1º semestre de 2010

Um por todos…

Por Raphael Fozatto Florencio e Bruna Ferreira

Noite de quinta-feira típica do outono paulistano. Temperatura por volta dos quinze graus – e caindo – primeiro dia de um feriado prolongado de Corpus Christi. Vou ao estádio do Pacaembu trabalhar no jogo entre Corinthians e Internacional, sexta rodada do Campeonato Brasileiro de 2010.

Já havia conversado com Benito, membro da Velha Guarda da Gaviões da Fiel, e combinávamos de nos encontrar em uma festa na quadra da Torcida no sábado seguinte para que ele me indicasse uma mulher apaixonada pelo Corinthians. Tentara de várias maneiras encontrar a dona Valquíria Dionísio de Jesus, torcedora famosa, que frequenta os jogos do time vestida de mosqueteira e sempre aparece em entrevistas, fotos e até mesmo no filme “Fiel”, lançado em 2009. Havia tentado encontrá-la de todas as formas. Menos da mais óbvia: ir a um jogo do Corinthians.

E lá estava ela, nas cadeiras numeradas do Pacaembu, mais de uma hora antes do início da partida. A simpatia de dona Valquíria não é só aparente. Muito receptiva e contente com o convite para dar entrevista, ela prontamente passa seu contato e aceita a ideia de uma conversa na semana seguinte. Onde? No Corinthians, claro.

Falar de amor entre torcedor e clube é algo comum. Mas a história da relação entre Valquíria e o Corinthians é maior do que a torcida por um título. Quando, no começo da entrevista, só para iniciar a conversa, peço para que ela se apresente e fale um pouco da sua vida. A resposta é simples: “sou aposentada, moro em Ermelino Matarazzo [bairro da Zona Leste de São Paulo]. Tenho meia sete de idade… E sou corintiana até a morte”.

Claro que todo corintiano sabe que não se vira corintiano de uma hora para outra. E que, uma vez nascido corintiano, corintiano serás até a morte. Mas, no caso de Valquíria, o Corinthians deixou de ser a equipe para a qual torcia, para ser o seu maior companheiro. O ano exato em que isso aconteceu, nem ela se lembra mais, mas “faz mais ou menos 15 anos”, quando suas duas filhas casaram-se com japoneses e decidiram se mudar para o Japão. Divorciada e com seus três filhos homens morando em Aracaju, no Sergipe (sua terra natal), Valquíria ficou sozinha. Emocionada, ela conta a história enxugando as lágrimas em um lenço com o símbolo corintiano. “A ausência das minhas filhas foi um baque. Eu tive começo de depressão. Me encaminharam para um médico de loucura. Ele me mandou pra psicóloga, porque meu caso era sério. A psicóloga falou que não era ela que ia me curar, mas eu que precisava ter força de vontade e procurar alguma coisa, uma distração pra sair de onde eu estava e esquecer a ausência das minhas filhas. Então, sem contar nada pra ninguém, comecei a frequentar aqui”.


Valquíria não virou sócia do Corinthians. Começou a ter acesso ao Parque São Jorge aos poucos. Chegava nos dias de treino da equipe e ficava sentada no murinho do estacionamento, aguardando uma brecha na saída dos jogadores para tentar algum contato com eles. E sua presença não era bem-vista pelas pessoas que frequentavam o clube. “Eu vinha aqui todo dia. E o pessoal perguntava se eu não tinha casa, se não tinha o que fazer, aguentei muita piada… Eu só pensava que ia conseguir o que queria, realizar meu sonho de entrar no clube e ter acesso aos jogadores”, conta, ainda emocionada.

Aos poucos, Valquíria tirou da cabeça a ausência das filhas e colocou no lugar a dedicação ao Corinthians. Curada da depressão, dedica-se ao clube e, assim como diz o refrão ecoado pela torcida corintiana nas arquibancadas do Pacaembu – “Eu nunca vou te abandonar, porque eu te amo” – promete nunca deixar de acompanhar o time. Conta, inclusive, que já recebeu uma proposta dos filhos para morar em Aracaju, mas nem pensa na possibilidade de mudar-se. “O Corinthians me ajudou a fazer uma lavagem cerebral. Meus filhos estão longe, não vou morar com eles por causa do Corinthians. Eu fiz essa promessa. Enquanto eu tiver vida, eu vou acompanhar o Corinthians… Não posso ficar longe”.

