1º semestre de 2010

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Doze horas e meia na 25

Por Carlos Giffoni

Todo paulistano já visitou alguma vez e muito brasileiro conhece de nome. A rua não é pequena, mas também não é grande. A concentração de pessoas em dias de semana, em vésperas de feriado, do Carnaval ao Natal, assusta. Muita gente foge dali. Muita gente sabe que aquele é o melhor lugar para resolver os seus problemas. Encontra-se de tudo. De tudo mesmo. Encontra-se todo o tipo de gente, inclusive gringo. Ô, como tem gringo. Não no sentido turista da palavra, mas no sentido internacional mesmo. Tem peruano e boliviano, tem chinês e japonês, tem americano e árabe, tem até alemão perdido. Em média, cerca de 500 mil pessoas passam todos os dias por ali. No final do ano, esse número chega a 1,2 milhão. A Rua 25 de Março, localizada no centro de comércio popular em São Paulo, é considerada por muitos um inferno – principalmente em dias de sol! –, mas esse inferno deve ter um ímã para gente, porque (bem) freqüentado, ele é.

Manhã

Chego no meu destino às 7h30 do dia 2 de dezembro, uma quarta-feira. Para mim, seriam apenas mais algumas horas de entrevistas com pessoas que, por algum motivo, estavam no mesmo lugar. Enfim, nada de especial. Uma série de surpresas mudou completamente o rumo que eu – e esta reportagem – tomamos. Meu primeiro passo é abordar Márcia, 42 anos, que tinha acabado de chegar e montava sua barraquinha de lingerie. Ela me conta que trabalha na rua há quatro anos. Os biquínis são o seu carro-chefe. “Venho com duzentos quilos de mercadoria por dia numa perua, do Brás até aqui.” Seu lucro é de 40% sobre as peças, e no final de ano ela chega a vender até R$ 1.700,00 por dia. Faça as contas.

Em seguida, acho graça em ver a loja do Mc Donald’s aberta (desde as 7h). Cliente no horário, os funcionários garantem: tem. Cada caixa registra em média 1.700 pedidos por dia – contando que o Mc fica aberto até as 19h, isto resulta em 140 pedidos por caixa, por hora, ou 2,3 pedidos por caixa, por minuto. Ou seja, cerca de 25 segundos para cada pedido. São três ou quatro caixas funcionando simultaneamente. Haja fôlego. Gustavo, 22, é um dos gerentes. Hoje responsável por 63 funcionários, ele está na empresa há seis anos. Na 25, há um mês. Acabou de ser promovido. Ele acordou às 3h30, em Cidade Tiradentes, na zona leste da capital paulista, para sair de casa às 5h30 e abrir a loja. Ali fica até as 16h30, quando começa a arrumar suas coisas para ir à faculdade. Gustavo estuda Administração na Uninove, à noite. Depois da faculdade, casa. Dormir? “Vou dormir depois de meia-noite e meia.” Você dorme três horas por noite? – eu pergunto. “É, a gente se acostuma.”

Como já  é de costume para quem está na rua todos os dias, uma aglomeração começa a se formar. O barulho de apitos ecoa na cabeça de quem passa. O major Tamoshino, 49, que é responsável por mais de cem policiais na região, explica: “Os camelôs queriam causar tumulto, mas já estamos conversando com eles”. Ele acrescenta que, além das manifestações dos ambulantes, ocorre muita apreensão de material ilegal e, principalmente, furto na 25 de Março. Veja o principal porquê, segundo ele: “Aqui tem muito chinês que anda cheio de dinheiro no bolso. Já que estão irregulares no país, eles não podem abrir conta no banco. Quando um é roubado, nem faz a ocorrência, porque senão ele é que vai para a cadeia. Muito dólar rola aqui, isto atrai a criminalidade”. E claro, o major não deixa de citar as donas que saem com dinheiro e cartões nas mãos de loja em loja, ou barraquinha em barraquinha. Durante esta conversa, escuto um policial militar falando para um ambulante: “Vai trabalhar em outro lugar. Aqui vocês não podem mais. Nós também queremos tranqüilidade”.

Vamos aos fatos – explicados por uma vendedora ambulante que estava no meio da discussão: a Guarda Civil Metropolitana era a responsável pela fiscalização na Rua 25 de Março há muito tempo. Evidentemente, acordos entre os guardas e os ambulantes já tinham sido feitos. Vez ou outra, quando a Prefeitura mandava ou os lojistas da região exigiam, a Guarda mostrava serviço. O resultado desse serviço, os paulistanos acompanhavam no noticiário (confusão, confronto e pancadaria). Aquela quarta-feira era a primeira em que a tal fiscalização passava a ser responsabilidade da Polícia Militar. Isto, em qualquer profissão: o primeiro dia é dia de mostrar serviço. Os policiais não faziam diferente, impedindo os camelôs de vender suas mercadorias.

Quem me contou tudo isso foi Telma, 30. A primeira frase que a escuto falar, dirigindo-se ao major Tamoshino, foi: “Mas e o leite das crianças?”. A segunda e a terceira, foram: “Assistência e emprego, ninguém dá. A gente vem trabalhar e ainda querem nos impedir”. Telma trabalhava como cozinheira em shopping, mas diz que desistiu do emprego porque não ganhava o suficiente para sustentar a casa. Então, passou a vender bijouterias na 25 de Março, como ambulante. A culpa de tudo aquilo, segundo ela, era do Executivo e dos lojistas: “Político só lembra de pobre em época de eleição. A gente entende a profissão dos policiais, mas eles podiam liberar ao menos a feirinha na rua. Quem não deixa são os donos das lojas”. “É só a gente quebrar tudo”, grita uma mulher que escutava a nossa conversa. Quando pergunto a Telma em quem ela votou para o cargo de prefeito nas última eleições, ela responde: “Não votei em ninguém, meu voto é da Bahia”, com o sotaque já completamente disfarçado pelos anos na cidade de São Paulo.

Telma tentou me levar para outros pontos da região em que policiais e camelôs discutiam. Vi que ela era uma das líderes. Mas aquilo não parecia que duraria muito. Vários mini-grupos de ambulantes, com cinco ou seis pessoas, formavam-se em pontos diferentes da 25 de Março. Tudo o que eles faziam era discutir, opinar, contar a própria história e como tinham chegado ali, mas não parecia ser mais do que isso. Então, decidi continuar minha caça a entrevistas com outros públicos na rua. Fui a uma lanchonete, na esquina da 25 com a Rua Basílio Jafet, onde Carla, 34, e Fabiana, 29, vizinhas, tomavam café da manhã: suco de laranja e esfiha de carne para as duas. “Viemos comprar pisca-pisca, Papai Noel e outros enfeites de Natal, mas a árvore já está montada”, conta Carla. “De repente, compro uma bolsinha também”, acrescenta. Elas, que chegaram às 9h20, pretendiam ficar até o meio-dia. “Estamos carregando as baterias para encarar isso aí”, diz Fabiana, referindo-se ao movimento que àquele horário já se fazia ver na rua. Quem fez o suco que as duas amigas bebiam foi Eduardo, 22. Aquele era o seu primeiro dia de trabalho na lanchonete. Ele chegou às 6h; para isso, saiu de sua casa, no bairro do Ipiranga, na zona sul de São Paulo, às 5h. “Minha primeira função foi espremer o bagaço da laranja, mas acho que vão me dar outras coisas para fazer.” Até as 9h30, ele tinha espremido cerca de 300 laranjas, ou 600 metades de laranja.

Da lanchonete, vou à maior loja da 25. Na Armarinhos Fernando, o ventilador estava em promoção. O gerente, na porta, manda descer mais. Lá, oito bolas vermelhas para enfeitar árvore de Natal saíam por R$ 5,10. A boneca Maria Chiquinha “com cheiro de brincadeira” custava R$ 19,90.  E uma mangueira de 10 metros em PVC flexível para uso geral podia ser comprada por R$ 9,20. Informações não tão úteis à parte, às 10h20 ainda se ouvia o apitaço dos ambulantes na rua.

A poucos metros dali, vejo uma vendedora se aventurar entre pedras e peças diferentes na desmontagem de uma vitrine. Antônia, 28, na verdade, não é vendedora, mas vitrinista. Aquela é a sua profissão. Ela insiste que seria melhor para a minha matéria se eu conversasse com uma das vendedoras da loja. Eu digo que a sua história me bastava. Antônia já viu muita confusão na 25, pois tem vários clientes na rua. Enquanto conversa comigo, ela deixa várias pedras da vitrine que desmontava caír, mas diz para eu não me preocupar em pegá-las porque era normal. O segurança da loja começa a abaixar as portas com a aproximação dos ambulantes, que tinham crescido em número e faziam cada vez mais barulho. Ela me explica: “Geralmente, eles fecham as lojas com medo dos ataques. É comum jogarem ovos, aí fica aquele cheiro ruim”. O trabalho que Antônia ia colocar no lugar da vitrine que desmontava era para o Carnaval – já em dezembro. Ela, que fez um curso no Senac para exercer essa profissão, tinha começado o serviço quatro dias antes e pretendia acabá-lo ainda na quarta-feira.

Vejo que a manifestação não foi a lugar nenhum e saio da loja. Logo na calçada, em frente, encontro João, 42. Ele trabalha na 25 há dez anos, sempre com o “Pegue Ball” – a pessoa A joga uma bolinha para a pessoa B que pega essa bolinha com uma mini-bandeja acoplada à sua mão. O jogo é mais simples do que parece. Cada par custa R$ 12. João paga R$ 5 ao seu fornecedor. “Começo a trabalhar às 9h e vou até as 17h, isso quando a fiscalização deixa.” O movimento dos ambulantes que protestavam pela presença da PM se aproxima do local onde estávamos e João para de jogar o Pegue Ball com o seu parceiro. “Eles podem achar ruim de a gente não participar. Eu sempre participo e nunca resolve nada. Só queima o filme da gente.” Quando eles se afastam, o jogo recomeça, com a abordagem aos clientes: “Aceito dólar, euro e conta atrasada. É o Pegue Ball, R$ 12”.

Outra ambulante que não participava do apitaço era Celma, 27. Ela trabalha na 25 de Março há dois anos. Já vendeu cesto de roupas, “Bateu, colou” – o mesmo “Pegue Ball” do João –, e agora sua mercadoria é o ímã chinês (dois ímãs de formato cilíndrico que, jogados para o alto, produzem um barulho causado pela atração, choque e repulsão entre eles). Um par custa R$ 3, dois, R$ 5. Este Natal está fraco para Celma, que tem vendido cerca de 100 pares por dia. Em 2008, ela vendia 200. Mais uma vez, os manifestantes se aproximam de onde eu estava, com os apitos, que denunciavam sua movimentação. Celma desmonta o estande feito de papelão e os espera passar. “Faço isso mais ou menos oito vezes por dia, ou por causa dos camelôs ou por causa da Guarda.” Eu peço a ela que me demonstre como faz para vender os ímãs, que, aparentemente, não têm atrativo nenhum: “Ímã chinês, vem dar uma olhadinha, cliente. Se cair no chão, não quebra. É difícil encostar e não levar. O ímã é diferente. Serve também para segurar alfinete, moeda e recado na geladeira.” Segundo ela, o barulho que os ímãs fazem incentiva a compra. Celma para de me dar atenção e diz: “Eu acho que eles estão vindo”. Ela desmonta mais uma vez a barraca improvisada – e assim foi durante todo o dia.

“Ão, ão, ão, polícia é pra ladrão”, gritavam os camelôs às 10h30.

Bem, o que veio a seguir durou muitas horas, mas parece que se passou em minutos. Daquele momento em diante, a Rua 25 de Março, no centro de São Paulo, virou um cenário de guerra. Ou o inferno, como muitos preferiam classificar.

Por volta das 10h40, a multidão corria na rua fugindo das bombas que os policias jogavam. Os PMs andavam pela 25 para espalhar os grupos de manifestantes e jogavam bombas de gás lacrimogênio. À medida que caminhavam, não economizavam no gás de pimenta que iam deixando para trás. Eu entro numa loja frações de segundo antes do segurança abaixar as portas. Lá dentro, vejo uma senhora que tinha corrido na minha frente para dentro do estabelecimento. Vendo-me com bloquinho e caneta nas mãos, ela me diz: “Agora não é mesmo a hora”. Cerca de 30 pessoas estavam presas dentro da loja, de 200 m2. Vejo mãe e filha conversando, como se nada estivesse acontecendo, decidindo qual seria o melhor enfeite para a árvore de Natal. “Mãe, este, para por na árvore lá fora, não fica bom?”, diz Nádia, 30. Ela conta que sempre acompanha a mãe porque na 25 encontra de tudo também para a sua casa, e mais barato. “Até agora gastamos R$ 300 em decoração de Natal, mas esta é a última loja. Estamos aqui há duas horas e meia. Só não fomos embora quando a confusão começou porque fecharam as portas.”

Helayne Cortez, 27, repórter do SBT Brasil há oito meses, aborda, com microfone em mãos, pessoas que passam na rua depois da confusão. Ela, como eu, não esperava que sua matéria fosse se transformar naquilo: “Cheguei aqui às 8h para fazer uma reportagem sobre funcionários temporários e agora estou cobrindo o factual. Fico até acabar”. Meio assustada, ela diz: “Levei gás de pimenta na cara!”. Eu também, Helayne.

Às 11h, minha unha, no tênis apertado, quebrou e começou a doer muito. Àquela altura, Folha de S. Paulo, Record, SBT, RedeTV, Band e Mix TV já estavam na 25 de Março. Eu cheguei antes de todo mundo. Diz-se no jornalismo que o bom profissional tem que contar com a sorte: estar no lugar certo, na hora certa. Imagino que seja assim em várias outras profissões. Enquanto eu procurava quem mais da imprensa estava por ali, um transeunte passa e diz em voz alta: “Mundo cão. Deus me livre”. Deus nos livre.

Antes do meio-dia eu já tinha muita fome e optei por fast-food. Era necessário que fosse “fast”, porque eu não podia correr o risco de perder nada importante. Volto ao Mc Donald’s, peço minha promoção do Big Mac que custa os usuais R$ 12,50 e subo ao segundo andar para me sentar. Durante a refeição, eu – e todo mundo que estava perto de mim – reparo em três jovens mochileiros que se comunicavam em alemão. Depois de comer, puxo assunto (em inglês) com Kai, 25, Jakob, 25, e Philipp, 27. Kai me conta que eles estão em São Paulo de passagem. Na verdade, os jovens de Frankfurt moraram um ano em Santiago, Chile, estudando Engenharia Mecânica e Administração de Negócios. Agora, antes de voltar para casa, foram conhecer o Brasil. Entenda-se por Brasil o Rio de Janeiro. Na ida, desceram do avião em São Paulo e passaram uma noite na região da Avenida Paulista. No Rio, conheceram a capital, Ilha Grande, Búzios e outras cidades da costa. Philipp me conta que o Natal passarão na Patagônia, já que a viagem antes da volta para casa ainda durará três meses. Eu pergunto se eles tinham escutado alguma coisa sobre a Rua 25 de Março e eles, ao negarem, perguntam em resposta o que tinha acontecido no dia 25 de março. Envergonhado, digo que não sei, mas que não era nada muito importante. [Ao chegar em casa, procurei na internet e vi que era importante, sim. Neste dia, em 1824, o imperador Dom Pedro I outorgou a 1ª Constituição do país.] Explico a situação dos camelôs aos alemães e encerro com uma pergunta: “What about the Brazilian girls?”, Philipp responde, em nome do grupo: “We’ve met some, but nothing serious”.

Tarde

Como se não fosse suficiente confronto entre camelôs e policiais militares até  agora, que não tinha acabado, apenas diminuído de intensidade – e gravidade, com menos bombas –, às 12h02 um homem, sentado na janela do sétimo andar do prédio de número 817 da 25 de Março, chama a atenção de quem passa por ali. Para mim, estava claro que ele só tentava arrumar alguma coisa na janela, mas a suspeita de tentativa de suicídio fez com que todo mundo fique olhando para cima. As pessoas gritavam “Puuuuuuuula”. Em menos de 15 minutos, mais de 300 homens, mulheres e crianças miravam o rapaz na janela, foi então que eu me dei conta de que devia, realmente, ser uma tentativa de suicídio. Algumas frases que escuto nos momentos de apreensão com o homem pendurado na janela: “Pula logo, infeliz. É uma ajuda moral, ué, já que ele quer pular, pula”; “Depois que ele se jogar a gente volta” – diz uma mãe para a sua filha, que não tinha mais de sete anos; “Vem pra cá, mano. Você vai ver o cara se estourar no chão” – jovem falando ao telefone; “Tá mó inferno aqui. Tem briga de polícia com camelô, tem um cara querendo pular do prédio” – também ao telefone. Chego a me sentir mal por achar graça na falta de sensibilidade da população. Mas nem tenho tempo para isso. Ao meu lado, uma contagem regressiva foi iniciada para incentivar o suicídio daquele que tinha conquistado seus 15 minutos de fama. Na verdade, uma hora e quarenta e dois minutos de fama, porque às 13h46 os bombeiros resgataram o pretensioso suicida. Confesso que durante esse tempo dei uma escapada ao Mercado Municipal e conversei com outras pessoas na 25, mas a situação permanecia exatamente a mesma quando voltei para a frente do número 817.

Na agência 0084-1 do Bradesco na 25 de Março conheci Sandra, 37. Ela trabalha ali como atendente de contas há quatro anos e foi a primeira pessoa que abriu o jogo comigo: “Este lugar é um inferno. A rua é muito tumultuada, suja. Não gosto de comer aqui, tenho nojo. As pessoas são mal educadas, principalmente os lojistas que têm dinheiro, porque eles acham que dinheiro é poder. Nem freqüento o comércio, apesar de saber que tem coisa barata e que vale a pena”. Todos os dias, antes de voltar para casa, Sandra para no Rei do Mate da estação de metrô São Bento para tomar um café: “É para passar o estresse”.

Por volta das 14h, o cenário de guerra voltou a tomar conta da rua. Criativos, os manifestantes jogam cocos do alto da Ladeira Porto Geral, que atingem os policiais localizados lá embaixo, na 25 de Março. Grupos atiram ovos nas vitrines das lojas. Focos de incêndio aparecem em vários pontos da rua. Dá-lhe gás lacrimogênio e de pimenta na nossa cara. Duas horas depois de vai-e-vem no confronto, começa a chover. Os lojistas não sabiam o que fazer. Às vezes, por minutosm, parecia que a paz tinha voltado, mas isto durava minutos. Assim, abre, fecha, sobe e desce porta em toda a rua. O batalhão de choque da PM perdeu o controle: balas de borracha eram atiradas contra a população – e os camelôs se misturavam no meio de clientes da 25 e de pedestres.

Maria Aparecida, 59, pagava no caixa da Armarinhos Fernando as compras que tinha feito. Pergunto se não tem medo de toda a situação e ela responde: “Infelizmente, eu vim hoje para a 25. Nunca tinha passado por isso. Via na televisão, mas não imaginava que podia acontecer comigo. Minha irmã e eu viemos de São Bernardo para comprar presentes para os netos. Eu tive vontade de ir embora, só não fomos porque ela é teimosa. É muito triste. Jogaram spray de pimenta na minha cara, senti tudo queimando. Não quero voltar mais aqui neste ano”. Ao nos despedirmos, ela me diz: “Você vai dar um lindo repórter” – espero que sim, dona Maria Aparecida. Sorri e desejei boa volta para a casa.

Noite

Às 17h, os vendedores de água foram embora, porque seus isopores tinham se esvaziado. A ocasião (pimenta no olho de todo mundo e muita tosse devido aos gases) contribuiu, e eles não deixaram de usar isso ao seu favor: ‘Pra garganta com gosto de pimenta, olha a água gelada!’.

Às 17h30, alguns lojistas se cansaram do jogo de gato e rato, ou melhor, do fecha e abre das portas de acordo com a movimentação dos manifestantes na rua e as abaixaram de vez.

Às 18h, muitas lojas chegavam ao fim do expediente, no seu horário normal. A chuva e a polícia na rua fizeram com que alguns lojistas antecipassem o fim do dia comercial.

Às 19h, os últimos moicanos se despediam dos clientes que ainda passavam pela região.

Às 20h, a 25 de Março se passava por qualquer outra rua comercial da cidade. O lixo já tinha sido recolhido e o fogo, controlado. À parte os resquícios de ovos em algumas vitrines, não dava para imaginar o que tinha se passado ali nas últimas doze horas e meia.

E às 20h15, depois de 15 minutos sentado nos degraus da entrada do Bradesco esperando para ver se algo ainda acontecia, este repórter deu fim ao seu expediente.

Balanço do dia: eu vi muitas pessoas de todos os tipos, diferentes gostos, estilos, e que me disseram de tudo, menos o que eu queria ouvir. Não encontrei ninguém que só fosse elogios à 25. Certamente, a culpa é toda minha, pois em algum lugar haveria de se encontrar  alguém que me dissesse: “Este lugar é o paraíso”.

No dia seguinte àquela quarta-feira, mais protesto. Desta vez, sem tentativas de suicídio.

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Canções para odiar o Senhor

Batismo pelo fogo
Sinta a ira das chamas implacáveis de Satã
Desejos incrédulos
Quando deus está  perdido e em seu planeta o fogo do inferno reina

Por Alexandre Soares e Rodrigo Barros

Não bastariam o vocal gutural, as guitarras pesadas e o visual agressivo com pintura no rosto e roupas extravagantes, era necessário uma pitada a mais de maldade. É aí que entram as letras anticristãs do estilo mais macabro do já obscuro heavy metal: o Black Metal. Os quatro primeiros versos de Baptism by Fire, da banda sueca Marduk, são um exemplo clássico disso e de quanto demônio e inferno são figuras freqüentes nesse estilo de metal extremo.

Na verdade, é  bem provável que a oposição às doutrinas cristãs tenha vindo antes mesmo de todo o resto – esta, aliás, é comummente considerado  o único traço comum a todos que tocam Black Metal. As bandas consideradas precursoras do estilo, como Venom, Hellhammer e Celtic Frost datam do começo da década de 1980 e são inspiradas em grupos de Heavy Metal como como Black Sabbath e Iron Maiden. O que os fãs e músicos de Black Metal fizeram foi transformar a oposição às doutrinas cristãs num dos objetos centrais de sua “filosofia”, valendo-se de elementos que vão do paganismo ao satanismo e até à filosofia para expor suas ideias pela música.

A história do estilo é bem controversa, principalmente na década de 1990, quando ele alcançou os países escandinavos com mais força. A denominação do gênero está ligado ao segundo disco da banda inglesa Venom, Black Metal, de 1982, e que está muito mais para o metal tradicional do que para o estilo que o batiza. Ainda na ativa, o leque de bandas influenciadas pelos ingleses chegam a grupos que se tornaram muito mais famosos que os próprios como o Slayer e o Metallica, que chegou a abrir algumas apresentações para o Venom no início da carreira.

A notoriedade desse movimento chegou apenas com sua popularização nos países nórdicos, no começo dos anos 90, quando a imprensa mundial começou a dar maior atenção ao gênero. O Black Metal tem uma relação que, não raramente, é considerada especial com esses países justamente pela singularidade das religiões locais e sua vocação para se opor ao cristianismo. Ai, mistura-se também o orgulho nacionalista e o antagonismo ao cristianismo para formar um estilo peculiar de adoradores do estilo. As páginas ocupadas, porém, não eram as de arte e cultura, mas sim o noticiário internacional ligado à política e violência.

O primeiro caso aconteceu em 1991 quando Per Yngve “Dead” Ohlin, vocalista da banda norueguesa Mayhem, suicidou-se com um tiro de espingarda na cabeça. O guitarrista da banda, Øystein “Euronymous” Aarseth, fotografou o cadáver de Dead e a imagem se tornou a capa do álbum seguinte do Mayhem, “Dawn of the Black Hearts”. Entre as lendas que circundam este caso constam a história de que Euronymous teria comido partes do cérebro de Dead e que ele teria feito colares com fragmentos do crânio de seu companheiro de banda.

Euronymous se envolveria num outro caso de morte, desta vez como vítima. Aarseth foi assassinado a facadas por Varg Vikernes, na época líder de outra banda de Black Metal, o Burzum. Os dois faziam parte de um grupo chamado Black Metal Inner Circle, algo como círculo interno do Black Metal, cujo principal objetivo era lutar contra o cristianismo na Noruega. O principal ato promovido pelos membros do Círculo era o incêndio de igrejas em todo país, algumas com mais de 200 anos. Varg e Euronymous divergiam quanto ao satanismo, o líder do Burzum não aceitava a imagem satânica, o oposto de Aarseth, adorador do demônio.

Quanto a Varg, ele foi condenado a 21 anos de prisão e desde maio de 2009 cumpre liberdade condicional. Junto com sua liberdade, o Burzum deve voltar à ativa. O Black Metal Inner Circle, por sua vez, perdeu força e os atos contra igrejas nos países nórdicos – pelo menos ligados à esse grupo – minguaram.

Com a virada do século, o Black Metal, como qualquer gênero do rock, acabou se subdividindo e criando diversas vertentes conforme ele foi se popularizando. Pode-se dizer até que a única característica inerente ao gênero é o anticristianismo. Desde o início, os temas ultrapassavam o satanismo e o anticristianismo. A morte, a guerra, a misantropia (aversão ao ser humano) e o paganismo são temas muito freqüentes nas letras. No caso escandinavo, a mitologia viking se faz bastante presente. O importante não seria, necessariamente, cultuar o demônio ou o inferno, mas sim fazê-lo caso a banda julgue que esta é a rebelião máxima aos dogmas cristãos.

Junto com a popularização do gênero, veio também o profissionalismo e o sucesso para alguns grupos, principalmente na escandinávia. As novas bandas incluíram no conjunto vocal gutural e cozinha rápida influências da música clássica e, algumas vezes, teclados e um segundo vocal lírico, deixando a música mais limpa. Hoje em dia, bandas como Dimmu Borgir e Cradle of Filth tocam para grandes públicos em turnês mundiais.

A cabeça dos fãs

Mas o que pensa um fã de tudo isso? Ele se comporta como os músicos que admira? Na verdade, ao menos no Brasil, o Black Metal não é levado tão a sério e a admiração vem mais da afinidade com o som.

É o que explica Thiago Silva, estudante de história e fã do gênero desde adolescência. “Ah, antes eu até tinha essa vibe meio rebelde, mas não dou mais bola não. Acho meio escroto esse negócio de ritual e tal, minha galera não é muito disso não. Gosto do ‘dark side’, mas acho ridículo ficar matando ovelha pra oferecer pra satã. Essa porra é meio paranóia. Não dou muita bola pra ideologia da coisa, gosto do som”, diz ele.

Na entrevista, Thiago – filho de católicos que “não aguentam que seu filho escute música de satã” – usava roupas que aparentemente fogem ao radicalismo. Ele não trajava preto, nem camisas com caveiras e elementos sinistros, mas uma camiseta branca e jeans. Ele justifica sua escolha pela pressão social. ” Tem que se sentir bem tá ligado? Lógico que não vou assim [com roupas ligadas à “tribo” do Black Metal] em todos os lugares, mas foda-se, me visto como eu quero. Só tenho que ter noção pra não virar tipo um palhaço. Tudo tem seu lugar”, conta ele, exibindo com orgulho fotos dele com amigos em um show recente em que todos usavam maquiagem e roupas “excêntricas” como seus ídolos. Olhando com um pouco mais de cautela, porém, nota-se que Thiago não abandona alguns dos elementos da cultura do Black Metal quando está, como ele define, com “roupas de gente”. No pescoço, ele carrega um crucifixo invertido, simbolizando seu desgosto pelo cristianismo, e um pé de coelho (verdadeiro), encapado com resina.

O fato de não agir com o radicalismo de alguns dos pioneiros do gênero não lhe tira o desprezo pelo cristianismo. Segundo ele, quanto mais ele se aprofunda no curso de História, mais repulsa adquire pela Igreja, de acordo com ele “a maior assassina de todos os tempos”. Porém, ele repudia atos de violência contra prédios cristãos. “Esse negócio de queimar igreja é zuado. Pra mim, se a pessoa quiser ir a igreja, que se foda. Preferia comer merda, mas beleza. É meio absurdo você queimar um prédio porque não concorda. Se todo mundo fizesse isso a gente tava morando em caverna”, pondera.

A cabeça dos músicos

Para saber o que os músicos pensam, entrevistamos Count Imperium (ou Marcelo), fundador e baterista da banda Ocultan, do ABC paulista. O horário não poderia ser mais adequado: a partir das dez e meia da noite, após se encerrar a rotina de gravação do Ocultan. Formada em meados da década de 90, a banda é considerada hoje uma das mais organizadas do gênero no país e se prepara para lançar mais um CD no início de 2010.

Mesmo assim, o Ocultan não consegue viver só da música. Count Imperium afirma, sem sombra de dúvidas, que nenhuma banda de Black Metal no Brasil – ou qualquer estilo considerado extremo – consegue se dedicar exclusivamente à essa atividade. “Na verdade eu e minha mulher [a guitarrista da banda, Lady of Blood] tem ligação com rock porque a gente tem uma empresa de acessórios, relacionado a rock, heavy metal. Os otros dois são de áreas totalmente diferentes da música. Se a gente quisesse ganhar dinheiro a gente seria uma banda pop, seria muito mais fácil, mas não é a nossa. Fazemos nossa musica, se tiver sendo bem aceito ótimo, se tiver quem não goste foda-se”.

Outro fator que dificulta a ascenção de uma banda no cenário nacional e internacional é, segundo ele, a rejeição das gravadoras e ao fechamento do espaço em poucas bandas e pessoas. “Tem essa parada de mp3 que fode com as vendas e no geral as gravadoras não gostam do Black Metal porque não atingem um minimo de vendas. Não tem como fazer como as bandas gringas que fazem 160 shows por ano.”

Seguidores da Quimbanda, religião trazida para o Brasil pelos escravos africanos, o Ocultan utiliza os elementos históricos e depoimentos desse credo nas suas músicas. “A gente escracha mesmo os dogmas da Igreja, essas porra, a gente não respeita e ao mesmo tempo a gente enaltece o que a gente acredita, como os rituais do Quimbanda. Antigamente, quando não tinhamos tanto conhecimento, a gente falava mais com o coração, hoje em dia a gente procura aliar mais o coração com o conhecimento”. O Ocultan, por sinal, é um exemplo claro de como o satanismo não é uma tendência obrigatória para o Black Metal.

E mesmo quem vive o Black Metal nos palcos, às vezes, não ostenta o radicalismo de alguns fãs. Isso pode causar espanto, já que a impressão que se tem é a oposta. “A gente tem nossa musica e se dedica a isso, mas temos a nossa forma de curtir. A gente sai com nossos amigos, sai pra beber, tem uma vida normal”. Todo o clima sombrio, criado pela pintura dos corpos dos artistas (o corpse painting) e atuações quase teatrais, fica restrito às músicas e aos palcos. “Tudo isso cria um clima morbido, obscuro, que é o que tem a ver com o Black Metal. A banda só ganha com isso”.

Advogado dos diabos?

José  Luis de Oliveira Lima fala porque defende José  Dirceu, Cacciola, Dantas e Abdelmassih

Aos 43 anos, José  Luis de Oliveira Lima comanda um dos 30 escritórios de advocacia que concentram os grandes casos criminais do país. Advogado do ex-ministro José Dirceu, do médico Roger Abdelmassih e dos banqueiros Daniel Dantas e Salvatore Cacciola, Oliveira Lima acredita no otimismo do povo brasileiro, não defende apenas quem não lhe é simpático e lamenta ter sua atuação questionada. O que o faz prosseguir? “Até o mais cruel dos acusados tem que ter um advogado”.

Por Fábio Brandt

“Já disse isso pra cliente: o trabalho pra você aqui é que você tenha uma pena e um julgamento justos, porque a condenação, diante do que se apresenta, é certa”. Ao recordar essa passagem, o advogado criminalista José Luis de Oliveira Lima tirou os olhos do mini notebook que o obrigava a se encurvar sobre a escrivaninha e os colocou em mim. Sem mudar o tom de voz suave e cauteloso dos momentos anteriores, quando trabalhava e dava entrevista ao mesmo tempo, declarou: “qualquer pessoa, até o mais cruel dos acusados tem que ter um advogado, até pra dar legalidade ao julgamento”.

Os fios de cabelo castanho-escuros, lisos e soltos, parecem ser os únicos elementos em desacordo com a placidez quase permanente da expressão de Oliveira Lima. O rosto fino e sem barba, o queixo protuberante e, principalmente, os óculos – de lentes redondas e pequeníssimas, quase da mesma circunferência dos olhos – coroam a tranqüilidade transmitida pelo advogado nas mais diversas situações: rindo, dando entrevistas coletivas e mesmo fazendo argüições no Supremo Tribunal Federal.

Em 9 de outubro, conversei com José Luis por 36 minutos, na mesma sala em que se acomodaram, para tratar de suas defesas, José Dirceu (suposto líder do mensalão, esquema milionário de compra de apoio parlamentar para o governo Lula), Daniel Dantas (acusado de financiar o mensalão, desviar verbas públicas, subornar delegado da Polícia Federal e muito mais) e Roger Abdelmassih (cujas ex-pacientes acusam de tê-las violado, acariciado e beijado à força). Sem grandes problemas, marquei o encontro por telefone, em meados de setembro, diretamente com Oliveira Lima. Foi mais ou menos assim:

– Qual é seu prazo?, perguntou.

– Final de outubro.

Ele apenas pediu uma semana para sair de um momento muito complicado – provavelmente relacionado à prisão preventiva do doutor Roger – e então combinarmos o encontro.

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No dia marcado, cheguei cinco minutos atrasado ao trigésimo segundo andar do edifício 50 da avenida São Luis, no cruzamento com a Ipiranga. A fachada ostenta esplendorosa escultura negra de um cavalo rampante, erguido nas patas traseiras com a cabeça inclinada para o lado, mas não indica claramente o número da construção. Precisei confirmar com o jornaleiro:

– O cinqüenta? É o Itália mesmo, rebateu o interlocutor, referindo-se a um dos prédios mais tradicionais e altos (46 andares) do centro velho de São Paulo, construído na década de 60 por iniciativa de imigrantes da península itálica, integrantes do ainda existente clube Circolo Italiano, fundado em 1911.

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Driblei poças d’água e vendedores ambulantes de guarda-chuvas naquela manhã chuvosa para, de repente, encontrar-me na sala de reuniões do escritório Oliveira Lima, Hungria, Dall’Acqua e Furrier, fundado em 31 de maio de 1960 pelo pai de José Luis, o também criminalista Aerobaldo Espínola de Oliveira Lima Filho. Ali fiquei por cerca de uma hora até ser finalmente chamado à sala do entrevistado.

Minha estadia solitária no vasto ambiente de reuniões, no entanto, nada teve de tediosa. Circulei pelo local imaginando os movimentos ali realizados por grandes figurões vistos como vilões pela sociedade. Pé ante pé, caminhei pausadamente, pisando o carpete muito semelhante a um mármore escuro. Contornei a grande mesa oval de madeira clara e espessa, rodeada por dez cadeiras pretas cujo estofado macio de formato anatômico já recebeu o peso de muitos empresários e políticos em busca de soluções para seus imbróglios jurídicos.

O que desviou minha atenção dos espectros foi a ampla janela, verdadeiro portal para um privilegiado panorama da região sudoeste de São Paulo. Um horizonte formado, majoritariamente, por prédios – incluindo o tête à tête refinado entre os gigantes Copan e Hilton. Ao fundo, o verde sedutor das serras limítrofes do município.

A nove andares do badalado restaurante Terraço Itália e a catorze da cobertura do prédio (segundo mais alto da cidade, só perde para o Mirante do Vale), a sala retangular de reuniões do escritório de Oliveira Lima repousa entre suas paredes brancas. Ela também possui uma televisão de tela fina conectada a um aparelho de DVD, uma parede falsa de plástico opaco, lustres em forma de disco voador cortado ao meio e um grande vaso, encostado num canto da parede oposta à TV, do qual sai uma enorme folha verde.

Dois quadros, pendurados lado a lado na parede oposta à janela, retratam o mesmo homem de máscara preta e cartola vermelha. Num deles, o sujeito está ereto, com as palmas das mãos estendidas e equilibradas à altura do abdome, sendo sobrevoadas cada uma por um pássaro. No outro, ele tem o tronco inclinado para o lado, as alturas das mãos desequilibradas – mas as palmas ainda estendidas – e os pássaros voam aleatoriamente sobre sua cabeça.

Já havia abandonado a decisão de aguardar em pé quando uma moça alta, em tailleur azul marinho ou preto, impecável, entrou no cômodo e pediu para acompanhá-la até a sala do entrevistado. Passamos pelo saguão de entrada, onde permanecia risonha a mesma jovem recepcionista que me recebera uma hora antes. Entramos em um salão onde, em mesas diferentes, trabalhavam duas moças que aparentavam ser secretárias de José Luis e, finalmente, chegamos a ele.

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Oliveira Lima me recebeu calma e informalmente. Usava paletó claro, levemente quadriculado por marcas riscadas. Por trás de sua mesa, tomada por pilhas de papéis e livros misturadas a porta-retratos com fotos de seus quatro filhos, ele logo disparou:

-Não vem com essa de me chamar de senhor, né? Por favor…

Desculpando-se pelo atraso e por falar comigo enquanto trabalhava, adiantou que não tinha se livrado do turbilhão de complicações e que aquele era mais um dia cheio. Concentrei-me em obter as respostas necessárias para a matéria e, por isso, os detalhes físicos da sala me escaparam.

Mencionei o tema da entrevista, inferno, e que ele costuma aparecer nos jornais como advogado de pessoas demonizadas pela sociedade – como um dos mais recentes Judas malhados em público, o médico Roger Abdelmassih.

Especializado em reprodução assistida, o doutor Roger tem reconhecimento internacional e, no Brasil, é o mais conceituado do ramo. Ou “era”. Até ser preso, em 17 de agosto de 2009, sob acusação de estuprar mais de 50 pacientes enquanto sedadas, Roger gozava as graças da alta sociedade: aparecia no programa Amaury Jr, foi levado por José Serra num encontro com o Papa e recebeu agradecimentos de Pelé, Fernando Collor e outras celebridades pelo tratamento de fertilidade ministrado às respectivas companheiras.

– Eu fui interpelado na rua várias vezes: ‘Doutor o senhor é um advogado já tão conhecido, tão respeitado, por que vai defender esse senhor?’, contou Oliveira Lima sobre o caso Abdelmassih. Teve uma pessoa que foi muito agressiva, então meu filho virou e falou: ‘pai você não vai se defender?’.  Você fica exausto. É um problema… A sociedade não entende o que é presunção de inocência. Eu digo o seguinte: todo juiz, todo promotor de justiça e todo jornalista deveria figurar como réu pra entender o que é o princípio de presunção de inocência.

Sempre com voz tranquila, acrescentou:

– Um homem que tem vinte mil clientes. Oito mil vidas que esse homem deu. Quer dizer, será  que ele é tão ruim assim que não merece… – e não encerrou a sentença.

Para explicar a situação, o criminalista hipotizou: uma pessoa que chegasse ao Brasil entre setembro e outubro pensaria que Abdelmassih já fora condenado à prisão perpétua, mesmo com o processo “ainda no início”, sem sentença proferida. Lima lembrou que o médico fora estampado na capa da revista Veja e citado nas capas da Época e da Isto É ainda em setembro, bem antes das sessões de depoimentos das testemunhas de acusação – ocorridas na semana do 13 de outubro, com a apresentação de 56 testemunhas de acusação e 180 de defesa e encerrada com a perspectiva de o Supremo Tribunal de Justiça julgar um habeas corpus para o réu.

