1º semestre de 2010

Rex, já pro canil!

Por Carolina Omns

Só na cidade de São Paulo eles são, no mínimo, 2,4 milhões. E se multiplicam. Junto com eles o número de pet shops, que já ultrapassa o de farmácias e padarias, o de ONG’s para sua proteção, as neuroses com o seu cuidado e o abandono diante da constatação de que eles necessitarão de cuidados por toda a vida.

Como no consumo de peças de vestuário, também existem os cães de raça da moda. Mas, diferente do que acontece com as blusas, saias e calças que se tornam last week, os cães que saem de moda vão parar em centros de zoonoses e outros canis construídos por ONGs – na melhor das hipóteses.

Expostos nas vitrines das pet shops, o melhor amigo do homem mais in não sai por menos de 400 reais. Bom negócio para os criadores. Status e companhia domável para os compradores.

Em meados da década de 90, a “marca” pitbull fez sucesso entre os interessados em cachorros de grande porte, mas a fama tem seu preço: reportagens, causos e casos de polícia colocaram os pitbulls no topo da lista de raças perigosas e violentas – assustando inclusive seus próprios donos.

Hoje, a principal escolha dos paulistanos que ainda tem espaço para oferecer a seus animais de estimação é o doce Golden Retriever, que pode ser encontrado pelas ruas dos bairros nobres da capital, levado para passear por seus donos ou, mais comumente, pelos empregados dos donos. Com sua pelagem dourada e sua eterna disposição, faz sucesso entre os transeuntes, alguns deles dispostos a interromper sua pressa para ensaiar um carinho no “pet”.

Os pitbulls também podem ser igualmente dóceis ou possuir os mesmos olhinhos pidões que outros animais que querem atenção usam. Mas quase já não são vistos passeando pelas ruas da metrópole. Seu pelo curto, corpo forte e mandíbula capaz de estragos não conquistam tantos admiradores quanto as outras raças, ao contrário, regularmente fazem o passante mais amedrontado mudar de calçada para evitar o encontro.

A focinheira, que se tornou obrigatória em algumas cidades no auge das denúncias de violência cometidas pelos pitbulls, não ajudou a melhorar a fama dos animais. Cidades como Campinas e Ribeirão Preto proibiram a criação e comercialização da raça.

Poder público

No Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), mais popularmente conhecido como canil municipal, da cidade de Guarulhos os pitbulls são o assunto mais delicado. Abandonados por seus donos, a maioria deles, provavelmente, aguardará para sempre a chegada de um novo dono – algum herói destemido disposto a acolher um pitbull adulto e rejeitado por seu antigo dono.

Em abril de 2008, foi sancionada uma lei que proíbe a “eutanásia” em animais saudáveis nos 645 municípios de São Paulo. È responsabilidade dos municípios realizar ações de castração e de adoção para bichos em boas condições de saúde. Segundo a lei, nem animais ferozes, como pitbulls, poderão ser sacrificados, eles deverão ser “socializados” e colocados para adoção.

Enquanto a “socialização” não vem, nove cães da raça pitbull caminham em círculos, latem uns para os outros e exibem sua solidão nos poucos metros quadrados das salas onde são mantidos. Alguns há anos a espera da socialização.

Eles foram encontrados abandonados em suas casas pelos donos; nas ruas vagando assustados e assustando quem encontravam; encaminhados por denúncias de maus tratos dos donos.

Os funcionários do CCZ de Guarulhos contam que no período de férias aumenta em 100% o número de animais abandonados, inclusive os de raça. A família quer viajar, mas não tem o que fazer com o animal, a “solução” encontrada é abrir o portão de casa e deixar o “incômodo” escapar.

Os canis dos Centros de Zoonoses do estado de São Paulo estão em sua capacidade máxima de lotação e há tempo sem abrigar novos animais. Em quinze minutos de observação do trabalho da recepcionista do CCZ de Guarulhos, um cidadão ligou querendo doar um animal. Cordialmente, a recepcionista passou o endereço e telefone de algumas ONGs que talvez aceitassem resolver o problema.

Desde a instituição da lei que proíbe a eutanásia, os canis públicos só recolhem os cães que oferecem perigo, foram atropelados ou que sofreram maus tratos. Segundo os próprios funcionários, as condições de abrigo não são ideais.

A Organização Mundial da Saúde não recomenda a captura e extermínio de cães e gatos como forma de controle populacional e combate às zoonoses e aponta como medidas eficazes a esterilização e a educação para a posse responsável de animais de estimação. No Brasil, somente Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul proibiram a eutanásia de animais abandonados.

Números

As instalações dos Centros foram planejadas para que os animais ficassem, no máximo, 10 dias. O abrigo municipal do Rio de Janeiro cuida de pelo menos cinco mil cachorros e recebe de 30 a 40 animais por dia.

Com 340 cães, o CCZ de São Paulo recebe visitas todos os dias. Em média, 50 cachorros são adotados por mês. Os filhotes são, de longe, os mais procurados.

O professor Ricardo Dias coordenou estudo da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP) que revelou que a quantidade de cães na cidade de São Paulo aumentou 60%, entre 2002 e 2008, enquanto, no mesmo período, a população humana cresceu 3,5%.

O último censo animal, realizado em 2002 pelo Centro de Controle de Zoonoses, indicava 1,5 milhão de cães supervisionados – com algum responsável – na capital. Em 2008, a população canina alcançou 2,4 milhões.

A cidade de São Paulo abriga, de acordo com o IBGE, 10.886.518 habitantes humanos. Isso significa que para cada 4,5 morador da cidade existe um cão.

