dízimo. Na Mundial, ele pode ser dado de diversas maneiras. “Socorro para a Obra de Deus”, “Dízimo da Alegria”, “Oferta Especial Ouro” são os nomes estampados nos envelopes em que os reais devem ser colocados. Todos os valores são bem-vindos: “Quem pode dar hoje R$ 100? E R$ 50? E R$ 30? E R$ 20? E R$ 10?”, pergunta o apóstolo. Caso prefira, o doador também pode ajudar com um depósito bancário em uma das três contas mantidas pela igreja em bancos distintos. Para os mais assíduos, existe ainda a possibilidade de se associar à “Coluna Fiel”. Por meio de inscrição e pagamento de uma taxa de R$50, a pessoa recebe uma carteirinha que comprova sua filiação. Uma cópia do documento é levada pelo apóstolo Valdemiro para o “Monte de São Roque” (SP) e abençoada no local por ele. Além das palavras de conforto, os frequentadores da igreja contam com a estrutura de duas lanchotes, uma loja de produtos golpel e diversas barracas espalhadas pelo galpão que comercializam os produtos mais solicitados como DVDs e CDs da Mundial.

Um levantamento da Fundação Getúlio Vargas divulgado em 2007 aponta que embora somem 73,79% da população brasileira, os católicos respondem por 30,9% do total de dízimos pagos no país. A diferença acontece porque, apesar de o grupo representar 57,7% do total de contribuintes, as famílias doam, em média, 0,54% da renda. Por outro lado, os evangélicos pentecostais, que são 12,5% da população brasileira, são os que mais contribuem com o dízimo. Em média, esse grupo doa 2,26% da renda familiar, o que representa 44% do total de dízimos pagos. Com 5,4% dos fiéis, os evangélicos tradicionais representam o terceiro maior grupo religioso do país e somam 22,7% do total de dízimos pagos. Em média, o grupo contribui com 1,48% da renda familiar. Somados, evangélicos pentecostais e tradicionais doam 66,7% dos dízimos pagos no Brasil.

No mercado da fé, Mundial e Universal travam uma verdadeira guerra santa por tais doadores. “A disputa acontece porque existe um grupo de pessoas desejando consumir e ouvir aquilo que o neopentecostalismo tem a dizer”, diz Ricardo Bitun. “Caso contrário, a lei do mercado é severa: quem não tem competência não se estabelece.” Naquele domingo, Tatiana era uma dessas consumidoras. Ao final do culto, já programava a volta da semana seguinte. Fora arrebanhada.

A figura do “encosto” na Universal

– A minha família chegou à igreja Universal porque ao longo de dezessete anos foi guiada por “encostos”. Nós éramos totalmente manipulados. Em alguns momentos, essa influência parecia positiva. Havia situações em que eles davam sinais de que sua ajuda espiritual funcionava, mas depois fechavam as portas, puxavam o nosso tapete e caíamos. A esperança de viver tempos melhores era constante. Adeptos da chamada linha branca da umbanda, fazíamos “trabalhos” em busca de novas conquistas. Todo ano era a mesma coisa. Sempre participávamos de festas em homenagem a Iemanjá, Jurema, Ogum, Xangô, meu guia espiritual, e Cabocla Iara. Mesmo assim, passávamos por sérias dificuldades. O casamento dos meus pais era um fracasso. A vida sentimental e financeira da minha irmã era uma droga. Eu tinha uma doença incurável. Nossa vida era um inferno. Procurávamos os “encostos” e eles prometiam uma vida melhor. Vivíamos esperando por isso. Até que um dia decidimos buscar por Deus. A partir daí, tudo mudou. Quando somos guiados por Deus, Ele provê o que precisamos. Ele supera nossas expectativas.

