1º semestre de 2010

Espera – 1º semestre de 2010

A enchente não lavou o Carnaval

Por Bruna Buzzo e Carolina Rossetti

O canto da negra é de dor. Seu samba, colorido com belas fitas e brancos ornamentos, é  triste. O grupo louva a Deus em tom de ladainha, aquele ritmo solitário das lavadeiras que trabalham à beira dos rios. Tal qual uma bateria de escola de samba, a dança também tem sua rainha, devidamente trajada com um belo vestido, branco e enfeitado como os de noiva. Mas a bela noiva já não tem igreja para casar.

Quando a tradicional dança de fitas chega à Praça da Matriz de São Luiz do Paraitinga, durante a Festa do Divino, só encontra escombros. Os tapumes brancos escondem a igreja que se foi, mas no rosto do povo, a tristeza se nota. Mesmo na rainha do bloco em seu samba de louvor aos céus, aqueles mesmos donde des­ceu tanta água na virada do ano – data mais ingrata não há.

Os cerca de onze mil luizenses nem bem tinham amanhecido quando o rio que abraça a cidade, a cerca de 180 quilômetros da capital paulista, começava a dar sinal de engorda. Eram cinco da manhã, Seu Miguel Claro dos Santos se lembra bem, quando o braço do Paraitinga que passa em frente à sua esquina parecia querer se revoltar. Não se preocupou de imediato, pois, de tão costumeira, enchente ali não dava notícia nem no Vale Paraibano.

Experiente, Seu Miguel – nascido, crescido e envelhecido aos 66 anos em São Luiz do Paraitinga – sabia bem que a água tinha o hábito de sossegar a uns 40 cm do chão, altura em que tinha estrategicamente posicionado a prateleira mais baixa de sua vendinha de artesanato. “Vi a água subindo e mudei as coisas de prateleira, mas a água veio muito rápido. Foi só tempo de tirar a família e sair”, lembra. Foi ali – no puxa­dinho de um metro e meio, colado à casa e coberto com a lona de seu velho caminhão, onde ele vende de colher de pau a cesto de palha trançada, e o qual batizou de “Barraca da Solidão” – que seu Miguel diz ter amargurado um prejuízo que calcula em uns R$ 50 mil.

Naquela infeliz circunstância, as águas não pararam nos seus 40 cm programados, tendo subido 15 me­tros, de acordo com a Defesa Civil. O dilúvio atingiu praticamente toda a cidade. Quatro mil pessoas fica­ram desabrigadas, perdendo tu­­do o que ti­nham e indo parar em abrigos. E cinco mil ficaram desalojadas, ou se­ja, foram para a casa de amigos ou parentes até a água baixar. As áreas mais baixas da cidade enfrentaram mais de 40 horas de inundação.

Filho ilustre de São Luiz do Paraitinga, o geógrafo Aziz Ab’Sáber, que morou na cidade até os cinco anos de idade, explica que, apesar de cíclicas, não é possível prever a intensidade das enchentes naquela região. “Em média de 12 em 12 anos tem uma cheia maior. Lembro-me de uma vez que deu uma enchente tão grande que chegou até o mercado. Esta, passou do mercado. É um fenômeno espasmódico, imprevisível”, explica. Por sugestão da esposa, Aziz pensa em doar parte de sua biblioteca particular, de aproximadamente 20 mil volumes, para a fundação de uma nova biblioteca em São Luiz do Paraitinga, depois da destrui­ção da antiga.

São Luiz do Paraitinga tem 429 imóveis tom­­­­­­ba­dos pelo pa­­trimônio his­tó­­rico, alguns com dois séculos e meio de existência, datando da fundação, em 1769, da vila Paraitinga, que em tupi-guarani significa “águas claras”. Devido à enchente, 18 casas do centro histórico – construídas de taipa e pau a pique – foram totalmente destruídas e 65 sofreram algum tipo de avaria. Em junho, quase seis meses depois do aguaceiro, muitos moradores ainda esperam a liberação do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico e Artístico (Condephat) para iniciar a reforma de suas casas, tombadas também pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Ao contrário da maior parte das cidades históricas, o centro de São Luiz é predominantemente residencial, com um grande número de idosos. Quando as águas subiram, foi preciso agilidade para remover as pessoas de suas casas e evitar uma tragédia ainda maior.