A fabricante de rações Pedigree fez uma pesquisa com abrigos e Centros de Controle de Zoonoses do todo o Brasil e chegou ao número de 22 milhões de cães e gatos abandonados pelo país. Desses 22 milhões, 70% acabam em abrigos e só 10% conseguem ser novamente socializados.

Sociedade

Em Caxias do Sul (RS), a ONG Soama (Associação Amigos dos Animais) abriga cerca de 1.500 cães abandonados em um terreno de três hectares, repleto de casinhas, batizado por eles de ‘cãodomínio’. Mas o cenário lembra mais o de uma favela. Os animais permanecem acorrentados a suas casinhas por correntes dia e noite.

Natasha Oselame Valenti, diretora de marketing e voluntária da ONG, reconhece que essa não é a melhor maneira de cuidar dos animais, mas considera que é melhor “fazer pouco, do que não fazer nada”:

– Isso só acontece porque o pessoal tem preconceito contra o vira-lata. A maioria dos animais que estão na ONG são vira-latas e cães adultos, que quase ninguém quer adotar.

Os animais consomem 13 toneladas de ração por mês, número que já rendeu a ONG uma dívida de R$ 18 mil com os fornecedores. Por meio da venda de camisetas, a ONG tenta arrecadar recursos para a manutenção do local. A Associação Amigos dos Animais conta com nove funcionários, 15 voluntários e verba mensal da prefeitura de 25 mil reais. Para atender os 1500 cães e 300 gatos a ONG possui uma veterinária.

Apesar da superlotação, das dificuldades de manter a ONG e de conscientizar a população das vantagens da adoção de animais abandonados, a voluntária se recusa a apoiar o que ela chama de soluções paliativas.

Ela critica as instalações da grande maioria dos canis públicos, “são precárias e esse fato, por si, já configura maus tratos aos animais apreendidos”:

– O cambão (instrumento usado para laçar os animais), quando usado por pessoal sem preparo – o que representa a grande maioria dos casos – pode deslocar o maxilar, quebrar dentes ou mesmo causar danos na coluna, fraturas nas patas e até mesmo a morte do animal. Os animais em muitos CCZs não são alimentados e por isso brigam e acontece o canibalismo. Animais doentes e sarnentos não são tratados e por isso são sacrificados assim que chegam. Não recebem a chance de se curarem e serem adotados.

Segundo a voluntária, os CCZs também fazem o encaminhamento de animais para laboratórios e faculdades de ciências biológicas onde servem como cobaias em experimentos, testes de drogas ou aulas e recebem uma morte lenta e dolorosa

Ela argumenta que a matança indiscriminada de animais não contribui para diminuir a população de cães abandonados ou abreviar o sofrimento deles. Ao contrário, as pessoas seguem abandonando seus animais, pois sabem que o poder público “dará um jeito” na situação: “A Prefeitura não só está utilizando indevidamente o dinheiro do contribuinte, como abre portas para uma forma cômoda de descarte, incentivando o comportamento irresponsável”.

A solução proposta é a castração em massa e a adoção consciente.

Anúncio da ONU pela adoção consciente

Cabe às ONGs e ao governo cuidar dos animais rejeitados enquanto eles aguardam a conscientização dos seres humanos, um novo dono mais responsável ou a morte – o que vier primeiro.

A voz da voluntária só se levanta quando ela é questionada se a eutanásia não seria uma solução mais digna do que uma existência contida em um cubículo. Para ela, isso se compara a matar um idoso em asilo ou um presidiário, já que eles também não seriam mais úteis à socied

Comportamento

Lígia, 37, não é voluntária de nenhuma ONG, mas compartilha com Natasha o amor por animais, ela é dona de um Shitzu macho, Alex. Lígia se recusa a vender os filhotes que resultam dos “namoros” de Alex. Apesar de ter um cão de raça, pelo qual ela pagou 800 reais, ela não acha certo incentivar o comércio de animais e prefere da-los para quem vai cuidar bem do filhote.

Lígia, por sua vez, cuida muito bem de seu exemplar: pet shop uma vez por semana, ração de primeira, brinquedos e estadia na casa da mãe quando ela tem de viajar. Ela sente muito pelos cãezinhos abandonados que não podem ter os mesmo privilégios que os de Alex:

– Quando eu vejo um cachorro na rua e um mendigo, eu tenho dó do animal, afinal, ele não sabe pedir!

A psicóloga Denise Ramos afirma que esse tipo de comportamento que trata seres humanos como animais e animais como seres humanos é resultado de projeções que fazemos sobre aqueles que não podem externar seus desejos. “Projetamos a nossa própria solidão sobre os animais”.

Isso explica, na avaliação dela, pessoas que param o carro no meio da rua para pegar um vira-lata que passava por ali, gente que sai com seus cães em carrinhos que lembram os de bebês, donos que não viajam ou não saem de casa para não deixar o animal sozinho.

Ela classifica esse tipo de comportamento como uma patologia e vê crescimento no número de pessoas que criam com seus cães uma relação absurdamente próxima. “Esse fenômeno se dá, principalmente, nas classes mais altas, onde há mais condições de morar sozinho e menos de encontrar pessoas queridas”.

Animais de estimação são companhias fáceis para pessoas que tem a estrutura emocional mais frágil: “Os animais são moldáveis. Quando você chega em casa, não importa a hora, não importa se você está sujo, fedendo, mal humorado, o cachorro sempre vai te receber da mesma maneira, com a mesma alegria”, analisa Denise.

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