1º semestre de 2010

Os últimos melhores dias

Por Marina Yamaoka e Roberta Figueira

Todos estão a espera da morte desde o momento em que nascem. Essa espera é mais notável no corredor com 10 leitos destinados a pacientes terminais do Hospital do Servidor Público. Isso não torna o ambiente mais pesado, pelo contrário, a equipe de 38 pessoas – entre elas nutricionista, psicóloga, enfermeiras, médicos, residentes e outros – são tão carinhosos que os pacientes sorriem, dão risada e vivem seus últimos dias da melhor forma possível, e têm suas vontades respeitadas.

A enfermaria do 12º andar

São 10h30 de uma quinta-feira no Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo. O hall do prédio principal é movimentado e barulhento. Pessoas andando, esperando, falando até o elevador chegar ao 12º andar. Lá está a doutora Maria Goretti Sales Maciel que explica o que acontece no ambulatório de cuidados paliativos.

Depois da conversa se inicia a caminhada pelo corredor decorado com quadros onde se encontrar os 10 leitos que constituem o ambulatório. No segundo quarto fomos convidadas a entrar. Quadro na parede, duas camas (uma para o paciente outra para o acompanhante), lá estava dona Isabel e seus filhos. Ela se alimentava com a ajuda da filha quando nos apresentamos. Isabel tivera falta de ar e dores durante a noite. Com queixas em relação ao braço começou a conversa. Pia cheia de louça, comida, dor, cuidados, perna, Gisele Büdchen, Sheila Mello, tratamento, caipirinha, coluna, cerveja, respiração, risadas, e até um certo residente com cara de bom filho, nos despedimos e deixamos dona Isabel terminar seu almoço.

Entramos em um quarto vazio, enquanto Goretti conta que alguns pacientes pedem para tirar o quadro de frente para o leito por enxergarem coisas negativas nele, me pego pensando se a pessoa que esteve ali anteriormente voltou para casa ou morreu. Continuamos o tour e conhecemos então dona Diolinda. Sua filha lia enquanto ela dormia. Abriu os olhos quando entramos no quarto. Gemeu, pouco falou durante nossa visita. Segurou minha mão, sorriu, mirou meus olhos e assim ficou durante longos minutos que sua filha preenchia falando sobre sua tristeza por seu gato que morrera aquela noite. Saímos do quarto. Antes de sair do ambulatório Goretti conta causos daquele lugar, história de gente que passou por ali. Com tanta dedicação e carinho sincero penso: bom lugar para morrer, melhor ainda para continuar vivendo.

“Nem anjo, nem demônio, eu sou normal”

Maria Goretti Sales Maciel não sonhava em se tornar médica. A vocação era desconhecida apesar de já existir dentro dela. Quando pensava em um hospital logo vinha a imagem de sangue e cirurgias que os filmes hollywoodianos tanto reproduzem, mas bastou visitar o hospital de um convento e ela mudou de ideia. Mesmo tendo desmaiado no primeiro parto que presenciou ela percebeu que a medicina ia muito além do sangue.

A motivação para a tal visita ao convento não surgiu da necessidade de saber o que prestaria no vestibular no final do ano, mas sim porque ela e as amigas queriam ir a uma festa típica do Ceará conhecer os garotos da cidade. E foi assim, querendo paquerar, que aos 17 anos a vocação encontrou a menina recifense que logo começou a estudar na Universidade Federal do Pernambuco.

Questionadora e inquieta desde essa época, Maria se uniu aos colegas de faculdade para evitar que o hospital Dom Pedro II que estava desativado fosse demolido. “Esse tipo de experiência não tem um sentido imediato, mas depois nos faz perceber coisas muito mais importantes e maiores”, diz a médica. No caso dela, fez com que percebesse que era possível lutar pelo o que acreditava e, de fato, realizar mudanças. “Eu ainda acredito que é possível termos um sistema de saúde perfeito”, desabafa a médica entre risadas.