O promotor público Antônio Carlos Ozório Nunes, morador da Rua do Carvalho, a mais antiga da cidade, se lembra que – já assustado com o volume da chuva que teimava em cair na noite de 31 de dezembro – comentou com sua esposa Daniela da Silva, em tom profético: “Vai dar uma enchente sem precedentes”.

Às 9 horas da manhã do dia seguinte, Antonio saiu de casa, sem saber que não voltaria a dormir pelos próximos três dias. Preocupado, imaginou que àquela hora muitos já estariam tirando os móveis de casa. “Aí, eu não voltei mais”, disse, contando como se juntou aos praticantes de rafting, à polícia e ao corpo de bombeiros para ajudar no resgate, de início, das famílias que moravam mais para a beira do rio. “Aos poucos, a água veio vindo, veio vindo”.

Alguns moradores não acreditavam no tamanho do problema que estava por vir e se recusavam a abandonar seus lares. “Quando tem enchente, todo mundo já sabe. Levanta as coisas e espera”, diz Dani­ela, lembrando da teimosia de alguns de seus vizinhos, “as pessoas diziam que estava tudo bem”. No começo do ano, Antônio era promotor da cidade, papel que lhe rendeu a confiança dos moradores receosos. “Eles não queriam acreditar nos meninos do rafting, que diziam que a água ainda ia subir mais, foi todo um trabalho de convencimento”, conta.

Daniela, mãe da pequena Florência, menina bela de uns quatro anos, compartilha o nervoso que passou com a obstinação do marido em dar uma de herói. O céu dava sinal de querer anoitecer, a água já estava no segundo andar de muitas das casas e nada do Antônio voltar. Cada minuto mais preocupada, Daniela foi se informar com um grupo de bombeiros sobre o andamento da operação. Logo descobriu que devido à escuridão que batia, deixando o resgate mais árduo e perigoso, o trabalho fora temporariamente suspenso, para ser retomado com a luz do dia seguinte.

“Fui, então, saber do Antônio, e me avisaram que estava com o pessoal do rafting, ainda tirando gente das casas”, diz Daniela que agora consegue até achar graça ao lembrar o perrengue que passou, logo emendando: “Foram os meninos do raf­ting que assumiram o resgate nessa hora. Eles, sim, conheciam bem os caminhos e ficaram a madrugada inteira tirando gente das casas”

“Deu umas onze horas da noite e eu comecei um trabalho de sair com os botes, eu tinha que convencer aqueles moradores mais resistentes a saírem das casas. Só o nosso bote resgatou 58 pessoas”, conta Antônio, que persistiu na empreitada até umas 5h30 da manhã. O trabalho inspirador dos meninos do rafting conseguiu retirar mil e quinhentas pessoas da área central da cidade, garante o promotor. “Foi um trabalho triste e envolvente. As pessoas saiam de suas casas chorando, traumatizadas. Foi muito triste quando passamos na Rua Barão do Paraitinga e vimos a primeira casa cair”.

A organização da retirada dos moradores da área inundada de São Luiz do Paraitinga – a essa altura já decretada em situação de calamidade pública – foi, talvez, a parte mais difícil, de acordo com Antônio, nos dias que se seguiram ao susto inicial. A cidade sofria com a falta de tudo, principalmente de água, comida e luz. O pároco local, padre Edson Carlos Alves Rodrigues, conta com orgulho como a Igreja cumpriu seu papel durante o desastre, oferecendo abrigo e cestas básicas para as famílias. O centro paroquial, que fica em uma rua alta do centro histórico, foi transformado no improviso em posto policial e prefeitura (esta também gravemente atingida pela cheia do rio Paraitinga). “Tudo se concentrou ali”, diz o padre.

“São Luiz parecia um Titanic. Cada um querendo sair mais rápido que o outro”, descreve o promotor, ao narrar a ida e vinda dos botes, orientados a tirar primeiro as crianças, mulheres e idosos. Ele se lembra que os três primeiros dias foram os piores. “Só com a chegada da Defesa Civil as coisas começaram a ficar mais tranquilas”.