Tanto quanto acompanhar o time, outro fato foi essencial para que ela se curasse da depressão: Valquíria, hoje, não é mais sozinha. Uma “galera” (como ela gosta de chamar) de quase 25 milhões de pessoas – número de torcedores do Corinthians, segundo pesquisa Lance!-Ibope publicada em junho desse ano – a reconhece como um dos maiores símbolos da equipe. “O pessoal no estádio me abraça, me joga pra cima, é muita alegria. Eu nem consigo andar direito, vivo parando pra tirar fotos. O assédio é grande. Todos me adoram. Uns me chamam de rainha, falam que eu sou o símbolo do Corinthians, que eu sou a estrela do time, sou muito elogiada”. Tudo por causa da Mosqueteira, personagem que criou e incorporou. Foi ela mesma quem teve a ideia de se vestir como o mascote do Corinthians nos jogos. Pensou nisso porque achava bonita a roupa e sentia falta do personagem nos estádios. Capa, chapéu característico, óculos escuros, às vezes uma espada (falsa, é claro) e uma camisa do Corinthians compõem o figurino de Valquíria nos jogos.

Tanta fama fez com que Valquíria conseguisse aquele que foi, para ela, o maior presente de sua vida: a carteirinha de sócio do Sport Club Corinthians Paulista, segundo ela, dada pelo presidente do clube, Andrés Sanchez. Hoje, tem acesso a toda parte social do clube, acompanha os treinos de perto e não é mais humilhada por estar perto dos “meninos”, como, carinhosamente, se refere aos jogadores da equipe profissional de futebol.

Mas a fama também tem seu lado ruim. Valquíria detesta ser parada na rua por torcedores que querem cobrar algo do time. “Parece que eu sou porta-voz do [técnico] Mano Menezes. O pessoal sabe que eu tenho acesso aos meninos e querem que eu cobre. Acham que eu mando alguma coisa aqui dentro, que eu sou da diretoria. Mas por que manda eu vir cobrar e não vem aqui? Isso dá raiva. Mas eu tenho que aguentar, é o preço por ser famosa”, conta.

O Corinthians tornou-se um companheiro para Valquíria. Um amigo verdadeiro que, como tal, ela defende com unhas, dentes, sua capa e sua espada. Gesticulando muito, sem medir as palavras e sem segurar a emoção, ela descreve uma situação em que precisou proteger a honra do clube, tal como um mosqueteiro faz com seu rei: “Quando caímos para a Série B [em 2007], tive uma discussão com sãopaulinos. Eles ficavam com piadas indecentes comigo… [nesse instante da conversa, Valquíria tenta, em vão, segurar o choro]… Falavam uns palavrões muito feios, nem gosto de lembrar. Falavam que eu ia morrer sem ver o Corinthians ganhar uma Libertadores. Aí eu não aguentei e fui pra cima de um! Falei que a partir daquele dia ele não ia mais falar daquele jeito comigo, que era pra me respeitar e que, se continuasse, eu ia dar parte na polícia. Eles duvidaram. Aí eu fui na polícia. O policial falou para voltar lá se acontecesse de novo. Mas não aconteceu. Hoje, quando eles encontram comigo, eles mudam de calçada. Eu peito, vou pra cima, e falo o que tenho que falar. E se continuar, vou pra delegacia”.

A Gaviões não acabou…


“Eu não falo o nome deles. Pra mim, são os bambis e os porcos”. Quem ouve Roberto Daga, 56 anos, paulista, vendedor de calçados falar desse jeito, acha difícil acreditar que seu pai era palmeirense. Mesmo torcendo para os porcos, foi o pai quem lhe deu o primeiro uniforme completo do Corinthians. No final da década de 60, com a chegada da adolescência, a paixão pelo time do Parque São Jorge foi tomando a forma alvinegra que viria a ter.

Em 1969, o país vivia o auge do regime militar – se é que o pouco que sabemos sobre o período, nos permite assim dizer. Três amigos conversando podiam se tornar suspeitos de um ato contra o governo, e todas as liberdades civis podiam ser suspensas em prol do regime. O estádio do Pacaembu, na época, era como uma panela de pressão prestes a explodir, cheia de adolescentes loucos pelo time e sufocados pelo contexto político. E o Sport Club Corinthians Paulista deu para aqueles jovens um motivo pelo qual poderiam lutar e viver. Na época, o presidente do clube era também o deputado estadual pela Arena (Aliança Renovadora Nacional), Wadih Helu. A Arena era o partido criado para dar apoio ao regime militar.

