1º semestre de 2010

Sexo – 2º semestre de 2008

Yaoi: uma descoberta com muito sentido

Por Bárbara Matte e Fabiana Cambricoli

Sem clímax, sem resolução, sem sentido. Depois de alguns anos de estrada, infelizmente pra uns, felizmente pra outros, vamos nos convencendo de que o sexo é muitas vezes tratado, buscado e pensado como um simples fim. Sem nenhum sentido, partimos rumo a “jornada vital da fornicação” (JVF), sem perceber que quanto mais parceiros contabilizamos, mais vazios nos sentimos. Assumo que depois dos 25, essa realidade começou a me incomodar. Sentia que o mundo era regido pelo sexo, assistia as investidas das indústrias e comércio com esse apelo e, nesse momento, minha mente já estava condicionada a enxergar qualquer produto do sexo como uma putaria qualquer, mais barata que aqueles filmes pornôs exibidos nos famosos cinemas do centro de São Paulo, os quais colaboravam pra essa minha visão de mundo, já que meu emprego no centro me obrigava a conviver com esses locais.

Em um desses dias, rumo ao escritório, depois de tomar um pé na bunda de quem eu pensava ser meu próximo “amor da minha vida”, queria parar de pensar que eu também fora um objeto e que as pessoas com quem me relacionava estavam dentro da JVF. Tentando arejar meu pensamento, entrei em uma banca de jornal um tanto bagunçada, mas com uma grande quantidade de revistas. Não era daquelas banquinhas de esquina, mas também não era uma loja. Digamos que quem entrasse ali, estaria bem servido.

Como ainda tinha alguns minutos antes de começar o expediente, fiquei lá olhando para os lados procurando algo que me interessasse. Não estava procurando nada em específico, buscava apenas desviar meu olhar daqueles montes de revistas masculinas. Dei de cara com aqueles quadrinhos japoneses, os populares mangás, e fiquei instigada a comprar um. Quem sabe um desses me distrairia com algo mais leve e ingênuo. Diante de tantos títulos, eu não sabia o que escolher. Resolvi pedir a opinião de uma garota que estava ao meu lado e segurava um nas mãos. Descendência oriental, uns 15 anos, carinha de nerd, devia manjar tudo de mangás, e com certeza teria um bom pra me indicar.

Ao questioná-la sobre aquele volume que segurava, ela falou eufórica: “É o Gravitation, acabaram de publicar no Brasil, compra logo que eu tenho certeza que vai esgotar nessa semana!”. Envergonhada, imaginando que esse tal de Gravitation era conhecido por todas as pessoas minimamente informadas, tentei escapar de ter minha ignorância reconhecida através de um: “Ah, quer dizer que já foi lançado, então?! Puxa, uma amiga minha comentou sobre essa história, sobre o que é mesmo?”. Foi aí que começou minha surpresa: o Gravitation era a mais famosa publicação do Yaoi, gênero de mangá que tem como foco relações homossexuais entre homens e que é feito para o público feminino.

Sem saber até onde iria a relação homossexual da história, pedi pra garota me indicar algo mais “leve”. Sua resposta? Frustrante: “Leve? Mas nesse nem tem sexo, Tia. Se você tá procurando Yaoi, não vai encontrar nada mais leve que esse aqui”. Frustrada por descobrir o universo do qual eu fugia até mesmo dentro de um quadrinho oriental e querendo socar a menina pelo “tia”, saí da banca sem mangá nenhum. O jeito foi confiar na ingenuidade histórica de um exemplar da “Turma da Mônica”.

Hã??

Cheguei no escritório, olhei pra secretária jogando paciência, as salas dos chefes fechadas (estavam viajando) e logo constatei que o dia seria morto. Enquanto fazia as tarefas corriqueiras, não contive minha curiosidade e abri uma página de busca na internet. Precisava entender a mais nova moda de mulheres lendo quadrinhos japoneses que falavam sobre relações (sexuais ou não) entre homens. De onde vinha aquela idéia? Seria mais uma banalização do sexo?

Não! Logo eu viria a concluir que era algo bem mais profundo que isso. Optei por digitar “yaoi” e acabei descobrindo um mundo todo que girava em torno de um único conceito. Dentro do yaoi existiam subníveis: romances água-com-açúcar que eram os chamados shounen-ai; sexo explícito com consentimento das partes envolvidas, lemon; e, finalmente, sexo explícito sem consentimento das partes envolvidas, o dark lemon! Tinha até medo de descobrir o que se passaria em cada subgênero desse… Estupro? Eu tinha lido certo, né? Quadrinhos com cenas de estupro! Homens sendo estuprados! Era tenebroso demais para ser real… Eu estava achando tudo aquilo de um tremendo mau gosto!

Pesquisando um pouco mais, descobri que esses mangás não só tinham como alvo um público feminino, como também eram feitos por mulheres! Agora, me diga se eu posso? Se eu já achava estranho o fato de uma menina se interessar por esse tipo de “literatura”, imagine como não fiquei quando soube que eram mulheres que escreviam, que pensavam naquelas histórias… Seria até ingênuo achar que isso tinha um único fim como tantas outras publicações que existem por aí.

Resolvi que deveria fuçar um pouco mais. Em um dos textos disponíveis, encontrei o que seria a história do surgimento daquele gênero japonês, até então, totalmente bizarro diante dos meus olhos. Existia no Japão, até os anos 70, uma hegemonia masculina no mercado editorial de mangás. A maioria das publicações era feita por homens e havia um grande desprezo pela figura feminina nas histórias. As mulheres eram meros enfeites e em nada lembravam mulheres do mundo real.

Isso fazia mesmo sentido. Eu me lembro dos “Cavaleiros do Zodíaco”, que eu assistia tempos atrás, quando era pequena. E por mais poderosas que fossem as mulheres no desenho animado (o chamado anime, no Japão), elas nunca se equiparavam aos homens, além de existirem em quantidade ínfima na história. Sem contar que elas não representavam bem a classe feminina.

Refletindo, constatei que o tratamento dado à figura feminina nos mangás não fugia tanto ao que se passava na sociedade japonesa.

Foi entre as décadas de 70 e 80, época em que o mercado mundial começou a se abrir para os mangás, que as mulheres japonesas começaram a reagir frente a sua condição e representação social. Iniciou-se assim a produção dos Shoujo Manga, que são os mangás produzidos exclusivamente para um público feminino e que tem como mangakás (artistas de mangás) somente mulheres.

Foi na mesma época que aparecem as primeiras histórias com temática homossexual entre rapazes. Esse tema é incorporado nas produções dos Shoujo, o que seriam os primeiros passos do Yaoi. Anos depois, o Yaoi se consolida como um gênero de mangás escritos “por mulheres para mulheres” e que não se preocupa em apresentar um desfecho lógico ou resoluções verossímeis, daí o nome Yaoi que é resultado de uma abreviatura para “yama nashi, ochi nashi, imi nashi” (“sem clímax, sem objetivo, sem sentido”).

Começa a fazer sentido

Diante desse bombardeio de informações, eu ainda não conseguia entender a atração que uma história homossexual entre rapazes exercia sobre um público feminino. Como as jovens japonesas poderiam ficar entretidas e até excitadas por histórias como essas? Não entendia também como histórias como essas poderiam ser contadas por mulheres. A primeira resposta para a minha inquietante questão veio de um artigo acadêmico sobre o Yaoi: esse gênero fazia sucesso entre o público feminino pois as mulheres se sentiam representadas nas histórias! Como assim???

Na verdade, em cada casal homossexual presente nas histórias yaoi, um dos indivíduos representa a figura feminina. Percebemos isso através do próprio desenho, já que geralmente um dos membros do casal é mais baixo, magro, tem traços e vestimentas mais femininos, além de demonstrar maior sensibilidade e fragilidade. Continuando a leitura do artigo, chego a uma conclusão que talvez responda as minhas questões: “o yaoi é um espaço de expressão do imaginário feminino oriental, que se vale das relações homossexuais masculinas como ferramenta, tendo em vista que apesar de tais relacionamentos não serem estimulados, eles são aceitos no universo sociocultural japonês. O deslocamento do foco para uma relação entre homens colocaria as partes envolvidas em um estado de equivalência e paridade perante a sociedade oriental, dando margem para que as mulheres possam se manifestar em condições de igualdade em relação aos homens”.

Acho que eu começava a ver sentido naquilo tudo. O que acontece é que frente a um paradigma ainda presente no extremo oriente no qual a mulher é geralmente menos valorizada que o homem, as mangakás, também submetidas a uma lógica machista no mercado editorial de mangás, passam a produzir yaoi, que conta histórias de amor entre rapazes, nas quais os dois membros do casal homossexual se vêem numa situação de igualdade e paridade. Nenhum personagem é subjugado pelo outro. Nessa relação, a mulher se sente (bem) representada.

Mas por que não representar a mulher através de um papel feminino, forte e marcante, que fugisse do modelo de mulher oriental submissa ou inferior ao homem? Porque a indústria editorial é igualmente machista, ainda mais se pensamos nas décadas de 70 e 80, quando o Shoujo estourou. Dominado por homens, o mercado editorial não aceitaria uma publicação cujo foco fosse um papel feminino forte.

Mergulhada no mundo yaoi, o qual havia conhecido, julgado e revisitado no mesmo dia, não percebi as horas passarem, já eram quase cinco da tarde e eu não tinha feito nem metade das tarefas do dia. Tudo bem, no outro dia chegaria mais cedo pra pôr tudo em dia antes que meus chefes voltassem de viagem. Antes de voltar pra casa, queria a resposta pra minha última inquietação: como a mulher se sentia representada no subgênero do yaoi que contém sexo explícito sem consentimento, o tal de dark-lemon?

A questão do dominado-dominador é mais uma ferramenta das mangakás para questionar o papel da mulher na sociedade japonesa e propor uma inversão de papéis. Em uma história em que o personagem mais fraco sofre (geralmente, o passivo, ou seja, a representação feminina) nas mãos do ativo, geralmente ao final da história, há um momento de redenção e brilho em favor do “mais fraco”. Podemos ver isso nos Yaoi que mostram estupros ou humilhações. Quando o personagem que “oprime” se arrepende de seus atos ou é desmascarado pelo oprimido fica clara a inversão de papéis. A mulher se vê como vitoriosa ou vingada em uma relação marcada anteriormente pela desigualdade. Neste momento, de certa forma, ela se equipara ao homem ou o supera.

Estava na hora de sair da teoria e ver como era a coisa na prática. Tinha que ver alguns desenhos… Eu estava no trabalho! Não poderia sair baixando qualquer coisa no computador. E se eu entrasse em algum site pornográfico… Bom, primeiro que nem ia entrar porque é barrado; segundo, se por ventura entrasse, ia ficar registrado no meu histórico! No mínimo, constrangedor. Descobri que o yaoi não se restringia a páginas escritas, a quadrinhos, mas também existia no formato de desenho animado, os animes. Decidi, então, apelar pro youtube.

Eu não esperava encontrar tanta coisa, mas… me enganei! Tinha coisa pra caramba! Eu tinha escrito “yaoi” e o que apareceu foi um monte de vídeos, como se fossem videoclipes com imagens de animes do gênero. Cliquei no primeiro lá da lista. Era só cena de beijo… Mas eu achava estranho. Mesmo depois de ler tudo aquilo, eu ainda achava estranho. Em algumas cenas dava pra perceber quem representaria a mulher: realmente, um bonequinho mais baixinho, pequeno, os olhos eram maiores, em muitos casos, que os do parceiro… Se colocasse um cabelo comprido, virava mulher!

Que tal procurar com “Gravitation”? Foi o que eu fiz! Também apareceram vários clipes no mesmo estilo, os AMV (anime music video, procurei na internet). Lógico que não dava pra eu entender a trama, mas podia ver como soava um desenho daqueles.

Muito sentido

O engraçado de tudo isso é que todas essas descobertas sociológicas não fazem o menor sentido para explicar o sucesso do Yaoi no Ocidente e no Brasil, já que possuímos modelos sociais totalmente diferentes daqueles do Oriente. Assim, nossas mulheres não deveriam sentir-se representadas por esses mangás. De fato, a maioria não se sente. Embora haja algumas jovens ligadas as modinhas japonesas que acompanham os quadrinhos e animes yaoi, o público majoritário do gênero em terras ocidentais são os jovens do sexo masculino homossexuais. Aí sim, talvez o yaoi apareça como mais um instrumento da busca da excitação, do prazer, do sexo…

Mas nessas alturas, o Yaoi já tinha me provado que não era mais “uma putaria mais barata que cine pornô do centro”. Ao contrário, me surpreendeu como uma forma de usar relações homossexuais, muitas vezes com as mais diversas práticas sexuais, para questionar o papel da mulher e para protestar contra a condição da mesma na sociedade.

Seis horas. Peguei minhas coisas. Já ia deixando a revistinha da Mônica em cima da mesa. Me arrependi de não ter optado pelo Gravitation. Com certeza, me traria mais reflexões do que a Mônica correndo atrás do Cebolinha (se bem que isso é um ensaio de inversões de papéis também…). Fiz o caminho de volta no Vale do Anhangabaú. Naquele momento, os cinemas com cheiro de transa barata já não me incomodavam tanto.

Cheguei em casa e querendo acabar com minha curiosidade, fui procurar mais coisas yaoi! Talvez um bom lugar fosse no Orkut. E era um bom lugar mesmo! Havia muitas comunidades relacionadas ao assunto. E não eram pequenas como eu achava que seriam. A primeira da lista tinha 10.000 associados! Entrei em uma formada por meninas que gostavam de yaoi. A primeira coisa que vi foram as enquetes. “Qual o casal yaoi mais kawaii?” (literalmente, “fofo”).

Vendo a lista, me deparo com uma quantidade razoável de casais… Até que um me faz ficar boquiaberta! Hyoga e Shun? Hyoga e Shun?? “Cavaleiros do Zodíaco”! Yaoi do Cavaleiros? E ainda outros vindos de Harry Potter! Eu estava embasbacada! Quer dizer então que o yaoi podia ser transferido pra qualquer situação em que a mulher não se visse bem representada? Como por exemplo, transformar Hyoga e Shun num casal… Um é rosa, o outro é azul (a saber, o Shun é o rosa)… Dei uma olhada em outras enquetes.

“Você gostaria de ser um homem?”. A maioria das meninas respondeu… SIM! Mas apenas para poder viver um yaoi. Então, cada vez mais eu começava a crer que a teoria era real. As mulheres realmente se espelhavam naquelas relações!

Eu estava com o Gravitation na cabeça. Digitei então no mecanismo de busca do Orkut. Várias comunidades! Não traziam tanta informação assim… Na verdade, eu nem bem sabia o nome dos personagens! Entrar em uma comunidade em que as pessoas conversam sobre quando tal cara fez tal coisa não deveria ter sido o primeiro passo. Wikipedia! Havia um verbete extenso sobre Gravitation. Os personagens, “biografias”, a autora…

Além da série original (que chegou até a passar na TV japonesa), havia outras historinhas oficiais lançadas e, me pareceram, no meio online. Eu não sabia bem da história original, mas os apêndices eram muitos elogiados ali e tinham temáticas… curiosas. Consegui acessar a algumas imagens que traziam cenas de sexo explícito apenas! E pelas descrições que tinha lido, não tinha história mesmo. Era só sexo. O que parece que a autora fez foi distorcer, exagerar tanto no tipo de sexo praticado, que chegava a ser ridículo! Ela estava tirando sarro de tudo aquilo! Aquele tipo de representação muito recorrente no… hentai! Pornografia heterossexual, de homem pra homem. Chega a ser repulsivo o modo com a mulher é tratada nesse gênero…

Com essa dúvida, acabei chegando a outro ponto… Existia um gênero de mangá feito de homens gays para homens gays. O bara. Não foi algo por que me interessasse muito. Ali parecia que a sacanagem era o que imperava! Os homens pareciam homens, e não garotos delicados, andróginos. Vi o suficiente para não querer saber muito do assunto…

Então, o yaoi não se concebia como algo somente para deleite da leitora (ou do leitor), mas pra demonstrar mesmo uma situação que nem sempre parece tão clara ou que se perde um pouco em meio a algumas conquistas realizadas pelo sexo feminino.

A partir daquele momento, acho que passaria a olhar o sexo e seus produtos com outra percepção. Poderia achar um novo significado pra tudo. Um mundo novo com clímax, novos sentidos e muitas resoluções.

Anúncios

Sexo, que privilégio!

Por Elisa Estronioli

Os nomes das presidiárias e do parceiro de uma delas são fictícios. A entrevista com elas foi feita nas dependências da Penitenciária  Feminina da Capital, dia 09/06/2008.

Todo último sábado do mês é dia de Teresa receber Ronaldo durante duas horas rigidamente cronometradas de intimidade. É o único momento em que eles podem ficar completamente a sós, em um quarto com uma cama de cimento, onde ela própria é que tem de levar os lençóis.

A situação não apresenta nada de anormal, exceto por Teresa e Ronaldo serem casados no papel há dez anos. Acontece que o casal não vive junto há seis anos, desde que Teresa está presa. Atualmente, ela, já com 40 anos, vai viver até os 76 na Penitenciária Feminina da Capital e as duas horas cravadas da chamada visita íntima são o único momento de intimidade que as normas da casa permitem ao casal.

Guardadas todas as restrições, a penitenciária é a única feminina da cidade de São Paulo a permitir a suas internas o direito à visita íntima. As outras duas instituições do tipo na capital, a Penitenciária Feminina de Sant’ana e a do Butantã, não o fazem. A situação é especialmente discriminatória quando comparada à da população carcerária masculina. Para eles, o direito à visita íntima existe desde 1987 e é amplamente disseminado na maioria dos presídios. Para elas, o privilégio só foi conquistado em 2001, depois de muita persistência de grupos defensores dos direitos das mulheres encarceradas.

Entre os motivos está, é claro, a discriminação de gênero, dado que os presídios foram pensados para uma população masculina (e por uma população masculina). Muitos presídios femininos são masculinos desativados e não contam com uma estrutura própria para mulheres, por exemplo, não tem maternidade nem berçário. As mulheres são apenas 6% da população carcerária brasileira, um número comparativamente pequeno para estimular a reflexão sobre suas especificidades. “Antigamente, na maioria dos presídios femininos, não podia ter espelho, além do uniforme ser igual ao dos homens. Era uma negação total da feminilidade”, afirma Sônia Drigo, do grupo de estudos e trabalhos Mulheres Encarceiradas.

Além disso, nos presídios masculinos, a visita íntima surgiu com uma maneira de apaziguar os ânimos dos detentos e manter a disciplina, o que nunca foi pensado para os presídios femininos. “Se uma casa de detenção masculina vira, não tem polícia no estado de São Paulo para segurar isso”, diz Sônia.

Os motivos não param por aí. “O principal problema alegado pela Secretaria de Administração Penitenciária era a gravidez. Uma mulher pode entrar no presídio masculino e engravidar que o problema é dela. Mas se ela engravida dentro do presídio é um problema do Estado”, afirma Heidi Cerneka coordenadora nacional da questão feminina na Pastoral Carcerária.

A justificativa da secretaria se mostrou infundada. A primeira penitenciária de São Paulo a instituir a visita íntima, e a primeira do país a fazê-lo de maneira não esporádica, foi a do Tatuapé (atualmente desativada), em janeiro de 2002. Um ano antes da regularização da visita íntima na unidade, duas internas conseguiram engravidar. No ano em que foi instituído o direito, de cerca de 50 mulheres que entraram no programa apenas uma engravidou – porque quis – mas não houve um boom de presidiárias grávidas. Geralmente, e foi o caso em Tatuapé, a visita íntima é acompanhada pela distribuição de preservativos e orientação especializada sobre prevenção à gravidez indesejada.

Exceções

Não que todos os cuidados sejam suficientes. Na PFC, Marinete é uma das internas que enfrentou uma gravidez dentro da cadeia, oriunda de uma visita íntima. Presa há três anos, ela afirma que usou preservativo no dia em que engravidou e “não sabe o que aconteceu”. A criança, uma menina de um ano e nove meses, foi a única dos oito filhos que ela não planejou. A menina e seu outro filho pequeno (de quem ela estava grávida quando foi presa) estão com o pai – o homem de quem Marinete recebe visita íntima.

Teresa também tem filhos, seis, com seu marido. As duas mais velhas estão casadas, mas os outros moram com o pai, o que ela acredita ser um fator que contribuiu para que o marido não a deixasse. “Se não fosse por eles, acho que ele já tinha desistido”. Segundo diz, o marido a visita praticamente todo mês, desde que foi presa.

Teresa e Marinete reconhecem que são exceções: ao contrário do que acontece quando o homem é que vai preso, a maioria das mulheres encarceradas são abandonadas pelo marido. Para Sônia Drigo, o motivo é cultural: além de serem “naturalmente” mais infiéis e menos apegados à família, os homens não querem se submeter às regras da visita íntima (o horário fixo, a revista, a espera) para encontrar a mulher. Mesmo nas filas de visita comum, a maioria é de mulheres, e até no caso das presidiárias quem visita são as mães, as irmãs, sempre mulheres.

Com o marido à solta lá fora, traições não deixam de ser algo comum. Teresa conta que já foi traída pelo marido uma vez, quando já estava presa, mas foi algo eventual. Ele mesmo contou pra ela. “Perdoar a gente não perdoa, mas aceita, né?”. Não dá para exigir muito de dentro do presídio. “É muito tempo de cadeia, a pessoa cansa. Eu no lugar dele já tinha desistido”.

Para a psicóloga Mônica Setúbal, que implantou a visita íntima na Penitenciária Feminina do Tatuapé quando era diretora da unidade, há um segundo motivo para explicar a ausência dos maridos nas visitas: “a maioria dessas mulheres tem o marido preso também. Muitas delas, inclusive, dançam quando vão levar alguma coisa [drogas] pra eles na cadeia”.

A sul-africana Luanda foi presa em 2004, na terceira vez que veio ao Brasil. Encarcerada há quase quatro anos, faz apenas quatro meses que recebe visita de seu namorado. Por que passaram tanto tempo sem se encontrar? O rapaz também estava preso e só agora conquistou a liberdade.

Um lugar próprio

Luanda conheceu o namorado na carceragem da Superintendência Regional da Polícia Federal, na Lapa. Os dois ficaram presos juntos lá por 8 meses e se envolveram ao conversar através das grades. Lá o sexo não era permitido, mas acontecia quando as celas eram abertas para a visita comum. “Poder, não podia, mas a polícia não via”.

Luanda conta que, de três ou quatro vezes que conseguiu transar com o namorado naquela situação, em uma foi flagrada por um funcionário. Ficou com vergonha, mas nenhuma providência da direção foi tomada. Naquelas situações, o sexo dependia de algum presidiário que ficava de olho na entrada da cela. “Era bem comum [presidiários e presidiárias transarem], mas não ia pra frente porque muitos presos eram casados”.

Enquanto nos presídios masculinos a visita íntima ocorre freqüentemente dentro das celas, nos femininos, procura-se um lugar especial para isso. Para Heidi Cerneka, esse é um dos motivos pelo qual a íntima feminina caminha a passos tímidos. A visita dentro da cela é mais precária, pois em tempos de superlotação as celas não são individuais, e as hipóteses pelas quais não funciona entre as mulheres são o constrangimento, a resistência da companheira de cela e a recusa do próprio companheiro.

Não ter um lugar próprio para a visita íntima é o motivo alegado pela direção da Penitenciária Feminina de Sant’ana para não adotá-la. A unidade é chamada de Carandiru das mulheres pelo Grupo de Estudos e Trabalho Mulheres Encarceradas, por ser o maior presídio do gênero da América Latina, com mais de 2.500 internas vivendo em situação precária. Na penitenciária do Tatuapé, a visita íntima ocorria em um ala separada, com celas desativadas. Na da Capital, ocorre em um prédio separado, onde há vinte quartinhos com cama de cimento, dez para cada lado, e dois banheiros coletivos no centro, um masculino e um feminino. Segundo funcionárias da unidade, nunca aconteceu de todos os quartos estarem ocupados.

Atualmente, há 758 internas na Penitenciária Feminina da Capital, das quais apenas 19 estão inscritas na visita íntima. Entre as cadastradas, nem todas recebem os parceiros  mensalmente.

Desestimulando

Sônia Drigo e Márcia Setúbal concordam que o processo de generalização da visita íntima feminina ainda não se consolidou, já estagnou e até regrediu. Além da necessidade de adequação do espaço para isso, o que é demorado e às vezes inviabiliza o processo, a Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo passou a exigir, há cerca de três anos, que as candidatas à visita íntima comprovem em cartório que possuem um relacionamento estável com o parceiro. Para a população carcerária masculina, a íntima é vista como uma questão de necessidade, enquanto para a feminina, é uma maneira de manter os laços afetivos.

“Você não sai à noite e fica com alguém, sem compromisso? Por que é que elas não podem?”, questiona Márcia. Essa medida teria o objetivo de conter as ações do crime organizado, uma ameaça desde que o PCC assumiu o controle da maioria dos presídios paulistas.

As próprias condições do encarceramento acabam desestimulando as presidiárias a manterem a visita íntima. Luanda conta que tem uma colega que recebia visita íntima regularmente, mas começou a se envolver com uma mulher e não teve mais coragem de encontrar seu marido. Dentro do presídio, há muitas mulheres que estão lésbicas, as quais Luanda acredita se envolvem por carência. “Quando elas saírem, não vão mais se relacionar com mulheres. Aqui só 10% realmente é lésbica, mas na prática há 40% ou mais que estão”. Para Sônia, além da carência afetiva, muitas acabam se envolvendo com alguma interna que lhes oferecem proteção dentro da cadeia. “Elas dizem ‘fica comigo que nada vai te acontecer’. Muitas delas nunca tiveram relacionamentos com outras mulheres antes da cadeia.

Direito não estendido

Presa há um ano e nove meses, Daniela nunca recebeu visita íntima, pois trata-se de um direito não estendido às homossexuais na PFC.

Reconhecidamente lésbica desde os 14 anos de idade, Daniela contou seis mulheres com as quais se relacionou depois de presa. Dentro da cadeia, a chamam de Gabriel, apelido que ganhou da amiga de uma ex-namorada há cerca de três anos. “Daniela é só pras agentes”.Com um sorriso suspeito no rosto, a presidiária nega que as internas que recebem visita íntima dos parceiros sucumbam às relações homoafetivas ocasionais.

Com a parceira atual, Daniela está há quatro meses. Há pouco tempo,elas dividem a mesma cela. Sua namorada, que ficava em outro pavilhão, pediu para ser transferida para a cela de Daniela em uma carta à diretoria da penitenciária, onde alegava ter problemas com sua antiga companheira de cela.Na época, o casal passou a dividir o quarto com uma terceira mulher. Daniela diz que precisava usar o “quieto”, um barbante com cortina que separa as camas, na hora do sexo. Ela diz que só transa acontecia após às 22h, quando tem a certeza que as agentes não vão mais inspecionar o quarto.

Oficialmente, relacionamentos amorosos entre as presidiárias não são permitidos, mas na prática, a administração do presídio faz vistas grossas. “Isso não tem nada a ver com respeito por elas serem lésbicas. Relação homossexual assumida dentro da cadeia é troca de favores, como portar um celular”, diz Sônia Drigo. É privilégio, assim como sexo com o parceiro.


Salve o prazer! Salve o prazer!

Por Ana Paula Severiano

Sacanagem é com a gente mesmo. Mesmo que velado, o sexo sempre esteve presente na música popular brasileira e as décadas de 60, 70 e 80 foram cruciais para mudar a trilha sonora da cama brasileira.

“De quatro, de lado/ Na tcheca e na boquinha/ Depois vem pra favela/ Toda fresca e assadinha”. Ainda há quem se choque com o funk sacana de Deize Tigrona, Tati Quebra-Barraco e demais representantes do movimento que nasceu dos bailes da periferia carioca. Os mais puritanos desconhecem que a sem-vergonhice, no entanto, é tão antiga quanto a nossa música popular. Para o jornalista, produtor musical e pesquisador Rodrigo Faour “a reação de repúdio das elites ao sucesso do maxixe (na virada do século XIX para o XX) é bem parecida à que acontece hoje com o funk carioca, mais de um século depois”. Faour é o autor do livro História Sexual da MPB (Record, 2006), em que são esmiuçadas letras de canções e histórias. Assim, o leitor descobre que a música também é um espelho da evolução de costumes e do comportamento sexual do brasileiro.

Ai, sim, meu bem ataca! Ataca sem descansar

Rui Barbosa ficou indignado quando em 1914 a primeira-dama do país, Dona Nair de Teffé, dedilhou ao violão a melodia de Corta-jaca: “é a mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba! Mas, nas recepções presidenciais, o Corta-jaca é executado com todas as honras da música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte!” A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens era o tal do maxixe, ritmo “indecente” e “imoral” que também surgiu nos bairros mais pobres da periferia carioca, na metade do século XIX. Ele se difundiu pelo país com as apresentações dos teatros de revistas e fazia os casais requebrarem sensualmente de corpo colado nos bailes da vida.

O Corta-jaca foi lançado em 1895 por Chiquinha Gonzaga e regravado muitas vezes com mudanças na letra, mas sempre fazendo referência à jaca, uma curiosa metáfora para a vagina: “Sou gostosa/ Que dá gosto de talhar/ Sou a jaca saborosa/ Que amorosa/ Faca está a reclamar/ Para a cortar/ Ai que bom cortar a jaca/ Sim, meu bem ataca!/ Assim, assim/ Toda a cortar/ Ai, ai que bom cortar a jaca/ Ai, sim, meu bem ataca!/ Ataca sem descansar!”

E muita gente achava que a putaria declarada era invenção recente. Na verdade, o maxixe é um exemplo de uma irônica libertinagem restrita e comedida daqueles tempos e que perdurou até a década de 60. A revolução sexual virou tudo de cabeça pra baixo (enquanto os censores da ditadura militar tentavam impedir o que não tinha remédio nem nunca teria). Faour afirma que “90% das letras de nossa música ao falar de amor versavam sobre relações mal resolvidas, interditadas, tristes, melancólicas e vingativas. Os outros 10% dessas letras eram a mais pura sacanagem, algo que cresce à proporção que ocorre uma liberação maior dos costumes em nossa sociedade, especialmente a partir da década de 60”. Até lá, a sensualidade e o erotismo eram expressos principalmente durante as ofegantes epidemias, que se chamavam Carnaval, como se pode confirmar nessa marchinha de Ary Barroso, lançada em 1937: “Eu dei!/ O que foi que você deu, meu bem?/ Eu dei!/ Guarde um pouco para mim também (….)/ Eu dei!/ Diga logo, diga logo, é demais!/ Não digo e adivinhe se és capaz!”.

Se a sedução e o sexo entre homens e mulheres já era um tabu impublicável, imagine entre o mesmo gênero. O homossexualismo só virou pauta da MPB depois da década de 70. A brecha da festa da carne deixou que se prestasse uma homenagem ao Zezé, mas já era 1964: “Olha a cabeleireira do Zezé!/ Será que ele é? Será que ele é?/ Será que ele é bossa nova?/ Será que ele é Maomé? / Será que ele é transviado?/ Mas isso eu não sei se ele é!”.

Isso é bossa nova, mas sexo não é muito natural

Se em 90% das canções a sexualidade aparecia de forma mascarada, poucos eram os compositores que se arriscavam a falar mais abertamente do que acontecia embaixo dos lençóis, à meia luz. Amendoim Torradinho é um samba-canção antecessor da bossa nova, composto por Henrique Beltrão e cantado por Sylvinha Telles, muito abusadinho para o período, ainda mais quando interpretado por uma mulher: “Meu bem, esse teu corpo parece/ Do jeito que ele me aquece/ Um amendoim torradinho/ Eu sinto uma vontade louca/ De gritar pela rua/ Que eu já colei minha boca/ Na boca que é tua”.

Um pouco antes, em 1951, Emilinha Borba não pode cantar o bolero Dez Anos numa festa religiosa de São Paulo, pois o padre avaliou que a letra era pecaminosa: “Recordo junto a uma fonte, nos encontramos/ Que alegre foi aquela tarde para nós dois/ E o canto daquela fonte nos envolveu/ O sono fechou meus olhos, me adormecendo/ Senti sua boca linda a murmurar/ Abraça-me, por favor, minha vida/ E o resto desse romance só sabe Deus”. Aos ouvidos do padre, os casais teriam cometido atentando ao pudor e se encontrado “nus” junto à fonte.

A bossa nova trouxe para a música popular brasileira uma sedução delicada. O violão de João Gilberto emoldurou de maneira envolvente a paisagem do Rio, a boemia e cantou a mulherada carioca. Havia muito cheiro de sexo no ar, mas nada explícito. Depois do amor, de 1961, foi interpretada de forma pungente por Maysa e talvez tenha sido a primeira a versar sobre o pós-orgasmo: “E depois do amor/ Cai a paz sobre nós/ E depois do amor/ Nossos corpos tão sós/ Houve tudo de bom/ A seu corpo entreguei/ Uma flor, todo o amor/ No seu corpo nu, existi/ Tudo é paz pra nós/ Nossos corpos sós. Não à toa, a obra de Normando e Ronaldo Bôscoli foi censurada em São Paulo.

Pare de tomar a pílula

Nossa expressão sexual era reprimida e isso se refletia na arte. Como conta Chico Buarque (a Roberto de Oliveira, em 2005): “O meu primeiro alumbramento foi ver mulheres francesas expostas nas bancas de jornais, nas vitrines, nos anúncios de cabarés quando eu vivia em Paris. Hoje em dia é difícil de imaginar isso. O máximo que eu tinha visto com 10 anos eram as minhas irmãs, mas irmã não vale. Nessa época, também sempre havia um primo que tinha umas coleções de Playboy americana”. Depois de explorar com ampla liberdade o tema em suas canções, não curiosamente, em 2006, Chico lançou o álbum Carioca e nele gravou As atrizes: “Os meus olhos infantis/ Só cuidavam delas/ Corpos errantes/ Peitinhos assaz/ Bundinhas assim”.

A popularização do anticoncepcional e de todos os ideais revolucionários de 60 chegaram ao Brasil, mas foi a partir de 70 que o bicho pegou. Antes, era preciso enfrentar os anos de chumbo, os censores federais e usar a música como arma política.

Nesse período, uma importação causou polêmica. Era a Je t’aime moi non plus, em que Jane Birkin e Serge Gainsbourg simulavam uma relação sexual. A canção, obviamente, foi censurada, até ser vendida num compacto com uma edição d’O Pasquim. O exemplo francês motivou a produção de similares made in Brazil. Mulheres gemendo ocupavam faixas de coletâneas como Erótica – The magnetic sounds. É claro que ninguém estava disposto a se identificar na ficha técnica.

Gal Costa – com um visual extremamente sensual – cantava Pérola Negra, de Luiz Melodia, no show Fatal de 1971. Em alto e bom som a platéia escutava a palavra “sexo” e, de quebra, ainda se colocava em xeque o amor romântico: “Tente entender tudo mais sobre o sexo/ Peça meu livro/ Querendo te empresto/ Se intere da coisa/ Sem haver engano/ Baby, te amo, nem sei se te amo!”

Nas camadas mais populares, sucesso era Odair José: “Eu observava que os artistas de linha mais popular ficavam muito no mundo do faz-de-conta. Nas músicas não era muito claro que haveria esse contato de sexo entre as pessoas. (…) O que tocava no rádio naquela época era muito amor de portão (…) Enquanto o Roberto Carlos prometia o céu, eu dava a cama”, conta o cantor no livro História Sexual da MPB. Na canção Noite de desejos, de 1974, ele narra a primeira vez de um homem: “Noite de desejos/ Noite de mil beijos/ Momentos que eu também vivi/ Foi naquela noite/ A primeira vez/ E eu nunca esqueci/ Foi com você, meu bem/ Que tanta coisa eu aprendi/ Meu desejo era tanto/ E eu não sabia/ Nem mesmo o que falar
O meu corpo esquentava/ Eu tremia/ Tentando me guardar”.

O tempo fechou quando Odair lançou o clássico Pare de tomar a pílula. Ela foi censurada em 1973, os discos recolhidos das lojas e os shows vigiados de muito perto. Afinal, a mensagem da música poderia atrapalhar a campanha de planejamento familiar do governo Médici.

O rei Roberto Carlos, contrariando o comentário de Odair, não ficou para trás. A partir da década de 70, as metáforas sexuais passaram a fazer parte de sua obra com muito mais freqüência. É Ilegal, imoral ou engorda (que recentemente foi regravada por Erasmo e Adriana Calcanhotto) não era nada sutil: “Se eu conheço alguém num encontro casual/ E tudo anda bem num bate-papo informal/ Uma noite quente sugere desfrutar/ No meu terraço a vista de frente pro mar/ Mas a noite é uma criança/ Delícias no café da manhã/ Então o que fazer, já não quero mais saber/ Se como alguma coisa que não devo comer/ Se tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda”.

Depois, várias composições passaram a integrar a pasta de “Canções de motel” da dupla, que escancarou de vez para os próprios padrões, como em Café da manhã: “Amanhã de manhã/ Vou pedir um café pra nós dois/ Te fazer um carinho depois/ Te envolver em meus braços/ E em meus abraços/ Na desordem do quarto esperar/ Lentamente você despertar/ E te amar na manhã”. Rei nunca perde a majestade e até hoje ninguém sabe como a censura permitiu a execução de “Cavalgada”, de nome bastante sugestivo.

Palavras proibidas

O vocabulário da MPB foi ficando aos poucos menos sisudo e mais coloquial. Antes dos anos 80, era muito raro ouvir inclusive a palavra “sexo”. Aborto, gay, orgasmo, peitos e bunda também não.

A palavra “tesão” apareceu pela primeira vez numa música em 1980. Era Bye, bye Brasil, de Chico Buarque: “Eu tenho tesão é no mar”. Quatro anos depois, compondo O Quereres, Caetano repetiria a dose: “Onde queres o ato sou o espírito/ Onde queres ternura eu sou tesão”. Antes, em 1970, Juca Chaves teve Rimas sádicas proibidas por conta do tal tesão.

Aborto não podia. Vitor Martins foi muito questionado quando escreveu Começar de novo: “Eu limpei minha vida/ Te tirei do meu corpo/ Te tirei das entranhas/ Fiz um tipo de aborto/ E por fim nosso caso acabou/ Está morto…”

Paulo César Pinheiro teve Sagarana censurada no IV Festival Internacional da Canção da TV Globo, de 1969, por usar a palavra “macho”: “Esse pessoal da década de 50 do samba-canção, da fossa, era cheio de pudores. Não diziam certas coisas”.

Na década de 80, a MPB ficou com a boca mais suja. No entanto, a música Posando de star, do primeiro disco do Barão Vermelho, teve que ser alterada para passar pela censura. Dar virou “dar-se”: “Vem me experimentar/ Você sem texto, sem cinema! Não faz do sexo um problema/ Eu armo uma cena!/ Quebro garrafa!/ Morro de chorar/ Mas ainda te faço dar (-se)”. Assim não tem graça.

Mas o Brasil mudou. Em 1986, a canção Vitoriosa (de Vitor Martins) interpretada por Ivan Lins foi até trilha de novela: “Quero tua alegria escandalosa/ Vitoriosa por não ter/ Vergonha de aprender como se goza/ Quero tua pouca castidade/ Quero tua louca liberdade/ Quero toda essa vontade de passar dos seus limites/ E ir além, e ir além…” Antes disso, gozar não estava nos planos dos poetas menos assanhados.

Chico: um jeito manso que é só seu

Para Faour: “A partir da década de 1970, Chico superou todas as expectativas, mostrando mulheres cada vez mais ousadas, cheias de si, de opinião, sem vergonha do corpo e muito provocantes. A sensualidade desconcertante da mulher e seus desejos mais secretos passaram também a permear suas letras, transformando o compositor num símbolo sexual, num mito e no guru musical de 9 entre 10 mulheres brasileiras de classe média ou alta e intelectual”. Pois é, para muitas mulheres Chico fala de sexo como ninguém. De sua obra podemos citar Sem Fantasia: “Vem, meu menino vadio/ Vem sem mentir pra você/ (…) Vou te envolver nos cabelos/ Vem perder-te em meus braços, pelo amor de Deus/ Vem que eu te quero fraco/ Vem que eu te quero tolo/ Vem que eu quero todo meu”. Em O que será (À flor da pele) o tesão – que havia aparecido tão inocente em Bye, bye, Brasil é certeiramente descrito:

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
E todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem juízo

Chico também não teve vergonha de escrever Tatuagem – “E nos músculos exaustos do seu braço/ Repousar frouxa, murcha, farta/ Morta de cansaço; Sem Açúcar – “Longe dele eu tremo de amor/ Na presença dele me calo/ Eu de dia sou sua flor/ Eu de noite sou seu cavalo”; Eu te amo – “Como?/ Se nos amamos feito dois pagãos/ Teus seios ainda estão nas minhas mãos”; Geni – “Ela é feita para apanhar/ Ela é boa de cuspir/ Ela dá pra qualquer um/ Maldita Geni”; O Meu amor – “O meu amor tem um jeito manso que é só seu/ De me fazer rodeios/ De me beijar os seios/ De me beijar o frente, me deixar em brasa/ Desfruta do meu corpo como se meu corpo/ Fosse a sua casa”. Está explicado porque a mulher fotografada aos beijos com Chico não pôde resistir.

Eu sei que eu sou bonita e gostosa

Com o amortecimento da censura e a transformação da sociedade, as mulheres passaram a conquistar espaço e a afirmar que não tinham nenhuma saudade da Amélia, gostavam de sexo, inclusive o casual, e podiam seduzir e sentir prazer.

Em 1983, Simone cantou Paixão, de Kleiton e Kledir, enquanto fingia se masturbar numa cama em cima do palco que foi cenário para o show Delírios, delícias: “Amo tua voz e tua cor/ E teu jeito de fazer amor/ Revirando os olhos e o tapete/ Suspirando em falsete/ Coisas que eu nem sei contar”. Anos antes ela já anunciava o que viria interpretando Medo de amar nº 2: “Eu sinto o corpo mole e eu quase que faleço/ Quando você me bole, bole e mexe, mexe/ E me bate na cara, e me dobra os joelhos e me vira a cabeça”.