Hoje, ela é coordenadora do Programa de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor Público Estadual e presidente da Academia Brasileira de Cuidados Paliativos. Essa área da medicina não é tão conhecida e tem suas particularidades. Na enfermaria do 12º andar só chegam os casos com poucas chances de cura e a regra não é a de prolongar a vida dos pacientes nem de encurtá-la, o importante é cuidar do bem-estar do paciente, respeitar a sua vontade e ter a certeza de que ele está confortável e sem dor.

Quando questionada sobre sua personalidade ela logo diz “nem anjo, nem demônio, eu sou normal”, mas basta presenciar uma visita da Dra. à qualquer paciente para perceber a diferença que a sua presença faz e que para os pacientes ela é toda “anjo”. Atenciosa, ela escuta as reclamações sobre dor e desconfortos e tem sempre uma palavra doce para acalmar, orientar e trazer conforto, inclusive, aos familiares. “Muitos médicos existem para curar. O nosso dever aqui é cuidar e para isso olhamos o doente e não a doença. Diante do incurável conversamos com o paciente para determinar como serão os últimos dias”, diz ela.

“Cada caso é um caso e temos que respeitar todas as particularidades”, essa frase dita inúmeras vezes demonstra o tipo de atenção dedicado aos pacientes. Um exemplo disso é a própria ficha preenchida quando alguém vem ocupar um leito, nela deve ser anotado o nome e a forma como o paciente mais gosta de ser chamado. Em cada pequeno detalhe como este é possível ver o envolvimento que a equipe tem com quem fica na enfermaria mesmo por poucos dias, enfermeiras, médicos e residentes compartilham sofrimento e tem que aprender a se despedir e a lidar com o sentimento de impotência. Não apenas as tarefas são divididas, os sentimentos também. E é com a chefia da Dra. Maria que muitos que chegam à Enfermaria começam a buscar um sentido para a sua vida.

A espera

Nova visita ao hospital, dessa vez queríamos conversar com pacientes, queríamos conhecer melhor quem aquelas pessoas eram, o que faziam, porque estavam lá, suas histórias, suas expectativas.

Dra. Goretti nos falou sobre uma paciente que teria uma história interessante para contar. Ela era médica anestesista, já havia inclusive trabalhado no Hospital do Servidor Público. Sempre ativa e independente nunca se casara, não tinha nenhum parente próximo e nos últimos anos, já bem debilitada pelo câncer que carrega há 25 anos no colo do útero, contratara duas moças que se revezam em seus cuidados.

Uma de suas “damas de companhia” estava no quarto quando nos apresentamos. A senhora muito magra e com pernas muito inchadas devido a uma infecção arrumava a carteira enquanto a moça que a chamava sempre respeitosamente de Dra. auxiliava na tarefa. Conversamos pouco, ela estava cansada e não parecia a vontade para falar de si. Ela disse que não gostava de estar ali e precisar de cuidados, que estava acostumada a cuidar dos outros e não ser cuidada. Depois de alguns minutos de conversa pediu que voltássemos a conversar em 10 dias, quando ela já estivesse em casa.

Fomos novamente ao encontro do médicos que faziam as visitas a todos os pacientes. Estavam saindo de um quarto, o senhor que ali estava há dias havia acabado de falecer. Seu filho o abraçava em lágrimas quando a porta se abriu e vimos o senhor já sem vida. Algumas médicas pareciam abaladas, outras nem tanto. Penso mais uma vez em como é ver a morte tão de perto todos os dias e admiro ainda mais o trabalho dessas pessoas. Tento não demonstrar o que sinto quando o filho aparece com os olhos vermelhos pedindo uma caneta. Conversamos sobre outros pacientes enquanto observo pai e filho retomarem o abraço dolorido.

A caminhada continua pelos corredor e conhecemos Claudemira. Antes de entrar em seu quarto as médicas nos explicaram seu caso. Ela apresentava um caso raro de câncer na região de abdômen, ainda não se sabe muita coisa sobre como ele se desenvolve ou possibilidades de se prevenir. “É um milagre que o metabolismo dela ainda esteja funcionando”, resumem. Seu tumor já obstruíra o sistema digestório, não conseguia mais consumir alimentos sólidos e não evacuava.