É manhã de quarta-feira. Dia de culto para o “Crescimento pessoal” na Igreja Universal do Reino de Deus. No número 1800 da avenida João Dias, na zona Sul da cidade de São Paulo, cerca de cem, das seis mil poltronas de couro marrom disponíveis, estão ocupadas por fiéis que vieram assistir ao culto do pastor Carlos Henrique. É dele o depoimento acima. O jovem pastor anda de um lado para o outro tentando mostrar para a plateia as benesses de uma vida “controlada pelo Espírito Santo”. Para fazê-lo, recorre a uma experiência familiar. Nos cultos da Universal, é comum a associação das chamadas religiões mediúnicas, como o Candomblé e a Umbanda, a um passado repleto de infortúnios e falsas expectativas, só superados com a adesão à igreja. É por meio do ataque às religiões afro-brasileiras que a Universal cresceu no mercado da fé e conquistou 1,5% dos cerca de 34 milhões de evangélicos do país. Parte dos fiéis da igreja e pastores, como Carlos Henrique, são egressos dessas religiões.

Diferentemente dos cultos improvisados e espalhafatosos da Igreja Mundial do Poder de Deus, as celebrações da Universal são mais elaboradas, reflexo dos 33 anos de existência da instituição. Como é comum na história das igrejas neopentecostais, a Universal nasceu da dissidência de outras igrejas. O pesquisador Ronaldo de Almeida mostra no livro A Igreja Universal e seus demônios que ela é fruto de uma complicada ramificação. Roberto Augusto e os cunhados Edir Macedo e Romildo Soares, fundadores da Universal, pertenceram à Igreja Nova Vida, cujo fundador, Roberto Maclinster, teve passagem pela Assembleia de Deus. Graças a sua liderança marcante, Macedo acabou ampliando seu poder dentro da instituição e sua ascendência sobre os fiéis. O resultado produzido foram outros cismas: Roberto e Romildo acabaram se desentendendo com o bispo e saíram da organização.

Sob o comando de Edir Macedo, a Universal se converteu num império. A grandiosidade do templo da João Dias é um exemplo disso. Com 4762 metros quadrados, o prédio não lembra nem um pouco as instalações precárias da Mundial no bairro do Brás. No teto da igreja, há uma enorme cruz construída com vidros coloridos, desenho que se repete em proporções menores nas janelas laterais. O altar tem uma decoração de gosto duvidoso. Ele tenta imitar vitrais de igrejas católicas. No palco, há algumas poltronas de madeira, um piano e um púlpito. Nas paredes, dois enormes outdoors em que se lê o seguinte versículo bíblico: “E, se alguém Me servir, o Pai o honrará (João 12:26)”. Pelo local, é possível identificar uma das principais inovações da Igreja Universal em sua expansão: a construção de templos enormes próximos a vias de grande movimento. “Esse tipo de prédio visa a dois objetivos: visibilidade e adesão em massa”, diz Ronaldo de Almeida em seu livro.

Carlos Henrique não usa o altar da suntuosa igreja. Para ficar mais perto dos poucos fiéis que participam da celebração daquela manhã, está posicionado logo à frente da primeira fileira. Depois de dar seu testemunho pessoal, ele canta, acompanhado pelo músico ao piano, um famoso hino entre os evangélicos. Mais uma vez, a mensagem é sobre o guia que controla a vida de cada um:

Espírito Santo meu guia

Assopra em meu ser a vida

Tu és a essência de Deus

E luz para os caminhos meus

Espírito Santo meu bem

A maior riqueza de alguém

O pão nosso de cada dia

Que trago nesta melodia

O fôlego santo

Que cura e liberta de Deus

Vento Consolador

Após uma repetição da última estrofe, o músico para de cantar, mas permanece tocando notas que criam um ambiente emotivo. Elas dão um fundo musical suave para o ambiente. O jovem pastor continua a pregação.

– Nós não precisamos viver segundo as vontades do mundo. Temos o livre direito de escolha. Você pode escolher o que quiser para a sua vida. Amém, pessoal?! – questiona.

– Amém! – responde a igreja.

– Você pode servir a sua própria vontade ou servir a Deus. Mas não é Deus que fará essa escolha por você. É você quem escolhe. Você tem o direito de escolher o que come, veste, estuda. TUDO! Inclusive, a respeito da sua vida espiritual. Você pode escolher ser de Deus ou não! – grita Carlos Henrique. Agora, qual a sua escolha? O que você tem escolhido ao longo da sua vida? O resultado da sua vida hoje é o resultado do que você plantou ontem. E você colherá amanhã o que plantar agora. Você quer ser filho de Deus? Quer que Ele cuide de você? Quer tê-Lo como seu pai? Então, tenha Deus como seu guia.