Luizienses apaixonados como são por sua cidade, Daniela e Antônio, que hoje moram em Taubaté, voltando quase todo fim de semana para sua terrinha, decidiram que era parte de seu dever ajudar a reerguer o patrimônio levado pela enchente. Com mais treze amigos, fundaram a entidade civil sem fins lucrativos AMI São Luiz, ou me­lhor, Associação dos Amigos para a Reconstrução e Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural de São Luiz do Paraitinga. A ideia, ainda prematura, eles admitem, é ajudar as pessoas com poucos recursos a reconstruírem suas casas. “Se o governo falar que recupera todas as casas, vamos destinar nossa energia para outras coisas, como folclore, arte”. Até agora eles já iniciaram a reforma de quatro imóveis, entre elas, a casinha/venda do artesão seu Miguel, que custou à AMI uns R$ 8 mil.

Com a ajuda da associação, mesmo que insuficiente para tornar a casa morável, seu Miguel já  conseguiu reabrir seu negócio, esperançoso de que os turistas vão retornar. Aos poucos ele vai se reconstruindo, mas confessa que, em alguns dias, acorda desorientado, ouvindo barulhos que pensa ser de uma nova enchente. Daniela entende bem a angústia de seu Miguel, ela também, por vezes, tem maus pressentimentos. “Um dia, quando estava na praça, escutei um baru­lho. Achei que o resto da igreja estava caindo. Olhei para trás e vi que era só um ônibus dando partida”.

Das jóias da cidade, talvez a perda mais sentida pela comunidade tenha sido não só a individual, mas a coletiva, traduzida na ruína da tão amada Igreja da Matriz São Luiz de Tolosa. Em uma cidade onde a maioria da população é católica, o padre Edson diz que “as pessoas já estavam abaladas pela perda de suas casas, mas com a queda da casa de Deus, elas perderam a referência. Foi uma tristeza muito grande ver a igreja no chão.”

Antonio e Daniela

Daniela conta que mesmo depois da queda da igreja, que ela própria presenciou da sacada de casa, muitos moradores, saudosos do badalar do sino, garantiam que ainda o ouviam tocar. Um funcionário do Iphan, atento ao fenômeno, que alguns diriam paranormal, ordenou a instalação de um campanário provisório para o sino, resgatado dos escombros da Matriz.

Não muito longe da Matriz, o aguaceiro levou também a Capela das Mercês. Dessa, nada se salvou, nem mesmo a tradicional imagem de Nossa Senhora das Mercês. Por sua vez, na Igreja Matriz foram resgatadas algumas das imagens de santos, além de uma “cápsula do tempo”, como ficou conhecida a arca de seu Romillo Guimarães que, em 1927, enterrou nos alicerces da igreja uma caixa com documentos, fotos e manuscritos da época. O tesouro de seu Romillo ficou guardado por 83 anos (mesma idade do seu filho Ary, agora o herdeiro da cápsula do tempo) até ser descoberta pelos técnicos do Iphan e da empresa goiana Biapó, que estão trabalhando na limpeza dos escombros, que deve ir até agosto, quando se espera que tenha início a cons­trução da nova igreja.

Em novembro, uma análise feita por técnicos do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) alertava para a necessidade de reparos urgentes na estrutura da Matriz, comprometida por trincas. A agilidade das chuvas, porém, foi maior que a dos órgãos de preservação histórica. A proposta, agora, é erguer uma réplica da igreja, refazendo a fachada neoclássica, os vitrais, afrescos, e até o suntuoso salão barroco.

Para a reconstrução da cidade, o governo estadual disponibilizou cerca de R$ 50 milhões e o federal, via Ministério da Cultura, liberou R$ 10 milhões. O prejuízo total é estimado em R$ 100 milhões. Apesar das enormes perdas, a vida em São Luiz do Paraitinga vai retomando a rotina. Para a Festa do Divino, realizada em maio, a maioria das residências já estava repintada e muitas delas já haviam reformado ao menos a fachada. Aos poucos, São Luiz espera voltar a atrair os turistas, que são a principal fonte de renda da cidade, famosa por seu carnaval de marchinhas e pelas festas religiosas populares. Carnaval 2011? “Vai ser de arrebentar”, garante o promotor Antônio Ozório Nunes.

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21 anos

Por Paulo Roberto Andrade

Em 1957 não havia ditadura militar, não existia Brasília, nem homem na Lua. Não existia Pelé, Chico Buarque, Elis Regina. Metade do mundo não era nascido. O Brasil não tinha nenhuma Copa do Mundo. É verdade: já existia Bossa Nova, John Lennon já conhecia Paul McCartney, mas nada de Beatles. E foi nesse distante 1957 que nasceu Francisca, nordestina de Teresina, no Piauí.