– Os Tribunais Superiores vêm aplicando com muita propriedade o principio da presunção de inocência. O problema é a imprensa. Os homens de redação não se conformam com uma decisão que não atenda o desejo deles, acho isso inaceitável. Daí eles colocam de uma maneira brutal, esculhambam com o juiz, esculhambam com a juíza. Dizem que o juiz é fraco, não estudou…

Questionado sobre como o médico poderia restabelecer a vida, caso inocentado, Lima encerrou o ponto:

– O Roger, infelizmente, está com uma vida destruída. Esquece, a vida dele está  destruída. Estamos tentando ver se ele consegue se reerguer, entendeu? É uma pena, eu acho uma pena – disse, fazendo uma pausa antes de concluir. Mas não posso falar sobre o caso, porque está em sigilo. Só posso falar sobre essas questões de imprensa.

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José Luis de Oliveira Lima se formou em direito em 1989, aos 23 anos, pela FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas) e desde então trabalha no escritório fundado pelo pai. Nunca fez mestrado ou doutorado e afirma que isso decorre de sua opção pela advocacia, profissão que visou “desde menino”.

– Sou advogado, tenho um prazer enorme em advogar, é a melhor profissão que existe. Fui coordenador de uma faculdade uma vez. Lembro que cheguei pro diretor e falei: não dá. Também gosto de política, sempre fiz política.

Antes de se tornar, aos 31 anos, o mais jovem presidente da Caasp (Caixa de Assistência dos Advogados de São Paulo, órgão responsável pela assistência social aos inscritos na OAB paulista), Lima trabalhou, na época da faculdade, com o ex-governador do Estado, Franco Montoro. Outra ponte com o poder é o tio José Carlos Dias, ministro da Justiça durante o governo FHC, a quem José Luis chama “segundo pai” e agradece as indicações dos primeiros grandes clientes.

– Meus clientes hoje são fundamentalmente empresários e políticos, por causa de crimes contra o sistema financeiro. Não só acusados, mas também vítimas – disse o advogado. Hoje eu tenho uma ligação muito forte com o PT, mas também com os tucanos. Transito muito bem entre os dois, apesar de advogar também pro DEM e outros partidos, esclareceu, ressaltando ter o perfil de eleitor do PSDB e que, apesar de considerar “bons” os governos de Lula, o de Serra vai ser melhor.

Lima nunca foi estagiário. Durante os cinco anos de faculdade, foi funcionário concursado: primeiro, escrevente em cartório de fórum criminal e, depois, assistente jurídico na vara criminal. Achava que assim aprendia mais sobre a profissão. Formado, foi direto trabalhar com o pai, na área criminal.

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Outra coisa que ele nunca fez foi estudar religião, nem sob perspectiva histórica. Ateu desde que lembra saber da existência dos credos, apesar da família católica, José Luis diz que sua crença é “na vida e nas pessoas”. Mas a história das religiões explica muito sobre a origem de alcunhas comumente atribuídas aos advogados criminalistas envolvidos em casos notórios e controversos.

As pessoas começaram a associar seus inimigos e rivais com a imagem maligna de Satanás em torno do ano 60 d.C., expõe a historiadora da Universidade de Princeton Elaine Pagels em seu livro “As origens de Satanás”. Nessa época, explica ela, houve uma revolta dos judeus palestinos contra seus dominadores romanos. Detalhe: o termo referente a Satanás não era aplicado pelos judeus aos romanos, mas sim a outros judeus. Os favoráveis à revolta satanizavam os contrários a ela e vice-versa.

Pagels ressalta que, na tradição judia original Satanás não possuía a mesma imagem bestial disseminada pelo cristianismo. Apesar de cometer alguns desvios de conduta, ele era um dos anjos da corte divina, com aparência humana e capacidades superiores. Ou seja: ele era a ovelha negra, mas permanecia à família. Assim, o povo judeu associava seus rivais-semelhantes a Satanás e não a monstros, como faziam com os estrangeiros.

Conforme as disputas entre os grupos judeus se acirraram e o cristianismo se fortaleceu, Satanás passou a ser representado nas crônicas de época com uma imagem cada vez mais monstruosa. As teorias dos “anjos caídos”, expulsos do paraíso por diversos motivos, ganharam força e, na vida mundana, começam a orientar fortemente a relação entre adversários. Hábito que, aliás, atravessou séculos, chegando, em 2006, à Assembleia da ONU (quando Bush foi chamado de diabo por Hugo Chávez) e às presidenciais brasileiras (quando Lula foi taxado de demônio por FHC e de Judas por Geraldo Alckmin).

Antes de aparecer na política pós-moderna, destaca Pagels, o hábito de demonizar tornou-se mais intenso nos evangelhos do Novo Testamento (escritos por seguidores de Cristo, em sua maioria, entre 70d.C. e 90d.C., após a revolta contra Roma). Segundo a historiadora, esses textos narram batalhas de Jesus Cristo contra Satanás, já retratado como entidade maligna infiltrada entre os que, por exemplo, não aceitavam o novo messias – caso dos judeus.

O evangelho de Marcos, por exemplo, apresenta muitas queixas contra as lideranças judias, responsabilizadas pela marginalização dos cristãos, e fala do julgamento divino, algoz dos judeus que aceitaram fazer a guerra contra Roma (os cristãos, claro, eram contra a realização da revolta).

Após diversas guinadas de mesa, apedrejamentos e fogueiras – nas quais vítimas e carrascos, demônios e salvadores, trocaram de lugar de acordo com a alternância de poder – a mente humana foi capaz de aperfeiçoar o Direito, construir tribunais e estabelecer profissões, como a de tapibaquígrafo, promotor, juiz e, voilà, advogado.

– Tem uma passagem do Waldir Trancoso Peres, um dos maiores advogados criminalistas do país, recordou o advogado Oliveira Lima enquanto digitava em seu computador e falava comigo. Ele tava dando uma entrevista e o jornalista perguntou: ‘doutor Waldir, o senhor defenderia Hitler?’. Aí ele respondeu: ‘Você é um jornalista tão respeitado. Você gostaria que Hitler fosse condenado sem advogado? Teria credibilidade uma condenação de Hitler sem um advogado?’. Daí o jornalista virou e disse: ‘o senhor tem razão’.

Após breve pausa, Lima ergueu a cabeça e acrescentou:

– Não tem um traço de paralelo entre Hitler e meus clientes, não estou comparando. Mas estou dizendo o seguinte: qualquer pessoa, até o mais cruel dos acusados tem que ter um advogado. Até pra dar legalidade ao julgamento, até pra ele ter uma pena justa. Muitas vezes, o papel do advogado num caso muito difícil é exatamente defender que seu cliente tenha uma pena justa.

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Mesmo não dormindo mais que quatro ou cinco horas por noite, José Luis teve, em 2009, que abrir mão de algumas atribuições. A começar pelas eleições da seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil. Convidado para ser vice-presidente de uma das chapas concorrentes, deixou o compromisso de lado por esperar que, no próximo ano, surja um grupo com “visão diferente dos dois que estão aí”, mas também por falta de tempo.

Quase semanalmente, Lima vai para Brasília e, quinzenalmente, para o Rio. Fora isso, diz viajar bastante para o exterior a trabalho (quando telefonei em seu celular, em 29 de outubro, para pedir o número de Carlos Dias, participava de uma audiência em Lisboa).

– Aprendi a gostar muito de Brasília. Brasília me ajudou muito. Tem o Supremo Tribunal Federal, tem CPI. Atuo muito em CPI, relatou o advogado, confessando não ter um local de lazer preferido na capital federal. Brasília não tem distração, é business e trabalho. Se estou almoçando, estou almoçando a trabalho. Se estou jantando, estou jantando a trabalho. Minha distração são meus filhos e minhas viagens. Religiosamente, eu tiro férias.

Sempre atento às palavras, o ateu explicou que a religiosidade das férias fazem estrita referência à necessidade de dedicar seu tempo aos filhos, três do primeiro e uma do segundo e atual casamento.

– O mais velho tem 13 [anos] que é o Bruno. Depois, tem o João que tem 11 e meio. O Dalmo que tem 10 e a Luiza que tem 4.

– Você  não acumula férias então?, retruquei.

– Não, não, não. Tiro de 15 a 20 dias em janeiro, 15 dias em julho e viajo quando tem feriado. Disso não abro mão. Mesmo quando tem trabalho, não abro mão da relação com meus filhos, não há cliente que vá fazer isso.

-Ele é louco pelos filhos, pelos ‘juquinhas’, me disse algumas semanas depois o tio de José Luis, o também criminalista e ex-ministro, José Carlos Dias – cujo escritório também fica no edifício Itália, seis andares abaixo do Oliveira Lima.

“Juquinhas” foi uma clara referência ao apelido com que José Luis gosta de ser chamado. “Foi meu pai que me colocou o apelido de Juca e o Luis não leva acento”, respondeu o advogado às questões que fiz sobre seus apelativos.

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Antes de desfrutar do mundo da advocacia, Oliveira Lima foi um garoto levado – encapetado talvez. Ele se recorda um “péssimo aluno”, tão indisciplinado que foi expulso do colégio Rio Branco e do Objetivo durante o ensino médio.

– Também fui um aluno bem medíocre na faculdade, exceto em direito penal, que eu gostava. Acho uma pena, me arrependo de não ter estudado mais. Tive que estudar depois! Aí estudei muito, adquiri um prazer enorme pela leitura, leio muito. Mas, infelizmente, não fui um bom aluno.

Apesar de arrependido, José  Luis admite, sorrindo, ter passado infância e adolescência “muito divertidas”. Após momentos de hesitação, aceitou relatar, rapidamente, dois de seus feitos (não sem fazer um mea culpa sobre problemas vividos por sua mãe):

– Quando ela ia nas reuniões de pais e mestres, do Rio branco, por exemplo, saia com a orelha vermelha. Uma vez eu desci com o extintor de incêndio na rampa do Rio Branco. Outra vez, tinha uma festa do centro acadêmico, comprei 10 galinhas e joguei lá no meio, isso entre 12 e 14 anos…

Nessas situações de culpa incontestável, não tinha o que fazer. Foi suspenso uma, duas, três vezes. Perdeu a bolsa de estudos gradualmente e foi expulso do colégio. Cena difícil de imaginar, não só para quem vê o doutor Oliveira Lima de toga, nas sessões do STF, mas também em situações mais cotidianas.

– Hoje sou absolutamente tranquilo. Calmo! Calmo, sou um cara calmo. Faço minha acupuntura toda semana, corro muito, faço muito esporte, contou, emendando que cultiva esse gosto desde pequeno. Joguei basquete dos 11 aos 17 anos. Jogava bem. No [Clube Atlético] Paulistano, no Palmeiras, em seleções. Mas, enfim, eu era um cara que queria ser advogado, sempre. Meu prazer hoje é exercer minha profissão e ficar com meus quatro filhos. E poder assistir aos jogos do Palmeiras. Esse é o meu lazer maior! Adoro!, exultou, animando-se com time que também defendeu jogando futebol de campo, antes dos dez anos de idade.

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– Quando você  reconhece a hora de admitir a culpa de seu cliente no tribunal?, perguntei a Oliveira Lima.

Misturando incompreensão e indignação pela pergunta, ele soltou:

– Eu não julgo meu cliente. Por isso eu sou advogado. Aliás, eu seria um péssimo juiz. Quando meus filhos brigam, tenho uma dificuldade enorme em julgar quem está certo e quem está errado. Essa coisa de julgar não é do meu perfil. Eu seria péssimo juiz. Além disso, o cliente, em regra, diz a verdade pro advogado, ele não mente.

– Que tipo de cliente você  não aceita defender?

– Só  não posso defender alguém se eu estiver em conflito, se eu já  defender outra pessoa que possa ser inimigo dele. O que eu preciso é olhar no rosto do meu cliente. Se eu for com a cara dele, eu defendo. É isso que eu preciso.

– E como dizer um ‘não’ nesses casos?

– Eu viro e digo: ‘olha não vou te defender’. Falo abertamente, ‘não simpatizei com o senhor’. Na advocacia criminal tem que ter empatia com o cliente. Se não tiver, acabou. Tem que gostar do seu cliente e pronto. Tem que ter um feeling gostoso com ele, do contrário eu não atuo bem. Se faço uma reunião e a reunião não fluiu bem, eu vou embora, saio de cara.

A mesma regra parece seguir o tio do entrevistado, José Carlos Dias, que me contou ter indicado o sobrinho para o ex-ministro José Dirceu porque já era advogado dos diretores do Banco Rural – acusados de prover recursos para o mensalão e que apresentam depoimentos conflitantes com os de Dirceu.

– Ele tem os requisitos que considero fundamentais num advogado: a dedicação ao cliente, a ética, a seriedade. Não tenho dúvida de que quando indico um cliente pra ele, estou indicando um bom advogado, comentou Dias.

Para preservar o sigilo da relação com os clientes, Oliveira Lima só comenta fatos já bastante divulgados. Deixa bem claro que sua condição de advogado o impede de expor palavras trocadas com seus representados em reuniões que ocorrem, segundo ele, “99% das vezes” na mesma sala em que me recebeu.

Por isso não fala muito sobre Daniel Dantas – que já deixou de representar – e de Salvatore Cacciola. Este último, diga-se de passagem, talvez tenha sido seu primeiro cliente de destaque midiático. Nascido em Milão, em 1944, Cacciola migrou para o Brasil com a família na década de 50 por causa da depressão econômica gerada pela segunda Guerra Mundial. Fez a vida e, nos idos da virada do século 20 para o 21, era proprietário do Banco Marka, que apostava alto na estabilidade do real. Quando o governo brasileiro mudou o regime de câmbio de fixo para flutuante, em 1999 – para fazer frente à crise emanada da Rússia – Cacciola solicitou ao Banco Central a venda de dólares abaixo do preço de mercado para não falir.

A operação se tornou pública e uma Comissão Parlamentar de Inquérito concluiu: ela gerou prejuízo de R$1,5 bilhão aos cofres públicos. O Ministério Público Federal pediu prisão preventiva do banqueiro, que se via envolvido num emaranhado de acusações (de gestão fraudulenta e tráfico de influência, por exemplo) contra ele e conhecidos, incluindo membros da alta cúpula do BC – como o ex-presidente da instituição, Francisco Lopes. Encarcerado, Cacciola recebeu habeas corpos do STF e fugiu para a Itália, que não acolheu pedido de extradição. Condenado à revelia (sem estar presente no julgamento), só foi capturado novamente quando passou por Mônaco. Em setembro de 2009, completou dois anos de estadia no presídio Bangu 8. Mas Oliveira Lima não comenta o caso.

Sobre Dirceu, cuja situação é constantemente lembrada pelos jornais, ele fala:

– Não tenho a menor dúvida da inocência do José Dirceu e não tenho a menor dúvida de que o processo dele foi um julgamento político. Eu tenho muita tranqüilidade quanto ao caso do José Dirceu, muita tranquilidade, muita tranquilidade. Conheço esse processo de trás pra frente. Não tem nada contra ele. A cassação do mandato representou uma vitória da oposição e foi um julgamento político. Num julgamento técnico, no Supremo Tribunal Federal, eu tenho muita tranqüilidade de que ele será absolvido.

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Se Oliveira Lima for malignamente surpreendido pelo destino e Dirceu considerado culpado, no entanto, o ex-deputado pode não só sofrer a punição determinada pelas autoridades como ser colocado pelos cronistas de nossa época, para servir de exemplo, no vasto hall de personagens agregados pelo tempo à Divina Comédia, escrita no início do século 14 por Dante Alighieri.

Nesse caso, Dirceu seria retratado certamente nos lugares mais profundos do Inferno, onde Dante localizou diversos tipos de fraudadores: sedutores, aduladores, praticantes de nepotismo, traficantes, adivinhos, hipócritas, ladrões, maus conselheiros, traidores de parentes, traidores da pátria, dos hóspedes e dos bem-feitores.

Alighieri descreveu a terra do Capeta como uma cavidade cônica, composta por nove círculos que se afunilam até chegar ao posto ocupado por Lúcifer. Nos seis primeiros círculos, cumprem pena os que levaram uma vida marcada pela incontinência (gulosos, luxuriosos, avaros e héreges, por exemplo); no sétimo círculo, ficam os violentos e bestiais; no oitavo e no nono, os fraudadores – sendo os locais mais profundos reservados à penitência dos que cometeram as fraudes mais graves.

Caso os contadores de causo tenham a chance de assentar Dirceu no oitavo círculo, provavelmente o colocarão entre os hipócritas, por ter negado sua culpa em público durante muito tempo. A pena imposta a esses danados, na obra de Dante, é caminhar, eterna e lentamente, vestindo pesadas capas de chumbo com uma bela aparência dourada.

Mas não faltará gente para jogar o petista no nono círculo, o mais profundo e próximo de Satanás. Se considerado culpado de chefiar o mensalão, ele será, possivelmente, colocado entre os traidores da pátria, por ter se envolvido com a corrupção de representantes do povo. O castigo desse grupo é permanecer mergulhado num mar de gelo, apenas com a cabeça para fora.

Essa possibilidade, no entanto, não deve integrar as previsões mais pessimistas de José Luis de Oliveira Lima. Para ele, a influência de forças negativas passa muito longe do ar respirado pelos brasileiros. Morador dos Jardins, bairro nobre de São Paulo, ele confia no otimismo tupiniquim, povo que responde às mazelas da desigualdade social com simpatia e espírito de progresso. Além disso, sente-se muito bem e confiante fazendo o que faz onde faz. Não trocaria a pauliceia por qualquer outra cidade.

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No fim da conversa, o entrevistado esclareceu como funciona o escritório que comanda há 20 anos. “Hungria, Dall’Acqua e Furrier” são sobrenomes dos sócios que se juntaram ao Oliveira Lima ao longo dos anos. A sócia mais recente é Jaqueline Furrier, chamada por José Luis de “minha parceira nos casos de crime contra o sistema financeiro”.

– Ela é, talvez, a melhor advogada nessa área, comentou, lembrando que Jaqueline é também sua melhor amiga e o apresentou à esposa.

Rodrigo Dall’Acqua é o sócio que trabalha com Lima nas CPIs. Camilla Soares Hungria, a sócia mais antiga, cuida do escritório inteiro, define José Luis. Por fim, Giovanna Cardoso Gazola é a associada especialista em contenciosos de massa (que envolvem clientes de partidos políticos).

– O Processo de adesão  é simples: eu convido pra ser sócio. Acho que é um merecimento de um advogado q trabalhou por muito tempo. Então convido pra ser sócio. Temos uma relação muito boa.

A situação de seu escritório no mercado, ele descreve sem rodeio nenhum, com uma assertiva tão objetiva quanto a pincelada final da última mão de tinta em um quadro:

– Fundamentalmente quem atua na área criminal são 30 escritórios especializados que tem em São Paulo, dois ou três em Brasília, três ou quatro no Rio de Janeiro. Se não está comigo, está  com outro, ou com outro. Tanto, que todos são muito amigos, freqüentam a casa um do outro.

Faz sentido: uma simples fração da cena criminalista paulista nos dá a dimensão de quão circular é este ramo. Se puxarmos a lista por Ricardo Tosto, famoso por ter assumido a defesa do ex-prefeito de São Paulo e atual deputado federal Paulo Maluf, veremos que ele divide esse feito com Roberto Batochio, que também está no caso mensalão, representando o ex-ministro da fazenda Antônio Palocci. Por acaso, Batochio garantiu a liberdade dos estudantes de medicina da USP acusados de matar um calouro twaianês afogado na piscina da faculdade durante um trote. Nessa empreitada, ele trabalhou junto com Márcio Thomaz Bastos, ex-ministro da justiça – igual ao tio de Oliveira Lima – que tam,bem está no caso Abdelmassih, junto a José Luis.

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Anunciando que ainda deveria ir ao Rio de Janeiro, Oliveira Lima se despediu e me acompanhou até  a porta do escritório. Passamos pelas secretárias e pela recepcionista antes de nos despedirmos novamente.

– Bixo, qualquer coisa me liga!, recomendou, virando-se rapidamente na direção de sua sala.

Entrevista: Eduardo Bittar, professor de filosofia do direito da USP

“Cada profissional tem livre convicção sobre os clientes que pretende defender”

Advogados lidam, inevitavelmente, com comportamentos imorais, ilegais e até bárbaros. Por isso, escrúpulos morais não podem impedir o profissional de defender alguém que infringiu a lei. Essas conclusões são de Eduardo Bittar, integrante do Instituto de Estudos Avançados e do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP). Professor do departamento de Filosofia e Teoria Geral do Direito, também na USP, Bittar respondeu, por e-mail, a algumas de nossas perguntas sobre contradições do mundo da advocacia. Confira a entrevista:

Babel: O que um advogado deve levar em consideração para aceitar ou recusar a defensa de quem se declarada culpado? A gravidade do crime cometido importa para a tomada dessa decisão?

Eduardo Bittar: Não se pode exigir que escrúpulos morais medianos impeçam a atividade judicial de representar alguém que comete um ato ilegal. Isso inviabilizaria a própria profissão. Seria o mesmo que imaginar psicanalistas policiando o comportamento de seus pacientes e desvelando segredos intimistas revelados sob proteção da ética psicanalista para a avaliação da sociedade e da polícia.

Numa sociedade policialesca, procura-se converter advogados e psicanalistas em auditores das contas mal-esclarecidas, do definhamento do projeto moral do iluminismo. Isso tem criado exacerbada perda de liberdade individual e crescente exigência de atropelo dos limites entre ética profissional e garantia social. Recentes arrombamentos de escritórios de advocacia são sintonia disso: de uma sociedade que se ressente da incapacidade de prevenir e punir e que faz desabar a garantia do sigilo profissional.

Cada profissional tem livre convicção sobre os clientes que pretende defender, dentro dos limites da lei. Isso é de fundamental importância para que, quando se lida com conflitos sociais, garantam-se condições para o tratamento equânime. Ora, qual a tarefa de quem opera com o direito senão a de operar com conflitos sociais? E os conflitos sociais envolvem condutas que tocam comportamentos imorais, ilegais e, às vezes, bárbaros. O profissional do direito deve colaborar para solucionar, democraticamente e dentro dos termos da lei, os caminhos de realização da justiça.
Babel: Muitos criticam o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos por defender pessoas perseguidas pela Polícia Federal que ele mesmo tornou mais intransigente. Há prejuízo para a sociedade quando profissionais de altíssima qualificação mudam de lado?

Eduardo Bittar:
Muitas vezes, pessoas públicas exercem seus papéis em outros contextos sociais. Não me parece exigível que a pessoa pública se restrinja, por exemplo, à atividade política. Deixado o cargo que se exerceu com seriedade e competência, a tarefa de quem exerce advocacia é responder por seus atos em conformidade com a ética da profissão. Cobrar “coerência” entre pessoa pública e pessoa privada, por vezes, é exigir algo que está além da capacidade de cada indivíduo oferecer, inclusive do ponto de vista moral.

A lógica do devassamento da vida do ex-homem-público é a mesma dos paparazzi no caso da Princesa Diana. A equação era simples: por ser pessoa pública, tem-se o direito de, literalmente, persegui-la, em sua vida pessoal. O resultado é bem conhecido de todos, com o desfecho lamentável e pranteado mundo afora. Esse cuidado é necessário quando se trata de compreender a dinâmica particular de cada papel social: do homem público, no momento em que é homem público, e de profissional da advocacia, enquanto exercente da profissão de advogado.

Babel: O que são os princípios de presunção da inocência e de ampla defesa?

Eduardo Bittar: Os princípios da presunção de inocência e da ampla defesa decorrem da necessidade de proteger a dignidade da pessoa humana. Este é o fundamento ético de uma comunidade social, política e juridicamente organizada e a base de todo o direito constitucional.

No Brasil, ambos os princípios são abrigados no artigo quinto da Constituição de 1988. Violar a Constituição, agredindo estes princípios, é inviabilizar o pacto de vida comum estabelecido por um documento jurídico de ampla significação. Mais que isto: permitir a soberanização do corpo do réu é abrir campo para a arbitrariedade, fato consumado, normalmente, em regimes autoritários – para os quais as práticas persecutórias limitadas e a autonomia do indivíduo não possuem qualquer sentido.

Do ponto de vista histórico, as primeiras escolas que testemunham a necessidade de abrandamento e limitação da pena são as Escolas Humanistas, eco direto do iluminismo. À era da concentração do poder, dos séculos 17 e 18, segue-se a era dos direitos. Nela, a desconcentração do poder se torna um tema de fundamental importância para o pensamento liberal. Suas conquistas são expressadas pelos direitos humanos das revoluções liberais do século 18, são consagradas em declarações, como a de 1789, e ganham campo dentro de documentos jurídicos constitucionais. Iniciado o período do constitucionalismo liberal, o direito é o novo elemento que compõe a forma com que o controle do poder encontrará seus limites.

Limitar o poder persecutório do Estado é garantir e reafirmar as conquistas dos direitos humanos. Desde o século 18, elas significam avanços sociais, políticos, éticos e jurídicos na definição e delimitação do próprio Estado de Direito.

Babel: Casos como o do médico Roger Abdelmassih, acusado de estuprar mais de 50 pacientes enquanto sedadas, representam a violação desses direitos? Algumas revistas e jornais o apresentaram como culpado, baseando-se apenas nos depoimentos de acusação.

Eduardo Bittar: Na sociedade do espetáculo, na leitura de Guy Debord, a imprensa exerce o poder decorrente da indústria da informação e se subroga a quaisquer outros poderes. Ou seja: o poder circulante na era da informação ainda está por ser disciplinado. Ele escorre com ampla liquidez na formação da opinião pública, na inconscientização do subliminar, na inculcação do indesejado, na irracionalização da autonomia intelectual. Ele decreta condições de livre domínio e pode se sobrepor a outras formas de poder e de normatização da vida social. Isso ocorre em tempos de transição social, chamado por muitos intelectuais de “condição pós-moderna”.

Como ensina Maria Rita Kehl, toda forma de atuação ilimitada da imprensa permite a arbitrariedade. Um caso recente, o da Escola de Base, ilustra que o papel do juiz se torna diminuto diante do poder de julgamento da mídia. A tarefa da comunicação social é de muita responsabilidade humana, política e social. A cautela deve regular sua força. O uso da força desmedida para exercer o direito de informar tem como efeito colateral a infração do direito à honra, à vida privada e outros.

A sociedade contemporânea espetaculariza porque goza na vontade de submeter o outro. Estremecer, atrair, horrorizar, causar, abalar, demolir, chocar são táticas verbais presentes no processo comunicativo midiático, de onde se extrai o poder de arruinar, nulificar direitos, arrasar existências.

O direito deve zelar para que o processo de inculpação se dê num procedimento legitimamente constituído e deve cuidar para que o próprio procedimento respeite os direitos fundamentais do investigado. Isso é algo exigível em todo procedimento persecutório dentro de um Estado Democrático de Direito.

A Dança do Pentagrama Invertido

Estupre um cabrito, é muito engraçado
Depois ateie fogo num cadáver desmembrado
Vou te bater com um prato de alface
Cagar na sua boca e esporrar na sua face
Pegue uma velha, deixe ela pelada
Ponha fogo no cabelo e apague na paulada
Funkeiro sangue bom é funkeiro sangue-frio
Estrupa mãe, estrupa pai e também estrupa filho

(UDR –  “Bonde da Mutilação”)

Por Thais Carrança

As paredes pretas grudam quando se encosta nelas, a cerveja é Crystal, quente, servida em copos plásticos de 300 ml à proporção de quatro partes de espuma pra uma de líquido, que se pega após longa fila e bebe-se no tempo de enfrentar a fila de novo, num motocontínuo de alcoolismo pé-de-chinelo (ou você realmente acreditou que por R$ 15 para mulher e R$ 18 pra homem, numa festa chamada FUCK MACHINE, você ia ter um Open Bar digno?).

Estamos esperando o show da U.D.R, no andar subterrâneo de um puteiro desativado, próximo à Praça Roosevelt, perto daquele outro puteiro com uma decoração externa medieval excelente – o toque de mestre é o caldeirão de óleo fervente paralisado no ar no momento em que é entornado. Festa no puteiro, grande coisa, hoje em dia qualquer batizado de criança no baixo Augusta é em puteiro, nada demais.

No andar térreo, tem um bar pago às moscas, espelhos nas paredes, postes de dança nas bancadas, bandas horrendas de New Metal tocando e um público majoritariamente masculino e feio pra caralho, composto de metaleiros, um ou outro gótico e carecas. Sempre tem careca nazi em show da U.D.R. Na vinda anterior deles a São Paulo, quando tocaram no Inferno, cantaram uma música do disco novo, Bolinando Straños, chamada “Todos os nossos fãs são gays” (numa óbvia citação de Anal Cunt): “Você tem todos nossos discos/ Você é gay/ Você tem todas as camisas/ Você é gay/ Você é gay, você é gay/ Todos os fãs da UDR são gays/ (…)/ Não entende a piada/ E ainda dá risada/ Pois é, meu camarada/ Você é gay”. A platéia esvaziou na hora.

O público tinha ido lá pra saudar o satanismo (“Corta os pulsos, desenha o pentagrama/ Acende as velas pretas porque Satanás te ama/ Pode ser Satã, Belzebu ou Ferrabrás/ O que importa é o demônio, seu nome tanto faz”), ofender Jesus (“Jesus era alegre, um cara cheio de luz/
O sonho dessa bicha era poder sentar na cruz”), Maria (“Mãe de Jesus, eu tirei o seu cabaço/
Com um martelo de pedreiro preso num cabo de aço”), zoar deficientes (“Cintura pra baixo, tudo paralisado/ UDR 666, esse é o bonde do aleijado/ Quando vejo um aleijado, não consigo sentir dó/ Roubo logo sua carteira pra poder comprar meu pó”), cantar sobre parafilias (“Bonde louco do bukkake, porra dentro do nariz/ Hora do suco de pica é a hora mais feliz/ (…)/ Essa é a dança do bukkake, pegajosa e ofensiva/ Seus girinos do amor vão nadar na minha saliva”) e ter orgasmos múltiplos com o “Bonde da Orgia de Travecos” (“Sem orgia de traveco fico triste e deprimido/ com orgia de traveco viro soropositivo./ Vou fazer um fist fuck entao traz a vaselina/ Também traz um meião pra gente cheirar benzina”). Perceber que estavam rindo de você e não com você estava fora dos planos (“MC Carvão, super gigolô U.D.R., estrategicamente localizado entre um monte de mulheres diz: Você é burro”).

U.D.R. a essa altura do campeonato – show no Inferno: 16 de fevereiro de 2008, show na Ocean: 14 de junho de 2008, fim da banda: 1º de setembro de 2008 (mal aê, contei o fim da história) – era  MC Carvão e Professor Aquaplay, fazendo ROCK AND ROLL ANTI CÓSMICO DA MORTE, ainda que seus detratores insistam em chamar o som de “funk satânico”. MC Carvão, o Porquinho, ou Thiago Machado, é formado em Relações Públicas, geek de computador e tem sempre uma meia dúzia de projetos paralelos em comunicação e música. Professor Aquaplay (ex-MC Abutre), o Screw, ou Rafael Mordente, é peludo, graduado em Jornalismo e tem tatuagens nerds adoráveis de tags HTML. Ambos são de Belo Horizonte.

No princípio, era Screw, que gerou o “Bonde da Depressão”, sob a dupla alcunha de MC Dor e MC Sofrimento. Screw converteu-se em MC Abutre, e MC Abutre e MC Carniça geraram a “Dança do Pentagrama Invertido” e o “Bonde da Mutilação”. Juntou-se a eles MS Barney e do trio fez-se a primeira versão de “Bonde de Jesus”. Tudo isso aconteceu de 2000 a 2002.

“MC Abutre e MC Carniça foram convidados para um show de estréia de um curta-metragem cuja trilha sonora era Dança do Pentagrama Invertido. A partir daí, outra apresentação foi agendada. Dessa vez, tratava-se de um show completo. Neste momento é marcado o ingresso oficial de MC Carvão na jornada. Com ele, surgiu a criação de nosso primeiro hit feito em grupo: Vômito Podraço. Além disso, tivemos aquilo que pode se chamar de “primeiro show”.” Estamos em 2003, quem narra é o Professor Aquaplay na biografia da banda, publicada no blog oficial – texto editado para fins dessa matéria.

“MC Carniça decidiu trilhar sua própria vida, existindo num mundo onde as conspirações descem pelo ralo. Éramos três, novamente. Professor Aquaplay, MC Carvão e MS Barney. Ao trio remanescente, foi dado o nome de U.D.R.”, conta. A primeira demo seria finalizada naquele ano, como o nome de Seringas Compartilhadas Vol.2 – Concertos  Para Fagote Solo, em Si Bemol. Além das músicas já citadas, o disco trouxe as inéditas “Bonde do Amor Incondicional”, “Bonde da Orgia de Travecos”, “O Evangelho Segundo Serguei” e “Bonde do Aleijado”. A turnê O Amor Move Montanhas teve como souvenir uma camiseta que hoje é artigo raro, e que, nas palavras de alguém muito fino da internet, “mostrava de forma sutil a silhueta de um homem defecando na boca de uma mulher”.

Em 2005, MS Barney deixaria a banda (“O MS Barney saiu da nossa banda/ Agora dá a bunda num terreiro de quimbanda”).“Eu e Carvão conseguimos tocar o bonde pra frente e, para minha surpresa, estávamos em uma banda que agora buscava – e conseguia – resultados. Nunca havia me acontecido antes. Saiu WARderley [2006], saiu O Shape do Punk do Cão [2007], saiu Bolinando Straños [2008]”. Apesar do tipo de humor pouco afeito às FMs e aos lares de família, a banda conseguiu visibilidade, através da disseminação viral de suas músicas pela internet. A dupla conquistou um séquito de fãs fiéis, fazendo shows Brasil afora, com platéias cantando em coro de ponta a ponta.

No começo de 2008, para o lançamento do último ep, os garotos U.D.R. “armam uma brincadeira para azucrinar os fãs e a cena musical tupiniquim. Fingem a saída do Carvão e armam um concurso para novos integrantes.” No suposto show de estréia dos novos integrantes, veio a “volta” triunfal, com a estréia de Bolinado Straños. Poucos meses depois, acontece o fim de verdade. Professor Aquaplay, cansado de orgias regadas a cocaína, da fama e das dezenas de travestis enlouquecidos a seus pés, pede penico em texto publicado no blog oficial da banda. “Eu gostava mais da UDR quando era underground”, declara.

Mas voltemos a junho de 2008, ao puteiro desativado, ao subsolo de paredes pretas grudentas, à Crystal quente em copos de plástico. Pergunto aos meus amigos o que eles lembram do show. A resposta é uma mistura de amnésia provocada por aditivos diversos (“Eu tava doidão, não lembro de nada, só lembro da brisa”) e impressões que confundem os três shows que assistiram ao longo de 2008 – eles juram que teve mais um no Inferno, depois do da Ocean, que eu não fui e que foi o último em São Paulo antes do fim da banda, mas não me lembro e não achei nenhuma menção a ele no site da banda ou via Google.

Eles se lembram dos caras parando o show toda hora pra falar bosta. De uns caras gigantes com cara de redneck dançando: “Os caras eras enormes, achei que iam bater em todo mundo, daí eles começaram a dançar como se não houvesse amanhã, que nem minhoca no chão, pulando com a bunda”. Eu me lembro de uma amiga groupiando o MC Carvão (“É isso menininha, não fica no meu pé/ Jesus pode te amar, mas só a UDR te quer/ Fogo do capeta, brasa na calcinha, deformo tua buceta e arrombo tua bundinha”). Do enfado tremendo com que eles introduziam o grande hit “Orgia de Travecos”, que sempre encerrava os shows: “Esse é aquele momento do show que a gente não aguenta mais, mas que vocês adoram” – seguido do delírio da platéia cantando a música inteira duas ou três vezes seguidas. Pergunto para os meus amigos sobre o show propriamente dito, as músicas, os caras. “Sei lá, durou mó tempo, eles tocaram todas as músicas e foi legal pra caralho”.

Estamos num bar em Pinheiros, eu tento inutilmente entrevistá-los enquanto uma televisão ligada draga a atenção de todos. Na novela das 8, uma gostosa que está tetraplégica (Aline Morais, em Viver a Vida) começa o processo de reabilitação, só de camiseta. Todos olham vidrados, torcendo para aparecer a calcinha. “Porra, pessoal, é a calcinha da mina da tv, desencana. E a mina tá tetraplégica ainda por cima, mó sujeira”, eu digo. Alguém responde: “Mó sujeira nada, e daí que ela tá tetraplégica, manda ela fechar as pernas então, ‘Aô, fecha as pernas, ô tetraplégica’”. Pra curtir a U.D.R. tem que andar com pau no cu.

Pega esse cacete mole que eu transformo num bambu
Pra curtir a UDR, tem que andar com pau no cu
Nóis te leva pr’uma gruta e desmaia com Dramin
Pra cobrir você de porra e te chamar de Curumim

Bebe o sêmen do Carvão, do Barney, do Aquaplay
Hidratando sua pele num grande bukkake gay
Vai na boca, vai no olho, festa da ejaculação
Se o gosto não agrada, tu tempera com limão

(UDR – “Dança do Bukkake”)

Editorial: O inferno é dos outros

Por José  Ismar Petrola

Inferno de jornalista é o leitor. E também as fontes que nós entrevistamos e nem sempre se dispõem a liberar as informações, os editores que insistem em cortar fora as partes importantes dos nossos textos, os prazos curtos para entrega de matérias, enfim, nosso próprio trabalho.

O tema desta edição da Babel é o inferno. Não só aquele que conhecemos das aulas de catecismo, com diabos cozinhando os condenados em caldeirões de água fervente. Inferno pode ser um local como a rua 25 de Março, evitada por muitos e procurada por outros tantos – uma aglomeração infernal de camelôs, lojistas, brasileiros, estrangeiros, assaltantes, suicidas, policiais etc. Ou o lugar onde se faz o que é considerado ilegal e imoral – não é por acaso que os bordéis, na linguagem popular, são chamados de “inferninhos”. Pode mesmo ser uma atividade estressante e perigosa, como a dos bombeiros. Ou ainda um estado mental, como o ciúme doentio ou o vício no jogo. Enfim, inferno é onde se sente muita dor, onde as pessoas estão condenadas a toda sorte de torturas. Mas, por incrível que pareça, há pessoas que sentem prazer com o sofrimento (deles ou de outros).

Ou, para citar uma frase conhecida do filósofo Jean-Paul Sartre, “o inferno são os outros”. Esta frase ao fato de que não aceitamos os outros como eles são. As relações entre as pessoas – entre o trabalhador e o patrão, a prostituta e o cliente, o namorado cafajeste e a namorada ciumenta – tendem a ser infernais. Não aceitamos certas características dos outros – justamente as que não aceitamos em nós mesmos.

Pensando um pouco mais, o que é o inferno senão o lugar para onde vão os maus, cujas atitudes são estranhas ou erradas? Ou o lugar onde acontece tudo o que consideramos bizarro e pecaminoso – orgias sexuais, sessões de tortura, terror psicológico, etc.

Judeus, cristãos, muçulmanos e praticantes de vários outros credos afirmam que, após a morte, muitos de nós irão para este lugar dominado pelo Diabo. O julgamento será feito no fim dos tempos. Há até quem creia que o dia do juízo está próximo – alguns chegam a afirmar que o mundo vai acabar em 21 de dezembro de 2012, de acordo com o calendário maia (segundo a versão do filme de Roland Emmerich que, por enquanto, está arrasando as bilheterias de cinemas). Num mundo em crise, no qual se perdem certezas financeiras e morais, é reconfortante imaginar que está próximo o dia em que os maus (sempre os outros) serão castigados com o inferno.

