1º semestre de 2010

Meu destino é ser star

Vidrado em música desde criança, Bruno Bellini só tem uma certeza na vida: será um rock star

Por Marcos Henrique Hiraoka

Imagens: Junior reis


É impossível ser indiferente a Bruno Bellini. O que lhe falta em beleza, sobra em carisma e espontaneidade. Fala as palavras de modo bem articulado para que o interlocutor entenda bem sua mensagem. Sempre termina suas frases com uma pergunta que só permite duas respostas: sim ou não. Claro que sua intenção é receber um sim. Bruno pode não dizer logo no início o que deseja, mas seu objetivo fica nas entrelinhas de qualquer conversa que se trave com ele: quer ser famoso através de sua música. Nessa empreitada Bruno não mede esforços. O seu e os dos outros. Mostrando um interesse incomum pelo o que o outro tem a lhe dizer, Bruno sabe fisgar a atenção alheia e, em poucos minutos, transformá-la em compaixão por sua causa. Faz isso sem lançar mão de artimanhas melodramáticas para arrebatar corações sensíveis a histórias tristes. Até porque sua trajetória não é marcada por tragédias ou momentos de superação. O que Bruno sabe fazer é deixar especial um sonho corriqueiro, ordinário mesmo, como o que ele tem. Se quisesse, poderia ser político considerando sua capacidade de persuasão e seu dom de usar as palavras em causa própria. É quase impossível conhecê-lo e não passar a torcer para que faça sucesso e atinja o estrelato. “Se esses magrelos de calça skinny e óculos coloridos estão estourados nas rádios, por que Bruno não pode chegar lá também? Rapaz tão simpático, batalhador …” É esse tipo de pensamento que o garoto  de 23 anos da Zona Leste de São Paulo provoca.

É mesmo muito difícil não se envolver quando se percebe a paixão que Bruno tem pela música. Quando ouviu Guns n’ Roses pela primeira vez com pouco mais de 10 anos, Bruno tinha traçado seu destino: ser um rock star.  O garoto que desde os seis anos brincava de ser músico com o teclado que tinha ganhado de presente do pai viu no rock uma filosofia de vida e o seu futuro ganha pão. “Depois de escutar Axl Rose, não tinha como pensar em ser astronauta!” brinca. O que parecia coisa de criança ficou sério quando aos 13 anos  entrou em sua primeira banda de rock profissional como tecladista. Bruno tinha pressa para ver seu sonho se tornar realidade. De tão ansioso que é, não conseguiu ficar mais de dois anos nessa banda e saiu para montar a sua. “Essa banda serviu como experiência sobre o que fazer e o que não fazer em uma banda. Eu era adolescente e os outros caras eram bem mais velhos. Tinham mais de 30 anos. Eles pensavam diferente de mim. Saí fora e montei a minha banda. Queria fazer algo do meu jeito. Estava cheio de garra, mas quem iria tocar comigo?” O primeiro a topar a empreitada foi o vizinho Adriano, 23 anos, mais conhecido como Goreio. Ele apareceu com um baixo assim que soube que estavam montando uma banda. “Ele não foi convidado a participar. O Goreio simplesmente chegou na  minha casa com um baixo dizendo que tocava. Estava precisando de gente e não reclamei. A vontade dele de estar na banda era tamanha que se eu dissesse que precisava de alguém que tocassem tamborim, o Goreio aprendia só para fazer parte” afirma Bruno. Com Goreio no baixo, um baterista, dois guitarristas e Bruno cantando e tocando teclado a banda estava formada. Mas ainda faltava o elemento mais importante: o nome. Sem saber como batizar sua cria, Bruno vai até o Google buscar inspiração. Não encontrou. Quem lhe ajudou nessa procura foi seu pai Paulo. Um dia ele sonhou que uma tribo de índios assistia a uma apresentação do filho e sugeriu que a banda tivesse um nome indígena. “Gostei da ideia, mas não sabia que nome dar porque as palavras indígenas que eu conheço é jacarepaguá, ibirapuera… Entrei na internet e me deparei com HE SAIKE. Gostei da sonoridade e vi que significava todo poderoso em tupi guarani. Eu curti e passei para galera. O HE SAIKE começou sendo HE SAIKE” explica Bruno.

