1º semestre de 2010

A enchente não lavou o Carnaval

Por Bruna Buzzo e Carolina Rossetti

O canto da negra é de dor. Seu samba, colorido com belas fitas e brancos ornamentos, é  triste. O grupo louva a Deus em tom de ladainha, aquele ritmo solitário das lavadeiras que trabalham à beira dos rios. Tal qual uma bateria de escola de samba, a dança também tem sua rainha, devidamente trajada com um belo vestido, branco e enfeitado como os de noiva. Mas a bela noiva já não tem igreja para casar.

Quando a tradicional dança de fitas chega à Praça da Matriz de São Luiz do Paraitinga, durante a Festa do Divino, só encontra escombros. Os tapumes brancos escondem a igreja que se foi, mas no rosto do povo, a tristeza se nota. Mesmo na rainha do bloco em seu samba de louvor aos céus, aqueles mesmos donde des­ceu tanta água na virada do ano – data mais ingrata não há.

Os cerca de onze mil luizenses nem bem tinham amanhecido quando o rio que abraça a cidade, a cerca de 180 quilômetros da capital paulista, começava a dar sinal de engorda. Eram cinco da manhã, Seu Miguel Claro dos Santos se lembra bem, quando o braço do Paraitinga que passa em frente à sua esquina parecia querer se revoltar. Não se preocupou de imediato, pois, de tão costumeira, enchente ali não dava notícia nem no Vale Paraibano.

Experiente, Seu Miguel – nascido, crescido e envelhecido aos 66 anos em São Luiz do Paraitinga – sabia bem que a água tinha o hábito de sossegar a uns 40 cm do chão, altura em que tinha estrategicamente posicionado a prateleira mais baixa de sua vendinha de artesanato. “Vi a água subindo e mudei as coisas de prateleira, mas a água veio muito rápido. Foi só tempo de tirar a família e sair”, lembra. Foi ali – no puxa­dinho de um metro e meio, colado à casa e coberto com a lona de seu velho caminhão, onde ele vende de colher de pau a cesto de palha trançada, e o qual batizou de “Barraca da Solidão” – que seu Miguel diz ter amargurado um prejuízo que calcula em uns R$ 50 mil.

Naquela infeliz circunstância, as águas não pararam nos seus 40 cm programados, tendo subido 15 me­tros, de acordo com a Defesa Civil. O dilúvio atingiu praticamente toda a cidade. Quatro mil pessoas fica­ram desabrigadas, perdendo tu­­do o que ti­nham e indo parar em abrigos. E cinco mil ficaram desalojadas, ou se­ja, foram para a casa de amigos ou parentes até a água baixar. As áreas mais baixas da cidade enfrentaram mais de 40 horas de inundação.

Filho ilustre de São Luiz do Paraitinga, o geógrafo Aziz Ab’Sáber, que morou na cidade até os cinco anos de idade, explica que, apesar de cíclicas, não é possível prever a intensidade das enchentes naquela região. “Em média de 12 em 12 anos tem uma cheia maior. Lembro-me de uma vez que deu uma enchente tão grande que chegou até o mercado. Esta, passou do mercado. É um fenômeno espasmódico, imprevisível”, explica. Por sugestão da esposa, Aziz pensa em doar parte de sua biblioteca particular, de aproximadamente 20 mil volumes, para a fundação de uma nova biblioteca em São Luiz do Paraitinga, depois da destrui­ção da antiga.

São Luiz do Paraitinga tem 429 imóveis tom­­­­­­ba­dos pelo pa­­trimônio his­tó­­rico, alguns com dois séculos e meio de existência, datando da fundação, em 1769, da vila Paraitinga, que em tupi-guarani significa “águas claras”. Devido à enchente, 18 casas do centro histórico – construídas de taipa e pau a pique – foram totalmente destruídas e 65 sofreram algum tipo de avaria. Em junho, quase seis meses depois do aguaceiro, muitos moradores ainda esperam a liberação do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico e Artístico (Condephat) para iniciar a reforma de suas casas, tombadas também pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Ao contrário da maior parte das cidades históricas, o centro de São Luiz é predominantemente residencial, com um grande número de idosos. Quando as águas subiram, foi preciso agilidade para remover as pessoas de suas casas e evitar uma tragédia ainda maior.

O promotor público Antônio Carlos Ozório Nunes, morador da Rua do Carvalho, a mais antiga da cidade, se lembra que – já assustado com o volume da chuva que teimava em cair na noite de 31 de dezembro – comentou com sua esposa Daniela da Silva, em tom profético: “Vai dar uma enchente sem precedentes”.

Às 9 horas da manhã do dia seguinte, Antonio saiu de casa, sem saber que não voltaria a dormir pelos próximos três dias. Preocupado, imaginou que àquela hora muitos já estariam tirando os móveis de casa. “Aí, eu não voltei mais”, disse, contando como se juntou aos praticantes de rafting, à polícia e ao corpo de bombeiros para ajudar no resgate, de início, das famílias que moravam mais para a beira do rio. “Aos poucos, a água veio vindo, veio vindo”.