Carlos Henrique busca tornar seu raciocínio mais simples demonstrando os malefícios resultantes de uma vida sem Deus por meio da analogia com a figura de um guia turístico. Sob a supervisão dessa pessoa “não corremos o risco de cair na jaula de animais perigosos, assim como sob as orientações de Deus não corremos o risco de ir em direção ao mal”, explica o pastor. Porém, “ninguém disse que vai ser fácil, o caminho da fé é tortuoso e repleto de lutas”. “A diferença é que com Deus em sua vida você vai enfretar os obstáculos com um guia”, prega Carlos Henrique. Em seguida, todos são orientados a se levantar e o piano prossegue criando o ambiente de consternação desejado. Cerca de cinquenta obreiros espalhados entre os fiéis começam a andar lentamente pelos corredores e fileiras prestando atenção ao público.

– Agora, nós vamos buscar essa troca com o Espírito Santo. Ponha pra fora tudo o que você sente. Fechem os olhos, por favor. Deus, derrama o Teu poder sobre nós nessa manhã. Venha tomar a direção do meu ser, dos meus passos, da minha vontade. Sabemos, meu pai, que o Senhor quer fazer isso e estamos dando a liberdade para agir. Faz, meu Deus, com que essas pessoas que há muito tempo viviam sem direção a partir de agora sejam guiadas pelo Senhor, sejam fortalecidas pela Sua presença. Venha agora Espírito Santo! Venha agora ao nosso encontro! Venha nos fortalecer! Venha nos guiar e fazer a Tua vontade em nós! Em nome do Senhor Jesus! – diz Carlos Henrique com uma fala mais exaltada.

A música “Vem agora Espírito Santo” começa a ser tocada. O culto atinge seu clímax. A igreja entra em êxtase.

Vem agora Espírito Santo

eu estou aqui

Deixa Tua unção fluir e me tocar

Meu Senhor meu Rei é Teu

este meu coração

Vem recebe hoje a minha adoração

Quero ser oferta viva

em Teu altar, meu Pai

minha vida eu entrego em Tuas mãos

mesmo que não haja em mim

palavras pra dizer

quando o Teu amor invade o meu viver

Toca em minha vida Espírito Santo

Vem me envolver Espírito Santo

E me renovar Espírito Santo

Faz o Teu querer Espírito Santo

Auxiliado por um microfone, a oração de Carlos Henrique adquire um tom mais alto, incisivo e cadenciado. Nesse momento, todo o público já está exaltado e também ora aos berros. “Espírito Santo tenha liberdade para agir. Nós queremos ser MANIFESTADOS pelo Seu Espírito! Queremos ser possuídos pelo Senhor para que possamos ser conduzidos ao sucesso, à vitória, à salvação! Venha Deus! Aleluias!”, exclama Carlos Henrique acompanhado pela plateia. Um novo cântico tem início. A invocação do Espírito Santo chega ao fim. Segundo o pastor, Ele já estaria entre os fiéis, que rezam com as mãos levantadas tentando alcançá-Lo.

– Mantenha a sua mão estendida ao céu, porque agora Jesus estende a mão Dele a você. Ele segura nas mãos do senhor, da senhora que estavam perdidos no meio de uma grande tempestade para conduzi-los a uma vida abençoada. Pessoal, coloquem as mãos no seu coração e percebam a paz. Recebam o Espírito Santo. Você que estava pensando em desistir, você que estava enfraquecido, que andava triste, receba a força, a alegria, o gozo da alma. Aleluia! Muito obrigado, meu Deus, pela Tua presença. Muito obrigado pela paz que sentimos agora. Muito obrigado pela Tua misericórdia.

Uma mulher na plateia chora compulsivamente. Chega até a se ajoelhar. Ela não é a única. Há várias pessoas aos prantos. A oração termina. Os fiéis foram libertos dos sofrimentos e receberam o socorro divino. A emoção se confunde com o entusiasmo que toma conta da igreja. Todos parecem certos de que receberão a ajuda de Deus e aplaudem fortemente. “Aleluias!”. Enquanto os fiéis ainda se recuperam do êxtase coletivo e limpam as lágrimas do rosto, Carlos Henrique pede para que se sentem. “É hora de honrar a Deus com a sua oferta, os seus dízimos, a sua fidelidade”, diz.

