1º semestre de 2010

Rui Mendes: Retratos

Por Carol Nehring


Rui Mendes é fotógrafo há três décadas. Já fez mais de 300 capas de disco e posui o maior acervo de fotos de rock do Brasil. Fez 48 anos, se casou sete vezes e tem uma filha, que não é de nenhum dos casamentos. Fuma dois maços de cigarro por dia, mora no centro de São Paulo, no Edifício Copan, tem dois cachorros que o acompanham o tempo todo – inclusive ao trabalho. Já viajou a trabalho para vários lugares no mundo e diz que essas foram suas melhores fotos.

Enquanto cursava Jornalismo e Cinema na Escola de Comunicações e Artes (ECA/USP), trabalhou na Folha de S.Paulo, fazendo a coluna “Fotografando sem Mistérios” e na Revista Bizz. Estudou na ECA por cinco anos, abandonou os cursos e nunca se formou. Diz não ter tido sequer uma aula interessante na ECA. Admite que já ousou drogas, é ansioso, hiperativo e aglutina pessoas em torno dele. Usa o tempo livre para ficar com a família, passear com os cachorros – no mínimo três vezes por dia – e trabalhar em seu novo livro, Música, de seus retratos de cantores e bandas.

Impressões


Aparentemente um cara normal, de estatura média, magro, olhos e cabelos castanhos, barba por fazer, jeans, camisa polo, tênis. O Rui é peculiar por outras razões. Hiperativo, com certeza, decidido, sempre bem-humorado e sorrindo. Não se importa muito com questões de aparência, usava os óculos remendados com esparadrapo, fala o que pensa e tem uma voz rouca. Dono de fortes e polêmicas opiniões, parece não se importar muito com o que as pessoas pensam a seu respeito e quer aproveitar cada momento.

Cigarro na mão ou máquina fotográfica, fala muito, trata fotos no computador enquanto fala com a esposa pelo Skype, atende ao celular que toca com muita frequência e dá ordem aos estagiários do estúdio, tudo ao mesmo tempo e se mexendo sem parar. Muitos gerúndios poderiam o explicar. Rui conversa sobre qualquer assunto e tem uma característica habilidade com as pessoas, carisma, humildade e generosidade.

Nas fotos que fez para o catálogo de inverno da Natura, Rui subiu e desceu pelas escadas do prédio onde fica seu estúdio, nem consegui contar quantas vezes. O elevador estava quebrado naquele dia, mas isso não foi um problema para a disposição, rapidez e energia dele. Deixou a fotografada bem a vontade, que num dado momento aquela mulher, que é vendedora da Natura, já estava posando como uma experiente modelo, embora nunca tivesse sido fotografada profissionalmente antes.

Fotografia

“Fotografia é a minha vida, sempre foi a coisa mais importante da minha vida”. Além das bandas RPM, Capital Inicial, Ira!, Titãs, Barão Vermelho, Legião Urbana e Paralamas do Sucesso, Rui retratou os cantores Raul Seixas, Renato Russo, BBKing, Tom Zé, James Brown, Seu Jorge, Bezerra de Menezes, Chico Science, Mano Brown, Tim Maia, entre tantos outros e personalidades como Oscar Niemeyer, Paulo Autran e Rodrigo Santoro.

Atualmente Rui fotografa para diversas publicações, como as revistas Vogue, Casa Vogue, Vogue RG, Galileu, TPM, Trip, Natura, Mitsubishi, Época Negócios, entre outras. Recebeu sete indicações ao Prêmio Abril e foi finalista do Prêmio Funarte de Fotografia em 1998, por seu trabalho fotográfico A Velha Guarda do Samba.

Dirigiu e fotografou diversos videoclips, como de Chico Science e Nação Zumbi, Charlie Brown Jr., Racionais MC’s, Rodox, Léo Jaime, Arnaldo Bastista e Mundo Livre S.A.  Também atuou no mercado de filmes publicitários como diretor de fotografia, participando da produção de comerciais do Banco do Brasil, BCP e Fiat.

Rui Mendes acredita que a melhor foto é aquela tirada nos primeiros cinco minutos, depois é repetição, automático e perde a espontaneidade. Mesmo com a digital, continua fazer poucos cliques. Raciocina em rolo de filmes, 36 é suficiente e `as vezes não faz mais do que 12 fotos.