O mandato de Helu no Corinthians foi muito questionado, pois a torcida o acusava de usar o clube para benefício pessoal e político. Na época, alguns torcedores, que eram apenas parte da grande massa alvinegra, passaram a se reunir para discutir o que consideravam arbitragens no clube. “A gente começou a se reunir na frente do Pacaembu para derrubar uma ditadura que tinha dentro do clube, e assim nos conhecemos”, diz Daga. No Youtube, há um vídeo dele de 2006, quando o corintiano faz um discurso cheio de convicção em cima de um trio elétrico contra a presidência do Corinthians na época, que era de Alberto Dualib. Mas, poucos sabem que lá em 1969, esse gavião militante era apenas um menino que foi descobrindo que futebol não era só a bola em campo.

“Tinham uns moleques mais velhos, alguns muito politizados que começaram a abrir a cabeça da gente. Explicavam que a Arena era dos militares e que lá dentro [do Corinthians] tinha um cara da Arena”, diz Daga, que ainda acredita que a rede de influências do ex-presidente não acabou com o fim do mandato em 1971. “A gente [a Gaviões da Fiel] sabe que é ele quem manda no Conselho do clube. Ele fez com que muita gente se tornasse membro vitalício, muito favor para muita gente, muita politicagem”. O Conselho do Corinthians é o órgão máximo dentro do clube. Por votação, os membros podem discutir desde as diretrizes do time, até quem vai e quem fica: presidente, técnico e jogadores.

A chamada “Revolução Corintiana”, que de início se reunia na casa dos amigos, em frente ao estádio, nas ruas de São Paulo, veio para formar a Gaviões da Fiel Torcida Força Independente, que seria um observatório do clube, para que este correspondesse aos anseios do que eles chamam “Nação Corintiana”. A Gaviões da Fiel se tornou a primeira torcida organizada brasileira a ter um estatuto, que estabelecia as regras de conduta dos militantes e dos dirigentes da organização. No início eram cerca de 200. Hoje, são mais de 80 mil, sem contar com os “simpatizantes”, pessoas que se dizem da Gaviões da Fiel, mas que nunca fizeram carteirinha de sócio.

“Nós demos a nossa receita para as outras organizadas”, conta Daga, sem deixar a repórter – que também estava um pouco deslumbrada com a paixão do corintiano – perceber se era a lembrança de tempos mais pacíficos do futebol, ou se era apenas mais uma tentativa de atacar as torcidas adversárias. “Nós preparamos o estatuto de uma série delas. Da Torcida Independente do São Paulo, por exemplo, fomos nós que fizemos o primeiro estatuto. Eles pegaram esse nome, porque eram uma dissidência de uma torcida que era paga pelo próprio clube. Eles vieram se informar e a gente falou que eles tinham que ser independentes. Eles puseram o nome da torcida deles por causa da nossa orientação”.

Parece improvável? A nós também. Mas, segundo o gavião de número três, eram tempos diferentes, o relacionamento entre as torcidas era outro. A Gaviões da Fiel, como toda torcida organizada, leva a má fama de ser violenta, não respeitar os torcedores não associados e sempre apelar para a violência. “Hoje tem muita briga. Essa molecada de hoje só traz violência. Mas o nosso fundamento era totalmente outro, era fiscalizar o clube, gritar ‘Corinthians’ em situações adversas, a favor em qualquer momento, sempre, em qualquer situação, era outra filosofia do que era ser um corintiano, que era um sofredor”, diz Daga.

Valquíria, a mosqueteira corintiana, sentiu na pele o desrespeito dos que se dizem torcedores, que, ao invés de torcer, pregam a violência nos estádios (e fora deles). Em 2006, estava presente no Pacaembu quando o Corinthians foi eliminado da Libertadores pelo River Plate, da Argentina e centenas de torcedores quiseram invadir o gramado. “Eu estava nas cadeiras, e quando começou a confusão, eu fui embora. Foi doído, mas não precisava fazer aquilo. Igual agora: nós perdemos, tivemos consciência que erramos e não teve quebra-pau. Não adianta, isso não vai resolver nada”.