Maria Bethânia fez sucesso com Explode Coração, gravada em 1978, e também interpretou Infinito Desejo (1979), ambas de Gonzaguinha: “Ah! Infinito delírio chamado desejo/ Essa fome de afagos e beijos/ Essa sede incessante de amor/ Ah! Essa luta de corpos suados/ Ardentes e apaixonados/ Gemendo na ânsia de tanto se dar/ Ah! De repente o tempo estanca/ Na dor do prazer que explode/ É a vida, é a vida, é a vida/ E é bem mais…” Ela explica em entrevista para a História Sexual da MPB: “O movimento hippie liberou muita coisa. E, a partir daí, as mulheres passaram a ser muito bem representadas na música popular, com muita naturalidade e firmeza. Nunca fiquei prestando atenção especificamente no meu trabalho, no que eu estava fazendo para contribuir para isso. Nunca pensei muito, sempre fui guiada pela minha intuição, pelo meu coração e minha inteligência. E essas músicas chegavam até mim porque os compositores estavam sentindo as coisas assim, estavam em sintonia com aquele momento”.

Bethânia também gravou um jingle de motel, de Duda Mendonça. Ela ouviu a propaganda numa estação de rádio na Bahia e pediu ao publicitário que a permitisse cantar o que se tornaria a canção Cheiro de Amor (Duda Mendonça/ Joça/ Paulo Sérgio Valle/ Ribeiro): “Mas o seu jeito de me olhar, a fala mansa, meio rouca/ Foi me deixando louca, já não podia mais pensar/ Eu me dei toda pra você…”

A onda de liberação fez a mulherada soltar a franga. Muitas capas de discos apareceram com seios ou ombros e colo à mostra. Gal, incluisve, teve o disco “Índia” coberto por plásticos pretos.

Um dos grupos dessa época que não pode ser esquecido são As Frenéticas. Elas eram a expressão da ousadia feminina. Declaravam-se contra o machismo, os padrões de beleza e a moral e os bons costumes. Elas estouraram com Perigosa (“Eu sei que eu sou bonita e gostosa”) e deram o que falar dentro de macacões e maiôs justos e saltos altos dourados.

É pecado esquecer Rita Lee. Inspirada nas experiências com seu marido Roberto de Carvalho, cantou Mania de você (1979): “A gente faz amor por telepatia/ No chão, no mar, na lua, na melodia/ Mania de você/ De tanto a gente se beijar/ De tanto imaginar loucuras/ Nada melhor do que não fazer nada/ Só pra deitar e rolar com você”. “A gente tinha acabado de se amar com toda aquela descrição: no chão, no mar, na lua. Tínhamos chegado naquela loucura, quando a gente sente que está vivo, que dá um berro… Estávamos suados e Roberto pegou o violão, apanhei uma canetinha, baixou o santo e fizemos a música”. Ela contou em depoimento à revista Cláudia quando a música foi lançada.

A crônica sexual de Rita não pára por aí. “Flagra”, “Lança-perfume”, “Caso sério” são outros bons exemplos.

Na seara masculina, algumas coisas também mudaram um pouco. Alceu Valença surgia com seu tempero nordestino e sugestivo. Em Como dois animais, de 1982, a cena era selvagem: “Meu olhar vagabundo/ De cachorro vadio/ Olhava a pintada/ E ela estava no cio/ Foi mistério e segredo/ E muito mais/ Foi divino brinquedo/ E muito mais/ Se amar como dois animais”.

Em 1979, Jorge Ben e Caetano gravavam Ive Brussel, a mais insinuante das composições de Ben até ali, ainda mais quando interpretada por dois homens: “Você com essa mania sensual, de sentir e me olhar/ Você com esse seu jeito contagiante, fiel e sutil de lutar/ Ai, ai, ai, sim naquele dia você foi tudo, foi demais pra mim/ Assim você acaba me conquistando/ Assim eu acabo me entregando”. Caetano, ainda mais atrevido, gravou com música de Péricles Cavalcanti, uma Elegia à mulher baseada em poema de Augusto de Campos: “Deixa que minha mão errante adentre atrás, na frente, em cima, embaixo… (….) Nudez total: todo prazer provém do corpo/ (Como a alma sem corpo) sem vestes”.

No terreno do samba, o grande representante é Martinho da Vila. Gravou Manteiga de garrafa, em que dizia “eu quero lhe transar” e “eu quero lhe entender”. Na década de 80, fora da mira dos censores federais, ele abusou. Em Me faz um dengo (composição conjunta com Zé Catimba): “Se quiser me arranhe/ Me agarre, me morda/ Que eu me arrepio/ Chego quase a desmaiar/ Te dou um beijo, te ouriço toda/ Te deixo bem doida a se desvairar…”

Wando apareceu em 1975, com Moça. Na letra, o eu-lírico não se importava que sua amada não fosse mais virgem. Com um pensamento tão progressista o artista vendeu 1,2 milhões de discos. Depois, Wando acabou levando os títulos de “safado”, “sacana” e “don Juan”. Ele explica: “O que me fez vender 10 milhões de discos nesse tempo foi exatamente essas coisas que as pessoas meteram na cabeça: que as fizeram achar que sou obsceno. É que falo uns negócios assim diferentes, sobre muitos dos quais provavelmente até já falaram, mas não do jeito que eu falei”. Depois de estabelecer como sua marca as calcinhas – que tantas fãs jogavam no palco durante seus shows – Wando ainda tem um público cativo. E nos anos 90, com tudo permitido, ele emplacou Gostosa (1997): “É tão gostosa, ela é toda faceira/ (…) Doida pra ser chupadinha da boquinha até o pé/ Não me provoque com seu jeito de fogosa/ Que eu me encaixo nessas coxas/ Faço tudo com você/ Levante a saia e me guarde bem debaixo/ Vem por cima, vem por baixo/ Que eu te dou o meu querer”.

A história continua

Se os temas relacionados ao sexo surgiram junto com a música brasileira, é impossível falar de todos aqueles que ajudaram a escrever sua história sexual da MPB. Para chegar ao funk “Viemos pegar mulher/ Chatuba come cu/ E depois come xereca/ Ranca cabaço/ É o bonde dos careca!” ou a Dança do Créu, repetida com freqüência cinco em todas as rádios do país, requebramos ainda nos tempos do Brasil Colônia com ritmos como a polca e o lundu. Muitos anos mais tarde, Carmen Miranda abria espaço para a alegria e a malícia, enquanto na década de 50 belas pin-ups ajudavam a vender discos.

Depois, Alcione, Fafá de Belém, Joanna, Zizi Possi, Beth Carvalho, Simone, Zezé Motta e Maria Bethânia, Elba Ramalho mostraram os seios, os ombros ou os umbigos para provocar os sentidos de uma nova época. Ainda assim, em 2004 Preta Gil causou polêmica ao aparecer nua no encarte de seu primeiro CD.

Como não citar Gretchen, precursora de Carla Perez, com a Conga, conga, conga, que surgiu um pouco antes da lambada virar febre nacional com saias rodadas e calcinhas à mostra. Logo mais grupos como É o tchan! marcariam uma geração que cresceu ao som da Dança da Bundinha. No Nordeste, muitos deles estavam de olho na butique dela, como Genival Lacerda. Manhoso (entre seus álbuns figura A Festa da rabada) fez sucesso com pornoforrós a partir de 1975. E há outros: Zenilton, Clemilda, Messias Holanda, Trio Nordestino, Frank Aguiar.

A sacanagem (ou amor) ainda tem muito o que escrever, dançar e gozar. Amor é prosa e sexo é poesia e os dois podem render uma infinidade de composições. Que não ouçam os puritanos musicais, preservadores da moral e dos bons costumes em do, ré, mi, fá, sol, lá, si: Salve o prazer!


Prazeres e orgasmos tamanho infantil

Por Amanda Rossi

Olha tio, não sei se o senhor vai achar gostoso, mas o menino preto, quando eu fui falar com ele lá perto da estrada, disse que a gente podia namorar um pouco. Eu fui, e você não sabe como é bonito pau preto. Ele se chama José, mas chamam ele de Juca. Ele também pegou na minha coninha e quis espiar, e aí ele tirou o pau lindo preto, e a gente fez como o médico, ficou se olhando. Depois ele quis passar a língua em mim, e a língua dele é tão quente que você não entende como uma língua pode ser quente assim.

Crianças e sexualidade. Qual conectivo você usaria pra fazer a ponte entre uma e outra? Violência sexual, abuso, doença? Ou aprendizagem, descobertas, naturalidade? Pra você, as crianças são ingênuas, destituídas de desejos e prazeres sexuais? Ou têm e manifestam sua própria sexualidade?

Fiz essas perguntas pra tentar dar algumas pistas sobre o assunto que este texto vai abordar e despistar alguns tipos de leitores. Os moralistas e sexualmente repressivos (ou reprimidos), sobretudo. Minha matéria vai abordar a sexualidade infantil, goste você ou não da idéia de que seu filho, sobrinho, irmão ou neto pequenos sejam sujeitos sexuais ativos.

Surpreendi minha filha de 6 anos deitada na cama com um priminho da mesma idade. Ambos estava de roupa, agarradinhos sob um lençol, no quarto da empregada. Quando abri a porta e perguntei o que estavam fazendo, meu sobrinho pulou da cama e saiu correndo. Minha filha não respondia nada, até que lhe dei um puxão de orelha e ela gaguejou que estavam “só brincando de marido e mulher”. Disse que todos os seus amiguinhos queriam brincar disso.

Se você é um desses leitores e resolveu seguir a leitura, saiba que você não está só. A sexualidade infantil é um tabu. Não só pra você. Pra muita gente. É um dos tabus sexuais sobreviventes ao último século, no qual caíram diversas barreiras relacionadas à sexualidade.

Freud explica

Mas também preciso lhe dizer que você e os outros como você estão atrasados. Olhe o que Freud escreveu já em 1905: “Faz parte da opinião popular sobre a pulsão sexual que ela está ausente na infância e só desperta no período da vida designado de puberdade. Mas esse não é apenas um erro qualquer, e sim um equívoco de graves conseqüências, pois é o principal culpado de nossa ignorância de hoje sobre as condições básicas da vida sexual”.

Foi Freud que deu notoriedade à existência da sexualidade infantil. Ele dizia que quando a criança tem três ou quatro anos de idade, sua “vida sexual” é mais facilmente notada. Mas, muito antes disso, elas já manifestam sua sexualidade. Além disso, uma característica essencial da sexualidade infantil apontada por Freud é “o fato de ela ser essencialmente auto-erótica (seu objeto encontra-se no próprio corpo)”. A obtenção do prazer está, nas crianças, desvinculada da reprodução e durante um longo período da infância a zona erógena genital não é a principal.

Freud também escreveu que um motivo pelo qual as pessoas não dão valor ao período infantil no desenvolvimento sexual é a amnésia que esconde nossas primeiras vivências, até a idade de seis ou oito anos. É quase um tapa na cara de quem não aceita a sexualidade infantil, porque, em outras palavras, Freud diz que mesmo essas pessoas tiveram suas próprias experiências sexuais quando eram crianças. Apenas não se lembram disso, mas que tiveram, tiveram.

Eu tenho oito anos. Eu vou contar tudo do jeito que eu sei porque mamãe e papai me falaram pra eu contar do jeito que eu sei (…). O homem que não é tão moço pediu preu tirar a calcinha. Eu tirei. Aí ele pediu para eu abrir as perninhas e ficar deitada e eu fiquei. Então ele começou a passar a mão na minha coxa que é muito fofinha e gorda, e pediu que eu abrisse as minhas perninhas. Eu gosto muito quando passam a mão na minha coxinha. Daí o homem disse pra eu ficar bem quietinha, que ele ia dar um beijo na minha coisinha. Ele começou a me lamber como o meu gato se lambe, bem devagarinho, e apertava bem gostoso o meu bumbum. Eu fiquei bem quietinha porque é uma delícia e eu queria que ele ficasse lambendo o tempo inteiro.

Ao lado do leitor moralista e contra Freud estão as representações da infância em propagandas, tevê, cinema, teatro, jornalismo, quase exclusivamente puras e inocentes, como se as crianças fossem incapazes de vivenciar desejos e prazeres sexuais. Na maioria das vezes que os temas sexo e infância aparecem juntos, trata-se da violência sexual, do abuso, do trauma. Dificilmente se aborda a naturalidade do desenvolvimento sexual da criança.

Imaginário

“A imagem literária da infância como a idealização de um irrecuperável tempo de inocência foi construída no período em que a historiografia localiza o Romantismo, ou seja, entre o início do século XIC até a década de 1870. Essa imagem foi fixada no nosso imaginário de um modo muito profundo, a ponto de a sociedade não permitir qualquer questionamento a essa idéia de que a infância corresponde a uma etapa da vida do homem em que ele ainda é dotado de pureza e que, por isso mesmo, deve ser protegida, inclusive por leis cada vez mais rígidas”. Foi o que me disse Anderson Luís Nunes da Mata, estudioso das representações das crianças na literatura brasileira.

No estudo intitulado “O Silêncio das Crianças”, ele conclui: “A infância que as classes-médias e as elites – quem consome literatura neste país – ainda conservam para suas crianças está calcada num universo infantil romântico. Porém, atentas à existência da sexualidade infantil, transformam-na em assunto tabu e reprimem não só a expressão da sexualidade das crianças, como também a circulação de qualquer discurso a este respeito”.

Quem tem nariz e língua não precisa de brinquedo. (…) Aos sete anos, em 1973, fiquei deliberadamente de pau duro. Uma garota peituda foi a responsável. Eu tenho uma foto dessa época em que estou em cima de uma lhama. Um garoto triste, olhos grandes e castanhos (em cima da lhama) afagando a caveira de um bichinho qualquer – um esquilo, talvez – quase que despencando da porra da lhama. Eu enforcava meus sonhos em tripas invisíveis. E via televisão. A Tevê me educava no que era preciso, o resto, aprendi olhando pra baixo.

Interessante notar que, apesar de manter a imagem da criança atrelada à inocência, as mídias vinculam imagens eróticas, erotizadas ou pornográficas. Mensagens que também chegam às crianças. Anderson me lembrou que o termo infância, em sua etimologia, designa a faixa etária em que o ser ainda não é dotado da capacidade de falar.

Depois, disse: “É cada vez mais difícil controlar o acesso das crianças à informação, o que as leva a ser cada vez menos in-fantes, ou seja, cada vez menos mudas, e mais capazes de enfrentar os adultos. Daí alguns pesquisadores falarem em uma crise da infância, localizada justamente nessa criança que se informa – pela TV, rádio, jornal e Internet – do mesmo modo que os adultos, sem mediação, sem proteção. Já há reações no sentido de voltar a proteger a criança”.

Revelou a espantosa verdade. Durante um período muito longo antes de Nosso Ford, e até no decurso de algumas gerações ulteriores, os brinquedos eróticos entre as crianças eram considerados anormais (houve uma gargalhada); e não apenas anormais, mas realmente imorais (não!); e eram, portanto, rigorosamente reprimidos.
A fisionomia de seus ouvintes tomou uma expressão de incredulidade espantada. O quê? As pobres crianças não tinham o direito de se divertir? Não podiam acreditar..
– E até mesmo os adolescentes – dizia o D.I.C -, os adolescentes com os senhores…
– Não é possível!
– Salvo um pouco de auto-erotismo e de homossexualidade, às escondidas… absolutamente nada.

Kinsey

“Você está falando com o pioneiro, fui eu que introduzi a terapia sexual no Brasil. Todos os primeiros sexólogos foram meus alunos, inclusive a Marta Suplicy”. Foi assim meu primeiro contato com o doutor Haruo Okawara, da Clínica Kinsey (desse Kinsey vou falar depois), que diz já ter atendido clientes famosos, como Vitor Civita, empresários conhecidos e apresentadoras de televisão.

“O instinto sexual é metade dos instintos dos seres humanos, para reprodução da espécie. A outra metade é o instinto de sobrevivência, para manutenção da espécie. Na criança, o instinto sexual já está super presente. Você vai se escandalizar (afinal, a sexualidade infantil ainda é tabu). É claro que ele vai se desenvolvendo ao longo da personalidade humana. Mas a criança não é absolutamente inocente”, me garantiu o doutor Haruo.

O sexo dos adultos não existia, apenas as proibições e os castigos: ora bolas, era tudo necessariamente tesudo e gratificante; o sifão da pia, por exemplo, fudia com cotonetes quebrados e era sentimento vago, mistura de cabelos pixaim com líquidos não sabidos que entupia o ralo – pelo menos para mim – de SEXO. A mesma coisa, eu digo, a sordidez e a sujeira, valia pras calcinhas e sutiãs dependurados no cano do chuveiro elétrico. Valia pra mim, que lambia, cheirava… (…) A infância, em suma, pode ser uma coisa sórdida para quem sabe aproveitar. Eu usei muito meu nariz.

Agora vamos para o Kinsey, Alfred Kinsey. Cheguei no doutor Haruo por causa desse pesquisador norte-americano que chocou a sociedade do seu país ao publicar em 1948 Sexual Behavior in the Human Male (Comportamento Sexual no Homem) e em 1953 Sexual Behavior in the Human Female (Comportamento Sexual na Mulher).

Algumas descobertas dos relatórios Kinsey: 92% dos homens e 62% das mulheres norte-americanos da década de 1950 se masturbavam; 26% das mulheres traíram ou traiam seus maridos.

“Kinsey foi o maior pesquisador do comportamento sexual do mundo. Nunca houve uma pesquisa tão extensa, nem antes nem depois de Kinsey”, nas palavras do doutor Haruo. “Ele tinha uma metodologia muito rígida. Por cerca de 10 anos, junto com mais três colaboradores, interrogou 6 mil e poucos homens e 6 mil e poucas mulheres, em todos os estados americanos, fazendo a cada um 500 perguntas”.

As pesquisas de Kinsey envolveram também a sexualidade infantil, as experiências sexuais pré-adolescentes. Juntamente com Freud, ele é considerado precursor dos estudos da sexualidade infantil.

Mãe inteligente que frequentemente observava sua filha de três anos se masturbando, descreveu como segue: “Deitada de barriga para baixo, com seus joelhos levantados, ela iniciava movimentos ritmados da pélvis, a cada segundo ou menos (…) Em pausas momentâneas a genitália era reajustada à boneca na qual ela estava encostada; o retorno de cada movimento era convulsivo, aos trancos (…). Houve uma concentração marcada e respiração intensa com abruptas contorções à medida que o orgasmo se aproximava. Ela estava completamente esquecida de tudo durante os últimos estágios da atividade. Seus olhos estavam envidraçados e fixos em um ponto distante. Houve um alívio e relaxamento após o orgasmo”.

Os resultados dos relatórios Kinsey relativos às crianças norte-americanas do século XX são capazes de surpreender os adultos progressistas do século XXI e traumatizar os moralistas – se você é dos últimos, vou alertá-lo mais uma vez: pare por aqui.

Orgasmo

Você acha que uma criança não tem orgasmo? Pois saiba que Kinsey relatou orgasmos em bebês com menos de um ano, em ambos os sexos. “Não existe nenhum aspecto essencial do orgasmo de um adulto que não tenha sido observado nos orgasmos que as crianças pequenas podem ter”, afirmava ele.

– Eis ali um grupinho encantador – disse, apontando com o dedo.
Num pequeno espaço gramado entre altas moitas de urzes mediterrâneas, duas crianças, um garoto de cerca de sete anos e uma menina que poderia ter um ano a mais, dedicavam-se muito seriamente, com toda a concentração de sábios absortos em algum trabalho de descoberta, a um jogo sexual rudimentar.

Abaixo, algumas estatísticas que Kinsey revelou sobre sua época:

Meninas: foram relatados orgasmos em bebês com menos de um ano de idade; 14% das mulheres entrevistadas relataram terem atingido o orgasmo, seja através da masturbação ou do contato com outras crianças, pessoas mais velhas ou cachorros e gatos, antes da adolescência; 48% relataram terem participado de jogos sexuais (principalmente mostrar o corpo nu) na infância, com crianças do mesmo sexo ou do sexo oposto;

Meninos: ……………………..

Eu descobri as palavras antes do sexo. Ou a pornografia antes do erotismo – junto com a idéia da mutilação. O que me fez entender que a sordidez ou “a fanchonice” vinha em primeiro lugar e o que realmente importava era meter o pau dentro dos buracos (isso vale pra qualquer comerciante estabelecido). O erotismo me reprimia. Os buracos sujos – os ralos, especialmente – é que me educaram. Daí a nostalgia das palavras, a tesão (no feminino, sempre); e o resgate incisivo de esmaltes e tinturas da linha Marú. Eu queria fuder com as palavras. Vale dizer, queria salvá-las. Ou esvaziá-las para, em última análise, esquecê-las.

Antes de iniciar a próxima parte, vale explicar uma coisa: sexualidade vai muito além do sexo. “Quando nascemos é pelo corpo que sentimos o mundo, o corpo todo é erótico”. Palavras de Maria Cecília Pereira da Silva, que foi citada no início da matéria. Ela é psicanalista, autora e coordenadora de diversos ensaios sobre sexualidade infantil.

Ainda com ela: “Os primeiros contatos da mãe com o bebê no banho, na amamentação e todos os outros carinhos, as trocas de olhar e o ninar fazem com que ele sinta muito prazer e se sinta vivo. Tudo isso vai compondo as primeiras sensações sensuais e será a base para o desenvolvimento da resposta erótica, da capacidade de construir os vínculos amorosos e do desejo de aprender. Esse prazer, se não nos ‘robotizarmos’ demais com a vida adulta dura que vivemos, vai se manifestar num corpo todo erótico”.

Pra finalizar: “A sexualidade se manifesta ao longo de toda nossa vida. Suas manifestações estão presentes nas conversas, brincadeiras, jogos, relacionamentos e dramatizações em grupo ou individuais. A sexualidade está presente nos momentos em que o sujeito está interagindo afetivamente com outro ou outros e quando está isolado, só ou em momentos reflexivos”.

Em 1972 eu já era uma criança triste. Um dia, por incompatibilidade comigo mesmo, aprendi a olhar pra baixo. Eu tinha tesão… como toda criança… e lambia azulejos impossíveis (por desforra, decerto) e em silêncio.

Fases

Feitos esses esclarecimentos sobre a sexualidade, podemos continuar. Freud descreveu fases distintas da sexualidade infantil. As mais importantes são: oral, anal, fálica e genital.

A oral é a fase dos bebês. Tem como característica o chuchar, que em definições teóricas é uma repetição ritmada de uma sucção com a boca sem nenhum objetivo de alimentação. Quer dizer, a chupeta, o dedo, os brinquedinhos e controles remotos que não saem da boca do bebê já contém um prazer ligado à sexualidade.

Que absurdo, vão dizer alguns leitores caretas. Essa baboseira psicanalítica freudiana que insiste em sexualizar tudo! Até parece! Esse tipo de leitor não tem solução. Já avisei desde o início para que não fosse à diante na leitura. Para os leitores um pouco mais, digamos, abertos a novas verdades, posso dizer que repare um pouco mais em como subitamente o bebê se acalma e relaxa o corpo após uma chupeta.

Eu fui pegando e o Abelzinho foi ficando duro, fui pegando pra cima e pra baixo, com a mão do tio Abel em cima da minha pra me ensinar, e o Abelzinho foi crescendo e ficando coradinho, e aí eu abri bem a boca e escondi a cabeça dele na minha boca. Tinha um gosto engraçado, de mandioca cozida. E enquanto eu escondi a cabeça dele na minha boca, tio Abel empurrava um pouco a minha cabeça bem devagarinho, depois mais depressa, e ele, o tio, punha o dedo dele no meu buraquinho de trás e senti uma delícia, e descansava um pouco e falava com o Abelzinho, mas o tio não tirava o dedo do meu cuzinho.

A segunda fase, a anal, começa por volta de um ano e meio e dois, conta Maria Cecília. “É o momento em que iniciamos as crianças no controle dos esfíncteres”, ou seja, o momento em que as crianças conseguem controlar o momento da defecação. Chocado?

Diz Freud no estudo de 1905: “As crianças que tiram proveito da estimulabilidade erógena da zona anal denunciam-se por reterem as fezes até que sua acumulação provoca violentas contrações musculares e, na passagem pelo ânus, pode exercer uma estimulação intensa da mucosa”. Mas adiante, ele continua: “A estimulação masturbatória efetiva da zona anal com a ajuda do dedo, provocada por uma comichão centralmente determinada ou perifericamente mantida, não é nada rara nas crianças mais velhas”.

De três a cinco anos, predomina a fase fálica, que é a fase dos porquês e na qual se manifesta a curiosidade sexual. As crianças querem saber de onde vêem, a origem dos bebês e gostam de ficar se olhando e olhando outras crianças e adultos nus.

Também nesta fase as crianças têm grande interesse pelos órgãos genitais e a atração erógena é deslocada para a zona genital. “É natural para uma criança obter satisfação ao brincar com seu corpo e descobrir agradáveis sensações ao tocar os órgãos genitais. Crianças, mesmo bebês, buscam conforto em tais atividades, especialmente se estão sós (…). Aos três anos praticamente todas as crianças se mastrurbam”, escreve Maria Cecília em um dos seus artigos.

A próxima é a fase genital, que começa na fronteira com a adolescência, quando começam as mudanças hormonais e se acentuam as transformações emocionais e sociais.

É mais freqüente [2 a 3 anos] eles se auto masturbarem do que uns aos outros. Já [3 a 5 anos] você vê mais um fazendo carícia no outro, né. É, mas esse ano [na turma de 2 a 3 anos] eu tive uma criança que, eu acho que por ser a caçula e por ter muitos irmãos mais velhos, ela deve ter amadurecido mais, deve ter ido mais rápido nesse, nesse e noutros quesitos.

“Desejos sexuais às vezes estão presentes na infância, às vezes não. Desejo não é vinculado ao coito, não é imagem da transa. Quantas vezes você não olhava seu coleguinha de classe, o vizinho de um jeito diferente? Existe um desejo, uma atração. Diferente dos adultos, que têm os hormônios, o corpo preparado para receber o ato sexual”. Essa explicação vem de Cláudio Picazio, que vou apresentar a seguir.

Homossexualidade

Ao mesmo tempo, a criança, em determinado estágio, já sabe diferenciar os gêneros. Sabe da existência de dois sexos, sabe quem são os meninos e homens, quem são as meninas e mulheres. “A diferenciação de homem e mulher existe desde a fala. Os artigos ‘o’ e ‘a’ fazem com que a criança comece a perceber dois gêneros”, diz Picazio.

Aqui, podemos nos questionar: já que há desejos e diferenciação de gêneros, esses desejos são orientados para sexos opostos ou podem se dirigir ao mesmo sexo? Em outras palavras: existe homossexualidade na infância?

Picazio é autor do livro Diferentes Desejos, que aborda a homossexualidade no período posterior à infância, na adolescência. Ele é categórico: “Não se pode falar que uma criança é heterossexual, que é homossexual”. É na transição da infância para a adolescência que “vai descobrindo que aquela atração que ele sentia realmente é de verdade, que aquele mundo que estava no pensamento é realidade. Os hormônios vão dando essa configuração diferente. Não é mais só um pensamento ou um desejo, agora um corpo responde e age, está pronto para essa ação”.

Fiz amizade com Edu, um débil mental louro de olhos azuis. Ensinei-o a lamber azulejos e ele me ensinou a comer areia. Quando eu ficava de pau duro ele me chupava. A gente comia o ranho um do outro. O problema é que Edu tava folgando pro meu lado. Tive que partir pra chantagem (afinal de contas, eu realizava “pequenos progressos” e não tava a fim de chupar pau de mongolóide) (…). Edu imitava pôneis. Eu entupia o bebedor do playground de cabelos louros cacheados arrancados às dentadas. De tal modo que o boçal relinchava de prazer e, fundamentalmente, desviava seu caralho esquisito pro lado dos cubos de encaixar. Às vezes ele conseguia fuder ou encaixar uma coisa na outra. Eu não conseguia.


Os diversos aspectos do prazer solitário

Por Adonay de Muccio

Justiça com as próprias mãos, cinco contra um, busca do prazer sem parceiros, “arte” do sexo solitário, ou ainda em latim masturbatio ou manustrupare. Independente das várias denominações possíveis, a masturbação é indubitavelmente conhecida por toda e qualquer pessoa que tenha passado pela adolescência. Antes disso, no período de vida em que os jovens começam a desvendar e explorar a própria sexualidade, a masturbação ganha particular espaço e relevância, e pode acompanhar os indivíduos em seus vários anos subseqüentes. Segundo o sexólogo Jairo Bouer, “é com a masturbação que muitos meninos e meninas aprendem como funciona o seu corpo e o que lhes dá prazer”.

A masturbação é muitas vezes fonte de fortes mitos, tabus e dúvidas. Em chats, páginas de internet e programas de radio e TV nos quais os protagonistas são conhecidos sexólogos, o tema da masturbação está sempre presente. Muitas das indagações dizem respeito a alterações físicas decorrentes do ato em questão – crescimento de pêlo nas mãos e espinhas são apenas os mais comuns exemplos. Segundo Roseli Sayão em um bate-papo, tais dúvidas surgem porque “é na adolescência que todas essas coisas costumam acontecer ao mesmo tempo. É na adolescência q os garotos começam a se masturbar com mais intensidade por causa do tesão, que aparece por causa dos hormônios, que provocam também as malditas espinhas”.

Além disso, o tema é muito mais aceito em ambientes masculinos. Segundo sexólogos, não há razão para tratar de forma diferente a masturbação de meninos e meninas, e a única explicação para tal distinção seria o histórico preconceito. A sociedade muitas vezes machista parece ser a única responsável pela visão de que homem que se masturba é “normal” e mulher masturbar-se é “feio”, errado, vexaminoso ou qualquer outra adjetivação do tipo. Segundo o Dr. Oswaldo M. Rodrigues Jr, psicólogo e diretor do Instituto Paulista de Sexualidade, “as mulheres aprendem desde bebês que a auto-manipulação é errada. Isto ainda faz com que metade das mulheres chegue aos 20 anos de idade sem terem experienciado a masturbação como fonte de prazer sexual, e este fato se associa com as mulheres não saberem como obter orgasmos quando iniciam a vida sexual a dois”.

A masturbação e a indústria pornográfica

Outro aspecto relevante ao abordar a temática da masturbação é sua relação com as publicações eróticas. A polulante indústria da pornografia, extremamente desenvolvida nos Estados Unidos e em franca expansão no Brasil, é combustível para fantasias de todos os consumidores e serve de “material de apoio”, por assim dizer, na masturbação. Provavelmente o mundo do erotismo não seria a mesma coisa se a masturbação não existisse. Revistas de nudez, sites de fotos e vídeos pornográficos, além de uma infinidade de títulos da indústria cinematográfica pornô atuam como parceiros da masturbação e têm seu crescimento fortemente impulsionado pelo interesse humano no sexo. E essa indústria tem crescido substancialmente.

Nos Estados Unidos o mundo pornô mostra-se extremamente forte, desenvolvido e impressionantemente rentável. Em 2004 a revista Veja publicou uma reportagem segundo a qual o cinema pornográfico por lá movimentava entre 7 e 11 bilhões de dólares ao ano. Para efeito de comparação, o faturamento anual de Hollywood no mesmo período era estimado em 35 bilhões de dólares.

Os números atuais são ainda mais impressionantes. Segundo pesquisas, a indústria verdadeiramente imperial da pornografia arrecadaria incríveis 3 milhões de dólares por segundo no mundo. Obviamente tais estimativas têm uma considerável margem de erro, mas os números são de fato embasbacantes. Alguns dados e comparações dão uma mensuração mais clara do quão incrível é tal poderio de arrecadação do mercado pornô. As informações foram levantadas em um estudo do site americano TopTenReviews:

• Em 2006 a indústria da pornografia faturou 97 bilhões de dólares nos 16 principais centros consumidores de produtos de “sacanagem”. O Brasil foi o décimo sexto colocado em uma lista encabeçada por China, Coréia do Sul, Japão e Estados Unidos, na quarta colocação, com 13,3 bilhões de dólares arrematados. O faturamento no mercado tupiniquim foi de 100 milhões de dólares.

• O lucro do mercado pornográfico superou em 2006 o faturamento somado das oito multinacionais de maior destaque no mundo da tecnologia (Microsoft, Google, Amazon, eBay, Yahoo!, Apple, Netflix e EarthLink).

• 12% do total de websites são eróticos, resultando em 4,2 milhões de sites no final de 2007. Dos downloads feitos, 35% do total eram de material pornô.

• 90% dos internautas com idade entre 8 e 16 anos já viram algum tipo de pornografia na internet.

No Brasil a indústria também tem crescido fortemente. A produtora de vídeos eróticos Brasileirinha é a mais renomada no ramo, e passou recentemente não a apenas multiplicar suas produções e seu faturamento, mas também a contratar artistas de “segunda linha” para estrelar suas produções – algo totalmente inédito até pouco tempo atrás. O movimento de famosos rumo ao mundo pornô foi inaugurado há poucos anos pelo “artista multiuso” Alexandre Frota. Uma decisão ousada em um campo espinhoso. Apesar de polemica, a “atuação” de Frota não atrapalhou sua participação nos programas de TV, e prova cabal foram suas inúmeras interpelações artísticas em quadros do programa Melhor do Brasil, apresentado então por Marcio Garcia, na emissora – quem diria – dos evangélicos da Igreja Universal, Rede Record.

Após Alexandre Frota uma serie de artistas semi decadentes passaram a aventurar-se nas atuações sexuais. É a lista dos ex: a ex-chacrete Rita Cadilac, a ex-malandrinhaVivi Fernandes, o ex-Casa dos Artistas Mateus Carrieri, os ex-pupilos de João Kleber, Márcia Imperator e Oliver (protagonistas do quadro Infidelidade), e ainda a ex (ou eterna) “rainha do rebolado” Gretchen. Novos nomes tendem a estrelar a lista das produtoras pornôs com o desenvolvimento deste segmento e a inflação nos cachês.

Toda esta gigantesca indústria do apelo erótico seguramente deve parte substancial de seu sucesso e evolução à existência da masturbação. O consumo desses materiais são em sua maioria feitos de forma individual, privativa, anônima, constituindo-se em combustível para a vazão de fantasias eróticas e estímulos visuais para a satisfação sexual solitária.

A masturbação nas diferentes etapas da vida

A masturbação é parte fundamental do período de autoconhecimento corporal particularmente na pré-adolescência e juventude. Conforme os sexólogos afirmam, é errado condenar o ato de masturbar-se, sendo que ele ao contrário de prejudicar, contribui para que a pessoas tenham maior ciência das próprias sensações, da própria sexualidade.
No entanto, há especificidades em cada período da vida no que tange a masturbação. Em cada estagio a “prática do amor próprio”, por assim dizer, tem um papel característico, e fato é que com maior ou menor importância, variando de individuo para individuo, ela se faz presente nos mais diversos anos do homem, e com menor freqüência, das mulheres.
A professora catarinense Jimena Furlani, autora do premiado livro “Mitos e Tabus da Sexualidade Humana”, estabeleceu em sua pesquisa o papel da masturbação nas etapas da vida. Basicamente são quatro períodos:

• Na infância, em especial dos 3 aos 6 anos, a masturbação é uma forma de descoberta das diferenças anatômicas entre meninos e meninas. É uma forma prazerosa de contato corporal, quer seja individual, quer seja entre duas crianças.
• Na adolescência, além do apelo erótico biológico, ou seja, da necessidade orgânica pela ação hormonal, garotos e garotas se masturbam para extravasar a tensão sexual, para o conhecimento do prazer corporal e de suas sensações.
• Na idade adulta, a masturbação é uma entre as possibilidades de práticas sexuais, quer individual, quer com parceiros, inclusive entre os casais. É uma forma de sexo seguro e, uma forma, também, de extravasamento das tensões sexuais da vida cotidiana.
• Na terceira idade pode ser um reflexo da falta de sexo com parceiros, em especial para aqueles homens e mulheres que erroneamente acreditam que a sexualidade acaba após a idade fértil (no caso da menopausa, para as mulheres; ou perda do vigor físico no caso dos homens). Nesta idade a masturbação cumpre papel, à semelhança da idade adulta, como uma possibilidade sexual entre os parceiros ainda ativos.

Pecado ou dádiva?

Alguns estudos tratam de remontar a trajetória da masturbação ao longo do tempo. Dentre os diferentes papeis que ela teria tido, destacam-se sua significância em períodos específicos da história. Segundo alguns especialistas, no antigo Egito a religião utilizava a masturbação do deus Atum para descrever a criação do mundo, e as mulheres, quando morriam, eram mumificadas e enterradas com os objetos fálicos com os quais se masturbavam. Dizem ainda que com a imposição da igreja judaica de que o homem deveria ser produtivo e se multiplicar, a prática da masturbação passou a ser condenada, pois era vista como um desperdício de esperma. Similarmente, na Idade Média a ejaculação só deveria ocorrer com a finalidade de procriação. Na Inquisição, por sua vez, as conseqüências eram mais severas: o acusado de masturbação era considerado um herege, podendo ser condenado à morte na fogueira.

O que se constata em tempos atuais é que, em determinados círculos religiosos, a masturbação gera certa polêmica, à semelhança de assuntos como o uso de preservativos e a prática de relações sexuais antes do matrimônio. Embora tais discussões possam soar um tanto démodé e anacrônico, elas de fato ocorrem. Nas palavras do Dr. Oswaldo Rodrigues Jr., “a masturbação tem sido negativizada pelas principais religiões devido a conceitos básicos de que o esperma contém a centelha da vida e seria um desperdício do divino”.

Sites de igrejas, seitas e organizações de visão religiosa mais ortodoxa, conservadora, procuram proibir ou desencorajar os fiéis à prática da masturbação, muitas vezes relacionando-a à lascívia e à luxuria. Há até mesmo manuais de como evitar a “tentação da masturbação”, como é o caso de artigos no site mórmon www.moonmac.com: “Steps in overcoming masturbation: A guide to self-control”.

Já outras páginas de internet (de cunho nada religioso, diga-se de passagem), fazem o oposto: ensinam técnicas para alterar, complementar e melhorar a masturbação. É uma espécie de curso em satisfação sexual solitária, com vários exercícios divididos em módulos que vão de iniciante a avançado, todos abordando uma infinidade de aprimoramentos e variações possíveis. E não são apenas os meninos que ganham “a apostila”. Há um guia voltado apenas para as garotas. O nome do site que brinda tal conteúdo “educativo” tem nome sugestivo: www.docetoque.com.br

Tira-teima

A masturbação é tema constante em todos os debates que envolvem dois ingredientes: jovens e sexo. Para especialistas acostumados a tirar dúvidas daqueles que estão ingressando na vida sexual, as perguntas relacionadas à masturbação já viraram praticamente rotineiras.

Para esclarecer algumas das principais questões que envolvem a temática, entrevistamos dois renomados terapeutas sexuais, autores de várias publicações. O primeiro, Dr. Oswaldo M. Rodrigues Jr., psicólogo pós graduado, especializado na temática sexual, autor de diversos livros como “Sexo: Tire suas dúvidas” e “Aprimorando a Saúde Sexual”, fundador da revista Terapia Sexual e diretor do Instituto Paulista de Sexualidade. A segunda, Dra Jussania Oliveira, psicóloga pós graduada em Educação e Tarapia Sexual, autora de três livros na área dentre os quais “Relacionamento, Sexo e Ejaculação”, e docente do curso de pós graduação da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana. Veja algumas das respostas:

Babel: Quais são as duvidas mais freqüentes dos jovens com relação à masturbação?
Dr. Oswaldo: Quantas vezes é normal fazer e se prejudica a saúde.
Dra. Jussania: Se pode ter algum problema quando a freqüência é grande, se é a mesma sensação para as meninas, se continua depois do início da vida sexual com a parceira, e dúvidas sobre a ejaculação (volume e pressão).

Babel: Quais são os três maiores mitos sobre a masturbação?
Dr. Oswaldo: Que a masturbação causa impotência, que tira energia, e que afeta a saúde mental e física.
Dra. Jussania: Que causa disfunção erétil quando a freqüência é grande, que interfere na formação e desenvolvimento do genital, e que não pode ser diária.

Babel: E as três maiores verdades?
Dr. Oswaldo: Que ajuda a desenvolver auto-percepção erótica e isto permite a melhoria do comportamento sexual no adulto, especialmente na mulher. É uma fonte de prazer, e é diferenciada do prazer obtido no relacionamento a dois. É uma alternativa de comportamento e não um comportamento sexual que se estabelece ao invés de se ter relacionamentos sexuais.
Dra. Jussania: É importante para desenvolvimento da sexualidade, reconhecimento das zonas erógenas e descoberta das sensações prazerosas com a manipulação e toques corporais.

Babel: A masturbação tem uma grande relevância no processo de descoberta do próprio corpo e da sexualidade na pré-adolescência. Qual é a importância da masturbação nas outras etapas da vida?
Dr. Oswaldo: A masturbação mantém-se como meio de auto-conhecimento. O auto-conhecimento é necessário por toda a vida, pois os processos de percepção produzem mudanças de como vivemos e sentimos cada etapa da vida. Com o envelhecimento do corpo, as capacidades e possibilidades físicas se modificam, e a masturbação continua uma forma de se conhecer em cada nova etapa para a melhor atividade sexual ocorrer.
Dra. Jussania: A masturbação é uma variação sexual que pode e deve ser exercitada ao longo de toda a vida, pois proporciona sensações prazerosas, pode ser praticada individualmente ou com a parceria, aprimora a percepção corporal, relaxa, além dos benefícios que se referem à saúde e qualidade de vida.

Babel: A masturbação feminina ainda é encarada com mais preconceito que a masculina? Por que?
Dr. Oswaldo: As mulheres aprendem desde bebes que a auto-manipulação é errada. Isto ainda faz com que metade das mulheres chegue aos 20 anos de idade sem terem experienciado a masturbação como fonte de prazer sexual, e este fato se associa com as mulheres não saberem como obter orgasmos quando iniciam a vida sexual a dois. Mesmo que muitas pessoas considerem que o mundo ocidental viveu uma revolução sexual nos anos 1960, a virgindade continua sendo considerada um prêmio a ser guardado para o casamento. A vigilância sobre o uso dos dedos da menina próximos da vulva mantém a “virgindade” e impede o aprendizado da masturbação e auto-erotização. Assim a mulher não saberá como comunicar o que lhe traz prazer, pois não sabe para si mesma como esse prazer é obtido.
Dra. Jussania: a sexualidade feminina é muito mais reprimida do que a masculina. A começar da educação diferenciada entre meninos e meninas, forma de se comportar, início da vida sexual, número de parcerias, etc. Infelizmente não temos educação sexual nem na família, muito menos nas escolas, o que com certeza compromete o exercício pleno e saudável da sexualidade. Uma forma de se comprovar isto é verificando as estatísticas de disfunções sexuais masculinas e femininas: 40% das mulheres não sabem o que é ou como identificar um orgasmo. Existe um número muito maior de mulheres com a disfunção sexual inibição de desejo do que os homens. Óbvio que as mulheres já conquistaram muito mais espaço no exercício de sua sexualidade do que há 20, 30 anos. Mas há ainda um grande caminho a percorrer.