Francisca é uma pessoa de coração grande e bom, pavio curtíssimo, daquelas que sempre falam o que pensa, muitas vezes sem pensar e não guardam segredos, próprios e alheios. Ela é, sobretudo, contraditória. Tem mais qualidades que defeitos, já cometeu muitos pecados, mas ajudou muitas pessoas. O saldo ainda é largamente positivo. Resumindo: ela é uma pessoa comum, teve uma infância comum e uma adolescência comum. (mais…)


Os últimos melhores dias

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Todos estão a espera da morte desde o momento em que nascem. Essa espera é mais notável no corredor com 10 leitos destinados a pacientes terminais do Hospital do Servidor Público. Isso não torna o ambiente mais pesado, pelo contrário, a equipe de 38 pessoas – entre elas nutricionista, psicóloga, enfermeiras, médicos, residentes e outros – são tão carinhosos que os pacientes sorriem, dão risada e vivem seus últimos dias da melhor forma possível, e têm suas vontades respeitadas. (mais…)


Meu destino é ser star

Vidrado em música desde criança, Bruno Bellini só tem uma certeza na vida: será um rock star

Por Marcos Henrique Hiraoka

Imagens: Junior reis


É impossível ser indiferente a Bruno Bellini. O que lhe falta em beleza, sobra em carisma e espontaneidade. Fala as palavras de modo bem articulado para que o interlocutor entenda bem sua mensagem. Sempre termina suas frases com uma pergunta que só permite duas respostas: sim ou não. Claro que sua intenção é receber um sim. (mais…)


Na fila do direito à moradia

A história de famílias que dão vida a edifícios abandonados

Por Iana Chan


Manoel Pedro dos Santos Filho, 39 anos, estava arrumando sua Kombi estacionada em frente ao prédio onde mora, perto da estação de trem da Luz. Era uma noite de domingo, o comércio estava fechado e nas ruas restavam apenas os velhos conhecidos do castigado centro de São Paulo: usuários de drogas, prostitutas e moradores de rua. (mais…)


O que vem do céu pode vir da Terra

Por Ana Carolina Athanásio e Carla Peralva, de São Thomé das Letras

Chico Taquara é um nome bem conhecido em São Thomé das Letras, município de Minas Gerais. Sua história, repleta de mistérios, começa em 1840, na noite em que seu pai, José Francisco de Góes Gonçalves, chega em casa bêbado e, como de costume, ameaça espancar sua esposa, Ana Cândida. A mulher, grávida de seu primeiro filho, foge em direção às pedras e só volta meses depois sem a criança nos braços. Ao chegar, conta ao marido: “Quando eu fugi para as tocas com medo de ti, me escondi em uma pequena caverna que encontrei bem protegida do vento e do frio. Desorientada e com medo, adormeci. Quando acordei, me encontrava sem barriga e deitada em uma cama confortável e rodeada de pessoas que trajavam uma roupa branca e luminosa que ia até os pés. Não consigo me lembrar mais de nada e nem do rosto das pessoas que de mim cuidaram com carinho, só me lembro que me prometeram que cuidariam de nosso filho e me devolveriam o mesmo assim que fosse possível. Eu, marido, senti neles uma confiança muito grande e não soube dizer nada”. (mais…)


Um por todos…

Por Raphael Fozatto Florencio e Bruna Ferreira

Noite de quinta-feira típica do outono paulistano. Temperatura por volta dos quinze graus – e caindo – primeiro dia de um feriado prolongado de Corpus Christi. Vou ao estádio do Pacaembu trabalhar no jogo entre Corinthians e Internacional, sexta rodada do Campeonato Brasileiro de 2010.