As médicas logo avisam que essa paciente é jovem e gosta de conversar. Já seu marido é mais caladão, conta uma das residentes. Quando nos conhecemos ela estava assonada pelos remédios, mas ele se mostrou solicito e interessado em falar conosco. Nos apresentamos, conversamos, vimos algumas fotos e prometemos voltar a noite, período que segundo as médicas ela estaria mais ativa. Voltamos mais tarde e lá estava o casal a nossa espera. Quando entrei no quarto ela foi logo dizendo que duvidara que de fato retornaríamos.

Fã de Palmirinha e de sorvete, Claudemira sempre cuidou da casa e dos dois filhos pequenos. Faz e vende salgados para complementar a renda da família, mas sonha em abrir um restaurante.Seu leal marido elogia seus dotes culinários do pé de seu leito.

Ela chama por ele o tempo todo, as vezes para que ele leve água, a ajude a esticar e alongar os braços e as costas ou apenas para se certificar que ele permanece ali. se conheceram ainda crianças quando ela, depois de perder a mãe foi morar com os avós na cidade de Mococa. Cresceram juntos e alguns anos depois a amizade virou namoro, que levou oito anos para dar em casamento.

Claudemira fala dos filhos orgulhosa. O mais velho, com oito anos, gosta muito da escola, experiência que ela vivenciou apenas até a quarta série. O caçula é agitado e conversador feito a mãe. Ela não os vê há 20 dias, desde que foi internada no ambulatório de cuidados paliativos. Diz que acha melhor assim, “são pequenos, não entendem direito”. No começo eles telefonavam, mas até isso ela não quer mais, explica o marido. Claudemira reafirma diversas vezes que assim é melhor, fica muito abalada quando fala com eles.

Em um dia estava fazendo os salgadinhos das encomendas e no dia seguinte passou mal, conta o marido. O que começou como uma suspeita de virose no Pronto Socorro se revelou um tumor. Foi diagnosticada em janeiro, passou por duas sessões de quimioterapia mas o câncer não regrediu. Chegou ao ambulatório enfraquecida e com um quadro bem avançado. Não sente dor mas incômodo por passar tanto tempo deitada. Vomita praticamente todo o líquido que ingere. Não come, mas uma vez questionada pelas médicas sobre o que queria escolheu sorvete de chocolate, não conseguiu ingerir muita coisa mas o sorvete a animou bastante, conta.

“A família toda está ajudando”, afirma o marido. Claudemira é da Igreja Adventista e já recebeu diversas visitas de seu amigos da igreja que afirmam estarem rezando muito por sua melhora.

Os filhos reclamam da comida da tia que não é como a da mãe e as clientes sentem falta de seus salgadinhos, até o marido parece ficar com água na boca ao falar de seus bolos. Claudemira se gaba de sempre ter tido dotes culinários e afirma que conquistou seu amor pelo estômago, ele ri confirmando a versão.

O marido reveza com a irmã e a madrasta de Claudemira para lhe fazer companhia no hospital. Funcionário público, conseguiu licença de alguns dias da escola onde trabalha há 19 anos. É ele que nos fala sobre as aventuras da esposa acampando com os filhos e das muitas visitas que ela recebeu por ser muito querida em Mococa. Ela se anima quando o assunto é o programa da Palmirinha, mas logo depois nos pede licença e adormece. A despedida acontece pouco tempo depois e o casal permanece ali esperando.

Com o objetivo de confirmar a grafia correta dos nomes dos entrevistados uma ligação é feita ao ambulatório alguns dias depois. Uma voz aterefada do outro lado da linha pede um instante, “pegue a ficha da Claudemira, aquela paciente que morreu deixando dois filhos pequenos”. E assim a espera acaba.

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