Nos sete anos de existência do HE SAIKE, o número de integrantes diminuiu de cinco para quarto e passaram pela banda outros oito músicos. Da formação original, só restaram Bruno e Goreio. De poucas palavras e de uma timidez que chega a incomodar quem está por perto, Goreio é o exato oposto de Bruno. Pouco fala e se empenha em não chamar a atenção para si. Fica complicado saber se essa postura se deve a uma inibição genuína ou é uma forma de deixar os holofotes só para Bruno. Uma conclusão, entretanto, é certa: Goreio apóia e respeita incondicionalmente Bruno. Entre suas raríssimas declarações, o baixista revela que se não fosse por Bruno, hoje ele estaria num “mau caminho”. Essa gratidão tornou Goreio o soldado mais fiel de Bruno. Nunca discorda, nem questiona o que o líder do HE SAIKE determina. Mas não confundam essa atitude com submissão. O que acontece no fundo é um sentimento de profunda confiança. Bruno sabe onde quer chegar e cabe a Goreio acreditar em tudo o que o amigo faz.

Com um jeito hipnótico-confiante-carismático de ser que Bruno comanda com mão de ferro o HE SAIKE. Os outros dois integrantes da banda, o guitarrista Luiz, 24, e o baterista Leandro, 25, sabem que a determinação de Bruno pode levá-los a onde eles tanto almejam: o estrelato. Antes de ser parte do HE SAIKE, Luiz via a música como hobby. Em suas próprias palavras, se sentiria satisfeito só de ter uma banda de garagem para se divertir com os amigos nos fins de semana. Seu foco principal era o emprego de designer. Tudo se modificou com o convite de Bruno para integrar a banda. “Conheci o Bruno há muito tempo atrás quando trabalhei na produção de um programa de TV do qual o HE SAIKE participou. Troquei umas ideias com o Bruno e anos depois ele me ligou para ser o guitarrista da banda. Não tinha pretensão de viver disso. Por isso hesitei quando Bruno me convidou para ser o guitarrista. Ele conseguiu outro cara para guitarra e quase me estrepei. Ainda bem que três meses depois o tal guitarrista saiu e eu pude entrar”. Já Leandro colecionava um currículo de participações em banda fracassadas. Ele viu a música como uma alternativa ao sonho de seguir carreira nos tribunais. “Quando era criança queria ser advogado. Mudei de ideia ao ver a quantidade de documentos que o advogado do caso Daniela Perez teria que ler”, ri. Seu primeiro contato com a banda foi por intermédio de uma ex-namorada de Bruno. Por pouco não ficou fora da banda. “O Bruno é conhecido por sua paciência” ironiza Leandro. “No dia que ele marcou o teste para ver se eu podia entrar na banda, eu não pude ir. No dia seguinte, liguei para ele para remarcarmos. Não é que ele já tinha achado outro?” Só dois anos depois é que Leandro conseguiu entrar no HE SAIKE.

Sem empresário, nem assessores, Bruno exerce o papel de divulgador da banda. “Eu estou sempre dando a cara tapa” explica Bruno. É ele quem liga para todas as revistas tentando convencer os jornalistas que fazer uma pauta sobre o HE SAIKE vale a pena.  Até agora já apareceram em várias publicações adolescentes: Loveteen, Atrevida, Yes Teen. O empenho do vocalista do HE SAIKE para chegar às paradas musicais é tão grande que ele abdicou de uma profissão para dedicar-se exclusivamente a música. É ele quem compõe as letras da banda, negocia shows, faz o contato com a mídia. Tudo ao mesmo tempo. Bruno é a agitação em pessoa.

O caminho para se destacar do universo das infinitas bandas de garagem teve lá seus momentos bem complicados. Se antes Bruno acreditava que sua trajetória poderia ser similar ao do filme Rock Star, em que Mark Wahlberg interpreta um aspirante a cantor que é escolhido para substituir o líder de uma famosa banda de heavy metal, hoje ele entende que se o sucesso chegar será à custa de muita ralação e não dependerá de fadas-madrinha. “Já passamos por um perengue terrível há pouco mais de um ano. Como estou na estrada desde moleque conheci muita gente dessa área musical. Um cara com quem já tinha contato há um tempo quis empresariar o HE SAIKE. Ele não colocou um centavo na banda, mas nos fez crer que poderia nos ajudar a estourar. Ele já tinha trabalhado com outros grupos de rock e confiamos que ele poderia realmente fazer algo por nós. De certa forma ele nos ajudou sim. Não vou mentir para você. Ele deu uns toques legais sobre arranjo de músicas, sobre letras, mas o foda é que ele fez promessas que faríamos shows em certos lugares, que tal rádio iria nos entrevistar… Criou um mundo de possibilidades que não existiam. Todos os contatos que ele dizia ter furaram com ele e nada do que ele disse que ia rolar aconteceu. Ficamos na mesma!” lamenta Bruno.

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