Maloqueiro e sofredor… Graças a Deus?

O “agora” a que Valquíria se refere foi o dia 5 de maio de 2010. Corinthians dois a um no Flamengo. E, mais uma vez (a quarta em dez anos), eliminado da Libertadores. Mas em 2010, a tristeza foi maior. A equipe se preparou mais de um ano para conquistar o título continental no seu centenário. Contratou jogadores, fez campanhas de marketing, aumentou o preço dos ingressos, para ser eliminado logo nas oitavas-de-final.

Valquíria estava no Pacaembu. “Quando perdeu o primeiro jogo [disputado uma semana antes, no Maracanã], eu pensei que não ia virar. Mas tinha esperança que conseguíssemos, estávamos jogando em casa. Mas não foi como eu queria. E eu pensava que, se passasse do Flamengo, seríamos campeões, porque os outros times eram fracos. Foi muito cruel”.

Muito cruel também para mim, dona Valquíria. Uma semana antes da partida, foi aniversário deste repórter. Sem comemoração, pois foi um sacrifício comprar ingresso no nada organizado “Fiel Torcedor”, sistema de preferência de ingressos para torcedores que pagam uma determinada anuidade. O sistema não funcionava, tive de usar três computadores do meu trabalho para conseguir. E quase não compro no setor que queria (arquibancada verde).

Com o ingresso comprado (pago apenas na fatura do mês seguinte que, sinceramente, pensei em dar um calote pela tristeza que o dia me trouxe. Mas pensei que não seria legal ser, além de eliminado, mais um inadimplente), aguardei o dia do jogo. Um dia antes, meu pai, palmeirense, me diz que iria ao jogo. Meu vizinho o convidou, pois seu sobrinho não iria mais. “Pra quê, pai?”. “Vou dar risada, oras”. Animador ser o filho mais velho e torcer para o maior rival do seu pai…

Decidi não contrariar. Afinal, ele ficaria no Tobogã, bem longe de mim. No dia da partida, mal consegui trabalhar. Só pensava no jogo. Um dos meus colegas de trabalho (corintiano) chegou a me pedir para parar de cantar as músicas da torcida. E meu chefe, que já comemorou três títulos de Libertadores, disse: “o maior problema do Corinthians é isso aí, ó. A torcida parece que dá a vida por um jogo, uma Libertadores. Não vai ganhar nunca”. E quem dá ouvidos?
Carona para o estádio, sentia um friozinho na barriga além do normal. Confesso, tinha um pouco de medo de o Corinthians ser eliminado e dar alguma confusão, eu estar no meio e não conseguir sair… Mas tudo ia dar certo. Afinal, naquele dia vi a maior festa que uma torcida já fez dentro de um estádio até hoje. Bexigas, fogos, faixas, bandeiras, cantos ecoados com força, alto. Não tinha como o Flamengo não tremer.

E tremeu! Primeiro tempo, só deu Corinthians. Um a zero, eu e mais cinco ou seis corintianos caímos na arquibancada pela grande aglomeração e pela exaltação após o gol. Perdi minha carteirinha do Fiel Torcedor, mas, para minha sorte, o rapaz do meu lado achou e me entregou, ainda antes dos dois a zero. E o segundo foi do Ronaldo. Não foi o primeiro gol que vi o Ronaldo fazer no Pacaembu. Mas percebi o quão diferente é o gol dele, parece mais comemorado pela torcida. Enfim, dois a zero, não tinha como ser eliminado…

Sim, tinha. O pentacampeão e amigo do Dunga Kléberson entrou no segundo tempo, arrumou o meio-campo do Flamengo e deu o passe para o Vagner Love fazer 2 a 1. Por que logo o Vagner Love? Um gol do Adriano (mesmo em péssima fase) seria menos dolorido. Mas ainda faltava muito tempo… Para o Ronaldo cabecear de forma despretensiosa uma bola na trave. Para o Chicão bater uma falta e o goleiro Bruno fazer uma defesa. E para eu flagrar o Roberto Carlos arrumando suas meias enquanto o Flamengo tocava bola. Não que eu ache que nosso lateral tenha tido culpa na derrota contra a França na Copa do Mundo de 2006, mas aquela (contra a minha vontade) foi a imagem da derrota. Não tinha mais esperança nenhuma depois de ver a cena.
Fim de jogo, me restou ouvir a coisa mais irritante do dia: a torcida do Flamengo. Eram tão poucos perto da massa alvinegra. Ficaram tão quietos durante a partida toda. E, do nada, só conseguia ouvir “O Maraca é nosso/ Vai começar a festa”.