Sobre os segredos de como fazer uma boa foto: Não há fórmula pré-concebida, é prática. “Fotografia 10% é jeito; 5% é sorte, o resto é treino”. Aposta na experiência: ”Faço isso há 30 anos, então para mim é automático”. Ele prefere não usar muito equipamento, apenas uma lente simples, para deixar o retratado a vontade.

“Sou rápido e econômico, sempre usei pouco filme, faço pouca foto, não fico olhando para foto para ver como ficou”. Tanto que migrou para a câmera digital há apenas dois anos, adiou pelo preço dos equipamentos e também por uma certa nostalgia. “Tinha uma certa tristeza de abandonar, mas hoje não faz mais falta nenhuma”.

Para ele a câmera digital democratizou a fotografia, mas por outro lado “depreciou” o trabalho do fotógrafo: “Todo mundo se acha fotógrafo”. Afirma que com isso a remuneração na área de fotografia foi desvalorizada, e que ficou mais cômodo fotografar e ainda alfineta: “Se alguém tira 5 mil fotos e 3 ficam boas, não é um bom fotógrafo…”

Rui diz não ver muita foto e se inspira em outras áreas, como arte e cinema: “Tenho muito claro que referência é só um ponto de partida, não de chegada, porque ver foto `as vezes atrapalha o processo de criação, a pessoa copia”. Declara que é difícil criar um estilo próprio, descobrir a própria linguagem fotográfica.

Vocação

A vida de fotógrafo começou cedo. Aos 15 anos, Rui foi para os Estados Unidos fazer High School numa uma pequena cidade chamada Vancouver, no estado de Washington. Lá estudou fotografia, aprendeu muito da técnica e começou a se tornar o excelente laboratorista que é. “Quando revelei a primeira foto, ficou claro para mim que eu seria fotógrafo”.

Com o fim do intercâmbio pelo Rotary, estava ilegal nos EUA, cursava Fotografia no Fort Vancouver Junior College e morava numa república de estudantes. Viajava sozinho, ganhava dinheiro fazendo frilas, trabalhava na colheita de morango, alface e trigo. “Acho que se meu pai não tivesse ido me buscar, estaria lá até hoje”, confessa.

A decisão de ser fotógrafo não agradou a conservadora família baiana. Mas aos 17 anos, Rui já era profissional e ganhava dinheiro fotografando para a coluna social em jornais e revistas de Campinas, aí então, os pais começaram a aceitar a fotografia.

Escola de Comunicações e Artes da USP

Aos 18 anos entrou na Escola de Comunicações e Artes da USP. “Tive uma infância de mauricinho e só virei gente quando vim para São Paulo” No início dos anos 80 a ECA fervilhava.  Era uma efervescência cultural e política. Admite que usou drogas e que não tem problemas em falar sobre isso. “Minha geração foi regada a cocaína, usei sim, as drogas promovem um autoconhecimento, abrem canais”.

Reclama que os alunos não podiam usar o laboratório de fotografia, que havia pouco equipamento e o professor de fotografia “era um idiota”. Rui conta que arrombou o laboratório da Gráfica da ECA, deixava a janela entreaberta, pulava lá e passava as madrugadas ouvindo rádio e fazendo experiências fotográficas. “Não tive uma aula interessante na ECA, fiquei puto com isso”.

Rui criou a chapa Os Picaretas para concorrer com a Libelu nas eleições para o Centro Acadêmico da ECA. “Entrei para a política para zoar mesmo”. Ele estava no terceiro ano da faculdade, conhecia muitos alunos e teve a ideia de criar esta que seria uma chapa anarquista. “Era mais comportamento e postura, era política de atitude, não era partidária”. Os companheiros de chapa eram promissores nomes como o hoje apresentador de TV William Bonner, o cantor Paulo Ricardo e Cláudio Tognolli, professor da USP, entre outros.

Os Picaretas ganharam a votação por quatro votos de diferença. E para celebrar a vitória, fizeram a Festa do Gato Morto, em alusão a Libelu, cujo símbolo era um gato. Rui fotografou um gato morto e estampou os cartazes de propaganda da festa com essa foto.

Na época ele trabalhava na Revista Pipoca Moderna, que encerrou atividades antes de publicar as fotos que Rui tinha feito das bandas Ira e Ratos do Porão. Trocou seu pagamento pelo show deles na ECA. Durante a festa, aconteceram muitas brigas, o vigia da ECA foi parar no Hospital Universitário com as duas pernas quebradas e um carro amanheceu dentro do espelho d’água que existia na faculdade.

