1º semestre de 2010

21 anos

Por Paulo Roberto Andrade

Em 1957 não havia ditadura militar, não existia Brasília, nem homem na Lua. Não existia Pelé, Chico Buarque, Elis Regina. Metade do mundo não era nascido. O Brasil não tinha nenhuma Copa do Mundo. É verdade: já existia Bossa Nova, John Lennon já conhecia Paul McCartney, mas nada de Beatles. E foi nesse distante 1957 que nasceu Francisca, nordestina de Teresina, no Piauí.

Francisca é uma pessoa de coração grande e bom, pavio curtíssimo, daquelas que sempre falam o que pensa, muitas vezes sem pensar e não guardam segredos, próprios e alheios. Ela é, sobretudo, contraditória. Tem mais qualidades que defeitos, já cometeu muitos pecados, mas ajudou muitas pessoas. O saldo ainda é largamente positivo. Resumindo: ela é uma pessoa comum, teve uma infância comum e uma adolescência comum.

E como era comum na época, casou-se menina virgem, com 17 anos, sem maturidade e sem entender nada sobre o amor. Casou-se para agradar a família, num casamento arranjado com o irmão do marido da irmã, gerando cunhados num parentesco até hoje complicado. Quando pergunto porque se casou, ela conta: “minha mãe achava bonito os maridos das filhas serem irmãos. Mas ela nunca perguntou se eu era feliz”, comenta. Francisca ainda frequentava a escola quando se casou, isso também era comum na época.

Ela não esconde que não foi feliz no casamento, e nem tem vergonha de nunca ter amado o marido Martinho. Foram dez anos. Nos cinco primeiros teve um bom marido, nos cinco seguintes “ele saia à noite, jogava, bebia, tinha outras mulheres, e eu sempre indo buscar ele no bar e nos cabarés”, lembra. Ainda assim, o casamento durou. Em 76 veio um filho, em 78 uma filha, em 84 o divórcio.

O fim marcou o início de uma história de exatos 21 anos. A separação foi amigável, a casa foi para os filhos, e os outros bens foram repartidos sem brigas. Segundo ela, nos últimos dois anos eles já não viviam como marido e mulher, apesar de morarem sobre o mesmo teto. Ficaram bons amigos, sem recaídas.

Por fim, Francisca e Martinho seguiram caminhos diferentes. Um ano após a separação, Martinho foi para Imperatriz, no Maranhão, vendia bananas no Ceasa. Depois foi trabalhar numa fazenda, no Pará. Francisca ficou em Teresina, tinha uma confecção, onde vendia roupas para algumas garotas, a maioria da vida, conhecidas da época que tanto buscava o marido nos cabarés. Na verdade, ela própria confessa ter passado a frequentar os tais cabarés (ou “bregas” como chamam no nordeste) por conta dessas clientes. Passou a jogar, beber e ter uma vida boemia e desregrada, assim como fazia o marido.

Nessa época, por volta de 1985, conheceu o cantor Zezinho, um famoso cantor de serestas das noites de Teresina. Com ele passou dois anos intensos, com muita paixão, brigas, idas e vindas. “Foi o único homem que amei de verdade em toda minha vida”, afirma ela na frente do atual marido. Quando se separaram após muitas brigas e violões quebrados, Francisca conheceu Netão, com quem teve um caso que mudaria sua vida para sempre. Todos foram contra esse caso: família, parentes, amigos próximos e distantes, vizinhos, desconhecidos. A intolerância era absoluta. Aos poucos, todos foram se afastando, julgando e apontando dedos. Apenas a mãe tolerou o fato de Netão ser uma mulher.

O cabaré

Foi Netão quem sugeriu a Francisca abrir um bar, que logo serviu como um ponto de encontro e trabalho para suas antigas clientes da confecção. O caso com Netão durou cinco anos, o suficiente para Francisca mergulhar em sua nova vida, assumir seu lado homossexual (ou bissexual, nem ela sabe ao certo) e se desligar completamente da família e antigos amigos. O bar virou Cabaré e as mulheres da vida se tornaram 18 amigas, que Francisca de certa forma cuidava.

Ela conta ter sido um período onde viveu intensamente sua juventude em todos seus excessos: bebia muito todos os dias e passava as noites no próprio cabaré, onde conhecia muitos homens e mulheres. O cabaré servia como uma interminável e permanente festa particular, onde apenas ela, Francisca, decidia quem entrava e que música tocava.

Alguns anos depois, em 1988, veio a notícia que Martinho havia morrido no Pará, após uma briga de bar. Por causa dos filhos, Francisca foi até lá. Procurou, conversou com vizinhos e conhecidos e ouviu notícias de uma viúva e um filho, mas não chegou a vê-los. Alguns amigos de Martinho confirmaram a história: ele havia morrido após uma briga numa partida de sinuca mal resolvida. Isso bastou para ela voltar à Teresina.

Alguns anos se passaram sem grandes mudanças, com Francisca longe da família, vivendo no cabaré e namorando mulheres. Francisca lembra como aprendeu a enfrentar o preconceito nessa época, mesmo sem se expor na rua, todos lhe apontavam o dedo com julgamentos. Isso a afastou ainda mais dos antigos amigos e da família e a aproximou ainda mais da vida no Cabaré. Talvez por isso, no começo dos anos 90 ela passa a viajar pelo nordeste, junto com as meninas do Cabaré, acompanhando os programas em diversas cidades. Assim, visitou muitas capitais e cidades do interior, evitando que as meninas fossem exploradas por cafetinas locais.

Em 1995, sua mãe morre vítima de câncer e Francisca perde um dos últimos vínculos que ainda tinha com Teresina e com a família. A mãe era uma das poucas pessoas tolerantes com sua vida no Cabaré e principalmente com seus casos com mulheres.