Na web

O mote da masturbação é certamente polêmico, assim como os vários aspectos que envolvem a temática sexual. Assunto sempre intimista, com peculiaridades nos diversos indivíduos, torna-se muitas vezes difícil de ser discutido abertamente com amigos ou pais, fazendo com que os mitos e as dúvidas se potencializem.

A internet proporcionou uma grande ajuda para pessoas que buscam tirar suas dúvidas de maneira fácil, gratuita e anônima. Não é necessário, para sanar essas indagações mais elementares, pagar uma consulta urológica/ginecológica ou ter que dissecar o espinhoso tema com os pais. Inúmeras páginas proporcionam grande e profundo esclarecimento a respeito das diversas questões que podem surgir quando o tema é sexo e, particularmente, masturbação. Dois dos mais famosos são www.doutorjairo.uol.com.br e www.blogdaroselysayao.blog.uol.com.br.

Segundo os sexólogos e terapeutas sexuais a masturbação não proporciona qualquer tipo de efeito negativo ou complicação física. Os especialistas dizem que ela é uma forma importante de autoconhecimento corporal na fase de desenvolvimento sexual, e uma alternativa relevante de prazer nas etapas de vida seguintes. Do ponto de vista médico, aparentemente não há contra-indicações. Assim sendo, quando os hormônios demandarem e a vontade aparecer, “mãos à obra”!! – sem preocupações.


O tabu que virou chavão: uma tarde no sex shop

Por Eliza Casadei e Rafael Duarte

“Mãe também é mulher… dê um presente diferente para ela”. A faixa que chamava atenção para a data comercial mais sentimental (e, por isso mesmo, a mais lucrativa!) do ano combinava perfeitamente com a banalidade e cotidianidade do estabelecimento. Localizado numa das principais avenidas de Santo André, em frente a um ponto de ônibus ininterruptamente lotado, as pessoas iam para o trabalho e voltavam para suas casas sem dar maiores atenções àquele tipo de comércio. Ele era tão inocente quanto a padaria do outro lado da rua ou a farmácia da próxima esquina.

Quem temesse algum riso de deboche ou algum muxoxo de desaprovação por entrar ali, sofria quase que uma espécie de decepção. O que era para ser uma transgressão de valores, uma aventura em um mundo de perversão, uma alteração das funções normais impostas pela sociedade se tornava um ato quase tão surpreendentemente avassalador quanto esperar um ônibus. Cidadão nenhum iria reparar, imerso demais que estava em sua própria trivialidade para se preocupar com a frivolidade alheia.

E é assim que Elizabeth Góes de Oliveira, dona do sex shop Libet, gosta que seja. Rejeita a combinação de cores fortes comuns nos estabelecimentos de produtos eróticos dos romances baratos e qualquer outro sinal que transpire marginalidade. Com a porta sempre aberta e com o olhar iluminado que faz com que ela pareça bem mais jovem e bela quando fala de sexo, Beth explica que a parede forrada de vibradores e dildos são, verdadeiramente, a materialidade da história de homens e mulheres comuns que procuram objetos para melhorar o estado de vida em que se encontram.

O casamento e a salvação dessa instituição por meio do bom relacionamento sexual entre os parceiros são as preocupações principais de suas falas. Assim, em meio a uma enorme quantidade de objetos fálicos, cuecas de elefante e de cremes que esquentam, que esfriam, que retardam, que apertam e que estimulam, ela se mostra um tanto quanto conservadora.

Assim como rejeita a marginalidade do ambiente, também não aceita que seus produtos sejam vistos como perversões. Ressaltando as qualidades medicinais e salvadoras de casamentos de seus produtos, ela conta que “alguns homens com problemas de saúde como diabetes não conseguem mais manter ereções e vêm aqui em busca de vibradores. Eles amam as suas esposas e não querem que o sexo se esvazie”.

Feminista, sempre defende o direito da mulher ao prazer e ressalta que boa parte dos divórcios se dá pelo estado de rotina em que os casais se vêem envolvidos depois de certo tempo. E, segundo ela, esse é o seu grande público: trata-se, afinal de contas, de um sex shop- família.

Sex shop coxinha

Ao ler o mundo através dos olhos das revistas femininas, é como se gostássemos de pensar os sex shops como grandes espaços que permitem algumas viagens a um mundo público de violações das regras privadas. É como se o tabu quebrado nos transformasse, mesmo que por alguns instantes, naquele exército de Dons Juans e pervertidos descritos por Marcuse como paradigmas da nossa sociedade. Mas é como se esquecêssemos do outro lado da equação: o sentimento de don juanismo existe, justamente, para ser normalizado. E é esse mecanismo que está envolto na lógica dos sex-shops desde o boom da comercialização dos produtos eróticos. No final das contas, percebemos que não há nada mais coxinha do que um sex shop.

Referências a objetos eróticos são muito antigas. Na própria Bíblia existem referências a dildos e o primeiro vibrador foi criado em meados do século XIX com finalidades medicinais. O que a experiência da prática comercial já dizia a Elizabeth foi objeto de estudo sério em 1872 pelo médico americano George Taylor, que concebeu o vibrador como um auxiliar no tratamento da histeria feminina.

Quando a primeira loja com o nome “sex shop” foi lançada na Inglaterra, o objetivo de Ann Summers não poderia ser menos conservador: a jovem senhora queria retirar a venda de ajudantes sexuais e matrimoniais dos becos e lançá-los à luz nas grandes avenidas, de uma forma aceitável e higiênica. Além de insistir veementemente que, apesar de tudo, não existia pornografia naquele lugar.

Depois de anos transcorridos e dada a proliferação de vários objetos não lá muito criativos como pênis de todos os tamanhos e materiais – grandes, pequenos, finos, coloridos, com óclinhos -, de loiras gostosas com peitos desproporcionalmente avantajados e de centenas de pequenos objetos que vibram, giram e torcem (tudo ao mesmo tempo!), as lojas tiveram que recorrer a uma estratégia mais safada e mais devassa para impressionar seus clientes: o sexo politicamente correto.

O Good Vibrations de São Francisco, por exemplo, criado no final da década de 70 por lésbicas feministas, trocou as loiras estonteantes por mulheres mais velhas e com corpos mais parecidos com os das pessoas comuns. A missão delas era deixar as pessoas mais esclarecidas quanto ao sexo, combater os preconceitos e quebrar os estereótipos. Assim como no Libet, nada de cores berrantes na entrada e nada de ambientes escuros e portas fechadas. Não que os objetos difiram muito dos outros sex shops. Mas manuais de boa conduta na prática sado-masoquista (explicitada como um jogo de poder feito em comum acordo e com respeito às vontades do outro e não como uma prática de submissão e humilhação) e a ambientação ideológica em consonância com os ideais feministas do lugar parecem fazer toda a diferença.

Mesmo uma das regiões mais devassas do planeta – o Red Light District – tem seu lado coxinha. Os sex-shops da região possuem uma tal diversidade de tipos de camisinha, que você deixaria o vendedor confuso se pedisse por uma simples. Alguns comerciantes mais espertos abriram “Camisinharias” na região.

As primeiras lojas brasileiras surgiram na década de 80 e agora passam por um período de lento declínio por causa da privacidade que a Internet inaugurou. Na mesma rua da loja de Elizabeth existiam mais três sex-shops que hoje estão fechados. O dela é o único que sobrevive com relativo sucesso. Segundo uma pesquisa da ABCNews, 50% dos entrevistados que responderam ao questionário acessam algum site de sexo explícito e 6% deles preferem fazer suas compras eróticas pela Internet.

It’s all business

Mas, mesmo em momentos desoladores, o mercado de produtos eróticos do país movimenta, em média, 800 milhões de reais por ano no país. A ajuda da Internet possibilita que esse mercado cresça 15% anualmente.

É considerado um ótimo negócio por Ana, dona da Cravo & Canela Produtos Sensuais, a principal distribuidora de artigos para sex shop do Triângulo Mineiro. Começando todas as suas frases com “Hum… deixa eu explicar direito”, ela não vê sentimentalidade nenhuma em seu ramo. É como vender louças ou perfumes. “Hum… deixa eu explicar direito. Eu não sei e nem estou interessada em qual é o perfil do consumidor final ou o que vende mais para ele. Só pego o pedido que as lojas me entregam e me esforço para adquirir o produto. E é tudo testado pelo Inmetro”.

Para Guilherme, gerente da Harém Fantasias Eróticas, a emoção de estar no ramo é a mesma que a de Ana. “Nos esforçamos para passar para o consumidor um produto de qualidade e excelência”. Nada em sua fala se deixa desviar desse ponto. Apesar de criar em seu estande em uma feira de lingeries um ambiente de eroticidade e sedução – com direito a um homem só de cuequinha dourada na entrada – nada em sua fala deixa transparecer aquela doce transgressão de regras que projetamos nas fantasias penduradas nos cabides. Sua fala é fria como seus números de venda.

A tendência seguida pelas Elizabeths, pelas Anas e pelos Guilhermes pinta um quadro de eroticidades em que o tradicional ganha espaço. Não é a toa que o produto mais vendido na loja de Guilherme seja a fantasia de noiva. O porrete do “goze, goze, goze” continua atrás de nós e nos cobra para que nossa sexualidade seja plenamente exercida e, de preferência, de uma forma que nos torne transgressores (a alegria dos fetiches!). Mas é esse mesmo porrete que fez com que os fetiches sexuais se configurassem, hoje, em um assunto tão tabu, mas tão tabu, que já virou até clichê.


Estranhos virgens

Por Eliza Casadei e Rafael Duarte

Todos os dias, anônimos cruzam os nossos caminhos. E, como não somos possuídos de fama, acreditamos que eles possuem os mesmos hábitos autômatos que nós. A sexualidade também entra nesse nível. Não gostamos de pensar, mas os outros também transam.

O advogado Roberto Figueredo, conhecido como Beto, de 28 anos, e a nutricionista Sabrina Amaral, de 25 anos, falam claramente: “Não somos nenhum ET. Temos vontade de toda ordem como qualquer pessoa”. Namorados há seis anos e seis meses, o belo casal seria rotulado como estranho por uma única coisa: eles são virgens.

Ambos estão uma geração a frente daquela que figurou a revista Veja em 1992. Na época, os virgens do Brasil representavam quase um terço da população jovem e contradiziam tudo o que se reportava de liberalidade sexual. Por muitos motivos, o jovem do Fora Collor esperava o momento certo para ter a sua primeira vez.
Nisso, Beto e Sabrina têm em comum com os mais “velhos”. Eles estão esperando a primeira vez deles que ocorrerá logo após o casamento, previsto para 2009. A motivação de tal resguardo é também considerada tradicional na área: a religiosidade.

Santos e separados

“Olha, a Bíblia possui vários elementos sobre a relação entre humanos. Neles, o que mostra é que devemos ser santos como Cristo, ou seja, separados perante os amigos e com sua companheira”. Após essa territorialização fundamental, Beto começa a esclarecer que separado significava ter uma atitude respeitosa e que não escandalizasse os outros.

Um exemplo claro disso, para ele, é o comportamento do casal na entrevista. Ora, mesmo que estivessem entre amigos, não caberia ali o mais apaixonado dos beijos. Sabrina concordava com os olhos com tudo que ele dizia. O seu silêncio parecia aumentar o poder da eloquência dele. Era uma olhar que apoiava sem escândalos uma atitude que se transmutava em voz.

Membros da Bola de Neve Church, os dois mostravam que aquela igreja, localizada na palmeirense rua Turiassú, não significava uma religião, mas sim um modo de vida. Beto, sem perder a cadência sustentadora de sua voz, afirmava que todo aquele ethos está dentro do coração dele, nas atitudes e não em um ídolo de barro ou na prancha de surfe do altar. Aquilo era um modo de vida.

E Sabrina e Beto possuem uma vida normal de qualquer casal na faixa etária deles. A única diferença seria o trabalho espiritual deles. Como bons líderes de célula, aqueles pequenos grupos de discussão que a maioria da igrejas possuem, a palavra amiga e confortadora é a regra na conversa.

Tanto que, no final da entrevista, Beto não hesitou em dizer: “Para mim, o importante é que tudo que eu disse hoje, tenha tocado o coração de vocês. Se isso aconteceu, estou feliz”. Após isso, o casal nos convidou para acompanhar a célula, fato que o trânsito caótico de São Paulo e a vontade de chegar no mesmo dia em casa nos obrigaram a declinar.

Alfa e Ômega

No mato alto da ECA-USP, há um grupo de cinco pessoas com uma placa em português que diz: “Alfa e Ômega. Se cristão, venha para nós. Aqui às 11:45”. Assim como Beto e Sabrina, os membros faziam um plantel à la Brad Pitt: loiros, altos e de olhos claros. Resolvemos nos aproximar com o singelo “oi” brasileiro de todos os dias.

Ao primeiro som de português, agem com estranheza. Afinal, Kristin e Andrew são americanos fazendo um trabalho estudantil pela Alfa e Ômega, uma greek letter cristã muito parecida com aquelas de cinema. Parecem não entender direito o que fazemos ali e, como qualquer americano, respondem nossas perguntas com dísticos.

Só que a velha desculpa, infelizmente verdadeira, de ter estudado em colégio católico quebra o gelo tão bem representado pela nordicidade da beleza deles. Conseguimos falar sobre sexo depois do casamento com eles.

Andrew, que parece mais fluente, fala que o sexo é algo muito bonito para os esposos e precisa atingir um certo nível, sem ultrapassá-lo antes da hora. Para ele, o sexo antes do casamento representa uma antecipação de tal patamar, causando relacionamentos destruídos.

Kristin, que parece mais assustada com o assunto, só responde a pergunta sobre a influência da mídia na antecipação sexual da juventude. “A mídia é muito malvada”, se resumiu a dizer. Se isso foi uma direta, uma indireta ou um gancho, não sabemos. Só entendemos o fato que existem greek letters aonde a oração – e não a orgia – é a atividade principal.

Jesus não escolheu

Anne Tairine estava triste quando foi entrevistada. A moça de Itu falava de um namoro cristão que não tinha dado certo. Ela e o ex, músico de Limeira, romperam os 3 meses de namoro em comum acordo, com a sensação boa que os momentos que viveram foram abençoados.

“Bom, um namoro cristão é baseado na confiança, no amor e na santidade. Sem essas três características, o namoro não pode se consolidar. Há namoros que possuem os três requisitos, mas acabam tendo fim, pois a pessoa escolhida por nós pode não ser a pessoa escolhida por Deus”, discorre Anne Tairine. A ansiedade seria o principal fator de erro na leitura da vontade divina.

Parecendo mais aberta a perguntas, disparamos o quão próximos podem ficar os namorados cristãos – acreditamos não precisar explicar para você, sagaz leitor, a entrelinha sexual de tal questionamento. A resposta foi imediata: “Polêmica, né?”, seguida de riso.

No entanto, Anne Tairine não fugiu, respondeu e aqui citamos o encadeamento de idéias: “Então, os pastores sempre nos aconselham a prestar atenção no trabalho, nos estudos, na família, na igreja e depois pensar em namorar. Quando o casal estiver junto deve sempre lembrar que a santidade do Senhor deve estar neles, sendo assim, devem evitar ficar sozinhos, no escuro onde ninguém possa vê-los”.

A aula teológica de namoro sem sexo continua com a mesma majestade de um professor catedrático: “Procurar frequentar lugares públicos, visitar novas igrejas, participar de atividades que envolvam os amigos, a família, entre outros.

Isso faz com que o foco seja a cumplicidade, e não apenas a atração física. Beijos muito demorados podem levar a outras coisas. Tudo começa no beijo, por isso temos que tomar muito cuidado. Estar sempre em oração um pelo outro é fundamental, para que a vontade do Senhor seja o foco do casal”.

Com certa melancolia cristã, Anne Tairine lembra que prefere “andar em retidão aos olhos do Senhor, pois mesmo errando sei que ele é fiel e poderoso para me perdoar e me ajudar a seguir em frente”. Ouvimos dizer que agora Anne Tairine está feliz e namorando novamente. Basta torcer para que esse seja o escolhido por Deus.

Virgem não, só não sou promíscuo

Você já viu um cara com um X na mão ou um nick com X (ex: FulanoX) na Internet? Eles, os straight edges (sXe), são conhecidos, pelo senso comum, de seguirem uma filosofia de não comerem carne, nem beberam bebidas alcoólicas, nem usarem drogas e nem mesmo fazer sexo antes do casamento.

“Isso de não fazer sexo antes do casamento, sinceramente, eu não sei de onde veio. Porque se for assim, as pessoas passam a tomar como religião. E não é bem isso, straight edge é uma questão de consciência. Uma coisa que tem a ver é, de que no começo do movimento, os caras serem contra promiscuidade”, lembra Bruno Pedroso, de 18 anos.

Bruno nos foi indicado como sXe, mas ele alega não ser muito participativo na cena. O seu primo Fernando é mais ativo do que ele, mas mesmo assim ele faz uma interessada descrição do movimento. Ele lembra que tudo começou nos anos 80 quando Ian MacKaye, do Minor Threat, pregava um punk (hardcore) sem drogas.

Depois a banda Youth of Today incluiu o vegetarianismo no movimento, fato que ecoou muito no Brasil onde quase todos sXe são vegans. Mas, o senso comum do não-sexo parece não ter nenhum relação com qualquer banda.

“Mas, eu não acho que no straight edge, isso de sem-sexo antes do casamento exista. É mais pautado em não fazer sexo promíscuo ou acho que nem isso exista mais no straight edge também. Talvez, isso pode ter sido algo do straight edge no início, contra o movimento hippie”, afirma Bruno, lembrando que isso é uma hipótese que lhe veio no momento à cabeça.

A entrevista com o não-virgem nos mostrou que, tanto no caso dele como no dos outros citados, a estranheza não pode ser ligada ao fato de serem virgens. Na verdade, não há possibilidade de valoração nesses casos. Como dizia Albert Camus, o absurdo é o conceito essencial e a primeira verdade do mundo.


Começa pela boca

Por Gustavo Basso

Atenção! Tenha mais sensibilidade na próxima vez em que estiver prestes a usar seus dedos, língua, pênis ou qualquer outro órgão de sua preferência na consumação de uma relação sexual.

Você estará prestes a iniciar uma manifestação cultural. Parece estranho? Mas o modo como nós, seres humanos, tratamos e fazemos sexo não se trata apenas de desejo animal. E por mais animal que possa parecer a sua relação, é com essa teoria que concordam médicos e terapeutas sexuais.

Sexualidade, erotismo, linguagem erótica, pornografia – em suas variantes verbais e visuais – são todos invenções da fértil imaginação humana pra preencher o aquele vazio temporal que existia entre uma gestação e outra, numa época em que as mulheres tinham nove, dez filhos. Calcule: são sete anos ininterruptos de gravidez e praticamente sem sexo; motivo de sobra pra fazer pipocar caraminholas na cabeça do homem.

Sexo, cultura e sociedade têm uma estreita relação; qualquer modificação na sociedade pode provocar mudanças no modo com que nos relacionamos com a sexualidade. Somos todos reféns de um inconsciente coletivo, que ritualiza as relações: jantar fora, ir pra balada, comprar o carro da moda são todos rituais em prol do prazer.

“Tudo o que a gente faz é pra ver se come alguém”

Qualquer exemplo de nossos comportamentos mais animais geralmente remete a sexo ou comida, logo não é tão surpreendente que na língua portuguesa uma coisa possa significar a outra. Obviamente não é assim; tanto o sexo quanto as refeições são, entre outras coisas, maneiras criadas pelo ser humano para se relacionar socialmente.

Ao menos é o que diz o psicólogo e terapeuta Oswaldo Rodrigues Jr., diretor do Instituto Paulista de Sexualidade: “A sexualidade é inventada. Ela é um mecanismo humano de relacionamento e tem sido cada vez mais importante a partir do momento que a gente inventa a palavra sexualidade pra incluir mais que o contato genital, pra incluir mais do que o contato físico de carícias. Pra incluir emoções, e conceber a troca de emoções.” E ainda completa: “Você convida uma pessoa para ir jantar, o jantar tem uma função de seduzir… é um rito! Aliás, é tão rito que você vai ver no dia 12 de junho como vai ser um rito.”

O amor como o conhecemos data, na melhor das hipóteses – ou na pior, depende de quem opina – do século XI; outros estudos o datam do fim da Idade Média (século XV). Segundo Rodrigues, “o amor só vai ser administrado como um sentimento chamado de nobre, estável e que mantém as pessoas juntas há 100 anos.” O amor, ao longo da história, mudou de sentido e função. E o sexo também.

Mas sexo tem função, além da reprodução? Vários. Quem nunca ouviu a história do ‘teste do sofá’? Até onde se saiba, o tal teste não tem nenhuma função reprodutiva. Quem ressalta esse ponto é a psiquiatra e professora da USP Carmita Abdo, coordenadora do Programa Sexualidade do Hospital das Clínicas: “O sexo para nós é um instrumento de relacionamento social, e às vezes até em situações excusas. Troca; o sexo pode ser uma moeda muitas vezes, quando você busca outros valores que não o prazer sexual”.

Segundo os terapeutas, não há dúvida de que o ser humano inventou o sexo. Assim como inventou o amor, a sexualidade, a religião, a prostituição, a pornografia. E alteramos os significados da maioria. A pornografia, por exemplo, significava o escrito que se referisse às prostitutas.

E Rodrigues lembra: “A prostituição no mundo antigo tinha muito de divindade. No Império Romano as vestais eram prostitutas sagradas; você pagava pra ter relações com elas e na verdade pagava ao Império, pagava pro povo. As sacerdotisas de Stein, ali na Mesopotâmia, recebiam dinheiro para sexo e o dinheiro ia para o templo, era uma questão religiosa.” Se o modo com que tratamos, relatamos e nos expressamos com prostitutas já foi algo sagrado, hoje está longe disso. As prostitutas, apesar de sofrerem preconceito e discriminação são hoje as salvaguardas da linguagem erótica. As salvadoras de muitos casamentos sem ‘boca-suja’ – pudicos, corretos e responsáveis. “O sexo se alimenta dos palavrões”.

Pau – pênis – pipi

Mas, afinal, por que o palavrão é excitante? A resposta está muito próxima do fato de que a transgressão é excitante, que o proibido é excitante. Quando se é criança, tocar a campainha do vizinho e sair correndo é excitante; brincar com fogo e depois provar que não fez xixi na cama é excitante. Mas crescemos, o sentido de excitante, que antes era tão amplo acaba se restringindo a uma situação: duas ou mais pessoas sob forte atração física em situações eróticas.

Se ao aprendermos a falar nosso campo de imaginação se restringe, ao crescermos e absorvermos a cultura sexual, fica mais restrito ainda. Mas afinal de contas: por que diabos é mais excitante falar palavrão no sexo? Aliás, por que grande parte dos xingamentos tem a ver com o sexo? Termos como “vai se foder”, “vai tomar no c*”, “filho da puta” ou “veado” tem todos, direta ou indiretamente uma relação com o sexo; e ao modo como a sociedade brasileira se relaciona com sexo. Pode-se até arriscar que é o modo como o mundo ocidental lida com o sexo, mas é muita pretensão.

Ana Flávia Madureira, doutora em psicologia pela UnB, aponta para o sentido da transgressão de convenções sociais no uso do palavrão: “Na esfera do erotismo, muitas vezes, o sentido de transgressão pode ser vivenciado como algo estimulante. Obviamente, desde que o casal esteja de comum acordo em relação às práticas e à linguagem a ser compartilhada no momento do ato sexual.” Esse consenso do uso dos termos entre parceiros parece ser um ponto de comum acordo entre os entrevistados. Qualquer comportamento forçado é negativo. E o que era um palavrão excitante passa a ser um xingamento.

“Quando a gente está xingando a outra pessoa, nós estamos querendo dizer que a outra pessoa é subalterna, é menos. Nós estamos tentando, nesse jogo de palavras, impor poder e fazer uma negociação onde o outro fique por baixo.” E esse jogo de palavras não é só utilizado para outras pessoas, mas a coisas ou fatos que nos desagradem. Seu amigo quebrou uma perna? “Nossa, que merda” Terá que botar pino? “Puta, se fodeu!” Experimente dizer “Nossa, se deu mal” Nem de longe isso exprime todo o sentimento que a situação exige.

Isso porque, segundo o psicólogo cognitivo Steven Pinker, da Universidade Harvard, em seu livro Stuff of Thought (citado pela revista Super Interessante, Ed. 249) os palavrões são elaborados no sistema mais primitivo do cérebro, aquele mais associado aos sentimentos e menos à razão. E essa expressividade vale muito para a relação sexual. O uso de eufemismos pode prejudicar muito a intensidade da relação sexual; e atrapalhar relacionamentos.

É o que aponta Rodrigues: “Se existe uma emoção, um peso que tem que falar aquela palavra mesmo, se usar um eufemismo você está tirando toda a emoção e sexo exige emoção. E alguns eufemismos são, por exemplo, infantilizados, tipo: “vamos fazer nhen-nhen-nhen!”. Isso são formas das pessoas falarem pra substituir palavrões. Po, é disso aqui que nós estamos falando, não é outra coisa! Não é batatinha, não é periquita, não é pipi; se a gente baixar o grau de emoção… vamos assistir novela e futebol que fica mais emocionante.”

Toda essa expressividade emotiva na hora do sexo é moldada por nossa cultura e sua bagagem histórica. Como expõe Madureira, nossa língua e linguagem são todas marcadas por um preconceito, e “a linguagem cotidiana para se referir à sexualidade é uma linguagem com forte conotação de imoralidade”. Não só a linguagem marca o sexo como imoral, mas ao longo da história ele foi considerado algo indecente, pra se fazer dentro de quatro paredes… como um banheiro! Nos escondemos pra ir ao banheiro, nos escondemos para fazer sexo.

Mas o traço mais marcante é um sempre presente machismo na língua: “O órgão sexual masculino é associado, freqüentemente, a armas, como: “pau”, “cacete”, “vara”, etc. O ato sexual é interpretado, muitas vezes, através de uma visão polarizada e hierarquizada: o homem come; a mulher dá”, afirma Madureira.

Esse preconceito estigmatiza palavras que antes tinham significados neutros; pau, nada mais é no dicionário do que um galho; boceta era uma caixa pequena e redonda e assim por diante. E as prostitutas, que já foram sagradas, hoje são consideradas um dos nichos mais baixos da sociedade; o que vale uma pergunta: no fundo, no fundo, não fazemos todos nós uma venda de parte do corpo para trabalhar?

A tão sonhada vida fácil

Há um ponto a se ressaltar em relação às prostitutas: a dificuldade para se conversar com elas para uma reportagem. A simples menção ao termo “matéria” já causa uma repelência. Um pouco de sensibilidade basta para não abordar assim e para entender essa resistência. Diante de uma profissão tão estigmatizada, como não temer algo que se possa falar?

Em compensação essa busca por uma conversa que trouxesse algum repertório empírico leva a diálogos insólitos, como a criação de personagens clientes ao falar com uma acompanhante pelo telefone: “Me diz uma coisa, você costuma ouvir coisas estranhas?” “Ah, não sei… o que você considera estranho?” “Ah, eu não fico muito a vontade pra falar.” “Pode falar, sem medo.” “Tá bom, tipo, quero que você me coma…” “Ah, mas isso não é tão estranho.” “Você ouve coisas piores? Tipo o que?” “Ah isso eu te conto pessoalmente”.

Prostitutas ouvem de tudo no campo erótico e precisam falar de tudo. Abdo aponta uma das razões: “O homem se restringe muito no sexo que faz com a sua parceira doméstica. Ele acha não só que determinados termos não devem ser utilizados como também que determinadas práticas não devem ser utilizadas. Então o repertório sexual com a esposa é meio sem graça, repetitivo, muito menos animado do que ele faria com uma garota de programa, onde ele se permite todo tipo de prática liberdade de expressão.”

E dá-lhe sacanagem; Bete*, ao ser perguntada sobre o que eles querem ouvir, lançou um “amor, você pega o cara e diz: ‘vem e me come, seu safado’” e ainda emendou “e o homem ter que ser direto; botar a mulher no canto e falar ‘e aí, por quanto você sai daqui?’” O respeito que ele se sente obrigado a ter pela mulher amada lhe impede de xingar, oprimir – afinal, é pra isso que existem os xingamentos – a senhorita que está sob ele na cama. Porém nada lhe impede de assumir esse comportamento em uma situação de cliente. E o cliente tem sempre razão.

Se fosse apenas isso, seria mais fácil se acostumar. Eva* conta que muitos homens pedem pra que ela fique quieta na cama, no máximo emita um gemido. E nesse comportamento há, algumas vezes, um agravante: alguns desses homens pedem ainda para que as prostitutas tomem um banho frio antes da relação. Algo para simular um corpo morto. Agora, o que impede um indivíduo que deseja a esse ponto transar com uma morta de matar a mulher e transar logo com um corpo verdadeiro? O fetiche não tem limites em muitos casos.

E grande parte dos fetiches vem dos homens. Seria um reflexo dessa liberdade maior que os homens têm para com o sexo? Liberdade paradoxal essa, pois ao mesmo tempo os homens podem “tudo”, não podem uma série de coisas: não pode beijar outro homem, nem no rosto; não pode vacilar com os olhos no banheiro; não pode ter uma vaidade maior. Todos comportamentos tacháveis de veado, nada lisonjeiro, como sabemos.

Carmita Abdo acredita que não, e acredita em um outro fator para esse fetichismo masculino: “a mulher tem muito mais contato com objetos que são potencialmente fetiche; ela pode usar um adereço, ela pode usar um brinco, ela pode usar uma peça no cabelo, etc. Mas nem sempre foi assim; nós tivemos tempos em que os homens se enfeitavam, usavam peruca, usavam aqueles babados todos, usavam aqueles brilhos nas roupas. Será que naquela época os fetiches eram menos comuns?” Ao menos a um ponto Oswaldo Rodrigues responde: “é mais comum encontrarmos grupos de sado-masoquismo em sociedades politicamente restritivas, autocráticas. Ou seja, você não briga com o governo, mas você pega sua vizinha, chicoteia ela, consensualmente, os dois adoram isso, mas você não vai fazer passeata contra o governo.”

O ser humano, em seu confuso mecanismo mental, complica as coisas; transforma reprodução em prazer; prazer em culpa; culpa em palavras, palavras em prazer; prazer em ferramentas sociais; ferramentas sociais em preceitos; preceitos em preconceitos; preconceitos em fetiches; fetiches em prazer; prazer em dor e assim por diante. Só a cabeça humana foi capaz de dar vida a tantas palavras e palavrões. E perguntas que custam a ser respondidas de uma vez. Talvez em 100 anos as respostas sejam diferentes, andemos pelados pela rua e palavras usuais como camisa se torne um palavrão.

Glossário

• Amor: viva afeição que nos impele para o objeto dos nossos desejos; inclinação da alma e do coração; objeto da nossa afeição; paixão; afeto; inclinação exclusiva;

• Boceta: pequena caixa de papel, madeira ou outro material, cilíndrica ou oval, para guarda de objetos;

• Cacete: pau curto e grosso; bordão grosso numa das extremidades; pão de trigo sobre o comprido;

• Caralho: o pênis; designa irritação, indignação

• Carícia: afago; carinho; manifestação de afeto.

• Cultura: conjunto dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores morais e materiais, característicos de uma sociedade;

• Erotismo: amor físico, prazer e desejo sexual distintos da procriação; exaltação de tudo o que é referente ao desejo sexual

• Eufemismo: ato de suavizar a expressão de uma idéia, substituindo a palavra própria por outra mais agradável, mais polida;

• Excitante: estimulante

• Fetiche: objeto animado ou inanimado, natural ou feito pelo Homem, ao qual se atribui poder sobrenatural ou mágico e ao qual se presta culto;

• Foder: copular; sair-se muito mal (de qualquer intento); entrar pelo cano; não ligar importância

• Palavrão: obscenidade.

• Pau: pedaço de madeira; bordão; cajado; vara; haste; mastro; chifre;

• Pênis: órgão da copulação, no homem.

• Pornografia: representação (por escritos, desenhos, pinturas, filmes ou fotografias) de cenas ou objetos obscenos destinados a serem apresentados a um público; coleção de pinturas ou gravuras obscenas

• Prazer: sensação ou sentimento agradável, harmonioso, que atende a uma inclinação vital; gozo

• Prostituição: comércio habitual ou profissional do amor sexual

• Ritual: Conjunto de práticas consagradas pelo uso e/ou por normas, e que se deve observar de forma invariável em ocasiões determinadas

• Sacanagem: ato, procedimento ou dito de sacana; devassidão, bandalheira, libertinagem, sacanice

• Sexo: características estruturais e funcionais que permitem distinguir os organismos macho e fêmea; fazer sexo: ter relação sexual, fazer amor, copular

• Sexualidade: conjunto dos fenômenos da vida sexual; conjunto de todas as condições anatômicas e fisiológicas que caracterizam cada um dos sexos

• Transgressão: infração.

• Vagina: designação comum a diversas formações com feitio de bainha; canal do aparelho genital dos mamíferos-fêmeas que se situa entre a vulva e o útero

• Vara: haste delgada e flexível de árvore ou arbusto; circunscrição judicial em certas cidades do país; conjunto de porcos

• Veado: quadrúpede ruminante, de galhos redondos e ramosos; espécie de mandioca, de talo vermelho e raiz curta e grossa

• Xingamento: insulto com palavras afrontosas, zombaria, injuria

• Xoxota: a vulva


Combustíveis do sexo

Por Carolina Baliviera

Conhecida popularmente como deusa do amor, Afrodite não teve um nascimento nada romântico. A mitologia grega conta que Cronos castrou seu pai, Uranos, e atirou sua genitália ao mar, que começou a ferver, espumar e, assim, originou-se a deusa. A danadinha ao crescer não deixou por menos e dava concorridas festas – animadas por orgias e bebidas – em Atenas e Corinto. As famosas reuniões recebiam o nome de afrodisíacas, que vem de aphrodisiakós, ou no português claro, aquilo que “restaura as forças geradoras”, que “excita os apetites carnais”.

De lá para cá, a busca por aditivos ao prazer continuou a mesma. Diariamente spams emporcalham nossos e-mails com remédios estimulantes e folhetinhos divulgam ervas milagrosas que prometem dar mais moral para os homens. Em um dos movimentados cruzamentos da região do Brás, em São Paulo, seu José da Silva também tem sua fórmula de sucesso. “Para o brinquedo funcionar é só tomar a `garrafada´, é tiro e nada de queda, não”. O tônico Levanta Velho do arretado pernambucano é um preparado de cachaça com marapuama, cipó-cravo, ginseng, nó-de-cahorro, guaraná e um truque especial que ele não revela nem por decreto. “Por 15 reais, o cabra tem Viagra natural por um mês”, diz.

Em uma barraquinha mais discreta no Mercado da Lapa, a descendente de japoneses, Sun Chou, montou sua farmácia natural há seis anos. Cansada de receber encomendas de ervas na sua antiga banca de legumes e verduras, decidiu apostar somente no poder das plantas. Deu tão certo que, agora, já coleciona clientes fiéis. “Um senhor de uns 60 anos vinha toda semana comprar ervas afrodisíacas. Depois de três meses, apareceu a esposa dele para me proibir de vender os produtos; ela não estava conseguindo dar conta do marido”, brinca.

“No Brasil, a cozinha e a cama são os altares da sociedade erótica”, já dizia Gilberto Freire e dava a deixa para outro famoso ramo dos afrodisíacos: a culinária. Assim, a risonha Gabriela, personagem de Jorge Amado, enlouqueceu Nacib com o seu cravo, sua canela e outros temperos da sua fabulosa comida. E no livro “Como água para chocolate”, de Laura Esquivel, a protagonista Tita criou pratos para seu amado – e proibido cunhado – Pedro. Era uma forma de provocar sensações mesmo que fossem à distância, como na vez que serviu codornas em pétalas de rosas e logo notou um “intenso calor subindo pelas pernas, o rubor cobrindo as faces, um formigamento no centro do corpo”, praticamente uma intoxicação afrodisíaca.

Dono de um restaurante tailandês em Búzios, o chef Marcos Sodré agora tem outra filial no Leblon, no Rio de Janeiro. O êxito se deve, principalmente, aos pratos que deixam a clientela (90% casais) mais corada e com vontade de ir embora para casa comer a sobremesa. “Esta culinária prima pelo poder sensorial e aromático dos ingredientes”, explica. Em meio a temperos e especiarias, o carro-chefe da casa é camarão com lichias ao molho de ostras. O aventureiro (e amante inveterado) Giacomo Casanova relata em suas memórias que chegou a seduzir uma virgem passando uma ostra de sua boca para a dela; e, por 56 reais, você pode tentar a experiência. Ei, garçom, traz logo a conta logo, por favor?!

Na zona sul do Rio, um calçadão de quatro quilômetros com padrão ondulado preto-e-branco, cortesia de Burle Marx, repleto de turistas, malandros, boêmios, além das moçoilas (não) trajadas de pé na Atlântica explicam porque Copacabana respira sexo. Só num pequeno prédio comercial na rua Santa Clara, há dois sex shops. No Xdreams, consolos de todos os tamanhos, acessórios, géis e lubrificantes dividem as prateleiras. Mas, o sucesso de venda são as fantasias. “Todo mundo sonha em comer a estudante, a enfermeira ou a empregadinha…Imaginar sacanagem é o melhor afrodisíaco”, explica a atendente Ana Paula.

Balela? Placebo? Ou eficazes? Ainda hoje a ciência torce o nariz para os supostos efeitos que os afrodisíacos têm na vida sexual das pessoas. O que existe, segundos os médicos, é a disposição interna – maior ou menor – de querer fazer sexo. E ela pode ser acionada por meio de vários estímulos. Para saber se esses estímulos chegam até onde interessa, a redação da Babel virou cobaia. Cinco repórteres se entupiram de ovo de codorna, catuaba, chazinhos amargos, tônicos, e brinquedinhos sugestivos e contam a seguir o que realmente dá uma forcinha na hora H.

Populares

Atuam diretamente sobre o desejo mais pela sugestão do que eficácia

OVO DE CODORNA
GEMADA
AMENDOIM
CATUABA
GINSENG
CARACU COM OVO

Princípio ativo: A catuaba possui um ativo químico, a yoimbina, usado em alguns remédios para disfunção erétil. Essa substância, presente naturalmente na planta, melhora o sistema nervoso central e a oxigenação e, conseqüentemente, o fluxo sangüíneo. O ginseng segue a mesma lógica: combate o stress físico e mental e, por isso, dá uma ajudinha no sexo. Agora, alimentos como a o amendoim, ovo de codorna e caracu têm eficácia baseada mais na crendice do popular do que nas pesquisas cientificas. O ovo de codorna, por exemplo, contém minerais fundamentais para o organismo (ferro, manganês, cobre, fósforo e cálcio) e uma bateria de vitaminas (A, B1 e B2, C, D, H, E, fator PP, ácido pantotênico e piridoxina) que até melhoram o ânimo, mas não são suficientes para levar o título de “viagra natural”.

O especialista: “Não há nada que comprove a eficácia desses alimentos, mas eles podem cumprir a missão de afrodisíacos pelo efeito psicológico que produzem: a pessoa acredita e isso acaba funcionando para ela”, explica Diego Henrique Viviani, psicólogo do Instituto Paulista de Sexualidade.

Na hora H: “A catuaba é interessante mais pela fama do que pelos efeitos. A primeira vez que experimentei a ilustração do rótulo trazia a figura de um índio. Depois que ficou conhecida como afrodisíaco, trocou de embalagem e agora tem um casal em posição de preliminares. O gosto é meio amargo, lembra Biotônico Fontoura e também fernet (uma bebida argentina). Mas não surtiu efeito em mim. Não senti nenhuma diferença depois de beber a catuaba”, Rafael Duque.

Mais, mais:
– O gado Caracu é sinônimo de virilidade por ter ótimos reprodutores. Acabou virando símbolo de uma cerveja escura. Para “melhorar” a bebida, os botecos a turbinaram com ovo cru.
– É provável que a tradição do ovo de codorna veio de uma canção do compositor Severino Ramos, imortalizada pelo rei do baião Luiz Gonzaga. Quem não se lembra dos versos? “Eu tô madurão / Passei da flor da idade / Mas ainda tenho / Alguma mocidade /…/Eu quero ovo de codorna pra comer / O meu problema ele tem que resolver…”.

Fitoterápicos

Ervas e raízes transformadas em chazinhos e cápsulas para elevar a moral

CANTÁRIDA
MARAPUAMA
CIPÓ CABLOCO
CIPÓ CRAVO
NÓ DE CACHORRO
CASCA DE CATUABA
GUARANÁ

Princípio ativo: Esses afrodisíacos seguem a linha natureba da medicina. São vendidos em barraquinhas de ervas ou – em versão mais prática nas farmácias – já em cápsulas. Em geral, são revitalizantes orgânicos, contribuem para aumentar a potencia sexual e, em muitos casos, têm comprovação cientifica que explica sua eficácia. No Instituto de Sexologia de Paris, a marapuama foi dada a dois mil pacientes durante dez dias e houve uma melhora significativa da libido em 60% deles. Segundo os pesquisadores, a planta aumenta o desejo sexual, mantém os níveis de testosterona e também pode ser utilizada para tratar problemas do sistema nervoso central. Apesar dos resultados, é preciso ter um cuidado ao turbinar a relação. Algumas raízes e, até mesmo, insetos (como o besouro cantárida, usado moído), provocam irritação no canal urinário – que aumenta o afluxo de sangue nos dutos sexuais. Elevam o tesão, mas podem causar infecções.

O especialista: “Todos esses produtos fitoterápicos melhoram o estado geral do organismo, combatem o stress, aumentando a atividade motora, isso tudo reflete na disposição para o sexo”, afirma a farmacêutica Renata Codarin.

Na hora H: “Preparei o ‘tônico’ da forma popular (com pinga) e também como chá, misturando quatro plantas: catuaba, nó-de-cachorro, cipó cravo e marapuama. O cheiro já não era bom, o gosto então… um dos ingredientes era muito amargo, parecia terra e seiva velha de árvore. Literalmente intragável; cada gole era acompanhado de um gole de água. Quanto aos efeitos, notei alguma influência sim. Mas de uma forma bem pouco eficiente, já que eu tomei a bebida às 3h30 e o efeito veio às 12h, quando eu não precisava mais”, Gustavo Basso.