O pastor conta que a Universal possui um grande trabalho de evangelização nos hospitais para pacientes à beira da morte. A seu pedido, os obreiros chegam carregando algumas pilhas de bíblias novas. “Hoje, se você fizer uma oferta de dez reais, poderá separar uma dessas bíblias para nossos evangelistas levarem até os doentes. Se você quiser, é claro”, afirma. “Espero contar com a sua ajuda para poder dar a palavra de Deus para aqueles que estão no último minuto das suas vidas, no último momento de esperança”. Como na pregação sobre os “encostos”, Carlos Henrique recorre a uma história pessoal para convencer os fiéis. Ele diz que sua avó levou uma vida guiada somente segundo as próprias vontades e que sofreu muito por causa disso. Até que aos 97 anos de idade, com esclerose múltipla e na cama de um hospital, teria aceitado Jesus. “Minha mãe era obreira e mostrou Deus para ela”, conta. “Vejam só como esse tipo de trabalho nos hospitais é importante.”

Uma mulher entra no templo com o alforge, um saco de pano azul marinho em que as contribuições serão depositadas. O pastor prossegue com seu discurso. “Quantos de vocês podem fazer uma oferta para separar essas bíblias?”, indaga. Ele mesmo responde simulando o pensamento de um fiel que estaria inclinado a doar. “’Olha, pastor, eu posso. Tenho aqui a minha oferta de R$ 100, R$ 50, R$ 30, R$ 20, R$ 10′. Pode vir aqui pra frente. Que seja uma bíblia que você separe, será uma alma de um doente ganha. Você pode estar certo disso. ‘Mas, pastor, eu trouxe minha oferta de R$ 5, R$ 4, R$ 3, R$ 2, R$ 1’. Traga também sua oferta de fé”. Boa parte dos fiéis se levanta para colocar seus dízimos no saco. Enquanto isso, o músico ao piano canta e Carlos Henrique ora pelos dizimistas.

Ao término da doação coletiva, ele lembra a todos que no dia 6 de junho ocorrerá a consagração dos dizimistas, evento que acontece mensalmente nos templos da Universal. Nele, são apresentados testemunhos que comprovariam a veracidade da palavra de Deus. “Por isso, se você quiser, de hoje até o dia 5 vá separando sua fidelidade, preparando o seu dízimo. Você trará tudo aquilo que deseja ganhar. ‘Pastor, eu quero ganhar R$ 10 mil. Hoje, eu ganho R$ 7 mil’. Então, traga R$ 700. Ou traga APENAS a sua fidelidade, porque Deus vai lhe ouvir”, afirma.

O culto chega ao fim. Carlos Henrique dá a derradeira bênção: “Deus, livra da doença, da bala perdida, da batida de trânsito, do assalto, de tudo que não presta. Acampa seus anjos ao redor dessa pessoa, da casa dela, da família dela para dar a vitória. Em nome de Jesus! E você que crê em Deus, diga amém”, ordena o pastor. “Amém!”, responde a obediente plateia. “Graças a Deus!”, conclui.

É assim que todo mês contribuições são feitas e esperanças em um futuro melhor abençoado por Deus são depositadas em cultos das igrejas Universal e Mundial espalhados pelo país – e pelo mundo. Neles, a fé adquire importância crucial para a existência daqueles descrentes nos governantes, na ciência e na vida em geral. “A palavra esperança soa bem aos ouvidos dessas pessoas”, diz o sociólogo Ricardo Bitun. “Só espera quem tem esperança.”

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Uma resposta

  1. Moraes

    Boa noite!
    Não sou membro desta igreja, mas já vi coisas absurdas também. Morei anos em Belém do Pará, e lá foi possível ver uma multidão de pessoas se pisoteando, ferindo-se por andar de joelhos para pagar promessas e em meio a uma melodia tradicional do evento choram atrás de um objeto que capacidade para andar só tem, pois precisa ser levada em uma tal berlinda, pessoas que deixaram de comer uma alimentação mais dígna para poder comprar a roupa ou objeto o qual ela havia prometido aquele ser inanimado, é o chamado Círio de Nazaré (que absurdo).

    julho 21, 2010 às 6:40 pm

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