No dia da missa de 7º dia, Francisca decidiu ir para São Paulo tentar a vida. Não havia nada mais que a prendesse em Teresina: os filhos estavam criados, não tinha marido, mãe, ex-marido e família. As meninas do cabaré conseguiriam se virar sozinhas. E em São Paulo morava sua prima Benta, que não se importava e nem julgava suas escolhas. Então, sem pensar muito, se desfez do cabaré e partiu levando apenas a namorada Mazé.

São Paulo


Em São Paulo a vida se tornou mais difícil ainda. “Dormia num colchão, na casa da Benta. Era tudo muito difícil, até o cigarro eu apagava na metade para terminar depois”, lembra. Sem dinheiro, logo a namorada resolveu voltar para o nordeste. Francisca ficou em São Paulo com a prima. Tentou recomeçar trabalhando de camareira num hotel, na Av. São João. Mas o emprego não durou muito, após ser assaltada duas vezes em três meses. Francisca lembra o quanto estava perdida, se sentindo sozinha desde a morte da mãe. Após alguns meses, já não aguentava mais, e estava decidida a voltar para Teresina para recomeçar mais uma vez.

Precisamente nessa tarde, estava numa igreja, na Santa Cecília, pedindo uma luz para sua vida. Foi quando um senhor de bengala a viu chorando e começou a conversar. Ele ouviu sua história e se compadeceu. O senhor se chamava Celso, aposentado, também sozinho na vida. Ele a encorajou a continuar em São Paulo, trabalhando e lhe servindo como dama de companhia para passear, ir ao cinema, teatro, etc. Ele prometeu nunca lhe encostar um dedo, e assim foi.

Só depois de dois meses ele contou que era um promotor aposentado, sozinho mas com muito dinheiro. De certa forma, ela conseguiu encontrar a luz que pedira. “Naquela tarde na igreja, quando eu disse que queria voltar para o Piauí, ‘Seu Celso’ me disse ‘Piauí não, pior é você ir’. E aquilo me marcou muito. Ele me chamou para tomar uma cerveja e me convenceu a ficar em São Paulo”, lembra.

Com o tempo, Francisca conseguiu se adaptar à cidade, fez amigos e começou a trabalhar como zeladora num pensionato. Sempre com seu Celso nunca lhe deixando faltar nada. Após três anos, ele acabou comprando um ponto comercial para ela própria ter seu pensionato e poder andar com as próprias pernas.

O pensionato foi uma nova fase de sua vida. Com ele, Francisca retomou o controle da situação, organizou sua vida e, mesmo com desavenças, conseguiu o respeito da família. Após sete anos, numa visita à Teresina, ela conseguiu se reconciliar com a família. A distância e o tempo acabou cicatrizando muitas antigas mágoas e selando a paz.

Em São Paulo, aos poucos Francisca foi se desinteressando dos relacionamentos com mulheres e voltou a se interessar mais por homens. Ela mesma não sabe explicar porque “enjoou” de mulher, e diz atualmente não sentir mais atração nenhuma. Em 1998 conheceu seu atual marido, Antônio, com quem vive até hoje.

Em 2004, Seu Celso morreu de câncer, assim como sua mãe. Além das lembranças, ele a deixou o pensionato e a bengala como herança.

A volta de quem nunca se foi

O fato mais curioso aconteceu em dezembro de 2008, mais precisamente na véspera de Natal. Nesse dia, em Teresina, Amparo (irmã de Francisca) pensou ver uma assombração quando Martinho reaparece, vivo e ressuscitado, procurando Francisca e os filhos. Ela prontamente liga para São Paulo. “Ela me deu três chances para descobrir quem estava ao lado dela naquela hora. Lógico que eu errei as três”, lembra Francisca.

Ele havia sido dado como morto há mais de 20 anos e ninguém esperava sequer algo próximo do que aconteceu. Ele encontrou um mundo diferente: os filhos criados, netos e uma outra Francisca, em todos os sentidos. Alguns familiares nunca o perdoaram pelo sumiço, entre eles o pai, que ainda hoje é vivo.

É uma história nebulosa, Martinho não dá muitas explicações sobre o que se passou durante todos esses anos. Ele alega ter se afastado para trabalhar e, com o passar dos anos, foi ficando sem jeito para voltar. Assim, acabou perdendo contato com família e fazendo sua vida trabalhando numa fazenda no Pará.

Para algumas pessoas em Teresina ele teria matado o tal cara da briga da sinuca e, por isso, ficou esperando os 20 anos para prescrever o crime. Outras acham que ele ficou preso vários anos, outras imaginam que ele tem muito dinheiro guardado, mas são apenas boatos. Francisca o reencontrou seis meses depois do Natal: “ele estava com uma aparência cansada e sofrida, apenas isso eu tenho certeza”. Ela não sentiu nada além de pena por ele não ter acompanhado a vida dos filhos. Sentimento, nenhum.

Atualmente Francisca ainda mora em São Paulo, cuidando de seu pensionato, em paz com a família e consigo mesma. Além de ainda beber e fumar muito, está sempre rodeada de amigos. Ela diz ainda não ter vontade de voltar a morar no Piauí, mas não descarta a ideia num futuro distante. Ela lembra com carinho da terra natal e faz questão de ir todos os anos para encontrar amigos, parentes e visitar seu antigo cabaré, que é o primeiro lugar onde passa. Ela diz não esperar perdão da família, nem pedidos de desculpas, ainda existem resquícios do passado difícil. Ela sabe que a cicatriz desse passado nunca vai desaparecer.

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