Mais, mais:
– A marapuama sempre foi utilizada pelos índios como revigorante e recebia o nome de “pau da potência”.
– A raiz do nó-de-cachorro tem semelhança anatômica com um pênis de cachorro – daí o nome. A mistura da planta com pinga é tomada pelos homens da região do Pantanal como estimulante sexual. Eles garantem ainda que uma dose por dia – em uma xícara de cafezinho -, energiza as crianças preguiçosas, fortifica a memória e reduz os problemas da menopausa.

Medicamentos

Cuidam das disfunções eréteis e dão um “up” na relação

VIAGRA
YOMAX
VASOMAX
UPRIMA
RETARDADORES DE EREÇÃO
LEVITRA
CIALIS

Princípio ativo: Não se pode falar em estimulante sexual sem citar a famosa pílula azul. Dos cinco medicamentos mais vendidos no Brasil de janeiro a março desse ano, dois são para problemas de ereção e três são analgésicos. O Viagra, por exemplo, é um remédio que aumenta os mecanismos vasodilatadores da ereção, além do fluxo de sangue no pênis e, assim, promove a ereção. Existem também os alfa-adrenérgicos, como Yomax e Vasomax, que inibem a ação da adrenalina no pênis, causadora do estado de relaxamento. Indicado para aqueles homens que não conseguem ter uma boa ereção por viverem sob constante ação da adrenalina que se exterioriza pelo stress, nervosismo e hiperatividade. O Uprima faz parte de um terceiro grupo de medicamentos, o da apomorfina, que age sobre o sistema nervoso central. Entre as promessas tentadoras dos medicamentos estão até 36 horas (!) de ereção. Pois é, chega de moleza.

O especialista: “Esses medicamentos não são afrodisíacos e nem devem ser usados para isso. Eles têm contra-indicação e, por lei, só deveriam ser vendidos com prescrição de um especialista”, alerta Joaquim Claro, médico da clínica urológica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Na hora H: “Teoricamente, não precisava do remédio, mas como andava com uns problemas que pioraram meu desempenho, resolvi experimentar. Comprei o Levitra, sem receita mesmo. O comprimido era de 20 mg, por isso, usei só metade. Uns quinze minutos depois já funciona: dá bastante calor e nenhuma menina pode chegar muito perto, porque, com qualquer estímulo, já fica tudo duro. O efeito dura cerca de três horas, então é preciso calcular bem o tempo para não passar vergonha na balada”, o repórter preferiu não se identificar.

Mais, mais:
– O Viagra só funciona em resposta ao estímulo sexual. Não adianta tomar o comprimido e esperar que o companheiro lá de baixo tome a iniciativa. Além disso, ele é expressamente proibido para homens cardíacos que façam tratamento com nitritos e nitratos.
– O Uprima funciona mais rápido – o que pode causar um certo constrangimento. Não precisa de nenhum estímulo sexual e seu efeito é obtido em quinze minutos e não em uma hora, como o Viagra.

Românticos

Criam um clima sensual no quarto para a noite ficar mais quente

INCENSO
FRUTAS
CHOCOLATE
VELAS
MÚSICA
FLORES
CHAMPANHE

Princípio ativo: Criar uma áurea de romance pode dar um empurrãozinho para o prazer. Principalmente o das mulheres. Enquanto flores e cores agradam aos olhos e embelezam o ambiente, os cheiros e gostos exploram os outros sentidos. Os aromas afrodisíacos como jasmim, almíscar, rosa e âmbar surtem efeito mais rápido do que os alimentos ou estímulos visuais. Isso acontece, porque os cheiros percorrem o tálamo e o córtex cerebrais antes de chegar ao lobo límbico, região do cérebro responsável pelas emoções. Ali, enviam sinal direto à área e produzem as sensações de prazer. Comidas que fornecem ao organismo alto grau de energia – como o chocolate – também funcionam como disparadores do apetite sexual. O álcool, por exemplo, dilata os vasos sangüíneos, fazendo com que o sangue chegue em maior quantidade aos órgãos genitais.

O especialista: “A vontade de fazer sexo, ou seja, a predisposição, é o fator determinante. O jogo erótico melhora a auto-estima do casal, melhorando também a relação sexual”, explica Diego Henrique Viviani, psicólogo do Instituto Paulista de Sexualidade.

Na hora H: “Preparar um ritual com taças, velas e frutas foi bacana. Sai um pouco da rotina que, geralmente, é mais casual. Cria-se uma expectativa maior, parece cenário de novela. A vela tem uma luz mais baixa, o álcool ajuda a relaxar (desde que você não encha a cara, claro) e o morango é sempre uma delícia e combina perfeitamente com o espumante. Dá pra deixar pra lá o incenso de jasmim que é bastante enjoativo e a romã, que mesmo sendo uma delícia, dá um trabalhão para cuspir caroço por caroço e isso a torna nada afrodisíaca”, Giovana Romani.

Mais, mais:
– Varie as cores dependendo da sua (má) intenção. Pretty women abusam do vermelho que inspira vitalidade e energia e é considerado afrodisíaco principalmente para os homens. Já o violeta é conhecido por reduzir medos e angústias e deixam as mulheres mais à vontade. Importante: o amarelo estressa o sistema nervoso e o azul que tende a ser excessivamente calmante. Por isso, nada de lençóis com essas cores!
– O Kama Sutra, o mais antigo manual de sexo, garante: o homem que come sementes de romã tem seu pênis aumentado. Lendas à parte, as sementes da fruta têm substâncias químicas que se assemelham à cortisona e estimulam a glândula adrenal, melhorando as condições do corpo.

Sugestivos

Hora das boas compras nos sex shop

GÉIS COM SABOR
LINGERIE
ÓLEO DE MASSAGEM
VIBRADOR
LUBRIFICANTE
BONECA INFLÁVEL
FILMES / DVDS

Princípio ativo: A idéia é usar a imaginação como afrodisíaco. E para ir às compras, os sex shops são como uma loja de conveniência. Nas prateleiras, artigos eróticos vão desde gel lubrificante até apetrechos que são proezas da tecnologia. O vibrador, por exemplo, criado em 1869 pelo médico americano George Taylor com o objetivo de tratar “disfunções sexuais femininas”, era uma geringonça movida a vapor e nada anatômica. O acessório virou lazer erótico após a revolução sexual na década de 1960 e, hoje em dia, tem dimensões, cores e texturas para todos os gostos. Além disso, para atiçar ainda mais a fantasia dos casais, o cardápio dessas casas tem lingeries de vinil, géis comestíveis com o sabor de frutas (o de morango é o mais procurado), DVDs com pornografia e bonecas infláveis loiras, morenas e até orientais. Talvez valha a tentativa, porque, segundo teorias de Freud, a melhor forma de despertar a libido represada é procurar caminhos do inconsciente ou seguir situações irreais (embaladas por fantasias sexuais, por exemplo).

O especialista: “A maioria dos clientes de sex shop são mulheres maduras e casadas. Isso é a prova que, para manter a disposição na cama, é preciso experimentar sempre algo diferente”, aconselha Ana Paula, atendente de um sex shop de Copacabana

Na hora H: “O afrodisíaco mais vendido nos sex shops são os géis comestíveis. Têm uma textura esquisita e, geralmente quando entram em contato com a pele, provocam alguma sensação no local: esquentam, esfriam ou, simplesmente, perfumam. Experimentei as hot balls, bolinhas coloridas que devem ser estouradas (da maneira que quiser) para liberar o óleo que vem dentro. O cheiro enjoativo e a baita alergia que o produto barato provocou inibem, sem dúvida nenhuma, qualquer mérito desse plus a mais”, Carolina Baliviera.

Mais, mais:

– As atendentes dão a dica: o produto do momento é o bullet com controle remoto. Para quem não sabe, bullet (bala de revólver, em inglês) é o mais famoso dos estimuladores clitorianos. Este novo modelo permite que a mulher coloque o aparelho na calcinha e deixe o controle nas mãos do parceiro. A festa, o jantar e o cineminha não serão mais os mesmos.
– A primeira boneca inflável foi inventada, veja só, por cientistas nazistas durante a Segunda Guerra. A idéia era combater as baixas do exército de soldados vitimados por doenças venéreas contraídas em bordéis. O governo alemão decidiu criar um “efeito regulador” para o apetite sexual dos combatentes. Porém, a boneca Borghild – feita de plástico galvanizado a partir de um molde em bronze – só chegou ao braços dos soldados anos mais tarde.


A vida é Bela

Por Frederico Viotti

Tatiane é solitária. Desde que chegou a São Paulo em 2004, não consegue ter um relacionamento sério e estável. Diz que todos homens com os quais tem um caso não ligam de volta após as primeiras noites. Romântica como qualquer moça de 28 anos na mesma situação, se entristece com essa recorrente falta de sorte no amor, sente-se desvalorizada como mulher. Mas no final das contas, Tatiane, conhecida também por Belinha, se conforma. Sua atual profissão não ajuda muito na arte da conquista. Há um ano, Belinha é atriz pornô. Só nesse período, já atuou em mais de 70 filmes.

Natural de Matosinhos, interior de Minas Gerais, Belinha vem de uma família simples. Seu pai tem mais de oito empregos, é mecânico, enfermeiro, soldador… Por ironia do destino, sua mãe vende peças íntimas. Belinha trabalha desde criança, já foi recepcionista, balconista e faxineira. Em sua cidade natal, era namoradeira. Mas ficava só nos beijinhos, tinha o sonho de casar virgem. Perdeu esse sonho e outras coisas mais aos dezoito anos, com um ex-patrão bem mais velho. “Ele disse que ia me levar para uma festinha, eu inocente fui, e a festinha era eu, em um motel.”

Do início da vida adulta na pacata cidade mineira, lembra dos forrós que tanto gostava, dos namoros pela janela e do trabalho em uma grande montadora de carros italiana, como apuradora de produção.

Início profissional

No começo de sua carreira como atriz, tentou escondeu de todos, mas logo fracassou. Após o segundo filme, todos em Matosinhos já sabiam de sua nova profissão. “A partir daí decidi não esconder das pessoas o que eu sou. Assumi e passei até a dar autógrafos na minha cidade, para os 35 mil habitantes. Hoje sou muito popular lá.”

E o começo veio aparentemente por acaso. De início, Belinha conta que estava se divertindo em uma danceteria quando um cara a abordou dizendo que tinha o perfil de atriz, e perguntou se não queria participar de um filme. Ela não achou má idéia e decidiu encarar o desafio. Depois, mais desinibida, Bela conta o que fez em São Paulo nos primeiros anos que morou aqui. “Não tenho que mentir para ninguém. Trabalhei em uma boate, como garota de programa por um mês, só para ver como é que era. E ganhei 50 mil reais em um mês! Quando você ganha muito dinheiro e seus pais nunca tiveram condições de te ajudar, você pensa em comprar tudo o que vê pela frente. Mas a vida não é assim. Eu comprei tudo o que eu quis, tudo o que eu quero, tenho. Mas hoje em dia vejo como faz falta esse dinheiro que poderia ter juntado. Fiz programa durante um mês nessa boate, ganhei 50 mil e gastei tudo. Esse foi o único período em que fiz programa, não faço mais. Se pintar, eu vou. Só que esse mercado está ruim, hoje as boates tão todas fechando.”

Depois do primeiro filme, as oportunidades foram surgindo e Belinha entrou de vez no mercado. Hoje é nome conhecido nessa indústria. Como ela mesmo se orgulha de dizer, especialista em cenas “hards”.

Como funciona

Falando em números, se em um ano já fez mais de 70 filmes pornôs, nesse mesmo período estima que já foram mais de 200 shows de strip-tease. Durante o mês na boate, contabiliza uns 300 programas. E revela ter feito mais uma centena deles, com seus clientes habituais. “De vez em quando tenho meus clientes fieis. Agora cobro uma graninha a mais, já sai em capa de revista. Não sou mais bobinha.”

Em termos de valores, não há do que reclamar. Uma atriz pornô em atividade intensa chega a ganhar 40, 50 mil reais por mês. A média gira em torno dos 15 mil. Fazendo programa, esse valor cresce e muito. Os shows é que geram menos dinheiro, não chegam a 500 reais por apresentação. Só que são muito mais recorrentes.

Esclarecendo dúvidas de um repórter leigo, Belinha conta que uma cena, quando bem feita, dura menos de uma hora. Por cada cena, recebe-se entre mil e dois mil reais. Em épocas boas, filmam-se duas ou três delas por dia, cada uma delas consiste em mais ou menos cinco posições diferentes. Se depender da atriz, esse ritmo só tende a aumentar. “Trabalho para todos que me chamam, mesmo que um valor seja mais baixo que outro. Tenho várias oportunidades e não quero perder nenhuma delas.”

Belinha faz questão de dizer que leva seu trabalho muito a sério. Diferente de grande parte das atrizes e atores que na maioria das vezes fingem o prazer durante uma cena, ela diz que raramente deixa de gozar. Afirma que nunca se machucou, nem sentiu dor alguma. Toda essa dedicação ela justifica pelo fato de encarnar profundamente sua segunda identidade, a Belinha, a Belinha Que Dá o Cuzinho na Janelinha. “Acho que não tem que misturar a Tatiane e a Belinha, uma personagem. São muito diferentes. As pessoas dizem que eu me transformo tanto no set de filmagem que parece uma drogada, e isso me machuca. O meu jeito de trabalhar é natural, não bebo nada. Antigamente eu bebia, antes de um anal, ou quando via o dote de um ator… Hoje em dia já encaro numa boa, qualquer tamanho. Me entrego na cena, faço tudo com muita vontade, com muito tesão. Me envolvo tanto que gozo várias vezes. Tento fazer uma puta cena, fazer uma coisa legal.” Confessa que em uma filmagem recente, ficou receosa de contracenar com um ator conhecido por “Kid Bengala”, cujo nome serve de introdução, e que neste dia fraquejou. Teve que tomar um “copão” de uísque.

Mercado pornô

Para Belinha, a relação com as outras atrizes é boa, mas está longe de ser saudável. “Há muita falsidade, muita concorrência. Mas posso te falar uma coisa: me dou bem com todo mundo. Não consigo sempre agradar a todos, mas onde eu chego sou bem recebida. Tinhas varias amigas no pornô, que depois se mostraram falsas. Apesar disso, conheci muitas pessoas maravilhosas nesse meio.” Já com os atores, a história parece ser outra. “Adoro eles, me tratam muito bem. Nunca sai ou fiz muita amizade com nenhum deles, porque rola um interesse de ficar. E não quero me envolver.”

Sobre as celebridades que emergem de maneira instantânea nesse mercado, Belinha diz aceitá-las, mas não perde a oportunidade de fazer uma crítica. “Quem sou eu para julgá-las. Só sei que elas recebem muitíssimo mais. E às vezes entram só para ganhar ainda mais fama, fazem um filme e pronto. Quem atua sempre somos nós, e eles (produtores) não dão o devido valor para a gente. Eu sei do que sou capaz, mas é muito difícil chegar ao patamar dessas famosas. Sou conhecida no mercado, mas não tenho nome de estrela. É um pouco de discriminação, isso não é justo. Tem que dar valor para aquelas que batalham.” Em um de seus ídolos, ela encontra uma exceção a essa regra. “Minha única experiência com celebridades foi com o Alexandre Frota, e ele é um amor de pessoa, maravilhoso. Carinhosíssimo na cama, parecia que eu estava com um namorado, foi muito legal.”

Em sintonia com essa declaração, Bela diz que o filme mais importante que já fez é justamente o protagonizado pelo famoso pitboy, o “Especial de Natal do Frota”. Já aquele que mais gostou fazer foi o “Forró Sem Calcinha”, onde reviveu a paixão de infância pelo ritmo nordestino. Durante a entrevista, ela recebeu a ligação de uma produtora, agendando uma filmagem para seu mais novo projeto: “A Festa da Belinha”, da qual é protagonista e mentora. Uma produção só com mulheres. As cenas serão(ou foram?) gravadas em plena quinta-feira, dentro de um casarão localizado em um bairro nobre da capital. Belinha adora quanto ilustra a capa de um de seus filmes. Imagine só dar nome a ele.

Quando assume suas opiniões pessoais, Belinha não é lá muito liberal. É categoricamente contra o aborto, contra a legalização das drogas e da prostituição. Tem limites profissionais a serem respeitados. “Não gosto das bizarrices, animais, não há dinheiro que me compraria para fazer isso. Bonecas (travestis), não pensei ainda, tenho um pouco de receio. Já fiz com duas anãs, um anão e um boy (homem).” Mas tratando-se do ato sexual ordinário, a história muda um pouco de figura. “Adoro que me batam. Gosto de putaria, de fazer a três, com vários homens, quanto mais melhor. Já fiz com oito homens, e quero mais, é um desafio meu. Tenho vontade de filmar em uma borracharia, com quinze caras.” Apesar de toda essa empolgação, Bela é consciente quanto aos perigos que corre. “Profissionalmente, prefiro fazer com camisinha. Sempre que faço sem, me sinto um pouco incomodada, me encuca. Fico pensando no risco. Arrisco minha vida por dinheiro e dinheiro não é tudo.”

Além de atuar, Belinha também apresenta e participa de programas de televisão, em canais adultos. Mas são os filmes que impulsionam sua carreira. Em julho, ela viajará pela primeira vez para fora do Brasil. Vai gravar na Espanha. E sabe como o mercado pornô internacional é atraente, já que paga-se mais do que o dobro de um cachê brasileiro.

Segundo reportagem da revista Istoé, a indústria pornô no Brasil movimenta mais de 300 milhões de reais por ano em 2006 e 2007. Dada sua experiência pessoal, Belinha fica em dúvida se esse valor tende a subir ou a cair. “Produtoras como a Brasileirinhas e a Sexxy estão crescendo. Mas acho que o mercado está caindo, porque antes eu gravava muito, muito e agora quase nada. Esse ano eu acho que vai dar menos dinheiro. Tem muitas produtoras por aí, a concorrência é enorme.”

Lado pessoal

O apoio da família é fundamental para ela que prossiga na profissão. “É triste para os pais saberem que a filha é uma atriz pornô e uma garota de programa? É. Mas eles me amam de qualquer jeito, não tem o q reclamar de mim. Aceitam minha decisão. Independente do que eu sou, eles me amam de qualquer forma. A única que me dizem é: queremos que você saia logo disso. Junte seu dinheiro, não gaste com a gente e saia. Não queremos isso para você.” Além dos pais, Belinha tem duas irmãs das quais se orgulha muito. As duas completaram os estudos e têm diplomas universitários, ao contrário de Bela, que teve que largar a escola após o primeiro grau para trabalhar. “Jamais deixaria um filho ou sobrinho meu parar os estudos por qualquer motivo.”

Esperançosa de um dia achar alguém que goste dela, a respeite e com quem possa construir uma família, Belinha continua com sua rotina. Caseira, adora filmes românticos e de terror (só não pode vê-los sozinha porque tem medo), mas é fissurada mesmo por novelas. Come muito pouco,é viciada em sorvetes e salgadinhos, que chama de Milhopan.

Pensa em parar de se dedicar ao trabalho em poucos anos, quando tiver juntado dinheiro o suficiente para tocar sua vida. “Pretendo fazer meu pezinho de meia, ter uma casinha tranqüila, uma família que eu possa respeitar e amar. Filhos, só um ou dois. Paro quando eu vir que chega para mim. Como meus pais dizem, quando eu vir que consegui uma grana legal. Não quero parar para voltar depois. A gente que costuma ganhar muito dinheiro não consegue ter um serviço normal, onde se ganhe muito menos. É difícil mudar assim, mas basta a gente querer. Tem que colocar na cabeça e dizer eu consigo, eu posso.” Humilde, pensa até em voltar a trabalhar na montadora, só duvida que a aceitem de volta.

Indagada se no futuro, terá dúvidas sobre o seu presente, Belinha é decidida. “Não esconderia nada dos meus filhos. Meu passado será passado. Quero poder dar muito respeito e carinho para eles. Não falarei que eu não vou me arrepender nunca de tudo o que eu fiz, porque não se sabe do dia de amanhã. Só me arrependo hoje do que não faço, das oportunidades perdidas.”

E assim Belinha segue, vivendo em um universo de contrastes, entre a dominante atriz pornô e a menina carente que desenvolveu-se fisicamente jogando bola no interior de Minas Gerais, mora sozinha em uma pensão de Pinheiros, passa o tempo em casa de pijamas, dorme como um recém-nascido (no dia da entrevista, tinha dormido quinze horas seguidas) e ainda fala “Uai”. Fiel à sua profissão e a um amor, que ainda não bateu em sua porta.


O Xis de Michelly

Por Karina Negreiros

Fraldas, mamadeiras, roupinhas de bebê e uma loira de um metro e oitenta e seis. Foi no chá de bebê de uma amiga que conheci Michelly, uma travesti de 35 anos, estilista e casada há 14.

Curioso é que, embora todos estivessem muito interessados na futura mamãe e bebê, foi Michelly o maior alvo das curiosidades de todos os gêneros ali reunidos. Assim, após a tradicional entrega de presentes, procedeu-se ali, naquele cenário atípico, e, de forma muito natural e informal, uma longa entrevista coletiva com a estilista de fala suave e gestos elegantes.

Lembro que, após esse dia, comecei a enxergar a sexualidade humana com outros olhos. As respostas de Michelly me fizeram refletir acerca da miopia com que costumava tentar enxergar a diversidade sexual. Óbvio que todos sabem existir variações. Papai e mamãe, mamãe e papai, meia nove, oral, anal, vibradores, e tudo o mais que o editor da seção “sexo lacrado” da revista Nova/Cosmopolitan autoriza a publicar.

Evidente que todos já viram travestis na televisão, nas ruas da cidade, no cinema, no jornal nacional (principalmente após o caso Ronaldo). Mas, quantas pessoas enxergam de verdade uma travesti, sem pensar no grotesco, no absurdo, na aberração? Mais ainda, quantas pessoas compreendem sua existência e a demanda social, psicológica e sexual por esse gênero?

Afinal, onde estão as travestis do/no mundo? Será que são assim tão poucas ou somos nós que fingimos não percebê-las? E como é possível não percebê-las??? É clássica a anedota de que os esquimós diferenciam mais de x tons de branco. Se esse povo, seres humanos como nós, consegue enxergar tanta diversidade no que para nós é uma única cor, então, podemos tentar também acreditar que o que conhecemos por sexualidade pode ter um sem-número de nuances que desconhecemos.

Foram essas e outras reflexões que deram origem ao texto que lhes apresento agora. As respostas de Michelly funcionam como sugestivos prompts cor-de-rosa.

Voar de avião não é aberração

Roberto (do casal gay) pergunta: Você não é a Michelly X, que ganhou o concurso Miss Brasil Gay 2000?

Sim! Eu estava bastante em forma na época.

Michelly X (ninguém quis saber o nome que ela tinha antes… e o X é em homenagem à Xuxa, sua ídola de infância), uma travesti com uma beleza difícil de contestar, já participou de inúmeros eventos gays São Paulo afora e ganhou vários títulos de beleza. Não fosse pela inviabilidade social, acredito que teria-lhe sido possível vencer muitas candidatas ao concurso convencional de “Miss Brasil ”.

Quando era menino, Michelly já sentia que era diferente, mas não entendia o porquê. Afinal, na escola, em casa, na casa dos parentes e vizinhos em Tatuapé, na TV, nos desenhos animados, nos livros didáticos, em nenhum lugar, se falava do que ela estava sentindo e, aos doze, no limiar da adolescência, quando todos buscam a aceitação social, lá estava ele fantasiando não em ter uma mulher, mas em sê-la.

Sua carreira como estilista começou cedo. Antes dos 18, já tinha uma boa carteira de clientes e começava a fazer sucesso até entre celebridades, quando se deu, quase que de forma acidental, sua transformação. Primeiro, para se livrar do incômodo da barba, fez depilação a laser e ficou com a cara lisinha. Quantos homens heteros não ficariam satisfeitos com esse resultado?

Empolgou-se com a sutil feminilidade que a ausência da barba lhe conferiu e, foi gradualmente tomando outras medidas para se travestir. Suas sobrancelhas passaram a ser arqueadas e impecavelmente desenhadas, sem um pêlo fora do lugar. Deixou as unhas crescerem e volta e meia brincava de passar esmalte. Esse é o ponto de sua vida em que cultivou o visual andrógino. Era um momento intermediário, em que não parecia nem homem, nem mulher. Não se sentia atraente.

Foi a época em que mais sofri. Saía na rua e as pessoas me xingavam de viado pra baixo, achavam que eu era uma aberração. Uma coisa estranha. Nem lá, nem cá.

A resposta foi peruca e enchimento. Mas, só tinha coragem nas baladas. Isso foi na maioridade. Era uma drag queen de 21 anos, fingia que estava apenas divertindo o público, quando na verdade desabafava, através do exagero, sua vontade de ser mulher. Pensava que se todos já a hostilizavam com o visual andrógino, imagine então se a vissem travestida. No exagero, por trás da peruca rosa da drag, estava protegida. Não queria que mexessem com ela. Não desse jeito.

Um belo dia, resolveu fazer uma experiência. Pegou uma roupa que qualquer mulher discreta se orgulharia em usar, encaixou uma peruca loira, e resolveu caminhar pelo lado selvagem.

“Holly came from Miami FLA
Hitch-hiked her way across the USA
Plucked her eyebrows on the way
Shaved her leg and then he was a she
She says, hey babe, take a walk on the wild side
Said, hey honey, take a walk on the wild side”
Velvet Underground

A moça entrou no trem, sentou-se comportadamente, cruzou as longas e depiladas pernas, acomodou os braços sobre a bolsa e disfarçou, dirigindo o olhar à triste paisagem da metrópole. Estava radiante! Esforçava-se absurdamente para conter o sorriso. Ninguém, absolutamente ninguém, lhe dirigiu uma palavra. Os olhares, embora curiosos de seus muitos centímetros, não pareciam reprová-la. Eram apenas curiosos. Como é bom não ser percebida!

Epifania! Esse foi o dia em que desafiou a sentença a ela empregada no momento de sua concepção. Num ato de mor rebeldia, em desafio ao outrora inexorável XY, seria XX, ou apenas X. Michelly X. E viva o silicone! Viva o laser e outras tecnologias cosméticas. Porque, sim, ela podia ser feliz como queria.

Ora, se Fulana de tal pode deixar de ser quadrada e nariguda, por que Michelly não podia ser simplesmente uma mulher? Se o homem pôde fantasiar com o pássaro e inventar o avião, sonhar com o fundo do mar e inventar o submarino, invejar o sol e iluminar a noite com a eletricidade, não podia ela inventar uma mulher em seu próprio corpo?

Ninguém fica por aí dizendo que voar de avião é uma aberração porque é contra a natureza ou contra “para o que se nasce”. Ninguém se importa em usufruir do legado tecnológico da humanidade para se aperfeiçoar, mudar a cor do cabelo, disfarçar os defeitos, curar doenças, amenizar sofrimentos. Por que cargas d’água então as pessoas insistem em chamar as travestis de aberrações, simplesmente alegando que é “contra a natureza”? Mundinho complicado.

Mas, lá estava ela caminhando gloriosa e corajosamente com seus agora 1,96 metros (os 10 centímetros a mais se devem aos essenciais saltos agulhas, nos quais, recorda-se, foi difícil encontrar equilíbrio no começo), como numa passarela, sob o som ensurdecedor dos aplausos imaginários, cega pelos flashes invisíveis dos olhares deliciosamente curiosos, expondo, a Deus e a todos, o gênero para o qual nasceu.

A verdade de Sartre

Tanto glamour e felicidade, como o mundo é justo, há de ser quebrado pelo outro lado da questão. Pensa que é fácil ser mulher? Não é não. Principalmente para um homem! Desde o preço das roupas, às intermináveis seções de salão de beleza, até os indesejáveis efeitos colaterais das doses e overdoses hormonais. Por uma mistura de falta de coragem, excesso de vergonha e a ausência de uma assistência médica especializada no atendimento ao gênero, os hormônios femininos costumam ser auto-administrados pelas travestis que vão se orientando entre elas, correndo riscos severos de adquirir problemas físicos e psicológicos.

Michelly tomou os tais hormônios. Qualquer travesti que quer ser bonita tem que tomar. De preferência, desde a adolescência. Ela não teve essa chance. Beirava os 30 quando resolveu se arriscar. Mesmo assim, no começo, o resultado foi fantástico. Pele mais lisinha, voz mais macia e emoções que, apesar de toda a vontade de ser fêmea, nunca antes havia experimentado: vontade de chorar à toa, instinto maternal exacerbado, e uma temível redução no apetite sexual.

Tinha nojo de sexo. Se tivesse que fazer um oral, então, eu vomitava. Logo eu, que adorava! Queria namorar e tal, mas para transar tinha que ser com muito carinho. Fiquei uns seis meses sem fazer porque eu não tinha tesão nenhum. Eu e meu namorado tivemos problemas sérios. Tive até vontade de fazer cirurgia.

E quem dera esses tivessem sido os únicos problemas. Além dos hormônios, Michelly tomava remédios para emagrecer. Queria ser linda e esbelta, pois, um homem que decide ser mulher não pode querer ser qualquer mulher! É incrível como as pessoas cobram mais da travesti. Uma mulher normal pode ter bigode, barriga, celulite, unhas por fazer, mas a travesti não. Tem que estar impecável, senão já falam logo que parece homem. Olha o tamanho da mão! Do pé! Olha o gogó! Que feminina, que nada. Maior voz grossa. Ela é enorme! Como se a Daniella Cicarelli não tivesse uma voz mais grossa que a dela e a Luciana Gimenez e a Ana Hickman não tivessem exatamente seus 1,86 metros. E mulheres altas quase sempre calçam mais de 40 mesmo. Sem se dar conta, Michelly conhecia bem a verdade de Sartre: “O inferno são os outros” .

Assim, devido à perigosa mistura entre hormônios, remédios para emagrecer e uma vida social regada à álcool e otras cositas más, começou a desenvolver sérios problemas psicológicos, como a depressão e a síndrome do pânico. Resultado: foi forçada a parar com as doses cavalares de hormônios femininos e com o tão necessário remédio para emagrecer. Engordou uns 20 quilos e ficou mais deprimida… e menos feminina.

Recorreu então ao silicone e, com uma alegre excitação, viu surgir apetrechos muito mais efetivos que os peiticos derivados dos hormônios. Perdeu alguns quilos, mas, não conseguiu contornar seus desentendimentos com a balança. Já os problemas psicológicos, embora mais atenuados, ainda estavam longe de ser resolvidos. Pensa em fazer ioga. Iria ajudar nas duas coisas. Precisa aprender a respirar, a relaxar. Prometi passar-lhe o contato da Dani, minha professora.

Apesar de tudo isso, Michelly se considera uma pessoa, em particular, uma travesti de sorte. Primeiro, porque, ao contrário da maioria de suas colegas de gênero, conseguiu encontrar uma relação estável. São quatorze anos juntos. Uma vida. Não conheço nenhum outro caso igual ao nosso. Segundo, porque não precisou recorrer à prostituição, como acontece em muitos casos. Finalmente, atribui toda essas sortes a uma sorte maior: em todas as etapas de sua transformação, teve sempre o apoio irrestrito de sua família. Quando muitas são rejeitadas pelos pais e familiares, Michelly foi acolhida.

Só tenho a agradecer à minha mãe, meu pai, minha tia, todos. E é assim que tem conseguido saborear e digerir tanto os doces, quanto os amargos frutos de sua escolha.

A gentil franqueza de um pênis

Para quebrar o clima melancólico, Michel (do casal gay) interfere: “Posso te fazer umas perguntas indiscretas? Você é ativa ou passiva? E o que você pensa dos homens que procuram travestis?”

Com meu namorado, não. Ele gosta de ser ativo. Sempre gostou. Mas, eu não tenho esse problema. Já fui ativa em outras situações e não tenho o menor problema com isso, só que ele só me curte passiva. Mas, eu não tenho cabeça de transexual, que acha que é uma mulher.

A travesti gosta de ser feminina, mas normalmente não tem problema com o pênis: gosta dele e sabe usar. A transexual olha pro pênis no espelho e passa mal, quer tirar. Tem horror a ser ativa. Normalmente, ela não quer nem ir para a balada e ter uma vida de glamour. Quer morar numa casinha e ter um maridinho, levar uma vida normal. Não quer nem pensar em ser viril, por isso tem a necessidade de operar.

Dizem que quando operam passam a ter o prazer igual ao da mulher. Particularmente, Michelly não sabe muito o que é isso, mas garante que a grande quantidade de hormônios também influencia a querer tomar essa decisão, como quase aconteceu com ela. E isso foi uma das coisas que a fez parar. Estava ficando louca.

Os homens que procuram travestis também variam muito de perfil, mas, em geral, nenhum homem procura uma travesti esperando encontrar apenas uma mulher. Acontece isso de vez em quando com homens que não têm muita escolha. Normalmente são pouco atraentes, financeira e esteticamente falando. Desejam ficar com uma mulher bonita, mas não têm, digamos, os requisitos para isso. Procuram travestis por uma questão de carência. Porque querem ter uma mulher linda e gostosa e não podem. Ficam lisonjeados com a atenção que a travesti dá, porém, não a curtem de fato.

Mas, a partir do momento em que ele tem a opção de ficar com uma mulher bonita e interessante, como no caso do Ronaldo, que, apesar de não ser bonito, é rico e famoso, e ele opta por uma travesti, desculpe, mas, é porque ele realmente está desejando aquela figura da mulher com o pênis. É uma fantasia que ele tem. Por mais que ele não seja passivo na relação. Há homens que só querem fazer o ativo, mas têm que saber que tem um pinto lá pendurado. É meio louco isso.

E homem que curte travesti, em geral, não curte gay masculino, porque ele não consegue sair com outro homem. Ele não consegue ter tesão. Não é porque ele não tem coragem de assumir que é gay, como muitos dizem. Ele simplesmente não sente tesão se os contornos não forem femininos. E a figura do pênis é essencial. Tem homem que gosta apenas de saber que tá lá, outros gostam de pegar, outros têm que fazer oral, mas não querem ser passivos, outros querem o troca-troca, mas, raros são os que não querem ver.

O pênis ereto é o inqüestionável indício de que uma travesti está com tesão. Já o desejo da mulher é um mistério demasiado incógnito para alguns homens suportarem. É preciso a gentil franqueza do pênis de uma travesti para tranqüilizá-lo. É preciso algo que ele compreenda naquele corpo tão perfeito. Só uma travesti sabe ser a mulher idealizada. Por que só ela verdadeiramente SABE o que um homem sente e quer. Só ela compreende, por empatia, as taras e fantasias masculinas.

Já o homossexual masculino não vai nunca procurar uma travesti. Muitos malham, ficam fortes porque aquela imagem de mulher mexe com a cabeça deles de um jeito negativo. Não atrai de jeito nenhum. Eles querem o oposto disso. Para alguns, os mais afeminados, é algo que eles queriam ser, não ter. Nesse sentido, acho que existe uma rincha. Não por parte das travestis, que são, digamos, mais bem resolvidas. Os homens heteros não querem o gay, querem a travesti. Então, existe essa competição. Tanto é que, quando você vira travesti, você perde muitas amizades com gays. Você sente a diferença.

Por exemplo, assim que virei travesti, a gente ainda ia nas baladas juntos, via um carinha bonitinho e às vezes ele olhava para mim, a travesti, não o gay. Aí rolava aquela inveja e isso acabava fazendo com que eles se distanciassem.

Mas, são tantos que gostam de travestis! Porque a gente conhece, né? Vai numa festa hetero e alguns olhares não estão te paquerando, só olhando, mas muitos, muitos mesmo dizem assim: “se mexer aqui sai”. Uma grande parte dos homens sairiam com uma travesti bonita. Tenho certeza. A gente sabe essas coisas. Existem muitos que não conseguem assumir nem pra eles mesmos.

Por exemplo, no MSN. Já vi homens que ficam a vida inteira por trás de um monitor, querendo fazer sexo virtual com a travesti, querem ver o pênis dela, mandam mostrar e se masturbam, mas nunca têm coragem de chegar e marcar um encontro. Ficam só no virtual. Só na fantasia.

Grande parte do medo de realizar essa fantasia se deve ao preconceito que paira sobre a figura da travesti. O gênero não é reconhecido. A travesti é sexualmente transgressora, socialmente marginal. Para muitos, é a vulgaridade que repele. Mas, o que seria da prostituta se não vulgar? E o que seria da travesti se não prostituta?

O problema da aceitação social da travesti é um círculo vicioso, que normalmente começa na adolescência. O menino começa a manifestar tendências afeminadas e na escola, vira alvo de chacota e descriminação, de tal forma que a vida escolar passa a se tornar insuportável, levando-o a abandonar os estudos antes de concluir o segundo grau. Sem estudos, as opções profissionais se restringem muito, além do fato de haver o preconceito também dentro do mercado de trabalho contra as pessoas de gêneros alternativos. Você consegue, por exemplo, imaginar uma travesti de tailleur numa reunião de negócios de alguma grande corporação?

Assim é traçado o caminho da maioria das travestis, congestionando a via que se bifurca na indústria da moda e beleza, onde muitas são cabeleireiras e manicures, ou a do sexo, desde a prostituição propriamente dita, a participações em filmes pornô e ensaios fotográficos clandestinos. Então, se a grande maioria vive marginalizada, confinadas aos salões ou guetos de prostituição, a sociedade as descrimina ainda mais, reafirmando a (muitas vezes) falsa teoria de que travestis são pessoas fúteis e promíscuas e que, portanto, não têm lugar onde reinam a família e os bons costumes. Como se os membros dessas famílias e supostos praticantes desses bons costumes não fossem, eles mesmos, os clientes sorrateiros que apanham as travestis nas ruas escuras e pagam pela fugaz adrenalina de alguns momentos de prazer radical e descartável.

Caso Ronaldo

Não adianta ele falar que é a primeira vez que fez isso porque eu já tinha ouvido falar que lá na Europa ele já procurava. Tenho muitas amigas na Itália, que foram para lá para fazer prostituição.

Quem é que diz?
Quem é feliz?
Quem passa?

A codorniz
O chamariz
A caça

Três travestis
Três colibris de raça
Deixam o país
E enchem Paris de graça
Caetano Veloso

E essas minhas amigas já tinham me contado que ele tinha saído com fulana de tal travesti, mas eu até achava que era mentira, mas, quando saiu a notícia, comecei a juntar as coisas. Acho mesmo que ele estava sob o efeito de bebida e/ou droga, e saiu por aí desse jeito e, sei lá, com o tesão louco da droga, acabou pegando essas de rua mesmo, que simplesmente estavam ali. Como um cara alucinado costuma fazer, acabou nem escolhendo, pegou e nem viu direito se era feia ou bonita. Ele queria travesti. Pegou três, levou lá.

Acho que uma dada hora, ele mandou buscar mais droga, e uma das travestis saiu para buscar. Foi aí que ele percebeu que o dinheiro dele acabou, aí ele dividiu o dinheiro entre as que ficaram lá. E quando a outra voltou, quis a parte dela e ele já não tinha mais. Não ia dar um cheque ou ir no caixa eletrônico tirar dinheiro. Não tinha cabimento. Mandou ela dividir entre as amigas e foi nesse momento que ela se aproveitou do fato de ele ser famoso e fez aquele escândalo todo.

E com certeza elas foram compradas para retirar todas as queixas. E o que aconteceu com ele acontece direto. Eu já vi vários casos de travestis que se aproveitam do constrangimento social para extorquir o cara, seja ele famoso ou não. Porque normalmente quem procura travesti é casado ou tem namorada. Na verdade, é comum ter de tudo, até adolescente de 16 anos, mas o fato é que a maioria tem dificuldade de assumir isso socialmente e as travestis sabem disso. Algumas, infelizmente, se aproveitam disso.

Travestis que se aproveitam da situação de vulnerabilidade de seus clientes para tirar vantagem ajudam a construir a má fama do gênero. Mas, é incabível generalizar o quer que seja, inclusive os gêneros. É o mesmo que dizer que toda mulher é frígida e todo homem é tarado. Os estereótipos só dão força à intolerância. E o mais lamentável dessa história é que essa teria sido uma grande oportunidade para a mídia levantar a discussão sobre as travestis.

Ajudar a diminuir a descriminação, tanto contra o gênero, quanto contra quem o consome, por assim dizer. Em vez disso, a imprensa caiu em cima do Ronaldo, como se ele fosse um imoral e creditou o discurso daquelas travestis transformando-as em caricaturas perfeitas da imagem mental que a sociedade já tem sobre o gênero: grotescas e vulgares. É absurdo que formadores de opinião, jornalistas, em vez de esclarecer e ajudar a desfazer mitos e tabus do comportamento sexual, apenas reafirmem estereótipos e normalizem regras concretadas de conduta social. Dá vontade de gritar: “Gente, vocês estão falando mal de mim, mas eu estou aqui ó! Estou ouvindo tudo”! E, como eu, tem mais meio mundo.


Don Maroni

Por Rafael Duque e Piero Locatelli

Qualquer referência à boate Bahamas mexe com as cabeças, e muito mais, de todos homens paulistanos. O lugar já foi frequentado por algumas das figuras mais ricas da cidade, por políticos, celebridades e pilotos de F-1 — na época do GP de Interlagos, a casa sempre lota — e também pelas mulheres mais cobiçadas da capital paulista. Mas as pessoas que hoje passam pela frente da boate, em um dos quarteirões mais valorizados de São Paulo, percebem que o Bahamas está longe de ser tudo aquilo que já foi. Do lado de fora, suas paredes estão estampadas pelo cartaz da subprefeitura escrito LACRADO, já comum ao redor de toda capital. Já dentro dele, as cadeiras com texturas de zebra e os aquários não parecem fazer muito sentido com a luz acesa e sem uma única mulher.

Foi dentro desse Bahamas fechado, onde atualmente funciona seu escritório, que o dono desse império do sexo, Oscar Maroni, nos atendeu para uma conversa de mais de duas horas. Com óculos escuros, chapéu e cara inicialmente fechada, ele também estava acompanhada por Docinho, seu inseparável poodle de estimação.

Milionário, ele é dono de fazendas de gado e também promotor de lutas de artes marciais — onde atende por “Don Maroni”. Nesse ramo já tentou até organizar uma luta entre Rickson Gracie e Mike Tyson em Dubai — sonho que não se concretizou graças as altas quantias desejadas por Gracie.

Porém, não é nem pelo gado e nem pelas lutas que ele ganhou sua fama. Maroni fez seu nome sendo dono, além do Bahamas, do Oscar´s Hotel, gigante hotel ao lado do aeroporto de Congonhas e ligado ao Bahamas por uma passagem subterrânea, e também de algumas revistas relacionadas ao sexo, como a Penthouse e a Hustler brasileiras.

