1º semestre de 2010

Editorial

Esperar é humano

O que diferencia o ser humano dos demais bichos? Não é a linguagem – apesar de sermos os únicos capazes de falar, é sabido que outras espécies possuem diversas formas de comunicação — algumas rudimentares, outras mais complexas. Também não é a habilidade de criar e utilizar instrumentos, pois outros também o fazem. O que nos torna humanos é a capacidade de reflexão. Não apenas sobrevivemos no mundo, mas agimos sobre ele e temos consciência desta ação ao longo do tempo. O ser humano é o único bicho histórico que existe. E, bem, se existe ciência do tempo; se existem passado, presente e futuro; então central à existência do homem é a espera. Nada mais fundamentalmente humano do que esperar.

Os objetos da espera e os sentimentos que ela desperta – foi sobre isso que decidimos nos debruçar nesta edição de “Babel”. Começamos falando de fé, a espera convicta pelo impalpável e improvável. Em São Tomé das Letras, famosa por sua “aura mística”,  Ana Carolina Athanásio e Carla Peralva conheceram a ordem da Eubiose, que acredita em seres extra e intraterrestres e confia na vinda do próximo “avatara” (ser superior). Já Eliseu Barreira e Stefhany Tiveron visitaram cultos evangélicos São Paulo afora e lançaram um olhar forasteiro sobre as crenças ali professadas. Saulo Fujii nos apresenta Mordechai Moré, ex-pastor evangélico, negro, hoje líder de uma comunidade que visa recuperar o passado judeu.

Mas há quem espere por coisas deste mundo, ainda nesta vida. É o caso dos sem-teto que ocupam prédios abandonados, dos cães sem dono, do casal na fila da adoção de uma criança, dos colecionadores de figurinhas que não vêem a hora de completar o álbum, da torcida organizada que deposita todas as suas esperanças em um campeonato (mesmo que ele se repita no ano seguinte)… Grandes ou pequenos, frívolos ou caso de vida de morte, não importa. Para nós, todo desejo tem seu valor, dado que marca uma fase da vida. Vamos acumulando esperas e esperanças ao longo dos anos (e, com os sucessos e desilusões, boas histórias). Só não sonha nem espera nada quem já morreu. A não ser que os religiosos estejam certos…

É aí que terminamos. A revista acabamos onde acabamos todos. Letícia Mori passeou por cemitérios de classes alta e baixa de São Paulo, tentando conhecer, através dos vivos, as histórias dos mortos que jazem ali. Esperamos que gostem desta “Babel” e a terminem esperando, ansiosamente, a próxima.

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