1º semestre de 2010

Vida e morte na periferia

Com apenas 29 anos, o Cemitério São Luís mudou mais que qualquer outro da cidade e conta os dramas de vida e morte dos moradores da periferia.

Por Letícia Mori

O caminho dos Jardins, uma das regiões mais nobres de São Paulo, até o Cemitério São Luiz, na zona sul, leva cerca de uma hora e meia de ônibus, com trânsito razoável. Não é muito mais do que a média de tempo gasta por um paulistano para ir ao trabalho – 1h37min. Você dá a volta por trás do MASP (Museu de Arte de São Paulo), desce algumas escadarias até a Avenida Nove de Julho e pega o Chácara Santana 609-10.

Não que algum dos endinheirados dos Jardins precise ir a esse cemitério. E mesmo que fosse o caso, iriam de carro. Nem quando morrem vão para lá. Uma parte, das famílias antigas e de sobrenome tradicional, é enterrada nas tumbas nos cemitérios da Consolação, Araçá e São Paulo, ao lado de artistas famosos, homens de poder e políticos de outros tempos. Já os nouveaux riches, compram túmulos em cemitérios particulares caríssimos, moldados ao estilo dos cemitérios norte-americanos cujas sepulturas são todas subterrâneas.

Dificilmente eles pegariam o Chácara Santana 609-10 para ir ao São Luís, como fiz diversas vezes durante o mês de junho de 2010 para investigar as condições desse que já foi considerado o terceiro cemitério mais violento do mundo.

É um ônibus duplo, lotado, excessivamente quente mesmo no inverno. A maior parte da viagem você faz de pé. Ele corre a Nove de Julho até o fim, passando pelos prédios luxuosos do Jardim Paulista e pelo Jardim Europa, cujas mansões brancas de dez cômodos e altos portões se vislumbra de longe. Segue pela Avenida das Nações Unidas e passa pela Vila Olímpia. Da janela se vê as colunas de estilo neocolonial da loja de artigos de luxo Daslu, templo da ostentação e da breguice metropolitana.

O destino do transporte não tem museus, sobrados luxuosos, shoppings nos quais uma bolsa custa 10.000 reais. E mudança de um ambiente para o outro não é gradual. É só sair da marginal e começam a aparecer lojinhas de um real enfeitadas de verde e amarelo para torcer na Copa, galpões industriais velhos, casas amontoadas com acabamento precário, pequenas igrejas evangélicas, desmanches de carro, bares que parecerem armazéns e padarias que parecem bares.

Desço do ônibus e um vira-lata cor de terra me cumprimenta. “Ele deve de ter sido largado há pouco tempo”, me conta Lourdes Maria, uma senhora de meia-idade, mãos enrugadas, cabelos crespos, “quase-preta”, como ela mesmo diz. “Os cachorros daqui mesmo são mais esperto. Eles enfia o rabo entre as perna e sae correndo quando alguém chega perto. Eles tem medo dos pirralho que amarram bombinha nos rabo deles.”

Começamos a conversar e em quarenta e cinco minutos já sei tudo sobre a vida dessa viúva de 43 anos, mãe de três, avó de dois. Hoje ela trouxe flores e acendeu uma vela, porque é aniversário de morte do marido. São cinco anos na “viuvez”. Ele morreu assassinado. “Ele bebia. Era um marido bom, bom, bom, nunca encostou a mão em mim. Mas bebia. Um dia arrumou uma briga no bar e levou um tiro. Foi pro hospital, morreu no dia seguinte.” Sem condições de pagar o enterro, Lourdes recorreu à Lei 11.083/91 para que a prefeitura se encarregasse dos gastos. O marido era mecânico, Lourdes, que “amigou” aos 17, grávida, nunca tinha trabalhado. Com 38, começou como diarista. Até hoje não ganha nem metade do salário do falecido.