Perdendo o cabaço

Mas antes de seu nome ser relacionado ao que há de melhor em termos de sexo, Maroni teve uma iniciação bem diferente do que seu status atual aparenta: ele perdeu a virgindade com uma prostituta, fato que muitos deveriam imaginar. Mas nada comparado às cobiçadas freqüentadoras do Bahamas.

Com cerca de 17 anos, depois de assistir um filme em que Jane Fonda aparecia “de peitinhos de fora” no Cine Ipiranga, centro de São Paulo, ele resolveu que já era a hora. “Eu fui na zona lá atrás, tinha uma loira que era uma velha horrorosa. Mas era loira. Eu fui.” Nervoso, deu uma rapidinha com a moça enquanto ela lia uma revista de fotonovela.

De tão ruim, a transa fez o empresário tremer nas bases. “Pô, será que eu sou viado? Será que sexo é essa merda que aconteceu comigo?” Quem tirou de vez essas dúvidas foi seu cunhado, hoje marido de sua irmã, que o apresentou a duas putas da zona de Santos em seu apartamento. Daquela vez a impressão foi bem diferente: “Eu me lembro que no outro dia de manhã, nós estávamos os quatro tomando café e elas com os peitos de fora. Puta, eu achei aquilo bonito, eu contava pra todo mundo”.

O ponto crucial da mudança de sua carreira veio anos depois. Ainda na faculdade de psicologia e, sob os auspícios de João Carlos Di Genio, dono do conglomerado Objetivo, conseguiu vender lanches, seu primeiro negócio. Enquanto cursava a faculdade, também começou a atender um certo nipônico que sofria de ejaculação precoce, cuja a cura mudaria o rumo de sua vida.

Primeiros passos como empresário

A solução achada por Maroni para seu paciente foi dupla: o tratamento psicológico e idas regulares a uma “casa de massagens”. O resultado não podia ter sido melhor. “O japonesinho ficou uma bala”, conta. “Aí eu falei: vou montar em São Paulo uma instituição que tem como objetivo o tratamento terapêutico. É mentira, era uma roupagem que eu queria dar a essa atividade que eu gosto tanto que é a sexualidade humana.”

Da história do japonês, até o Bahamas, a trajetória parece fácil ao ser contada por Maroni: “Aí eu monto uma casa, duas três, quatro e fui crescendo com as boates, com as casas noturnas. Aí eu abri o Bahamas Club.”

Com essa trajetória, ficou quase inevitável perguntar: quantas mulheres nesse tempo, Maroni? “Segundo a revista G Magazine eu já tive mais de 2 mil mulheres.” Verdade? ” O repórter me falou, seu Oscar antes de vir pra cá eu fiz uns cálculos… Naquela época, o senhor falou que tinha trinta anos de noite. Trezentos e sessenta dias tem o ano, vamos fazer trezentos por ano, vezes 30 anos de noite. São três vezes três, nove. Seriam nove mil mulheres, uma por dia, impossível. Eu falei, é, coloca uma a cada três dias. Já daria 3 mil.”

Três mil? “Realmente, eu já me relacionei muito sexualmente. Mas acho que isso não é mérito nenhum, essa quantidade é até meio cafajeste. Eu amei, perdidamente, seis, sete mulheres. ”

Família

Dentre essas seis, sete mulheres, a que passou mais tempo com ele foi Marisa, sua esposa durante 27 anos. Mãe dos quatro filhos de Oscar, ela mora hoje em dia com a prole numa cobertura de 700m². Mas, e as outras três mil mulheres? Marisa não tinha ciúmes? “Tinha problema de ciúmes, mas depois eu comecei a virar ela”, e ainda relembra: “Uma vez um amiga dela perguntou a mesma coisa. Ela falou: Eu sei que meu homem ta lá, o Oscar ta lá no Bahamas. A diferença é que eu sei onde ele tá, você não sabe onde o teu homem tá.”

Ao falar sobre a filha, Maroni é um pai que se sensibiliza. Nos contou até que chorou vendo o filme Juno, ao lembrar da história da gravidez indesejada da sua herdeira. Contando sobre essa história, Maroni não mede palavras: “Hoje eu sou avô e digo o seguinte, o pau do meu genro comeu a minha filha e maravilhosamente me deu um ser que eu amo muito que é o meu neto. ”

Os outros três filhos, todos homens maiores de idade, frequentam o Bahamas e todo domingo, almoçam junto com o pai, que hoje em dia namora Maíra, uma menina décadas mais nova que ele.

Fuga

Era com ela que Oscar estava quando foi decretada sua prisão, logo após a queda do avião da TAM. Segundo ele, era uma noite como qualquer outra e ele estava em seu flat. “Liguei pra Maíra e disse: vamos pedir para vir uma amiga minha aqui? Vamos fazer uma festa a três?”. Quando pegou o celular para ligar para a tal amiga, viu um recado do advogado, alertando sobre a prisão. “Nossa! Eu levantei de pau duro e desesperado”, lembra. A partir desse momento, o empresário começou uma seqüência de fugas e disfarces até se entregar à polícia.

Na sua rota como foragido passou pela casa da namorada e sua casa de praia, no litoral norte paulista. Durante esse tempo, Maroni chegou a dar entrevistas para alguns canais de televisão. “Aí me encheu o saco e eu voltei pro meu flat. Tava um saco pra sair na rua, teve um dia que eu saí disfarçado de gay”, relembra, enquanto faz uma imitação do personagem que encarnou para não ser descoberto. Ele ainda revela que esteve muito perto de ser preso, mas se safou ao se passar por deficiente mental para um policial. “O cara olhou eu babando e foi embora”, contou.

Apesar de saber que sua pequena aventura fugindo da polícia pode ser considerada crime, Maroni diz que em nenhum momento quis desrespeitar a Justiça. “Não vou desrespeitar a Justiça porque é a Justiça que me julga”, afirma. Quando cansou do papel de fugitivo, ele se entregou aos policiais e passou 57 dias preso.

Prisão

“Acho que todo ser humano deve ser preso por uma semana para dar valor à liberdade”, profere Maroni. Os dias que passou atrás das grades fizeram ele pensar em muitas coisas da vida — hoje afirma que dá um valor diferente para algumas coisas que antes passavam despercebidas, como tomar café na padaria. Além da depressão, o empresário também se sentia desconfortável com a comida servida aos presidiários, “eu olhava pra quentinha e tinha vontade de vomitar”. Apesar de todos esse problemas, Maroni admite que a estadia no xilindró rendeu boas histórias.

Dentre elas, consta até um problema com as visitas íntimas. Segundo ele, a sua ex-namorada ficou desesperada quando soube da prisão e foi até a delegacia para “consolá-lo”. Resultado: acabou usando a visita íntima com a namorada numa semana e com a ex na outra. “Eu confesso que é um barato, uma fantasia diferente. Depois o delegado soube, cortou [as visitas] e tive que oficializar uma.”

Como a visita íntima era apenas uma vez por semana, Maroni dava um jeito para conter o seu apetite sexual nesse meio-tempo. E ninguém melhor do que ele para explicar como funcionava. “No meio da madrugada você pega uma meia e bota no pau, bate uma punheta e põe embaixo da cama. No dia seguinte você pega aquela meia gozada e leva pra lavar. Isso porque já fechou as grades e não pode ir pro banheiro lavar durante a noite.”

O empresário conta também que a passagem pela delegacia fez com que ele descobrisse que muitos mitos em relação aos presos são mentira. “Esse preconceito que dizem que comem o rabo de preso também é mentira”, protege-se. “Tinha um gay que dormia embaixo da minha cama e ele dizia que tava lá há um ano e ninguém comia ele”.

Intercalando essas histórias com constatações de teor mais sério durante toda a entrevista, , logo em seguida Maroni frisou que foi muito respeitado dentro da cela e mostrou comoção ao falar da situação dos presos. “Não pode colocar esses milhões de seres humanos dentro de um cárcere, onde se fabricam bandidos e assassinos, e depois soltar eles achando que eles vão ser bonzinhos”. Para concluir sua indignação, ele desabafa: “O que mais falta na nossa sociedade é justiça”.

Enemies

Justiça, ao lado de liberdade, é a palavra mais falada por Maroni durante a entrevista. Nos primeiros quarenta minutos dela, Maroni fez um monólogo, na defensiva, ressaltando como a tal justiça esteve bem longe dele nos últimos tempos.

A irônia é uma constante nessas defesas. Seu primeiro alvo é uma matéria do Fantástico em que um anônimo piloto falava que o hotel de Maroni obrigava os aviões que iam pousar no aeroporto de Congonhas a desviarem sua rota de pouso. Irônico, afirmava que, para isso ser possível, ele era mais poderoso que o presidente do Brasil, dos EUA, e completava: “Então, eu consegui, com o meu hotel, reduzir o tamanho da pista do aeroporto em 150 metros. Percebe puta pica grossa que eu sou? Eu sou um pau de provolone!”

O hotel, matéria da reportagem, é o único grande prédio numa região de casas e deve causar estranhamento em qualquer ser humano que passe na região. Porém, Maroni diz que possui a autorização da aeronáutica para a construção do estabelecimento, e que seu problema não estaria ligado à altura mas, na verdade, ao barulho. O que de fato não deve ser um problema: a sensação de dentro do hotel é a de uma sala hermeticamente isolada, em que os aviões passam fora da janela como numa televisão ligada no mudo.

Dentro do imenso hotel, a construção segue parada, causando prejuízos e trazendo ainda mais lamentos ao nosso entrevistado. “Eu sou um homem rico pobre. Eu tenho propriedades, fazenda, moro em cobertura, ando de Jaguar, Mercedez, tenho Jet-ski. Mas isso aqui é a liquidez, e isso aqui está fechado.” Sem titubear, ele elenca o prejuízo que vem tomando com o fechamento da boate e o hotel parado: “Eu tenho 130 empregados que até três meses atrás eu estava pagando o salário. Segundo, você sabe o que cobre um prédio deste tamanho? São 17.000 m², 223 apartamentos. Parado! Então isso está me dando uma situação financeira muito delicada por incompetência do Estado, por falhas de informação do Estado. Hoje eu diria até que não foi nem uma perseguição direta do prefeito [Gilberto Kassab]”.

Sobre ele, Maroni ainda complementa: “Eu diria aqui, sem puxação de saco, que nosso prefeito fez até coisas boas, como por exemplo tirar aí os outdoors. Eu tava vendo na bandeirantes, a cidade tá mais limpa… mas em relação ao meu hotel, à minha boate, ele errou sim.”

Se ao falar de Kassab, Oscar parece moderado, seu jeito de tratar Flavio Lepique, antigo subprefeito da Vila Mariana e figura carimbada na época em que o Bahamas foi fechado, é bem diferente: “ele é moleque, é irresponsável, inconseqüente. Tomou atitudes arbitrárias em relação à minha pessoa.” Não satisfeito, Maroni continua seu ataque. “O senhor Flavio Lepique, que é duma religião evangélica ou alguma coisa assim, declarou que ele é contra a prostituição, que ele não gosta. Tudo bem, respeito o ponto de vista, mas ele tem que respeitar quem gosta. Eu sou a favor de pênis eretos, vaginas molhadas e cada um colocar a boca onde bem entende, no duplo sentido, ou no triplo sentido.”

Mas seu grande karma atende pelo nome de Roberto Cabrini. Reportér da Record, na época ainda na Bandeirantes, ganhou a mesma mídia que cobria quando foi preso por tráfico de drogas neste ano. O problema de Maroni, porém, reside mais atrás: “Uns seis meses antes de cair o avião da TAM, senhor Roberto Cabrini veio me procurar. Aí ele me diz assim no meio da entrevista: é prostituição? Eu digo sim, não vamos ser hipócritas. É prostituição de luxo.”

Foi essa matéria que levou os holofotes para Maroni, ainda antes da época da matéria do Fantástico e, segundo ele, de modo injusto: “Prostituição não é ilegal, mas ilegal é manter uma casa de prostituição. Ilegal é o rufianismo, é a facilitação. Eu disse não, eu não pratico nenhum desses fatos, já fui absolvido dezena de vezes.”

Caráter e influência

Maroni não se cansa de explicar a legalidade de seu negócio. E, as vezes, até a aparente imoralidade dele, coisa que ele nega de forma veemente. “Eu não sou imoral. Eu acho a minha camisa preta mais bonita que a sua verde. Isso não me dá o direito de te cobrir de porrada, arrancar sua camisa verde e por uma camisa preta em você”. É isso que, para ele, é a liberdade.

Para comprovar o seu caráter, ele fala para todos que quiserem ouvir, em alto e bom som, que nunca corrompeu nenhuma autoridade, além de nunca ter se deixado intimar por corruptos. “Todas as pessoas aqui sabem que quando vem polícia, eles querem dar carteirada e entrar de graça, mas eu não deixo, eu não permito isso”.

Maroni revela que já foi católico, mas hoje segue seu próprio tipo de religião. “Eu acredito que existe um certo grau de evolução. Eu digo: me diga sua religião, e eu te digo em qual grau de evolução você está”.

O controverso escritor americano Henry Miller influenciou profundamente a vida do empresário. Tal qual Maroni, Miller ficou famoso ao falar de assuntos sexuais. As obras dele foram banidas de vários países sob a acusação de pornografia. Ele foi o autor da trilogia Sexus, Plexus, Nexus, que chamou de A Crucificação Encarnada. Como nos outros livros, esses romances narram trechos de sua própria vida, embora ele negasse. Além do autor americano, Maroni conta que outra parte importante para decifrar esse quebra-cabeça da formação do seu caráter são os estudos sobre a vida do naturalista Charles Darwin e do filósofo Friedrich Nietzsche, que têm feito ele repensar muitas coisas sobre a própria existência.

Futuro

E é justamente para essa existência que ele busca novo motivo. “Eu lembro que no dia 7 de setembro, durante a madrugada, em cima de um colchãozinho de 3 cm, eu decidi que iria me candidatar a um cargo público”. Petista de coração, sabia que seria difícil trilhar uma carreira de sucesso dentro de um partido tão grande. Filiou-se a uma legenda de menos fama e mirou seu foco na prefeitura, mas logo se desiludiu e agora sonha em um cargo menor.

Mesmo que não consiga realizar seu objetivo a curta prazo, Maroni tem outras metas traçadas para o seu futuro. “Se eu não entrar nesse pleito político agora como vereador, eu pretendo um cargo político futuro. E nesse espaço de tempo eu quero um programa de televisão. Eu quero ser o Michael Moore do Brasil!”, revela o empresário, se comparando ao documentarista norte-americano famoso por suas polêmicas. E para aqueles que acham que ele está apenas brincando, o programa já tem até nome: Oscar Maroni, o comprador de corruptos. Nele, o astro do show tentaria comprar os mais diversos tipos de profissionais para depois denunciá-los ao Ministério Público. Resta agora esperar para ver se o dono do Bahamas conseguirá, enfim, moralizar a política e a mídia nacional.


Disk-puta

Por Cinthia Toledo

“Luana – loira gostosa com peitão. 1,65 de altura, 58 kg de muita gostosura. Faço todo tipo de serviço. Preço a combinar.” Esse era o anúncio, até que discreto se comparado aos demais, da Luana em um orelhão da Praça da Sé.

Ligo para ela numa manhã de sexta-feira, às 10h45 da manhã. Ela atende com voz de sono. “Oi, queria chamar você para animar a despedida de solteiro do meu noivo”. Ela estranha. “Você é a noiva dele?” “Sim”, eu respondo. “Onde e quando?”, pergunta em um tom de mau humor.

Percebo que assim que eu der o endereço e negociar o valor, ela vai desligar sem me dar chance para saber mais de sua vida. Tento, então, enrolar mais um pouco, antes de “chegar aos finalmente”. “Não costumam pedir esse tipo de serviço?”. “Não a noiva. Principalmente porque eu faço o serviço completo. Não sou mulher de só atiçar o pinto, não.” “Mas, como seria o serviço completo?” “Faço o que o cliente pedir. Mas, é claro que o preço varia”. “Varia quanto?” “A senhora vai querer contratar o que, afinal? Não tenho muito tempo para conversar.” “Então, eu queria que você animasse a festa. Mas só isso.” “Posso até fechar assim com você, mas, se chegando lá algum endinheirado, mesmo que seja o seu noivo, quiser algo mais, eu faço. Já aviso logo de cara porque sei o que é uma traição.” Ela começa a se abrir. “Não consigo entender como alguém pode contratar uma prostituta para a festa do noivo. Olha que eu tenho várias colegas que viraram putas fixas de pessoas que conheceram assim”.

“Você já foi traída?”, pergunto. “Peguei meu homem na cama com outra. E tenho certeza de que você também já foi corna. Pode ser que nunca tenha ‘descobrido’, mas que foi, foi. Nenhuma mulher escapa”. “E foi aí que você virou prostituta?” “Não, eu já era. Me prostituo desde os 13 anos, quando meu pai saiu de casa.” “Foi por necessidade, então?” “No começo sim, mas hoje eu não sei se quero outra vida não. É claro que têm uns clientes que é foda. Quando é muito velho ou quando ta bêbado, eu acho pior. Tem hora que dá nojo, mas você acostuma.” “E por que você não sabe se quer outra vida?” “Apesar ‘das confusão’, principalmente com polícia, que às vezes têm, o dinheiro é mais fácil. Por exigência de um namorado, larguei uma vez, virei vendedora no Brás. O salário não era nem metade do que eu consigo agora”.

“Você tem namorado?” “Hoje, não. Mas o povo pensa que puta não namora. Namora, sim. Mas nem sempre tem respeito”. “Do namorado, você diz?” “É”. “E seus namorados você conhece onde?” “Ué, em qualquer lugar. Onde você conhecesse os seus?”, ela devolve para mim.

A essa altura, já pegamos certa intimidade. Resolvo perguntar sobre seus relacionamentos. “Mas, quando você namora, como faz com os seus programas?” “Os meus programas ‘é’ o meu trabalho, não tem nada a ver.” “Mas, os caras entendem?” “A maioria, não. Por isso que agora eu tô sozinha. Tem cara que faz a gente largar. Mas eu só largo se ele me sustentar. De homem a gente não pode ter dó. Nem um por um segundo. É só virar as costas…” “Você me parece bem leal às mulheres”, digo a ela. “E sou mesmo. Depois que uma me fudeu, eu fiquei assim.” “Você sabe quem é a mulher?” “Uma vaca aí. Tenho que desligar agora. Afinal, mocinha, você vai querer ou não o programa?”

Penso em falar a verdade, que é um trabalho de faculdade e tal. Mas, temo pela reação dela. “Não, não, acho que é melhor não. Mas obrigada pelo seu tempo e pelo papo”, digo. “Você me pegou com tempo. Geralmente, não dou mole assim não. Valeu. E se tiver alguma amiguinha, estamos aí, é só avisar.” “Você atende mulheres também?” “Pagando… Valeu, tchau.”

Valeu mesmo. O “disk-puta” pareceu mais um “disk conversa” para mim. Fiquei depois me perguntando se ela teria com quem conversar aquelas coisas. Mas, depois me dei conta de que, na verdade, ela já não está muito aí para as coisas. Parece calejada pela vida. Mas, mesmo puta, mantém valores. E amores.


Bruna Surfistinha na marola…

Por Giovana Romani

Raquel, 23 anos, poderia ser sua vizinha. Simpática, bem-educada e inteligente mora há três anos com o namorado em Moema, bairro nobre da capital paulista. Estudou em colégios de elite e tem um português impecável, falado com cuidado redobrado durante uma entrevista. Acabou de ler Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva, e adorou. Só não gosta mesmo do gênero auto-ajuda. Dorme tarde – nunca antes do Programa do Jô – e acorda razoavelmente cedo, lá pelas 8h30 da manhã. De seu escritório responde uma média de 70 a 80 e-mails por dia. É de lá também que acompanha o lucro dos três livros já publicados por ela e negocia a venda dos direitos autorais de sua história para 12 outros países e até para o cinema. Não fosse pela superexposição de Raquel Pacheco em tudo quanto é programa de TV e do fenômeno editorial que ela se tornou, você provavelmente jamais desconfiaria de que aquela sua vizinha um dia foi Bruna Surfistinha. Até hoje, a prostituta mais famosa do Brasil.

Tudo começou pra valer quando Raquel tinha 17 anos e fugiu de casa depois de uma série de desentendimentos com os pais conservadores. Sem ter para onde ir, entrou em um bordel e lá ficou por um ano. Na verdade, as aventuras e desventuras sexuais da moça foram iniciadas antes. Aos 14 teve de sair da escola porque ficou com fama de puta. É que ela fez sexo oral em um colega numa rua sem saída próxima ao colégio e todo mundo ficou sabendo. “Ninguém mais falava comigo, parecia que eu tinha matado o menino”, lembra. “O que me consola é que quem falou mal de mim na época deve agora fazer muito sexo oral. E adorar.” Foi assim que, sem ligar para barreiras ou constrangimentos, Raquel tornou-se Bruna. Os longos cabelos dourados e o corpo bronzeado pelo sol do Guarujá renderam à menina, que nunca pegou uma onda sequer, o “sobrenome” Surfistinha. Ela não se faz de rogada. Garante que sua curta carreira como garota de programa, dos 17 aos 20 anos, não foi difícil e sofrida como manda o clichê. “Uni o útil a agradável. Se eu não cobrasse, seria uma galinha que dava para todo mundo por aí”, diz.

E olha que se tem uma coisa de que ela entende é unir o útil ao agradável. Já recebendo clientes em um flat passou a fazer um banco de dados com o perfil dos homens que a procuravam. Além de itens básicos como idade, estado civil e tipo físico, descrevia o desempenho de cada um deles. Não tardou para começar a despejar essas informações em um blog, virar hit da Internet e… Bem, como não é novidade para ninguém, o blog rendeu o livro O Doce Veneno do Escorpião, lançado em 2005. As relações detalhadas com “uns 3000 homens” e o completo despudor para falar de todo e qualquer assunto que envolve sexo (dentro ou fora das quatro paredes, com homens ou mulheres, com um ou oito rapazes ao mesmo tempo, romântico ou selvagem) renderam ao título uma excepcional venda de 250 mil cópias. “Muita gente me procura para falar que começou a gostar de ler por causa do meu livro”, orgulha-se.

Bruna é mesmo uma marketeira de primeira. Quando deu os primeiros passos rumo ao estrelato, o preço de um programa com ela subiu de 100 para 250 reais. Com os dois pés no intervalo de tempo conhecido como quinze minutos de fama, resolveu largar a prostituição. “Estava exausta”, conta. “Naquela vida tinha milhares de homens, mas continuava carente.” Chegou a cobrar 500 reais por uma hora ao seu lado no último dia de labuta. Em 27 de outubro de 2005, Bruna voltou a ser Raquel.

Assim mesmo, da noite para o dia, como em um filme. Aliás, a partir do ano que vem sua vida vai mesmo virar um longa, dirigido por Marcus Baldini e roteirizado por Karim Aïnouz. O happy end fica por conta do grande amor, João Paulo, encontrado entre um cliente e outro. O que resta para depois dos créditos: até hoje a ex-prostituta não teve nenhuma notícia sobre seus pais e irmãs mais velhas. “Acho que eles nem me consideram mais como filha.” Já que não tem mais família, vai criar uma nova. “Quero engravidar no ano que vem.” Aproveitando seu know-how, também vai abrir uma butique erótica de luxo no segundo semestre deste ano.

A safada Bruna ainda visita a monogâmica Raquel de vez em quando. Juntas elas escreveram o livro Na Cama com Bruna Surfistinha, lançado em janeiro. Nele, a autora dá dicas picantes para casais que têm relações morninhas. Quer saber algumas delas? Confira na rapidinha (com o perdão do trocadilho) da ex-garota de programa à Babel:

O que você ensina às esposas que pedem seus conselhos sexuais?

Que é preciso inventar coisas, mas não tem que ser nada de outro mundo. Se ela estiver dirigindo o carro, por exemplo, pode entrar no motel sem falar nada para o namorado. Em casa não dá para transar na mesma cama todo dia. Tem que variar, fazer no chuveiro, no sofá da sala, na cozinha. Outra coisa é criar personagens e variar na intensidade do sexo. Um dia ela pode ser romântica e dar beijinhos. No outro pode ser selvagem e fazer sexo animal.

Você usa esses truques?

Uso, uso sim. Quando eu me prostituia era mais fácil. Os homens mudavam e se eu quisesse podia fazer a mesma coisa com todos eles. As mesmas posições e brincadeiras. Hoje, que sou praticamente casada, tenho que me esforçar para variar mais.

Sexo anal ainda é um tabu para os casais?

Sim. Mas aí a culpa é do homem e da mulher. Eles têm que ter paciência, não é da primeira vez que vão conseguir. Eu não tive problema porque minha primeira na vida vez foi com sexo anal. Já as mulheres precisam abrir a cabeça, não é um monstro. Pelo contrário, é muito bom. E elas precisam lembrar que o que o marido não acha em casa, vai procurar na rua. Principalmente nas prostitutas.

Como é essa história da sua primeira vez ser com sexo anal?

Eu tinha uns 15 anos e minhas amigas falavam que transar doía muito. Aí pensei ‘bom, vou experimentar por trás então’. Achei que doeria menos. Ledo engano.

Tem alguma coisa que você fazia como prostituta e não faz como namorada?

Ai, tem várias. Fazer papel inverso é uma delas. Não curto ser o homem da relação, não tenho um pênis. Quando isso acontecia brincava que eu não tinha sido a Bruna aquela noite, mas sim, o Bruninho.

E seu namorado nunca te pediu isso?

Não e se ele me pedisse eu ia achar muito estranho. Não é preconceito, cada um tem sua fantasia. Mas que é estranho é.

E os apetrechos, como os que você venderá na sua butique erótica, funcionam mesmo?

Muito, uma novidade é uma calcinha com um minivibrador que fica bem na região do clitóris e é comandado por um controle remoto sem fio.

Você já usou essa calcinha? Como foi?

Já fui até para a balada com ela. O homem fica totalmente no controle da situação. Ele pode te encher de tesão no meio de todo mundo, sem ninguém perceber. É uma cumplicidade dos dois. O vibrador só liga e desliga quando ele bem entender, e pode ser naquele momento ótimo para a mulher. Afinal, os homens adoram dominar e ficar no controle da situação.


Todos os segredos merecem ser descobertos

Por Bárbara Matte

Há muito tempo, em uma rua lotada de pessoas nas imediações da 25 de março, uma amiga se deslumbrava em um loja de “artigos esotéricos”. “Vou levar esse disco. O que você acha?”. Era um disco de um grupo que se intitulava “Krishna Das”. Com o conhecimento que tinha na época, supus que era algo Hare Krishna, doutrina da qual eu só ouvira falar e que de pronto associamos a pessoas vestidas de laranja que tentam nos convencer a nos livrar de nossos bens materiais. Com essa imagem do “exótico que desperta o fascínio e constitui uma alternativa ao nosso modo de vida”, acabei convencendo-a a comprar o CD. Assim que chegamos em casa, colocamos no rádio. Eram o que eu achava que seriam mantras (aliás, o que são mantras?) talvez escritos pelos integrantes do grupo, ou talvez célebres entre os Hare Krishna, ou talvez alguma outra coisa que não podíamos, naquele momento, supor. Apenas ouvimos o disco ininterruptamente sem saber que língua era aquela ou do que se tratava. Levei o disco emprestado e ouvi tantas vezes que seria capaz de reproduzir o que escutei. Apenas reproduzir como um papagaio, sem juízo, sem reflexão, sem consciência. Depois de um tempo, enjoei daquelas “músicas” e troquei o disco por um outro qualquer, de um músico qualquer, de um país qualquer.

Anos depois, me vi diante daquele disco de novo, agora no formato uma fitinha k7 que eu nem lembrava quando havia gravado, jogada no meio de tantas outras. Coloquei no aparelho e o som saiu falhado, problema da mídia ou do aparelho? Aquele compartimento de fita não via uma mídia há décadas, bem como aquela fitinha não tinha tido a chance de falar em muito tempo. Não me importei e apenas deixei tocar, com as falhas irritantes que me impediam de ouvir com clareza. Mas por que me preocupava tanto em ouvir aquilo se nem ao menos eu sabia sobre o que versava? Talvez por causa do ritmo, ou então por causa das repetições constantes que produziam uma sensação de frenesi intensificada pelas batidas, pelas palmas. Logo eu não sabia o que sentir ou como me sentir diante daquilo e me envergonhei da minha ignorância. Era como uma daquelas pessoas que tatuam o símbolo do om porque acham “espiritual”. Como quando estive em estúdio de tatuagem por motivos que não recordo, e vi tatuado no pé de uma das pessoas que esperavam na fila, o dito símbolo do om – que alguém uma vez descreveu como “tipo um 3 mais cheio de enfeites” – ao contrário. Estava espelhado! A vergonha me invadiu novamente. Não pelo símbolo do om ao contrário, mas pelo fato de eu saber que era o símbolo do om e não saber o que era o bendito om!

Em vez então de contemplar minha ignorância ou simplesmente empurrá-la para debaixo do tapete, resolvi que o certo seria tentar descobrir do que se tratava. Meu primeiro passo foi, então, procurar na internet. No entanto, em pouco tempo descobri que não era uma boa idéia. O fato é que eu não sabia absolutamente nada sobre o assunto, e portanto, ficaria vulnerável a qualquer porcaria que eu lesse. Se alguém dissesse que om é um som que remete ao som que Deus fez quando sentiu a energia cósmica que o invadia na criação do mundo, eu acreditaria. Infelizmente, quanto mais eu buscava, mais confusa eu ficava. E mais a desconfiança aflorava. O que eu precisava era de fontes confiáveis, de pessoas que respeitassem a cultura de que falam e que por isso se importassem em transmiti-la de forma fidedigna. Não conseguia pensar em outro lugar que não na universidade. Felizmente, para nossa sorte, existe um departamento de Sânscrito na USP. Logo pensei em me inscrever em uma das matérias oferecidas naquele semestre. “Literatura Sânscrita Épica”. Eu não tinha a menor idéia do que me aguardava, mas tinha a esperança de que, finalmente, obteria respostas.

Esperando o início do semestre, retirei da minha estante um livro, que como aquela fitinha, permaneceu ali jogado, esperando o momento certo para ser lido. Pertencia à minha mãe (e que passou a ser meu porque ninguém estava interessado em ler). Estava velho, embolorado e certamente ganharia o prêmio de uma das piores edições já realizadas pela humanidade (esteticamente falando…)! Não tinha orelha, por exemplo. Então, os textos que deveriam estar impressos ali, estavam no verso da capa. Sem contar que foram impressos de forma torta! A “tortice” da impressão se repetia por algumas páginas adentro e, depois de um tempo, a gente acabava se acostumando com ela. Mas o que mais despertava surpresa, era a capa. O título no topo escrito da seguinte forma “Hesse/Sidarta”. Bom, na época em que minha mãe comprou o livro (ela mesmo escreveu “julho/79”), Hermann Hesse era tão popular quanto os Beatles e talvez, essa forma de colocar o título não gerasse confusão. Mas hoje, não sei se teria o mesmo efeito… Além disso, a foto de um “homem indiano” com um fundo azul chapado não era exatamente o que se chamaria de “bonito” ou “atraente”. Apesar dos esforços em afastar leitores, aquele livro sempre teve a minha simpatia. Desde criança, o olhava na estante, meio sozinho, meio empoeirado na última prateleira, deslocado entre os outros títulos aparentemente mais palpáveis como O Despertar dos Mágicos ou A Ciência dos Cristais, que mesmo sendo mais convidativos (pelo menos entendíveis a uma criança, pelo menos em português!), não me chamavam a atenção como aquele. Certo dia, o peguei nas mãos, com um pouco de receio, porque era estranho. Não tinha flores na capa, não tinha um desenho. Eu me propus a ler algumas vezes, mas como quem prova uma comida que não gosta, jogava-o de lado depois de um ou dois parágrafos. Até que, anos depois, muitos Hesse’s depois ,pareceu chegada a hora de descobrir, afinal, quem era o tal do Sidarta que dava nome ao livro. Quanto mais eu lia, mais compreendia porque não o tinha feito quando criança: porque não era pra criança.

A história, contada de um jeito que só o Hesse sabe contar, continha muitas referências ao mundo indiano, ao modo de vida indiano. E, conseqüentemente, termos que só diziam respeito à cultura indiana. Dentro ou fora do contexto, quase incompreensíveis a uma ocidental leiga como eu. Por mais que o Hesse tivesse tentado passar a idéia, aquilo continuava intangível. Dúvidas brotavam em minha mente, ainda que mascaradas pela forma envolvente como a narrativa era levada. Soma-se a isso o fato de a edição não possuir “notas do editor” suficientes, mantendo o ar misterioso com o qual ela, a edição, teimava em se apresentar. No entanto, isso não me impediu de chegar ao final e descobrir que eu poderia entender a história, mas não como deveria. Deixado novamente de lado, o livro ficou em cima da bancada ao lado de muitos outros que eu chegava a pensar, estavam ali apenas pra fazer volume ou para dar dinamismo ao quarto.

O semestre finalmente começara e eu, graças a uma maravilhosa dor de dente ocasionada por um siso (que só servem para enriquecer dentistas), acabei perdendo as duas primeiras aulas de “Literatura Sânscrita Épica”. Assim, na terceira aula do curso, e a primeira a que eu assistia, me senti a pessoa mais deslocada do mundo! Não era mais a internet com suas mentiras disfarçadas de verdades, não era mais o om ao contrário no pé de um sujeito, nem o livro do Hesse, nem a fitinha em petição de morte do Krishna Das. Índia Védica e Bramânica. A palavra “védica” me era familiar porque, há algum tempo, existia em um shopping qualquer, uma banca de cosméticos que se diziam feitos com base nos princípios ayurvédicos (que mais tarde eu descobriria serem os princípios da medicina indiana dos tempos védicos). Mas eu sabia tanto quanto uma barata o que significava “védico” ou mesmo “Veda”. Tive uma reação de desespero inicial, aquelas palavras em sânscrito (mesmo que transliteradas), termos que encerravam significados diversos, sociedade sagrada. Era muito para minha pobre cabeça cartesiana! A filosofia ocidental, que é responsável pelo nosso modo de pensar, nada tinha em comum com a “filosofia” indiana! Eu estava sendo obrigada a abandonar os princípios básicos que regiam a minha vida, pelo menos por alguns instantes, para pensar do modo indiano. Pra dificultar ainda mais, a Índia antiga não contém qualquer tipo de registro histórico. Não porque se perderam, mas porque foram negados! A história da Índia é a que está escrita nos textos sagrados (afinal, são textos revelados). Apesar disso, há muita gente que está tentando escrever essa história, que está sempre sujeita a modificações.

Eu imaginava meus olhos se arregalando cada vez mais enquanto eu me esforçava em acompanhar o andamento da aula. Idéias muito inovadoras pedem certo tempo de reflexão. Entendi que a Índia antiga era dividida em Védica e Bramânica. Como já dito, “védico” vem de “Veda”. Certo. O que são vedas? Na aula, eu não pude descobrir. Quer dizer, dava para deduzir que eram escritos, só não dava pra saber qual o seu teor, ou seu significado. Para a minha salvação, havia um livro que eu tinha comprado, um ano antes, e que ainda estava no plástico na mesma bancada bagunçada em que se encontrava o Sidarta. Um livro pequeno, A História das Religiões – Índia e Extremo Oriente. Assim que o livrei de sua prisão, fui direto ao sumário e uma imensa onda de alegria se espalhou pelo meu corpo: o primeiro item era “Hinduísmo”, seguido dos subitens “Introdução” e… “A sabedoria antiga do Veda”. Até esse momento, eu não sabia que autores poderiam me ser mais úteis, que livros seriam os mais indicados, afinal, não é só na internet que existem informações duvidosas. Mas tive sorte. Com o correr das aulas e nas leituras dos textos complementares a elas, eu viria a descobrir que o livrinho era mesmo confiável. Talvez uma escorregada ali ou aqui, mas confiável. Também não dava pra exigir aquela exatidão, porque o livro era um resumo e que se propunha didático. Veda é, em termos bem gerais, uma coletânea de textos que guardam a sabedoria, a maneira de vida que regia aquela época. Existem quatro Veda sendo o Rigveda, o mais antigo de todos, que foi considerado durante muito tempo, fonte mor de inspiração sacra. Os Veda eram lidos e estudados por uma casta privilegiada da sociedade, a dos sacerdotes, que tinham obrigação de conhecê-los.

Até aí, tudo bem. Mas ritual? Sacrifício? A mente ocidental logo pensa em cerimônias estranhas com propósitos sombrios. A Índia Védica é basicamente uma Índia ritualista. Acreditava-se que a realização de rituais era necessária para a manutenção da vida. Por exemplo, os rios correm porque os sacerdotes fizeram tal ritual aos deuses que permite que isso aconteça. Isso estava no livro, estava nos textos complementares, mas, por mais que eu lesse, não conseguia entender plenamente. Os termos exigiam um pouco mais de… sensibilidade. Mais tempo para adaptação.

Continuando na tentativa de saciar minha curiosidade sobre os conceitos e sobre as idéias que compunham o pensamento indiano, continuei lendo o livrinho e a freqüentar as aulas. Até que, novamente, me surge um termo que passara desapercebido. Estava no sumário do livro e, como não me interessava na época, eu simplesmente não vi. Tantrismo. Tantrismo? Será que é daí que vem aquela história de sexo tântrico que a gente tanto ouve falar? Que promete milagres? Que promete orgasmos infinitos e conquistas certas? Será? Sim, era isso mesmo. Assim, como om ao contrário no pé do cara e a fitinha do Krishna Das, era um termo que se perdia no meio das releituras (pra não dizer outra coisa) feitas pela sociedade ocidental acerca de outros mundos. Eu nem sabia que existia algo como “Tantrismo”. Uma doutrina religiosa! Não era então um manual de posições eróticas parecido com aquelas revistas de baixa qualidade que vendem a granel nas bancas. Ou ainda, nada que fornecesse dicas para “uma noite quente” em outras publicações. “Como enlouquecer um homem na cama em 10 passos” e coisas do gênero. Para minha infelicidade, eu não encontraria informações sobre Tantra em um romance singelo… Era algo que me pareceu muito sério, alicerçado em conceitos que remontam aos Veda, e às Upanishads, e ao Budismo, e a tanta coisa que eu já me desesperava em pensar de que modo reuniria as informações necessárias… O livrinho dedicava poucas páginas à explicação do Tantrismo e essas não eram das mais animadoras. Passagens em que se dizia que era uma doutrina obscura, quase secreta e sobre a qual quase nada se sabia permeavam o texto e traziam desespero. Novamente!

Mas, me controlei. Não era o fim do mundo. Como eu disse, o livro era só um resumo! Tinha que existir alguma publicação mais específica e ninguém melhor que o pessoal do Departamento de Sânscrito para me indicar algumas. Em um primeiro momento, achei que fizesse parte das Letras Orientais, mas não. Era parte do Departamento de Letras Clássicas! Não era exatamente um departamento, era uma sala. No final do corredor mais frio, estreito e gélido da FFLCH. Era uma quinta-feira e os dois únicos professores responsáveis estavam lá. Expliquei a situação e eles me indicaram uma lista de livros que seriam fáceis de serem encontrados. Pois é… Não foi nada fácil! Comecei pelas bibliotecas da faculdade e… havia um livro da lista que se apresentava como um breve história da literatura tântrica. Ele podia ser muita coisa, menos breve. Tinha 600 páginas além de ser em inglês! Não haveria tempo hábil pra ler o livro inteiro e com a atenção necessária. Se eu não conseguia assimilar os conceitos em português, imagine em inglês! Mesmo depois de consultar o catálogo e de descobrir que autores da lista não estavam nas estantes, fui para a biblioteca. Quem sabe eu não achasse no meio daqueles livros algum que pudesse dar uma pista, uma luz! Mesmo que fosse só uma citação! E fui retirando o máximo que podia das estantes, folheando um a um. Acabei me deparando com livros em sânscrito com algumas coisas em inglês no meio e pensava “se eu soubesse sânscrito…”, como se fosse espanhol ou como se existisse no jornaleiro “Sânscrito em 10 dias”.

Passei a procurar nas bibliotecas do Estado usando o catálogo on line. A maioria dos livros era em inglês, um ou outro em francês e quase nada em português. Tentei, então, buscar pelo título dos livros e novamente… nada! Comecei a entrar em desespero pela milésima vez nessa história! Tentei pelos autores, afinal, se estavam na lista, eram confiáveis. Julius Evola. Nada. Tara Michael. Nada também. Os com nomes indianos só procurei por desencargo de consciência… Achei um em espanhol do Arthur Avalon, que parecia bastante… revelador! Infelizmente, não circulava e realmente não teria tempo de passar tardes em uma biblioteca… Até que apareceu um, Mircea Eliade. Não o livro de que eu precisa, mas pelo menos, era alguma coisa. Como o site mantinha um mecanismo de busca que incluía também “por assunto”, resolvi arriscar e digitar “Tantrismo”. Nem precisa dizer o que não apareceu…

História das Idéias e das Crenças Religiosas. Na biblioteca do Estado, encontrei mais de uma edição do II volume, de Gautama Buda ao Triunfo do Cristianismo. Claro que descobrir a localização do livro dentro da biblioteca facilitaria a minha pesquisa porque o que me interessava também eram os livros que estariam em volta e que tratariam, muito provavelmente, do mesmo assunto. Foi certo. Outros livros! Comecei a abrir um por um, procurando no sumário ou alguma foto, sei lá. Qualquer coisa. Cheguei a tentar ler um em francês que estava por ali, mas meu conhecimento não vai muito além de croissant, soutien. Mesmo assim, dava pra deduzir algumas coisas. Parecia ser um livro que tratava de rituais. O que era muito interessante, mas… Enquanto lia o que podia, lembrei que no livrinho havia algo que associava as posições de Hatha-Yoga ao Tantrismo. Parece que faziam uso das posições da Hatha. Eu já estava na biblioteca mesmo, achei que seria uma boa idéia ir à seção de yoga (será que existiria tal coisa?). Nem pensei em perguntar a um atendente, logo fui pro catálogo escolher algum que tivesse “yoga” como título apenas pra poder saber onde era a seção e novamente, dar uma olhada nos livros que tinham ao redor.