Alguns moradores não acreditavam no tamanho do problema que estava por vir e se recusavam a abandonar seus lares. “Quando tem enchente, todo mundo já sabe. Levanta as coisas e espera”, diz Dani­ela, lembrando da teimosia de alguns de seus vizinhos, “as pessoas diziam que estava tudo bem”. No começo do ano, Antônio era promotor da cidade, papel que lhe rendeu a confiança dos moradores receosos. “Eles não queriam acreditar nos meninos do rafting, que diziam que a água ainda ia subir mais, foi todo um trabalho de convencimento”, conta.

Daniela, mãe da pequena Florência, menina bela de uns quatro anos, compartilha o nervoso que passou com a obstinação do marido em dar uma de herói. O céu dava sinal de querer anoitecer, a água já estava no segundo andar de muitas das casas e nada do Antônio voltar. Cada minuto mais preocupada, Daniela foi se informar com um grupo de bombeiros sobre o andamento da operação. Logo descobriu que devido à escuridão que batia, deixando o resgate mais árduo e perigoso, o trabalho fora temporariamente suspenso, para ser retomado com a luz do dia seguinte.

“Fui, então, saber do Antônio, e me avisaram que estava com o pessoal do rafting, ainda tirando gente das casas”, diz Daniela que agora consegue até achar graça ao lembrar o perrengue que passou, logo emendando: “Foram os meninos do raf­ting que assumiram o resgate nessa hora. Eles, sim, conheciam bem os caminhos e ficaram a madrugada inteira tirando gente das casas”

“Deu umas onze horas da noite e eu comecei um trabalho de sair com os botes, eu tinha que convencer aqueles moradores mais resistentes a saírem das casas. Só o nosso bote resgatou 58 pessoas”, conta Antônio, que persistiu na empreitada até umas 5h30 da manhã. O trabalho inspirador dos meninos do rafting conseguiu retirar mil e quinhentas pessoas da área central da cidade, garante o promotor. “Foi um trabalho triste e envolvente. As pessoas saiam de suas casas chorando, traumatizadas. Foi muito triste quando passamos na Rua Barão do Paraitinga e vimos a primeira casa cair”.

A organização da retirada dos moradores da área inundada de São Luiz do Paraitinga – a essa altura já decretada em situação de calamidade pública – foi, talvez, a parte mais difícil, de acordo com Antônio, nos dias que se seguiram ao susto inicial. A cidade sofria com a falta de tudo, principalmente de água, comida e luz. O pároco local, padre Edson Carlos Alves Rodrigues, conta com orgulho como a Igreja cumpriu seu papel durante o desastre, oferecendo abrigo e cestas básicas para as famílias. O centro paroquial, que fica em uma rua alta do centro histórico, foi transformado no improviso em posto policial e prefeitura (esta também gravemente atingida pela cheia do rio Paraitinga). “Tudo se concentrou ali”, diz o padre.

“São Luiz parecia um Titanic. Cada um querendo sair mais rápido que o outro”, descreve o promotor, ao narrar a ida e vinda dos botes, orientados a tirar primeiro as crianças, mulheres e idosos. Ele se lembra que os três primeiros dias foram os piores. “Só com a chegada da Defesa Civil as coisas começaram a ficar mais tranquilas”.

Luizienses apaixonados como são por sua cidade, Daniela e Antônio, que hoje moram em Taubaté, voltando quase todo fim de semana para sua terrinha, decidiram que era parte de seu dever ajudar a reerguer o patrimônio levado pela enchente. Com mais treze amigos, fundaram a entidade civil sem fins lucrativos AMI São Luiz, ou me­lhor, Associação dos Amigos para a Reconstrução e Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural de São Luiz do Paraitinga. A ideia, ainda prematura, eles admitem, é ajudar as pessoas com poucos recursos a reconstruírem suas casas. “Se o governo falar que recupera todas as casas, vamos destinar nossa energia para outras coisas, como folclore, arte”. Até agora eles já iniciaram a reforma de quatro imóveis, entre elas, a casinha/venda do artesão seu Miguel, que custou à AMI uns R$ 8 mil.

Com a ajuda da associação, mesmo que insuficiente para tornar a casa morável, seu Miguel já  conseguiu reabrir seu negócio, esperançoso de que os turistas vão retornar. Aos poucos ele vai se reconstruindo, mas confessa que, em alguns dias, acorda desorientado, ouvindo barulhos que pensa ser de uma nova enchente. Daniela entende bem a angústia de seu Miguel, ela também, por vezes, tem maus pressentimentos. “Um dia, quando estava na praça, escutei um baru­lho. Achei que o resto da igreja estava caindo. Olhei para trás e vi que era só um ônibus dando partida”.

Das jóias da cidade, talvez a perda mais sentida pela comunidade tenha sido não só a individual, mas a coletiva, traduzida na ruína da tão amada Igreja da Matriz São Luiz de Tolosa. Em uma cidade onde a maioria da população é católica, o padre Edson diz que “as pessoas já estavam abaladas pela perda de suas casas, mas com a queda da casa de Deus, elas perderam a referência. Foi uma tristeza muito grande ver a igreja no chão.”