Enfim, “o inferno são os outros”

Esta frase foi cunhada pelo filósofo e dramaturgo francês Jean-Paul Sartre, fundador do existencialismo, na peça teatral Entre quatro paredes (no original, Huis clos), escrita em 1945. A peça se passa no inferno e as três personagens são mortos que já foram condenados. O cenário é um quarto onde uma pessoa está trancada com outras duas, sem poder desviar o olhar. Como todos estão mortos, ninguém pisca nem dorme. A sala tem apenas três sofás, posicionados de forma tal que quem senta em um precisa encarar quem está no outro. Não há como escapar ao olhar de ninguém. Um por um, entram os condenados ao tormento eterno: primeiro Garcin, jornalista e cafajeste que morreu fuzilado como desertor na guerra; depois Inês, a lésbica que levou sua amante ao suicídio, e por fim Estelle, que matou o próprio filho ilegítimo para manter as aparências sociais. Os sofás coloridos e a decoração da sala – estilo Segundo Império – não agradam às mulheres. Já Garcin não suporta ter de olhar para a estátua de bronze de um herói, que o faz lembrar de sua própria covardia. Mas o mais insuportável é ter de agüentar o olhar e a voz dos outros. Por que você está aqui no inferno? – pergunta cada um aos outros dois. As vozes dos que ainda estão vivos podem ser ouvidas na sala – na redação onde Garcin trabalhou, já existe até a expressão “covarde como Garcin”. Uma faca de cortar papel (por algum motivo colocada na sala) só serve para lembrar os habitantes do recinto de que eles já estão mortos e não adianta cortar os próprios pulsos. A porta está trancada e os três desgraçados estão condenados a passar a eternidade juntos. Não há nenhuma possibilidade de fuga. Como se vê, não é necessário um carrasco para que a tortura comece. A partir do momento em que as pessoas começam a implicar umas com as outras e não admitir as próprias fraquezas, o inferno está armado.

É no final da peça que Garcin, exausto após horas de jogo de gato e rato a três com Inês e Estelle, desabafa:

“Digo a vocês que estava tudo previsto. Eles previram que eu havia de parar diante desta lareira, tocando com minhas mãos esse bronze, com todos esses olhares sobre mim. Todos esses olhares que me comem. (Volta-se bruscamente) Ah! Vocês são só duas? Pensei que eram muito mais numerosas. (Ri). Então, isto é que é o inferno? Nunca imaginei… Não se lembram? O enxofre, a fogueira, a grelha… Que brincadeira! Nada de grelha. O inferno… são os Outros”

A frase “O inferno são os outros” ficou mais conhecida do que o próprio texto de Sartre, pela polêmica que traz. Não é fácil admitir, francamente, que o outro pode ser um carrasco. O cristianismo deixa explícito o mandamento bíblico: “Amai-vos uns aos outros” (João 13, 34). Esta máxima – amar ao próximo como a si mesmo – é comum a muitas religiões. Vários filósofos, como Rousseau, apontam para a importância da solidariedade na construção de uma sociedade harmônica. No marxismo, a solidariedade de classe é essencial para que os homens exerçam seu papel na História – sem a união do proletariado não será possível derrotar a burguesia.

O professor Franklin Leopoldo e Silva, da Universidade de São Paulo, parte da seguinte explicação para a frase de Sartre: em toda a filosofia moderna, há uma dificuldade de entender a existência do outro como sujeito. Em termos mais cotidianos: para nós é quase impossível enxergar outras pessoas como pessoas, dotadas de consciências e vontades próprias, e não meros objetos. Para Sartre, essa dificuldade gera uma tensão extrema – digamos, infernal – entre as pessoas, pois elas não conseguem tratar o outro como igual. Por isto, o inferno sartreano é uma sala onde três pessoas, condenadas a estarem frente ao outro, fazem cada um dos outros presentes se sentirem mal. “Este é o inferno: o outro te olha como coisa”, resume Franklin.

Esta situação de ser visto como “coisa” se torna um inferno constante – e, ao contrário daquele que vemos em gravuras assustadoras, é um inferno que vivemos todos os dias. Um relacionamento autêntico entre as pessoas é impossível. É difícil olhar para alguém e não dizer que é um “outro”, uma “coisa”.

Assim, cada um de nós se torna um carrasco para o outro – como na peça, em que se encontram três condenados ao inferno: Inês, a lésbica, assediando Estelle e apontando o dedo para Garcin, como um espelho que lhe diz: “seu covarde”. Garcin, que se finge de herói para esconder que foi ao inferno por covardia (desertou da guerra e traía a esposa sem o menor escrúpulo), por sua vez, tenta jogar na cara das duas mulheres todas as maldades que elas próprias tinham feito e não admitiam.

“Inês: Vão ver como é tolo. Tolo como tudo. Não existe tortura física, não é mesmo? E no entanto estamos no inferno. E ninguém mais chegará. Ninguém. Temos que ficar juntos, sozinhos, até o fim. Não é isso? Quer dizer que há alguém que faz falta aqui: o carrasco.

Garcin (a meia voz): Bem sei.

Inês: Pois é. Fizeram uma economia de pessoal. Só isso. São os próprios fregueses que se servem, como nos restaurantes cooperativos.

Estelle: Que quer dizer?

Inês: Cada um de nós é o carrasco para os outros dois.”

Mas, adverte o professor Leopoldo e Silva, a filosofia de Sartre não é individualista. O outro não é um inferno porque merece ser eliminado, mas porque somente ele pode ter acesso à nossa verdadeira consciência. Ele vê o que nós não vemos em nós mesmos. São os outros que apontam a responsabilidade que temos sobre nossos atos. Como alguns devem se lembrar, o existencialismo de Sartre também diz que estamos “condenados à liberdade” e que o homem se define não pelo que é, mas pelas escolhas que faz ao longo da vida. Acontece que a nossa liberdade é limitada pela relação com o outro. Na sociedade, todo mundo está em relação e depende do outro. E aqui mora o inferno: as pessoas não são naturalmente solidárias com as outras. É preciso ultrapassar a barreira do egocentrismo individual para construir uma sociedade.

Quando nós desejamos o inferno

A idéia de que o outro pode se transformar num inferno não foi criada por Sartre. Antes dele, a psicanálise já mostrava por quais linhas tortas nós criamos um “Diabo” que serve de bode expiatório para problemas que poderíamos enxergar melhor num espelho.

O psicanalista Christian Lenz Dunker, do Instituto de Psicologia da USP, explica que a afirmação de Sartre “não se refere ao caráter maligno ou diabólico do outro em si, mas ao fato de que os outros são demasiadamente importantes para nós”. Ele define o inferno sartreano como a situação em que alguém “depende demasiadamente do outro e por isso pode ser considerado ausente de sua própria vida, como um morto-vivo, reproduzindo costumes, preocupações e formas de vida inautênticas que nos impedem de amar”.

Dunker também chama a atenção para o fato de que só conseguimos perceber o outro como objeto. “Quando elegemos o outro como carrasco, nos fazemos de objeto e de instrumento para a tortura que este praticará contra nós. Nos dois casos vigora uma oposição do tipo atividade (conhecedor, torturador) e passividade (conhecido, torturado).” Segundo ele, esse problema se torna ainda maior porque só conseguimos perceber nossas próprias fraquezas através do outro. É a situação retratada no inferno de Sartre, onde não há espelhos e somente através da opinião dos outros podemos saber de nossa aparência – coitada de Estelle, que para corrigir sua maquiagem precisa se submeter ao olhar devorador de Inês, o “espelho das cotovias”… Nesta relação, a fraqueza do outro se transforma na minha força: o masoquismo de um se transforma no sadismo de outro.

Na peça Entre quatro paredes, cada um dos condenados utiliza os podres dos outros para agredi-los. A personagem que diz “o inferno são os outros” é justamente uma das que tem maior dificuldade de admitir sua própria responsabilidade pelos atos – Garcin, o desertor, que se agarra a Estelle como um náufrago a uma tábua, implorando que ela o considere um homem corajoso.

Mas o outro não é apenas indesejável. Como resume o psicanalista: “eu faço do outro livremente o carrasco de minha tortura”. Em certa passagem da peça, sem nenhum motivo aparente, a porta do inferno se abre. E os três condenados, mesmo com a possibilidade de fugir, decidem ficar na sala. Então, quer dizer que o outro é um carrasco – mas é o carrasco que eu quero para mim?

“Esta inversão é de fato a versão psicanalítica do inferno” – afirma Dunker – “os outros são infernais porque eles nos devolvem uma imagem, na qual eu posso ou não me reconhecer, à qual eu posso de fato depender”.

A origem do Diabo

Segundo Christian Dunker, “nossas figuras diabólicas são, via de regra, uma inversão de tudo o que gostaríamos de fazer e por medo, covardia, ou assimilação simbólica nos recusamos a fazer. Em outras palavras: diga-me aquilo que você mais veementemente nega e te direi quem és.”

Ele cita alguns exemplos: a bruxa e a possessa, figuras diabólicas criadas no Renascimento. A bruxa vive na floresta, nos confins da civilização, em comunhão com a natureza, preserva um modo de vida primitivo. Segundo a psicanálise, representa a infância do sujeito – um sujeito que é estranho a si mesmo em seus limites. Já a possessa é urbana, vive nos conventos e cidades, e se caracteriza por falar demais. É a pessoa que sonha acordada, revela sua intimidade e segredos em praça pública, perde sua individualidade. Nela habitam os demônios e por isso é preciso exorcizá-la – o que pode representar uma espécie de repressão ou recalque do sujeito. Referindo-se à teoria de Freud, o psicanalista afirma que “o conceito de inconsciente é forjado sobre o imaginário infernal. O inconsciente é este Outro, infantil, recalcado e sexual”, representado por imagens como a bruxa e a possessa.

Na teoria freudiana, a psique humana se divide em três instâncias: id, superego e ego. As duas primeiras são inconscientes: o id é responsável pelos processos mais primitivos do pensamento, as pulsões de amor (ligadas ao desejo sexual e de autopreservação) e pulsões de morte (desejo de destruição). É a parte mais instintiva da nossa alma. Já o superego se contrapõe ao id, representando os pensamentos morais e éticos internalizados. Ele é quem controla os impulsos do id e nos faz obedecer às normas que a sociedade nos impõe (sob pena de ir para a cadeia ou para o inferno). É o responsável pelo recalque de certos desejos que consideramos imorais e, por que não, infernais? Espremido entre os dois, permanece o ego, tentando alternar nossas necessidades primitivas e crenças éticas e morais. Esta é a parte de nós responsável pela nossa consciência, pensamentos, idéias, sentimentos e lembranças –  é a parte da mente que  você costuma considerar como sendo você mesmo. O superego vem de fora, das normas da sociedade; o id está no seu inconsciente e pensa barbaridades que você odiaria saber. Pelo menos, é o que Freud explica.

Para a psicanalista e professora da PUC Caterina Koltai, no livro Política e psicanálise: o estrangeiro, o conceito de inconsciente está relacionado com o de estrangeiro, que é representado como algo indesejável que deveria ser eliminado. Aponta ela que as tendências indesejáveis do próprio inconsciente são projetadas sobre o estrangeiro, e que antes de tudo é preciso aprender a reconhecê-las como parte do próprio sujeito – como ocorre na psicanálise. Só assim seria possível acabar com o ódio que desemboca em ações de xenofobia, racismo, fanatismo religioso, brigas de torcida etc.

Segundo ela, o que leva ao ódio é este processo de projetar no outro as características indesejáveis do nosso inconsciente. O outro, no caso, pode ser o estrangeiro, o negro, o judeu, a pessoa com deficiência, o homossexual… Koltai explica que isto é o que constitui a base do totalitarismo: ódio ao outro rejeitado e a si próprio.

E aqui partimos para as idéias do psicanalista Jacques Lacan – que se inspirou, e muito, em Freud e Sartre. O professor Dunker, especialista no pensamento lacaniano, explica as idéias do psicanalista francês: “O outro imaginário funciona como um depositário de minhas próprias projeções, em quem localizo tudo o que não admito em mim mesmo (imagem negada); em quem idealizo como concluídas minhas próprias limitações (imagem virtual)”. O outro que vemos como diabo não é o outro real, mas a imagem que nós temos do outro.

Caterina Koltai lembra em seu livro que o estrangeiro – um “outro” por excelência – é freqüentemente vítima desta idealização. Numa sociedade onde há limitações ao gozo, o outro é visto como alguém que pode gozar de outra forma, ou seja, desfrutar de um prazer que é proibido a nós. Daí vêm os efeitos de paixão, fascinação, agressividade, oposição e ódio em relação ao outro. A estudiosa comenta que esta relação pode ser tanto uma motivação para o turista que viaja a países “exóticos”, em busca de prazeres a que não tem acesso em sua própria terra (o contato com a natureza, os costumes estrangeiros, o sexo com prostitutas…) como para o xenófobo, que vê no estrangeiro uma ameaça para seu país, pois seria ganancioso, indolente e dotado de uma sexualidade sem limites, entre outras características diabólicas.

Outro detalhe muito importante: nós precisamos saber quem é o Diabo, não sossegaremos enquanto não tivermos uma definição. Segundo o psicólogo francês Jacques Hassoun num artigo publicado na coletânea O estrangeiro (também organizada por Caterina Koltai), nada irrita mais o racista do que o negro tão miscigenado que não se diferencia mais do branco, ou o árabe integrado à cultura europeia que assume um cargo público. Se o Diabo não existir, precisamos inventar um.

O psicanalista Christian Dunker comenta que, infelizmente, parece mais fácil entender o funcionamento deste processo de demonização do que tratá-lo. Ele explica, passo a passo, como se constrói um diabo:

A partir da identificação com um grupo, define-se também um contra-grupo, no qual se depositam todos os nossos medos e insuficiências. São os nossos inimigos: os torcedores do time rival, os estrangeiros, as pessoas que consideramos ser de outra “raça”, etc.

A partir do ódio que temos ao outro, construímos nossa identificação com um líder, figura privilegiada ou idéia. Por isto, exercer o ódio ao outro de forma coletiva (como numa torcida organizada, por exemplo) é uma forma de satisfação inconsciente.

Nas palavras de Dunker: “uma vez criado o ‘demônio’ ele começa a atrair para si um conjunto de figuras auxiliares, de paisagens, de complementos que formam gradualmente o inferno como depósito de tudo o que não conseguimos admitir ou tolerar em nós mesmos”. Na verdade, “o demônio serve para a sustentação de uma identidade defensiva, e tal identidade depende de um desconhecimento progressivo e continuado do próprio desejo.” O que significa que o inferno é formado pelos nosso próprios desejos que não aceitamos.

Outra característica do diabo, segundo o psicanalista, é que existe um “curioso vínculo erótico” entre ele e seu exorcista: “há uma espécie de curiosidade, um desejo libidinal oculto nas relações entre nazistas e judeus, misóginos e mulheres, homossexuais e homofóbicos, estrangeiros e nativos, etc.”

O diabo é excitante

O diabo é construído a partir dos nossos desejos inconscientes e proibidos – relação que foi investigada pela primeira vez pelo psicanalista austríaco Sigmund Freud. Num ensaio escrito em 1919, “Inquietante”, ele examina os significados do adjetivo alemão unheimlich, que se refere a coisas inquietantes, assustadoras, tenebrosas, medonhas (não há uma tradução exata em português). Unheimlich é o contrário de heimlich, que vem de Heim (lar) e significa familiar, escondido da vista dos outros (ou seja, oculto). Segundo a pesquisa de Freud, os termos equivalentes em árabe e hebraico são sinônimos de “demoníaco” – o que não é difícil de entender. O diabo não é mesmo entendido em assuntos ocultos, misteriosos, cujo nome não pode nem mesmo ser citado?

A partir daí, Freud analisa situações que são consideradas inquietantes, como a loucura, o transe epiléptico e os acontecimentos das narrativas de horror. Freud interpreta alguns contos de horror do escritor E. T. A. Hoffmann (autor de “O homem de areia”) para ilustrar que o sentimento de unheimlich se relaciona com emoções primitivas:num dos contos, a personagem teme perder os olhos – o que é uma versão do medo da  castração. O medo da morte e outras emoções presentes no próprio processo de desenvolvimento do ego também estão presentes nas histórias de terror. Autômatos, zumbis, coincidências entre pensamentos e acontecimentos, tudo isso nos parece muito estranho, por mexer com estas emoções inconscientes. O inferno talvez seja um dos exemplos mais gritantes de unheimlich. Consideramos como infernal tudo aquilo que rejeitamos, mas está presente no nosso inconsciente.

Outro psicanalista, Wilhelm Reich, inspirado em Freud e Marx, reforça ainda mais o caráter sexual da aversão ao outro. Para Reich, a principal fonte de insatisfação na sociedade capitalista é a interdição ao sexo, e esta foi a fonte que os nazistas encontraram para conseguir largo apoio na sociedade alemã, principalmente na classe média baixa. No livro Psicologia de massas do fascismo, Reich mostra como a propaganda nazista imprimia características diabólicas aos comunistas e judeus, ligadas à sexualidade. Os panfletos diziam que, entre os comunistas, haveria uma anarquia sexual, sendo permitidas aberrações como o estupro e o incesto. O judeu também era visto como lascivo, promíscuo, miscigenado, impuro e outros adjetivos. Os nazistas, ao detestarem esse judeu (que só existia na imaginação deles), estariam na verdade recalcando seu próprio impulso sexual, que desta forma só poderia se concretizar na perseguição, na agressão ao diferente.

Talvez, no fundo, a melhor definição sobre o demônio seja a do jagunço Riobaldo, personagem central do livro “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa. Após uma série de peripécias que incluem um suposto pacto com o Cão, o sertanejo conclui: “O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia”

Nesta edição de Babel, o leitor poderá conferir um verdadeiro passeio dos repórteres pelas profundezas do inferno e as artimanhas do Diabo – aliás, um dos nossos entrevistados de destaque. Nossos carrascos foram pessoas que morrem de medo de ir para o inferno, como os exorcistas que tiram demônios do corpo de seus fiéis, ou os milenaristas que crêem no fim do mundo em 2012. Ou aqueles que já têm certeza absoluta de que vão para lá – excomungados, assassinos e afins. Gente que já está no inferno – financeiro, espiritual, astral, etc. As pessoas que, por alguma ocasião, como a prisão, são submetidas a torturas diabólicas; e ainda as que querem sofrer as dores do Inferno e se sentem excitadas por isso, como os sadomasoquistas. Encontramos até mesmo adoradores do Diabo e pessoas que tentam ser o próprio Coisa-Ruim ou, pelo menos, agir como tal. Também há sacripantas que usam uma suposta possessão pelo Canhoto como álibi para não assumir a culpa por um crime. No Brasil, sobra para Exu, entidade do candomblé relacionada com a ligação entre o físico e o sobrenatural – e que não tem nada a ver com o Diabo. Na outra ponta, a busca do homem pela salvação, através do exorcismo e outros caminhos – inclusive a tecnologia, desde os barcos e as ferramentas ópticas até as formas de energia sustentável que, esperamos, impedirão que a Terra se aqueça e vire um inferno poluído.

Fobia: um inferno particular

Por Naiara Bertão

Olhos fixos, tensão, suor, ofegação, arrepios, desespero, tensão, contorções, gritos, choro, vômito, desmaio e medo. Numa sala escura, um homem está  deitado amarrado pelos pés e as mãos a uma espécie de maca. Seu corpo repousa nu e tenso à espera do desafio. Sua mente se concentra apenas no que virá e em mais nada. Não importa que há pessoas em sua proximidade porque elas não podem ajudar.

Quando o momento chega, o corpo começa a dançar. Mexendo-se de um lado ao outro, os músculos contraem e tentam rasgar as amarras que o prendem. Óbvio, em vão. A tensão aumenta quando finalmente o perigo está bem ali, embaixo da fina camada que separa sua nudez de seus repugnantes inimigos.

Aos poucos, eles vão se aproximando e tateando sem saber exatamente o que tocam. É nesse momento que os gritos começam, a ofegação se intensifica e o medo entorpece todos os seus membros. Sua mente não responde mais racionalmente. Seu instinto animal já venceu e luta, usando toda a sua energia, para sobreviver.

As ataduras não o deixam correr para longe dos hostis. Sem meios para fugir e sem força racional suficiente para suportar seu temor, ele é derrotado: clama por redenção e tem seus oponentes tirados de seu campo de visão. A batalha acabou. Sua respiração e coração começam a se normalizar, enquanto seu corpo sente ainda os efeitos da adrenalina circulando nas veias.

Vista por milhares de pessoas em maio deste ano, a cena acima descrita mostra a reação de um fóbico diante de seu medo de ratos. A agonia e o desespero do homem amarrado fazem parte de uma experiência cinematográfica de Kiko Goifman, intitulada FilmeFobia.

Seja através do homem nu contorcendo-se diante de roedores, seja através da mulher gritando diante da cobra, seja através do desmaio do próprio diretor diante de sangue, ou até mesmo do homem que não reage diante de seu medo de palhaços, o Filmefobia surgiu para levar as pessoas à reflexão sobre seus próprios medos.

“A ideia do Filmefobia partiu de um interesse particular meu pelo tema medo”, conta Kiko. “Medo é um tema tabu porque as pessoas não gostam de falar de seus próprios medos, fobias, por passarem a sensação de fraqueza”, fala.

Aliado a Hilton Lacerda no roteiro e Jean-Claude Bernardet no papel de protagonista, Kiko constrói a discussão do inferno do medo com cenas de fóbicos enfrentando, voluntariamente, sua fobia. O filme gira em torno de um making of de um documentário sobre fobia, que se propõe a confirmar a tese de que “a única imagem verdadeira é a de um fóbico diante de sua fobia”.

No jogo cinematográfico, Jean-Claude atua interpreta o diretor do documentário fictício inserido dentro do Filmefobia, que busca incessantemente a imagem autêntica. Na vida real, Jean-Claude conta que também possui repulsas. “Tenho uma profunda rejeição à minha imagem e voz. Acho minha voz insuportável e fecho os olhos quando me vejo em entrevistas ou filmes. Não tenho nenhuma fotografia, nem de infância”, fala.

Não só Jean-Claude, mas o próprio diretor, Kiko, rende-se ao tema, mostrando sua aversão à sangue em duas cenas do filme. Com o líquido girando em sua volta através de tubos desenhados pela artista plástica Cris Bierrenbach e também ao jogar um baralho de imagens de feridas, Kiko reage e desmaia.

“Minha fobia de sangue se manifestou na infância, quando um médico me fez desmaiar quando meu nariz sangrava. Depois disso, tive problemas em uma aula de educação física, sobre primeiros socorros, porque desmaiei na sala de aula. Péssimo. Na infância o pior era desmaiar com pequenos cortes, às vezes na casa de amigos…isso era duro…crianças são cruéis! Depois na adolescência foi ruim também, tive que ser dispensado de aulas de biologia sobre aparelho circulatório “, conta Kiko.

Desconstruindo o real e verdadeiro

Seja através de cenas de fóbicos de sangue, de cobra, ratos, borboletas, agulhas, ralos de banheiro, botões, anões ou da morte, o Filmefobia não se limita à discussão sobre medos, ele também propõe uma nova abordagem sobre o gênero cinematográfico. “Eu acho que se trata de um filme de ficção com atmosfera de documentário”, comentou Kiko em um festival de cinema na Suíça ano passado.

A mescla de gêneros começa com a escolha das personagens, já que o filme possui tanto fóbicos reais, quanto atores fóbicos e atores não fóbicos. Sem saber quem é quem, o espectador não consegue identificar se o que está vendo é real ou fictício, documentário ou ficção. Essa mistura entre os dois campos cognitivos também pode ser relacionada a própria concepção da fobia.

Segundo o psicanalista Ariel Bogochvol, a fobia se diferencia do medo comum por ser uma reação exagerada diante de uma situação irreal, que é ameaçadora apenas na mente do fóbico. Enquanto o medo comum se manifesta apenas diante um perigo real, muito associado à sobrevivência das espécies.

“A fobia nada mais é que a reação ansiosa de medo, temor, diante de um objeto, situação ou condição que lhe amedronta”, explica Ariel Bogochvol, que atualmente é médico assistente do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. Ariel também participou do Filmefobia no papel de um psiquiatra entrevistado por Jean-Claude que tenta desvendar as entranhas psicológicas desses medos.

“Há fobias que são respostas adaptativas ao perigo, que podem ser relacionadas com a evolução da sociedade, uma herança da espécie, como por exemplo, o medo de cobras, catástrofes e feras”, fala. “Mas há também fobias que são muito específicas, singulares, que não são partilhadas com a cultura, como no caso do medo de palhaço, botões de roupa, anões, ralos de banheiro e penetração”, comenta Ariel.

O psiquiatra explica ainda que algumas pessoas conseguem conviver bem com seus temores, a exemplo de uma alguém que tem medo de cobra, mas, por morar em uma grande cidade, dificilmente terá que encarar seu medo.

Apesar de a limitação eventual incomodar menos, quando o medo atinge locais essenciais, como ônibus, carros, metrôs ou trens, a vida do fóbico fica bastante comprometida, tornando-se um verdadeiro inferno, a exemplo dos agorafóbicos.

Confinamento

De origem grega, a palavra agorafobia advém da junção de dois vocábulos: agora (mercado, lugar aberto) + phobos (medo). Ao pé da letra, seu significado é medo de estar em espaços abertos ou no meio de uma multidão. Mas, na realidade, o agorafóbico teme a multidão pelo medo de que não possa sair do meio dela caso se sinta mal, ou mesmo de não receber socorro se algo de ruim acontecer, mas não pelo medo da multidão em si. Este transtorno está ligado a uma ansiedade antecipatória e a uma sensação de desamparo.

“A principal característica da agorafobia é estar associada ao transtorno de pânico. Geralmente, a pessoa relaciona esse transtorno a determinadas situações ou ambientes e passa a evitá-los com medo que resultem em ataques de pânico”, explica o psiquiatra Tito Paes de Barros, supervisor do Amban, o Ambulatório de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP).

Tito fala que muitos agorafóbicos evitam sair de casa sozinhos, estar  em meio a uma multidão, como em shopping centers, restaurantes, filas, cinemas, teatros e elevadores, viajar de automóvel, ônibus ou avião, ou até mesmo passar por uma ponte, passarela, túnel ou avenida larga.

“As situações que desencadeiam o processo são muitas. O agorafóbico teme enfrentar congestionamentos, passar por túneis e pontes, viajar em estradas que não tenham telefones de emergência instalados a uma determinada distância, isso porque julga que sair dali será difícil ou embaraçoso ou, ainda, porque o socorro não estará disponível se ocorrer uma emergência”, conta Tito.

A agorafobia pode impedir o paciente de ir ao trabalho, ao médico ou também de comparecer a eventos especiais como casamentos e festas, o que acaba prejudicando a própria convivência com a família. “Fobia significa um prejuízo na vida da pessoa e dos familiares próximos”, afirma o psiquiatra.

Tito conta que um paciente já falecido ficou 28 anos em sua casa, mais especificamente em seu quarto, sem nunca pisar para fora do apartamento em que morava com a família. Além de ter sua própria qualidade de vida prejudicada, os familiares tiveram que se adaptar a nova situação, com alguém sempre ficando em casa para acompanhar o fóbico e ajudá-lo nas atividades diárias.

Segundo o médico-psiquiatra Rodrigo Marot, que escreve sobre psicologia no portal Psicosite, essa dificuldade só pode ser superada pela companhia de alguém, mesmo que seja uma criança. Contudo, ao mesmo tempo em que a companhia passa segurança e tranqüilidade ao agorafóbico, ela também o deixa mais dependente, inclusive para fazer coisas mais elementares como comprar um pão na padaria.

Este é o caso da carioca Thairine Pereira. Atualmente com quase 19 anos (a serem completados em janeiro), Thairine ficou durante um ano apenas dentro de casa, após ter sido assaltada. “A agorafobia surgiu inesperadamente, foi como se uma coisa ruim iria acontecer… trabalhava no centro da cidade, aqui, no Rio de Janeiro, e fui assaltada, mas tempos antes eu já estava me sentindo insegura comigo mesma, passei a ter medo de ir à rua, medo das pessoas, via coisas e escutava coisa alienadas”, conta.

Thairine explica que ao sair na rua ela sentia uma insegurança tamanha de que as outras pessoas poderiam lhe fazer mal que começou a ter crises de pânico. “Eu sentia medo, falta de ar, minhas pernas tremiam e eu queria sair corrrendo”, fala.  Por causa do medo das crises Thairine largou tudo: trabalho, escola, cursos e sua vida social para se trancar dentro de sua casa, com medo de ir a qualquer lugar. “Minha família ficou totalmente desestruturada devido a minha doença. E os amigos, eu nem queria que eles me vissem, sentia vergonha e me via como uma fracassada na frente deles. Perdi minha vida social”.

Ela conta que em meados de maio, teve uma crise tão forte que ficou quatro dias sem dormir, mesmo tomando calmantes. “Me sentia como um fantasma vagando, com o olhar perdido, a única coisa que eu fazia era fumar, usei o cigarro como alimento e emagreci muito”, fala.

Com a perda da vontade de viver, Thairine até sentiu vontade de se matar, mas na hora não conseguiu, porque percebeu que não queria morrer. “Aos olhos dos outros me sentia uma inútil por não conseguir vencer os próprios medos. Fobia não é frescura, algumas pessoas pensam que isso é palhaçada, preguiça e etc., mas na verdade é um medo muito maior que o normal… o medo patológico é uma doença que precisa sim ser tratada, se eu não tivesse tratando a minha, eu poderia estar com uma doença psicológica bem pior”, comenta.

Há alguns meses Thairine começou a fazer terapia e tomar medicamentos para conseguir se controlar, como Rivotril e Cebrelin. Mas, mesmo assim, ela ainda sente muita dificuldade em sair de casa, mesmo acompanhada. “O máximo que vou é na casa de parentes”, fala.

Para ajudar a expor o que sente, ela criou um blog em outubro deste ano chamado Criatura Fraca!. Em um dos seus posts, em 12 de novembro, ela conta um pouco como é a sensação de sair na rua: “(…) quando eu to em casa é uma coisa que passa na minha cabeça quando eu to na rua é outra, tenho um tremendo pânico do mundo! De gente… Hoje de volta para casa me senti como se fosse aquelas meninas perdidas na vida… muito ruim! Como se eu fosse uma viciada, uma prostituta que fuma e cheira cocaína e não ta nem aí pra vida… é tão ruim ter esses pensamentos… Só eu sei o que passa aqui. Na verdade queria uma casa no campo, bem longe de tudo e todos acho que me recuperaria melhor, minha mãe queria que eu fosse pra São Paulo com ela e nem isso eu quis fazer, me divertir, ver meus amigos… eu não quis, como pode? Mas o melhor de tudo é que eu penso em melhorar e ficar bem e é assim que eu vou ficar e ponto final!”

PâââÂÂÂnico

Embora a agorafobia e transtorno do pânico estejam estreitamente conectados, nem todos os casos de pânico são necessariamente de agorafóbicos. Como explica Marot, do portal Psicosite, cerca de 1/3 ou até metade dos pacientes com pânico apresentam agorafobia. “As crises de pânico são bastante desagradáveis, mas não afetam o ritmo de vida como a agorafobia faz”, fala.

Para o psiquiatra Paulo Freitas, professor da UNISA – Universidade de Santo Amaro e administrador do portal Psicologianet.com.br, a agorafobia e o transtorno de pânico são os mais incapacitantes entre os transtornos de ansiedade.

Ele explica que no caso do pânico, a pessoa fica numa expectativa aterrorizante de que algo vai lhe acontecer e que não terá escapatória. Isso leva a uma ansiedade intensa e acaba resultando no aparecimento de sintomas físicos, tais como taquicardia, sudorese, tonturas, falta de ar, etc., que por sua vez, fortalecem ainda mais seu medo, como o que aconteceu com a jornalista Marina Leão Costa.

“Há uns anos atrás eu estava no parque temático da Disney com minha família. Ficamos um tempão na fila de um brinquedo que simulava uma viagem ao espaço, que inclusive era novidade na época. Sempre ouvia o aviso de que pessoas que tivessem claustrofobia não podiam entrar, mas como tinha tido nenhum problema com isso eu nem liguei. Quando entramos e sentamos, as portas se fecharam. Eu não sei exatamente porque, mas comecei a ficar com falta de ar e me sentir trancada sem ter como sair dali. Era um lugar bem apertado com quatro cadeiras uma ao lado da outra. Eu estava com meu pai e meu irmão”.

“Quando meu desespero aumentou, eu levantei e tentei abrir a porta, mas não consegui. Aí sim que entrei em pânico. Comecei a gritar, espernear, bater com violência na porta, pedir ajuda, mas ninguém abriu a porta. Minha família já não sabia mais o que fazer para me acalmar. Eles me fizeram sentar e tentar respirar. Fiquei fazendo isso por uns minutos até que a sensação ruim começou a passar. Acabei tendo que participar do brinquedo porque eles não abriram a porta, mas não curti nada porque ainda estava apreensiva, apesar de mais calma. Desde então tenho receio até de andar de elevador”, conta Marina.

Segundo Ariel, psiquiatra entrevistado para o Filmefobia, as crises de pânico, como a de Marina, costumam não ter um objeto claro, definido, desencadear da reação. Por isso, algumas pessoas podem acabar desenvolvendo fobias ao associarem a experiência ruim com a situação em que ela emergiu. “Elas elegem um objeto ou lugar como objeto fóbico de sua angústia e acabam evitando-o a partir daí”, diz.

Big Brother

Imagine-se sendo observado 24 horas por dia durante meses. Sua privacidade se reduzindo a zero enquanto desempenha tarefas simples do dia-a-dia como comer, dormir, ir à academia ou ainda tomar banho. O que milhões de pessoas estariam dispostas a lidar para alcançar visibilidade e fama, outras, os fóbicos sociais, já sentem calafrios só de imaginar.

Para o médico Rodrigo Morat, do Psicosite, a fobia social nada mais é que o excesso de ansiedade ou medo que certas pessoas sofrem quando observadas por terceiros durante alguma tarefa comum como falar, comer, dirigir, escrever, por exemplo. Esse incômodo é tamanho que pode impedir ou prejudicar significativamente a realização da tarefa.

“Conheci vários fóbicos sociais que deixaram de se formar na faculdade ou num curso de especialização porque no final seria necessária uma apresentação para a turma e isto seria intolerável. Conheci também pacientes (enfatizo aqui o plural) que recusaram promoções no trabalho apesar de saberem que eram competentes o suficiente para a função, mesmo deixando de ganhar mais e bloqueando sua ascensão na empresa, unicamente pelo medo de terem que falar em reuniões de trabalho”, conta Rodrigo Marot do Psicosite.

Por começar de forma muito discreta, dificilmente os fóbicos apontam uma data ou evento a partir do qual os sintomas começaram, ao contrário do transtorno do pânico. Rodrigo alerta que na maioria das vezes a fobia social começa no início da idade adulta, quando a personalidade e os traços de comportamento estão em fase final de consolidação. “Se não for tratada levará a consequências para o resto da vida, porque neste período são tomadas as decisões que direcionarão a vida de cada um”.

Ele fala que normalmente os sintomas se relacionam com o foco da fobia. Por exemplo, se o fóbico tem medo de falar com o chefe ou perante uma platéia, ele pode simplesmente ficar mudo. Se seu temor é de escrever, suas mãos podem ficar trêmulas a ponto de impedir que escreva.

Além dos específicos, Rodrigo conta que há sintomas mais gerais, como palidez, taquicardia, suor excessivo, falta de ar, mãos e pés frios, tonturas, tremedeiras, alterações de consciência, enjoos e desmaios. “Não é raro o paciente ter uma crise de pânico se insistir em enfrentar o problema por suas próprias forças, ou numa situação em que é pego de surpresa”, fala.

Fera contra fera

Além da agorafobia e da fobia social, há também as fobias consideradas mais comuns, como as de animais (zoofobias), agulhas e injeção, ambientes naturais e sangue. De acordo com o doutor Tito Paes de Barros do IPq da USP, as fobias de animais são as mais comuns, atingindo 11% da população.

Recentemente, o site científico norte-americano Live Science publicou uma pesquisa que aponta os dez principais medos dos norte-americanos. No ranking, o primeiro, segundo e nono lugar são zoofobias. (Veja a tabela)

O medo que mais arrepia os norte-americanos é o de cobras, ou ofidiofobia. Esta fobia é muitas vezes atribuída a causas evolutivas, experiências pessoais, ou influências culturais. De acordo com a matéria, o medo extremo de cobras pode evolutivamente ter deixado marcas nas pessoas, como sugerem alguns estudos. Eles falam que no passado, reconhecer uma serpente teria sido uma vantagem para a sobrevivência na selva.

Atrás do medo de cobras, ocupando o segundo lugar, está o medo de aranhas, bicho que atormenta Priscila Gonçalves Queiroz, estagiário de TI de 19 anos. Ela conta que desde criança sempre teve medo de insetos, em especial os aracnídeos, mas que viu seu pavor aumentar quando uma aranha caiu do pé de goiaba direto na sua mão.

“Foi uma sensação horrível, comecei a gritar, foi um escândalo. Minha tia que estava por perto pensou que eu tivesse me machucado”, fala. Na época, Priscila estava com quatro anos e desde então quando vê uma aranha começa a ficar nervosa, tremer, suar, sentir calafrios.

Calafrios estes que sentem também os cinofóbicos, ou medrosos de cães. Ocupando o nono lugar no Top 10 das fobias norte-americanas, o medo dos caninos acomete Julio, há mais de 20 anos. “Eu tenho uma imensa dificuldade de passar perto de um cachorro na rua se eu estiver sozinho. Acompanhado dá certa segurança, mas ainda assim existe uma tensão. Se eu vejo que tem um cachorro no meu caminho, normalmente eu troco de lado da calçada”, conta o revisor de São Paulo.

Julio fala que quando se confronta com um cachorro, não importando o tamanho, ele sente um medo excepcional de que o cão possa atacá-lo. “Mas quando o cachorro já foi embora e o ‘perigo’ passou, eu fico relembrando o que passei e imaginando desfechos terríveis que poderiam ter acontecido. E isso gera raiva e ansiedade”, fala.

Apesar de sua fobia ter se manifestado há mais de duas décadas, Julio só foi procurar ajuda há cinco anos, quando outros transtornos psicológicos começaram a aparecer, como TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Segundo conta, a terapia e a medicação o têm ajudado a amenizar os sintomas da cinofobia.

“Tenho conseguido ficar em casa fazendo minhas coisas com o cachorro da vizinha latindo por vários minutos seguidos sem me desesperar. Também consegui passar do lado de um cachorro que apareceu de repente sem sentir aperto no peito ou falta de ar e, depois também não fiquei imaginando coisas ruins. Eu sinto que está melhorando”, conta.

A despeito do ranking gringo, outro bicho que tira o fôlego (literalmente) de muitas pessoas são os roedores. Cecília Barroso foi uma das inúmeras pessoas que deixaram a sala de cinema quando viram seus objetos fóbicos performando no Filmefobia. “Quando os ratos começaram a aparecer foi me dando uma agonia insuportável. Eu saí da sala passando mal”, fala.

Cecília conta que sempre manifestou repulsa à ratos, mas seu quadro se agravou quando viu um roedor próximo ao berço de sua filha há alguns anos. “Eu precisava fazer alguma coisa, tirá-la de lá e precisei chegar perto. O pior é que ele não fugiu com medo de mim. Peguei minha filha e fui pra sala. Quando meu marido chegou, eu estava muda e não queria largar minha filha por nada. Apavorante”, relata.