Mas ainda faltava sair do estádio. Ver policiais atirando bombas de gás “para o lado que o nariz apontava”, como se diz na gíria futebolística. Tentei entender o porquê. As bombas vinham de qualquer lugar, havia crianças cobrindo o rosto, pais e mães carregando-as com pressa… Pensei ser apenas uma força desproporcional da Polícia Militar de São Paulo. Mas quando vi torcedores correndo com paus e pedras nas mãos (não digo que eram da Gaviões da Fiel. Alguns estavam com a camisa da torcida, outros não), desisti de tentar entender o confronto e simplesmente ir embora, antes que sobrasse uma pedra na minha cabeça. Pouco importava quem tinha começado a confusão.

Enquanto procurava por meu pai (ainda teria de aguenta-lo), lembrei da aposta que meu amigo Guilherme fizera quando o Corinthians foi campeão da Copa do Brasil em 2009: se o time não vencesse a Libertadores 2010, ele apareceria pelado, dançando com maracas. Eu sempre falei que ele estava se arriscando demais, mas ele tinha tanta certeza. Diz ele que já cumpriu a promessa, embora ninguém tenha visto a cena. Pobre Gui…

Encontrei-me com meu pai e meu vizinho na saída do Pacaembu, ao lado das famosas barraquinhas de lanche do “comeu, morreu”. Meu pai não “ficou de gozação”, como se diz. Aliás, ele sequer deu risada, como prometera. Ele simplesmente ficou em silêncio durante todo o percurso de volta para casa. Preferia ouvir mil vezes um “Puta que pariu/ Libertadores o Corinthians nunca viu” a suportar aquele silêncio sarcástico, desafiador.

Naquela noite, o lema mosqueteiro nunca fez tanto sentido: “um por todos e todos por um!”. Na casa da repórter corintiana que também assina a reportagem, as coisas foram um pouco diferentes… Em minha casa, todos são corintianos. Incluindo um adolescente de 16 anos, que preocupa a família toda, já que só quer saber de Corinthians. Eu tinha tudo arranjado para passar esse momento com eles, até que: plantão no trabalho! Fui ajudar na cobertura, adivinha do quê? Sim, era a primeira vez que eu cobria um clássico. Acompanhei da redação, pegando fotos que chegavam na velocidade da luz (inclusive, uma foto da Valquíria veio cair na minha mão para uma nota-relâmpago). O jogo? Não tenho o que comentar. O Rapha faz isso melhor que eu.

Triste foi ver que na tela do meu computador, a janela do MSN, que há minutos estava meu irmão, de repente, desaparecer no final da partida. Depois, eu soube pelo meu pai, que naquele momento, tinha um cara de quase 1,90m, forte como um cavalo, sentado no meu tapete, em prantos. Pelo menos o taxista que me levou para casa no dia, também era corintiano.

Cem anos dentro do meu coração…


O vereador e empresário, Antonio Goulart, 56 anos, mineiro de Vargem Bonita, corintiano roxo (e segundo ele, “o maior colecionador de cachaças do mundo, com 38.500 garrafas”), lançou esse ano um livro, o Haja Coração – 100 anos de Timão. Goulart foi o autor da lei que criou o Museu do Futebol, em São Paulo, foi jogador de futebol, mas “nunca foi bom”, e também é membro da Gaviões, assim como toda sua família. “Minha mulher, se não fosse corintiana, eu não teria casado com ela”, diz.

Aos 12 anos, Goulart, já estava morando em Santo André, no ABC, e foi trabalhar em um pequeno armazém. Um dia, um freguês do lugar, o levou ao Parque São Jorge, sede do Corinthians e foi aí, que segundo o vereador, ele teve seu “primeiro amor pelo Corinthians”. Ele foi a todos os jogos do time em todas as Libertadores, inclusive, estava no voo que quase resultou em tragédia aérea, e levava a equipe, em 1996, de Quito, no Equador, para São Paulo, após o time alvinegro derrotar o Espoli. O avião não conseguiu decolar na primeira tentativa, saiu da pista e derrubou tudo o que viu pela frente, antes de alcançar as ruas. “Corinthians é minha vida” afirma sem nem pensar duas vezes. Toda essa devoção foi recompensada. Hoje, Goulart é também membro da Gaviões dentro do Conselho do Sport Club Corinthians Paulista e presidente da Comissão do Centenário.