Depois disso – e de ser chamado pelo diretor da ECA para esclarecimentos – Rui trancou o Centro Acadêmico da ECA com correntes e cadeados e nunca mais voltou `a faculdade. “O Brasil dos anos 70 era uma Bulgária, Cortina de Ferro mesmo”. Para ele com a abertura política e econômica, os anos 80 foram de muita liberação. “Na forma é uma besteira, imitação, mas no conteúdo foi sensacional”.

Paixões


Mas além da fotografia, sua paixão é viajar. Sempre gostou de viajar sozinho. “As melhores fotos da minha vida foram as que fiz viajando a trabalho”. Acredita que o olhar do viajante é diferenciado. Já viajou a trabalho para inúmeros países, como Rússia, Indonésia, Grécia, Tailândia, Jamaica, Vietnã, Bélgica e Flipinas. E diz que todo mundo tem que ir um dia para India. “Aquele país não se encaixa nos parâmetros, você se pergunta, em que ano eu estou? É outro planeta”.

Rui fala que não fotografa muito quando não está trabalhando e por isso não tem muitas fotos da família e amigos. “Minhas horas de lazer sempre foram sem câmaras, é importante descansar o olhar”.

A mãe de Rui também fotografava, essa era sua paixão, mas não profissão. Andrelisa era advogada, nasceu em Salvador e sempre foi uma mulher sofisticada e inteligente e educada em ótimos colégios.

O pai de Rui, Mário, era advogado e auditor fiscal. Um homem muito culto e um pai muito presente. “Ele era supercatólico, me chamava carinhosamente de meu filho herege”. Nascido em Retiro, próximo a Feira de Santana, na Bahia, Mário estudou no seminário, assim como seus quatro irmãos e as três irmãs em colégios de freiras. Ele era professor de Latim e foi assim que conheceu Andrelisa, que estudava no cursinho em Salvador em que ele dava aulas.

Rui viveu uma infância e adolescência de classe média-alta, nasceu em Assis, morou em Goiânia e cresceu em Campinas. Durante a repressão política o pai dele era presidente do sindicato dos fiscais federais e foi transferido de cidade com frequência.

A atual esposa de Rui, Luciana, ele conheceu numa madrugada no Fran’s Café. Ela estava sentada sozinha com uma xícara de café na mesa e ele perguntou se poderia sentar ali também. Estão casados há sete anos. “Eu acredito no casamento sim, não acredito é nas mulheres…” Afirma rindo e diz que sempre foi fiel, mas que `as vezes sentia a necessidade de mudar. “Até que a morte nos separe é uma besteira”.  Luciana é doutora em Artes Cênicas e professora da Universidade Federal do Paraná, mora em Curitiba e eles se veem uma ou duas vezes por mês. “É bom até, porque dá saudade”.

A filha de Rui, Raquel, tem 24 anos, estudou administração e trabalha na General Motors. “Ela não tem nenhuma aptidão para arte”. Eles se encontram com frequência. Mas os companheiros de rotina são os cachorros, Lua e Zé,  que Rui leva todo os dias ao estúdio de fotografia. “Sou muito apegado a eles, são como meus filhos, eles fazem tudo comigo”.

Rui gosta de frequentar museus, costuma ir com frequência `a Pinacoteca e ao MASP. Lê romances históricos e policiais e autores como Machado de Assis, Tolstói, Rubens Alves e Dostoiévski. Assiste filme quase todos os dias e prefere os divertidos, que não façam pensar demais: “Gosto de assistir os filmes mais ridículos, tudo o que é ruim, sempre gostei de ver porcaria”.

Conta que Paris Texas foi um filme que o marcou bastante, pois seus dois únicos irmãos são bipolares. É o único assunto do qual Rui se esquiva. “Não quero falar sobre isso”. Eles moram com a Andrelisa em Campinas, Mário faleceu.

Angústia


A faixada era suntuosa e grande, de um lado um prédio moderno com grandes portas de vidro, do outro um prédio antigo e bem-conservado em estilo clássico.

Pediram meu RG, notaram nome completo, me deram um cartão e algumas instruções.

Senti-me num hotel. Um saguão central tinha lojas e sofás, tudo muito aconchegante e elegante. Segui o corredor do lado direito e subi as escadas. Exuberantes vitrais coloridos ocupam grande parte da parede lateral.