No universo fóbico

Medo de altura, água, agulhas, anãos, aranhas, avião, baratas, bactérias, banhos, cobras, cordas, cometas, cristãos, demônios, doenças, dor, elevador, escuro, fezes, gatos, homens, injeções, insetos, lagartos, madrasta, mar, morte, música, noite, nudez, pelos, pombos, ratos, sangue, santos, ser vigiado, sexo, simetria, trovões …

Ao todo são quase 300 tipos de fobias, cada uma com suas particularidades, mas todas com uma característica em comum: o medo excessivo, que pode ser de um objeto, circunstância ou situação específica. Esta aversão exagerada é o que diferencia um medo “normal” – associado inclusive à evolução e à sobrevivência das espécies – de uma fobia, considerada doença.

Paulo Freitas, psiquiatra, fala que toda fobia provoca um desgaste emocional, físico e comportamental, por limitar algum aspecto da vida da pessoa, causar-lhe restrições ou até mesmo sérios transtornos mentais e físicos. “Ela vai desenvolver mecanismos de evitação da situação fóbica e com isso permanecer constantemente ‘armada’ e tensa, fortalecendo um círculo vicioso de medo”. Uma verdadeira prisão particular.

Não importa quando surge nem de onde vem, nem se é considerado grave ou moderado, não importa se a repulsa será seguida por tontura, gritos ou desmaios, a única coisa que importa para o fóbico é livrar-se de seu pesadelo, um pesadelo que não passa de adrenalina mental.

Sem saber diferenciar o que é de fato ameaçador do que não é, a única percepção que um fóbico sente diante de seu medo é a vontade de fugir ou matar, reações intimidamente ligadas aos instintos naturais de sobrevivência.

Em uma sociedade em que extremos são condenados e fugir dos problemas é sinônimo de fraqueza, como conseguem os fóbicos viver? Ao julgar um fóbico e reprimi-lo, isolando-o ou taxando-o títulos, não estaria a própria sociedade se tornando um fóbico de fobias? Afinal, existe alguém que não tenha seus próprios inferninhos particulares?

Lista de fobias

A

  • Acluofobia – medo ou horror exagerado à escuridão.
  • Aerofobia – medo de ventos, engolir ar ou aspirar substâncias tóxicas.
  • Afobia – medo da falta de fobias
  • Agliofobia – medo de sentir dor. Sinônimo de algofobia
  • Agorafobia – medo de lugares abertos, de estar na multidão, lugares públicos ou deixar lugar seguro.
  • Agirofobia – medo de ruas ou cruzamento de ruas.
  • Aicmofobia – medo de agulhas de injeção ou objetos pontudos.
  • Ailurofobia – medo de gatos. Idem galeofobia ou gatofobia
  • Automatonofobia – medo de bonecos de ventríloquo, criaturas animatrônicas, estátuas de cera (qualquer coisa que represente falsamente um ser sensível)

B

C

D

E

F

G

H

I

J

  • Japanofobia – aversão e medo mórbido irracional, desproporcional e persistente de japoneses e de sua cultura.

L

M

N

O

P

Q

R

S

T

U

  • Uranusfobia – medo do planeta Urano
  • Uranofobia – medo do céu
  • Urifobia – aversão e medo mórbido irracional, desproporcional persistente e repugnante a fenômenos paranormais
  • Urofobia – medo de urina ou do ato de urinar
  • Uiofobia – medo dos próprios filhos; medo da prole.

V

X

  • Xantofobia – medo da cor amarela / medo de objetos de cor amarela
  • Xenofobia – medo de estrangeiros ou estranhos
  • Xerofobia – medo de secura, aridez
  • Xilofobia – medo de objetos de madeira ou de floresta

Z

Yaoi: uma descoberta com muito sentido

Por Bárbara Matte e Fabiana Cambricoli

Sem clímax, sem resolução, sem sentido. Depois de alguns anos de estrada, infelizmente pra uns, felizmente pra outros, vamos nos convencendo de que o sexo é muitas vezes tratado, buscado e pensado como um simples fim. Sem nenhum sentido, partimos rumo a “jornada vital da fornicação” (JVF), sem perceber que quanto mais parceiros contabilizamos, mais vazios nos sentimos. Assumo que depois dos 25, essa realidade começou a me incomodar. Sentia que o mundo era regido pelo sexo, assistia as investidas das indústrias e comércio com esse apelo e, nesse momento, minha mente já estava condicionada a enxergar qualquer produto do sexo como uma putaria qualquer, mais barata que aqueles filmes pornôs exibidos nos famosos cinemas do centro de São Paulo, os quais colaboravam pra essa minha visão de mundo, já que meu emprego no centro me obrigava a conviver com esses locais.

Em um desses dias, rumo ao escritório, depois de tomar um pé na bunda de quem eu pensava ser meu próximo “amor da minha vida”, queria parar de pensar que eu também fora um objeto e que as pessoas com quem me relacionava estavam dentro da JVF. Tentando arejar meu pensamento, entrei em uma banca de jornal um tanto bagunçada, mas com uma grande quantidade de revistas. Não era daquelas banquinhas de esquina, mas também não era uma loja. Digamos que quem entrasse ali, estaria bem servido.

Como ainda tinha alguns minutos antes de começar o expediente, fiquei lá olhando para os lados procurando algo que me interessasse. Não estava procurando nada em específico, buscava apenas desviar meu olhar daqueles montes de revistas masculinas. Dei de cara com aqueles quadrinhos japoneses, os populares mangás, e fiquei instigada a comprar um. Quem sabe um desses me distrairia com algo mais leve e ingênuo. Diante de tantos títulos, eu não sabia o que escolher. Resolvi pedir a opinião de uma garota que estava ao meu lado e segurava um nas mãos. Descendência oriental, uns 15 anos, carinha de nerd, devia manjar tudo de mangás, e com certeza teria um bom pra me indicar.

Ao questioná-la sobre aquele volume que segurava, ela falou eufórica: “É o Gravitation, acabaram de publicar no Brasil, compra logo que eu tenho certeza que vai esgotar nessa semana!”. Envergonhada, imaginando que esse tal de Gravitation era conhecido por todas as pessoas minimamente informadas, tentei escapar de ter minha ignorância reconhecida através de um: “Ah, quer dizer que já foi lançado, então?! Puxa, uma amiga minha comentou sobre essa história, sobre o que é mesmo?”. Foi aí que começou minha surpresa: o Gravitation era a mais famosa publicação do Yaoi, gênero de mangá que tem como foco relações homossexuais entre homens e que é feito para o público feminino.

Sem saber até onde iria a relação homossexual da história, pedi pra garota me indicar algo mais “leve”. Sua resposta? Frustrante: “Leve? Mas nesse nem tem sexo, Tia. Se você tá procurando Yaoi, não vai encontrar nada mais leve que esse aqui”. Frustrada por descobrir o universo do qual eu fugia até mesmo dentro de um quadrinho oriental e querendo socar a menina pelo “tia”, saí da banca sem mangá nenhum. O jeito foi confiar na ingenuidade histórica de um exemplar da “Turma da Mônica”.

Hã??

Cheguei no escritório, olhei pra secretária jogando paciência, as salas dos chefes fechadas (estavam viajando) e logo constatei que o dia seria morto. Enquanto fazia as tarefas corriqueiras, não contive minha curiosidade e abri uma página de busca na internet. Precisava entender a mais nova moda de mulheres lendo quadrinhos japoneses que falavam sobre relações (sexuais ou não) entre homens. De onde vinha aquela idéia? Seria mais uma banalização do sexo?

Não! Logo eu viria a concluir que era algo bem mais profundo que isso. Optei por digitar “yaoi” e acabei descobrindo um mundo todo que girava em torno de um único conceito. Dentro do yaoi existiam subníveis: romances água-com-açúcar que eram os chamados shounen-ai; sexo explícito com consentimento das partes envolvidas, lemon; e, finalmente, sexo explícito sem consentimento das partes envolvidas, o dark lemon! Tinha até medo de descobrir o que se passaria em cada subgênero desse… Estupro? Eu tinha lido certo, né? Quadrinhos com cenas de estupro! Homens sendo estuprados! Era tenebroso demais para ser real… Eu estava achando tudo aquilo de um tremendo mau gosto!

Pesquisando um pouco mais, descobri que esses mangás não só tinham como alvo um público feminino, como também eram feitos por mulheres! Agora, me diga se eu posso? Se eu já achava estranho o fato de uma menina se interessar por esse tipo de “literatura”, imagine como não fiquei quando soube que eram mulheres que escreviam, que pensavam naquelas histórias… Seria até ingênuo achar que isso tinha um único fim como tantas outras publicações que existem por aí.

Resolvi que deveria fuçar um pouco mais. Em um dos textos disponíveis, encontrei o que seria a história do surgimento daquele gênero japonês, até então, totalmente bizarro diante dos meus olhos. Existia no Japão, até os anos 70, uma hegemonia masculina no mercado editorial de mangás. A maioria das publicações era feita por homens e havia um grande desprezo pela figura feminina nas histórias. As mulheres eram meros enfeites e em nada lembravam mulheres do mundo real.

Isso fazia mesmo sentido. Eu me lembro dos “Cavaleiros do Zodíaco”, que eu assistia tempos atrás, quando era pequena. E por mais poderosas que fossem as mulheres no desenho animado (o chamado anime, no Japão), elas nunca se equiparavam aos homens, além de existirem em quantidade ínfima na história. Sem contar que elas não representavam bem a classe feminina.

Refletindo, constatei que o tratamento dado à figura feminina nos mangás não fugia tanto ao que se passava na sociedade japonesa.

Foi entre as décadas de 70 e 80, época em que o mercado mundial começou a se abrir para os mangás, que as mulheres japonesas começaram a reagir frente a sua condição e representação social. Iniciou-se assim a produção dos Shoujo Manga, que são os mangás produzidos exclusivamente para um público feminino e que tem como mangakás (artistas de mangás) somente mulheres.

Foi na mesma época que aparecem as primeiras histórias com temática homossexual entre rapazes. Esse tema é incorporado nas produções dos Shoujo, o que seriam os primeiros passos do Yaoi. Anos depois, o Yaoi se consolida como um gênero de mangás escritos “por mulheres para mulheres” e que não se preocupa em apresentar um desfecho lógico ou resoluções verossímeis, daí o nome Yaoi que é resultado de uma abreviatura para “yama nashi, ochi nashi, imi nashi” (“sem clímax, sem objetivo, sem sentido”).

Começa a fazer sentido

Diante desse bombardeio de informações, eu ainda não conseguia entender a atração que uma história homossexual entre rapazes exercia sobre um público feminino. Como as jovens japonesas poderiam ficar entretidas e até excitadas por histórias como essas? Não entendia também como histórias como essas poderiam ser contadas por mulheres. A primeira resposta para a minha inquietante questão veio de um artigo acadêmico sobre o Yaoi: esse gênero fazia sucesso entre o público feminino pois as mulheres se sentiam representadas nas histórias! Como assim???

Na verdade, em cada casal homossexual presente nas histórias yaoi, um dos indivíduos representa a figura feminina. Percebemos isso através do próprio desenho, já que geralmente um dos membros do casal é mais baixo, magro, tem traços e vestimentas mais femininos, além de demonstrar maior sensibilidade e fragilidade. Continuando a leitura do artigo, chego a uma conclusão que talvez responda as minhas questões: “o yaoi é um espaço de expressão do imaginário feminino oriental, que se vale das relações homossexuais masculinas como ferramenta, tendo em vista que apesar de tais relacionamentos não serem estimulados, eles são aceitos no universo sociocultural japonês. O deslocamento do foco para uma relação entre homens colocaria as partes envolvidas em um estado de equivalência e paridade perante a sociedade oriental, dando margem para que as mulheres possam se manifestar em condições de igualdade em relação aos homens”.

Acho que eu começava a ver sentido naquilo tudo. O que acontece é que frente a um paradigma ainda presente no extremo oriente no qual a mulher é geralmente menos valorizada que o homem, as mangakás, também submetidas a uma lógica machista no mercado editorial de mangás, passam a produzir yaoi, que conta histórias de amor entre rapazes, nas quais os dois membros do casal homossexual se vêem numa situação de igualdade e paridade. Nenhum personagem é subjugado pelo outro. Nessa relação, a mulher se sente (bem) representada.

Mas por que não representar a mulher através de um papel feminino, forte e marcante, que fugisse do modelo de mulher oriental submissa ou inferior ao homem? Porque a indústria editorial é igualmente machista, ainda mais se pensamos nas décadas de 70 e 80, quando o Shoujo estourou. Dominado por homens, o mercado editorial não aceitaria uma publicação cujo foco fosse um papel feminino forte.

Mergulhada no mundo yaoi, o qual havia conhecido, julgado e revisitado no mesmo dia, não percebi as horas passarem, já eram quase cinco da tarde e eu não tinha feito nem metade das tarefas do dia. Tudo bem, no outro dia chegaria mais cedo pra pôr tudo em dia antes que meus chefes voltassem de viagem. Antes de voltar pra casa, queria a resposta pra minha última inquietação: como a mulher se sentia representada no subgênero do yaoi que contém sexo explícito sem consentimento, o tal de dark-lemon?

A questão do dominado-dominador é mais uma ferramenta das mangakás para questionar o papel da mulher na sociedade japonesa e propor uma inversão de papéis. Em uma história em que o personagem mais fraco sofre (geralmente, o passivo, ou seja, a representação feminina) nas mãos do ativo, geralmente ao final da história, há um momento de redenção e brilho em favor do “mais fraco”. Podemos ver isso nos Yaoi que mostram estupros ou humilhações. Quando o personagem que “oprime” se arrepende de seus atos ou é desmascarado pelo oprimido fica clara a inversão de papéis. A mulher se vê como vitoriosa ou vingada em uma relação marcada anteriormente pela desigualdade. Neste momento, de certa forma, ela se equipara ao homem ou o supera.

Estava na hora de sair da teoria e ver como era a coisa na prática. Tinha que ver alguns desenhos… Eu estava no trabalho! Não poderia sair baixando qualquer coisa no computador. E se eu entrasse em algum site pornográfico… Bom, primeiro que nem ia entrar porque é barrado; segundo, se por ventura entrasse, ia ficar registrado no meu histórico! No mínimo, constrangedor. Descobri que o yaoi não se restringia a páginas escritas, a quadrinhos, mas também existia no formato de desenho animado, os animes. Decidi, então, apelar pro youtube.

Eu não esperava encontrar tanta coisa, mas… me enganei! Tinha coisa pra caramba! Eu tinha escrito “yaoi” e o que apareceu foi um monte de vídeos, como se fossem videoclipes com imagens de animes do gênero. Cliquei no primeiro lá da lista. Era só cena de beijo… Mas eu achava estranho. Mesmo depois de ler tudo aquilo, eu ainda achava estranho. Em algumas cenas dava pra perceber quem representaria a mulher: realmente, um bonequinho mais baixinho, pequeno, os olhos eram maiores, em muitos casos, que os do parceiro… Se colocasse um cabelo comprido, virava mulher!

Que tal procurar com “Gravitation”? Foi o que eu fiz! Também apareceram vários clipes no mesmo estilo, os AMV (anime music video, procurei na internet). Lógico que não dava pra eu entender a trama, mas podia ver como soava um desenho daqueles.

Muito sentido

O engraçado de tudo isso é que todas essas descobertas sociológicas não fazem o menor sentido para explicar o sucesso do Yaoi no Ocidente e no Brasil, já que possuímos modelos sociais totalmente diferentes daqueles do Oriente. Assim, nossas mulheres não deveriam sentir-se representadas por esses mangás. De fato, a maioria não se sente. Embora haja algumas jovens ligadas as modinhas japonesas que acompanham os quadrinhos e animes yaoi, o público majoritário do gênero em terras ocidentais são os jovens do sexo masculino homossexuais. Aí sim, talvez o yaoi apareça como mais um instrumento da busca da excitação, do prazer, do sexo…

Mas nessas alturas, o Yaoi já tinha me provado que não era mais “uma putaria mais barata que cine pornô do centro”. Ao contrário, me surpreendeu como uma forma de usar relações homossexuais, muitas vezes com as mais diversas práticas sexuais, para questionar o papel da mulher e para protestar contra a condição da mesma na sociedade.

Seis horas. Peguei minhas coisas. Já ia deixando a revistinha da Mônica em cima da mesa. Me arrependi de não ter optado pelo Gravitation. Com certeza, me traria mais reflexões do que a Mônica correndo atrás do Cebolinha (se bem que isso é um ensaio de inversões de papéis também…). Fiz o caminho de volta no Vale do Anhangabaú. Naquele momento, os cinemas com cheiro de transa barata já não me incomodavam tanto.

Cheguei em casa e querendo acabar com minha curiosidade, fui procurar mais coisas yaoi! Talvez um bom lugar fosse no Orkut. E era um bom lugar mesmo! Havia muitas comunidades relacionadas ao assunto. E não eram pequenas como eu achava que seriam. A primeira da lista tinha 10.000 associados! Entrei em uma formada por meninas que gostavam de yaoi. A primeira coisa que vi foram as enquetes. “Qual o casal yaoi mais kawaii?” (literalmente, “fofo”).

Vendo a lista, me deparo com uma quantidade razoável de casais… Até que um me faz ficar boquiaberta! Hyoga e Shun? Hyoga e Shun?? “Cavaleiros do Zodíaco”! Yaoi do Cavaleiros? E ainda outros vindos de Harry Potter! Eu estava embasbacada! Quer dizer então que o yaoi podia ser transferido pra qualquer situação em que a mulher não se visse bem representada? Como por exemplo, transformar Hyoga e Shun num casal… Um é rosa, o outro é azul (a saber, o Shun é o rosa)… Dei uma olhada em outras enquetes.

“Você gostaria de ser um homem?”. A maioria das meninas respondeu… SIM! Mas apenas para poder viver um yaoi. Então, cada vez mais eu começava a crer que a teoria era real. As mulheres realmente se espelhavam naquelas relações!

Eu estava com o Gravitation na cabeça. Digitei então no mecanismo de busca do Orkut. Várias comunidades! Não traziam tanta informação assim… Na verdade, eu nem bem sabia o nome dos personagens! Entrar em uma comunidade em que as pessoas conversam sobre quando tal cara fez tal coisa não deveria ter sido o primeiro passo. Wikipedia! Havia um verbete extenso sobre Gravitation. Os personagens, “biografias”, a autora…

Além da série original (que chegou até a passar na TV japonesa), havia outras historinhas oficiais lançadas e, me pareceram, no meio online. Eu não sabia bem da história original, mas os apêndices eram muitos elogiados ali e tinham temáticas… curiosas. Consegui acessar a algumas imagens que traziam cenas de sexo explícito apenas! E pelas descrições que tinha lido, não tinha história mesmo. Era só sexo. O que parece que a autora fez foi distorcer, exagerar tanto no tipo de sexo praticado, que chegava a ser ridículo! Ela estava tirando sarro de tudo aquilo! Aquele tipo de representação muito recorrente no… hentai! Pornografia heterossexual, de homem pra homem. Chega a ser repulsivo o modo com a mulher é tratada nesse gênero…

Com essa dúvida, acabei chegando a outro ponto… Existia um gênero de mangá feito de homens gays para homens gays. O bara. Não foi algo por que me interessasse muito. Ali parecia que a sacanagem era o que imperava! Os homens pareciam homens, e não garotos delicados, andróginos. Vi o suficiente para não querer saber muito do assunto…

Então, o yaoi não se concebia como algo somente para deleite da leitora (ou do leitor), mas pra demonstrar mesmo uma situação que nem sempre parece tão clara ou que se perde um pouco em meio a algumas conquistas realizadas pelo sexo feminino.

A partir daquele momento, acho que passaria a olhar o sexo e seus produtos com outra percepção. Poderia achar um novo significado pra tudo. Um mundo novo com clímax, novos sentidos e muitas resoluções.

Sexo, que privilégio!

Por Elisa Estronioli

Os nomes das presidiárias e do parceiro de uma delas são fictícios. A entrevista com elas foi feita nas dependências da Penitenciária  Feminina da Capital, dia 09/06/2008.

Todo último sábado do mês é dia de Teresa receber Ronaldo durante duas horas rigidamente cronometradas de intimidade. É o único momento em que eles podem ficar completamente a sós, em um quarto com uma cama de cimento, onde ela própria é que tem de levar os lençóis.

A situação não apresenta nada de anormal, exceto por Teresa e Ronaldo serem casados no papel há dez anos. Acontece que o casal não vive junto há seis anos, desde que Teresa está presa. Atualmente, ela, já com 40 anos, vai viver até os 76 na Penitenciária Feminina da Capital e as duas horas cravadas da chamada visita íntima são o único momento de intimidade que as normas da casa permitem ao casal.

Guardadas todas as restrições, a penitenciária é a única feminina da cidade de São Paulo a permitir a suas internas o direito à visita íntima. As outras duas instituições do tipo na capital, a Penitenciária Feminina de Sant’ana e a do Butantã, não o fazem. A situação é especialmente discriminatória quando comparada à da população carcerária masculina. Para eles, o direito à visita íntima existe desde 1987 e é amplamente disseminado na maioria dos presídios. Para elas, o privilégio só foi conquistado em 2001, depois de muita persistência de grupos defensores dos direitos das mulheres encarceradas.

Entre os motivos está, é claro, a discriminação de gênero, dado que os presídios foram pensados para uma população masculina (e por uma população masculina). Muitos presídios femininos são masculinos desativados e não contam com uma estrutura própria para mulheres, por exemplo, não tem maternidade nem berçário. As mulheres são apenas 6% da população carcerária brasileira, um número comparativamente pequeno para estimular a reflexão sobre suas especificidades. “Antigamente, na maioria dos presídios femininos, não podia ter espelho, além do uniforme ser igual ao dos homens. Era uma negação total da feminilidade”, afirma Sônia Drigo, do grupo de estudos e trabalhos Mulheres Encarceiradas.

Além disso, nos presídios masculinos, a visita íntima surgiu com uma maneira de apaziguar os ânimos dos detentos e manter a disciplina, o que nunca foi pensado para os presídios femininos. “Se uma casa de detenção masculina vira, não tem polícia no estado de São Paulo para segurar isso”, diz Sônia.

Os motivos não param por aí. “O principal problema alegado pela Secretaria de Administração Penitenciária era a gravidez. Uma mulher pode entrar no presídio masculino e engravidar que o problema é dela. Mas se ela engravida dentro do presídio é um problema do Estado”, afirma Heidi Cerneka coordenadora nacional da questão feminina na Pastoral Carcerária.

A justificativa da secretaria se mostrou infundada. A primeira penitenciária de São Paulo a instituir a visita íntima, e a primeira do país a fazê-lo de maneira não esporádica, foi a do Tatuapé (atualmente desativada), em janeiro de 2002. Um ano antes da regularização da visita íntima na unidade, duas internas conseguiram engravidar. No ano em que foi instituído o direito, de cerca de 50 mulheres que entraram no programa apenas uma engravidou – porque quis – mas não houve um boom de presidiárias grávidas. Geralmente, e foi o caso em Tatuapé, a visita íntima é acompanhada pela distribuição de preservativos e orientação especializada sobre prevenção à gravidez indesejada.

Exceções

Não que todos os cuidados sejam suficientes. Na PFC, Marinete é uma das internas que enfrentou uma gravidez dentro da cadeia, oriunda de uma visita íntima. Presa há três anos, ela afirma que usou preservativo no dia em que engravidou e “não sabe o que aconteceu”. A criança, uma menina de um ano e nove meses, foi a única dos oito filhos que ela não planejou. A menina e seu outro filho pequeno (de quem ela estava grávida quando foi presa) estão com o pai – o homem de quem Marinete recebe visita íntima.

Teresa também tem filhos, seis, com seu marido. As duas mais velhas estão casadas, mas os outros moram com o pai, o que ela acredita ser um fator que contribuiu para que o marido não a deixasse. “Se não fosse por eles, acho que ele já tinha desistido”. Segundo diz, o marido a visita praticamente todo mês, desde que foi presa.

Teresa e Marinete reconhecem que são exceções: ao contrário do que acontece quando o homem é que vai preso, a maioria das mulheres encarceradas são abandonadas pelo marido. Para Sônia Drigo, o motivo é cultural: além de serem “naturalmente” mais infiéis e menos apegados à família, os homens não querem se submeter às regras da visita íntima (o horário fixo, a revista, a espera) para encontrar a mulher. Mesmo nas filas de visita comum, a maioria é de mulheres, e até no caso das presidiárias quem visita são as mães, as irmãs, sempre mulheres.

Com o marido à solta lá fora, traições não deixam de ser algo comum. Teresa conta que já foi traída pelo marido uma vez, quando já estava presa, mas foi algo eventual. Ele mesmo contou pra ela. “Perdoar a gente não perdoa, mas aceita, né?”. Não dá para exigir muito de dentro do presídio. “É muito tempo de cadeia, a pessoa cansa. Eu no lugar dele já tinha desistido”.

Para a psicóloga Mônica Setúbal, que implantou a visita íntima na Penitenciária Feminina do Tatuapé quando era diretora da unidade, há um segundo motivo para explicar a ausência dos maridos nas visitas: “a maioria dessas mulheres tem o marido preso também. Muitas delas, inclusive, dançam quando vão levar alguma coisa [drogas] pra eles na cadeia”.

A sul-africana Luanda foi presa em 2004, na terceira vez que veio ao Brasil. Encarcerada há quase quatro anos, faz apenas quatro meses que recebe visita de seu namorado. Por que passaram tanto tempo sem se encontrar? O rapaz também estava preso e só agora conquistou a liberdade.

Um lugar próprio

Luanda conheceu o namorado na carceragem da Superintendência Regional da Polícia Federal, na Lapa. Os dois ficaram presos juntos lá por 8 meses e se envolveram ao conversar através das grades. Lá o sexo não era permitido, mas acontecia quando as celas eram abertas para a visita comum. “Poder, não podia, mas a polícia não via”.

Luanda conta que, de três ou quatro vezes que conseguiu transar com o namorado naquela situação, em uma foi flagrada por um funcionário. Ficou com vergonha, mas nenhuma providência da direção foi tomada. Naquelas situações, o sexo dependia de algum presidiário que ficava de olho na entrada da cela. “Era bem comum [presidiários e presidiárias transarem], mas não ia pra frente porque muitos presos eram casados”.

Enquanto nos presídios masculinos a visita íntima ocorre freqüentemente dentro das celas, nos femininos, procura-se um lugar especial para isso. Para Heidi Cerneka, esse é um dos motivos pelo qual a íntima feminina caminha a passos tímidos. A visita dentro da cela é mais precária, pois em tempos de superlotação as celas não são individuais, e as hipóteses pelas quais não funciona entre as mulheres são o constrangimento, a resistência da companheira de cela e a recusa do próprio companheiro.

Não ter um lugar próprio para a visita íntima é o motivo alegado pela direção da Penitenciária Feminina de Sant’ana para não adotá-la. A unidade é chamada de Carandiru das mulheres pelo Grupo de Estudos e Trabalho Mulheres Encarceradas, por ser o maior presídio do gênero da América Latina, com mais de 2.500 internas vivendo em situação precária. Na penitenciária do Tatuapé, a visita íntima ocorria em um ala separada, com celas desativadas. Na da Capital, ocorre em um prédio separado, onde há vinte quartinhos com cama de cimento, dez para cada lado, e dois banheiros coletivos no centro, um masculino e um feminino. Segundo funcionárias da unidade, nunca aconteceu de todos os quartos estarem ocupados.

Atualmente, há 758 internas na Penitenciária Feminina da Capital, das quais apenas 19 estão inscritas na visita íntima. Entre as cadastradas, nem todas recebem os parceiros  mensalmente.

Desestimulando

Sônia Drigo e Márcia Setúbal concordam que o processo de generalização da visita íntima feminina ainda não se consolidou, já estagnou e até regrediu. Além da necessidade de adequação do espaço para isso, o que é demorado e às vezes inviabiliza o processo, a Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo passou a exigir, há cerca de três anos, que as candidatas à visita íntima comprovem em cartório que possuem um relacionamento estável com o parceiro. Para a população carcerária masculina, a íntima é vista como uma questão de necessidade, enquanto para a feminina, é uma maneira de manter os laços afetivos.

“Você não sai à noite e fica com alguém, sem compromisso? Por que é que elas não podem?”, questiona Márcia. Essa medida teria o objetivo de conter as ações do crime organizado, uma ameaça desde que o PCC assumiu o controle da maioria dos presídios paulistas.

As próprias condições do encarceramento acabam desestimulando as presidiárias a manterem a visita íntima. Luanda conta que tem uma colega que recebia visita íntima regularmente, mas começou a se envolver com uma mulher e não teve mais coragem de encontrar seu marido. Dentro do presídio, há muitas mulheres que estão lésbicas, as quais Luanda acredita se envolvem por carência. “Quando elas saírem, não vão mais se relacionar com mulheres. Aqui só 10% realmente é lésbica, mas na prática há 40% ou mais que estão”. Para Sônia, além da carência afetiva, muitas acabam se envolvendo com alguma interna que lhes oferecem proteção dentro da cadeia. “Elas dizem ‘fica comigo que nada vai te acontecer’. Muitas delas nunca tiveram relacionamentos com outras mulheres antes da cadeia.

Direito não estendido

Presa há um ano e nove meses, Daniela nunca recebeu visita íntima, pois trata-se de um direito não estendido às homossexuais na PFC.

Reconhecidamente lésbica desde os 14 anos de idade, Daniela contou seis mulheres com as quais se relacionou depois de presa. Dentro da cadeia, a chamam de Gabriel, apelido que ganhou da amiga de uma ex-namorada há cerca de três anos. “Daniela é só pras agentes”.Com um sorriso suspeito no rosto, a presidiária nega que as internas que recebem visita íntima dos parceiros sucumbam às relações homoafetivas ocasionais.

Com a parceira atual, Daniela está há quatro meses. Há pouco tempo,elas dividem a mesma cela. Sua namorada, que ficava em outro pavilhão, pediu para ser transferida para a cela de Daniela em uma carta à diretoria da penitenciária, onde alegava ter problemas com sua antiga companheira de cela.Na época, o casal passou a dividir o quarto com uma terceira mulher. Daniela diz que precisava usar o “quieto”, um barbante com cortina que separa as camas, na hora do sexo. Ela diz que só transa acontecia após às 22h, quando tem a certeza que as agentes não vão mais inspecionar o quarto.

Oficialmente, relacionamentos amorosos entre as presidiárias não são permitidos, mas na prática, a administração do presídio faz vistas grossas. “Isso não tem nada a ver com respeito por elas serem lésbicas. Relação homossexual assumida dentro da cadeia é troca de favores, como portar um celular”, diz Sônia Drigo. É privilégio, assim como sexo com o parceiro.

Salve o prazer! Salve o prazer!

Por Ana Paula Severiano

Sacanagem é com a gente mesmo. Mesmo que velado, o sexo sempre esteve presente na música popular brasileira e as décadas de 60, 70 e 80 foram cruciais para mudar a trilha sonora da cama brasileira.

“De quatro, de lado/ Na tcheca e na boquinha/ Depois vem pra favela/ Toda fresca e assadinha”. Ainda há quem se choque com o funk sacana de Deize Tigrona, Tati Quebra-Barraco e demais representantes do movimento que nasceu dos bailes da periferia carioca. Os mais puritanos desconhecem que a sem-vergonhice, no entanto, é tão antiga quanto a nossa música popular. Para o jornalista, produtor musical e pesquisador Rodrigo Faour “a reação de repúdio das elites ao sucesso do maxixe (na virada do século XIX para o XX) é bem parecida à que acontece hoje com o funk carioca, mais de um século depois”. Faour é o autor do livro História Sexual da MPB (Record, 2006), em que são esmiuçadas letras de canções e histórias. Assim, o leitor descobre que a música também é um espelho da evolução de costumes e do comportamento sexual do brasileiro.

Ai, sim, meu bem ataca! Ataca sem descansar

Rui Barbosa ficou indignado quando em 1914 a primeira-dama do país, Dona Nair de Teffé, dedilhou ao violão a melodia de Corta-jaca: “é a mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba! Mas, nas recepções presidenciais, o Corta-jaca é executado com todas as honras da música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte!” A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens era o tal do maxixe, ritmo “indecente” e “imoral” que também surgiu nos bairros mais pobres da periferia carioca, na metade do século XIX. Ele se difundiu pelo país com as apresentações dos teatros de revistas e fazia os casais requebrarem sensualmente de corpo colado nos bailes da vida.

O Corta-jaca foi lançado em 1895 por Chiquinha Gonzaga e regravado muitas vezes com mudanças na letra, mas sempre fazendo referência à jaca, uma curiosa metáfora para a vagina: “Sou gostosa/ Que dá gosto de talhar/ Sou a jaca saborosa/ Que amorosa/ Faca está a reclamar/ Para a cortar/ Ai que bom cortar a jaca/ Sim, meu bem ataca!/ Assim, assim/ Toda a cortar/ Ai, ai que bom cortar a jaca/ Ai, sim, meu bem ataca!/ Ataca sem descansar!”

E muita gente achava que a putaria declarada era invenção recente. Na verdade, o maxixe é um exemplo de uma irônica libertinagem restrita e comedida daqueles tempos e que perdurou até a década de 60. A revolução sexual virou tudo de cabeça pra baixo (enquanto os censores da ditadura militar tentavam impedir o que não tinha remédio nem nunca teria). Faour afirma que “90% das letras de nossa música ao falar de amor versavam sobre relações mal resolvidas, interditadas, tristes, melancólicas e vingativas. Os outros 10% dessas letras eram a mais pura sacanagem, algo que cresce à proporção que ocorre uma liberação maior dos costumes em nossa sociedade, especialmente a partir da década de 60”. Até lá, a sensualidade e o erotismo eram expressos principalmente durante as ofegantes epidemias, que se chamavam Carnaval, como se pode confirmar nessa marchinha de Ary Barroso, lançada em 1937: “Eu dei!/ O que foi que você deu, meu bem?/ Eu dei!/ Guarde um pouco para mim também (….)/ Eu dei!/ Diga logo, diga logo, é demais!/ Não digo e adivinhe se és capaz!”.

Se a sedução e o sexo entre homens e mulheres já era um tabu impublicável, imagine entre o mesmo gênero. O homossexualismo só virou pauta da MPB depois da década de 70. A brecha da festa da carne deixou que se prestasse uma homenagem ao Zezé, mas já era 1964: “Olha a cabeleireira do Zezé!/ Será que ele é? Será que ele é?/ Será que ele é bossa nova?/ Será que ele é Maomé? / Será que ele é transviado?/ Mas isso eu não sei se ele é!”.

Isso é bossa nova, mas sexo não é muito natural

Se em 90% das canções a sexualidade aparecia de forma mascarada, poucos eram os compositores que se arriscavam a falar mais abertamente do que acontecia embaixo dos lençóis, à meia luz. Amendoim Torradinho é um samba-canção antecessor da bossa nova, composto por Henrique Beltrão e cantado por Sylvinha Telles, muito abusadinho para o período, ainda mais quando interpretado por uma mulher: “Meu bem, esse teu corpo parece/ Do jeito que ele me aquece/ Um amendoim torradinho/ Eu sinto uma vontade louca/ De gritar pela rua/ Que eu já colei minha boca/ Na boca que é tua”.

Um pouco antes, em 1951, Emilinha Borba não pode cantar o bolero Dez Anos numa festa religiosa de São Paulo, pois o padre avaliou que a letra era pecaminosa: “Recordo junto a uma fonte, nos encontramos/ Que alegre foi aquela tarde para nós dois/ E o canto daquela fonte nos envolveu/ O sono fechou meus olhos, me adormecendo/ Senti sua boca linda a murmurar/ Abraça-me, por favor, minha vida/ E o resto desse romance só sabe Deus”. Aos ouvidos do padre, os casais teriam cometido atentando ao pudor e se encontrado “nus” junto à fonte.

A bossa nova trouxe para a música popular brasileira uma sedução delicada. O violão de João Gilberto emoldurou de maneira envolvente a paisagem do Rio, a boemia e cantou a mulherada carioca. Havia muito cheiro de sexo no ar, mas nada explícito. Depois do amor, de 1961, foi interpretada de forma pungente por Maysa e talvez tenha sido a primeira a versar sobre o pós-orgasmo: “E depois do amor/ Cai a paz sobre nós/ E depois do amor/ Nossos corpos tão sós/ Houve tudo de bom/ A seu corpo entreguei/ Uma flor, todo o amor/ No seu corpo nu, existi/ Tudo é paz pra nós/ Nossos corpos sós. Não à toa, a obra de Normando e Ronaldo Bôscoli foi censurada em São Paulo.

Pare de tomar a pílula

Nossa expressão sexual era reprimida e isso se refletia na arte. Como conta Chico Buarque (a Roberto de Oliveira, em 2005): “O meu primeiro alumbramento foi ver mulheres francesas expostas nas bancas de jornais, nas vitrines, nos anúncios de cabarés quando eu vivia em Paris. Hoje em dia é difícil de imaginar isso. O máximo que eu tinha visto com 10 anos eram as minhas irmãs, mas irmã não vale. Nessa época, também sempre havia um primo que tinha umas coleções de Playboy americana”. Depois de explorar com ampla liberdade o tema em suas canções, não curiosamente, em 2006, Chico lançou o álbum Carioca e nele gravou As atrizes: “Os meus olhos infantis/ Só cuidavam delas/ Corpos errantes/ Peitinhos assaz/ Bundinhas assim”.

A popularização do anticoncepcional e de todos os ideais revolucionários de 60 chegaram ao Brasil, mas foi a partir de 70 que o bicho pegou. Antes, era preciso enfrentar os anos de chumbo, os censores federais e usar a música como arma política.

Nesse período, uma importação causou polêmica. Era a Je t’aime moi non plus, em que Jane Birkin e Serge Gainsbourg simulavam uma relação sexual. A canção, obviamente, foi censurada, até ser vendida num compacto com uma edição d’O Pasquim. O exemplo francês motivou a produção de similares made in Brazil. Mulheres gemendo ocupavam faixas de coletâneas como Erótica – The magnetic sounds. É claro que ninguém estava disposto a se identificar na ficha técnica.

Gal Costa – com um visual extremamente sensual – cantava Pérola Negra, de Luiz Melodia, no show Fatal de 1971. Em alto e bom som a platéia escutava a palavra “sexo” e, de quebra, ainda se colocava em xeque o amor romântico: “Tente entender tudo mais sobre o sexo/ Peça meu livro/ Querendo te empresto/ Se intere da coisa/ Sem haver engano/ Baby, te amo, nem sei se te amo!”

Nas camadas mais populares, sucesso era Odair José: “Eu observava que os artistas de linha mais popular ficavam muito no mundo do faz-de-conta. Nas músicas não era muito claro que haveria esse contato de sexo entre as pessoas. (…) O que tocava no rádio naquela época era muito amor de portão (…) Enquanto o Roberto Carlos prometia o céu, eu dava a cama”, conta o cantor no livro História Sexual da MPB. Na canção Noite de desejos, de 1974, ele narra a primeira vez de um homem: “Noite de desejos/ Noite de mil beijos/ Momentos que eu também vivi/ Foi naquela noite/ A primeira vez/ E eu nunca esqueci/ Foi com você, meu bem/ Que tanta coisa eu aprendi/ Meu desejo era tanto/ E eu não sabia/ Nem mesmo o que falar
O meu corpo esquentava/ Eu tremia/ Tentando me guardar”.

O tempo fechou quando Odair lançou o clássico Pare de tomar a pílula. Ela foi censurada em 1973, os discos recolhidos das lojas e os shows vigiados de muito perto. Afinal, a mensagem da música poderia atrapalhar a campanha de planejamento familiar do governo Médici.