Antonio e Daniela

Daniela conta que mesmo depois da queda da igreja, que ela própria presenciou da sacada de casa, muitos moradores, saudosos do badalar do sino, garantiam que ainda o ouviam tocar. Um funcionário do Iphan, atento ao fenômeno, que alguns diriam paranormal, ordenou a instalação de um campanário provisório para o sino, resgatado dos escombros da Matriz.

Não muito longe da Matriz, o aguaceiro levou também a Capela das Mercês. Dessa, nada se salvou, nem mesmo a tradicional imagem de Nossa Senhora das Mercês. Por sua vez, na Igreja Matriz foram resgatadas algumas das imagens de santos, além de uma “cápsula do tempo”, como ficou conhecida a arca de seu Romillo Guimarães que, em 1927, enterrou nos alicerces da igreja uma caixa com documentos, fotos e manuscritos da época. O tesouro de seu Romillo ficou guardado por 83 anos (mesma idade do seu filho Ary, agora o herdeiro da cápsula do tempo) até ser descoberta pelos técnicos do Iphan e da empresa goiana Biapó, que estão trabalhando na limpeza dos escombros, que deve ir até agosto, quando se espera que tenha início a cons­trução da nova igreja.

Em novembro, uma análise feita por técnicos do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) alertava para a necessidade de reparos urgentes na estrutura da Matriz, comprometida por trincas. A agilidade das chuvas, porém, foi maior que a dos órgãos de preservação histórica. A proposta, agora, é erguer uma réplica da igreja, refazendo a fachada neoclássica, os vitrais, afrescos, e até o suntuoso salão barroco.

Para a reconstrução da cidade, o governo estadual disponibilizou cerca de R$ 50 milhões e o federal, via Ministério da Cultura, liberou R$ 10 milhões. O prejuízo total é estimado em R$ 100 milhões. Apesar das enormes perdas, a vida em São Luiz do Paraitinga vai retomando a rotina. Para a Festa do Divino, realizada em maio, a maioria das residências já estava repintada e muitas delas já haviam reformado ao menos a fachada. Aos poucos, São Luiz espera voltar a atrair os turistas, que são a principal fonte de renda da cidade, famosa por seu carnaval de marchinhas e pelas festas religiosas populares. Carnaval 2011? “Vai ser de arrebentar”, garante o promotor Antônio Ozório Nunes.

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6 Respostas

  1. Exelente. A introdução está ótima e prende bastante a atenção pros dados que seguem. O texto no geral tá bem bonito e faz jus à atenção que merece São Luís do Paraitinga. Parabéns, meninas.

    agosto 23, 2010 às 1:10 am

  2. Bruna e Carolina. Sou luizense e li com muita atenção a matéria que fizeram sobre a cidade. Ficou linda e emocionante. Parabéns e obrigada. Haydée.

    agosto 23, 2010 às 3:24 pm

  3. Luiz Fernando

    Otima materia sobre nossa São Luis do Paraitinga, até porque sou irmão da Daniela e tambem estava lá na trajedia. Passamos por momentos dificeis, mas vamos reconstruir nossa linda cidade. Parabens pela materia de vocês

    agosto 24, 2010 às 7:45 am

  4. Celia Ramos

    Bruna e Carolina.
    Gostei muito da forma como descreveu o povo luizense em sua ingenuidade desafiando as águas o rio, a solidariedade, a lucidez para contar a catástrofe finalizando a conversa dizendo:
    “Estamos vivos e iremos reconstruir nossa cidade”.

    Muito grata!

    Celia Ramos

    agosto 24, 2010 às 7:52 pm

  5. Raquel Rosselli

    Parabéns pela matéria. Sou Luizense e consegui sentir tudo o que passamos naqueles dias da tragédia retrado por vocês.

    O carnaval de 2011? Com certeza vai ser de arrebentar!!!

    Beijos

    agosto 26, 2010 às 1:13 pm

  6. Silvana

    Muito emocionante a matéria!!!Sou Luizense de coração e de longe sofri muito com essa enchente.Minha familia é toda de São Luis e minha mãe estava em minha casa que fica em uma outra cidade,tadinha saiu pra vir pra ca com a cidade inteira e voltou com ela abaixo de destroços.Graças a DEUS sua casa não fora atingida.Mais muitos parentes e amigos perderam tudo ,o desespero e a falta de informação foi desesperadora,nem as operadoras de celulares estavam pegando.Acompanhei toda essa tragedia pela televisao e internet,quando vi a materia que a igreja matriz tinha desabado me deu um colapso nervoso ,ao extremo que a enchente chegara.Mais DEUS olhou por todos e todos se salvaram apesar das perdas materiais.Muita gente boa também ajudou!!!!!!!!Espero que o governo olhe por essa cidade e pelas pessoas que nela moram nesses proximos anos de reconstrução.São Luis do Paraitinga é terra de pessoas inteligentes e criativas ,porém com poucas oportunidades.

    setembro 26, 2010 às 6:08 pm

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