Já havia conversado com Benito, membro da Velha Guarda da Gaviões da Fiel, e combinávamos de nos encontrar em uma festa na quadra da Torcida no sábado seguinte para que ele me indicasse uma mulher apaixonada pelo Corinthians. Tentara de várias maneiras encontrar a dona Valquíria Dionísio de Jesus, torcedora famosa, que frequenta os jogos do time vestida de mosqueteira e sempre aparece em entrevistas, fotos e até mesmo no filme “Fiel”, lançado em 2009. (mais…)


Rui Mendes: Retratos

Por Carol Nehring


Rui Mendes é fotógrafo há três décadas. Já fez mais de 300 capas de disco e posui o maior acervo de fotos de rock do Brasil. Fez 48 anos, se casou sete vezes e tem uma filha, que não é de nenhum dos casamentos. Fuma dois maços de cigarro por dia, mora no centro de São Paulo, no Edifício Copan, tem dois cachorros que o acompanham o tempo todo – inclusive ao trabalho. Já viajou a trabalho para vários lugares no mundo e diz que essas foram suas melhores fotos. (mais…)


Bens indevidos bem florescem

Porque não querem esperar dinheiro brotar em árvore, construtoras verticalizam a cidade de São Paulo e colhem o melhor custo-benefício por metro quadrado. Lá do alto, paulistanos reconhecem cada vez menos a cidade em que vivem.

por Marcos Ritel

O metrô da Linha 3-Vermelha  atravessa as entranhas do centro de São Paulo com a indiferença de quem cumpre uma obrigação. Foge da estação da Sé em direção à Itaquera. Passar por ali é o preço de se livrar do tumulto e da aglomeração da superfície. Tudo isso para, algumas estações à frente, emergir da escuridão e respirar livre a calmaria que espraia dos antigos bairros operários paulistas. (mais…)


Os biscoitos finos de Oswáld

A espera da filha do escritor modernista pelo reconhecimento do pai e de sua obra

Por Guilherme Dearo e Ricardo Azarite

O prédio, na Avenida Higienópolis, chama a atenção. Pé direito alto, toda a frente voltada para a rua é composta por imensas janelas pergoladas, que vão do chão ao teto, uma cor diferente em cada apartamento.

No apartamento 63, o “espírito de modernidade” se prolonga. De modernismo, melhor dizendo. Quem nos recebe é Antonieta Marília de Oswald de Andrade, ou somente Marília de Andrade. Sorridente, extrovertida, não demora a ser envolver na entrevista. E não esconde o orgulho do pai.

Pai que deixou muitos objetos que decoram a sala de estar do grande apartamento. Para a entrevista, ela se senta numa cadeira que foi a preferida do pai. Ainda há uma de balanço, outro xodó. Esculturas em galhos de árvores que ele comprou em viagens decoram a estante. Ela não sabe direito o que são. Chama de homem, onça, cavalo. Coincidência com “O Homem e o Cavalo”, peça de 1934? (mais…)


Vida e morte na periferia

Com apenas 29 anos, o Cemitério São Luís mudou mais que qualquer outro da cidade e conta os dramas de vida e morte dos moradores da periferia.

Por Letícia Mori

O caminho dos Jardins, uma das regiões mais nobres de São Paulo, até o Cemitério São Luiz, na zona sul, leva cerca de uma hora e meia de ônibus, com trânsito razoável. Não é muito mais do que a média de tempo gasta por um paulistano para ir ao trabalho – 1h37min. Você dá a volta por trás do MASP (Museu de Arte de São Paulo), desce algumas escadarias até a Avenida Nove de Julho e pega o Chácara Santana 609-10.

Não que algum dos endinheirados dos Jardins precise ir a esse cemitério. E mesmo que fosse o caso, iriam de carro. Nem quando morrem vão para lá. Uma parte, das famílias antigas e de sobrenome tradicional, é enterrada nas tumbas nos cemitérios da Consolação, Araçá e São Paulo, ao lado de artistas famosos, homens de poder e políticos de outros tempos. Já os nouveaux riches, compram túmulos em cemitérios particulares caríssimos, moldados ao estilo dos cemitérios norte-americanos cujas sepulturas são todas subterrâneas. (mais…)


Fé e esperança

Como igrejas evangélicas trabalham a serviço da espera alheia

Por Eliseu Barreira Junior e Stephany Tiveron


– Voltei para a Igreja Universal do Reino de Deus há um mês. Eu cresci na Universal e nunca fui para o mundo. Me casei e, depois de dois anos, meu esposo decidiu frequentar a [Igreja] Mundial [do Poder de Deus]. Fui com ele por submissão. A princípio estava me sentindo bem, mas minha vida espiritual foi caindo a cada dia que se passava. Começaram a aparecer problemas de saúde que nunca tive. Mas continuava quietinha, acompanhando o meu esposo. Este ano, no final de janeiro, decidi pela minha vida e voltei para a Universal. Sozinha. (mais…)


Rex, já pro canil!