O rei Roberto Carlos, contrariando o comentário de Odair, não ficou para trás. A partir da década de 70, as metáforas sexuais passaram a fazer parte de sua obra com muito mais freqüência. É Ilegal, imoral ou engorda (que recentemente foi regravada por Erasmo e Adriana Calcanhotto) não era nada sutil: “Se eu conheço alguém num encontro casual/ E tudo anda bem num bate-papo informal/ Uma noite quente sugere desfrutar/ No meu terraço a vista de frente pro mar/ Mas a noite é uma criança/ Delícias no café da manhã/ Então o que fazer, já não quero mais saber/ Se como alguma coisa que não devo comer/ Se tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda”.

Depois, várias composições passaram a integrar a pasta de “Canções de motel” da dupla, que escancarou de vez para os próprios padrões, como em Café da manhã: “Amanhã de manhã/ Vou pedir um café pra nós dois/ Te fazer um carinho depois/ Te envolver em meus braços/ E em meus abraços/ Na desordem do quarto esperar/ Lentamente você despertar/ E te amar na manhã”. Rei nunca perde a majestade e até hoje ninguém sabe como a censura permitiu a execução de “Cavalgada”, de nome bastante sugestivo.

Palavras proibidas

O vocabulário da MPB foi ficando aos poucos menos sisudo e mais coloquial. Antes dos anos 80, era muito raro ouvir inclusive a palavra “sexo”. Aborto, gay, orgasmo, peitos e bunda também não.

A palavra “tesão” apareceu pela primeira vez numa música em 1980. Era Bye, bye Brasil, de Chico Buarque: “Eu tenho tesão é no mar”. Quatro anos depois, compondo O Quereres, Caetano repetiria a dose: “Onde queres o ato sou o espírito/ Onde queres ternura eu sou tesão”. Antes, em 1970, Juca Chaves teve Rimas sádicas proibidas por conta do tal tesão.

Aborto não podia. Vitor Martins foi muito questionado quando escreveu Começar de novo: “Eu limpei minha vida/ Te tirei do meu corpo/ Te tirei das entranhas/ Fiz um tipo de aborto/ E por fim nosso caso acabou/ Está morto…”

Paulo César Pinheiro teve Sagarana censurada no IV Festival Internacional da Canção da TV Globo, de 1969, por usar a palavra “macho”: “Esse pessoal da década de 50 do samba-canção, da fossa, era cheio de pudores. Não diziam certas coisas”.

Na década de 80, a MPB ficou com a boca mais suja. No entanto, a música Posando de star, do primeiro disco do Barão Vermelho, teve que ser alterada para passar pela censura. Dar virou “dar-se”: “Vem me experimentar/ Você sem texto, sem cinema! Não faz do sexo um problema/ Eu armo uma cena!/ Quebro garrafa!/ Morro de chorar/ Mas ainda te faço dar (-se)”. Assim não tem graça.

Mas o Brasil mudou. Em 1986, a canção Vitoriosa (de Vitor Martins) interpretada por Ivan Lins foi até trilha de novela: “Quero tua alegria escandalosa/ Vitoriosa por não ter/ Vergonha de aprender como se goza/ Quero tua pouca castidade/ Quero tua louca liberdade/ Quero toda essa vontade de passar dos seus limites/ E ir além, e ir além…” Antes disso, gozar não estava nos planos dos poetas menos assanhados.

Chico: um jeito manso que é só seu

Para Faour: “A partir da década de 1970, Chico superou todas as expectativas, mostrando mulheres cada vez mais ousadas, cheias de si, de opinião, sem vergonha do corpo e muito provocantes. A sensualidade desconcertante da mulher e seus desejos mais secretos passaram também a permear suas letras, transformando o compositor num símbolo sexual, num mito e no guru musical de 9 entre 10 mulheres brasileiras de classe média ou alta e intelectual”. Pois é, para muitas mulheres Chico fala de sexo como ninguém. De sua obra podemos citar Sem Fantasia: “Vem, meu menino vadio/ Vem sem mentir pra você/ (…) Vou te envolver nos cabelos/ Vem perder-te em meus braços, pelo amor de Deus/ Vem que eu te quero fraco/ Vem que eu te quero tolo/ Vem que eu quero todo meu”. Em O que será (À flor da pele) o tesão – que havia aparecido tão inocente em Bye, bye, Brasil é certeiramente descrito:

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
E todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem juízo

Chico também não teve vergonha de escrever Tatuagem – “E nos músculos exaustos do seu braço/ Repousar frouxa, murcha, farta/ Morta de cansaço; Sem Açúcar – “Longe dele eu tremo de amor/ Na presença dele me calo/ Eu de dia sou sua flor/ Eu de noite sou seu cavalo”; Eu te amo – “Como?/ Se nos amamos feito dois pagãos/ Teus seios ainda estão nas minhas mãos”; Geni – “Ela é feita para apanhar/ Ela é boa de cuspir/ Ela dá pra qualquer um/ Maldita Geni”; O Meu amor – “O meu amor tem um jeito manso que é só seu/ De me fazer rodeios/ De me beijar os seios/ De me beijar o frente, me deixar em brasa/ Desfruta do meu corpo como se meu corpo/ Fosse a sua casa”. Está explicado porque a mulher fotografada aos beijos com Chico não pôde resistir.

Eu sei que eu sou bonita e gostosa

Com o amortecimento da censura e a transformação da sociedade, as mulheres passaram a conquistar espaço e a afirmar que não tinham nenhuma saudade da Amélia, gostavam de sexo, inclusive o casual, e podiam seduzir e sentir prazer.

Em 1983, Simone cantou Paixão, de Kleiton e Kledir, enquanto fingia se masturbar numa cama em cima do palco que foi cenário para o show Delírios, delícias: “Amo tua voz e tua cor/ E teu jeito de fazer amor/ Revirando os olhos e o tapete/ Suspirando em falsete/ Coisas que eu nem sei contar”. Anos antes ela já anunciava o que viria interpretando Medo de amar nº 2: “Eu sinto o corpo mole e eu quase que faleço/ Quando você me bole, bole e mexe, mexe/ E me bate na cara, e me dobra os joelhos e me vira a cabeça”.

Maria Bethânia fez sucesso com Explode Coração, gravada em 1978, e também interpretou Infinito Desejo (1979), ambas de Gonzaguinha: “Ah! Infinito delírio chamado desejo/ Essa fome de afagos e beijos/ Essa sede incessante de amor/ Ah! Essa luta de corpos suados/ Ardentes e apaixonados/ Gemendo na ânsia de tanto se dar/ Ah! De repente o tempo estanca/ Na dor do prazer que explode/ É a vida, é a vida, é a vida/ E é bem mais…” Ela explica em entrevista para a História Sexual da MPB: “O movimento hippie liberou muita coisa. E, a partir daí, as mulheres passaram a ser muito bem representadas na música popular, com muita naturalidade e firmeza. Nunca fiquei prestando atenção especificamente no meu trabalho, no que eu estava fazendo para contribuir para isso. Nunca pensei muito, sempre fui guiada pela minha intuição, pelo meu coração e minha inteligência. E essas músicas chegavam até mim porque os compositores estavam sentindo as coisas assim, estavam em sintonia com aquele momento”.

Bethânia também gravou um jingle de motel, de Duda Mendonça. Ela ouviu a propaganda numa estação de rádio na Bahia e pediu ao publicitário que a permitisse cantar o que se tornaria a canção Cheiro de Amor (Duda Mendonça/ Joça/ Paulo Sérgio Valle/ Ribeiro): “Mas o seu jeito de me olhar, a fala mansa, meio rouca/ Foi me deixando louca, já não podia mais pensar/ Eu me dei toda pra você…”

A onda de liberação fez a mulherada soltar a franga. Muitas capas de discos apareceram com seios ou ombros e colo à mostra. Gal, incluisve, teve o disco “Índia” coberto por plásticos pretos.

Um dos grupos dessa época que não pode ser esquecido são As Frenéticas. Elas eram a expressão da ousadia feminina. Declaravam-se contra o machismo, os padrões de beleza e a moral e os bons costumes. Elas estouraram com Perigosa (“Eu sei que eu sou bonita e gostosa”) e deram o que falar dentro de macacões e maiôs justos e saltos altos dourados.

É pecado esquecer Rita Lee. Inspirada nas experiências com seu marido Roberto de Carvalho, cantou Mania de você (1979): “A gente faz amor por telepatia/ No chão, no mar, na lua, na melodia/ Mania de você/ De tanto a gente se beijar/ De tanto imaginar loucuras/ Nada melhor do que não fazer nada/ Só pra deitar e rolar com você”. “A gente tinha acabado de se amar com toda aquela descrição: no chão, no mar, na lua. Tínhamos chegado naquela loucura, quando a gente sente que está vivo, que dá um berro… Estávamos suados e Roberto pegou o violão, apanhei uma canetinha, baixou o santo e fizemos a música”. Ela contou em depoimento à revista Cláudia quando a música foi lançada.

A crônica sexual de Rita não pára por aí. “Flagra”, “Lança-perfume”, “Caso sério” são outros bons exemplos.

Na seara masculina, algumas coisas também mudaram um pouco. Alceu Valença surgia com seu tempero nordestino e sugestivo. Em Como dois animais, de 1982, a cena era selvagem: “Meu olhar vagabundo/ De cachorro vadio/ Olhava a pintada/ E ela estava no cio/ Foi mistério e segredo/ E muito mais/ Foi divino brinquedo/ E muito mais/ Se amar como dois animais”.

Em 1979, Jorge Ben e Caetano gravavam Ive Brussel, a mais insinuante das composições de Ben até ali, ainda mais quando interpretada por dois homens: “Você com essa mania sensual, de sentir e me olhar/ Você com esse seu jeito contagiante, fiel e sutil de lutar/ Ai, ai, ai, sim naquele dia você foi tudo, foi demais pra mim/ Assim você acaba me conquistando/ Assim eu acabo me entregando”. Caetano, ainda mais atrevido, gravou com música de Péricles Cavalcanti, uma Elegia à mulher baseada em poema de Augusto de Campos: “Deixa que minha mão errante adentre atrás, na frente, em cima, embaixo… (….) Nudez total: todo prazer provém do corpo/ (Como a alma sem corpo) sem vestes”.

No terreno do samba, o grande representante é Martinho da Vila. Gravou Manteiga de garrafa, em que dizia “eu quero lhe transar” e “eu quero lhe entender”. Na década de 80, fora da mira dos censores federais, ele abusou. Em Me faz um dengo (composição conjunta com Zé Catimba): “Se quiser me arranhe/ Me agarre, me morda/ Que eu me arrepio/ Chego quase a desmaiar/ Te dou um beijo, te ouriço toda/ Te deixo bem doida a se desvairar…”

Wando apareceu em 1975, com Moça. Na letra, o eu-lírico não se importava que sua amada não fosse mais virgem. Com um pensamento tão progressista o artista vendeu 1,2 milhões de discos. Depois, Wando acabou levando os títulos de “safado”, “sacana” e “don Juan”. Ele explica: “O que me fez vender 10 milhões de discos nesse tempo foi exatamente essas coisas que as pessoas meteram na cabeça: que as fizeram achar que sou obsceno. É que falo uns negócios assim diferentes, sobre muitos dos quais provavelmente até já falaram, mas não do jeito que eu falei”. Depois de estabelecer como sua marca as calcinhas – que tantas fãs jogavam no palco durante seus shows – Wando ainda tem um público cativo. E nos anos 90, com tudo permitido, ele emplacou Gostosa (1997): “É tão gostosa, ela é toda faceira/ (…) Doida pra ser chupadinha da boquinha até o pé/ Não me provoque com seu jeito de fogosa/ Que eu me encaixo nessas coxas/ Faço tudo com você/ Levante a saia e me guarde bem debaixo/ Vem por cima, vem por baixo/ Que eu te dou o meu querer”.

A história continua

Se os temas relacionados ao sexo surgiram junto com a música brasileira, é impossível falar de todos aqueles que ajudaram a escrever sua história sexual da MPB. Para chegar ao funk “Viemos pegar mulher/ Chatuba come cu/ E depois come xereca/ Ranca cabaço/ É o bonde dos careca!” ou a Dança do Créu, repetida com freqüência cinco em todas as rádios do país, requebramos ainda nos tempos do Brasil Colônia com ritmos como a polca e o lundu. Muitos anos mais tarde, Carmen Miranda abria espaço para a alegria e a malícia, enquanto na década de 50 belas pin-ups ajudavam a vender discos.

Depois, Alcione, Fafá de Belém, Joanna, Zizi Possi, Beth Carvalho, Simone, Zezé Motta e Maria Bethânia, Elba Ramalho mostraram os seios, os ombros ou os umbigos para provocar os sentidos de uma nova época. Ainda assim, em 2004 Preta Gil causou polêmica ao aparecer nua no encarte de seu primeiro CD.

Como não citar Gretchen, precursora de Carla Perez, com a Conga, conga, conga, que surgiu um pouco antes da lambada virar febre nacional com saias rodadas e calcinhas à mostra. Logo mais grupos como É o tchan! marcariam uma geração que cresceu ao som da Dança da Bundinha. No Nordeste, muitos deles estavam de olho na butique dela, como Genival Lacerda. Manhoso (entre seus álbuns figura A Festa da rabada) fez sucesso com pornoforrós a partir de 1975. E há outros: Zenilton, Clemilda, Messias Holanda, Trio Nordestino, Frank Aguiar.

A sacanagem (ou amor) ainda tem muito o que escrever, dançar e gozar. Amor é prosa e sexo é poesia e os dois podem render uma infinidade de composições. Que não ouçam os puritanos musicais, preservadores da moral e dos bons costumes em do, ré, mi, fá, sol, lá, si: Salve o prazer!

Prazeres e orgasmos tamanho infantil

Por Amanda Rossi

Olha tio, não sei se o senhor vai achar gostoso, mas o menino preto, quando eu fui falar com ele lá perto da estrada, disse que a gente podia namorar um pouco. Eu fui, e você não sabe como é bonito pau preto. Ele se chama José, mas chamam ele de Juca. Ele também pegou na minha coninha e quis espiar, e aí ele tirou o pau lindo preto, e a gente fez como o médico, ficou se olhando. Depois ele quis passar a língua em mim, e a língua dele é tão quente que você não entende como uma língua pode ser quente assim.

Crianças e sexualidade. Qual conectivo você usaria pra fazer a ponte entre uma e outra? Violência sexual, abuso, doença? Ou aprendizagem, descobertas, naturalidade? Pra você, as crianças são ingênuas, destituídas de desejos e prazeres sexuais? Ou têm e manifestam sua própria sexualidade?

Fiz essas perguntas pra tentar dar algumas pistas sobre o assunto que este texto vai abordar e despistar alguns tipos de leitores. Os moralistas e sexualmente repressivos (ou reprimidos), sobretudo. Minha matéria vai abordar a sexualidade infantil, goste você ou não da idéia de que seu filho, sobrinho, irmão ou neto pequenos sejam sujeitos sexuais ativos.

Surpreendi minha filha de 6 anos deitada na cama com um priminho da mesma idade. Ambos estava de roupa, agarradinhos sob um lençol, no quarto da empregada. Quando abri a porta e perguntei o que estavam fazendo, meu sobrinho pulou da cama e saiu correndo. Minha filha não respondia nada, até que lhe dei um puxão de orelha e ela gaguejou que estavam “só brincando de marido e mulher”. Disse que todos os seus amiguinhos queriam brincar disso.

Se você é um desses leitores e resolveu seguir a leitura, saiba que você não está só. A sexualidade infantil é um tabu. Não só pra você. Pra muita gente. É um dos tabus sexuais sobreviventes ao último século, no qual caíram diversas barreiras relacionadas à sexualidade.

Freud explica

Mas também preciso lhe dizer que você e os outros como você estão atrasados. Olhe o que Freud escreveu já em 1905: “Faz parte da opinião popular sobre a pulsão sexual que ela está ausente na infância e só desperta no período da vida designado de puberdade. Mas esse não é apenas um erro qualquer, e sim um equívoco de graves conseqüências, pois é o principal culpado de nossa ignorância de hoje sobre as condições básicas da vida sexual”.

Foi Freud que deu notoriedade à existência da sexualidade infantil. Ele dizia que quando a criança tem três ou quatro anos de idade, sua “vida sexual” é mais facilmente notada. Mas, muito antes disso, elas já manifestam sua sexualidade. Além disso, uma característica essencial da sexualidade infantil apontada por Freud é “o fato de ela ser essencialmente auto-erótica (seu objeto encontra-se no próprio corpo)”. A obtenção do prazer está, nas crianças, desvinculada da reprodução e durante um longo período da infância a zona erógena genital não é a principal.

Freud também escreveu que um motivo pelo qual as pessoas não dão valor ao período infantil no desenvolvimento sexual é a amnésia que esconde nossas primeiras vivências, até a idade de seis ou oito anos. É quase um tapa na cara de quem não aceita a sexualidade infantil, porque, em outras palavras, Freud diz que mesmo essas pessoas tiveram suas próprias experiências sexuais quando eram crianças. Apenas não se lembram disso, mas que tiveram, tiveram.

Eu tenho oito anos. Eu vou contar tudo do jeito que eu sei porque mamãe e papai me falaram pra eu contar do jeito que eu sei (…). O homem que não é tão moço pediu preu tirar a calcinha. Eu tirei. Aí ele pediu para eu abrir as perninhas e ficar deitada e eu fiquei. Então ele começou a passar a mão na minha coxa que é muito fofinha e gorda, e pediu que eu abrisse as minhas perninhas. Eu gosto muito quando passam a mão na minha coxinha. Daí o homem disse pra eu ficar bem quietinha, que ele ia dar um beijo na minha coisinha. Ele começou a me lamber como o meu gato se lambe, bem devagarinho, e apertava bem gostoso o meu bumbum. Eu fiquei bem quietinha porque é uma delícia e eu queria que ele ficasse lambendo o tempo inteiro.

Ao lado do leitor moralista e contra Freud estão as representações da infância em propagandas, tevê, cinema, teatro, jornalismo, quase exclusivamente puras e inocentes, como se as crianças fossem incapazes de vivenciar desejos e prazeres sexuais. Na maioria das vezes que os temas sexo e infância aparecem juntos, trata-se da violência sexual, do abuso, do trauma. Dificilmente se aborda a naturalidade do desenvolvimento sexual da criança.

Imaginário

“A imagem literária da infância como a idealização de um irrecuperável tempo de inocência foi construída no período em que a historiografia localiza o Romantismo, ou seja, entre o início do século XIC até a década de 1870. Essa imagem foi fixada no nosso imaginário de um modo muito profundo, a ponto de a sociedade não permitir qualquer questionamento a essa idéia de que a infância corresponde a uma etapa da vida do homem em que ele ainda é dotado de pureza e que, por isso mesmo, deve ser protegida, inclusive por leis cada vez mais rígidas”. Foi o que me disse Anderson Luís Nunes da Mata, estudioso das representações das crianças na literatura brasileira.

No estudo intitulado “O Silêncio das Crianças”, ele conclui: “A infância que as classes-médias e as elites – quem consome literatura neste país – ainda conservam para suas crianças está calcada num universo infantil romântico. Porém, atentas à existência da sexualidade infantil, transformam-na em assunto tabu e reprimem não só a expressão da sexualidade das crianças, como também a circulação de qualquer discurso a este respeito”.

Quem tem nariz e língua não precisa de brinquedo. (…) Aos sete anos, em 1973, fiquei deliberadamente de pau duro. Uma garota peituda foi a responsável. Eu tenho uma foto dessa época em que estou em cima de uma lhama. Um garoto triste, olhos grandes e castanhos (em cima da lhama) afagando a caveira de um bichinho qualquer – um esquilo, talvez – quase que despencando da porra da lhama. Eu enforcava meus sonhos em tripas invisíveis. E via televisão. A Tevê me educava no que era preciso, o resto, aprendi olhando pra baixo.

Interessante notar que, apesar de manter a imagem da criança atrelada à inocência, as mídias vinculam imagens eróticas, erotizadas ou pornográficas. Mensagens que também chegam às crianças. Anderson me lembrou que o termo infância, em sua etimologia, designa a faixa etária em que o ser ainda não é dotado da capacidade de falar.

Depois, disse: “É cada vez mais difícil controlar o acesso das crianças à informação, o que as leva a ser cada vez menos in-fantes, ou seja, cada vez menos mudas, e mais capazes de enfrentar os adultos. Daí alguns pesquisadores falarem em uma crise da infância, localizada justamente nessa criança que se informa – pela TV, rádio, jornal e Internet – do mesmo modo que os adultos, sem mediação, sem proteção. Já há reações no sentido de voltar a proteger a criança”.

Revelou a espantosa verdade. Durante um período muito longo antes de Nosso Ford, e até no decurso de algumas gerações ulteriores, os brinquedos eróticos entre as crianças eram considerados anormais (houve uma gargalhada); e não apenas anormais, mas realmente imorais (não!); e eram, portanto, rigorosamente reprimidos.
A fisionomia de seus ouvintes tomou uma expressão de incredulidade espantada. O quê? As pobres crianças não tinham o direito de se divertir? Não podiam acreditar..
– E até mesmo os adolescentes – dizia o D.I.C -, os adolescentes com os senhores…
– Não é possível!
– Salvo um pouco de auto-erotismo e de homossexualidade, às escondidas… absolutamente nada.

Kinsey

“Você está falando com o pioneiro, fui eu que introduzi a terapia sexual no Brasil. Todos os primeiros sexólogos foram meus alunos, inclusive a Marta Suplicy”. Foi assim meu primeiro contato com o doutor Haruo Okawara, da Clínica Kinsey (desse Kinsey vou falar depois), que diz já ter atendido clientes famosos, como Vitor Civita, empresários conhecidos e apresentadoras de televisão.

“O instinto sexual é metade dos instintos dos seres humanos, para reprodução da espécie. A outra metade é o instinto de sobrevivência, para manutenção da espécie. Na criança, o instinto sexual já está super presente. Você vai se escandalizar (afinal, a sexualidade infantil ainda é tabu). É claro que ele vai se desenvolvendo ao longo da personalidade humana. Mas a criança não é absolutamente inocente”, me garantiu o doutor Haruo.

O sexo dos adultos não existia, apenas as proibições e os castigos: ora bolas, era tudo necessariamente tesudo e gratificante; o sifão da pia, por exemplo, fudia com cotonetes quebrados e era sentimento vago, mistura de cabelos pixaim com líquidos não sabidos que entupia o ralo – pelo menos para mim – de SEXO. A mesma coisa, eu digo, a sordidez e a sujeira, valia pras calcinhas e sutiãs dependurados no cano do chuveiro elétrico. Valia pra mim, que lambia, cheirava… (…) A infância, em suma, pode ser uma coisa sórdida para quem sabe aproveitar. Eu usei muito meu nariz.

Agora vamos para o Kinsey, Alfred Kinsey. Cheguei no doutor Haruo por causa desse pesquisador norte-americano que chocou a sociedade do seu país ao publicar em 1948 Sexual Behavior in the Human Male (Comportamento Sexual no Homem) e em 1953 Sexual Behavior in the Human Female (Comportamento Sexual na Mulher).

Algumas descobertas dos relatórios Kinsey: 92% dos homens e 62% das mulheres norte-americanos da década de 1950 se masturbavam; 26% das mulheres traíram ou traiam seus maridos.

“Kinsey foi o maior pesquisador do comportamento sexual do mundo. Nunca houve uma pesquisa tão extensa, nem antes nem depois de Kinsey”, nas palavras do doutor Haruo. “Ele tinha uma metodologia muito rígida. Por cerca de 10 anos, junto com mais três colaboradores, interrogou 6 mil e poucos homens e 6 mil e poucas mulheres, em todos os estados americanos, fazendo a cada um 500 perguntas”.

As pesquisas de Kinsey envolveram também a sexualidade infantil, as experiências sexuais pré-adolescentes. Juntamente com Freud, ele é considerado precursor dos estudos da sexualidade infantil.

Mãe inteligente que frequentemente observava sua filha de três anos se masturbando, descreveu como segue: “Deitada de barriga para baixo, com seus joelhos levantados, ela iniciava movimentos ritmados da pélvis, a cada segundo ou menos (…) Em pausas momentâneas a genitália era reajustada à boneca na qual ela estava encostada; o retorno de cada movimento era convulsivo, aos trancos (…). Houve uma concentração marcada e respiração intensa com abruptas contorções à medida que o orgasmo se aproximava. Ela estava completamente esquecida de tudo durante os últimos estágios da atividade. Seus olhos estavam envidraçados e fixos em um ponto distante. Houve um alívio e relaxamento após o orgasmo”.

Os resultados dos relatórios Kinsey relativos às crianças norte-americanas do século XX são capazes de surpreender os adultos progressistas do século XXI e traumatizar os moralistas – se você é dos últimos, vou alertá-lo mais uma vez: pare por aqui.

Orgasmo

Você acha que uma criança não tem orgasmo? Pois saiba que Kinsey relatou orgasmos em bebês com menos de um ano, em ambos os sexos. “Não existe nenhum aspecto essencial do orgasmo de um adulto que não tenha sido observado nos orgasmos que as crianças pequenas podem ter”, afirmava ele.

– Eis ali um grupinho encantador – disse, apontando com o dedo.
Num pequeno espaço gramado entre altas moitas de urzes mediterrâneas, duas crianças, um garoto de cerca de sete anos e uma menina que poderia ter um ano a mais, dedicavam-se muito seriamente, com toda a concentração de sábios absortos em algum trabalho de descoberta, a um jogo sexual rudimentar.

Abaixo, algumas estatísticas que Kinsey revelou sobre sua época:

Meninas: foram relatados orgasmos em bebês com menos de um ano de idade; 14% das mulheres entrevistadas relataram terem atingido o orgasmo, seja através da masturbação ou do contato com outras crianças, pessoas mais velhas ou cachorros e gatos, antes da adolescência; 48% relataram terem participado de jogos sexuais (principalmente mostrar o corpo nu) na infância, com crianças do mesmo sexo ou do sexo oposto;

Meninos: ……………………..

Eu descobri as palavras antes do sexo. Ou a pornografia antes do erotismo – junto com a idéia da mutilação. O que me fez entender que a sordidez ou “a fanchonice” vinha em primeiro lugar e o que realmente importava era meter o pau dentro dos buracos (isso vale pra qualquer comerciante estabelecido). O erotismo me reprimia. Os buracos sujos – os ralos, especialmente – é que me educaram. Daí a nostalgia das palavras, a tesão (no feminino, sempre); e o resgate incisivo de esmaltes e tinturas da linha Marú. Eu queria fuder com as palavras. Vale dizer, queria salvá-las. Ou esvaziá-las para, em última análise, esquecê-las.

Antes de iniciar a próxima parte, vale explicar uma coisa: sexualidade vai muito além do sexo. “Quando nascemos é pelo corpo que sentimos o mundo, o corpo todo é erótico”. Palavras de Maria Cecília Pereira da Silva, que foi citada no início da matéria. Ela é psicanalista, autora e coordenadora de diversos ensaios sobre sexualidade infantil.

Ainda com ela: “Os primeiros contatos da mãe com o bebê no banho, na amamentação e todos os outros carinhos, as trocas de olhar e o ninar fazem com que ele sinta muito prazer e se sinta vivo. Tudo isso vai compondo as primeiras sensações sensuais e será a base para o desenvolvimento da resposta erótica, da capacidade de construir os vínculos amorosos e do desejo de aprender. Esse prazer, se não nos ‘robotizarmos’ demais com a vida adulta dura que vivemos, vai se manifestar num corpo todo erótico”.

Pra finalizar: “A sexualidade se manifesta ao longo de toda nossa vida. Suas manifestações estão presentes nas conversas, brincadeiras, jogos, relacionamentos e dramatizações em grupo ou individuais. A sexualidade está presente nos momentos em que o sujeito está interagindo afetivamente com outro ou outros e quando está isolado, só ou em momentos reflexivos”.

Em 1972 eu já era uma criança triste. Um dia, por incompatibilidade comigo mesmo, aprendi a olhar pra baixo. Eu tinha tesão… como toda criança… e lambia azulejos impossíveis (por desforra, decerto) e em silêncio.

Fases

Feitos esses esclarecimentos sobre a sexualidade, podemos continuar. Freud descreveu fases distintas da sexualidade infantil. As mais importantes são: oral, anal, fálica e genital.

A oral é a fase dos bebês. Tem como característica o chuchar, que em definições teóricas é uma repetição ritmada de uma sucção com a boca sem nenhum objetivo de alimentação. Quer dizer, a chupeta, o dedo, os brinquedinhos e controles remotos que não saem da boca do bebê já contém um prazer ligado à sexualidade.

Que absurdo, vão dizer alguns leitores caretas. Essa baboseira psicanalítica freudiana que insiste em sexualizar tudo! Até parece! Esse tipo de leitor não tem solução. Já avisei desde o início para que não fosse à diante na leitura. Para os leitores um pouco mais, digamos, abertos a novas verdades, posso dizer que repare um pouco mais em como subitamente o bebê se acalma e relaxa o corpo após uma chupeta.

Eu fui pegando e o Abelzinho foi ficando duro, fui pegando pra cima e pra baixo, com a mão do tio Abel em cima da minha pra me ensinar, e o Abelzinho foi crescendo e ficando coradinho, e aí eu abri bem a boca e escondi a cabeça dele na minha boca. Tinha um gosto engraçado, de mandioca cozida. E enquanto eu escondi a cabeça dele na minha boca, tio Abel empurrava um pouco a minha cabeça bem devagarinho, depois mais depressa, e ele, o tio, punha o dedo dele no meu buraquinho de trás e senti uma delícia, e descansava um pouco e falava com o Abelzinho, mas o tio não tirava o dedo do meu cuzinho.

A segunda fase, a anal, começa por volta de um ano e meio e dois, conta Maria Cecília. “É o momento em que iniciamos as crianças no controle dos esfíncteres”, ou seja, o momento em que as crianças conseguem controlar o momento da defecação. Chocado?

Diz Freud no estudo de 1905: “As crianças que tiram proveito da estimulabilidade erógena da zona anal denunciam-se por reterem as fezes até que sua acumulação provoca violentas contrações musculares e, na passagem pelo ânus, pode exercer uma estimulação intensa da mucosa”. Mas adiante, ele continua: “A estimulação masturbatória efetiva da zona anal com a ajuda do dedo, provocada por uma comichão centralmente determinada ou perifericamente mantida, não é nada rara nas crianças mais velhas”.

De três a cinco anos, predomina a fase fálica, que é a fase dos porquês e na qual se manifesta a curiosidade sexual. As crianças querem saber de onde vêem, a origem dos bebês e gostam de ficar se olhando e olhando outras crianças e adultos nus.

Também nesta fase as crianças têm grande interesse pelos órgãos genitais e a atração erógena é deslocada para a zona genital. “É natural para uma criança obter satisfação ao brincar com seu corpo e descobrir agradáveis sensações ao tocar os órgãos genitais. Crianças, mesmo bebês, buscam conforto em tais atividades, especialmente se estão sós (…). Aos três anos praticamente todas as crianças se mastrurbam”, escreve Maria Cecília em um dos seus artigos.

A próxima é a fase genital, que começa na fronteira com a adolescência, quando começam as mudanças hormonais e se acentuam as transformações emocionais e sociais.

É mais freqüente [2 a 3 anos] eles se auto masturbarem do que uns aos outros. Já [3 a 5 anos] você vê mais um fazendo carícia no outro, né. É, mas esse ano [na turma de 2 a 3 anos] eu tive uma criança que, eu acho que por ser a caçula e por ter muitos irmãos mais velhos, ela deve ter amadurecido mais, deve ter ido mais rápido nesse, nesse e noutros quesitos.

“Desejos sexuais às vezes estão presentes na infância, às vezes não. Desejo não é vinculado ao coito, não é imagem da transa. Quantas vezes você não olhava seu coleguinha de classe, o vizinho de um jeito diferente? Existe um desejo, uma atração. Diferente dos adultos, que têm os hormônios, o corpo preparado para receber o ato sexual”. Essa explicação vem de Cláudio Picazio, que vou apresentar a seguir.

Homossexualidade

Ao mesmo tempo, a criança, em determinado estágio, já sabe diferenciar os gêneros. Sabe da existência de dois sexos, sabe quem são os meninos e homens, quem são as meninas e mulheres. “A diferenciação de homem e mulher existe desde a fala. Os artigos ‘o’ e ‘a’ fazem com que a criança comece a perceber dois gêneros”, diz Picazio.

Aqui, podemos nos questionar: já que há desejos e diferenciação de gêneros, esses desejos são orientados para sexos opostos ou podem se dirigir ao mesmo sexo? Em outras palavras: existe homossexualidade na infância?

Picazio é autor do livro Diferentes Desejos, que aborda a homossexualidade no período posterior à infância, na adolescência. Ele é categórico: “Não se pode falar que uma criança é heterossexual, que é homossexual”. É na transição da infância para a adolescência que “vai descobrindo que aquela atração que ele sentia realmente é de verdade, que aquele mundo que estava no pensamento é realidade. Os hormônios vão dando essa configuração diferente. Não é mais só um pensamento ou um desejo, agora um corpo responde e age, está pronto para essa ação”.

Fiz amizade com Edu, um débil mental louro de olhos azuis. Ensinei-o a lamber azulejos e ele me ensinou a comer areia. Quando eu ficava de pau duro ele me chupava. A gente comia o ranho um do outro. O problema é que Edu tava folgando pro meu lado. Tive que partir pra chantagem (afinal de contas, eu realizava “pequenos progressos” e não tava a fim de chupar pau de mongolóide) (…). Edu imitava pôneis. Eu entupia o bebedor do playground de cabelos louros cacheados arrancados às dentadas. De tal modo que o boçal relinchava de prazer e, fundamentalmente, desviava seu caralho esquisito pro lado dos cubos de encaixar. Às vezes ele conseguia fuder ou encaixar uma coisa na outra. Eu não conseguia.

Os diversos aspectos do prazer solitário

Por Adonay de Muccio

Justiça com as próprias mãos, cinco contra um, busca do prazer sem parceiros, “arte” do sexo solitário, ou ainda em latim masturbatio ou manustrupare. Independente das várias denominações possíveis, a masturbação é indubitavelmente conhecida por toda e qualquer pessoa que tenha passado pela adolescência. Antes disso, no período de vida em que os jovens começam a desvendar e explorar a própria sexualidade, a masturbação ganha particular espaço e relevância, e pode acompanhar os indivíduos em seus vários anos subseqüentes. Segundo o sexólogo Jairo Bouer, “é com a masturbação que muitos meninos e meninas aprendem como funciona o seu corpo e o que lhes dá prazer”.

A masturbação é muitas vezes fonte de fortes mitos, tabus e dúvidas. Em chats, páginas de internet e programas de radio e TV nos quais os protagonistas são conhecidos sexólogos, o tema da masturbação está sempre presente. Muitas das indagações dizem respeito a alterações físicas decorrentes do ato em questão – crescimento de pêlo nas mãos e espinhas são apenas os mais comuns exemplos. Segundo Roseli Sayão em um bate-papo, tais dúvidas surgem porque “é na adolescência que todas essas coisas costumam acontecer ao mesmo tempo. É na adolescência q os garotos começam a se masturbar com mais intensidade por causa do tesão, que aparece por causa dos hormônios, que provocam também as malditas espinhas”.

Além disso, o tema é muito mais aceito em ambientes masculinos. Segundo sexólogos, não há razão para tratar de forma diferente a masturbação de meninos e meninas, e a única explicação para tal distinção seria o histórico preconceito. A sociedade muitas vezes machista parece ser a única responsável pela visão de que homem que se masturba é “normal” e mulher masturbar-se é “feio”, errado, vexaminoso ou qualquer outra adjetivação do tipo. Segundo o Dr. Oswaldo M. Rodrigues Jr, psicólogo e diretor do Instituto Paulista de Sexualidade, “as mulheres aprendem desde bebês que a auto-manipulação é errada. Isto ainda faz com que metade das mulheres chegue aos 20 anos de idade sem terem experienciado a masturbação como fonte de prazer sexual, e este fato se associa com as mulheres não saberem como obter orgasmos quando iniciam a vida sexual a dois”.

A masturbação e a indústria pornográfica

Outro aspecto relevante ao abordar a temática da masturbação é sua relação com as publicações eróticas. A polulante indústria da pornografia, extremamente desenvolvida nos Estados Unidos e em franca expansão no Brasil, é combustível para fantasias de todos os consumidores e serve de “material de apoio”, por assim dizer, na masturbação. Provavelmente o mundo do erotismo não seria a mesma coisa se a masturbação não existisse. Revistas de nudez, sites de fotos e vídeos pornográficos, além de uma infinidade de títulos da indústria cinematográfica pornô atuam como parceiros da masturbação e têm seu crescimento fortemente impulsionado pelo interesse humano no sexo. E essa indústria tem crescido substancialmente.

Nos Estados Unidos o mundo pornô mostra-se extremamente forte, desenvolvido e impressionantemente rentável. Em 2004 a revista Veja publicou uma reportagem segundo a qual o cinema pornográfico por lá movimentava entre 7 e 11 bilhões de dólares ao ano. Para efeito de comparação, o faturamento anual de Hollywood no mesmo período era estimado em 35 bilhões de dólares.

Os números atuais são ainda mais impressionantes. Segundo pesquisas, a indústria verdadeiramente imperial da pornografia arrecadaria incríveis 3 milhões de dólares por segundo no mundo. Obviamente tais estimativas têm uma considerável margem de erro, mas os números são de fato embasbacantes. Alguns dados e comparações dão uma mensuração mais clara do quão incrível é tal poderio de arrecadação do mercado pornô. As informações foram levantadas em um estudo do site americano TopTenReviews:

• Em 2006 a indústria da pornografia faturou 97 bilhões de dólares nos 16 principais centros consumidores de produtos de “sacanagem”. O Brasil foi o décimo sexto colocado em uma lista encabeçada por China, Coréia do Sul, Japão e Estados Unidos, na quarta colocação, com 13,3 bilhões de dólares arrematados. O faturamento no mercado tupiniquim foi de 100 milhões de dólares.

• O lucro do mercado pornográfico superou em 2006 o faturamento somado das oito multinacionais de maior destaque no mundo da tecnologia (Microsoft, Google, Amazon, eBay, Yahoo!, Apple, Netflix e EarthLink).

• 12% do total de websites são eróticos, resultando em 4,2 milhões de sites no final de 2007. Dos downloads feitos, 35% do total eram de material pornô.

• 90% dos internautas com idade entre 8 e 16 anos já viram algum tipo de pornografia na internet.

No Brasil a indústria também tem crescido fortemente. A produtora de vídeos eróticos Brasileirinha é a mais renomada no ramo, e passou recentemente não a apenas multiplicar suas produções e seu faturamento, mas também a contratar artistas de “segunda linha” para estrelar suas produções – algo totalmente inédito até pouco tempo atrás. O movimento de famosos rumo ao mundo pornô foi inaugurado há poucos anos pelo “artista multiuso” Alexandre Frota. Uma decisão ousada em um campo espinhoso. Apesar de polemica, a “atuação” de Frota não atrapalhou sua participação nos programas de TV, e prova cabal foram suas inúmeras interpelações artísticas em quadros do programa Melhor do Brasil, apresentado então por Marcio Garcia, na emissora – quem diria – dos evangélicos da Igreja Universal, Rede Record.

Após Alexandre Frota uma serie de artistas semi decadentes passaram a aventurar-se nas atuações sexuais. É a lista dos ex: a ex-chacrete Rita Cadilac, a ex-malandrinhaVivi Fernandes, o ex-Casa dos Artistas Mateus Carrieri, os ex-pupilos de João Kleber, Márcia Imperator e Oliver (protagonistas do quadro Infidelidade), e ainda a ex (ou eterna) “rainha do rebolado” Gretchen. Novos nomes tendem a estrelar a lista das produtoras pornôs com o desenvolvimento deste segmento e a inflação nos cachês.