Como Goulart é presidente da Comissão do Centenário, ainda tentamos achar um consolo para o que aconteceu no jogo entre Corinthians e Flamengo, na Libertadores deste ano, mas o baque que atingiu os pobres repórteres corintianos, não foi menos implacável com a alta esfera alvinegra. “Os bambis e os porcos enchem o saco. Todo corintiano quer ser campeão da Libertadores. No jogo contra o Flamengo, nós perdemos jogando. Libertadores não perdoa. Foi muito sofrimento, aplaudimos da arquibancada, mas a gente viu as falhas. Vamos para o próximo ano. Tem que ter um coração forte”.

Mas, que raio de coração é esse que leva uma senhora de 67 anos se vestir de mosqueteira em todos os jogos do Corinthians? Que faz o vendedor de calçados politizado inspirar mais de 80 mil pessoas em um discurso? Ou que faz um empresário erguer um Museu do Futebol? Ora, raios de coração que leva uma repórter inexperiente e meio abobalhada a entrar no meio da festa de três anos do Movimento da Rua São Jorge, sem nem saber por onde começar, meio impressionada com o som alto e com as bandeiras gigantescas. E que faz um repórter tão inexperiente quanto ser levado pela tristeza de uma eliminação da Libertadores e querer ir embora do Pacaembu logo, sem prestar tanta atenção ao seu redor para contar nessa matéria o clima do estádio.

O Goulart que também é o escritor corintiano tentou explicar: “Você tem que ter um coração diferente. É uma explosão na alegria e na tristeza. São 100 anos. Para quem viveu, significa mais de um milhão. Muito sanduíche de pernil e cervejinha na barraca ao lado do estádio. Muitos amigos”. Um coração um tanto quanto secular.

Lealdade, humildade e procedimento

Fomos para a festa de comemoração dos três anos de fundação do Gaviões da Fiel – Movimento da Rua São Jorge, formado por alguns dissidentes da Gaviões, que discordavam do envolvimento cada vez maior da torcida com o carnaval paulista. O movimento promoveu um churrasco, com a presença do rapper Xis, e outros, e na ocasião entregou o “Código de Ética e de Disciplina dos Militantes” do movimento. Se você está interessado em virar um militante, saiba que não é moleza. Veja alguns pontos de destaque:

Capítulo I, Art. 2º – [o integrante do movimento] será representado pelo símbolo gavião antigo nas cores preto e branco, ostentando o símbolo do Sport Club Corinthians Paulista, e um boné nos mesmos moldes (é preciso usar o “uniforme” em todos os dias de jogos).

Capítulo I, Art. 4º – Os militantes devem participar ativamente de todas as manifestações políticas e ideológicas propostas pelas lideranças.

Capítulo I, Art. 6º – Todo militante na medida do possível deverá se associar ao S.C.C.P. [Sport Club Corinthians Paulista], para que nossas forças e nossos objetivos de um Corinthians grande e justo seja alcançado. Queremos um Corinthians para o povo.

Capítulo II, Art. 12º – (…) agirem sempre com lealdade, humildade e procedimento.

Capítulo II, Art. 13º – Não será permitido, em hipótese alguma, traição, mentiras, inveja, covardia, cobiça, egoísmo, interesses pessoais e roubo entre os militantes.

Capítulo II, Art. 17º – (…) O militante que não concordar com a postura, decisões ou atitudes impostas pelas lideranças ou de quem quer que seja, deverá contestar pessoalmente, “olho no olho”. Não será permitido: fofocas intrigas e picuinhas. (…)

Capítulo II, Art. 21º – Não será permitido o uso de internet em sites de relacionamentos e de torcidas pelos militantes do movimento, com intuito de fomentar e promover a violência, semear discórdias e intrigas com torcedores rivais, ou com os próprios corintianos, seja através de vídeos ou fotos, em sites abertos. Se for pego, será punido sumariamente.

Anúncios

Uma resposta

  1. Pingback: 100 anos de curíntia! | A Bruna saiu…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s