O assassino fugiu e nunca foi pego. Pergunto se ela espera por justiça. “Justiça só se for de Deus no céu, porque aqui nessa terra ninguém sabe o que é isso não. Pelo menos não pros pobre. Se nós fosse família de político, tinham pego ele na hora.” Para os fervorosos moradores da periferia, quando a justiça do homens falha, só resta recorrer aos céus e esperar pelo acerto de contas divino.

Violência a céu aberto

Ao entrar na necrópole, a reação é de surpresa: tudo é bem diferente do que se imagina.

O Cemitério São Luís fica no Jardim São Luís, entre o Capão Redondo e o Jardim Ângela. É o único só de quadra geral (que não tem túmulos comprados, só alugados ou concedidos pela prefeitura) da região, que em 1996 foi apontada como a mais violenta do mundo pela ONU. Em 2001, o Jardim Ângela tinha uma taxa de 110,6 homicídios para cada 100 mil habitantes, de acordo com o Núcleo de Estudos da Violência da USP. No Capão Redondo, o índice era 76,3 e no Jardim São Luís, 89,2.

Essa parte da cidade era moradia dos trabalhadores das fábricas que existiam ao redor do rio Pinheiros. A onda de violência começou nos anos 80, com a saída das indústrias e o aumento do desemprego. O confronto da população com a polícia ou das próprias gangues entre si era manchete constante nos jornais.

E o destino final dos jovens assassinados era o São Luís. No começo da década, eram feitos de 800 a 1000 sepultamentos por mês, 90% mortos de forma violenta. Era tanta gente enterrada no mesmo dia que os funcionários nem se davam ao trabalho de fechar as covas, porque teriam que ser reabertas logo em seguida. Existe até uma certa mitologia em torno do lugar. Dizia-se que as covas eram rasas demais e durante as chuvas os corpos eram levados pelas enxurradas. Era esse cenário de desolação que esperava encontrar.

Para não dizer que não falei das flores

Mas seu Gelésio, que tem 51 anos, 8 como dono de duas barracas de flores em frente ao portão, nunca viu um corpo ser arrastado pela chuva. “Nem eu nem meus sogros, que criaram essas barracas há 25 anos”, diz.

Em todos esses anos elas nunca foram propriamente assaltadas, com arma de fogo. Mas era comum as pessoas levarem flores e simplesmente dizer que não iriam pagar. As rosas custam 1 real cada, as margaridas e os crisântemos, 5 ou 7.

Com medo, os floristas procuravam não reclamar. Mas certa tarde um grupo de rapazes começou uma discussão com sogra de seu Gelésio na rua. Os ânimos se esquentaram. Alguém sacou uma arma e disparou. O sogro se meteu na frente e levou três tirou no peito. Um deles passou a dois dedos do coração. Entrou por um lado e saiu pelo outro. “É mesmo um milagre ele ter sobrevivido. Sinto que sou muito abençoado por estar tão bem em um lugar que atrai tantas energias negativas.” Hoje os sogros estão aposentados e seu Gelésio trabalha sozinho.

As condições melhoraram muito para ele nos últimos dez anos. A favela mais próxima ao cemitério foi transformada em CDHU, surgiram CEU’s e escolas, o índice de homicídios no bairro caiu para 17,4 por 100 mil habitantes em 2007. A prefeitura gosta de alardear os investimentos feitos na região, mas a melhoria é em grande parte resultado do esforço da comunidade, através de participação direta ou de ONGS como o Serviço Social Bom Jesus, com 200 profissionais e 100 voluntários, a Sociedade Santos Mártires, com mais de 20 anos de atuação no bairro, o Centro de Direitos Humanos e Educação Popular e o Instituto Sou da Paz.

O número de enterros no São Luís caiu para cerca de 100 a 150 por mês. Hoje são menos covas abertas, os caminhos foram calçados e não se usa mais toda a extensão do terreno para sepultamentos. Sete mil e quinhentas árvores plantadas deixam a visão um pouco mais verde. A base comunitária da PM construída logo na entrada ajudou a resolver o problema de todas as incursões da polícia serem agressivas e tirou das mãos das gangues o domínio do espaço. São dois policiais fazendo ronda de dia e dois à noite.