Toda esta gigantesca indústria do apelo erótico seguramente deve parte substancial de seu sucesso e evolução à existência da masturbação. O consumo desses materiais são em sua maioria feitos de forma individual, privativa, anônima, constituindo-se em combustível para a vazão de fantasias eróticas e estímulos visuais para a satisfação sexual solitária.

A masturbação nas diferentes etapas da vida

A masturbação é parte fundamental do período de autoconhecimento corporal particularmente na pré-adolescência e juventude. Conforme os sexólogos afirmam, é errado condenar o ato de masturbar-se, sendo que ele ao contrário de prejudicar, contribui para que a pessoas tenham maior ciência das próprias sensações, da própria sexualidade.
No entanto, há especificidades em cada período da vida no que tange a masturbação. Em cada estagio a “prática do amor próprio”, por assim dizer, tem um papel característico, e fato é que com maior ou menor importância, variando de individuo para individuo, ela se faz presente nos mais diversos anos do homem, e com menor freqüência, das mulheres.
A professora catarinense Jimena Furlani, autora do premiado livro “Mitos e Tabus da Sexualidade Humana”, estabeleceu em sua pesquisa o papel da masturbação nas etapas da vida. Basicamente são quatro períodos:

• Na infância, em especial dos 3 aos 6 anos, a masturbação é uma forma de descoberta das diferenças anatômicas entre meninos e meninas. É uma forma prazerosa de contato corporal, quer seja individual, quer seja entre duas crianças.
• Na adolescência, além do apelo erótico biológico, ou seja, da necessidade orgânica pela ação hormonal, garotos e garotas se masturbam para extravasar a tensão sexual, para o conhecimento do prazer corporal e de suas sensações.
• Na idade adulta, a masturbação é uma entre as possibilidades de práticas sexuais, quer individual, quer com parceiros, inclusive entre os casais. É uma forma de sexo seguro e, uma forma, também, de extravasamento das tensões sexuais da vida cotidiana.
• Na terceira idade pode ser um reflexo da falta de sexo com parceiros, em especial para aqueles homens e mulheres que erroneamente acreditam que a sexualidade acaba após a idade fértil (no caso da menopausa, para as mulheres; ou perda do vigor físico no caso dos homens). Nesta idade a masturbação cumpre papel, à semelhança da idade adulta, como uma possibilidade sexual entre os parceiros ainda ativos.

Pecado ou dádiva?

Alguns estudos tratam de remontar a trajetória da masturbação ao longo do tempo. Dentre os diferentes papeis que ela teria tido, destacam-se sua significância em períodos específicos da história. Segundo alguns especialistas, no antigo Egito a religião utilizava a masturbação do deus Atum para descrever a criação do mundo, e as mulheres, quando morriam, eram mumificadas e enterradas com os objetos fálicos com os quais se masturbavam. Dizem ainda que com a imposição da igreja judaica de que o homem deveria ser produtivo e se multiplicar, a prática da masturbação passou a ser condenada, pois era vista como um desperdício de esperma. Similarmente, na Idade Média a ejaculação só deveria ocorrer com a finalidade de procriação. Na Inquisição, por sua vez, as conseqüências eram mais severas: o acusado de masturbação era considerado um herege, podendo ser condenado à morte na fogueira.

O que se constata em tempos atuais é que, em determinados círculos religiosos, a masturbação gera certa polêmica, à semelhança de assuntos como o uso de preservativos e a prática de relações sexuais antes do matrimônio. Embora tais discussões possam soar um tanto démodé e anacrônico, elas de fato ocorrem. Nas palavras do Dr. Oswaldo Rodrigues Jr., “a masturbação tem sido negativizada pelas principais religiões devido a conceitos básicos de que o esperma contém a centelha da vida e seria um desperdício do divino”.

Sites de igrejas, seitas e organizações de visão religiosa mais ortodoxa, conservadora, procuram proibir ou desencorajar os fiéis à prática da masturbação, muitas vezes relacionando-a à lascívia e à luxuria. Há até mesmo manuais de como evitar a “tentação da masturbação”, como é o caso de artigos no site mórmon www.moonmac.com: “Steps in overcoming masturbation: A guide to self-control”.

Já outras páginas de internet (de cunho nada religioso, diga-se de passagem), fazem o oposto: ensinam técnicas para alterar, complementar e melhorar a masturbação. É uma espécie de curso em satisfação sexual solitária, com vários exercícios divididos em módulos que vão de iniciante a avançado, todos abordando uma infinidade de aprimoramentos e variações possíveis. E não são apenas os meninos que ganham “a apostila”. Há um guia voltado apenas para as garotas. O nome do site que brinda tal conteúdo “educativo” tem nome sugestivo: www.docetoque.com.br

Tira-teima

A masturbação é tema constante em todos os debates que envolvem dois ingredientes: jovens e sexo. Para especialistas acostumados a tirar dúvidas daqueles que estão ingressando na vida sexual, as perguntas relacionadas à masturbação já viraram praticamente rotineiras.

Para esclarecer algumas das principais questões que envolvem a temática, entrevistamos dois renomados terapeutas sexuais, autores de várias publicações. O primeiro, Dr. Oswaldo M. Rodrigues Jr., psicólogo pós graduado, especializado na temática sexual, autor de diversos livros como “Sexo: Tire suas dúvidas” e “Aprimorando a Saúde Sexual”, fundador da revista Terapia Sexual e diretor do Instituto Paulista de Sexualidade. A segunda, Dra Jussania Oliveira, psicóloga pós graduada em Educação e Tarapia Sexual, autora de três livros na área dentre os quais “Relacionamento, Sexo e Ejaculação”, e docente do curso de pós graduação da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana. Veja algumas das respostas:

Babel: Quais são as duvidas mais freqüentes dos jovens com relação à masturbação?
Dr. Oswaldo: Quantas vezes é normal fazer e se prejudica a saúde.
Dra. Jussania: Se pode ter algum problema quando a freqüência é grande, se é a mesma sensação para as meninas, se continua depois do início da vida sexual com a parceira, e dúvidas sobre a ejaculação (volume e pressão).

Babel: Quais são os três maiores mitos sobre a masturbação?
Dr. Oswaldo: Que a masturbação causa impotência, que tira energia, e que afeta a saúde mental e física.
Dra. Jussania: Que causa disfunção erétil quando a freqüência é grande, que interfere na formação e desenvolvimento do genital, e que não pode ser diária.

Babel: E as três maiores verdades?
Dr. Oswaldo: Que ajuda a desenvolver auto-percepção erótica e isto permite a melhoria do comportamento sexual no adulto, especialmente na mulher. É uma fonte de prazer, e é diferenciada do prazer obtido no relacionamento a dois. É uma alternativa de comportamento e não um comportamento sexual que se estabelece ao invés de se ter relacionamentos sexuais.
Dra. Jussania: É importante para desenvolvimento da sexualidade, reconhecimento das zonas erógenas e descoberta das sensações prazerosas com a manipulação e toques corporais.

Babel: A masturbação tem uma grande relevância no processo de descoberta do próprio corpo e da sexualidade na pré-adolescência. Qual é a importância da masturbação nas outras etapas da vida?
Dr. Oswaldo: A masturbação mantém-se como meio de auto-conhecimento. O auto-conhecimento é necessário por toda a vida, pois os processos de percepção produzem mudanças de como vivemos e sentimos cada etapa da vida. Com o envelhecimento do corpo, as capacidades e possibilidades físicas se modificam, e a masturbação continua uma forma de se conhecer em cada nova etapa para a melhor atividade sexual ocorrer.
Dra. Jussania: A masturbação é uma variação sexual que pode e deve ser exercitada ao longo de toda a vida, pois proporciona sensações prazerosas, pode ser praticada individualmente ou com a parceria, aprimora a percepção corporal, relaxa, além dos benefícios que se referem à saúde e qualidade de vida.

Babel: A masturbação feminina ainda é encarada com mais preconceito que a masculina? Por que?
Dr. Oswaldo: As mulheres aprendem desde bebes que a auto-manipulação é errada. Isto ainda faz com que metade das mulheres chegue aos 20 anos de idade sem terem experienciado a masturbação como fonte de prazer sexual, e este fato se associa com as mulheres não saberem como obter orgasmos quando iniciam a vida sexual a dois. Mesmo que muitas pessoas considerem que o mundo ocidental viveu uma revolução sexual nos anos 1960, a virgindade continua sendo considerada um prêmio a ser guardado para o casamento. A vigilância sobre o uso dos dedos da menina próximos da vulva mantém a “virgindade” e impede o aprendizado da masturbação e auto-erotização. Assim a mulher não saberá como comunicar o que lhe traz prazer, pois não sabe para si mesma como esse prazer é obtido.
Dra. Jussania: a sexualidade feminina é muito mais reprimida do que a masculina. A começar da educação diferenciada entre meninos e meninas, forma de se comportar, início da vida sexual, número de parcerias, etc. Infelizmente não temos educação sexual nem na família, muito menos nas escolas, o que com certeza compromete o exercício pleno e saudável da sexualidade. Uma forma de se comprovar isto é verificando as estatísticas de disfunções sexuais masculinas e femininas: 40% das mulheres não sabem o que é ou como identificar um orgasmo. Existe um número muito maior de mulheres com a disfunção sexual inibição de desejo do que os homens. Óbvio que as mulheres já conquistaram muito mais espaço no exercício de sua sexualidade do que há 20, 30 anos. Mas há ainda um grande caminho a percorrer.

Na web

O mote da masturbação é certamente polêmico, assim como os vários aspectos que envolvem a temática sexual. Assunto sempre intimista, com peculiaridades nos diversos indivíduos, torna-se muitas vezes difícil de ser discutido abertamente com amigos ou pais, fazendo com que os mitos e as dúvidas se potencializem.

A internet proporcionou uma grande ajuda para pessoas que buscam tirar suas dúvidas de maneira fácil, gratuita e anônima. Não é necessário, para sanar essas indagações mais elementares, pagar uma consulta urológica/ginecológica ou ter que dissecar o espinhoso tema com os pais. Inúmeras páginas proporcionam grande e profundo esclarecimento a respeito das diversas questões que podem surgir quando o tema é sexo e, particularmente, masturbação. Dois dos mais famosos são www.doutorjairo.uol.com.br e www.blogdaroselysayao.blog.uol.com.br.

Segundo os sexólogos e terapeutas sexuais a masturbação não proporciona qualquer tipo de efeito negativo ou complicação física. Os especialistas dizem que ela é uma forma importante de autoconhecimento corporal na fase de desenvolvimento sexual, e uma alternativa relevante de prazer nas etapas de vida seguintes. Do ponto de vista médico, aparentemente não há contra-indicações. Assim sendo, quando os hormônios demandarem e a vontade aparecer, “mãos à obra”!! – sem preocupações.

O tabu que virou chavão: uma tarde no sex shop

Por Eliza Casadei e Rafael Duarte

“Mãe também é mulher… dê um presente diferente para ela”. A faixa que chamava atenção para a data comercial mais sentimental (e, por isso mesmo, a mais lucrativa!) do ano combinava perfeitamente com a banalidade e cotidianidade do estabelecimento. Localizado numa das principais avenidas de Santo André, em frente a um ponto de ônibus ininterruptamente lotado, as pessoas iam para o trabalho e voltavam para suas casas sem dar maiores atenções àquele tipo de comércio. Ele era tão inocente quanto a padaria do outro lado da rua ou a farmácia da próxima esquina.

Quem temesse algum riso de deboche ou algum muxoxo de desaprovação por entrar ali, sofria quase que uma espécie de decepção. O que era para ser uma transgressão de valores, uma aventura em um mundo de perversão, uma alteração das funções normais impostas pela sociedade se tornava um ato quase tão surpreendentemente avassalador quanto esperar um ônibus. Cidadão nenhum iria reparar, imerso demais que estava em sua própria trivialidade para se preocupar com a frivolidade alheia.

E é assim que Elizabeth Góes de Oliveira, dona do sex shop Libet, gosta que seja. Rejeita a combinação de cores fortes comuns nos estabelecimentos de produtos eróticos dos romances baratos e qualquer outro sinal que transpire marginalidade. Com a porta sempre aberta e com o olhar iluminado que faz com que ela pareça bem mais jovem e bela quando fala de sexo, Beth explica que a parede forrada de vibradores e dildos são, verdadeiramente, a materialidade da história de homens e mulheres comuns que procuram objetos para melhorar o estado de vida em que se encontram.

O casamento e a salvação dessa instituição por meio do bom relacionamento sexual entre os parceiros são as preocupações principais de suas falas. Assim, em meio a uma enorme quantidade de objetos fálicos, cuecas de elefante e de cremes que esquentam, que esfriam, que retardam, que apertam e que estimulam, ela se mostra um tanto quanto conservadora.

Assim como rejeita a marginalidade do ambiente, também não aceita que seus produtos sejam vistos como perversões. Ressaltando as qualidades medicinais e salvadoras de casamentos de seus produtos, ela conta que “alguns homens com problemas de saúde como diabetes não conseguem mais manter ereções e vêm aqui em busca de vibradores. Eles amam as suas esposas e não querem que o sexo se esvazie”.

Feminista, sempre defende o direito da mulher ao prazer e ressalta que boa parte dos divórcios se dá pelo estado de rotina em que os casais se vêem envolvidos depois de certo tempo. E, segundo ela, esse é o seu grande público: trata-se, afinal de contas, de um sex shop- família.

Sex shop coxinha

Ao ler o mundo através dos olhos das revistas femininas, é como se gostássemos de pensar os sex shops como grandes espaços que permitem algumas viagens a um mundo público de violações das regras privadas. É como se o tabu quebrado nos transformasse, mesmo que por alguns instantes, naquele exército de Dons Juans e pervertidos descritos por Marcuse como paradigmas da nossa sociedade. Mas é como se esquecêssemos do outro lado da equação: o sentimento de don juanismo existe, justamente, para ser normalizado. E é esse mecanismo que está envolto na lógica dos sex-shops desde o boom da comercialização dos produtos eróticos. No final das contas, percebemos que não há nada mais coxinha do que um sex shop.

Referências a objetos eróticos são muito antigas. Na própria Bíblia existem referências a dildos e o primeiro vibrador foi criado em meados do século XIX com finalidades medicinais. O que a experiência da prática comercial já dizia a Elizabeth foi objeto de estudo sério em 1872 pelo médico americano George Taylor, que concebeu o vibrador como um auxiliar no tratamento da histeria feminina.

Quando a primeira loja com o nome “sex shop” foi lançada na Inglaterra, o objetivo de Ann Summers não poderia ser menos conservador: a jovem senhora queria retirar a venda de ajudantes sexuais e matrimoniais dos becos e lançá-los à luz nas grandes avenidas, de uma forma aceitável e higiênica. Além de insistir veementemente que, apesar de tudo, não existia pornografia naquele lugar.

Depois de anos transcorridos e dada a proliferação de vários objetos não lá muito criativos como pênis de todos os tamanhos e materiais – grandes, pequenos, finos, coloridos, com óclinhos -, de loiras gostosas com peitos desproporcionalmente avantajados e de centenas de pequenos objetos que vibram, giram e torcem (tudo ao mesmo tempo!), as lojas tiveram que recorrer a uma estratégia mais safada e mais devassa para impressionar seus clientes: o sexo politicamente correto.

O Good Vibrations de São Francisco, por exemplo, criado no final da década de 70 por lésbicas feministas, trocou as loiras estonteantes por mulheres mais velhas e com corpos mais parecidos com os das pessoas comuns. A missão delas era deixar as pessoas mais esclarecidas quanto ao sexo, combater os preconceitos e quebrar os estereótipos. Assim como no Libet, nada de cores berrantes na entrada e nada de ambientes escuros e portas fechadas. Não que os objetos difiram muito dos outros sex shops. Mas manuais de boa conduta na prática sado-masoquista (explicitada como um jogo de poder feito em comum acordo e com respeito às vontades do outro e não como uma prática de submissão e humilhação) e a ambientação ideológica em consonância com os ideais feministas do lugar parecem fazer toda a diferença.

Mesmo uma das regiões mais devassas do planeta – o Red Light District – tem seu lado coxinha. Os sex-shops da região possuem uma tal diversidade de tipos de camisinha, que você deixaria o vendedor confuso se pedisse por uma simples. Alguns comerciantes mais espertos abriram “Camisinharias” na região.

As primeiras lojas brasileiras surgiram na década de 80 e agora passam por um período de lento declínio por causa da privacidade que a Internet inaugurou. Na mesma rua da loja de Elizabeth existiam mais três sex-shops que hoje estão fechados. O dela é o único que sobrevive com relativo sucesso. Segundo uma pesquisa da ABCNews, 50% dos entrevistados que responderam ao questionário acessam algum site de sexo explícito e 6% deles preferem fazer suas compras eróticas pela Internet.

It’s all business

Mas, mesmo em momentos desoladores, o mercado de produtos eróticos do país movimenta, em média, 800 milhões de reais por ano no país. A ajuda da Internet possibilita que esse mercado cresça 15% anualmente.

É considerado um ótimo negócio por Ana, dona da Cravo & Canela Produtos Sensuais, a principal distribuidora de artigos para sex shop do Triângulo Mineiro. Começando todas as suas frases com “Hum… deixa eu explicar direito”, ela não vê sentimentalidade nenhuma em seu ramo. É como vender louças ou perfumes. “Hum… deixa eu explicar direito. Eu não sei e nem estou interessada em qual é o perfil do consumidor final ou o que vende mais para ele. Só pego o pedido que as lojas me entregam e me esforço para adquirir o produto. E é tudo testado pelo Inmetro”.

Para Guilherme, gerente da Harém Fantasias Eróticas, a emoção de estar no ramo é a mesma que a de Ana. “Nos esforçamos para passar para o consumidor um produto de qualidade e excelência”. Nada em sua fala se deixa desviar desse ponto. Apesar de criar em seu estande em uma feira de lingeries um ambiente de eroticidade e sedução – com direito a um homem só de cuequinha dourada na entrada – nada em sua fala deixa transparecer aquela doce transgressão de regras que projetamos nas fantasias penduradas nos cabides. Sua fala é fria como seus números de venda.

A tendência seguida pelas Elizabeths, pelas Anas e pelos Guilhermes pinta um quadro de eroticidades em que o tradicional ganha espaço. Não é a toa que o produto mais vendido na loja de Guilherme seja a fantasia de noiva. O porrete do “goze, goze, goze” continua atrás de nós e nos cobra para que nossa sexualidade seja plenamente exercida e, de preferência, de uma forma que nos torne transgressores (a alegria dos fetiches!). Mas é esse mesmo porrete que fez com que os fetiches sexuais se configurassem, hoje, em um assunto tão tabu, mas tão tabu, que já virou até clichê.

Estranhos virgens

Por Eliza Casadei e Rafael Duarte

Todos os dias, anônimos cruzam os nossos caminhos. E, como não somos possuídos de fama, acreditamos que eles possuem os mesmos hábitos autômatos que nós. A sexualidade também entra nesse nível. Não gostamos de pensar, mas os outros também transam.

O advogado Roberto Figueredo, conhecido como Beto, de 28 anos, e a nutricionista Sabrina Amaral, de 25 anos, falam claramente: “Não somos nenhum ET. Temos vontade de toda ordem como qualquer pessoa”. Namorados há seis anos e seis meses, o belo casal seria rotulado como estranho por uma única coisa: eles são virgens.

Ambos estão uma geração a frente daquela que figurou a revista Veja em 1992. Na época, os virgens do Brasil representavam quase um terço da população jovem e contradiziam tudo o que se reportava de liberalidade sexual. Por muitos motivos, o jovem do Fora Collor esperava o momento certo para ter a sua primeira vez.
Nisso, Beto e Sabrina têm em comum com os mais “velhos”. Eles estão esperando a primeira vez deles que ocorrerá logo após o casamento, previsto para 2009. A motivação de tal resguardo é também considerada tradicional na área: a religiosidade.

Santos e separados

“Olha, a Bíblia possui vários elementos sobre a relação entre humanos. Neles, o que mostra é que devemos ser santos como Cristo, ou seja, separados perante os amigos e com sua companheira”. Após essa territorialização fundamental, Beto começa a esclarecer que separado significava ter uma atitude respeitosa e que não escandalizasse os outros.

Um exemplo claro disso, para ele, é o comportamento do casal na entrevista. Ora, mesmo que estivessem entre amigos, não caberia ali o mais apaixonado dos beijos. Sabrina concordava com os olhos com tudo que ele dizia. O seu silêncio parecia aumentar o poder da eloquência dele. Era uma olhar que apoiava sem escândalos uma atitude que se transmutava em voz.

Membros da Bola de Neve Church, os dois mostravam que aquela igreja, localizada na palmeirense rua Turiassú, não significava uma religião, mas sim um modo de vida. Beto, sem perder a cadência sustentadora de sua voz, afirmava que todo aquele ethos está dentro do coração dele, nas atitudes e não em um ídolo de barro ou na prancha de surfe do altar. Aquilo era um modo de vida.

E Sabrina e Beto possuem uma vida normal de qualquer casal na faixa etária deles. A única diferença seria o trabalho espiritual deles. Como bons líderes de célula, aqueles pequenos grupos de discussão que a maioria da igrejas possuem, a palavra amiga e confortadora é a regra na conversa.

Tanto que, no final da entrevista, Beto não hesitou em dizer: “Para mim, o importante é que tudo que eu disse hoje, tenha tocado o coração de vocês. Se isso aconteceu, estou feliz”. Após isso, o casal nos convidou para acompanhar a célula, fato que o trânsito caótico de São Paulo e a vontade de chegar no mesmo dia em casa nos obrigaram a declinar.

Alfa e Ômega

No mato alto da ECA-USP, há um grupo de cinco pessoas com uma placa em português que diz: “Alfa e Ômega. Se cristão, venha para nós. Aqui às 11:45”. Assim como Beto e Sabrina, os membros faziam um plantel à la Brad Pitt: loiros, altos e de olhos claros. Resolvemos nos aproximar com o singelo “oi” brasileiro de todos os dias.

Ao primeiro som de português, agem com estranheza. Afinal, Kristin e Andrew são americanos fazendo um trabalho estudantil pela Alfa e Ômega, uma greek letter cristã muito parecida com aquelas de cinema. Parecem não entender direito o que fazemos ali e, como qualquer americano, respondem nossas perguntas com dísticos.

Só que a velha desculpa, infelizmente verdadeira, de ter estudado em colégio católico quebra o gelo tão bem representado pela nordicidade da beleza deles. Conseguimos falar sobre sexo depois do casamento com eles.

Andrew, que parece mais fluente, fala que o sexo é algo muito bonito para os esposos e precisa atingir um certo nível, sem ultrapassá-lo antes da hora. Para ele, o sexo antes do casamento representa uma antecipação de tal patamar, causando relacionamentos destruídos.

Kristin, que parece mais assustada com o assunto, só responde a pergunta sobre a influência da mídia na antecipação sexual da juventude. “A mídia é muito malvada”, se resumiu a dizer. Se isso foi uma direta, uma indireta ou um gancho, não sabemos. Só entendemos o fato que existem greek letters aonde a oração – e não a orgia – é a atividade principal.

Jesus não escolheu

Anne Tairine estava triste quando foi entrevistada. A moça de Itu falava de um namoro cristão que não tinha dado certo. Ela e o ex, músico de Limeira, romperam os 3 meses de namoro em comum acordo, com a sensação boa que os momentos que viveram foram abençoados.

“Bom, um namoro cristão é baseado na confiança, no amor e na santidade. Sem essas três características, o namoro não pode se consolidar. Há namoros que possuem os três requisitos, mas acabam tendo fim, pois a pessoa escolhida por nós pode não ser a pessoa escolhida por Deus”, discorre Anne Tairine. A ansiedade seria o principal fator de erro na leitura da vontade divina.

Parecendo mais aberta a perguntas, disparamos o quão próximos podem ficar os namorados cristãos – acreditamos não precisar explicar para você, sagaz leitor, a entrelinha sexual de tal questionamento. A resposta foi imediata: “Polêmica, né?”, seguida de riso.

No entanto, Anne Tairine não fugiu, respondeu e aqui citamos o encadeamento de idéias: “Então, os pastores sempre nos aconselham a prestar atenção no trabalho, nos estudos, na família, na igreja e depois pensar em namorar. Quando o casal estiver junto deve sempre lembrar que a santidade do Senhor deve estar neles, sendo assim, devem evitar ficar sozinhos, no escuro onde ninguém possa vê-los”.

A aula teológica de namoro sem sexo continua com a mesma majestade de um professor catedrático: “Procurar frequentar lugares públicos, visitar novas igrejas, participar de atividades que envolvam os amigos, a família, entre outros.

Isso faz com que o foco seja a cumplicidade, e não apenas a atração física. Beijos muito demorados podem levar a outras coisas. Tudo começa no beijo, por isso temos que tomar muito cuidado. Estar sempre em oração um pelo outro é fundamental, para que a vontade do Senhor seja o foco do casal”.

Com certa melancolia cristã, Anne Tairine lembra que prefere “andar em retidão aos olhos do Senhor, pois mesmo errando sei que ele é fiel e poderoso para me perdoar e me ajudar a seguir em frente”. Ouvimos dizer que agora Anne Tairine está feliz e namorando novamente. Basta torcer para que esse seja o escolhido por Deus.

Virgem não, só não sou promíscuo

Você já viu um cara com um X na mão ou um nick com X (ex: FulanoX) na Internet? Eles, os straight edges (sXe), são conhecidos, pelo senso comum, de seguirem uma filosofia de não comerem carne, nem beberam bebidas alcoólicas, nem usarem drogas e nem mesmo fazer sexo antes do casamento.

“Isso de não fazer sexo antes do casamento, sinceramente, eu não sei de onde veio. Porque se for assim, as pessoas passam a tomar como religião. E não é bem isso, straight edge é uma questão de consciência. Uma coisa que tem a ver é, de que no começo do movimento, os caras serem contra promiscuidade”, lembra Bruno Pedroso, de 18 anos.

Bruno nos foi indicado como sXe, mas ele alega não ser muito participativo na cena. O seu primo Fernando é mais ativo do que ele, mas mesmo assim ele faz uma interessada descrição do movimento. Ele lembra que tudo começou nos anos 80 quando Ian MacKaye, do Minor Threat, pregava um punk (hardcore) sem drogas.

Depois a banda Youth of Today incluiu o vegetarianismo no movimento, fato que ecoou muito no Brasil onde quase todos sXe são vegans. Mas, o senso comum do não-sexo parece não ter nenhum relação com qualquer banda.

“Mas, eu não acho que no straight edge, isso de sem-sexo antes do casamento exista. É mais pautado em não fazer sexo promíscuo ou acho que nem isso exista mais no straight edge também. Talvez, isso pode ter sido algo do straight edge no início, contra o movimento hippie”, afirma Bruno, lembrando que isso é uma hipótese que lhe veio no momento à cabeça.

A entrevista com o não-virgem nos mostrou que, tanto no caso dele como no dos outros citados, a estranheza não pode ser ligada ao fato de serem virgens. Na verdade, não há possibilidade de valoração nesses casos. Como dizia Albert Camus, o absurdo é o conceito essencial e a primeira verdade do mundo.

Começa pela boca

Por Gustavo Basso

Atenção! Tenha mais sensibilidade na próxima vez em que estiver prestes a usar seus dedos, língua, pênis ou qualquer outro órgão de sua preferência na consumação de uma relação sexual.

Você estará prestes a iniciar uma manifestação cultural. Parece estranho? Mas o modo como nós, seres humanos, tratamos e fazemos sexo não se trata apenas de desejo animal. E por mais animal que possa parecer a sua relação, é com essa teoria que concordam médicos e terapeutas sexuais.

Sexualidade, erotismo, linguagem erótica, pornografia – em suas variantes verbais e visuais – são todos invenções da fértil imaginação humana pra preencher o aquele vazio temporal que existia entre uma gestação e outra, numa época em que as mulheres tinham nove, dez filhos. Calcule: são sete anos ininterruptos de gravidez e praticamente sem sexo; motivo de sobra pra fazer pipocar caraminholas na cabeça do homem.

Sexo, cultura e sociedade têm uma estreita relação; qualquer modificação na sociedade pode provocar mudanças no modo com que nos relacionamos com a sexualidade. Somos todos reféns de um inconsciente coletivo, que ritualiza as relações: jantar fora, ir pra balada, comprar o carro da moda são todos rituais em prol do prazer.

“Tudo o que a gente faz é pra ver se come alguém”

Qualquer exemplo de nossos comportamentos mais animais geralmente remete a sexo ou comida, logo não é tão surpreendente que na língua portuguesa uma coisa possa significar a outra. Obviamente não é assim; tanto o sexo quanto as refeições são, entre outras coisas, maneiras criadas pelo ser humano para se relacionar socialmente.

Ao menos é o que diz o psicólogo e terapeuta Oswaldo Rodrigues Jr., diretor do Instituto Paulista de Sexualidade: “A sexualidade é inventada. Ela é um mecanismo humano de relacionamento e tem sido cada vez mais importante a partir do momento que a gente inventa a palavra sexualidade pra incluir mais que o contato genital, pra incluir mais do que o contato físico de carícias. Pra incluir emoções, e conceber a troca de emoções.” E ainda completa: “Você convida uma pessoa para ir jantar, o jantar tem uma função de seduzir… é um rito! Aliás, é tão rito que você vai ver no dia 12 de junho como vai ser um rito.”

O amor como o conhecemos data, na melhor das hipóteses – ou na pior, depende de quem opina – do século XI; outros estudos o datam do fim da Idade Média (século XV). Segundo Rodrigues, “o amor só vai ser administrado como um sentimento chamado de nobre, estável e que mantém as pessoas juntas há 100 anos.” O amor, ao longo da história, mudou de sentido e função. E o sexo também.

Mas sexo tem função, além da reprodução? Vários. Quem nunca ouviu a história do ‘teste do sofá’? Até onde se saiba, o tal teste não tem nenhuma função reprodutiva. Quem ressalta esse ponto é a psiquiatra e professora da USP Carmita Abdo, coordenadora do Programa Sexualidade do Hospital das Clínicas: “O sexo para nós é um instrumento de relacionamento social, e às vezes até em situações excusas. Troca; o sexo pode ser uma moeda muitas vezes, quando você busca outros valores que não o prazer sexual”.

Segundo os terapeutas, não há dúvida de que o ser humano inventou o sexo. Assim como inventou o amor, a sexualidade, a religião, a prostituição, a pornografia. E alteramos os significados da maioria. A pornografia, por exemplo, significava o escrito que se referisse às prostitutas.

E Rodrigues lembra: “A prostituição no mundo antigo tinha muito de divindade. No Império Romano as vestais eram prostitutas sagradas; você pagava pra ter relações com elas e na verdade pagava ao Império, pagava pro povo. As sacerdotisas de Stein, ali na Mesopotâmia, recebiam dinheiro para sexo e o dinheiro ia para o templo, era uma questão religiosa.” Se o modo com que tratamos, relatamos e nos expressamos com prostitutas já foi algo sagrado, hoje está longe disso. As prostitutas, apesar de sofrerem preconceito e discriminação são hoje as salvaguardas da linguagem erótica. As salvadoras de muitos casamentos sem ‘boca-suja’ – pudicos, corretos e responsáveis. “O sexo se alimenta dos palavrões”.

Pau – pênis – pipi

Mas, afinal, por que o palavrão é excitante? A resposta está muito próxima do fato de que a transgressão é excitante, que o proibido é excitante. Quando se é criança, tocar a campainha do vizinho e sair correndo é excitante; brincar com fogo e depois provar que não fez xixi na cama é excitante. Mas crescemos, o sentido de excitante, que antes era tão amplo acaba se restringindo a uma situação: duas ou mais pessoas sob forte atração física em situações eróticas.

Se ao aprendermos a falar nosso campo de imaginação se restringe, ao crescermos e absorvermos a cultura sexual, fica mais restrito ainda. Mas afinal de contas: por que diabos é mais excitante falar palavrão no sexo? Aliás, por que grande parte dos xingamentos tem a ver com o sexo? Termos como “vai se foder”, “vai tomar no c*”, “filho da puta” ou “veado” tem todos, direta ou indiretamente uma relação com o sexo; e ao modo como a sociedade brasileira se relaciona com sexo. Pode-se até arriscar que é o modo como o mundo ocidental lida com o sexo, mas é muita pretensão.

Ana Flávia Madureira, doutora em psicologia pela UnB, aponta para o sentido da transgressão de convenções sociais no uso do palavrão: “Na esfera do erotismo, muitas vezes, o sentido de transgressão pode ser vivenciado como algo estimulante. Obviamente, desde que o casal esteja de comum acordo em relação às práticas e à linguagem a ser compartilhada no momento do ato sexual.” Esse consenso do uso dos termos entre parceiros parece ser um ponto de comum acordo entre os entrevistados. Qualquer comportamento forçado é negativo. E o que era um palavrão excitante passa a ser um xingamento.

“Quando a gente está xingando a outra pessoa, nós estamos querendo dizer que a outra pessoa é subalterna, é menos. Nós estamos tentando, nesse jogo de palavras, impor poder e fazer uma negociação onde o outro fique por baixo.” E esse jogo de palavras não é só utilizado para outras pessoas, mas a coisas ou fatos que nos desagradem. Seu amigo quebrou uma perna? “Nossa, que merda” Terá que botar pino? “Puta, se fodeu!” Experimente dizer “Nossa, se deu mal” Nem de longe isso exprime todo o sentimento que a situação exige.

Isso porque, segundo o psicólogo cognitivo Steven Pinker, da Universidade Harvard, em seu livro Stuff of Thought (citado pela revista Super Interessante, Ed. 249) os palavrões são elaborados no sistema mais primitivo do cérebro, aquele mais associado aos sentimentos e menos à razão. E essa expressividade vale muito para a relação sexual. O uso de eufemismos pode prejudicar muito a intensidade da relação sexual; e atrapalhar relacionamentos.

É o que aponta Rodrigues: “Se existe uma emoção, um peso que tem que falar aquela palavra mesmo, se usar um eufemismo você está tirando toda a emoção e sexo exige emoção. E alguns eufemismos são, por exemplo, infantilizados, tipo: “vamos fazer nhen-nhen-nhen!”. Isso são formas das pessoas falarem pra substituir palavrões. Po, é disso aqui que nós estamos falando, não é outra coisa! Não é batatinha, não é periquita, não é pipi; se a gente baixar o grau de emoção… vamos assistir novela e futebol que fica mais emocionante.”

Toda essa expressividade emotiva na hora do sexo é moldada por nossa cultura e sua bagagem histórica. Como expõe Madureira, nossa língua e linguagem são todas marcadas por um preconceito, e “a linguagem cotidiana para se referir à sexualidade é uma linguagem com forte conotação de imoralidade”. Não só a linguagem marca o sexo como imoral, mas ao longo da história ele foi considerado algo indecente, pra se fazer dentro de quatro paredes… como um banheiro! Nos escondemos pra ir ao banheiro, nos escondemos para fazer sexo.

Mas o traço mais marcante é um sempre presente machismo na língua: “O órgão sexual masculino é associado, freqüentemente, a armas, como: “pau”, “cacete”, “vara”, etc. O ato sexual é interpretado, muitas vezes, através de uma visão polarizada e hierarquizada: o homem come; a mulher dá”, afirma Madureira.

Esse preconceito estigmatiza palavras que antes tinham significados neutros; pau, nada mais é no dicionário do que um galho; boceta era uma caixa pequena e redonda e assim por diante. E as prostitutas, que já foram sagradas, hoje são consideradas um dos nichos mais baixos da sociedade; o que vale uma pergunta: no fundo, no fundo, não fazemos todos nós uma venda de parte do corpo para trabalhar?

A tão sonhada vida fácil

Há um ponto a se ressaltar em relação às prostitutas: a dificuldade para se conversar com elas para uma reportagem. A simples menção ao termo “matéria” já causa uma repelência. Um pouco de sensibilidade basta para não abordar assim e para entender essa resistência. Diante de uma profissão tão estigmatizada, como não temer algo que se possa falar?

Em compensação essa busca por uma conversa que trouxesse algum repertório empírico leva a diálogos insólitos, como a criação de personagens clientes ao falar com uma acompanhante pelo telefone: “Me diz uma coisa, você costuma ouvir coisas estranhas?” “Ah, não sei… o que você considera estranho?” “Ah, eu não fico muito a vontade pra falar.” “Pode falar, sem medo.” “Tá bom, tipo, quero que você me coma…” “Ah, mas isso não é tão estranho.” “Você ouve coisas piores? Tipo o que?” “Ah isso eu te conto pessoalmente”.

Prostitutas ouvem de tudo no campo erótico e precisam falar de tudo. Abdo aponta uma das razões: “O homem se restringe muito no sexo que faz com a sua parceira doméstica. Ele acha não só que determinados termos não devem ser utilizados como também que determinadas práticas não devem ser utilizadas. Então o repertório sexual com a esposa é meio sem graça, repetitivo, muito menos animado do que ele faria com uma garota de programa, onde ele se permite todo tipo de prática liberdade de expressão.”

E dá-lhe sacanagem; Bete*, ao ser perguntada sobre o que eles querem ouvir, lançou um “amor, você pega o cara e diz: ‘vem e me come, seu safado’” e ainda emendou “e o homem ter que ser direto; botar a mulher no canto e falar ‘e aí, por quanto você sai daqui?’” O respeito que ele se sente obrigado a ter pela mulher amada lhe impede de xingar, oprimir – afinal, é pra isso que existem os xingamentos – a senhorita que está sob ele na cama. Porém nada lhe impede de assumir esse comportamento em uma situação de cliente. E o cliente tem sempre razão.

Se fosse apenas isso, seria mais fácil se acostumar. Eva* conta que muitos homens pedem pra que ela fique quieta na cama, no máximo emita um gemido. E nesse comportamento há, algumas vezes, um agravante: alguns desses homens pedem ainda para que as prostitutas tomem um banho frio antes da relação. Algo para simular um corpo morto. Agora, o que impede um indivíduo que deseja a esse ponto transar com uma morta de matar a mulher e transar logo com um corpo verdadeiro? O fetiche não tem limites em muitos casos.

E grande parte dos fetiches vem dos homens. Seria um reflexo dessa liberdade maior que os homens têm para com o sexo? Liberdade paradoxal essa, pois ao mesmo tempo os homens podem “tudo”, não podem uma série de coisas: não pode beijar outro homem, nem no rosto; não pode vacilar com os olhos no banheiro; não pode ter uma vaidade maior. Todos comportamentos tacháveis de veado, nada lisonjeiro, como sabemos.

Carmita Abdo acredita que não, e acredita em um outro fator para esse fetichismo masculino: “a mulher tem muito mais contato com objetos que são potencialmente fetiche; ela pode usar um adereço, ela pode usar um brinco, ela pode usar uma peça no cabelo, etc. Mas nem sempre foi assim; nós tivemos tempos em que os homens se enfeitavam, usavam peruca, usavam aqueles babados todos, usavam aqueles brilhos nas roupas. Será que naquela época os fetiches eram menos comuns?” Ao menos a um ponto Oswaldo Rodrigues responde: “é mais comum encontrarmos grupos de sado-masoquismo em sociedades politicamente restritivas, autocráticas. Ou seja, você não briga com o governo, mas você pega sua vizinha, chicoteia ela, consensualmente, os dois adoram isso, mas você não vai fazer passeata contra o governo.”

O ser humano, em seu confuso mecanismo mental, complica as coisas; transforma reprodução em prazer; prazer em culpa; culpa em palavras, palavras em prazer; prazer em ferramentas sociais; ferramentas sociais em preceitos; preceitos em preconceitos; preconceitos em fetiches; fetiches em prazer; prazer em dor e assim por diante. Só a cabeça humana foi capaz de dar vida a tantas palavras e palavrões. E perguntas que custam a ser respondidas de uma vez. Talvez em 100 anos as respostas sejam diferentes, andemos pelados pela rua e palavras usuais como camisa se torne um palavrão.