No segundo andar, continuei até uma sala de espera com sofisticados móveis. Tudo muito bonito e confortável. No corredor seguinte, quadros com fotografias em preto e branco decoravam as paredes.

Não parecia um hospital. Até que depois de atravessar a bela porta de madeira cheia de círculos, vi que não estava num shopping, nem num hotel, nem num museu, que é como o Sírio Libanês se parece. Cheguei a sala da hemodiálise.

Eram doze camas e tantos funcionários que eu nem consegui contar. Dois médicos inspecionavam cada paciente e vários enfermeiros checavam as máquinas, traziam água e conversavam com os pacientes.

Perguntei pelo Rui. Cama número 12. Lá estava o meu entrevistado. Dormindo.

Deitado ali naquela cama, confesso que quase não o reconheci. Aquela figura frágil não se parecia em nada com o fotógrafo superativo e agitado que eu tinha acompanhado no estúdio no dia anterior trabalhando sem parar durante dez horas.

Descoberta

Era uma noite de sábado, Rui estava estava numa festa de aniversário na casa de um amigo e começou a se sentir mal. Foi para o hospital. A pressão estava 24 por 16. Em doze horas descobriu que tinha nascido sem um rim e que o outro quase não funcionava mais. “Aí a vida muda, né?!” Nem voltou mais para sua casa, passou três meses internado. Ele tinha 41 anos. “Foi o episódio mais importante da vida minha vida, tudo mudaria completamente”.

Depois disso, Rui teve que diminuir pela metade a carga de trabalho. Fotografa segunda, quarta e sexta e nos outros dias faz hemodiálise durante cinco horas por dia. Ao terminar a sessão de diálise, fica cansado e irritado. “Saio enjoado, parece que tenho um cabo de guarda-chuvas enfiado na minha boca”. Há seis anos esta é a rotina de Rui. Mas ele continua bem-humorado.

Quase 40% dos transplantes realizados no mundo, são de rim. No Brasil quase 35 mil pessoas esperam um rim, mais de 10 mil só no estado de São Paulo. No primeiro semestre de 2009 foram realizados apenas 518 transplantes de rim no estado.

É possível sobreviver com hemodiálise. O processo de diálise é uma filtragem do sangue em que a máquina faz o papel do rim e filtra o sangue várias vezes. Um paciente pode esperar de oito a dez anos nessa situação. A seleção para a doação considera aspectos como o grupo sangüíneo, peso, altura, gravidade da doença e tempo de espera na fila.

O doador deve ter morte cerebral, mas até a retirada do rim o coração precisa estar batendo. Então uma equipe especializada retira os órgãos, depois disso o rim aguenta de um a dois dias, no máximo, antes de estar funcionando no receptor, ou o rim fica inutilizável. Se comparados a quantidade de pessoas que esperam: São poucos os doadores. São poucas as equipes especializadas. São poucos os transplantes.

Espera

Sábado, terça e quinta. Três vezes por semana. Hemodiálise durante cinco horas cada sessão. Das sete horas da manhã ao meio-dia. Sempre. Durante a diálise, passam cerca de 75 litros de sangue de Rui pela máquina e ele elimina quatro litros de água por sessão.

Todos esperam, estamos sempre esperando por alguma coisa. Rui espera por uma doação de rim. O rim tem o formato de um grão de feijão, mede cerca de 12 cm de comprimento e  6 cm de largura, 3 cm de espessura e aproximadamente 150 gramas num homem adulto. Rui é alguém que não quer mais esperar. “Não aguento mais, sei que existem formas de furar a fila e já cogito isso, não quero mais esperar”.

Para ele, a pior das consequências é não poder viajar. Rui costumava viajar bastante e passava temporadas na Bahia e fazendo trabalhos no exterior. “Todos os meus planos futuros foram por água abaixo”. Então, a vida parou. E ele espera por um rim. Um rim que pode chegar a qualquer momento. Ele pode receber uma ligação neste instante e em algumas horas ter um rim funcionando ou na semana que vem ou no mês que vem ou ano que vem…

Anúncios

Uma resposta

  1. José Carlos de Almeida

    É mesmo um bólido,cerca de 750CV,tá com umas marchas engripadas mas fazendo sempre parte do Grid.Se bobeia faz poli fácil,fácil.As vezes solta fumaça,mas das boas,manga rosa.

    março 25, 2011 às 2:49 pm

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s