Eles reprimem principalmente os usuários de drogas que se enroscam nos cantos dos muros e entre as lápides para cheirar crack. Hoje em dia eles são raros, mas não abandonaram totalmente o lugar. Há cinco anos havia mais deles do que parentes dos mortos fazendo visitas. Em duas, das cinco vezes em que fui ao cemitério, vi um viciado solitário em pontos distantes dos 326 mil metros quadrados da necrópole, sempre no final da tarde.

Ladrões de pipa

Já não se vê também garotos empinando pipa entre as quadras. Só nas férias, e eles são logo expulsos pelos policiais. Cleyton costumava vir até os dez, quando o irmão mais velho foi enterrado ali e as brincadeiras chegaram ao fim. Com um boné branco de aba reta, tênis de andar de skate, shorts e camiseta larga, ele nem parece já ter 29 anos.

“A gente não tinha aonde ir, né?”, conta ele, “Fazia sol, assim, aqueles dia bonito, e o único campão aberto assim que a gente tinha era no cemitério. Aí a gente vinha, passava cerol e ficava o dia inteiro roubando pipa um do outro. A gente se machucava, sim, tinha umas covas aberta, a gente quase caía. Mas o cemitério não era assim com rua, com polícia não… tinha nós, os funcionário que só aparecia quando tava tendo enterro e os nóia, né? E quando tava tendo enterro a gente ficava longe porque vira e mexe tinha treta, aí rolava de tudo, rolava discussão, rolava tiro.”

Cleyton começou a trabalhar aos doze para ajudar a mãe, que não dava mais conta de pagar as despesas da casa sozinha. Antes quem trazia o dinheiro era o irmão. “Mas a gente não sabia não que era dinheiro de droga, né? A gente não fazia nem ideia.”

Eu digo que nunca adivinharia que ele tem 29, que ele tem cara de moleque. Pergunto: acha que aproveitou a infância? Gostaria de ser criança de novo?

“Olha, sinceramente, eu dou graças a Deus que eu to vivo, que meu irmão morreu com quase dez ano a menos que eu tenho hoje.” Ele estava preparado para morrer? “Olha, assim, preparado acho que ele não tava não, mas acho que ele já esperava. Já esperava já, a gente espera, não espera? Você não espera?”

Eterno Retorno

O cemitério também espera, pacientemente, o retorno dos que passam por ali. Há cerca de cinco anos, um rapaz jovem e negro, baixo e forte chamado Márcio entrou na administração na hora em que os funcionários batiam ponto, fechou as portas e fez todo mundo de refém. Não pediu dinheiro. Os olhos vermelhos, injetados, queriam ver o João, o Johnny, sabia que estavam escondendo ele ali. Ameaçou a todos com a arma e a colocou na calça. Andava de um lado para o outro. Alguém viu que o revólver era de brinquedo. Márcio correu. Foi agarrado pelos encarregados perto do muro norte. Foram todos para a delegacia. Márcio era procurado. Foi “pro xadrez” na hora. Saiu um ano depois. Foi assassinado. Voltou ao cemitério São Luís, onde está enterrado até hoje, aguardando a exumação – já que depois de três anos todos os corpos são retirados para dar espaço para os novos que chegam. A morte, essa sim, não espera.

É Aparecido Rodrigues Alves, 38 anos, encarregado do cemitério há 16, quem conta a história. E lembra-se de outro caso que deixou uma forte impressão na sua memória.

No meio do enterro de um natimorto, percebeu-se que havia vapor, como de respiração, embaçando o vidro do caixão. Os coveiros abriram-no na hora. Um membro da família pegou a criança nos braços e foi correndo até um bombeiro que fazia plantão no velório. Ele confirmou que o bebê estava vivo e ele foi mandado de volta para o mesmo hospital onde nasceu. Lá o diagnóstico inicial foi repetido e o bebê voltou depois de três dias, dessa vez morto de verdade.