Glossário

• Amor: viva afeição que nos impele para o objeto dos nossos desejos; inclinação da alma e do coração; objeto da nossa afeição; paixão; afeto; inclinação exclusiva;

• Boceta: pequena caixa de papel, madeira ou outro material, cilíndrica ou oval, para guarda de objetos;

• Cacete: pau curto e grosso; bordão grosso numa das extremidades; pão de trigo sobre o comprido;

• Caralho: o pênis; designa irritação, indignação

• Carícia: afago; carinho; manifestação de afeto.

• Cultura: conjunto dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores morais e materiais, característicos de uma sociedade;

• Erotismo: amor físico, prazer e desejo sexual distintos da procriação; exaltação de tudo o que é referente ao desejo sexual

• Eufemismo: ato de suavizar a expressão de uma idéia, substituindo a palavra própria por outra mais agradável, mais polida;

• Excitante: estimulante

• Fetiche: objeto animado ou inanimado, natural ou feito pelo Homem, ao qual se atribui poder sobrenatural ou mágico e ao qual se presta culto;

• Foder: copular; sair-se muito mal (de qualquer intento); entrar pelo cano; não ligar importância

• Palavrão: obscenidade.

• Pau: pedaço de madeira; bordão; cajado; vara; haste; mastro; chifre;

• Pênis: órgão da copulação, no homem.

• Pornografia: representação (por escritos, desenhos, pinturas, filmes ou fotografias) de cenas ou objetos obscenos destinados a serem apresentados a um público; coleção de pinturas ou gravuras obscenas

• Prazer: sensação ou sentimento agradável, harmonioso, que atende a uma inclinação vital; gozo

• Prostituição: comércio habitual ou profissional do amor sexual

• Ritual: Conjunto de práticas consagradas pelo uso e/ou por normas, e que se deve observar de forma invariável em ocasiões determinadas

• Sacanagem: ato, procedimento ou dito de sacana; devassidão, bandalheira, libertinagem, sacanice

• Sexo: características estruturais e funcionais que permitem distinguir os organismos macho e fêmea; fazer sexo: ter relação sexual, fazer amor, copular

• Sexualidade: conjunto dos fenômenos da vida sexual; conjunto de todas as condições anatômicas e fisiológicas que caracterizam cada um dos sexos

• Transgressão: infração.

• Vagina: designação comum a diversas formações com feitio de bainha; canal do aparelho genital dos mamíferos-fêmeas que se situa entre a vulva e o útero

• Vara: haste delgada e flexível de árvore ou arbusto; circunscrição judicial em certas cidades do país; conjunto de porcos

• Veado: quadrúpede ruminante, de galhos redondos e ramosos; espécie de mandioca, de talo vermelho e raiz curta e grossa

• Xingamento: insulto com palavras afrontosas, zombaria, injuria

• Xoxota: a vulva

Combustíveis do sexo

Por Carolina Baliviera

Conhecida popularmente como deusa do amor, Afrodite não teve um nascimento nada romântico. A mitologia grega conta que Cronos castrou seu pai, Uranos, e atirou sua genitália ao mar, que começou a ferver, espumar e, assim, originou-se a deusa. A danadinha ao crescer não deixou por menos e dava concorridas festas – animadas por orgias e bebidas – em Atenas e Corinto. As famosas reuniões recebiam o nome de afrodisíacas, que vem de aphrodisiakós, ou no português claro, aquilo que “restaura as forças geradoras”, que “excita os apetites carnais”.

De lá para cá, a busca por aditivos ao prazer continuou a mesma. Diariamente spams emporcalham nossos e-mails com remédios estimulantes e folhetinhos divulgam ervas milagrosas que prometem dar mais moral para os homens. Em um dos movimentados cruzamentos da região do Brás, em São Paulo, seu José da Silva também tem sua fórmula de sucesso. “Para o brinquedo funcionar é só tomar a `garrafada´, é tiro e nada de queda, não”. O tônico Levanta Velho do arretado pernambucano é um preparado de cachaça com marapuama, cipó-cravo, ginseng, nó-de-cahorro, guaraná e um truque especial que ele não revela nem por decreto. “Por 15 reais, o cabra tem Viagra natural por um mês”, diz.

Em uma barraquinha mais discreta no Mercado da Lapa, a descendente de japoneses, Sun Chou, montou sua farmácia natural há seis anos. Cansada de receber encomendas de ervas na sua antiga banca de legumes e verduras, decidiu apostar somente no poder das plantas. Deu tão certo que, agora, já coleciona clientes fiéis. “Um senhor de uns 60 anos vinha toda semana comprar ervas afrodisíacas. Depois de três meses, apareceu a esposa dele para me proibir de vender os produtos; ela não estava conseguindo dar conta do marido”, brinca.

“No Brasil, a cozinha e a cama são os altares da sociedade erótica”, já dizia Gilberto Freire e dava a deixa para outro famoso ramo dos afrodisíacos: a culinária. Assim, a risonha Gabriela, personagem de Jorge Amado, enlouqueceu Nacib com o seu cravo, sua canela e outros temperos da sua fabulosa comida. E no livro “Como água para chocolate”, de Laura Esquivel, a protagonista Tita criou pratos para seu amado – e proibido cunhado – Pedro. Era uma forma de provocar sensações mesmo que fossem à distância, como na vez que serviu codornas em pétalas de rosas e logo notou um “intenso calor subindo pelas pernas, o rubor cobrindo as faces, um formigamento no centro do corpo”, praticamente uma intoxicação afrodisíaca.

Dono de um restaurante tailandês em Búzios, o chef Marcos Sodré agora tem outra filial no Leblon, no Rio de Janeiro. O êxito se deve, principalmente, aos pratos que deixam a clientela (90% casais) mais corada e com vontade de ir embora para casa comer a sobremesa. “Esta culinária prima pelo poder sensorial e aromático dos ingredientes”, explica. Em meio a temperos e especiarias, o carro-chefe da casa é camarão com lichias ao molho de ostras. O aventureiro (e amante inveterado) Giacomo Casanova relata em suas memórias que chegou a seduzir uma virgem passando uma ostra de sua boca para a dela; e, por 56 reais, você pode tentar a experiência. Ei, garçom, traz logo a conta logo, por favor?!

Na zona sul do Rio, um calçadão de quatro quilômetros com padrão ondulado preto-e-branco, cortesia de Burle Marx, repleto de turistas, malandros, boêmios, além das moçoilas (não) trajadas de pé na Atlântica explicam porque Copacabana respira sexo. Só num pequeno prédio comercial na rua Santa Clara, há dois sex shops. No Xdreams, consolos de todos os tamanhos, acessórios, géis e lubrificantes dividem as prateleiras. Mas, o sucesso de venda são as fantasias. “Todo mundo sonha em comer a estudante, a enfermeira ou a empregadinha…Imaginar sacanagem é o melhor afrodisíaco”, explica a atendente Ana Paula.

Balela? Placebo? Ou eficazes? Ainda hoje a ciência torce o nariz para os supostos efeitos que os afrodisíacos têm na vida sexual das pessoas. O que existe, segundos os médicos, é a disposição interna – maior ou menor – de querer fazer sexo. E ela pode ser acionada por meio de vários estímulos. Para saber se esses estímulos chegam até onde interessa, a redação da Babel virou cobaia. Cinco repórteres se entupiram de ovo de codorna, catuaba, chazinhos amargos, tônicos, e brinquedinhos sugestivos e contam a seguir o que realmente dá uma forcinha na hora H.

Populares

Atuam diretamente sobre o desejo mais pela sugestão do que eficácia

OVO DE CODORNA
GEMADA
AMENDOIM
CATUABA
GINSENG
CARACU COM OVO

Princípio ativo: A catuaba possui um ativo químico, a yoimbina, usado em alguns remédios para disfunção erétil. Essa substância, presente naturalmente na planta, melhora o sistema nervoso central e a oxigenação e, conseqüentemente, o fluxo sangüíneo. O ginseng segue a mesma lógica: combate o stress físico e mental e, por isso, dá uma ajudinha no sexo. Agora, alimentos como a o amendoim, ovo de codorna e caracu têm eficácia baseada mais na crendice do popular do que nas pesquisas cientificas. O ovo de codorna, por exemplo, contém minerais fundamentais para o organismo (ferro, manganês, cobre, fósforo e cálcio) e uma bateria de vitaminas (A, B1 e B2, C, D, H, E, fator PP, ácido pantotênico e piridoxina) que até melhoram o ânimo, mas não são suficientes para levar o título de “viagra natural”.

O especialista: “Não há nada que comprove a eficácia desses alimentos, mas eles podem cumprir a missão de afrodisíacos pelo efeito psicológico que produzem: a pessoa acredita e isso acaba funcionando para ela”, explica Diego Henrique Viviani, psicólogo do Instituto Paulista de Sexualidade.

Na hora H: “A catuaba é interessante mais pela fama do que pelos efeitos. A primeira vez que experimentei a ilustração do rótulo trazia a figura de um índio. Depois que ficou conhecida como afrodisíaco, trocou de embalagem e agora tem um casal em posição de preliminares. O gosto é meio amargo, lembra Biotônico Fontoura e também fernet (uma bebida argentina). Mas não surtiu efeito em mim. Não senti nenhuma diferença depois de beber a catuaba”, Rafael Duque.

Mais, mais:
– O gado Caracu é sinônimo de virilidade por ter ótimos reprodutores. Acabou virando símbolo de uma cerveja escura. Para “melhorar” a bebida, os botecos a turbinaram com ovo cru.
– É provável que a tradição do ovo de codorna veio de uma canção do compositor Severino Ramos, imortalizada pelo rei do baião Luiz Gonzaga. Quem não se lembra dos versos? “Eu tô madurão / Passei da flor da idade / Mas ainda tenho / Alguma mocidade /…/Eu quero ovo de codorna pra comer / O meu problema ele tem que resolver…”.

Fitoterápicos

Ervas e raízes transformadas em chazinhos e cápsulas para elevar a moral

CANTÁRIDA
MARAPUAMA
CIPÓ CABLOCO
CIPÓ CRAVO
NÓ DE CACHORRO
CASCA DE CATUABA
GUARANÁ

Princípio ativo: Esses afrodisíacos seguem a linha natureba da medicina. São vendidos em barraquinhas de ervas ou – em versão mais prática nas farmácias – já em cápsulas. Em geral, são revitalizantes orgânicos, contribuem para aumentar a potencia sexual e, em muitos casos, têm comprovação cientifica que explica sua eficácia. No Instituto de Sexologia de Paris, a marapuama foi dada a dois mil pacientes durante dez dias e houve uma melhora significativa da libido em 60% deles. Segundo os pesquisadores, a planta aumenta o desejo sexual, mantém os níveis de testosterona e também pode ser utilizada para tratar problemas do sistema nervoso central. Apesar dos resultados, é preciso ter um cuidado ao turbinar a relação. Algumas raízes e, até mesmo, insetos (como o besouro cantárida, usado moído), provocam irritação no canal urinário – que aumenta o afluxo de sangue nos dutos sexuais. Elevam o tesão, mas podem causar infecções.

O especialista: “Todos esses produtos fitoterápicos melhoram o estado geral do organismo, combatem o stress, aumentando a atividade motora, isso tudo reflete na disposição para o sexo”, afirma a farmacêutica Renata Codarin.

Na hora H: “Preparei o ‘tônico’ da forma popular (com pinga) e também como chá, misturando quatro plantas: catuaba, nó-de-cachorro, cipó cravo e marapuama. O cheiro já não era bom, o gosto então… um dos ingredientes era muito amargo, parecia terra e seiva velha de árvore. Literalmente intragável; cada gole era acompanhado de um gole de água. Quanto aos efeitos, notei alguma influência sim. Mas de uma forma bem pouco eficiente, já que eu tomei a bebida às 3h30 e o efeito veio às 12h, quando eu não precisava mais”, Gustavo Basso.

Mais, mais:
– A marapuama sempre foi utilizada pelos índios como revigorante e recebia o nome de “pau da potência”.
– A raiz do nó-de-cachorro tem semelhança anatômica com um pênis de cachorro – daí o nome. A mistura da planta com pinga é tomada pelos homens da região do Pantanal como estimulante sexual. Eles garantem ainda que uma dose por dia – em uma xícara de cafezinho -, energiza as crianças preguiçosas, fortifica a memória e reduz os problemas da menopausa.

Medicamentos

Cuidam das disfunções eréteis e dão um “up” na relação

VIAGRA
YOMAX
VASOMAX
UPRIMA
RETARDADORES DE EREÇÃO
LEVITRA
CIALIS

Princípio ativo: Não se pode falar em estimulante sexual sem citar a famosa pílula azul. Dos cinco medicamentos mais vendidos no Brasil de janeiro a março desse ano, dois são para problemas de ereção e três são analgésicos. O Viagra, por exemplo, é um remédio que aumenta os mecanismos vasodilatadores da ereção, além do fluxo de sangue no pênis e, assim, promove a ereção. Existem também os alfa-adrenérgicos, como Yomax e Vasomax, que inibem a ação da adrenalina no pênis, causadora do estado de relaxamento. Indicado para aqueles homens que não conseguem ter uma boa ereção por viverem sob constante ação da adrenalina que se exterioriza pelo stress, nervosismo e hiperatividade. O Uprima faz parte de um terceiro grupo de medicamentos, o da apomorfina, que age sobre o sistema nervoso central. Entre as promessas tentadoras dos medicamentos estão até 36 horas (!) de ereção. Pois é, chega de moleza.

O especialista: “Esses medicamentos não são afrodisíacos e nem devem ser usados para isso. Eles têm contra-indicação e, por lei, só deveriam ser vendidos com prescrição de um especialista”, alerta Joaquim Claro, médico da clínica urológica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Na hora H: “Teoricamente, não precisava do remédio, mas como andava com uns problemas que pioraram meu desempenho, resolvi experimentar. Comprei o Levitra, sem receita mesmo. O comprimido era de 20 mg, por isso, usei só metade. Uns quinze minutos depois já funciona: dá bastante calor e nenhuma menina pode chegar muito perto, porque, com qualquer estímulo, já fica tudo duro. O efeito dura cerca de três horas, então é preciso calcular bem o tempo para não passar vergonha na balada”, o repórter preferiu não se identificar.

Mais, mais:
– O Viagra só funciona em resposta ao estímulo sexual. Não adianta tomar o comprimido e esperar que o companheiro lá de baixo tome a iniciativa. Além disso, ele é expressamente proibido para homens cardíacos que façam tratamento com nitritos e nitratos.
– O Uprima funciona mais rápido – o que pode causar um certo constrangimento. Não precisa de nenhum estímulo sexual e seu efeito é obtido em quinze minutos e não em uma hora, como o Viagra.

Românticos

Criam um clima sensual no quarto para a noite ficar mais quente

INCENSO
FRUTAS
CHOCOLATE
VELAS
MÚSICA
FLORES
CHAMPANHE

Princípio ativo: Criar uma áurea de romance pode dar um empurrãozinho para o prazer. Principalmente o das mulheres. Enquanto flores e cores agradam aos olhos e embelezam o ambiente, os cheiros e gostos exploram os outros sentidos. Os aromas afrodisíacos como jasmim, almíscar, rosa e âmbar surtem efeito mais rápido do que os alimentos ou estímulos visuais. Isso acontece, porque os cheiros percorrem o tálamo e o córtex cerebrais antes de chegar ao lobo límbico, região do cérebro responsável pelas emoções. Ali, enviam sinal direto à área e produzem as sensações de prazer. Comidas que fornecem ao organismo alto grau de energia – como o chocolate – também funcionam como disparadores do apetite sexual. O álcool, por exemplo, dilata os vasos sangüíneos, fazendo com que o sangue chegue em maior quantidade aos órgãos genitais.

O especialista: “A vontade de fazer sexo, ou seja, a predisposição, é o fator determinante. O jogo erótico melhora a auto-estima do casal, melhorando também a relação sexual”, explica Diego Henrique Viviani, psicólogo do Instituto Paulista de Sexualidade.

Na hora H: “Preparar um ritual com taças, velas e frutas foi bacana. Sai um pouco da rotina que, geralmente, é mais casual. Cria-se uma expectativa maior, parece cenário de novela. A vela tem uma luz mais baixa, o álcool ajuda a relaxar (desde que você não encha a cara, claro) e o morango é sempre uma delícia e combina perfeitamente com o espumante. Dá pra deixar pra lá o incenso de jasmim que é bastante enjoativo e a romã, que mesmo sendo uma delícia, dá um trabalhão para cuspir caroço por caroço e isso a torna nada afrodisíaca”, Giovana Romani.

Mais, mais:
– Varie as cores dependendo da sua (má) intenção. Pretty women abusam do vermelho que inspira vitalidade e energia e é considerado afrodisíaco principalmente para os homens. Já o violeta é conhecido por reduzir medos e angústias e deixam as mulheres mais à vontade. Importante: o amarelo estressa o sistema nervoso e o azul que tende a ser excessivamente calmante. Por isso, nada de lençóis com essas cores!
– O Kama Sutra, o mais antigo manual de sexo, garante: o homem que come sementes de romã tem seu pênis aumentado. Lendas à parte, as sementes da fruta têm substâncias químicas que se assemelham à cortisona e estimulam a glândula adrenal, melhorando as condições do corpo.

Sugestivos

Hora das boas compras nos sex shop

GÉIS COM SABOR
LINGERIE
ÓLEO DE MASSAGEM
VIBRADOR
LUBRIFICANTE
BONECA INFLÁVEL
FILMES / DVDS

Princípio ativo: A idéia é usar a imaginação como afrodisíaco. E para ir às compras, os sex shops são como uma loja de conveniência. Nas prateleiras, artigos eróticos vão desde gel lubrificante até apetrechos que são proezas da tecnologia. O vibrador, por exemplo, criado em 1869 pelo médico americano George Taylor com o objetivo de tratar “disfunções sexuais femininas”, era uma geringonça movida a vapor e nada anatômica. O acessório virou lazer erótico após a revolução sexual na década de 1960 e, hoje em dia, tem dimensões, cores e texturas para todos os gostos. Além disso, para atiçar ainda mais a fantasia dos casais, o cardápio dessas casas tem lingeries de vinil, géis comestíveis com o sabor de frutas (o de morango é o mais procurado), DVDs com pornografia e bonecas infláveis loiras, morenas e até orientais. Talvez valha a tentativa, porque, segundo teorias de Freud, a melhor forma de despertar a libido represada é procurar caminhos do inconsciente ou seguir situações irreais (embaladas por fantasias sexuais, por exemplo).

O especialista: “A maioria dos clientes de sex shop são mulheres maduras e casadas. Isso é a prova que, para manter a disposição na cama, é preciso experimentar sempre algo diferente”, aconselha Ana Paula, atendente de um sex shop de Copacabana

Na hora H: “O afrodisíaco mais vendido nos sex shops são os géis comestíveis. Têm uma textura esquisita e, geralmente quando entram em contato com a pele, provocam alguma sensação no local: esquentam, esfriam ou, simplesmente, perfumam. Experimentei as hot balls, bolinhas coloridas que devem ser estouradas (da maneira que quiser) para liberar o óleo que vem dentro. O cheiro enjoativo e a baita alergia que o produto barato provocou inibem, sem dúvida nenhuma, qualquer mérito desse plus a mais”, Carolina Baliviera.

Mais, mais:

– As atendentes dão a dica: o produto do momento é o bullet com controle remoto. Para quem não sabe, bullet (bala de revólver, em inglês) é o mais famoso dos estimuladores clitorianos. Este novo modelo permite que a mulher coloque o aparelho na calcinha e deixe o controle nas mãos do parceiro. A festa, o jantar e o cineminha não serão mais os mesmos.
– A primeira boneca inflável foi inventada, veja só, por cientistas nazistas durante a Segunda Guerra. A idéia era combater as baixas do exército de soldados vitimados por doenças venéreas contraídas em bordéis. O governo alemão decidiu criar um “efeito regulador” para o apetite sexual dos combatentes. Porém, a boneca Borghild – feita de plástico galvanizado a partir de um molde em bronze – só chegou ao braços dos soldados anos mais tarde.

A vida é Bela

Por Frederico Viotti

Tatiane é solitária. Desde que chegou a São Paulo em 2004, não consegue ter um relacionamento sério e estável. Diz que todos homens com os quais tem um caso não ligam de volta após as primeiras noites. Romântica como qualquer moça de 28 anos na mesma situação, se entristece com essa recorrente falta de sorte no amor, sente-se desvalorizada como mulher. Mas no final das contas, Tatiane, conhecida também por Belinha, se conforma. Sua atual profissão não ajuda muito na arte da conquista. Há um ano, Belinha é atriz pornô. Só nesse período, já atuou em mais de 70 filmes.

Natural de Matosinhos, interior de Minas Gerais, Belinha vem de uma família simples. Seu pai tem mais de oito empregos, é mecânico, enfermeiro, soldador… Por ironia do destino, sua mãe vende peças íntimas. Belinha trabalha desde criança, já foi recepcionista, balconista e faxineira. Em sua cidade natal, era namoradeira. Mas ficava só nos beijinhos, tinha o sonho de casar virgem. Perdeu esse sonho e outras coisas mais aos dezoito anos, com um ex-patrão bem mais velho. “Ele disse que ia me levar para uma festinha, eu inocente fui, e a festinha era eu, em um motel.”

Do início da vida adulta na pacata cidade mineira, lembra dos forrós que tanto gostava, dos namoros pela janela e do trabalho em uma grande montadora de carros italiana, como apuradora de produção.

Início profissional

No começo de sua carreira como atriz, tentou escondeu de todos, mas logo fracassou. Após o segundo filme, todos em Matosinhos já sabiam de sua nova profissão. “A partir daí decidi não esconder das pessoas o que eu sou. Assumi e passei até a dar autógrafos na minha cidade, para os 35 mil habitantes. Hoje sou muito popular lá.”

E o começo veio aparentemente por acaso. De início, Belinha conta que estava se divertindo em uma danceteria quando um cara a abordou dizendo que tinha o perfil de atriz, e perguntou se não queria participar de um filme. Ela não achou má idéia e decidiu encarar o desafio. Depois, mais desinibida, Bela conta o que fez em São Paulo nos primeiros anos que morou aqui. “Não tenho que mentir para ninguém. Trabalhei em uma boate, como garota de programa por um mês, só para ver como é que era. E ganhei 50 mil reais em um mês! Quando você ganha muito dinheiro e seus pais nunca tiveram condições de te ajudar, você pensa em comprar tudo o que vê pela frente. Mas a vida não é assim. Eu comprei tudo o que eu quis, tudo o que eu quero, tenho. Mas hoje em dia vejo como faz falta esse dinheiro que poderia ter juntado. Fiz programa durante um mês nessa boate, ganhei 50 mil e gastei tudo. Esse foi o único período em que fiz programa, não faço mais. Se pintar, eu vou. Só que esse mercado está ruim, hoje as boates tão todas fechando.”

Depois do primeiro filme, as oportunidades foram surgindo e Belinha entrou de vez no mercado. Hoje é nome conhecido nessa indústria. Como ela mesmo se orgulha de dizer, especialista em cenas “hards”.

Como funciona

Falando em números, se em um ano já fez mais de 70 filmes pornôs, nesse mesmo período estima que já foram mais de 200 shows de strip-tease. Durante o mês na boate, contabiliza uns 300 programas. E revela ter feito mais uma centena deles, com seus clientes habituais. “De vez em quando tenho meus clientes fieis. Agora cobro uma graninha a mais, já sai em capa de revista. Não sou mais bobinha.”

Em termos de valores, não há do que reclamar. Uma atriz pornô em atividade intensa chega a ganhar 40, 50 mil reais por mês. A média gira em torno dos 15 mil. Fazendo programa, esse valor cresce e muito. Os shows é que geram menos dinheiro, não chegam a 500 reais por apresentação. Só que são muito mais recorrentes.

Esclarecendo dúvidas de um repórter leigo, Belinha conta que uma cena, quando bem feita, dura menos de uma hora. Por cada cena, recebe-se entre mil e dois mil reais. Em épocas boas, filmam-se duas ou três delas por dia, cada uma delas consiste em mais ou menos cinco posições diferentes. Se depender da atriz, esse ritmo só tende a aumentar. “Trabalho para todos que me chamam, mesmo que um valor seja mais baixo que outro. Tenho várias oportunidades e não quero perder nenhuma delas.”

Belinha faz questão de dizer que leva seu trabalho muito a sério. Diferente de grande parte das atrizes e atores que na maioria das vezes fingem o prazer durante uma cena, ela diz que raramente deixa de gozar. Afirma que nunca se machucou, nem sentiu dor alguma. Toda essa dedicação ela justifica pelo fato de encarnar profundamente sua segunda identidade, a Belinha, a Belinha Que Dá o Cuzinho na Janelinha. “Acho que não tem que misturar a Tatiane e a Belinha, uma personagem. São muito diferentes. As pessoas dizem que eu me transformo tanto no set de filmagem que parece uma drogada, e isso me machuca. O meu jeito de trabalhar é natural, não bebo nada. Antigamente eu bebia, antes de um anal, ou quando via o dote de um ator… Hoje em dia já encaro numa boa, qualquer tamanho. Me entrego na cena, faço tudo com muita vontade, com muito tesão. Me envolvo tanto que gozo várias vezes. Tento fazer uma puta cena, fazer uma coisa legal.” Confessa que em uma filmagem recente, ficou receosa de contracenar com um ator conhecido por “Kid Bengala”, cujo nome serve de introdução, e que neste dia fraquejou. Teve que tomar um “copão” de uísque.

Mercado pornô

Para Belinha, a relação com as outras atrizes é boa, mas está longe de ser saudável. “Há muita falsidade, muita concorrência. Mas posso te falar uma coisa: me dou bem com todo mundo. Não consigo sempre agradar a todos, mas onde eu chego sou bem recebida. Tinhas varias amigas no pornô, que depois se mostraram falsas. Apesar disso, conheci muitas pessoas maravilhosas nesse meio.” Já com os atores, a história parece ser outra. “Adoro eles, me tratam muito bem. Nunca sai ou fiz muita amizade com nenhum deles, porque rola um interesse de ficar. E não quero me envolver.”

Sobre as celebridades que emergem de maneira instantânea nesse mercado, Belinha diz aceitá-las, mas não perde a oportunidade de fazer uma crítica. “Quem sou eu para julgá-las. Só sei que elas recebem muitíssimo mais. E às vezes entram só para ganhar ainda mais fama, fazem um filme e pronto. Quem atua sempre somos nós, e eles (produtores) não dão o devido valor para a gente. Eu sei do que sou capaz, mas é muito difícil chegar ao patamar dessas famosas. Sou conhecida no mercado, mas não tenho nome de estrela. É um pouco de discriminação, isso não é justo. Tem que dar valor para aquelas que batalham.” Em um de seus ídolos, ela encontra uma exceção a essa regra. “Minha única experiência com celebridades foi com o Alexandre Frota, e ele é um amor de pessoa, maravilhoso. Carinhosíssimo na cama, parecia que eu estava com um namorado, foi muito legal.”

Em sintonia com essa declaração, Bela diz que o filme mais importante que já fez é justamente o protagonizado pelo famoso pitboy, o “Especial de Natal do Frota”. Já aquele que mais gostou fazer foi o “Forró Sem Calcinha”, onde reviveu a paixão de infância pelo ritmo nordestino. Durante a entrevista, ela recebeu a ligação de uma produtora, agendando uma filmagem para seu mais novo projeto: “A Festa da Belinha”, da qual é protagonista e mentora. Uma produção só com mulheres. As cenas serão(ou foram?) gravadas em plena quinta-feira, dentro de um casarão localizado em um bairro nobre da capital. Belinha adora quanto ilustra a capa de um de seus filmes. Imagine só dar nome a ele.

Quando assume suas opiniões pessoais, Belinha não é lá muito liberal. É categoricamente contra o aborto, contra a legalização das drogas e da prostituição. Tem limites profissionais a serem respeitados. “Não gosto das bizarrices, animais, não há dinheiro que me compraria para fazer isso. Bonecas (travestis), não pensei ainda, tenho um pouco de receio. Já fiz com duas anãs, um anão e um boy (homem).” Mas tratando-se do ato sexual ordinário, a história muda um pouco de figura. “Adoro que me batam. Gosto de putaria, de fazer a três, com vários homens, quanto mais melhor. Já fiz com oito homens, e quero mais, é um desafio meu. Tenho vontade de filmar em uma borracharia, com quinze caras.” Apesar de toda essa empolgação, Bela é consciente quanto aos perigos que corre. “Profissionalmente, prefiro fazer com camisinha. Sempre que faço sem, me sinto um pouco incomodada, me encuca. Fico pensando no risco. Arrisco minha vida por dinheiro e dinheiro não é tudo.”

Além de atuar, Belinha também apresenta e participa de programas de televisão, em canais adultos. Mas são os filmes que impulsionam sua carreira. Em julho, ela viajará pela primeira vez para fora do Brasil. Vai gravar na Espanha. E sabe como o mercado pornô internacional é atraente, já que paga-se mais do que o dobro de um cachê brasileiro.

Segundo reportagem da revista Istoé, a indústria pornô no Brasil movimenta mais de 300 milhões de reais por ano em 2006 e 2007. Dada sua experiência pessoal, Belinha fica em dúvida se esse valor tende a subir ou a cair. “Produtoras como a Brasileirinhas e a Sexxy estão crescendo. Mas acho que o mercado está caindo, porque antes eu gravava muito, muito e agora quase nada. Esse ano eu acho que vai dar menos dinheiro. Tem muitas produtoras por aí, a concorrência é enorme.”

Lado pessoal

O apoio da família é fundamental para ela que prossiga na profissão. “É triste para os pais saberem que a filha é uma atriz pornô e uma garota de programa? É. Mas eles me amam de qualquer jeito, não tem o q reclamar de mim. Aceitam minha decisão. Independente do que eu sou, eles me amam de qualquer forma. A única que me dizem é: queremos que você saia logo disso. Junte seu dinheiro, não gaste com a gente e saia. Não queremos isso para você.” Além dos pais, Belinha tem duas irmãs das quais se orgulha muito. As duas completaram os estudos e têm diplomas universitários, ao contrário de Bela, que teve que largar a escola após o primeiro grau para trabalhar. “Jamais deixaria um filho ou sobrinho meu parar os estudos por qualquer motivo.”

Esperançosa de um dia achar alguém que goste dela, a respeite e com quem possa construir uma família, Belinha continua com sua rotina. Caseira, adora filmes românticos e de terror (só não pode vê-los sozinha porque tem medo), mas é fissurada mesmo por novelas. Come muito pouco,é viciada em sorvetes e salgadinhos, que chama de Milhopan.

Pensa em parar de se dedicar ao trabalho em poucos anos, quando tiver juntado dinheiro o suficiente para tocar sua vida. “Pretendo fazer meu pezinho de meia, ter uma casinha tranqüila, uma família que eu possa respeitar e amar. Filhos, só um ou dois. Paro quando eu vir que chega para mim. Como meus pais dizem, quando eu vir que consegui uma grana legal. Não quero parar para voltar depois. A gente que costuma ganhar muito dinheiro não consegue ter um serviço normal, onde se ganhe muito menos. É difícil mudar assim, mas basta a gente querer. Tem que colocar na cabeça e dizer eu consigo, eu posso.” Humilde, pensa até em voltar a trabalhar na montadora, só duvida que a aceitem de volta.

Indagada se no futuro, terá dúvidas sobre o seu presente, Belinha é decidida. “Não esconderia nada dos meus filhos. Meu passado será passado. Quero poder dar muito respeito e carinho para eles. Não falarei que eu não vou me arrepender nunca de tudo o que eu fiz, porque não se sabe do dia de amanhã. Só me arrependo hoje do que não faço, das oportunidades perdidas.”

E assim Belinha segue, vivendo em um universo de contrastes, entre a dominante atriz pornô e a menina carente que desenvolveu-se fisicamente jogando bola no interior de Minas Gerais, mora sozinha em uma pensão de Pinheiros, passa o tempo em casa de pijamas, dorme como um recém-nascido (no dia da entrevista, tinha dormido quinze horas seguidas) e ainda fala “Uai”. Fiel à sua profissão e a um amor, que ainda não bateu em sua porta.

O Xis de Michelly

Por Karina Negreiros

Fraldas, mamadeiras, roupinhas de bebê e uma loira de um metro e oitenta e seis. Foi no chá de bebê de uma amiga que conheci Michelly, uma travesti de 35 anos, estilista e casada há 14.

Curioso é que, embora todos estivessem muito interessados na futura mamãe e bebê, foi Michelly o maior alvo das curiosidades de todos os gêneros ali reunidos. Assim, após a tradicional entrega de presentes, procedeu-se ali, naquele cenário atípico, e, de forma muito natural e informal, uma longa entrevista coletiva com a estilista de fala suave e gestos elegantes.

Lembro que, após esse dia, comecei a enxergar a sexualidade humana com outros olhos. As respostas de Michelly me fizeram refletir acerca da miopia com que costumava tentar enxergar a diversidade sexual. Óbvio que todos sabem existir variações. Papai e mamãe, mamãe e papai, meia nove, oral, anal, vibradores, e tudo o mais que o editor da seção “sexo lacrado” da revista Nova/Cosmopolitan autoriza a publicar.

Evidente que todos já viram travestis na televisão, nas ruas da cidade, no cinema, no jornal nacional (principalmente após o caso Ronaldo). Mas, quantas pessoas enxergam de verdade uma travesti, sem pensar no grotesco, no absurdo, na aberração? Mais ainda, quantas pessoas compreendem sua existência e a demanda social, psicológica e sexual por esse gênero?

Afinal, onde estão as travestis do/no mundo? Será que são assim tão poucas ou somos nós que fingimos não percebê-las? E como é possível não percebê-las??? É clássica a anedota de que os esquimós diferenciam mais de x tons de branco. Se esse povo, seres humanos como nós, consegue enxergar tanta diversidade no que para nós é uma única cor, então, podemos tentar também acreditar que o que conhecemos por sexualidade pode ter um sem-número de nuances que desconhecemos.

Foram essas e outras reflexões que deram origem ao texto que lhes apresento agora. As respostas de Michelly funcionam como sugestivos prompts cor-de-rosa.

Voar de avião não é aberração

Roberto (do casal gay) pergunta: Você não é a Michelly X, que ganhou o concurso Miss Brasil Gay 2000?

Sim! Eu estava bastante em forma na época.

Michelly X (ninguém quis saber o nome que ela tinha antes… e o X é em homenagem à Xuxa, sua ídola de infância), uma travesti com uma beleza difícil de contestar, já participou de inúmeros eventos gays São Paulo afora e ganhou vários títulos de beleza. Não fosse pela inviabilidade social, acredito que teria-lhe sido possível vencer muitas candidatas ao concurso convencional de “Miss Brasil ”.

Quando era menino, Michelly já sentia que era diferente, mas não entendia o porquê. Afinal, na escola, em casa, na casa dos parentes e vizinhos em Tatuapé, na TV, nos desenhos animados, nos livros didáticos, em nenhum lugar, se falava do que ela estava sentindo e, aos doze, no limiar da adolescência, quando todos buscam a aceitação social, lá estava ele fantasiando não em ter uma mulher, mas em sê-la.

Sua carreira como estilista começou cedo. Antes dos 18, já tinha uma boa carteira de clientes e começava a fazer sucesso até entre celebridades, quando se deu, quase que de forma acidental, sua transformação. Primeiro, para se livrar do incômodo da barba, fez depilação a laser e ficou com a cara lisinha. Quantos homens heteros não ficariam satisfeitos com esse resultado?

Empolgou-se com a sutil feminilidade que a ausência da barba lhe conferiu e, foi gradualmente tomando outras medidas para se travestir. Suas sobrancelhas passaram a ser arqueadas e impecavelmente desenhadas, sem um pêlo fora do lugar. Deixou as unhas crescerem e volta e meia brincava de passar esmalte. Esse é o ponto de sua vida em que cultivou o visual andrógino. Era um momento intermediário, em que não parecia nem homem, nem mulher. Não se sentia atraente.

Foi a época em que mais sofri. Saía na rua e as pessoas me xingavam de viado pra baixo, achavam que eu era uma aberração. Uma coisa estranha. Nem lá, nem cá.

A resposta foi peruca e enchimento. Mas, só tinha coragem nas baladas. Isso foi na maioridade. Era uma drag queen de 21 anos, fingia que estava apenas divertindo o público, quando na verdade desabafava, através do exagero, sua vontade de ser mulher. Pensava que se todos já a hostilizavam com o visual andrógino, imagine então se a vissem travestida. No exagero, por trás da peruca rosa da drag, estava protegida. Não queria que mexessem com ela. Não desse jeito.

Um belo dia, resolveu fazer uma experiência. Pegou uma roupa que qualquer mulher discreta se orgulharia em usar, encaixou uma peruca loira, e resolveu caminhar pelo lado selvagem.

“Holly came from Miami FLA
Hitch-hiked her way across the USA
Plucked her eyebrows on the way
Shaved her leg and then he was a she
She says, hey babe, take a walk on the wild side
Said, hey honey, take a walk on the wild side”
Velvet Underground

A moça entrou no trem, sentou-se comportadamente, cruzou as longas e depiladas pernas, acomodou os braços sobre a bolsa e disfarçou, dirigindo o olhar à triste paisagem da metrópole. Estava radiante! Esforçava-se absurdamente para conter o sorriso. Ninguém, absolutamente ninguém, lhe dirigiu uma palavra. Os olhares, embora curiosos de seus muitos centímetros, não pareciam reprová-la. Eram apenas curiosos. Como é bom não ser percebida!

Epifania! Esse foi o dia em que desafiou a sentença a ela empregada no momento de sua concepção. Num ato de mor rebeldia, em desafio ao outrora inexorável XY, seria XX, ou apenas X. Michelly X. E viva o silicone! Viva o laser e outras tecnologias cosméticas. Porque, sim, ela podia ser feliz como queria.

Ora, se Fulana de tal pode deixar de ser quadrada e nariguda, por que Michelly não podia ser simplesmente uma mulher? Se o homem pôde fantasiar com o pássaro e inventar o avião, sonhar com o fundo do mar e inventar o submarino, invejar o sol e iluminar a noite com a eletricidade, não podia ela inventar uma mulher em seu próprio corpo?

Ninguém fica por aí dizendo que voar de avião é uma aberração porque é contra a natureza ou contra “para o que se nasce”. Ninguém se importa em usufruir do legado tecnológico da humanidade para se aperfeiçoar, mudar a cor do cabelo, disfarçar os defeitos, curar doenças, amenizar sofrimentos. Por que cargas d’água então as pessoas insistem em chamar as travestis de aberrações, simplesmente alegando que é “contra a natureza”? Mundinho complicado.

Mas, lá estava ela caminhando gloriosa e corajosamente com seus agora 1,96 metros (os 10 centímetros a mais se devem aos essenciais saltos agulhas, nos quais, recorda-se, foi difícil encontrar equilíbrio no começo), como numa passarela, sob o som ensurdecedor dos aplausos imaginários, cega pelos flashes invisíveis dos olhares deliciosamente curiosos, expondo, a Deus e a todos, o gênero para o qual nasceu.

A verdade de Sartre

Tanto glamour e felicidade, como o mundo é justo, há de ser quebrado pelo outro lado da questão. Pensa que é fácil ser mulher? Não é não. Principalmente para um homem! Desde o preço das roupas, às intermináveis seções de salão de beleza, até os indesejáveis efeitos colaterais das doses e overdoses hormonais. Por uma mistura de falta de coragem, excesso de vergonha e a ausência de uma assistência médica especializada no atendimento ao gênero, os hormônios femininos costumam ser auto-administrados pelas travestis que vão se orientando entre elas, correndo riscos severos de adquirir problemas físicos e psicológicos.