Não lembro exatamente o que escolhi, mas cheguei onde queria. Pra minha sorte, um grande livro em que se lia “Hatha-Yoga” na lombada se destacava na prateleira. Tão velho e maltratado que cheguei a pensar que talvez fosse um manuscrito original. Era em português, felizmente. Comecei a folhear como havia feito com os outros. Mas aquele livro era diferente… Umas fotos coloridas estranhas. E ainda com temática sexual. “Caraca, encontrei! Não sabia que a ligação era assim tão direta que eu já fosse achar no primeiro livro que abrisse!”. Depois desse lapso, percebi que aquelas páginas não faziam parte do livro. Alguém tinha colocado aquelas imagens agradáveis ali. E não eram poucas! A cada umas 20 páginas, me surgia um negócio daquele. Até um conto pornô tinha lá dentro! Eu comecei a ler, mas logo perdi o interesse… E ainda eram umas imagens da década de 80! Será que aquele livro era tão impopular que ninguém o pegou desde àquela época? Folheei o máximo que pude, mas não havia nada lá (quer dizer, sobre Tantrismo, né). Queria levar comigo, mas novamente eu estava diante de um livro que não circulava (dava pra perceber que não…).

Voltei insatisfeita, quase desistindo. O livro do Eliade era fantástico, mas não trazia informações profundas sobre o Tantrismo. Olhei a lista novamente como que se em um passe de mágica eu pudesse retirar os livros dela… Um deles me chamou mais a atenção. O Tantrismo, era da Martins Fontes. Se existia algum livro que eu precisava ter em mãos, era aquele!  A data de publicação era 1986. Achei que não o encontraria, mas resolvi ligar em umas das livrarias da editora. “Esse livro está esgotado. Era de uma série chamada Oriente Secreto”. “E não existe nenhum meio de eu consegui-lo?”. “Só em sebo mesmo”. Procurar livro em sebo é tão difícil como agulha no palheiro. Se é um “pop”, tudo bem, mas aquele livro não exatamente o que se chamaria de “pop”. Liguei para os que eu freqüentava, na João Mendes. “É O Tantrismo. Separado!”. O medo que eu tinha de alguém escrever “otantrismo” e por causa disso, eu acabasse perdendo uma chance. Não consegui. Agora, estava a ponto de desistir mesmo. Mas… pensei em outra estratégia. Talvez eu conseguisse baixar algum trecho de livro da lista pela internet! Mas logo me veio na cabeça “quem ia ficar se preocupando em jogar um livro desses na internet?”. Eu tinha que tentar. Logicamente, não consegui nada. Tentei procurar então por sebos que mantinham catálogos virtuais. Minha última cartada. E foi um flash! Nem acreditei quando encontrei! Lá estava no catálogo de uma O Tantrismo, 12 reais. Era um domingo. Eu entrei em polvorosa! Eu mandaria vir aquele livro de qualquer lugar, até da China (ou da Índia), se preciso! Mas não precisei fazer isso, a livraria era bem perto da minha casa até. Peguei o telefone pra reservar a maldição, não poderia deixar que ele fosse vendido! Aquele livro era meu por direito! A loja fecharia às 17h. Eram 16h55min. Pensei “o vendedor vai me odiar… mas e daí? Eu preciso desse negócio!”. Liguei. “Deixa eu verificar se ele está aqui e já retorno”. Pronto, ele não vai retornar! Está quase na hora de fechar! 17h10min, 17h20min…  Eu vou acampar na porta desse lugar! 17h30min, o telefone toca. Nem acredito! Isso é que é atender decentemente! “Ele está aqui! Tão novo que parece que nem foi lido!”. “Moço, guarda pra mim! Eu estou que nem louca atrás disso!”. “Pode deixar. Vou colocar aqui no caixa com o seu nome. Esse livro é raro, hein. Chegou sexta na minha mão”. Ou seja, se eu tivesse procurado na internet na quinta, dia em que fui à biblioteca, não o encontraria no catálogo da loja.

Segunda costuma ser um dia particularmente cheio. E naquela segunda não foi diferente. Eu só consegui pensar em buscar o livro lá pelas cinco da tarde, o que significa só uma coisa: trânsito infernal. Mas, o que se pode fazer? A livraria ficava em Moema e eu precisaria pegar apenas um ônibus pra chegar até lá. Um ônibus e algumas horas de engarrafamentos. Ele tinha me passado o número da loja e me atentou para o fato de que havia duas nessa praça, uma em cada extremo. E que a dele ficava do lado… esquerdo ou direito? Direito de frente pra avenida ou de costas? Eu não lembrava mais! Apenas arrisquei qualquer uma das duas. Como manda a lei de Murphy, entrei na errada. E cheguei já perguntando do livro que estaria no caixa! Momento de vergonha total. Atravessei a praça a passos rápidos. Ao chegar à dita loja, corri para o caixa e lá havia muitos, mais muitos livros embalados com o nome de muitas pessoas que como eu, talvez, tinham ligado em desespero. E a moça não encontrava o meu. Ela foi tirando, puxando e nada do meu aparecer! “Você tem certeza que ele disse isso?”. Claro que eu tinha! Depois de um tempo, ela encontrou. Ele era bem pequeno mesmo, por isso havia ficado escondido debaixo dos obesos. Tirando o fato de haver um amassado profundo na lombada, o livro estava em muito bom estado. Mal sabia que estava prestes a ler um dos livros mais estranhos que já tive em mãos…

Finalmente… Tantra!

O Tantrismo, de Jean-Michel Varenne. Dando uma folheada por alto, percebo algumas ilustrações nem um pouco chamativas, até mal feitas às vezes. Mas eu não estava interessada nas figuras, e sim no que aquele livro poderia acrescentar ou esclarecer. Na verdade, ele não trouxe tanta luz quanto eu esperava e, em alguns momentos, chegou a confundir mais ainda! Começa tentando montar um quadro do que seria o Tantrismo hoje, que me pareceu de início o discurso de uma pessoa muito revoltada com as distorções que o ocidente faz quando se trata de assunto. Logo eu descobriria que essa revolta não se restringiria apenas ao primeiro capítulo… Como boa parte das palavras sânscritas, “tantra” não é uma palavra que guarde um sentido único. Em uma tradução literal, significa “prática”, mas com o tempo, passou a se relacionar com o compêndio de textos que regem o Tantrismo. De acordo com Varenne, “o tantrismo promove uma via espiritual revolucionária; em vez de negar ou fingir ignorar os impulsos sexuais, ele os enaltece e os proclama como a mais bela e mais alta expressão da energia divina”. O fato é que, até então, eu tinha me esforçado pra entender que o pensamento indiano predominante nesse período tão fértil era a tal “negação do não-ser”. De acordo com o pensamento indiano hinduísta, tudo que pensamos que somos, na verdade, é o não-ser. É mais simples do que parece! O ser simplesmente é, ou seja, não precisa de complementos. Portanto, corpo, mente , tudo isso é desnecessário e nos afasta ainda mais do verdadeiro ser, que recebe o nome de “átman”. Alcançar o átman significa unir-se ao todo, ao Absoluto sagrado (o “Brahman”. O átman é o Brahman que reside em cada um), alcançar a plenitude! De repente, aparece uma prática que muda tudo, que contesta tudo, que subverte essa ordem… Nega a organização de castas, enaltece a mulher e valoriza o mundano como forma de libertação!

O tom de revolta e indignação que se sobressaía em uma passagem ou outra do livro me fazia crer que era quase impossível não soltar uma risadinha, por menor que fosse, ao lê-lo (Varenne desejando minha morte ao saber disso…). O motivo maior da insatisfação do autor é a suposta constante deturpação que os ocidentais fazem de umas das linhas do Tantrismo (como se não bastasse, ainda existiam duas tendências no negócio), no caso, a via da mão esquerda. A via da mão direita propõe o alcance da libertação através da retidão e do yoga. Já a da mão esquerda, possui outros meios…

Mas vamos por partes. No Tantrismo, se realiza o chamado culto à Deusa (que sempre existiu na Índia, mas que depois do surgimento dos Veda, havia sido colocado em certa marginalidade por se considerado pela cultura dominante uma louvação errônea. Esse culto se repopulariza nos séculos VI d.C., mas esteve lá… desde de antes de Cristo). Existiria uma energia denominada çákit (shákit) que seria a motivadora da existência do cosmo. Essa energia assumiria a forma de uma Deusa, alvo de muitos cultos, e teria se originado dos próprios deuses. Essa energia também é representada por uma serpente que ficaria enrolada na base da coluna vertebral, entre a genitália e o ânus. A idéia é acordar essa serpente e fazer com que ela ascenda pela coluna vertebral girando todos os chakras. Começou de novo! O que são chakras? A mesma história: uma mesma palavra carrega mais de um significado. Chakra, literalmente, é “roda, lótus”, mas são também centros energéticos alinhados ao longo da coluna vertebral. Os chakras giram em sentido horário e anti-horário. Dependendo do modo como giram, dispersam ou concentram a energia. A passagem da Kundalini, a serpente adormecida no primeiro chakra, o muladhara chakra, na base da coluna (aquele mesmo entre o ânus e a genitália), giraria todos os outros em sentido anti-horário e faria suas pétalas se levantarem (cada chakra possui uma cor, um número de pétalas e influencia em determinada atividade. O muladhara chakra, por exemplo, coordena funções do olfato e o poder da palavra).

Daí, temos duas vias para promover do despertar de Kundalini: a que usa o yoga e a que usa o “sexo”. Na verdade, nesse momento me surgiram diversas dúvidas e o livro não dava conta respondê-las. O Tantrismo se apresenta como uma via revolucionária, que vê na corporeidade das coisas as vias de libertação, que vê em tudo que o Vedismo condenava – álcool, sexo, carne – as verdadeiras formas de se obter libertação. Como poderia existir uma prática yóguica no meio disso tudo se o yoga proclama a abstinência e a retidão?… Eu não sabia mesmo mais o que pensar. Os adeptos da mão direita, a via da yoga, proclamam “Que necessidade eu tenho de uma mulher exterior? Eu tenho a mulher em mim”. Essa mulher seria a shákti que, quando despertada, suprimiria qualquer tipo de experiência comum. O despertar viria da retidão?

Já a linha da mão esquerda, proclama “Não possuirás a mulher amada”. Ou seja, fazer com que a shákti realize núpcias com Shiva numa espécie de reencontro através do sexo que na verdade, não seria bem sexo, e sim apenas parte de um ritual. Daí, entra a revolta máxima do Varenne. Essa via é que tem mais facilidade de ser corrompida pelos ocidentais. Não se tratam de “atos ‘primários’ onde prevalece a exigência única de um impulso degenerado”(definição curiosa do autor do que seria o “sexo no ocidente”), e sim de uma união que tem por única finalidade despertar a kundalini e promover as núpcias celestiais entre Shiva e sua Shakti (em um orgasmo cósmico!) que ocorreria no topo da cabeça. Depois dessa união, ela, a kundalini, voltaria pela coluna reorganizando os chakras e tornando o corpo imortal.

O mundo, para o Tantrismo, é uma manifestação do divino, portanto, unir-se a ele, entrar em sintonia com ele é uma forma de alcançar a libertação. Ao contrário do que vêem a Yoga e os Vedas, e as Upanishads, o mundo como obstáculo que deve ser superado.

A via da mão esquerda possui tantos mistérios que talvez não fosse possível compreendê-la também! Essa linha acredita que a liberação da energia da shákti que permitiria a união dos dois mundos (a consciência divina, Shiva, alvo de grande parte dos cultos tântricos, deus da destruição, e o ser divino, a Shákti) seria uma união “sexual” bem sucedida. Essa união seria a parte de final de um ritual que exigiria uma preparação árdua, de talvez anos dos adeptos. O mestre escolhe os envolvidos e, muito provavelmente, eles nunca se verão outra vez. A energia é a própria mulher, a mulher é aqui objeto de veneração. Sendo assim, o homem é o passivo da relação, e a mulher… o ativo. Sim! O homem está mercê dela. O livro traz vários detalhes no mínimo curiosos sobre o ritual que culminaria no que nós, ocidentais, chamaríamos de sexo.

Antes de mais nada, uma pergunta, como saber que linha seguir? Varenne responde que a o adepto não escolhe a linha, é a via que o escolhe… Além disso, ele, o autor, traça perfis! Os escolhidos pela mão direita, seriam seres altamente espiritualizados descritos como “tipos divinos” (não sei o que definiria um “tipo divino”, mas gostaria de saber…). Já os da mão esquerda, são do tipo “heróico” (seja lá o que isso quer dizer…). Uma coisa é certa “as duas vias vão chegar, em princípio, a resultados idênticos: o despertar da Kundalini, domínio perfeito da energia sexual (seja pela abstinência, seja pela prática) e, portanto, o controle do corpo”.

A via da mão esquerda

“Os ocidentais, em geral, se interessam pela segunda, mas os espíritos lascivos tiveram que renunciar às suas pretensões quando da leitura dos textos (tantras)! A via da mão esquerda não é uma orgia de baixo nível, mas sim uma sadhana (prática) muito árdua, de resistência, vedada tanto aos medíocres quanto aos libertinos…”. Isso é o que diz o Varenne, sempre defendendo seu maravilhoso tantrismo… Apesar de sua clara tendenciosidade, ele descreve algumas etapas pelas quais os adeptos dessa via têm que passar. E se for mesmo isso, não é uma prática nada simples.

Primeiro, recomenda-se que os adeptos tenham plena certeza de que querem seguir com tudo isso, afinal, o treinamento que estar por vir não será fácil. Considera-se, então, o termo virya que seria virilidade, que serve tantos aos homens quanto às mulheres. Ser viril é ter força. O discípulo do Tantrismo tem que ser obrigatoriamente viril. Existem também características físicas que devem ser preenchidas pelos que pretendem ser seguidores da doutrina. As mulheres devem ter pele suave, beleza perfeita, corpo saudável, espírito viril e audacioso! E os homens devem ter boa condição física, possuir um membro receptivo e capaz de sustentar uma ereção prolongada (afinal, um ritual tântrico pode demorar).

O ritual tântrico é também chamado de “rito dos cinco M’s” em que temos: Madya (vinho), Mamsa (carne), Matsya (peixe), Mudra (cereal tostado) e Maithuna (práticas sexuais). Somente os iniciados mais experientes podem fazer parte desses rituais.

Maithuna de Varenne

Os mestres prescreviam aos discípulos “preliminares amorosas” que não eram nada fáceis de serem cumpridas. Na realidade, encontro um dilema aqui. Nesse momento, Varenne começa a tratar o ritual como sexo mesmo e no meio, vai jogando o amor. Pelo que eu havia lido até agora, não existe amor, existe um objetivo muito maior que o amor, que seria o retorno ao Uno, ao Absoluto. Mas…mesmo que tudo isso talvez não seja o mais correto, é interessante saber a que nível de complexidade um ritual tântrico poderia chegar.

Preliminares “amorosas”

A partir daí  o livro parece se converter em uma espécie de manual de sexo tântrico e chega a ser perigoso, pois durante toda a narrativa, o autor alerta pra o fato de se realizar essas coisas sem um mestre… Mas tudo vai do fato de quem está lendo acreditar que tudo isso realmente. A energia, o Uno que deve ser alcançado… Eu estava tentando ler tudo isso com o olhar mais cético e analítico possível, mas fica realmente difícil de manter indiferente diante de tamanha…beleza! Sim, eu estava achando aquilo tudo muito bonito, muito atraente, mas também, perigoso.

Só há um dia no mês em que se pode realizar a união tântrica e quem decide é o mestre. E assim, se iniciam as preliminares:

“No começo (cerca de três meses), o sadhaka (praticante) tornar-se o criado de sua amante (há controvérsias quanto ao uso desse termo!): não a toca, mal ousa olhar para ela, dorme ao pé do seu leito. Em seguida ele é autorizado a compartilhar de seu leito, sem ter direito a roçar nela; nos quatro primeiros meses ele dorme à sua direita, nos quatro meses seguintes à sua esquerda. O objetivo desses ritos, que alguns julgarão absurdos ou cruéis, é o de exasperar o desejo recíproco dos adeptos ao mesmo tempo que aguçam  suas percepções , regularizam seus impulsos elementares e depuram seus instintos ‘primários’, dirigindo-os para o ‘alto’…”.

Durante o ritual, deve-se manter a consciência e a concentração, caso contrário, podem ocorrer danos psicológicos e físicos causados pela passagem mal sucedida da kundalini, muitas vezes permanentes…

Parada!

Como uma coisa tão complexa pode ser tão banalizada? A quantidade de cursos oferecidos na internet, de 3 dias a preços abusivos é enorme! Promessas das mais diversas: melhore a relação com sua amada, conquiste novos horizontes. E as perguntas espalhadas por aí! “Será que rola sexo grupal?”. E a melhor de todas, “Manual de Masturbação Tântrica”! Como? Se o negócio prevê que deve haver uma complementaridade?! Logo que dei de cara com essa verdadeira overdose tântrica internética, lembrei de mais uma das colocações de Varenne: “A passividade do homem, tida como condição prévia para o êxito do empreendimento, deveria eliminar um bom número de incautos, tentados a fazer Tantrismo como Jourdain fazia prosa…” ou ainda “Estaria redondamente enganado quem associasse essas reuniões secretas (os rituais tântricos) com as assembléias de debochados descritas pelo Marquês de Sade!”.

O que se passa durante o ritual?

Tantra-loka. Como não rir diante desse nome? Por mais que eu quisesse e soubesse do que se tratava (em termos, né)… me vinha uma vontade de rir! Tantra-loka significa “luzes sobre o Tantra” e é um texto que descreve o que se passaria durante um ritual tântrico. Na verdade, não são os próprios Tantras que dizem isso, mas é uma interpretação. De acordo com o Tantra-loka, há fases durante o ato e a fusão é marcada por dois tempos: quiescência, que é um estágio em que o mundo é evacuado e mergulhas-se no ‘eu’, e o de emergência, quando há o despertar da consciência. Esses tempos se alternariam durante o ritual até a sua conclusão em cada um dos participantes! E mais um manual… A fase final do ritual, segundo o Tantra-loka descrito no livro, “A união é ‘consumada’ no meio de uma imobilidade perfeita de todos os centros psicocorporais. Os limites espaço-temporais se dissolvem, o ‘eu’(átman) se fundiu inteiramente no ‘Eu’(brahman)”. Nesse momento, o homem não pode ejacular. Na verdade, não pode haver liberação de sêmen em tempo algum! A liberação do sêmen comprometeria todo ritual e poderia gerar catástrofes na ascensão da kundalini. O sêmen possui grande energia e como tal deve ser retido dentro do corpo. Essa retenção exige grande esforço por parte do yogi. Exercícios específicos. Daí, depois de tanto penar, finalmente, os adeptos do Tantrismo atingem a libertação…

E então…

Na quinta, véspera da conclusão desse texto, tive uma aula com um professor convidado no curso de Literatura… E qual não foi a minha surpresa ao descobrir que ele falaria muito da Deusa e um pouco de Tantra e… Eu já estava particularmente cansada, mas resolvi que falaria com ele depois da aula. Ele apenas me disse que nunca havia pensado nos Tantras pelo viés do sexo, mas que não se tratava mesmo de algo que fosse melhorar seu casamento ou a sua performance na cama… E que havia alguns textos que poderiam ajudar e… Sim, eu já sabia… Certamente ainda havia muito para descobrir e explicar, mas se há mais segredos a serem desvendados (é certamente há), creio que continuarão ocultos até que alguém os resolva revelar…


As casualidades no sexo casual

Por Juliana Uribe Vélez

O porteiro do hotel entrou rápido no quarto e encontrou-os nus. Dan levantou-se frente a Camila tentado proteger um pouco da vergonha que ela tinha e perguntou ao porteiro o que poderia ser tão urgente para entrar sem bater na porta.

– Vocês ainda não pagaram as cervejas no bar.

Essa resposta fez com que Dan e Camila ficassem mais chocados ainda e continuaram nus, um de frente ao outro, olhando para o porteiro, esperando que ele compreendesse o bizarro da situação e fosse embora, mas ele ficou olhando Camila, até que Dan falou para ele, com força, que era melhor sair e que ele já pagaria as cervejas no bar.

“Nunca transo com pessoas que não conheço, mas a única vez que eu tento, fico nua no meio dum quarto, exposta ao olhar dos desconhecidos”, falava Camila depois que o porteiro saiu e Dan tentava continuar o que eles faziam antes de tão estranha interrupção. Começou a lhe beijar de novo, até que ela esqueceu tudo e terminou o que eles tinham começado no bar do hotel.

Exercício prático

O sexo casual tem agora a força do exercício prático e fora de qualquer compromisso, só é preciso conhecer uma pessoa “gostosa” e que ela tenha a mesma vontade que você, é o sexo a la carte, com a variedade infinita e dentro das possibilidades de cada um.

Depois de uma revolução sexual, onde as mulheres tomaram o controle de sua sexualidade, a idéia de que elas tivessem sexo da mesma forma do que o homens, escolher com quem, de que maneira e onde, virou o novo slogan das revistas tipo Cosmopolitan com suas matérias de “1.000 formas de ter um bom orgasmo”, “Encontra teu ponto G” e tudo relacionado com as possibilidades de um bom sexo sem nenhum compromisso. O sexo para muitas pessoas encontra-se à mesma distância da parada do ônibus e “é ótimo por que ninguém tem que ligar ao outro dia, se não quiser”.

As histórias que surgem depois do sexo com desconhecidos podem se tornar engraçadas como no caso da Camila e Dan, muitas pessoas falam de barulhos que fazem os outros durante o momento do sexo ou dos gostos estranhos até esquisitos que tem essas pessoas que conheceram por uma noite só. “Um cara chorou”, “uma mulher me pediu que lhe chamasse com outro nome”, “ele gostava que transássemos no chão do lado da cama”, são algumas das mais comuns, mas outras pessoas falam de que foram forçadas a fazer coisas que não gostavam, foram maltratadas, ou que o jeito particular de alguém não foi bom e muitas vezes ficavam um pouco chocadas.

A psicóloga Adriana Uribe fala que “cada qual tem seus jogos e sonhos sexuais, e todos são diferentes e é uma sorte conhecer alguém que goste mesmo deles” .

Não para todos

Contra o sexo casual não só existem as reações óbvias daquelas de formação religiosa ou moralista. Também há pontos de vista que se apresentam contraditórios desde a lógica e a prática. A maioria das pessoas que tem sexo casual esquece o uso do preservativo, deixando em risco sua saúde e a de seus companheiros, trabalhando como uma ponte de infecção.

“Esquecem pela rapidez do momento, por não perder a oportunidade e depois começam os problemas”, isto é o que o medico Diego López fala sempre para seus pacientes jovens, “não importa onde nem com quem, é preciso ter sempre um preservativo, ninguém sabe o que vai acontecer”.

“Ter sexo com um desconhecido não me deixa calma, não tenho a confiança para falar o que eu gosto ou como gosto”, “não se tem tempo de conhecer o que lhe dá prazer a outra pessoa”, “fico com medo”, estas são algumas frases comuns para aqueles que não gostam do sexo casual, além de que não se conhece a outra pessoa, dos riscos que se correm e de todas essas histórias onde o sexo foi ruim ou o perigo corrido foi muito intenso.

Anna acordou nos braços de Pierre, ele a abraçava como se fosse seu namorado e ela ficou com a sensação de que tudo isso era demais, tendo liberado outro corpo ainda dormindo e foi para o banheiro, se sentou lá por um tempo e depois saiu rápido para sua casa, não tem que ficar a manhã com um homem com quem não namora.

Ter sexo casual é bom se as pessoas têm bons momentos, se conseguem fazer um bom casal e se não se corre perigo, fazer realidade qualquer fantasia, são coisas que fazem a vida boa, o sexo casual e livre e não pede muito de volta, só é preciso saber-se comportar e não ficar no circulo viciado dos excessos. Todos os dias os jornais e as revistas do mundo light contam os testemunhos de muitas pessoas e suas experiências tendo sexo casual, se fala da falta se compromisso o de a pouca necessidade que se tem agora de fazer coisas de um tipo mais formal, a liberdade que os homens como as mulheres tem de ter uma sexualidade mais própria, e são as rações individuais as que contam no momento de ter sexo, todo depende da personalidade e se as pessoas têm vontade.

Rodrigo acordou num lençol de cores fortes e abraçando uma mulher bonita, que conheceu na noite anterior, bebendo cerveja no bar, ela convidou-o para sua casa. O sexo foi muito bom e acordar ao lado de uma mulher bonita é “a melhor maneira do começar o fim de semana”. Ele tomou uma ducha rápida, se vestiu e procurou uma lanchonete perto, para continuar o dia com um bom café da manhã. Caminhando para sua casa descobriu que tinha esquecido o nome da mulher ou talvez não tenha perguntado para ela.

Muitas são as pessoas que, como Rodrigo, gostam do sexo casual e têm sorte, ficar com um desconhecido e fazer, segundo eles, o que quiser sem comprometer a ninguém. Seguir curtindo com os mesmos amigos de sempre, poder fazer qualquer coisa sem perguntar a ninguém pelo nome dos pais nem ter que lembrar as coisas que apaixonam as outras pessoas.

O sexo foi ruim, “perdi meu tempo com este cara”, pensou Olga quando se vestia. Ela saiu no meio da festa com um homem que conheceu na balada, beberam duas caipiroskas, dançaram e se beijaram a noite inteira e quando ele lhe convidou para sua casa, ela não pensou muito e tomou sua mão e saiu direito para onde lhe levaram. Mas o outro dia acordou com a certeza de ter uma noite pouco gostosa, “não foi ruim, nem bom, simplesmente quase nem foi”.

Decisão de cada um

O sexo casual conta com muitos elementos a favor e muitos em contra e é eleição individual se se gosta ou não disso. Para aqueles que gostam as explicações e as alternativas são muitas, e além dos argumentos anteriormente mencionados, tem também a possibilidade de gozar do desconhecido, coisa que para muitas pessoas se transforma numa situação excitante, onde um número forte de jogos sexuais giram em torno dessa idéia.

A variedade no sexo é também um forte argumento de quem gosta e pratica o sexo casual com regularidade. Não ter que ficar com a mesma pessoa e poder escolher cada dia uma diferente, tendo a oportunidade de ter em muitas ocasiões os contrastes, “nesta sexta uma loira, neste sábado uma morena, hoje uma estrangeira” e fecham qualquer discussão sobre promiscuidade com a famosa frase “na variedade está o lazer”.

“Agora as pessoas se comprometem porque elas têm vontade, não porque tem que fazer o que alguns ficam fechados frente à possibilidade o desenvolvem uma fobia a este”, fala Adriana Uribe, psicóloga, quem também fala de que o importante não é se há ou não sexo casual, o ponto chave é não ficar nos excessos, “o problema é sempre o sexo irresponsável, não se é com a mesma pessoa ou não”

As pesquisas de opinião na rede, as revistas femininas e masculinas fazem diariamente publicidade ao sexo casual como um símbolo da liberdade do século XXI, homens e mulheres fazem o ritual para escolher a sua próxima aventura de maneira rápida e superficial. No fim de contas é uma pesquisa para uma satisfação carnal, é sexo, ninguém vai apresentar seus pais no próximo domingo.

Morgan tinha só um fim de semana em São Paulo, viajou sete horas de ônibus para chegar na noite para uma festa de estrangeiros na Vila Madalena. Morava há um ano no Rio de Janeiro, e lá, sua relação com as mulheres era todo um sucesso: francês, 22 anos, alto, cabelos loiros, pele branca e olhos azuis, nunca tinha voltado sozinho para casa e nesse dia não tinha porque ser a exceção, não foi.

No elevador continuou beijando essa mulher que já encontrara bêbada após tanta cachaça, seus amigos se olhavam entre eles, a festa foi boa e a madrugada já começava dar senhas. Morgan olhou para a mulher, tentando enfocar seu rosto por um momento só e perguntou:

– Qual é teu nome?


Alguma coisa acontece na Avenida São João

Por Guilherme Barros

Homens bem apessoados. Ternos engomados, cabelos e bigodes bem feitos. As gravatas eram obrigatórias, sem elas não se podia entrar nas salas de projeção. As mulheres usavam seus melhores vestidos. Na década de 50, os cinemas da rua São João eram o lugar de ver e ser visto. Com o tempo, alguma coisa mudou. O anonimato passou a ser essencial. Mais que isso, faz parte da mística do local.

Nos tempos de antanho as telas exibiam as peripécias de um caipira chamado Pedro Malasartes, que enganava os ricos e poderosos para ajudar pobres crianças. O Cine Art Palácio lançava todos os filmes do Mazzaropi, com direito à presença do próprio ator nas estréias. Hoje em dia o filme exibido no cinema é outro. São as peripécias de dois homens e uma mulher em busca dos segredos do sexo a três. Várias posições, pinto de borracha, sexo anal e oral de todas as formas possíveis. O único filme lançado hoje em dia é a produção mais recente do cinema pornográfico nacional.

A região do Largo do Paissandu, do tão caetaneado cruzamento da Ipiranga com a São João, da Praça da República, sempre foi o centro dos cinemões de São Paulo. Com a decadência da região nos anos 80 e o começo da popularização do cinema nos shoppings centers, as antigas salas passaram a apelar para outro público e diversificaram os negócios.

Fazendo parte da “Boca do Lixo”, região central que aglutina prostitutas, travestis, mendigos, ladrões, traficantes e tudo de mais nebuloso que a cidade grande pode jogar no mundo, as ruas congregam o que o melhor que São Paulo tem a oferecer em termos de cinema pornográfico. Ali operam o Cine Saci, Cine Las Vegas, Cine Art Palácio, Cine Roma, Cine Paris, Cine Dom José, Cine República. E, atrás da cortina que separa o mundo de fora do escurinho do cinema, a putaria rola solta.

Apostas no escuro

O primeiro Cine que visitei foi o Las Vegas (Av. São João, 341). Diferente dos outros, sua entrada é bem discreta, o saguão onde fica a bilheteria é escondido por um tapume azul. O que me atraiu a começar por ele foi a chance de poder comprar meu ingresso sem que todos os pedestres ficassem reparando neste depravado entrando no cinema. Medo de iniciante que não foi totalmente superado até o final da reportagem.

O ingresso custou 6 R$ e a bilheteira pegou o dinheiro sem nem olhar na minha cara. Depois da catraca uma escada leva a andares superiores, onde ficam as salas de cinema. No térreo, no pouco espaço entre o tapume e a escadaria, dois homens conversam calmamente sobre coisas da vida, fumam um cigarrinho, riem como se estivessem no lugar mais normal do mundo.

A sala fica dois lances de escada acima. Num efeito quase artístico, as luzes vão diminuindo conforme os degraus vão ficando pra trás. Quando se chega na sala, a primeira coisa que chama a atenção é a penumbra quase completa. Mal consigo distinguir as primeiras cadeiras. A única luz vem da tela, que exibe uma mulher em trajes mínimos. Conforme meus olhos se acostumam com a escuridão, começo a ver uns vultos passeando pela sala e consigo avistar algumas cadeiras vazias. Vou para os fundos da sala, pois espero ter privacidade para poder invadir a privacidade alheia. Dirijo-me à mais isolada das cadeiras e, depois de ver se ela não está suja nem grudenta, me sento discretamente.

A sala é razoavelmente grande e está um pouco esvaziada. Vários homens passeiam pelo ambiente, vasculhando cada poltrona e lançando olhares analíticos para cada um que chega. Alguns outros ficam em pé na parte dos fundos, avermelhados pela luz rubra que vem dos banheiros.

Assim que eu volto a prestar atenção no filme, percebo que não é bem uma mulher que está rebolando na tela. Ela abaixa a calcinha e percebo que estou assistindo um filme de travesti. Nas cadeiras, vejo homens com o pinto pra fora, se masturbando sem o menor pudor.
Os espectadores eram abordados pelos homens que andavam pela sala. Eles se aproximavam discretamente e falavam no ouvido da pessoa. Se eu não conseguia ouvir o que era dito, o sentido da conversa foi bem fácil de perceber. Quando a pessoa abordada concordava, o homem sentava na cadeira ao seu lado e ambos começavam a trocar carícias. Às vezes um deles se encurvava e sua cabeça sumia por detrás das costas da cadeira.

Enquanto isso, na tela, um homem aparece e o travesti começa a acariciá-lo, a carícia evolui para o sexo oral. Na minha frente, um senhor dorme pesado, incólume a tudo que se passa a seu lado. O travesti e o homem trocam de posição. Agora quem chupa é o homem. Ele faz com a língua todo o caminho do pênis até o ânus do travesti.
Percebo agora que várias pessoas dormem durante o filme. De fato, muitos usam os Cines como dormitórios. São bem mais baratos que hotéis, mais seguros que as ruas e a maioria fica aberta 24 horas.

No filme, os dois já se entregaram à sodomia sem freios. Um penetra o outro alternadamente. A única coisa que se escuta são gemidos. Não consigo distinguir os que vêm da boca dos atores e os que vêm do público.

Quando o filme acaba –com uma apoteótica gozada na cara- me sinto cansado e resolvo ir embora. No caminho para a saída, ainda vejo um casal na porta do banheiro. Um imprensando o outro contra a parede, debaixo da luz vermelha, trocando beijos e apertos. Na tela, um outro filme de travesti começa.

Eu saio na rua e a sensação é de estar voltando ao mundo real. O vento e a luz no rosto te trazem de volta daquela realidade paralela onde tudo é permitido. As pessoas na rua não parecem te olhar com segundas intenções. Agora é hora de um bom banho.


Amigos anônimos

Por Rachel Tavares

Naquela noite, no meio da semana, uma noiva atravessava o altar. Pensei em entrar na igreja e assistir ao casamento daqueles dois desconhecidos, mas a minha missão era andar mais algumas quadras e me juntar a um grupo maior de desconhecidos para conversar sobre sexo e amor.

Não que fosse bem uma conversa, pois são seguidos muitos protocolos para apresentar o grupo, as diretrizes e a agenda da noite. Cada pessoa fala na sua vez, sem réplica, tréplica, sem interação. Mas, mesmo assim, com muito impacto nos ouvintes.

Sentei na sala abafada, nem pequena, nem grande, e demorei a ficar confortável. Quer dizer, não fiquei confortável até a hora de ir embora, mas pelo menos venci minha inibição de estar ali.

Precisei decidir de qual reunião participar, pois achava que seriam muitos os grupos de reunião disponíveis. Não encontrei tantos quanto imaginava e praticamente todos seguiam o formato de reunião dos Alcoólatras Anônimos, com os 12 passos e o lema de viver um dia de cada vez. Mesmo depois de saber endereço, premissas, estrutura, não conseguia juntar coragem de levar meu rosto e o resto do meu corpo até o local. Tinha vergonha de ir, de ouvir sobre o assunto, de invadir a privacidade dos outros. Eu desconhecia totalmente o assunto e, por mais que pesquisasse, não conseguia nem descobrir o nome oficial do transtorno.

Rotulando

Antes de me infiltrar nesse mundo, tentei definir o que iria encontrar, mas não é fácil. O desejo patológico pela relação sexual, ele recebe dois nomes: ninfomania para a mulher e satiríase ou Don Juanismo para o homem. Nomes que soam pejorativos para alguns e sensuais para outros (afinal, a expressão “Don Juan” também é usada para conquistadores). Primeiro indício de como a sociedade encara o sexo e como mulheres e homens – que sofrem ou não desse impulso excessivo – costumam reagir sobre o assunto.

Pode se apresentar como sexo compulsivo com diversos parceiros que são encarados como objetos, compulsão por múltiplos relacionamentos afetivos, masturbação compulsiva, relacionamento sexual compulsivo com um único parceiro ou fixação na obtenção de um parceiro. Pode surgir como uma forma de tolerar o dia-a-dia, assim como se faz com álcool ou drogas. Pode ser uma atividade que preenche o tempo livre em pessoas que tem dificuldades para se sociabilizar. Pode até se manifestar pela falta de libido enquanto não for com aquela uma pessoa especial.

Os nomes são muitos: impulso sexual excessivo, dependência de sexo, transtorno sexual hiperativo, comportamento sexual compulsivo, transtorno hipersexual (com ou sem parafilia). A 10ª revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID:10) lista o Apetite Sexual Excessivo. Fica ainda mais complicado denominar o transtorno quando se leva em conta outros quadros possíveis. Se essa obsessão se manifesta como fantasias e vontades que ocupam quase todos os pensamentos, pode representar um quadro Obsessivo-Compulsivo. Já a pessoa que busca gratificação através do sexo desrespeitando valores e leis pode significar um distúrbio sociopático ou de personalidade. Confuso, não?

O traço em comum para quem sofre desse transtorno é que não se hesita em ceder aos impulsos sexuais, correndo o risco de perder o limite. Colegas de trabalhos, pornografia, prostitutas, ex-namorados, desconhecidos, pessoas do mesmo sexo, menores de idade, casos extraconjugais, são todas possibilidades para saciar o desejo sexual. Mas ao invés de satisfazer, constrange, deixa sentimento de culpa, trás traz maldita correção automática! dívidas, rompe famílias por preconceito, infidelidade ou vergonha.

A minha grande dúvida nessa história era saber se dava para definir quanto sexo é mais do que o normal. Afinal, sexo hoje em dia está em toda a parte e cada vez com mais facilidade de acesso. O escritor alemão Franz Kafka, por exemplo, propôs que é dependente o indivíduo com mais de 15 anos de idade que tenha sete ou mais orgasmos por semana, por pelo menos doze semanas seguidas. A definição mais aceita está ligada a um comportamento sexual que não seja prazeroso, ao contrário, traga sofrimento e constrangimento. Enquanto subia as escadas até a reunião, pensei em todos os corações partidos e namoros, meus e de todos os personagens de filme e televisão, e achava que todos nós poderíamos nos beneficiar um pouco desses encontros.

Um estudo calcula que cerca de 5% da população sofre dessa dependência – um número que deve ser maior, levando em conta todas as inibições que o assunto carrega. Esse comportamento também está mais presente em homens – outro valor que deve ter sido afetado por questões morais.

Não é um dado que surpreende, já que eu, com outro nome, com nenhuma vontade de contar história alguma, em um grupo de anônimos, fiquei com medo de que quem me visse naquele prédio me associasse àquele grupo. Fiquei com medo de eu mesma me associar àquele grupo.

Oi, meu nome é…

Os grupos de dependentes anônimos são muito importantes para o processo de recuperação e sobriedade. Nessas reuniões cercadas de preconceitos e imagens estereotipadas, o maior de todos os rótulos – o nome – perde o valor.

Para admitir um comportamento excessivo ou até mesmo reconhecê-lo, é preciso falar muito e ouvir muito também. Na reunião, só fala quem quer, e cada depoimento é um reforço para quem ouve e para quem relata. Reforço de que não se está sozinho, de que se está fazendo bem para si mesmo, de que se está colaborando na recuperação de alguém ao seu lado. E não é fácil compartilhar.

A sala pequena, nem cheia, nem vazia, não colaborou para a apreensão em ouvir os relatos. Um depoimento, depois outro, ambos um pouco vagos, traduzindo esforço em estar ali. Por um momento, quis ir embora, achava que não ia agüentar, não sabia o que pensar. Mas resolvi enfrentar o desconforto e comecei a ouvir com mais atenção, reparar nos detalhes que tornavam os depoimentos quase carinhosos.

A sensação que tive era de que a maior dificuldade era conhecer a si mesmo. Era quase como se não fosse possível se ver por inteiro até que se enxergasse no outro. Já que não se interrompe a fala do outro, cabeças balançavam durante os depoimentos num entendimento que parecia ir além do “passei por isso”. Alguns dos participantes estavam “sóbrios” há algum tempo. Estavam envolvidos em relacionamentos estáveis e procuravam continuar assim. Mesmo para quem sofre de impulso sexual excessivo, o sexo, o amor e, principalmente, a intimidade não devem ser evitados pelo resto da vida. Dizem até que estabelecer um relacionamento autêntico, independente e significativo ajuda a conter as emoções que desencadeavam o comportamento excessivo.

Outros participantes lutavam contra as recaídas. Para estes, freqüentar o grupo não parecia fácil, nem agradável. Mais do que isso, parecia intolerável. Admitiam a dificuldade em estar lá, a vontade de não ter ido naquele dia, mas repetiam e reafirmavam que estar lá e enfrentar o próprio comportamento era o que sufocava o relapso.

O mais emotivo dos depoimentos foi o de uma dependente que “ainda não estava em recuperação”. Ela dizia freqüentar o grupo há pouco tempo e afirmava não ter largado o vício que tinha por uma pessoa e por se fazer sempre disponível para essa pessoa. Com lágrimas nos olhos, relatou a dificuldade para compreender que estava dependente daquele amor, que esperava ansiosamente por recados, migalhas de atenção, mesmo sabendo como isso fazia mal para ela. Já estavam separados há algum tempo, seu parceiro estava em outro relacionamento, mas era ele ligar – e só ele – que ela ia: “largava tudo e ia. Quer dizer, vou”. Só quando descobriu o grupo, conseguiu reunir forças para admitir o problema, ainda sem solução. Com sorrisos acanhados, o resto do grupo acolheu mais um integrante. Grupo que era, na sua maioria, homens, contrariando qualquer mito de que a mulher se perde no companheiro.

Quando entrei na sala, minha maior dúvida era saber quando estamos passando do limite. Depois daquele depoimento, comecei a achar que estamos o tempo todo passando do limite e voltando para trás dessa linha indefinível.

Quando a reunião foi declarada encerrada, todo o distanciamento evaporou e os membros trocaram dicas e recomendações de leituras. Fui embora debaixo de uma profecia: um dos membros disse que eu voltaria “um dia, com certeza”. Se é verdade, só o futuro dirá, mas até lá, o jeito é também viver um dia de cada vez.


Quando a gente vai dessa pra melhor, ainda rola uma trepada?

Por Luiz Prado

Cansado de viver subjugado pelas atribulações mundanas, tomei a resolução de me dedicar, tal como Cristo no deserto, às questões cruciais do gênero humano. Guiado por esse propósito, decidi peregrinar, sob o sol e as estrelas, sendo levado e deixando-me levar por inclinações superiores, almejando respostas para uma inquietação interior:

Quando a gente vai dessa pra melhor, ainda rola uma trepada?

O lugar errado

Começo a jornada rendendo homenagem a minha displicente formação religiosa e deixo meus passos serem conduzidos até o Mosteiro de São Bento, edificado na região central de São Paulo. Acima do pórtico da Basílica de Nossa Senhora da Assunção, o próprio Santo, em versão pétrea, dispõe a palma de sua mão direita em minha direção. Um gesto misto de advertência e benção; estará São Bento me prevenindo acerca da heresia que estou prestes a cometer ou apenas pede aos céus revelação durante a demanda?