Retrato Social

Aparecido é um dos funcionários mais antigos. Todos seus nove irmãos também trabalham ou trabalharam no serviço funerário. Seus sobrinhos seguiram o mesmo caminho. Há pelo menos um Rodrigues Alves em cada cemitério da cidade. O encarregado passou no concurso público há 18 anos. “Na época era fácil porque ninguém queria o trabalho”, conta. Pediu transferência para o São Luís porque era o mais perto da sua casa, em Baguaçu, no município de Olímpia, a duas horas de distância.

Às vezes ele sofre preconceito por ser coveiro. Tem gente que nem cumprimenta, não tem coragem de apertar sua mão. Mas ele não liga. Gosta do que faz. “O trabalho é tranqüilo, é um emprego bom, paga bem, tem muito benefício” conta ele, que ganha 2500 reais por mês mais 1000 em benefícios. “Mesmo antes, quando a gente tinha certeza que se entrasse aqui e fosse muito longe ia ser assaltado, eu não pensava em sair. Tinha medo, mas não pensava em sair. Ia pra onde? O cemitério mais perto depois desse fica a três horas e meia de viagem.”

Aparecido é um dos 30 funcionários diretos. Com os temporários e os terceirizados, o total é 70. Desde o primeiro sepultamento, no dia 21 de Agosto de 1981, eles já enterraram 116.885 pessoas. O São Luís é o segundo maior cemitério público da America Latina. O responsável pela administração, Anilson Marconi, passa os dados solicitamente. De camiseta listrada, com um celular na mão, ele fala tudo sobre as reformas, discursa sobre as árvores sendo plantadas (sempre com um olho no celular) durante 15 minutos, mostra os livros de dados e óbitos. Quer mudar a fama do cemitério. “Mas só dá se a mídia ajudar, né? Se ficar falando de assassinato e assalto não ajuda.” Quando foi trabalhar no cemitério, 4 anos atrás, sua avó de 80 anos do Paraná perguntou se ele queria morrer. “Falei pra ela que na verdade não é mais assim.”

Mas a verdade de seu Anilson é parcial. Sucessivas reformas foram feitas, mas as lápides tortas, os cachorros vadios, os muros rodeados de lixo pelo lado de fora ainda denunciam que mesmo na morte, a desigualdade social continua. Os índices podem ter melhorado, mas ainda é visível a miséria e o isolamento que continuam presentes na região. O Capão Redondo continua sendo um dos bairros mais pobres e violentos da cidade.

Os dias dos pais e das mães, que costumam atrair muito visitantes a outro cemitérios, não são datas de grande movimento na barraca de flores de seu Gelésio. Mesmo hoje, a maior parte dos enterros no São Luís são de jovens que nunca chegaram a constituir família. Se não são armas de fogo, são acidentes de trânsito, suicídios, overdose. Doenças também matam mais aqui – onde todos dependem do Sistema Único de Saúde.

Durante um funeral, um senhor gorducho de cabelos grisalhos chora revoltado. “A gente dá tudo para os filhos, tenta criar eles para o bem, mas nada adianta se não dá para controlar as amizades, as companhias com quem eles se envolvem… É um absurdo, um absurdo a gente enterrar um filho. Ninguém devia jamais sofrer essa desgraça de ver um filho morto. Ninguém.”

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3 Respostas

  1. BOOOA PESQIZA SOOBRE ESSE BAIRROOO

    abril 12, 2011 às 1:32 pm

  2. Wagner Silirio da Silva

    mito nada quando chuvia os corpos iam parar la o cdhu la em baixo é verdade eu mesmo vi cranios restos de caixão e arcada dentada nessa época..

    abril 17, 2011 às 11:46 pm

  3. Wagner Silirio da Silva

    realmente eles da barracas de flores devem não ter visto mesmo pois isso acontecia la em baixo na parte baixa do cemiterio e eu duvido que eles iam la deposi das chuvas

    abril 17, 2011 às 11:52 pm

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