Por Carolina Omns

Só na cidade de São Paulo eles são, no mínimo, 2,4 milhões. E se multiplicam. Junto com eles o número de pet shops, que já ultrapassa o de farmácias e padarias, o de ONG’s para sua proteção, as neuroses com o seu cuidado e o abandono diante da constatação de que eles necessitarão de cuidados por toda a vida.

Como no consumo de peças de vestuário, também existem os cães de raça da moda. Mas, diferente do que acontece com as blusas, saias e calças que se tornam last week, os cães que saem de moda vão parar em centros de zoonoses e outros canis construídos por ONGs – na melhor das hipóteses.

Expostos nas vitrines das pet shops, o melhor amigo do homem mais in não sai por menos de 400 reais. Bom negócio para os criadores. Status e companhia domável para os compradores. (mais…)


Vacina anti-preconceito

As visões de um soropositivo, de uma voluntária nas pesquisas com vacina anti-HIV e de um médico pesquisador

Por Daniele Melo e Marcos Guerra

Parecia um dia como outro qualquer, não fosse a forte infecção que atacara os pulmões de João (nome fictício), um trabalhador de pouco mais de vinte anos e de hábitos saudáveis. Pneumonia das fortes; uma fraqueza que consumia  seu  corpo e uma tosse que insistia em maltratar sua garganta. A internação no hospital é inevitável. Um dia internado, dois dias internado, três dias, quatro, cinco, seis, sete. Os médicos ainda não sabem a causa da doença. No oitavo dia de internação, João, ainda mais fraco e agoniado, passa por uma broncoscopia. Ainda sem respostas. Parece ser coisa séria. “Já fizeram teste de HIV e exame de Tuberculose em você?”, questiona o médico. “Ainda não, doutor”, responde receoso. (mais…)


Uma espera verde e amarela

Abrindo um pacotinho, encontrando a pessoa certa, mandando um pedido pelos Correios: há várias formas de acabar com essa expectativa que não tem idade

Por Mariane Domingos e Tainara Machado

A lista de convocados para a Copa da África do Sul saiu na tarde do dia 11 de maio de 2010. Engana-se quem pensa que definir seleções com potencial para história do mundial é trabalho apenas das comissões técnicas. Seis meses antes do anúncio oficial dos treinadores, a equipe da multinacional Panini já se esforçava para reunir os 544 nomes hoje presentes nas páginas do Álbum Oficial da Copa. Essa tarefa pode ser ainda mais ingrata que a dos técnicos, pois há menos vagas e mais critérios de seleção. Além do bom futebol e da participação nas últimas partidas disputadas pelo time, o jogador precisa ser carismático para ter seu rosto estampado em uma figurinha. (mais…)


Fertilização in fórum

Relatos de uma gestação difícil, com parto nada normal de crianças já nascidas

Por Ana Paula Manzalli e Rafael Benaque

Imagine uma sala de espera com 27.342 senhas distribuídas. Do outro lado, 4.809 crianças tentam se distrair na sala de recreação. Esse é o cenário de quem se envolve – e de quem é envolvido – no burocrático mundo da adoção: um lugar onde as contas não batem e o chá de cadeira não tem previsão para acabar.

Uma das senhas está nas mãos de Alexandra Nascimento Resende e Marcelo Ganzarolli Resende. Eles estavam entre as pessoas que conhecemos em uma reunião do grupo de apoio à adoção A Casa de Helena. O encontro acontece duas vezes por mês e tem a intenção de promover uma troca de experiências, medos, dúvidas e ansiedades entre aqueles que estão nesse processo. O presidente e fundador do grupo, Hélio Ferraz de Oliveira, conhece bem essa situação – por diferentes pontos de vista. Ele é advogado, voluntário em um abrigo para crianças e membro do projeto A OAB Vai à Escola, que trata de assuntos como esse nas salas de aula. (mais…)


Chicote na carne

Porque com prazer é mais doloroso

Por Luis Ricardo Bérgamo e Camila de Lira

De jeans desbotados e um tênis velho nos pés, nada se sabe sobre sua vida particular. Como é comum nas grandes cidades, ele se confunde na multidão que precisa encarar o dia-a-dia de seu trabalho no centro de São Paulo. A pessoa que senta do seu lado do metrô desconhece seus desejos, assim como a mulher com quem divide mesa no trabalho. Mas a quem interessa? (mais…)