Com a dúvida pesando em meu espírito adentro a casa do senhor e encontro mais de cem fiéis sentados, em pé, ou de joelhos, escutando a palavra do calvo e santo padre ao meio-dia. Atrás dele, seis velas sustentadas por seis castiçais se dispõem ao lado da cruz, todos se elevando rijos aos céus.

Já na sala ao lado, conhecida como parlatório, na área do mosteiro, Irmão Gregório titubeia ao ouvir minhas inquietações de ordem celeste-sexuais. Por trás do hábito escuro, um jovem com menos de 30 anos remexe-se na poltrona estofada. Discorre, vacilante, acerca dos gêneros no além. Em termos laicos, me explica se eu vou continuar sendo homem lá em cima.

– Nós falamos da ressurreição da carne, da pessoa como um todo. Cremos que, no último dia, quando toda a criação for renovada, também nossos corpos mortais serão transfigurados. Mas nós não sabemos como.

Há cinco anos e meio no mosteiro, Irmão Gregório é um professo simples – ainda em fase de preparação, com votos monásticos temporários – e, com a humildade de um servo do Senhor, me aconselha a buscar alguém mais versado nos mistérios teológicos, uma pessoa capaz de falar de sexo no além. Antes de se despedir, entretanto, mostra empenho em acabar com minhas expectativas de que um espírito seria capaz de vir a Terra à cata de traquinagens eróticas.

– Isso não é possível. Depois que a pessoa morre, vai para junto de Deus, não tem mais contato com a gente. Pode existir uma comunhão, a pessoa interceder por nós, mas não contato físico.

Deixo o mosteiro abatido, a perspectiva de uma morte sexual retira o ânimo de todos meus membros. Ainda assim sigo na direção da fé católica. Dou mais uma oportunidade da Igreja me oferecer um futuro animado ao lado dos anjos do Senhor.

Ninguém para contar a história

Quando padre Eugênio entra na sala com sua camisa azul cobrador de ônibus, estou entretido com Nathália, a filha ilustre de Cariacica, que conquistou o mundo country. Ou ao menos assim avisa a manchete na capa do Jornal Capixaba-Paulista deixado sobre o balcão da secretaria da paróquia.

Padre Eugênio Mezzomo atua desde 2001 como pároco da Igreja do Calvário, no bairro de Pinheiros. Um senhor de cabelos brancos e voz sotaqueada, que permanece em silêncio, olhos fixos em mim durante toda minha confissão de incertezas, apenas para retificar as palavras do Irmão Gregório.

– Tudo indica que não haverá nem homens nem mulheres. Anjos não tem sexo, portanto não terão homens nem mulheres.

A sagrada escritura é a fonte utilizada por padre Eugênio para enterrar minha esperança. Em Mateus, capítulo 22, a Bíblia conta que os saduceus inquiriram Jesus sobre o matrimônio no além. Queriam saber com quem ficaria uma mulher, viúva de sete irmãos, quando todos se encontrassem no céu.

Jesus teria dito: Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus. Porque na ressurreição nem casam nem são dados em casamento; mas serão como os anjos de Deus no céu.

De certa forma, é Cristo quem me aconselha a aproveitar as delícias da libertinagem ainda em vida, oferecendo-me pouco mais do que harpas e anjinhos quando a hora chegar. Hesito em aceitar essa sina e indago ao padre sobre espíritos vagando na Terra em busca de prazer. Mais uma vez sua resposta passa ao largo de meus desejos.

– Nós achamos isso impossível, porque o corpo fica no cemitério. Por enquanto não há como afirmar. A igreja não fala nada sobre isso. Alguém deveria ter voltado para dizer!

Nesse momento o santo padre começa a gargalhar. Será da graça do próprio chiste ou da minha expressão melancólica, similar a de uma criança a quem lhe toma o pirulito da boca?

Energia Racional

– Pode acontecer de uma energia tomar conta de você, ou de uma namorada sua, e vocês estarem transando e, na realidade, quem está transando é aquela energia.

Com a segurança de 19 anos em contato com a coleção de livros Universo em Desencanto, Janete – nome fictício – é a primeira a dissipar as nuvens cinzentas sobre o sexo além deste mundo. Atrás do balcão da única livraria especializada na Cultura Racional de São Paulo, ela se empenha em não me deixar escrever bobagens sobre os ensinamentos de Manoel Jacintho Coelho, autor dos 1006 livros racionais.

– Para entender essa mecânica aí você precisa se conhecer, porque não adianta nada querer conhecer um dos lados se você não conhece o outro. Por isso é aconselhável você estudar o primeiro volume. Você vai conhecer a mecânica material, a mecânica celeste e a mecânica racional.

Fundada em 1935, na Tenda Espírita Francisco de Assis, no bairro carioca do Méier, a Cultura Racional pretende apresentar aos homens a verdadeira origem da humanidade. Ganhou status pop nos últimos anos por conta de seu mais ilustre adepto, Tim Maia. Em 1974 o soul man tupiniquim recebeu em mãos um exemplar da obra de M.J. Coelho e pirou nas escrituras, gravando dois álbuns-pregação, hoje totens entre os fãs de black music e a molecada descolada. Pouco tempo depois, Tim renegaria a seita e os álbuns, mas a história já estava escrita.

É justamente a notícia do lançamento em CD do volume um de Tim Maia Racional, em 2006, que aparece numa fotocópia da Folha de S.Paulo, exibida no balcão da livraria. Três quadros de Coelho – mão direita erguida em testemunho – distribuídos pelo lugar, prestam homenagem ao fundador. Quebrando a monotonia das paredes brancas, um diagrama com os mundos e a mecânica do Universo em Desencanto e um quadro com a Lei 11.203 de 1992, instituindo o dia da Cultura Racional, ao 3º domingo de março.

Para Janete, o conhecimento oriundo dos livros Universo em Desencanto representou o fim da angústia e do vazio que tomavam conta do seu corpo nos idos de 1989. Através da Cultura Racional ela afirma ter encontrado uma resposta para a própria existência.

– A morte não existe, existe a transformação. Eu não me resumo neste corpo de matéria, isso aqui é apenas uma roupa que veste minha vida verdadeira, que é o raciocínio. Nós, antes de sermos matéria condensada, éramos energia. Esse corpo era energia eletromagnética. A matéria vai voltar a ser energia eletromagnética e o raciocínio vai ficar no espaço, esperando o tempo determinado para ele materializar. A matéria vai para debaixo da terra passar pelo processo de transformação dela. Agora, a energia que está embrionada na glândula pineal vai resgatar as virtudes para formar um outro corpo de energia, puro, limpo e perfeito, para poder voltar ao natural.

É essa energia contida na glândula pineal que pode possuir a mim ou a minha namorada, de acordo com Janete. E não é apenas durante o ato sexual tradicional que ela pode surgir e roubar a cena.

– Quando a pessoa se masturba muito, às vezes você está se masturbando e na realidade é aquela energia que está se masturbando, entendeu? Uma energia feminina vai lá e enfim…

Apesar dos comentários de Janete parecerem animadores, ela nega que uma pessoa depois de morta possa vir a ser uma dessas energias sexualmente pueris. Para entender quais energias têm esses atributos ela recomenda a leitura do livro Universo em Desencanto. E para me deixar ainda mais confuso, extermina as ínfimas esperanças suscitadas momentos antes.

– Energia não faz sexo, só quem faz sexo é a matéria.

É a deixa para picar a mula.

Deus é Amor, não sexo

Na baixada do Glicério, encravado no coração de São Paulo, encontra-se o Templo da Glória de Deus, sede Mundial da Igreja Pentecostal Deus é Amor. Situado num terreno de 27 mil metros quadrados é o maior templo evangélico das Américas, com capacidade para 60 mil pessoas. Em sua fachada, bandeiras de países africanos, americanos e europeus juntam-se às latitudinais faixas multicoloridas que ocupam toda a parte superior da edificação, marca registrada da igreja.

No salão, a irmã indaga aos fiéis: Você quer a vitória?. Lá e cá uns e outros erguem os braços, na ânsia de serem escolhidos. “Então recebe!” Alguns se levantam e se encaminham para o altar, prostrando-se de joelhos. Ela continua, em transe epifânico, sua voz sibilante e pranteadora: Exalta o senhor porque ele é Deus, ele é Deus, ele é Deus!

Enquanto isso, um segurança munido de revólver e cacete me guia em direção à sala da pastoral, onde minhas inquietações fazem o irmão João – camisa e calça sociais em tons pastéis, sotaque nordestino e olhar desconfiado – repreender meus parcos estudos bíblicos. Pergunto-lhe se é possível o sexo no além e recebo, como resposta, Mateus 22.

– A bíblia diz, o próprio Jesus diz, lá nem se casam nem se dão em casamento. Ué, você não examina a escritura? Tem que procurar examinar a escritura, rapaz. Vocês ficam só na base do conhecimento materialista e esquecem o espiritual. Você não tem Bíblia? Adquira uma Bíblia, rapaz!

Irmão João segue comigo até a portaria do templo, onde aguardo algum pastor trazer-me orientação espiritual. No momento, infelizmente ninguém pode me atender, e termino por travar diálogo com outro irmão, que desce do alto e chega até minha presença pelo elevador. Lanço-lhe aos ouvidos as angústias arrojadas que permeiam meu espírito e não me surpreendo com mais uma resposta brochante. Deus pode ser Amor, mas está longe de ser sexo.

– Não há sexo, não há envolvimento físico. Os anjos por exemplo. Você vai falar que os anjos têm sexo? Não se pode pensar nisso. Eles não têm essa parte. Não existe. Você pode ter contato com alguém, mas em sonho. Você vai ver na realidade e não é.

Dias depois, em outra parte da cidade, eu ouviria versão completamente diferente sobre sonhos, sexo, anjos e todas as coisas naturais e as feitas pelo homem.

Íncubos e Nefelins

Nove horas da noite de uma sexta-feira treze. Casais passeiam no shopping Penha e a juventude materialista gargalha ingerindo cevada nas imediações. Estou em frente à Escola de Bruxas – indicação de Salem, sacerdotisa Wicca e colega de profissão. Do outro lado do vidro uma caveira sorri em tons lúgubres. Toco a campainha e uma moça, trajando sobretudo negro, me introduz na sala aromatizada com incensos.

Paredes roxas, sustentáculos de espadas japonesas e quadros de índios xamãs norte-americanos são o cenário da conversa, acompanhada pela voz de Alcione cantando suas paixões. Iniciada há dois anos no xamanismo celta, Paula cruza as pernas, traga lentamente o cigarro e só aí me oferece sua palavra.

– Algumas entidades ou algumas categorias de anjos acham que a vida terrestre é interessante e, por curiosidade, preferem se materializar para poderem experimentar inclusive o sexo.

De acordo com Paula, o misticismo, os oráculos e alguns remédios tiveram origem em filhos e filhas dessas entidades fornicadoras. Alguns descendentes de Enoch, personagem bíblico bisavô de Noé, foram parte dessa descendência angelical. São os chamados Nefilins. Tempos depois, os seres celestiais proibiram aos anjos tratar a terra como a joy division do além e eles tiveram de encontrar outra maneira de brincar com os mortais.

– Eles costumam pegar a pessoa no transe do sono, quando o espírito sai do corpo para uma outra dimensão. Nesse tramite, alguns espíritos se apossam de algumas pessoas, tanto faz homem como mulher. Espíritos masculinos, por exemplo, procuram mulheres que tenham alguma afinidade com ele. Algumas são molestadas, outras são usuárias de droga, ou não têm espiritualidade forte. Acontece uma relação sexual chamada Íncubo. A mulher sente um homem em cima dela, ou perto dela, tocando nela, mas não propriamente materializado. Ela sabe que está acontecendo, tem consciência de que não é só um sonho e acorda até com vestígios da relação. Não sêmen propriamente dito, mas acorda como se tivesse mantido relação com alguém.

Em seguida a essa perspectiva deveras otimista, Paula logo trata de abater minhas ilusões. íncubo – ou súcubo, para espíritos femininos – são demônios da tradição medieval, a quem se atribuem visitas noturnas de caráter sexual. Desejar ser um deles é almejar status dificilmente adquirido pelos mortais do século XXI.

– Geralmente a pessoa que desencarnou daqui já teve experiências sexuais em vida. Ela vai almejar ficar perto de pessoas que ela ama, resgatar algum trabalho que ela não fez, mas dificilmente vai querer manter relação sexual.

A Escola de Bruxas da qual Paula faz parte ensina que todos nós somos compostos de três elementos: matéria, espírito e ego. Quando abotoamos o paletó, eles se separam e cada um segue um caminho diferente. O ego, responsável pela luxúria, pode, em algumas circunstâncias, permanecer na Terra. Daí ele se torna uma alma penada.

– A pessoa que não evoluiu espiritualmente tende a ficar agarrada com a matéria. Parte desse gosto dela fica aqui. É o que chamamos de alma penada.

Incapazes de aceitar uma condição de vida não materializada, as almas passam a tentar uma sub-vida . Daí advém as incorporações que, segundo Paula, são estratagemas dessas almas para sugar nosso ectoplasma, nossa energia vital.

– Nós temos o fôlego de vida, que essa alma ali vagando não tem mais. E ela não aceita isso. Uma forma de ela tentar manter um pouco mais de aproximação da matéria é tomar o seu corpo, ou o meu corpo, por alguns minutos que sejam.

Será esse o momento pelo qual ansiosamente aguardei? Paula acende outro cigarro, um carro passa lá fora e eu pergunto se é possível, durante os instantes da possessão, acontecer o ato sexual.

– Não. Essas almas que estão penadas, que estão sem condições de querer aceitar a ida delas para um outro plano já viveram a matéria da carne com sentido sexual. O prazer dessas almas é estar no meio dos seres humanos.

Fica esclarecida também a inexistência de sexo entre duas almas penadas. A distância de intenções entre elas é tamanha que impossibilita o estabelecimento de alguma relação, mais ainda de caráter íntimo.

– Eu não estou nem visualizando você, eu estou desnorteada, numa outra dimensão.Você está ali, junto comigo, mas também não está me observando. São dois espíritos tão perturbados, que estão em condições semelhantes, mas não têm porque se aproximar. Cada um tem objetivos diferentes.

Esposas eternas

Meu relacionamento tem início com o porteiro. Um cavalheiro deveras simpático, Roberto prontamente convoca dois rapazes para virem ter comigo. Camisas brancas, gravatas, calças pretas, mochila do lado e o crachá de identificação: Élder Moraes e Élder Filgueiras, missionários da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, ou mórmons, para facilitar.

Com uma oportunidade de exercer o trabalho missionário, os dois sorriem para mim e caminham na direção de um banco, no jardim da igreja, localizada na avenida Francisco Morato. Ambos estão no período de dois anos no qual não podem ler jornais ou assistir televisão, devendo utilizar suas energias apenas para levar a fé mórmon às pessoas. Por toda essa rotina devotada, a Bíblia e o Livro de Mórmon – livro sagrado da igreja – estão enfiados na memória dos dois. Indicar passagens dos livros é atividade costumeira para eles.

No conjunto de crenças e práticas mórmons a família tem espaço destacado. Segundo seus fiéis, as relações de parentesco existentes na Terra, enquanto vivos, serão semelhantes no além.

– A terra é só um período, não é o final de tudo. E aqui nós estamos nos preparando para a eternidade. Nós acreditamos que as famílias podem ser eternas também. Não seria justo se com a morte acabasse tudo. Quando eu morrer será que vai todo mundo ser irmão? Nós acreditamos que não. Seu pai vai continuar a ser o seu pai, sua esposa, sua esposa. Não seria justo eu apenas encontrar ela lá como uma pessoa desconhecida. Os relacionamentos que nós temos aqui na Terra são eternos.

Minha esposa continuará a ser minha esposa? As possibilidades começam a se delinear de um modo assaz satisfatório. Questiono se, com a minha esposa, vou poder dar continuidade à boa e velha fornicação. Tranquilo é a resposta dada por Élder Moraes.

– As pessoas vão poder se tocar lá? Sim, porque como Jesus Cristo, quando ressuscitou, o corpo dele desapareceu do túmulo, significando que o espírito voltou ao corpo. E é isso que nós acreditamos como ressurreição. Que o mesmo espírito que possui nossas vidas vai deixar nosso corpo, mas de uma forma miraculosa vai ressurgir novamente, com nosso mesmo espírito, com a nossa mesma consciência.

Entretanto, segundo os missionários, enquanto o espírito está afastado do corpo, o sexo está além das possibilidades. Esse é o momento no qual minhas esperanças redivivas começam a cair por terra.

– No mundo espiritual não é possível, apenas depois. O mundo espiritual é somente o período de espera. Quando as pessoas falam de vida eterna, não é só viver para sempre. Para nós é vivermos com Deus e sermos como ele é. Quando nós tivermos a vida eterna seremos como Ele é, tendo filhos, fazendo filhos, como ele sempre faz. Então, apenas depois, e se nós recebermos esse grau maior de recompensa, é que nós vamos realmente poder ter filhos.

Segundo Moraes, os espíritos podem até mesmo vir para a Terra, mas a possibilidade de travarem relações com alguém vivo é nula. Levando o sexo para ainda mais longe, o período de espera no mundo espiritual é algo desconhecido para os mórmons. Para Deus, sexo é uma questão de vida, e o espírito separado do corpo passa ao largo dele.

– Quando o espírito aparece é apenas a serviço de Deus. Ele não aparece só por vontade própria ou porque você chamou. Nunca vai aparecer um espírito como esse, sem carne e ossos, apenas para dizer um oi para você ou “Opa! tô a fim de namorar hoje, vou aparecer pra você!” Não acontece isso na igreja, nós não acreditamos.

Parte do trabalho missionário de Moraes e Filgueiras é levar os visitantes para conhecer as dependências permitidas da igreja – o templo principal é exclusivo para iniciados. Na recepção um negro estilo Mangueira, metido num terno branco e com sorriso demorado, me deseja bom dia. Numa sala à esquerda, com cadeiras, arranjos florais e poltronas organizadas simetricamente, a assepsia é das maiores que já vi. Nenhum som da movimentada Francisco Morato penetra o lugar santificado.

Notando as dúvidas e o peso em minha face, Élder Moraes busca relaxar a imagem apresentada sobre a postura sexual mórmon. Não ajuda muito, e entendo ter chegado o momento de seguir viagem.

– O sexo é uma coisa sagrada para Deus, é o que ele faz todo dia. É fazer vidas, é criar vidas. Quando nós usamos o sexo apenas por divertimento ou prazer é uma coisa tão egoísta.

Conscientemente finco ainda mais os pés em meu egoísmo e decidido a visitar uma faculdade em busca dos saberes acadêmicos.

Só lá embaixo se faz sexo

Duas dezenas de mulheres, vestidas com casacos e jaquetas para enfrentar o frio outonal da capital paulistana, fazem fila à porta da Faculdade de Teologia Umbandista. É sexta-feira, dia de ofício aberto ao público, e elas se dispõem a esperar três horas para entrar nas dependências do templo do saber da avenida Santa Catarina, na Vila Alexandria.

Roger Soares, diretor e professor da Faculdade, me recebe em trajes azul médico plantonista. Enquanto sigo com ele para a biblioteca, homens vestindo branco dos fios do cabelo às havaianas se encontram na cantina degustando salgados. Nos fundos do pátio, velas iluminam um altar com suas cores bruxuleantes, fazendo as desfocadas estatuetas dançarem como ídolos da terra sob a luz do luar.

De pronto, exponho minha dúvida. Roger hesita, recua na cadeira, abre mais os olhos. Toma fôlego.

– A gente aprende que as pessoas que desencarnam, aqueles espíritos que estão próximos do plano Terra, próximos do nosso nível espiritual, se sentem atraídos pelos mesmos desejos, mesmos anseios, mesmas carências que nós humanos. Nós mesmos quando desencarnamos vamos para o outro lado da vida, mas permanecemos com as mesmas tendências.

Segundo Roger, a tradição umbandista acredita em diversos planos coexistindo no universo. Alguns, acima da Terra, são habitados por espíritos superiores, de pessoas santas e outros tipos do gênero pureza. Nos mundos inferiores, estão espíritos cuja vida foi marcada por sentimentos negativos acumulados. É também nesses planos baixos que estão espíritos com forte apetite sexual.

– Existem planos espirituais muito superiores, que são aqueles que você atinge quando já não precisa mais encarnar. Digamos que existem planos superiores ao nosso, mas ainda próximos, e existem planos muito superiores, daqueles espíritos que já não encarnam mais no planeta e que fazem parte dos nossos ancestrais. Esses ancestrais não têm mais nada de sexo. Esse tipo de desejo, de sentimento, as paixões, os apegos, eles estão abolidos. A visão entre os espíritos é muito mais universalista.

Pessoas desencarnadas ainda têm os mesmos sentimentos dos vivos e necessitam de emoções, como as proporcionadas pelo sexo. Para a teologia umbandista, esses seres se alimentam das energias circulantes durante o ato sexual.

– Para nós, o ato sexual é um dos atos humanos que mais movimenta energia. Se, por exemplo, uma pessoa é extremamente sensual, e usa o sexo exclusivamente como uma fonte de prazer, um hedonismo desenfreado, quando ela morrer vai ser atraída pelas pessoas encarnadas que têm comportamento semelhante. Quando ela convive com essas pessoas tem a possibilidade de experimentar novamente as sensações que os encarnados estão sentindo, por estar próxima. É como se você estivesse num campo de futebol e sentisse a emoção da galera, e se emocionasse também.

O próximo passo é saber se essas pessoas desencarnadas podem participar do ato sexual. De acordo com Roger, a resposta é positiva e remete aos Íncubos e Súcubos, trazidos à tona anteriormente por Paula, na Escola de Bruxas.

– Quando se estabelece conexão entre um ser encarnado com um ser desencarnado existe uma comunicação biunívoca. Você afeta o plano espiritual, atraindo um espírito ou repulsando outros e você é afetado por esse plano. Então, pela sintonia, a entidade que você atrai pode também te induzir a certos comportamentos. como uma forma de magnetismo, uma forma de hipnotismo, te induzindo a perseverar nos comportamentos que interessam para aquele espírito desencarnado. Então, se é um espírito sedento das vibrações sexuais, ele pode te incentivar mais ainda a procurar principalmente aquele sexo sem significado,aquele sexo pura sensação. Os ocultistas europeus davam nome para isso. Súcubo e Íncubo, espíritos que se alimentam dessas vibrações. Isso para nós é a forma negativa da coisa.

Outra tradição religiosa também acredita nos espíritos das folias sexuais. E é sem sair de casa que encontro evidências positivas para assegurar um futuro sexual para toda a eternidade.

No além com o boto

É numa conversa ao telefone que tenho esperança de poder consumar o voluptuoso ato no além. Consegui o número do homem na Livraria Espírita União, lá na Rangel Pestana, do lado da Praça Clóvis, onde o Paulo Vanzolini perdeu vinte e cinco cruzeiros e o seu retrato.

Impedido de revelar a identidade do meu informante espiritual – alguns seus parentes poderiam se complicar com as declarações -, posso apenas registrar que, de seus 75 anos de vida, 70 foram dedicados à prática e estudo da doutrina de Alan Kardec.

Murilo, como o identifico, afirma, da mesma forma que Paula e Roger, a possibilidade, sim, de ter uma transa lá do outro lado. Ele se refere aos Íncubos e Súcubos e sustenta que ainda hoje eles podem se manifestar. Inclusive já estiveram no Brasil, de acordo com o kardecista.

– A pessoa que é assediada precisa ser de estado primitivo. Aquela lenda do boto é relacionada com os íncubos, espíritos muito atrasados e muito materializados, envolvidos pela parte sexual.

Oriunda da Amazônia, a lenda afirma haver a transformação do boto em um homem atraente, vestido de branco e com chapéu, em noites enluaradas. Seria ele o responsável por dançar e seduzir mulheres, as quais apareceriam grávidas sem ter conhecimento do pai, afirmando não terem tido relações sexuais.

Para Murilo, somente íncubos e súcubos – e botos – vêm a Terra em busca de tentações carnais. Sobre a possibilidade de alguém – eu? – se tornar um íncubo ou um boto nos dias de hoje, a resposta não é das mais animadoras.

– Deve existir indivíduos que desencarnaram no passado, e viraram isso aí, mas à medida que você vai evoluindo, vai perdendo as características animais e ganhando as características angelicais. O sexo vai sendo sublimado.

Estaríamos todos condenados, indo dessa para uma melhor, a colocar o sexo de lado e dedicarmos toda a eternidade aos assuntos superiores, independentemente da religião, seita ou cultura abraçadas? Católicos, racionais, protestantes, xamãs, mórmons, umbandistas, espíritas, todos, de uma maneira ou de outra, empenham-se em abandonar o sexo quando é preciso juntar as coisas imprescindíveis para a vida no além?

Munido de uma série de respostas, mas não livre de dúvidas, encontro uma espécie de conclusão para minha demanda nas últimas palavras de Murilo. Falam menos de religião do que do homem, mas oferecem algo da mesma natureza dela: esperança.

– Conforme o nível de espírito, ele faz o que você imagina que ele pode fazer. No plano espiritual existe até casamento. Eu não posso nunca usar a palavra não pode. Para dizer não pode eu tenho que conhecer o universo. O mundo está todo aberto. E a mente da gente tem que estar muito aberta.


Let’s Swing Again – 7 noites de prazer

Por Caroline Carrion e Ligia Azevedo

Quem nunca swingou? Todo mundo um dia foi, ou irá. Se não por desejo, por mera curiosidade sobre esse ambiente que atiça a mente. Ao menos para os menos puritanos, ou “mais liberais”. Não foi, no entanto, com essa motivação que iniciamos esta matéria. Como repórteres (ou como as swingers Bel e Júlia) fomos tentar entender um pouco melhor esse mundo. Visitamos sete das doze casas de swing mais renomadas na cidade, dedicando-nos a essa atividade noite sim, noite não, por duas semanas.

Nós nos passamos por um casal de lésbicas, casais héteros formados por nossos amigos gays, garotas que traíam seus namorados uma com a outra. Numa dessas, talvez fomos convincentes demais: quase não escapamos de um beijo quádruplo, tivemos que fugir de investidas pesadas e nos esquivar de passadas de mão indiscretas. Colecionamos cantadas, admiradores e telefones escritos em guardanapos. E, pela primeira vez na vida, nunca fez tanto sentido a frase: “você vem sempre aqui?”. (Todos os nomes são fictícios, mas as situações são bem reais.)

Noite 1 – Domingo – Casablanca

Quem iria num domingo a uma casa de swing? Provavelmente os freqüentadores assíduos que querem começar bem a semana. Ou um casal iniciante, que quer aproveitar a entrada VIP. Como toda primeira noite, precisa-se de uma preparação especial. Passo um: a roupa. Melhor ir de saia para parecer mais convincente. Passo dois: escolher os nomes. Nomes que se lembrem depois e que se pareçam com os originais para qualquer esquecimento ser prontamente corrigido. Dois nomes que sejam comuns para não soar falso, e ao mesmo tempo não tão óbvios. Rodrigo e Júlia.

Destino: Moema, onde estão as principais casas de swing da cidade. Talvez pelas ruas pouco movimentadas, garantia da discrição que as casas demandam. 23h30. Chegam e o vallet abre a porta dela. O segurança revista Rodrigo. “O celular de vocês têm câmera?”, confere. Celular, só se pode atender no banheiro ou no hall de entrada da casa. A garantia de privacidade deve ser total. “Os nomes?” Os dois exitam por um instante. “Melhor dar os nomes de verdade, pra não perder a comanda depois”, a recepcionista aconselha, como se fosse muito comum.

Entram. Há algumas mesas brancas de buffet dispostas ao redor do palco. Meia-luz e um telão ao fundo com shows de Shakira e Pussycat Dolls. Alguns poucos casais sentados nas mesas, num clima de bar. É o dia menos freqüentado da casa, o público não vai passar de 15 casais. Querem pedir um aperitivo. Júlia encara bem o garçom e pergunta “o que você tem para… comer?”. Beliscam a porção enquanto olham ao redor, à espera de algum olhar sobre eles. Vários casais em clima de namoro, entre beijos e carinhos contidos. Dois casais sentados juntos em uma mesa, como velhos conhecidos. Um cara chega com mais duas mulheres. Os três se sentam num banco, as duas juntas e ele na ponta. Elas se olham e trocam sorrisos e carícias, bastante atentas às reações dele. Pouco depois mais três caras se juntam a eles. Elas continuam bastante interativas entre si, alimentando o fetiche dos outros três. Mais tarde sumiriam da parte social sem serem mais vistos pelo resto da noite.

Por vezes, um casal ou outro desaparecia por entre a porta que conduzia ao labirinto. O clima começa a mudar quando se aproxima a 1 da manhã. “It’s showtime, baby”, o DJ anuncia que o show está próximo. Passa um casal com malas – ela, uma loira com coxas dignas de um gladiador romano e ele, o típico “negão 3/4″ que povoa o imaginário de muitas. Sem dúvidas são os protagonistas. Pouco depois baixa-se a luz, e a fumaça de gelo seco varre o palco. Os dois entram e começam o espetáculo. Pouco a pouco as roupas dão lugar à pele. Os dois deixam tudo à mostra. Ele, com o membro rígido, contrariando a maioria do que se iria ver nos outros dias.
Terminado o show, o DJ convida todos para a sala coletiva, onde os strippers continuariam a “performance”. Saem alguns, logo outros, todos. Rodrigo e Júlia: “Acho que temos que ir, não?”.

Entram. Realmente um labirinto, com luz vermelha. No caminho, as cabines, algumas já ocupadas. Há do tipo privativas, sem conexão externa. Outras têm telas de madeira com visão para o exterior, vidros transparentes ou vidros espelhados. Outras ainda, com buracos para o toque e comunicação com outras. Vêem-se corpos e ouvem-se gemidos femininos dignos de atrizes de filme pornô. No final do corredor, a sala coletiva povoada dos que quiseram apreciar o que começou com o strip na pista de dança.

Um voyeur solitário grudado nos vidros parece “estimular” os casais com frases do tipo “nossa, que mulher gostosa! Isso, assim!”. Mas ele não se contenta em olhar e participar com palavras, e esmurra as portinhas dos buracos de toque. Invariavelmente enxotado, vaga de cabine em cabine em busca de alguém que possa se interessar em incluí-lo no prazer. Rodrigo e Júlia não escapam. “Não estão a fim de um ‘a três’?”. Uma vez. Outra. E mais outra. A insistência irrita Rodrigo. Os nervos se exaltam e parece não haver muito mais para ver sem escapar das investidas.

“Vamos?”. Parece ser a vontade de Rodrigo e de muitos outros casais que ali estavam. Na saída, todos os comentários têm o mesmo tom e o mesmo personagem. A personificação de por que homens sozinhos têm que pagar mais. A noite acaba ali, às 3h. A segunda-feira que chega parece menos convidativa do que todas as outras normalmente o são. Melhor dormir, para não chegar ao trabalho com cara de noite virada em pleno primeiro dia da semana. E nada que uma terça-feira não possa compensar.

Noite 2 – Terça – Noite do Ménage, Marrakesh

Terças-feiras podem representar o ápice do marasmo. Mas, para alguns clubes de swing paulistanos, é a “noite do ménage”, ou então “a noite das sedutoras”. Uma noite em que as mulheres devem tomar controle, experimentar novas sensações, explorar sua sexualidade. Júlia e Rodrigo convidaram sua amiga Isabel para irem como um trio ao Marrakesh, um dos clubes mais antigos da cidade. Sua fachada vermelha pretende ser um convite à fantasia. Uma fantasia elegante, mas considerada por alguns obscena. Talvez uma fantasia “safada”. Não seriam todas as fantasias assim?

Para os calouros, um pequeno tour pela casa. Um hostess, simpático e voluntarioso, apresenta as dependências ao swinger: bar, pista de dança, lounge e a parte íntima, composta por salas de diversos tamanhos, mais ou menos privadas, para o divertimento do casal. Tudo recoberto por plástico em estampas florais. Higiênico e talvez conferindo o “clima família” tão caro a esse mundo. A higiene também se faz lembrar nos papéis-toalha e pequenas embalagens de álcool gel nos cômodos íntimos. No fundo do salão social, uma cascatinha como se esperaria encontrar num motel barato. “Querem ficar?”, pergunta o hostess como quem diz “não diga que não foi avisado. Você sabe onde está entrando”. Oferece, então, uma mesa, um cardápio e um sorriso cúmplice.

O movimento só começou a aumentar depois da meia-noite. Ainda assim, a casa não ficou lotada. Na “noite do ménage”, o único trio eram eles. E também os mais novos, dando a sensação incômoda de atrair todos os olhares. Pouco antes do show, Júlia, Isabel e Rodrigo foram abordados por um casal. Ele, um senhor distinto, com ares de um avô atencioso, veio cumprimentar Rodrigo. “Parabéns, hein! Com essas duas belezas aqui do seu lado!”, apertando as bochechas das duas. Foram para a mesa, mas o senhor os encarou durante toda a noite.

Sozinha em um canto, uma senhora de meia-idade, na casa dos seus 50 anos, vestia um pretinho básico. Ela não demorou a ganhar companhia e sumir pelas cabines. Pouco depois, dançava novamente solitária na pista de dança. Outros três casais se dividiam entre a pista e as cabines. Elas ficavam dançando enquanto eles assumiam o papel de voyeurs. No meio da noite, os três casais foram expulsos. Os haviam entrado num esquema usual: “pegue qualquer uma na rua pra pagar mais barato”. Sozinhos, pagariam 180 reais. Com elas, seriam 44 consumíveis.

Bel, Júlia e Rodrigo também foram dar seu passeio pela zona sexual. A sala coletiva ficou vazia por toda a noite. As luzes fracas das cabines iluminavam corpos que se sobrepunham. Em uma delas estavam dois casais, mas era uma das menos iluminadas, um pedido de privacidade. Os três entraram em uma privativa. Sem visão externa, mas com portinhas de buracos para toque, que seriam insistentemente golpeadas durante todo o tempo que eles a ocupavam. Na porta, um aviso de que o local seria reservado aos strippers a partir da 1h15. Eram 1h. “O que fazemos agora?”. “…” … “…” … “Joquempô!”. E assim passaram seus 15 minutos ali. Desarrumaram os cabelos, amassaram as roupas e saíram, fazendo caras de prazer.

As duas meninas foram ao banheiro. Lá, a acompanhante do distinto senhor de antes ajeitava um fio-dental preto por entre o vestido de oncinha, revelando a marca de um chupão na bunda. E um olhar de prazer realmente sincero. Outras duas bochechavam o Listerine do galão que havia na pia. Na saída, encontraram Rodrigo ao lado de uma janelinha muito disputada. Na cabine, sete vultos: dois femininos e cinco masculinos. Uma das mulheres ajoelhadas, em posição oral. A outra, deitada em um dos sofás, recebendo um por um.

Já era hora do show. As luzes se focaram no meio do palco e entrou o casal de strippers. Ela, uma morena bem desenhada, vestida no estilo western. Ele, um mulato cheio de “ginga”. Chamavam um e outro para dançar. A stripper chamou Rodrigo. Ele relutou em ir, tímido e com medo de que Júlia o repreendesse. “Vai, amor, vai lá”, ela incentiva. Ele foi, mas ficou contido. Logo o stripper chamou Bel. A mesma timidez e retração. Depois, a stripper chama Júlia. As duas vão, ao som de “Man, I fell like a woman”. Elas dançam, encoxadas, alegrando a ala masculina. Levou-a de volta para o sofá. Depois de tirarem toda a roupa, não chamaram mais ninguém. Fizeram o show entre eles, numa coreografia simulando posições sexuais.

Terminado o show, as músicas de elevador deram lugar a um funk. Meninas com botas de couro falso requebravam freneticamente. Outros casais partiam para as cabines. Júlia e Rodrigo deixaram Bel sozinha por um momento, e ela logo conquistou várias amizades. Um gordinho que estava com sua namorada, mais um casal e um homem sozinho. Os três rapazes encararam a menina sozinha por muito tempo, mas, seguindo as regras do swing, o contato só foi feito depois de “aprovada” pelas parceiras. Uma garota se apresentou. “Oi, você está sozinha aí? Por que você não vem comigo e com os meus amigos?”. Claro, por que não?

Ela contava que era sua primeira noite no swing. Porém, um dos amigos a desmentiu sem saber, dizendo que ela já o havia acompanhado outras vezes. Davam notícias do Nefertitti, que naquela noite tinha uma festa fechada. “Só tinha gente bonita lá, a entrada tinha uma fila enorme. Mas não pudemos entrar por causa dele.”, o gordinho conta, apontando para seu amigo solteiro. Esse pega a mão de Isabel. “Você já conhece aqui atrás?”. “Não, só dei uma olhada antes”, mente. “Ótimo, então eu te acompanho. Não precisa ter medo, você não tem que fazer nada que não queira”.

De mãos dadas, entraram na sala só para casais. Lotada. Em um canto, duas mulheres e um homem faziam carícias a três, nas preliminares que muito em breve se tornariam sexo. Ao redor, muitos casais observavam, beijando-se ou se masturbando enquanto isso. O tempo todo, o rapaz só segurou sua mão. Isabel pediu para sair, esbarrando com Júlia e Rodrigo do lado de fora. “São meus amigos”. “Ela é sua irmã?”. “Não… ela é namorada dele… e nós meio que estamos juntos, os três”. Eles são convidados a “dar um passeio” com o grupo de amigos, mas “sem compromisso, só pra ver se rola, mas se não rolar, tudo bem”. Uma coisa era uma volta de mãos dadas pela sala para casais, outra era se trancar em uma cabine com cinco desconhecidos. “Acho que precisamos beber um pouco mais. Mais tarde voltamos aqui para encontrar vocês”, mentem com um sorriso.

Despediram-se, mas não voltaram para a mesa nem foram ao bar. Por uma noite já haviam vivenciado o suficiente. Ainda mais para uma terça-feira. Ao entrar no carro, risadas animadas pela experiência nova, nesse ambiente que acabaria por se tornar tão corriqueiro para as duas amigas. Uma dúvida os perturbava, e que acabou por se repetir nas demais noites: e as camisinhas? Um amigo que já conhecia o lugar disse que são vendidas no bar, mas não viram nem sinal disso. E será que numa sala com nove pessoas alguém realmente pratica sexo seguro? Era só mais uma das tantas coisas que deveriam ser observadas nas próximas semanas.

Noite 3 – Quinta – “Noite das mulheres: Os Gângsters”, Nefertitti

Luzes, música frenética e pista lotada. É o que normalmente se espera de uma balada. E não seria diferente no Negertitti, a auto-proclamada “balada mais liberal de São Paulo”. No Brooklin, no meio de muitas casas e ruas desertas, a fachada chama a atenção pelo clima Vila Olímpia. Um vallet recebia os carros, seguranças guardavam a entrada. É a casa mais cara de toda a cidade. Os preços podem chegar a R$ 170 o casal, R$ 200 para homens sozinhos. Naquela noite, dedicada especialmente às mulheres, cada garota sozinha pagava R$ 30, não consumíveis. A entrada não dava direito a sentar nas pequenas mesas que cercam a pista de dança. Isso custaria mais R$80 para o casal. As meninas se sentaram no clube do whisky, separado do resto da balada por uma parede de vidro. Lá o ambiente era outro: música calma, DVD de algum show na TV de plasma e possibilidade de sentar sem pagar o adicional. Foi lá que decidiram sua história para a noite.

Seriam um casal. Na noite das mulheres, esperavam encontrar outras lésbicas. E assim teriam uma desculpa plausível para afastar investidas mais fortes. Surge então o casal BelJu. Duas universitárias que se conheceram na faculdade. Uma veterana da outra, há seis meses vivem um relacionamento estável. As duas já tiveram experiências com homens, mas não gostaram muito. Isabel, no entanto, sente que Júlia sente falta de sexo com homens. Por amor a Bel, Júlia só quer outras meninas. Um relacionamento cheio de questões mal-resolvidas. Como muitos ali também seriam.

Depois da meia-noite o lugar começou a lotar. Após beber um “pecado” (todos os drinks têm nome de sexo) e um energético, elas estavam prontas para encarar a noite. O balcão do bar era também palco para o show de strip. No meio da pista, o mastro, como o de costume. Ao fundo, uma porta giratória leva às “atividades liberais”. O lugar parece um misto das 1001 noites com uma decoração mais japonesa ou chinesa. Além das usuais cabines de diferentes tipos, tinha também cabines fechadas somente por cortinas vermelhas, como um pequeno harém.

O show de strip foi o mais elaborado até então. Quem comanda é o DJ Carlão, que além de animar grande parte das casas de swing, também organiza outros tipos de eventos, como festas infantis. O tema da noite era “Os Gângsters”. Homens com cara de mau, ternos de risca de giz e chapéus sobre o olho. Mulheres de preto, salto alto, sobretudo. O show começava numa espécie de mezanino e terminava na pista de dança e sobre o balcão do bar, com participação do público. As strippers ficam completamente nuas. Os homens, como sempre, cobrem o membro, para tristeza da mulherada muito animada, principalmente das que subiram no balcão para dançar junto.

O clima é Vila Olímpia: a luz, as músicas, o público, as cabeças oxigenadas das mulheres, todas no mesmo tom de louro-médio que provavelmente só pode ser encontrado no Jacques Janine. Os homens sarados, cabelos espetados com gel, as roupas da moda. Às vezes chama a atenção um ou outro velho que destoa no visual, terno e calça jeans, sempre parecendo ter muito dinheiro.

Apesar de a maioria do público não ser swingers habituais, as abordagens foram mais sutis, exceto por uma ou outra muito agressiva. Um casal veio conversar com as duas garotas e o contato, ao contrário do normal, foi feito pelo homem. “Isso, vocês têm que dançar aqui mais perto da gente mesmo”. Ambos com mais de quarenta anos, mas ainda se portavam como se tivessem 20 e não conseguissem deixar a Era de Aquário e os anos 80 para trás. Ele, cabelos brancos, barriguinha de chopp, mas conservado, e um jeito meio afeminado. Ela, bonita, mais em forma que muitas mulheres de 20, cabelos com luzes louras, para não fugir do clichê. Blusa branca, calça jeans, salto alto. Contam que são donos de um famoso bar na Vila Madalena e de outro restaurante no litoral paulista.

O homem insiste no contato: “A gente chegou e notou vocês logo de cara. Porque vocês estão em outra vibe. O tempo todo se tocando, de mãos dadas, dançando juntas. É carinho isso que a gente viu e é o que a gente quer. Tem muita gente que vem aqui só pra meter e pronto, não quer nada além disso. Mas nós não, nós queremos outra vibe. Um negócio de respeito, de se gostar. Porque mesmo que só fique com você hoje à noite, nunca mais te veja de novo, hoje vou te amar e te respeitar”. Ela conta que tem medo de encontrar lá as filhas, de 22 e 18 anos. Ele não, mas que se encontrasse, “desde que ela estivesse com um cara legal”, não ia ter problema. “Porque o que importa na vida é ser feliz. Não faz diferença como, mas a pessoa tem que ser feliz”. Mas afirmou com convicção que isso não aconteceria: “elas são tão inocentes, não namoram, não bebem, não usam drogas. Mesmo quando a gente fuma maconha no nosso quarto, elas sabem, sentem o cheiro, mas nunca vieram pedir, nunca usaram”. Aparentemente até os pais mais liberais nutrem fantasias de inocência em relação a suas filhas…

Depois de conversar muito, começaram a investir mais pesado. Muitas recusas não aceitas, e a desculpa final foi que Isabel não estava conseguindo lidar muito bem com isso tudo, estava com ciúme. Algum tempo depois foram deixadas em paz, mas o casal aparecia ocasionalmente, com investidas discretas, sem nunca desistir de verdade.

Após uma discussão pelo ciúme de Isabel, as garotas se separaram. Júlia foi para a pista de dança, Bel continuou no bar. Abordada por um homem de cerca de 25 anos, digno da palavra brutamontes, Ju disse que não estava com cabeça para aquilo, que tinha acabado de discutir com a namorada. “Namorada? Mas que desperdício. Esquece dela e fica comigo!”. “Quanto preconceito, cara. Dá licença que vou cuidar da minha mina”. E foi o que fez, num timing perfeito, quando a resgatou de uma menina, mole de tão bêbada, que se jogava para cima dela. Ao perceber a discussão das duas, tinha ido conversar com Isabel, disse que era psicóloga, que podia ajudá-la. Depois confessou: “Não sou psicóloga. Sou estudante de enfermagem. Falei isso porque achei que assim seria mais fácil me aproximar de você. Eu não sou lésbica nem bissexual, sabe. Lá fora eu não teria coragem de fazer nada disso. Mas aqui eu posso me soltar, realizar minhas fantasias. É pra isso que este lugar serve. Aqui eu beijo meninas, gosto disso, mas não tenho medo de ser lésbica nem nada. Nunca transei com uma menina, só beijo”.

Depois de uma troca de olhares ciumentos, era hora de visitar o labirinto. Se na pista de dança já se podiam avistar casais se acariciando e meninas com seios de fora, lá dentro estava lotado. Na primeira sala, as cabines individuais estavam fechadas, mas podiam-se ouvir gritos de fazer inveja à atriz pornô mais experiente. Em frente às portas, uma rodinha de homens estava de pé, com os paus de fora, esperando uma mulher que, agachada no centro, fazia sexo oral em todos eles. Deviam ser cinco ou seis. A sala ao lado, com as cabines de toque, também estava absurdamente lotada, tornando impossível observar o que realmente acontecia lá. Numa tenda, havia um casal deitado numa cama: ele a masturbava, ainda completamente vestida, só sem a calcinha. Nos outros quartos, homens, principalmente, observavam casais através das cortinas vermelhas. A sala comum estava praticamente vazia todo o tempo.

É impossível transitar por esses ambientes sem que passem a mão em sua bunda na área da virilha. Também, apesar (ou talvez principalmente por isso) da condição de casal lésbico de Bel e Ju, era impossível dar cinco passos sem serem paradas por algum homem que queria um pouco de ação a três. Um deles, bêbado, ofereceu a mulher às duas garotas: “Fiquem com ela, olhem como ela é bonita. Eu não vou participar, vou ficar só olhando, prometo”. Ela claramente não estava disposta, mas ele insistia “está sim, ela gosta disso”. Uma das várias mulheres que não gostam da troca, ou do sexo a três, mas que vão a essas casas por medo de perder o companheiro.

Um último homem veio falar com as duas, com uma proposta quase criativa. “Olha, se vocês não gostam de homem, tudo bem. Não vou insistir para fazerem nada comigo. Mas só vocês duas não vão conseguir nada sozinhas, porque o marido sempre vai querer participar. Então me deixem acompanhar vocês porque, quando o marido chegar, eu o mantenho afastado, falo pra ele ficar só olhando, e vocês aproveitam a noite”. Já que ele não estava com sorte aquela noite, bem que podia fazer uma boa ação. Ele se auto-declarou, então, o guarda-costas das duas. Acompanhou as duas até a sala das cabines privadas. Elas entraram sozinhas, mas não sem dificuldade. Enquanto observavam o pequeno quarto, só com uma cama de solteiro reclinável, estilo hospital, papel-toalha (sem gel bactericida) e um lixo com uma camisinha usada, várias pessoas batiam na porta e tentavam forçar a entrada. Saíram, aparentemente frustradas e bravas. Despediram-se do guarda-costas, que as observou sair, na esperança de pelo menos um pouco de prazer voyeurístico para a noite.

Eram três da manhã. Estavam cansadas. A noite estava encerrada. A balada liberal tinha um ambiente de investidas muito mais agressivas que aquele das casas de swing, investidas talvez atiçadas pelo fetiche masculino pelo lesbianismo. Após um repouso na sexta, Isabel e Júlia teriam um dia para decidir qual seria a próxima casa.

Noite 4 – Sábado – GA10

Grupo de Amigos 10. Poderia ser qualquer organização de amigos para fins dos mais variados. Um grupo de amigos quarentões que se conheceram na faculdade e se encontram todo mês para relembrar os bons tempos. Um grupo de recuperação para pessoas com dependência emocional. Ou um grupo de jogos de RPG. Mas o nosso GA10 é um grupo de casais swingers que começou com 10 casais e hoje conta com mais de 200. Segundo o gerente da casa, conhecido por JC (siglas e fusões dos nomes do casal são comuns no mundo swinger), alguns casais começaram a se sentir incomodados com a mudança de público das casas de swing. A presença de curiosos, jovens e prostitutas passou a deturpar a ideologia original de troca de casais com carinho e respeito. “Teve gente que já encontrou até o próprio filho”, conta. Mas o clube tampouco é uma irmandade fechada, com entrada restrita, como o Rota 69. Pelo contrário. Foi um dos ambientes mais “convidativos” para Bel e Júlia.

Sábado à noite, Vila Mariana. No meio de um conjunto residencial, um pequeno corredor, ao final do qual se esperaria encontrar um típico hall de prédio. No fundo dele, o que temos é uma recepção com quadros de sexo nas paredes – todos eles pintados pela mesma pessoa (Cristiane Ribeiro?). Ainda, estátuas pseudo-gregas com um pequeno Eros e uma vitrine cheia de revistas especializadas – capas com grandes traseiros e seios à mostra. A recepcionista lhes dá as comandas – 30 reais para cada, com buffet livre. Refrigerante, cerveja, vinho, licor, e petiscos à vontade. Demais bebidas à parte. Mas com direito também a um roupão, se quiserem aproveitar sauna.

O plano dessa noite era ver como seria a experiência para duas mulheres sozinhas. Elas entram. Não só não levantam suspeitas como levantam a libido de todos os homens. Caem em um suposto cineminha. Uma televisão 29′ com uma cena de penetração explícita faz a alegria de um cara que se masturbava no sofá. Poucos passos e já são encoxadas. Atraem membros excitados como um ímã. Dessa vez pareceu mais difícil saírem ilesas do lugar. Elas se entreolham e, em uníssono: “Solteiras?… não!!!!!!! Pega na minha mão!!!!!!!”. Entra em ação novamente o casal BelJu.

Fazem o tour pela casa. Ninguém se deu ao trabalho de pegar o roupão a que tinham direito. A pequena sauna e um protótipo de piscina parecem abandonados, assim como um palco improvisado no meio do salão social. Nada de shows de strip dessa vez. Os casais conversavam em um tom de intimidade de amigos de longa data. Parece que ali não há iniciantes. No bar, o clube do whisky ostenta garrafas pela metade com nomes dos casais a que pertencem. A sala coletiva, exclusiva para casais, é a mais movimentada.

Logo JC se aproxima, como bom anfitrião. Conta um pouco da casa e tenta saber qual o que buscam ali. Já adianta: “aqui é sexo. Não tem aquela enrolação, não é que nem balada. O pessoal vem, conversa, dá vontade e vai lá. Aqui o negócio é sexo mesmo”. O ambiente do clube é realmente mais explícito que o das casas anteriores. Diante do lesbianismo declarado, diz que talvez ali elas não seriam tão bem sucedidas. Uma melhor oportunidade seria os churrascos de domingo, quando a casa realmente lota e recebe casais mais iniciantes. Ainda assim tenta agradá-las. Tentou nos apresentar um casal, sem sucesso.

BelJu se sentam no salão social, e buscando encontrar alguém que lhes poderia ser interessante. Chama-lhes a atenção duas mulheres sentadas, uma loira e uma morena, sozinhas numa mesa. Seria um casal? Júlia vai ao banheiro enquanto Bel tenta a aproximação, cumprindo a etiqueta. No mesmo momento, o namorado da loura apareceu, demarcando o território como um bom macho, mas logo se perdeu novamente pelos corredores. A curiosidade das duas se revelou, perguntaram bastante sobre BelJu. Comentaram que não acharam nada estranho um casal de lésbicas e que já haviam tido experiências sexuais com outras mulheres. Por sinal, se conheciam de uma das noites do GA10, mas a loira – Elisângela – não se lembrava muito bem. Júlia chega e logo depois, o namorado da segunda garota. No caso de ambos os casais, o namorado foi quem tomou a iniciativa de ir ao swing. Eles já freqüentavam casas do tipo antes do início do namoro. Elas os acompanham para evitar conflitos. Elisângela, estudante de enfermagem, namora há seis anos e meio. “Não vale a pena brigar por isso, ele gosta de vir e olhar. Se brigo, o relacionamento fica desgastado. É melhor vir junto”. Ela diz que demorou três anos para aceitar a idéia, no começo se sentia muito mal. Hoje não liga mais, mas também não gosta de participar. Sua cara de tédio e seu jeito retraído demonstram que o tema não é tão bem resolvido como ela diz.

Sem muito mais o que conversar, BelJu fazem um último passeio pelo labirinto. Lá, uma fila de homens esperava para enfiar seus membros num buraco na parede. Do outro lado, alguém lhes fazia sexo oral. Não demora muito e as duas são abordadas de novo. Era o namorado de Elisângela, cheirando a álcool e bastante interessado nelas. Puxando o assunto, disse que ele normalmente só olhava o que acontecia nas casas mas, quando se relacionava, era com sua namorada e outra mulher, nunca com outro cara. E não lhe atraía a idéia de ver sua mulher com outro. “Voyeur é tudo bicha. Homem que gosta de ver a mulher ser comida na verdade tá se realizando pela mulher dele, porque na verdade ele é que queria estar lá”. Como um bom ébrio, começa um discurso notável. “Vocês deviam conhecer o Inner (Club). Lá é muito bom, é a melhor das casas. É mais balada liberal, porque aqui é mais casa de swing mesmo. Aqui vêm mais casais, não tem tanta mulher sozinha. E, tem outra, casa de swing é um negócio de mais respeito, troca de casais. Swing não rola, eu gosto mesmo é de putaria!… Não reparem, tá? Eu sou meio louco assim mesmo. Aqui todo mundo tem distúrbio! Aqui ninguém é normal. Se a pessoa não tivesse algum problema, não estaria aqui, não é mesmo?”.

As duas concordam com tudo – há de se concordar sempre com bêbados – mas se esquivam, tentando sair do falatório embriagado. Eis que virando o corredor surge a oportunidade: a loira e a morena de antes tinham ido atrás de BelJu. A curiosidade as havia atiçado. Mas, ao verem o namorado de Elisângela, o plano parece broxar. Sorriram, disseram alguma coisa qualquer e saíram. Hora de BelJu irem também. Pouco depois, o namorado já perdido de novo no labirinto, Elisângela volta a procurá-las, timidamente. “Vocês não querem pegar meu telefone? Quem sabe um dia a gente não combina alguma coisa, toma um suco e se conhece melhor…” E anota o número numa folha de guardanapo. “Sem medo, viu? Sou feia mas não mordo não”.

Na saída, um homem pega uma chave de uma porta qualquer e dez reais a hora por algum serviço especializado. Logo ao lado da recepção, na sala de vídeo, duas portas que permaneceram fechadas por toda a noite. O que seria: um cine pornô privativo, para os mais tímidos? Algum serviço de prostituição? Uma cabine privativa para casais? Saem com a dúvida, mas tampouco parecia adequado perguntar.

Noite 5 – Segunda – “Segunda Romântica”, Inner Club

Segunda-feira. “Segunda Romântica”. Dois casais foram juntos em busca do clima de romantismo: Júlia e Rodrigo, Isabel e André. Júlia e Rodrigo, já não mais iniciantes, velhos conhecidos do Casablanca. André: um historiador, amigo de amigos de Bel, que topou ir à casa e a partir de então se tornou seu namorado de 2 anos. A entrada já antecipa o clima, com um painel onde se via a silhueta de uma stripper à contra luz. Chegam no meio do show. A stripper já está semi-nua, jogada sobre um dos freqüentadores, trocando beijos calientes com o moço. Isso, com a namorada dele do lado. Mais alguns ainda iriam provar da sua boca – e dos seus seios. Foi show mais interativo até então. Ela termina sua performance e entra o stripper masculino.

Vestido de moletom com muitas peças de roupa a serem despidas. Ele começa o show. O stripper pega duas mulheres da platéia para interagir. Uma morena e uma negra, a morena com uma calça jeans bem grudada nas coxas, a negra vestindo roupas coladas de oncinha. Tira a roupa das duas, deixando só a lingerie. Elas respondem muito bem aos seus movimentos, dançam com ele como uma coreografia. Seriam parte da equipe da casa? Ou só duas mais saidinhas? Dúvidas e hipóteses ficaram sem resposta.

Sentam-se André e Bel, Júlia e Rodrigo. Observam os casais ao redor. Depois do show, poucos continuaram na parte social. Era mais obscuro o ambiente do Inner. A luz mais baixa, quase não se enxergava a mesa do lado. Sentia-se algo mais pesado no ar. O clima era mais de inferninho do que de casa de swing. Talvez ali o público também era dos que “gostam mesmo é de putaria”.

Elisângela estava lá. Sentada, sozinha como sempre, imersa na escuridão da mesa ao lado. Calafrios de mentira pega. BelJu, o casal de lésbicas tão simpático da noite anterior, agora eram duas namoradas hétero de dois caras bonitinhos, com a cumplicidade de um longo relacionamento, no clima da segunda romântica. E agora? O que dizer? Caso perguntasse algo, Bel e Júlia na verdade tinham sim namorados. Mas gostavam de sair juntas e tinham um caso paralelo, eles não sabiam. No sábado, foram conhecer a casa de swing e tentar se divertir, mas a intenção era depois levar os dois propondo um swing entre eles, e, assim, oficializar o tesão de uma pela outra. Nada melhor do que um caso consentido. História montada, mas talvez desnecessária. Logo um homem se aproxima, numa conversa ao pé do ouvido com Elisângela. Talvez ela não fosse a namorada submissa que parecia ser. Todos têm suas meias-verdades, ainda mais em um ambiente desses.

Os dois casais se aventuram pela zona sexual. Um cineminha pornô – esse sim cinema, quase uma Sala Lilian Lemmertz. No fundo, algumas cortinas faziam dois ambientes para os casais que se empolgassem com o filme, onde um casal já se masturbava. Várias cabines: privativas, com buracos de toque, com janelas de treliça de madeira, o habitual. O labirinto sempre vazio. E com uma novidade: ao lado da porta de entrada, havia a “porta dos prazeres”. Uma porta com vidro fumê fosco, com buracos que davam para a parte externa. Duas mãozinhas convidativas lhes chamavam com o dedinho para se aproximarem. Mas a visão suscitou mais uma crise de risos contidos do que curiosidade.

Os quatro entram em uma sala privativa, mantendo o teatrinho. Ali também poderiam soltar todos os risos. “Não temos que fazer algum barulho, caso estivéssemos fazendo alguma coisa de verdade?”, alguém propõe. Rodrigo bate nas paredes. Simulam gemidos e respirações ofegantes. Enquanto isso, tiram fotos com o celular (ali ninguém veria) e jogam joquempô. Do lado de fora se ouvem os ruídos de gente curiosa que esperava a porta ser aberta para poderem participar. Quinze minutos depois, saem. Uma rapidinha estimulante. Encaram os olhares que os esperavam ansiosamente do lado de fora, sem correspondê-los. Passam pela sala coletiva, vazia. Na sala de casais, sexo explícito. Uma mulher sentada sobre o homem, com os seios à mostra, gritando que ia gozar. Um outro casal se masturba e outro faz sexo oral enquanto observa.

Enquanto em casal, ninguém foi abordado. Bel e Júlia se separaram dos namorados, e a situação muda. No caminho, um homem as seguiu. Thiago, profissão indefinida mas aparentemente bem rentável, vive uma semana num flat alugado ao lado do Shopping Ibirapuera, e outra nos Estados Unidos, onde trabalha. Prefere ir sozinho a pegar uma mulher qualquer só para pagar mais barato. Insistiu para ficar com as garotas, parou de pressioná-las quando essas disseram que deixaram seus namorados no salão. “Mas você vêm se divertir sozinhas e deixam eles lá?”, pergunta. “Ah, sim. Eles estão meio cansados e devem estar falando de futebol ou algo parecido. E a gente também se curte faz já algum tempo, mas eles não sabem.” (“Corno, broxa e burro.” Era essa a definição indignada que Rodrigo e André se dariam ao saber da história mais tarde.) Mesmo assim, Thomas busca um guardanapo para deixar seu telefone. Enquanto as duas esperavam que ele voltasse, um casal e um homem sozinho as encaravam fortemente a fim de ver alguma demonstração de lesbianismo. “Tenho muitas amigas bonitas que posso chamar para uma festa no meu flat. É bem espaçoso, aconchegante…”, diz Thomas enquanto anota.

As duas voltam à mesa, e os “namorados” realmente estavam conversando de futebol, mais animados do que durante o show de strip. Quase 4h, decidem ir. Bel e Ju vão ao banheiro antes de sair. Com mármores e um sofá de couro no centro, era digno do Pátio Higienópolis. Na saída do banheiro, Júlia cruza com o namorado de Elisângela. Ele olhou como quem reconhece vagamente aquele rosto, mas sem se lembrar de onde. Provavelmente seria mais um de seus delírios de bebedeira. Sim, Elisângela era mesmo a namorada submissa que o seguia com medo de perdê-lo. Na mesa, ela estava sozinha de novo e jogava joguinhos no celular. Ela e seu namorado foram embora sem falar com Júlia e Bel. Sensação de alívio ao mesmo tempo em que se sentiam mal por terem mentido para Elisângela. Nessas horas quais os limites de envolvimento com os personagens? Melhor dormir e tentar não pensar muito nisso.

Noite 6 – Quarta – “A fantástica sauna dos prazeres”, Bar Bacantes

Após visitar noites “tradicionais” para casais, noite do ménage e noite das mulheres, ainda faltava a experiência da possibilidade do ménage masculino. A única casa que oferecia uma programação nesse sentido era o Bar Bacantes, em Perdizes. “A Fantástica Sauna dos Prazeres” parecia a noite ideal para confirmar a inexistência na comunidade swinger de homossexualismo masculino. Por sorte, era a quarta-feira anterior ao final de semana da Parada Gay, a população GLS estava inflada pelos visitantes e turistas.

Isabel convidou um amigo gay, Marcelo. Foram como um casal. Curioso, Rafael, o namorado de Marcelo (e mais que obviamente gay) também foi, acompanhado de uma amiga, Cátia. Definitivamente não eram casais muito convincentes, mas isso era ainda melhor. Como os swingers, aparentemente tão homofóbicos, reagiriam a rapazes com calças justas e botas da Ellus? Os rapazes esforçaram-se, e muito, para não olhar horrorizados para o monte de seios e vaginas que veriam naquela noite. Provavelmente mais do que viram – e gostariam de ter visto – durante toda sua vida.

O Bar Bacantes é a maior de todas as casas de swing visitadas pelas meninas. A maior parte de seus três andares é ocupada por ambientes destinados ao sexo. Uma pista de dança, com um bar e algumas mesas, constitui o espaço social.

Também há uma sala de espera, com uma televisão ligada na Globo e três sofás de couro, na qual os homens solteiros esperam a oportunidade de entrar na casa (só são permitidos na proporção de um homem para cada três casais). Mas lá mesmo ocorreu a única manifestação de ménage masculino vista, e que nada tinha de homossexual: uma mulher com as pernas apoiadas em um homem e as costas em outro. Os dois homens vestidos, e ela só com uma blusinha, vermelha, levantada na altura dos seios. Calças e sapatos jogados no chão. Um dos homens a masturbava e, o outro acariciava seu corpo, particularmente os seios cobertos. Seus gemidos leves competiam com a voz do Jô, que entrevistava, muito apropriadamente, uma atriz pornô. E por mais surpreendente que possa parecer, a atenção de todos os demais estava muito mais focada no Jô e sua atriz pornô do que na pornografia ao vivo que se passava a apenas alguns passos de distância.

Ao entrar na casa, os dois casais, que se apresentavam como principiantes (e, exceto por Bel, realmente o eram), tiveram direito a uma visita pela casa. O habitual tour de reconhecimento. No primeiro andar, uma sala comum, duas salas para casais, um quarto enorme com duas camas gigantes e duas salas de toque, além de banheiros e dos camarins dos strippers. Lá os banheiros são mistos. No térreo há o vestiário, um mezanino de onde se vê a pista de dança e os quartos individuais. Como suítes de motel, mas menores, ficaram ocupados praticamente toda a noite. Já no subsolo é onde acontece a maior parte das atividades eróticas. Além do bar e da pista de dança, é lá que ficam o labirinto e a sauna.

A maioria dos freqüentadores são swingers de longo prazo. Um deles, o primeiro com que o casal MaBel conversou, explicou o verdadeiro significado de ménage masculino: “Homem com homem é proibido! Não acontece nunca, não pode acontecer! O que pode é a troca de casais, duas mulheres juntas ou dois homens com uma mulher. Mas só”. Além de homofóbica, a comunidade swinger também é machista: mulher com mulher é algo desejável, sexy; dois homens juntos seriam “viados”, o que é impensável. Ele já freqüenta o swing há mais de dois anos. Sua primeira vez foi no Bacantes, com uma ex. “Ninguém sabe que venho aqui. O sigilo é total. Até porque pode prejudicar outras pessoas, minhas companheiras. Eu digo que vim e logo alguém pode associar isso à minha ex-namorada, por exemplo. E aí, como ela fica?”.

Ele contou que conhece sete casas de swing: Bar Bacantes, Image Night, Inner Club, Enigma, Vogue, GA10 e Angels, este último no interior paulista, perto de Valinhos. “O melhor é o Angels. No interior as pessoas são mais doidas. O lugar sempre lota e o clima é muito mais quente. Agora, aqui em São Paulo, o único em que não vou é o Marrakesh. Costumava ser o melhor, mas eles começaram a liberar para prostitutas… eu acho uma falta de respeito. O cara tá lá, com a esposa dele, e entra outro com uma garota de programa só pra pagar mais barato. Mas aqui é ótimo. Vocês vão adorar!”.

Depois da conversa, Marcelo e Isabel desceram. Logo que chegaram ao subsolo, encontraram Rafael e Cátia parecendo assustados e falando com um outro casal. “Nós viemos mais para conhecer mesmo. Esses são nossos amigos que estão dispostos a algo”. A conversa começou. Ele, alto, gordo, com entradas, um jeito afeminado, professor de história, geografia e filosofia. Ela, corretora de seguros, cabelos curtos e maneiras masculinizadas. Ambos entre os 30 e os 40. “É nossa primeira vez aqui. Já experimentamos ménages, com homens e mulheres, mas em nossa casa. Com pessoas pagas para isso. Agora decidimos tentar o swing”. Casados há um ano, sua história parecia convincente, até que Isabel perguntou por quanto tempo namoraram antes disso. Hesitação. Ela diz, depois de um tempo, “um ano também”. Tudo pareceu falso demais. Mas, na sexta noite, já havia compreendido que todos têm suas meias-verdades.

Eles se mostraram insistentes. Queriam troca de casais, ou então ménage, com o homem olhando: “sou voyeur, gosto de vê-la com outros”. Isabel se esforçou para não rir, ao se lembrar da teoria do namorado de Elisângela “todos os voyeurs são bichas”. Com todos os quartos privados estavam ocupados, ofereceram sua própria casa: “É aqui perto, em Perdizes mesmo. Tem um ambiente legal, uma varanda. E temos toda a privacidade que quisermos”. Ao perceber a relutância do casal, desistiram. Mais tarde, encontraram Cátia e Rafael e disseram que tinham “umas substâncias bem legais na mochila, pra animar a noite, não querem ficar sozinhos com a gente e descobrir?”. Após várias negativas, deixaram os dois casais em paz pelo resto da noite.

O show de strip correu como o habitual: o homem, a mulher e, por fim, os dois juntos. Sentados em uma das mesas em frente ao palco, Isabel, Marcelo, Cátia e Rafael chamaram a atenção da stripper. Ela despiu-se na frente de Marcelo e atirou a blusa em sua direção. Rafael e Cátia saíram para não gargalhar e estragar o disfarce. Marcelo agüentou bravamente, quase convencendo que achava aquilo realmente sedutor. Quase.

Após o show, como sempre, o clima começou a esquentar. A maioria das pessoas se vestiu com os roupões disponibilizados na recepção. Todos se sentiam muito à vontade. Os homens se sentavam com as pernas confortavelmente abertas, sem se importar com o que ficava à mostra. Algumas poucas mulheres andavam só de lingerie.
Os quartos fechados continuaram ocupados por quase toda a noite. As salas coletivas quase não foram utilizadas. O labirinto estava lotado, com mulheres que faziam sexo oral em seus parceiros, cercadas por outros homens que se masturbavam enquanto observavam. A grande maioria estava na sauna. Mas nenhum dos quatro entrou para conferir o que realmente acontecia.

Bel abriu a porta para, vestida, tentando espiar alguma coisa e um homem completamente nu apareceu no meio da névoa. “Pode entrar se quiser”. Com um sorriso polido de “deixa pra depois”, ela fechou à porta e voltou ao salão. Mais tarde, ela e Marcelo perguntaram a um homem se ele havia ido à sauna, porque queriam ir mas não sabiam muito bem o que esperar. “Podem ir tranqüilamente. É só pegar um roupão. É bem sossegado. Não fiquei muito tempo porque minha acompanhante não gosta de sauna, os olhos dela ardem. Mas pelo que vi é bem calmo, podem ir sem receio”.

Depois de ver esperma no chão, sacos enrugados, vaginas completamente expostas e uma mulher vomitando no salão, além da oferta para consumo de drogas, os dois casais acharam melhor dar a noite por encerrada. Eram 2h30. Marcelo e Rafael brincavam: “Nunca vi tanta vagina na minha vida! Vou ter pesadelos por uma semana!”. Cátia ria, mas estava chocada. A experiência valeu como conhecimento antropológico. Bel pensava que só faltava uma noite agora. Uma sexta-feira, para encerrar a semana.

Noite 7 – Sexta – Oficina Pamela Vogue, Vogue Club

Era a última noite. Depois de duas semanas imersas no swing, Bel e Júlia finalmente iriam experimentar a única noite que lhes faltava, uma sexta-feira. Ainda tinham, em sua lista, algumas opções. Enigma, Image Night, Vogue. O escolhido foi o último. Já haviam escutado muito a seu respeito. Além disso, de todas as casas, era o que apresentava o site mais atraente e atualizado. Por fim, a programação era “Oficina Pamela Vogue”. As meninas reconheceram o nome, renomado no meio swinger.

Pela primeira vez, foram como duas meninas heterossexuais. Duas amigas que deixaram seus namorados em casa para se divertir um pouco. Assim poderiam dar continuidade à história do “corno, burro e broxa”. Os namorados pensavam que estavam fazendo um trabalho para a faculdade. Não era de todo mentira.

Como a maioria das demais, a casa fica em Moema. Uma entrada com sinalização em néon vermelho já indica o clima de sexo. Após deixar bolsas, casacos e celulares na chapelaria, as meninas atravessam uma porta de madeira de vai-e-vem, como aquelas de desenhos de velho oeste. Uma mulher as recebe, pergunta se é a primeira vez que visitam a casa. “Bem-vindas. Aproveitem a noite”.

Era, sem dúvida, a casa mais glamurosa, com um quê de cabaré antigo que chega a ser irresistível. As poltronas das mesas são em couro vermelho. No centro da pista de dança, há um círculo, como um disco de vinil em mármore preto e branco, em cujo centro fica o poste para o show de strip-tease. O bar ostenta garrafas, jovens garçons e uma garçonete que depois se mostrou a melhor go-go do mundo.

Sem jantar, Júlia e Isabel se sentaram e pediram por algo para comer. A casa não serve porções, só bebidas. Só no final da noite servem um café da manhã. Com pelo menos um energético no estômago, era a hora de conhecer o labirinto antes que ele estivesse lotado demais para se locomover com segurança. Logo de cara, uma das salas lhes foi barrada por um segurança. “Aqui é só para casais”. Continuaram pelo outro lado. Viram cabines privativas sem porta, só com cortinas, como no Bacantes. Salas comuns, cabines com portas, um pequeno cinema pornô e cabines para toque.

A casa foi lotando aos poucos. O público era bastante variado. Havia alguns casais mais jovens, por volta de seus 25 anos. Outros na casa dos 40. Poucos acima disso, talvez um ou outro homem cinquentão, mas sempre acompanhado de uma mulher mais nova. Poucos de aventuravam na pista, sobre o disco de vinil. Duas meninas, que já pareciam bêbadas, brincaram um pouco no poste, dando voltas como crianças. Pouco tempo depois, o DJ, que parecia mais ser DJ da A lôca, anunciou o show, que “arrasa!”.

Primeiro a mulher. Um suposto número de dança cigana, com uma loura tingida vestida de bailarina do ventre ao som de uma música cubana. Chamava os homens para participar, mas eles se contentavam em ser meros adereços, ficavam encostados no poste, enquanto ela abria seu soutien ou o deixava pendendo sobre os seios siliconados. Depois, ele, um moreno. Como todos os strippers, era enorme, provavelmente dedicava boa parte de seu dia à musculação. Estava todo de couro, no melhor estilo bad boy, com uma bandana com a bandeira dos Estados Unidos amarrada no joelho. Ao contrário dos homens, as mulheres interagiam. Duas delas pareciam ainda mais empolgadas, doidas para participar do show. Desciam rodando pelo poste, apoiadas em seus punhos. Rebolavam, dançavam e se esfregavam. Ele chama uma outra, que agora parecia ser mais uma stripper. Num só movimento ágil, tira todo seu vestido e a deixa só de fio dental. Pouco depois, nua em pêlo. Eles ficam completamente nus, numa dança que simularia o ato sexual.

Após o show, como sempre, as pessoas ficaram mais predispostas à ação. Depois de um momento de indecisão entre labirinto, abordar um casal ou esperar que as abordassem na pista de dança, Ju e Bel optaram pela pista, lotada. Garotas sem blusinhas, só com seus soutiens de renda, já dominavam os postes secundários, sobre uma pequena plataforma que cercava parte da pista. A garçonete, vestida ao melhor estilo militar (“porque a bota é indispensável para deslizar no poste”), dançava freneticamente no poste, tirando a suposta cigana da mente de qualquer um dos presentes. Tinha uns 40 anos, mas o corpo dava inveja a qualquer uma de 20. Chamou Júlia para dançar com ela. Júlia foi, Bel também. Fizeram um sanduichinho em volta do mastro, que logo se tornou uma muvuca com todos os que estavam na pista.

As duas meninas se perderam e, quando percebeu, Isabel estava num “sanduíche”, entre uma garota bonita de longos cabelos castanho-claros e um homem forte, ambos na casa de seus vinte e tantos anos. Eram um daqueles dois casais que dançavam animadamente e participaram sem receios dos shows de strip. “Oi, meu nome é Diana. Esse aí é meu irmão, Antônio”. Impossível não pensar em Bertolucci. As apresentações continuaram: “Sabe aquele outra casal que estava com a gente, antes? É meu pai e a namorada dele. E sabe o stripper? É meu namorado”.

Depois a história se explicou, ao menos o máximo que poderia. Principalmente partindo de uma Diana muito bêbada. O irmão havia se separado da esposa há duas semanas. Ela quis levá-lo ao swing para que ele se soltasse. “Aqui é a balada mais firmeza que tem, só tem gente bonita e legal. Meu namorado se apresenta em todas as casas de swing, mas é só aqui que eu o acompanho”. Quanto ao pai, parecia não haver motivo para ele estar lá. Apesar do clima de entrosamento, Antônio confessou não se sentir muito à vontade: “Ah, eu fui lá atrás, no labirinto, para conhecer, mas dei de cara com meu pai e a namorada dele. Voltei na hora”. E Diana, cada vez mais bêbada, confessou depois para sua mais nova melhor amiga, da qual ela provavelmente não se lembraria no dia seguinte: “Meu relacionamento está indo por água abaixo… Eu namoro um stripper!”. E não, de acordo com ela, eles não são swingers.

Pouco depois, Isabel encontra Júlia conversando com um homem no bar. Ele tentava conseguir um ménage à trois. Estava acompanhado da mulher que se despiu completamente no show, e que pensavam ser uma outra stripper. Júlia comentou, mas o suposto namorado negou. Ela não era da equipe da casa. Tampouco parecia sua namorada. Sua aparência lembrava, e não pouco, a de uma prostituta. Após diversas recusas de Júlia, ele continuava tentando convencê-la falando de suas diversas “namoradas” e “amigas”, que adoram sexo a três. Enquanto Isabel bebia uma água apoiada no bar, era sua vez, de ser abordada por um personagem estranho.

“Oi. É a primeira vez que você vem aqui, né? Dá pra perceber, pelo seu jeito retraído, de quem tá achando tudo novo e estranho, mas não se preocupa não”. Ele se apresentou como Roberto Carlos. “Sabe, Roberto Carlos, o rei do rock”, e fez um sinal meio punk, balançando a cabeça, para ilustrar seu próprio nome. “Você sabe, se você quiser eu posso acompanhar você, para mostrar a casa. Com respeito, você não tem que fazer nada se não quiser”. Ele obviamente a estava encarando como sua passagem livre para a sala exclusiva para casais. Por que ela não devia fazer o mesmo?

O que se seguiu foi praticamente uma visita monitorada à casa de swing. Se fosse realmente sua primeira vez, aquilo tudo teria sido muito instrutivo. Ele explicou as regras, que a abordagem deve ser feita pela mulher, que é tudo muito sutil, pelo toque ou olhar. Disse que há todo tipo de atividade, gente que gosta de ver, de ser visto, de fazer troca de casais ou sexo a três. Insistiu que homossexualismo masculino não acontece. Mas perguntou, com interesse, se ela e sua amiga eram um casal.

A sala para casais era maior que as outras. Com duas camas e bancos estofados ao longo da parede, poderia comportar cerca de vinte casais. Além disso, havia uma pequena sala contígua, revestida por vidro para aqueles que gostam de observar à distância. Nada acontecia no momento. Dois casais trocavam carícias leves, enquanto outros conversavam com a mesma naturalidade que o fariam numa mesa de bar.

O restante do labirinto estava cheio. As cabines individuais fechadas, um casal se masturbando, e depois transando, no cine pornô. Um grupo de cerca de dez pessoas se espremiam em um corredor, todos tentando observar o que acontecia em uma das cabines. Um homem fazia sexo anal com sua companheira. Do lado de fora reinava um clima de indignação. “Não dá pra ver nada, tem muita gente aqui”. Ou ainda “Que saco, a bunda dele tá bem na frente, não consigo enxergar porra nenhuma”.

Por fim, ele fez uma proposta de que as meninas já haviam ouvido falar. “Se você quiser, vamos juntos a outras casas de swing. Sem compromisso. É muito caro pra homem entrar sozinho. Eu pago a comanda, mas lá você pode fazer o que quiser”. Namorava, mas a garota não faz idéia de seus hábitos swingers. No dia seguinte, ele iria levá-la pela primeira vez ao swing: “mas não pode ser aqui, onde todo mundo me conhece pelo nome, vai pegar mal, ela vai se tocar. A gente vai ao Casablanca”.

Na parte social, algumas pessoas ainda dançavam e Júlia continuava tentando se esquivar do mesmo homem. Duas meninas, uma delas já sem camiseta, destacavam-se pelo modo como dançavam no poste. A menina só de soutien, a mais simpática das duas, explica que estavam fazendo aula de pole dance há duas semanas, em uma academia na Vila Mariana. Conheciam a dona, por isso tinham desconto. “Mas se vocês quiserem, posso indicá-las e ver se pagam mais barato. São três aulas por semana, de duas horas cada”. Como sempre, anotou seu telefone num guardanapo.

Ela não estava lá sozinha, mas praticamente não viu o namorado a noite toda. “Ele deve estar lá atrás aprontando alguma. Eu não gosto de ir lá, me sinto mal. Mas não ligo que ele vá. Eu sou mais eu. Ele vai aprontar de qualquer jeito, pelo menos assim eu sei o que ele está fazendo. Mas eu sei que aquelas meninas não têm nada perto de mim”.

Perto das 4h, o café da manhã estava servido. Melhor preparar os pratos antes que mãos cheias de sêmen pudessem tocar a comida. Salsichas, pão, bolo e café. Depois de comer, foram embora. A única frustração foi não ter encontrado Pamela Vogue, esposa do dono da casa, stripper e professora de strip-tease. Havia sido a última noite. Entraram no carro sem poder evitar um quê de nostalgia. Pensavam se seria a última noite de suas vidas numa casa de swing. Depois de todas aquelas experiências, será que voltariam? Para negócios ou prazer?

Também pra elas, a experiência do swing lhes revelou algo: uma capacidade imensa de entrar no personagem, e uma afinidade imediata entre duas colegas que mal se conheciam. As suas verdadeiras pessoas lhes eram quase desconhecidas, mas Bel e Júlia pareciam companheiras de longa data. Bel e Júlia talvez não morreriam ali, uma pontinha delas sempre estaria presente nas duas.

1/2 noite de reflexões

Inicialmente, o swing era cercado de uma aura romântica. Os casais se importavam com as histórias dos outros, era realmente um programa para dois (ou mais): eles se conheciam, tinham mais de um encontro, e provavelmente iniciavam uma espécie de relacionamento duradouro. Claro que a regra principal era que fosse sempre só sexo, sem amor, pois isso seria traição. Mas havia cumplicidade, comprometimento. Uma opção para casais sérios que queriam apimentar a relação e não tinham medo de novas experiências sexuais.

Com o tempo, isso começou a mudar. O público passou a ser mais variado: curiosos, em sua maioria jovens ou homens solteiros, em busca de sexo casual, grupal, ménages. As casas se tornaram um local para local para voyeurs, ménageurs, putas e curiosos. Homens tarados e mulheres inseguras que têm medo de ficarem sem seus maridos/namorados. Ou ainda mulheres que têm fantasia de serem Alziras e dançarem no queijo. Com o público, o clima mudou: de romantismo e intimidade para baladas liberais e glamour. As músicas de elevador e ambiente de motel, ainda vistos em alguns locais, deram lugar à batida frenética e às luzes da Vila Olímpia.

Hoje, ainda, a maioria dos freqüentadores swingers é da faixa dos 40 ou 50 anos, casais com um relacionamento estável. Nas casas de swing, impera um clima familiar, materializado no plástico de estampas florais que forra os sofás das cabines do Marrakesh, um dos mais antigos clubes da cidade. Já nas baladas liberais, o público é por volta dos 30, e mais curioso. Essas casas são caras, voltadas para pessoas mais abastadas. O preço talvez seja um modo de selecionar o público. Ou casas mais populares podem não ter sucesso pelo maior conservadorismo das classes de menor renda, talvez presas na moralidade de um cristianismo mais fervoroso?

O lema é “tudo é permitido, mas nada é obrigatório”. Há uma atmosfera de liberdade, mas que pode ser coerciva. Os drinks com nomes eróticos são o primeiro passo para “entrar no clima”. Depois de beber um “orgasmo”, quem não se sentiria mais solto? Mas parece que mesmo assim muitos não se deixam levar pelas fantasias. O que mais há é o fetiche de ver e ser visto, e não propriamente uma ação. Vimos mais masturbação do que penetração, pouca troca de casais e poucas cenas de sexo “em grupo”.

Geralmente é uma mulher que recebe vários homens, e não várias pessoas interagindo entre si. A maioria das relações sexuais é pautada pelos desejos e fetiches masculinos. Mesmo dentro do ambiente do “aqui tudo é permitido”, há certo ar de conservadorismo. Os verdadeiros swingers são machistas, não gostam muito de jovens, abominam homossexuais e prostitutas. Toda minoria é conservadora e extremista.

“Nada é obrigatório” também é relativo. Muitas vezes as mulheres se vêem forçadas a freqüentar tais ambientes com medo do que poderia implicar um “não” aos seus companheiros. Não encontramos relações bem resolvidas, e talvez nem os freqüentadores esperem encontrá-las. Como disse o namorado de Elisângela “aqui ninguém é normal”. E a maioria dos freqüentadores vai “para meter”. Um único casal com que tivemos contato demonstrou realmente fazer consensualmente e por prazer, “fazendo amor”. A maioria das relações se restringem ao ambiente da casa, e as pessoas estabelecem uma relação paralela com seus com pseudônimos.

Sexo seguro. Outro ponto que salta aos olhos. Ou, aparentemente, não. O único lugar onde vimos camisinhas à venda foi no Nefertitti, onde havia uma máquina de camisinhas ao lado de um dos banheiros da área “sexual”. A suposta venda no bar do Marrakesh não foi comprovada. Algumas camisinhas usadas eram encontradas nas cabines, mas a proporção era bem pequena se comparada ao número de trepadas. Na hora do tesão, será que alguém pensa nisso? E no sexo grupal? A higiene no geral se restringe aos bactericidas, álcool gel e toalhas de papel dentro das cabines e o Listerine nos banheiros. Porque, afinal, mau hálito é broxante.

Para alguns, todas as fantasias sobre swing se esgotaram. Para outros, é um ambiente atrativo pelas histórias. Foi o nosso caso. Outros ainda se descobrem ali e vêem o lugar como vazão para desejos reprimidos ou desconhecidos. Deixamos ao leitor a oportunidade de descobrir a sua impressão. C’mon baby, let’s swing again…