Michelly tomou os tais hormônios. Qualquer travesti que quer ser bonita tem que tomar. De preferência, desde a adolescência. Ela não teve essa chance. Beirava os 30 quando resolveu se arriscar. Mesmo assim, no começo, o resultado foi fantástico. Pele mais lisinha, voz mais macia e emoções que, apesar de toda a vontade de ser fêmea, nunca antes havia experimentado: vontade de chorar à toa, instinto maternal exacerbado, e uma temível redução no apetite sexual.

Tinha nojo de sexo. Se tivesse que fazer um oral, então, eu vomitava. Logo eu, que adorava! Queria namorar e tal, mas para transar tinha que ser com muito carinho. Fiquei uns seis meses sem fazer porque eu não tinha tesão nenhum. Eu e meu namorado tivemos problemas sérios. Tive até vontade de fazer cirurgia.

E quem dera esses tivessem sido os únicos problemas. Além dos hormônios, Michelly tomava remédios para emagrecer. Queria ser linda e esbelta, pois, um homem que decide ser mulher não pode querer ser qualquer mulher! É incrível como as pessoas cobram mais da travesti. Uma mulher normal pode ter bigode, barriga, celulite, unhas por fazer, mas a travesti não. Tem que estar impecável, senão já falam logo que parece homem. Olha o tamanho da mão! Do pé! Olha o gogó! Que feminina, que nada. Maior voz grossa. Ela é enorme! Como se a Daniella Cicarelli não tivesse uma voz mais grossa que a dela e a Luciana Gimenez e a Ana Hickman não tivessem exatamente seus 1,86 metros. E mulheres altas quase sempre calçam mais de 40 mesmo. Sem se dar conta, Michelly conhecia bem a verdade de Sartre: “O inferno são os outros” .

Assim, devido à perigosa mistura entre hormônios, remédios para emagrecer e uma vida social regada à álcool e otras cositas más, começou a desenvolver sérios problemas psicológicos, como a depressão e a síndrome do pânico. Resultado: foi forçada a parar com as doses cavalares de hormônios femininos e com o tão necessário remédio para emagrecer. Engordou uns 20 quilos e ficou mais deprimida… e menos feminina.

Recorreu então ao silicone e, com uma alegre excitação, viu surgir apetrechos muito mais efetivos que os peiticos derivados dos hormônios. Perdeu alguns quilos, mas, não conseguiu contornar seus desentendimentos com a balança. Já os problemas psicológicos, embora mais atenuados, ainda estavam longe de ser resolvidos. Pensa em fazer ioga. Iria ajudar nas duas coisas. Precisa aprender a respirar, a relaxar. Prometi passar-lhe o contato da Dani, minha professora.

Apesar de tudo isso, Michelly se considera uma pessoa, em particular, uma travesti de sorte. Primeiro, porque, ao contrário da maioria de suas colegas de gênero, conseguiu encontrar uma relação estável. São quatorze anos juntos. Uma vida. Não conheço nenhum outro caso igual ao nosso. Segundo, porque não precisou recorrer à prostituição, como acontece em muitos casos. Finalmente, atribui toda essas sortes a uma sorte maior: em todas as etapas de sua transformação, teve sempre o apoio irrestrito de sua família. Quando muitas são rejeitadas pelos pais e familiares, Michelly foi acolhida.

Só tenho a agradecer à minha mãe, meu pai, minha tia, todos. E é assim que tem conseguido saborear e digerir tanto os doces, quanto os amargos frutos de sua escolha.

A gentil franqueza de um pênis

Para quebrar o clima melancólico, Michel (do casal gay) interfere: “Posso te fazer umas perguntas indiscretas? Você é ativa ou passiva? E o que você pensa dos homens que procuram travestis?”

Com meu namorado, não. Ele gosta de ser ativo. Sempre gostou. Mas, eu não tenho esse problema. Já fui ativa em outras situações e não tenho o menor problema com isso, só que ele só me curte passiva. Mas, eu não tenho cabeça de transexual, que acha que é uma mulher.

A travesti gosta de ser feminina, mas normalmente não tem problema com o pênis: gosta dele e sabe usar. A transexual olha pro pênis no espelho e passa mal, quer tirar. Tem horror a ser ativa. Normalmente, ela não quer nem ir para a balada e ter uma vida de glamour. Quer morar numa casinha e ter um maridinho, levar uma vida normal. Não quer nem pensar em ser viril, por isso tem a necessidade de operar.

Dizem que quando operam passam a ter o prazer igual ao da mulher. Particularmente, Michelly não sabe muito o que é isso, mas garante que a grande quantidade de hormônios também influencia a querer tomar essa decisão, como quase aconteceu com ela. E isso foi uma das coisas que a fez parar. Estava ficando louca.

Os homens que procuram travestis também variam muito de perfil, mas, em geral, nenhum homem procura uma travesti esperando encontrar apenas uma mulher. Acontece isso de vez em quando com homens que não têm muita escolha. Normalmente são pouco atraentes, financeira e esteticamente falando. Desejam ficar com uma mulher bonita, mas não têm, digamos, os requisitos para isso. Procuram travestis por uma questão de carência. Porque querem ter uma mulher linda e gostosa e não podem. Ficam lisonjeados com a atenção que a travesti dá, porém, não a curtem de fato.

Mas, a partir do momento em que ele tem a opção de ficar com uma mulher bonita e interessante, como no caso do Ronaldo, que, apesar de não ser bonito, é rico e famoso, e ele opta por uma travesti, desculpe, mas, é porque ele realmente está desejando aquela figura da mulher com o pênis. É uma fantasia que ele tem. Por mais que ele não seja passivo na relação. Há homens que só querem fazer o ativo, mas têm que saber que tem um pinto lá pendurado. É meio louco isso.

E homem que curte travesti, em geral, não curte gay masculino, porque ele não consegue sair com outro homem. Ele não consegue ter tesão. Não é porque ele não tem coragem de assumir que é gay, como muitos dizem. Ele simplesmente não sente tesão se os contornos não forem femininos. E a figura do pênis é essencial. Tem homem que gosta apenas de saber que tá lá, outros gostam de pegar, outros têm que fazer oral, mas não querem ser passivos, outros querem o troca-troca, mas, raros são os que não querem ver.

O pênis ereto é o inqüestionável indício de que uma travesti está com tesão. Já o desejo da mulher é um mistério demasiado incógnito para alguns homens suportarem. É preciso a gentil franqueza do pênis de uma travesti para tranqüilizá-lo. É preciso algo que ele compreenda naquele corpo tão perfeito. Só uma travesti sabe ser a mulher idealizada. Por que só ela verdadeiramente SABE o que um homem sente e quer. Só ela compreende, por empatia, as taras e fantasias masculinas.

Já o homossexual masculino não vai nunca procurar uma travesti. Muitos malham, ficam fortes porque aquela imagem de mulher mexe com a cabeça deles de um jeito negativo. Não atrai de jeito nenhum. Eles querem o oposto disso. Para alguns, os mais afeminados, é algo que eles queriam ser, não ter. Nesse sentido, acho que existe uma rincha. Não por parte das travestis, que são, digamos, mais bem resolvidas. Os homens heteros não querem o gay, querem a travesti. Então, existe essa competição. Tanto é que, quando você vira travesti, você perde muitas amizades com gays. Você sente a diferença.

Por exemplo, assim que virei travesti, a gente ainda ia nas baladas juntos, via um carinha bonitinho e às vezes ele olhava para mim, a travesti, não o gay. Aí rolava aquela inveja e isso acabava fazendo com que eles se distanciassem.

Mas, são tantos que gostam de travestis! Porque a gente conhece, né? Vai numa festa hetero e alguns olhares não estão te paquerando, só olhando, mas muitos, muitos mesmo dizem assim: “se mexer aqui sai”. Uma grande parte dos homens sairiam com uma travesti bonita. Tenho certeza. A gente sabe essas coisas. Existem muitos que não conseguem assumir nem pra eles mesmos.

Por exemplo, no MSN. Já vi homens que ficam a vida inteira por trás de um monitor, querendo fazer sexo virtual com a travesti, querem ver o pênis dela, mandam mostrar e se masturbam, mas nunca têm coragem de chegar e marcar um encontro. Ficam só no virtual. Só na fantasia.

Grande parte do medo de realizar essa fantasia se deve ao preconceito que paira sobre a figura da travesti. O gênero não é reconhecido. A travesti é sexualmente transgressora, socialmente marginal. Para muitos, é a vulgaridade que repele. Mas, o que seria da prostituta se não vulgar? E o que seria da travesti se não prostituta?

O problema da aceitação social da travesti é um círculo vicioso, que normalmente começa na adolescência. O menino começa a manifestar tendências afeminadas e na escola, vira alvo de chacota e descriminação, de tal forma que a vida escolar passa a se tornar insuportável, levando-o a abandonar os estudos antes de concluir o segundo grau. Sem estudos, as opções profissionais se restringem muito, além do fato de haver o preconceito também dentro do mercado de trabalho contra as pessoas de gêneros alternativos. Você consegue, por exemplo, imaginar uma travesti de tailleur numa reunião de negócios de alguma grande corporação?

Assim é traçado o caminho da maioria das travestis, congestionando a via que se bifurca na indústria da moda e beleza, onde muitas são cabeleireiras e manicures, ou a do sexo, desde a prostituição propriamente dita, a participações em filmes pornô e ensaios fotográficos clandestinos. Então, se a grande maioria vive marginalizada, confinadas aos salões ou guetos de prostituição, a sociedade as descrimina ainda mais, reafirmando a (muitas vezes) falsa teoria de que travestis são pessoas fúteis e promíscuas e que, portanto, não têm lugar onde reinam a família e os bons costumes. Como se os membros dessas famílias e supostos praticantes desses bons costumes não fossem, eles mesmos, os clientes sorrateiros que apanham as travestis nas ruas escuras e pagam pela fugaz adrenalina de alguns momentos de prazer radical e descartável.

Caso Ronaldo

Não adianta ele falar que é a primeira vez que fez isso porque eu já tinha ouvido falar que lá na Europa ele já procurava. Tenho muitas amigas na Itália, que foram para lá para fazer prostituição.

Quem é que diz?
Quem é feliz?
Quem passa?

A codorniz
O chamariz
A caça

Três travestis
Três colibris de raça
Deixam o país
E enchem Paris de graça
Caetano Veloso

E essas minhas amigas já tinham me contado que ele tinha saído com fulana de tal travesti, mas eu até achava que era mentira, mas, quando saiu a notícia, comecei a juntar as coisas. Acho mesmo que ele estava sob o efeito de bebida e/ou droga, e saiu por aí desse jeito e, sei lá, com o tesão louco da droga, acabou pegando essas de rua mesmo, que simplesmente estavam ali. Como um cara alucinado costuma fazer, acabou nem escolhendo, pegou e nem viu direito se era feia ou bonita. Ele queria travesti. Pegou três, levou lá.

Acho que uma dada hora, ele mandou buscar mais droga, e uma das travestis saiu para buscar. Foi aí que ele percebeu que o dinheiro dele acabou, aí ele dividiu o dinheiro entre as que ficaram lá. E quando a outra voltou, quis a parte dela e ele já não tinha mais. Não ia dar um cheque ou ir no caixa eletrônico tirar dinheiro. Não tinha cabimento. Mandou ela dividir entre as amigas e foi nesse momento que ela se aproveitou do fato de ele ser famoso e fez aquele escândalo todo.

E com certeza elas foram compradas para retirar todas as queixas. E o que aconteceu com ele acontece direto. Eu já vi vários casos de travestis que se aproveitam do constrangimento social para extorquir o cara, seja ele famoso ou não. Porque normalmente quem procura travesti é casado ou tem namorada. Na verdade, é comum ter de tudo, até adolescente de 16 anos, mas o fato é que a maioria tem dificuldade de assumir isso socialmente e as travestis sabem disso. Algumas, infelizmente, se aproveitam disso.

Travestis que se aproveitam da situação de vulnerabilidade de seus clientes para tirar vantagem ajudam a construir a má fama do gênero. Mas, é incabível generalizar o quer que seja, inclusive os gêneros. É o mesmo que dizer que toda mulher é frígida e todo homem é tarado. Os estereótipos só dão força à intolerância. E o mais lamentável dessa história é que essa teria sido uma grande oportunidade para a mídia levantar a discussão sobre as travestis.

Ajudar a diminuir a descriminação, tanto contra o gênero, quanto contra quem o consome, por assim dizer. Em vez disso, a imprensa caiu em cima do Ronaldo, como se ele fosse um imoral e creditou o discurso daquelas travestis transformando-as em caricaturas perfeitas da imagem mental que a sociedade já tem sobre o gênero: grotescas e vulgares. É absurdo que formadores de opinião, jornalistas, em vez de esclarecer e ajudar a desfazer mitos e tabus do comportamento sexual, apenas reafirmem estereótipos e normalizem regras concretadas de conduta social. Dá vontade de gritar: “Gente, vocês estão falando mal de mim, mas eu estou aqui ó! Estou ouvindo tudo”! E, como eu, tem mais meio mundo.

Don Maroni

Por Rafael Duque e Piero Locatelli

Qualquer referência à boate Bahamas mexe com as cabeças, e muito mais, de todos homens paulistanos. O lugar já foi frequentado por algumas das figuras mais ricas da cidade, por políticos, celebridades e pilotos de F-1 — na época do GP de Interlagos, a casa sempre lota — e também pelas mulheres mais cobiçadas da capital paulista. Mas as pessoas que hoje passam pela frente da boate, em um dos quarteirões mais valorizados de São Paulo, percebem que o Bahamas está longe de ser tudo aquilo que já foi. Do lado de fora, suas paredes estão estampadas pelo cartaz da subprefeitura escrito LACRADO, já comum ao redor de toda capital. Já dentro dele, as cadeiras com texturas de zebra e os aquários não parecem fazer muito sentido com a luz acesa e sem uma única mulher.

Foi dentro desse Bahamas fechado, onde atualmente funciona seu escritório, que o dono desse império do sexo, Oscar Maroni, nos atendeu para uma conversa de mais de duas horas. Com óculos escuros, chapéu e cara inicialmente fechada, ele também estava acompanhada por Docinho, seu inseparável poodle de estimação.

Milionário, ele é dono de fazendas de gado e também promotor de lutas de artes marciais — onde atende por “Don Maroni”. Nesse ramo já tentou até organizar uma luta entre Rickson Gracie e Mike Tyson em Dubai — sonho que não se concretizou graças as altas quantias desejadas por Gracie.

Porém, não é nem pelo gado e nem pelas lutas que ele ganhou sua fama. Maroni fez seu nome sendo dono, além do Bahamas, do Oscar´s Hotel, gigante hotel ao lado do aeroporto de Congonhas e ligado ao Bahamas por uma passagem subterrânea, e também de algumas revistas relacionadas ao sexo, como a Penthouse e a Hustler brasileiras.

Perdendo o cabaço

Mas antes de seu nome ser relacionado ao que há de melhor em termos de sexo, Maroni teve uma iniciação bem diferente do que seu status atual aparenta: ele perdeu a virgindade com uma prostituta, fato que muitos deveriam imaginar. Mas nada comparado às cobiçadas freqüentadoras do Bahamas.

Com cerca de 17 anos, depois de assistir um filme em que Jane Fonda aparecia “de peitinhos de fora” no Cine Ipiranga, centro de São Paulo, ele resolveu que já era a hora. “Eu fui na zona lá atrás, tinha uma loira que era uma velha horrorosa. Mas era loira. Eu fui.” Nervoso, deu uma rapidinha com a moça enquanto ela lia uma revista de fotonovela.

De tão ruim, a transa fez o empresário tremer nas bases. “Pô, será que eu sou viado? Será que sexo é essa merda que aconteceu comigo?” Quem tirou de vez essas dúvidas foi seu cunhado, hoje marido de sua irmã, que o apresentou a duas putas da zona de Santos em seu apartamento. Daquela vez a impressão foi bem diferente: “Eu me lembro que no outro dia de manhã, nós estávamos os quatro tomando café e elas com os peitos de fora. Puta, eu achei aquilo bonito, eu contava pra todo mundo”.

O ponto crucial da mudança de sua carreira veio anos depois. Ainda na faculdade de psicologia e, sob os auspícios de João Carlos Di Genio, dono do conglomerado Objetivo, conseguiu vender lanches, seu primeiro negócio. Enquanto cursava a faculdade, também começou a atender um certo nipônico que sofria de ejaculação precoce, cuja a cura mudaria o rumo de sua vida.

Primeiros passos como empresário

A solução achada por Maroni para seu paciente foi dupla: o tratamento psicológico e idas regulares a uma “casa de massagens”. O resultado não podia ter sido melhor. “O japonesinho ficou uma bala”, conta. “Aí eu falei: vou montar em São Paulo uma instituição que tem como objetivo o tratamento terapêutico. É mentira, era uma roupagem que eu queria dar a essa atividade que eu gosto tanto que é a sexualidade humana.”

Da história do japonês, até o Bahamas, a trajetória parece fácil ao ser contada por Maroni: “Aí eu monto uma casa, duas três, quatro e fui crescendo com as boates, com as casas noturnas. Aí eu abri o Bahamas Club.”

Com essa trajetória, ficou quase inevitável perguntar: quantas mulheres nesse tempo, Maroni? “Segundo a revista G Magazine eu já tive mais de 2 mil mulheres.” Verdade? ” O repórter me falou, seu Oscar antes de vir pra cá eu fiz uns cálculos… Naquela época, o senhor falou que tinha trinta anos de noite. Trezentos e sessenta dias tem o ano, vamos fazer trezentos por ano, vezes 30 anos de noite. São três vezes três, nove. Seriam nove mil mulheres, uma por dia, impossível. Eu falei, é, coloca uma a cada três dias. Já daria 3 mil.”

Três mil? “Realmente, eu já me relacionei muito sexualmente. Mas acho que isso não é mérito nenhum, essa quantidade é até meio cafajeste. Eu amei, perdidamente, seis, sete mulheres. ”

Família

Dentre essas seis, sete mulheres, a que passou mais tempo com ele foi Marisa, sua esposa durante 27 anos. Mãe dos quatro filhos de Oscar, ela mora hoje em dia com a prole numa cobertura de 700m². Mas, e as outras três mil mulheres? Marisa não tinha ciúmes? “Tinha problema de ciúmes, mas depois eu comecei a virar ela”, e ainda relembra: “Uma vez um amiga dela perguntou a mesma coisa. Ela falou: Eu sei que meu homem ta lá, o Oscar ta lá no Bahamas. A diferença é que eu sei onde ele tá, você não sabe onde o teu homem tá.”

Ao falar sobre a filha, Maroni é um pai que se sensibiliza. Nos contou até que chorou vendo o filme Juno, ao lembrar da história da gravidez indesejada da sua herdeira. Contando sobre essa história, Maroni não mede palavras: “Hoje eu sou avô e digo o seguinte, o pau do meu genro comeu a minha filha e maravilhosamente me deu um ser que eu amo muito que é o meu neto. ”

Os outros três filhos, todos homens maiores de idade, frequentam o Bahamas e todo domingo, almoçam junto com o pai, que hoje em dia namora Maíra, uma menina décadas mais nova que ele.

Fuga

Era com ela que Oscar estava quando foi decretada sua prisão, logo após a queda do avião da TAM. Segundo ele, era uma noite como qualquer outra e ele estava em seu flat. “Liguei pra Maíra e disse: vamos pedir para vir uma amiga minha aqui? Vamos fazer uma festa a três?”. Quando pegou o celular para ligar para a tal amiga, viu um recado do advogado, alertando sobre a prisão. “Nossa! Eu levantei de pau duro e desesperado”, lembra. A partir desse momento, o empresário começou uma seqüência de fugas e disfarces até se entregar à polícia.

Na sua rota como foragido passou pela casa da namorada e sua casa de praia, no litoral norte paulista. Durante esse tempo, Maroni chegou a dar entrevistas para alguns canais de televisão. “Aí me encheu o saco e eu voltei pro meu flat. Tava um saco pra sair na rua, teve um dia que eu saí disfarçado de gay”, relembra, enquanto faz uma imitação do personagem que encarnou para não ser descoberto. Ele ainda revela que esteve muito perto de ser preso, mas se safou ao se passar por deficiente mental para um policial. “O cara olhou eu babando e foi embora”, contou.

Apesar de saber que sua pequena aventura fugindo da polícia pode ser considerada crime, Maroni diz que em nenhum momento quis desrespeitar a Justiça. “Não vou desrespeitar a Justiça porque é a Justiça que me julga”, afirma. Quando cansou do papel de fugitivo, ele se entregou aos policiais e passou 57 dias preso.

Prisão

“Acho que todo ser humano deve ser preso por uma semana para dar valor à liberdade”, profere Maroni. Os dias que passou atrás das grades fizeram ele pensar em muitas coisas da vida — hoje afirma que dá um valor diferente para algumas coisas que antes passavam despercebidas, como tomar café na padaria. Além da depressão, o empresário também se sentia desconfortável com a comida servida aos presidiários, “eu olhava pra quentinha e tinha vontade de vomitar”. Apesar de todos esse problemas, Maroni admite que a estadia no xilindró rendeu boas histórias.

Dentre elas, consta até um problema com as visitas íntimas. Segundo ele, a sua ex-namorada ficou desesperada quando soube da prisão e foi até a delegacia para “consolá-lo”. Resultado: acabou usando a visita íntima com a namorada numa semana e com a ex na outra. “Eu confesso que é um barato, uma fantasia diferente. Depois o delegado soube, cortou [as visitas] e tive que oficializar uma.”

Como a visita íntima era apenas uma vez por semana, Maroni dava um jeito para conter o seu apetite sexual nesse meio-tempo. E ninguém melhor do que ele para explicar como funcionava. “No meio da madrugada você pega uma meia e bota no pau, bate uma punheta e põe embaixo da cama. No dia seguinte você pega aquela meia gozada e leva pra lavar. Isso porque já fechou as grades e não pode ir pro banheiro lavar durante a noite.”

O empresário conta também que a passagem pela delegacia fez com que ele descobrisse que muitos mitos em relação aos presos são mentira. “Esse preconceito que dizem que comem o rabo de preso também é mentira”, protege-se. “Tinha um gay que dormia embaixo da minha cama e ele dizia que tava lá há um ano e ninguém comia ele”.

Intercalando essas histórias com constatações de teor mais sério durante toda a entrevista, , logo em seguida Maroni frisou que foi muito respeitado dentro da cela e mostrou comoção ao falar da situação dos presos. “Não pode colocar esses milhões de seres humanos dentro de um cárcere, onde se fabricam bandidos e assassinos, e depois soltar eles achando que eles vão ser bonzinhos”. Para concluir sua indignação, ele desabafa: “O que mais falta na nossa sociedade é justiça”.

Enemies

Justiça, ao lado de liberdade, é a palavra mais falada por Maroni durante a entrevista. Nos primeiros quarenta minutos dela, Maroni fez um monólogo, na defensiva, ressaltando como a tal justiça esteve bem longe dele nos últimos tempos.

A irônia é uma constante nessas defesas. Seu primeiro alvo é uma matéria do Fantástico em que um anônimo piloto falava que o hotel de Maroni obrigava os aviões que iam pousar no aeroporto de Congonhas a desviarem sua rota de pouso. Irônico, afirmava que, para isso ser possível, ele era mais poderoso que o presidente do Brasil, dos EUA, e completava: “Então, eu consegui, com o meu hotel, reduzir o tamanho da pista do aeroporto em 150 metros. Percebe puta pica grossa que eu sou? Eu sou um pau de provolone!”

O hotel, matéria da reportagem, é o único grande prédio numa região de casas e deve causar estranhamento em qualquer ser humano que passe na região. Porém, Maroni diz que possui a autorização da aeronáutica para a construção do estabelecimento, e que seu problema não estaria ligado à altura mas, na verdade, ao barulho. O que de fato não deve ser um problema: a sensação de dentro do hotel é a de uma sala hermeticamente isolada, em que os aviões passam fora da janela como numa televisão ligada no mudo.

Dentro do imenso hotel, a construção segue parada, causando prejuízos e trazendo ainda mais lamentos ao nosso entrevistado. “Eu sou um homem rico pobre. Eu tenho propriedades, fazenda, moro em cobertura, ando de Jaguar, Mercedez, tenho Jet-ski. Mas isso aqui é a liquidez, e isso aqui está fechado.” Sem titubear, ele elenca o prejuízo que vem tomando com o fechamento da boate e o hotel parado: “Eu tenho 130 empregados que até três meses atrás eu estava pagando o salário. Segundo, você sabe o que cobre um prédio deste tamanho? São 17.000 m², 223 apartamentos. Parado! Então isso está me dando uma situação financeira muito delicada por incompetência do Estado, por falhas de informação do Estado. Hoje eu diria até que não foi nem uma perseguição direta do prefeito [Gilberto Kassab]”.

Sobre ele, Maroni ainda complementa: “Eu diria aqui, sem puxação de saco, que nosso prefeito fez até coisas boas, como por exemplo tirar aí os outdoors. Eu tava vendo na bandeirantes, a cidade tá mais limpa… mas em relação ao meu hotel, à minha boate, ele errou sim.”

Se ao falar de Kassab, Oscar parece moderado, seu jeito de tratar Flavio Lepique, antigo subprefeito da Vila Mariana e figura carimbada na época em que o Bahamas foi fechado, é bem diferente: “ele é moleque, é irresponsável, inconseqüente. Tomou atitudes arbitrárias em relação à minha pessoa.” Não satisfeito, Maroni continua seu ataque. “O senhor Flavio Lepique, que é duma religião evangélica ou alguma coisa assim, declarou que ele é contra a prostituição, que ele não gosta. Tudo bem, respeito o ponto de vista, mas ele tem que respeitar quem gosta. Eu sou a favor de pênis eretos, vaginas molhadas e cada um colocar a boca onde bem entende, no duplo sentido, ou no triplo sentido.”

Mas seu grande karma atende pelo nome de Roberto Cabrini. Reportér da Record, na época ainda na Bandeirantes, ganhou a mesma mídia que cobria quando foi preso por tráfico de drogas neste ano. O problema de Maroni, porém, reside mais atrás: “Uns seis meses antes de cair o avião da TAM, senhor Roberto Cabrini veio me procurar. Aí ele me diz assim no meio da entrevista: é prostituição? Eu digo sim, não vamos ser hipócritas. É prostituição de luxo.”

Foi essa matéria que levou os holofotes para Maroni, ainda antes da época da matéria do Fantástico e, segundo ele, de modo injusto: “Prostituição não é ilegal, mas ilegal é manter uma casa de prostituição. Ilegal é o rufianismo, é a facilitação. Eu disse não, eu não pratico nenhum desses fatos, já fui absolvido dezena de vezes.”

Caráter e influência

Maroni não se cansa de explicar a legalidade de seu negócio. E, as vezes, até a aparente imoralidade dele, coisa que ele nega de forma veemente. “Eu não sou imoral. Eu acho a minha camisa preta mais bonita que a sua verde. Isso não me dá o direito de te cobrir de porrada, arrancar sua camisa verde e por uma camisa preta em você”. É isso que, para ele, é a liberdade.

Para comprovar o seu caráter, ele fala para todos que quiserem ouvir, em alto e bom som, que nunca corrompeu nenhuma autoridade, além de nunca ter se deixado intimar por corruptos. “Todas as pessoas aqui sabem que quando vem polícia, eles querem dar carteirada e entrar de graça, mas eu não deixo, eu não permito isso”.

Maroni revela que já foi católico, mas hoje segue seu próprio tipo de religião. “Eu acredito que existe um certo grau de evolução. Eu digo: me diga sua religião, e eu te digo em qual grau de evolução você está”.

O controverso escritor americano Henry Miller influenciou profundamente a vida do empresário. Tal qual Maroni, Miller ficou famoso ao falar de assuntos sexuais. As obras dele foram banidas de vários países sob a acusação de pornografia. Ele foi o autor da trilogia Sexus, Plexus, Nexus, que chamou de A Crucificação Encarnada. Como nos outros livros, esses romances narram trechos de sua própria vida, embora ele negasse. Além do autor americano, Maroni conta que outra parte importante para decifrar esse quebra-cabeça da formação do seu caráter são os estudos sobre a vida do naturalista Charles Darwin e do filósofo Friedrich Nietzsche, que têm feito ele repensar muitas coisas sobre a própria existência.

Futuro

E é justamente para essa existência que ele busca novo motivo. “Eu lembro que no dia 7 de setembro, durante a madrugada, em cima de um colchãozinho de 3 cm, eu decidi que iria me candidatar a um cargo público”. Petista de coração, sabia que seria difícil trilhar uma carreira de sucesso dentro de um partido tão grande. Filiou-se a uma legenda de menos fama e mirou seu foco na prefeitura, mas logo se desiludiu e agora sonha em um cargo menor.

Mesmo que não consiga realizar seu objetivo a curta prazo, Maroni tem outras metas traçadas para o seu futuro. “Se eu não entrar nesse pleito político agora como vereador, eu pretendo um cargo político futuro. E nesse espaço de tempo eu quero um programa de televisão. Eu quero ser o Michael Moore do Brasil!”, revela o empresário, se comparando ao documentarista norte-americano famoso por suas polêmicas. E para aqueles que acham que ele está apenas brincando, o programa já tem até nome: Oscar Maroni, o comprador de corruptos. Nele, o astro do show tentaria comprar os mais diversos tipos de profissionais para depois denunciá-los ao Ministério Público. Resta agora esperar para ver se o dono do Bahamas conseguirá, enfim, moralizar a política e a mídia nacional.

Disk-puta

Por Cinthia Toledo

“Luana – loira gostosa com peitão. 1,65 de altura, 58 kg de muita gostosura. Faço todo tipo de serviço. Preço a combinar.” Esse era o anúncio, até que discreto se comparado aos demais, da Luana em um orelhão da Praça da Sé.

Ligo para ela numa manhã de sexta-feira, às 10h45 da manhã. Ela atende com voz de sono. “Oi, queria chamar você para animar a despedida de solteiro do meu noivo”. Ela estranha. “Você é a noiva dele?” “Sim”, eu respondo. “Onde e quando?”, pergunta em um tom de mau humor.

Percebo que assim que eu der o endereço e negociar o valor, ela vai desligar sem me dar chance para saber mais de sua vida. Tento, então, enrolar mais um pouco, antes de “chegar aos finalmente”. “Não costumam pedir esse tipo de serviço?”. “Não a noiva. Principalmente porque eu faço o serviço completo. Não sou mulher de só atiçar o pinto, não.” “Mas, como seria o serviço completo?” “Faço o que o cliente pedir. Mas, é claro que o preço varia”. “Varia quanto?” “A senhora vai querer contratar o que, afinal? Não tenho muito tempo para conversar.” “Então, eu queria que você animasse a festa. Mas só isso.” “Posso até fechar assim com você, mas, se chegando lá algum endinheirado, mesmo que seja o seu noivo, quiser algo mais, eu faço. Já aviso logo de cara porque sei o que é uma traição.” Ela começa a se abrir. “Não consigo entender como alguém pode contratar uma prostituta para a festa do noivo. Olha que eu tenho várias colegas que viraram putas fixas de pessoas que conheceram assim”.

“Você já foi traída?”, pergunto. “Peguei meu homem na cama com outra. E tenho certeza de que você também já foi corna. Pode ser que nunca tenha ‘descobrido’, mas que foi, foi. Nenhuma mulher escapa”. “E foi aí que você virou prostituta?” “Não, eu já era. Me prostituo desde os 13 anos, quando meu pai saiu de casa.” “Foi por necessidade, então?” “No começo sim, mas hoje eu não sei se quero outra vida não. É claro que têm uns clientes que é foda. Quando é muito velho ou quando ta bêbado, eu acho pior. Tem hora que dá nojo, mas você acostuma.” “E por que você não sabe se quer outra vida?” “Apesar ‘das confusão’, principalmente com polícia, que às vezes têm, o dinheiro é mais fácil. Por exigência de um namorado, larguei uma vez, virei vendedora no Brás. O salário não era nem metade do que eu consigo agora”.

“Você tem namorado?” “Hoje, não. Mas o povo pensa que puta não namora. Namora, sim. Mas nem sempre tem respeito”. “Do namorado, você diz?” “É”. “E seus namorados você conhece onde?” “Ué, em qualquer lugar. Onde você conhecesse os seus?”, ela devolve para mim.

A essa altura, já pegamos certa intimidade. Resolvo perguntar sobre seus relacionamentos. “Mas, quando você namora, como faz com os seus programas?” “Os meus programas ‘é’ o meu trabalho, não tem nada a ver.” “Mas, os caras entendem?” “A maioria, não. Por isso que agora eu tô sozinha. Tem cara que faz a gente largar. Mas eu só largo se ele me sustentar. De homem a gente não pode ter dó. Nem um por um segundo. É só virar as costas…” “Você me parece bem leal às mulheres”, digo a ela. “E sou mesmo. Depois que uma me fudeu, eu fiquei assim.” “Você sabe quem é a mulher?” “Uma vaca aí. Tenho que desligar agora. Afinal, mocinha, você vai querer ou não o programa?”

Penso em falar a verdade, que é um trabalho de faculdade e tal. Mas, temo pela reação dela. “Não, não, acho que é melhor não. Mas obrigada pelo seu tempo e pelo papo”, digo. “Você me pegou com tempo. Geralmente, não dou mole assim não. Valeu. E se tiver alguma amiguinha, estamos aí, é só avisar.” “Você atende mulheres também?” “Pagando… Valeu, tchau.”

Valeu mesmo. O “disk-puta” pareceu mais um “disk conversa” para mim. Fiquei depois me perguntando se ela teria com quem conversar aquelas coisas. Mas, depois me dei conta de que, na verdade, ela já não está muito aí para as coisas. Parece calejada pela vida. Mas, mesmo puta, mantém valores. E amores.

Bruna Surfistinha na marola…

Por Giovana Romani

Raquel, 23 anos, poderia ser sua vizinha. Simpática, bem-educada e inteligente mora há três anos com o namorado em Moema, bairro nobre da capital paulista. Estudou em colégios de elite e tem um português impecável, falado com cuidado redobrado durante uma entrevista. Acabou de ler Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva, e adorou. Só não gosta mesmo do gênero auto-ajuda. Dorme tarde – nunca antes do Programa do Jô – e acorda razoavelmente cedo, lá pelas 8h30 da manhã. De seu escritório responde uma média de 70 a 80 e-mails por dia. É de lá também que acompanha o lucro dos três livros já publicados por ela e negocia a venda dos direitos autorais de sua história para 12 outros países e até para o cinema. Não fosse pela superexposição de Raquel Pacheco em tudo quanto é programa de TV e do fenômeno editorial que ela se tornou, você provavelmente jamais desconfiaria de que aquela sua vizinha um dia foi Bruna Surfistinha. Até hoje, a prostituta mais famosa do Brasil.

Tudo começou pra valer quando Raquel tinha 17 anos e fugiu de casa depois de uma série de desentendimentos com os pais conservadores. Sem ter para onde ir, entrou em um bordel e lá ficou por um ano. Na verdade, as aventuras e desventuras sexuais da moça foram iniciadas antes. Aos 14 teve de sair da escola porque ficou com fama de puta. É que ela fez sexo oral em um colega numa rua sem saída próxima ao colégio e todo mundo ficou sabendo. “Ninguém mais falava comigo, parecia que eu tinha matado o menino”, lembra. “O que me consola é que quem falou mal de mim na época deve agora fazer muito sexo oral. E adorar.” Foi assim que, sem ligar para barreiras ou constrangimentos, Raquel tornou-se Bruna. Os longos cabelos dourados e o corpo bronzeado pelo sol do Guarujá renderam à menina, que nunca pegou uma onda sequer, o “sobrenome” Surfistinha. Ela não se faz de rogada. Garante que sua curta carreira como garota de programa, dos 17 aos 20 anos, não foi difícil e sofrida como manda o clichê. “Uni o útil a agradável. Se eu não cobrasse, seria uma galinha que dava para todo mundo por aí”, diz.

E olha que se tem uma coisa de que ela entende é unir o útil ao agradável. Já recebendo clientes em um flat passou a fazer um banco de dados com o perfil dos homens que a procuravam. Além de itens básicos como idade, estado civil e tipo físico, descrevia o desempenho de cada um deles. Não tardou para começar a despejar essas informações em um blog, virar hit da Internet e… Bem, como não é novidade para ninguém, o blog rendeu o livro O Doce Veneno do Escorpião, lançado em 2005. As relações detalhadas com “uns 3000 homens” e o completo despudor para falar de todo e qualquer assunto que envolve sexo (dentro ou fora das quatro paredes, com homens ou mulheres, com um ou oito rapazes ao mesmo tempo, romântico ou selvagem) renderam ao título uma excepcional venda de 250 mil cópias. “Muita gente me procura para falar que começou a gostar de ler por causa do meu livro”, orgulha-se.

Bruna é mesmo uma marketeira de primeira. Quando deu os primeiros passos rumo ao estrelato, o preço de um programa com ela subiu de 100 para 250 reais. Com os dois pés no intervalo de tempo conhecido como quinze minutos de fama, resolveu largar a prostituição. “Estava exausta”, conta. “Naquela vida tinha milhares de homens, mas continuava carente.” Chegou a cobrar 500 reais por uma hora ao seu lado no último dia de labuta. Em 27 de outubro de 2005, Bruna voltou a ser Raquel.

Assim mesmo, da noite para o dia, como em um filme. Aliás, a partir do ano que vem sua vida vai mesmo virar um longa, dirigido por Marcus Baldini e roteirizado por Karim Aïnouz. O happy end fica por conta do grande amor, João Paulo, encontrado entre um cliente e outro. O que resta para depois dos créditos: até hoje a ex-prostituta não teve nenhuma notícia sobre seus pais e irmãs mais velhas. “Acho que eles nem me consideram mais como filha.” Já que não tem mais família, vai criar uma nova. “Quero engravidar no ano que vem.” Aproveitando seu know-how, também vai abrir uma butique erótica de luxo no segundo semestre deste ano.

A safada Bruna ainda visita a monogâmica Raquel de vez em quando. Juntas elas escreveram o livro Na Cama com Bruna Surfistinha, lançado em janeiro. Nele, a autora dá dicas picantes para casais que têm relações morninhas. Quer saber algumas delas? Confira na rapidinha (com o perdão do trocadilho) da ex-garota de programa à Babel:

O que você ensina às esposas que pedem seus conselhos sexuais?

Que é preciso inventar coisas, mas não tem que ser nada de outro mundo. Se ela estiver dirigindo o carro, por exemplo, pode entrar no motel sem falar nada para o namorado. Em casa não dá para transar na mesma cama todo dia. Tem que variar, fazer no chuveiro, no sofá da sala, na cozinha. Outra coisa é criar personagens e variar na intensidade do sexo. Um dia ela pode ser romântica e dar beijinhos. No outro pode ser selvagem e fazer sexo animal.

Você usa esses truques?

Uso, uso sim. Quando eu me prostituia era mais fácil. Os homens mudavam e se eu quisesse podia fazer a mesma coisa com todos eles. As mesmas posições e brincadeiras. Hoje, que sou praticamente casada, tenho que me esforçar para variar mais.

Sexo anal ainda é um tabu para os casais?

Sim. Mas aí a culpa é do homem e da mulher. Eles têm que ter paciência, não é da primeira vez que vão conseguir. Eu não tive problema porque minha primeira na vida vez foi com sexo anal. Já as mulheres precisam abrir a cabeça, não é um monstro. Pelo contrário, é muito bom. E elas precisam lembrar que o que o marido não acha em casa, vai procurar na rua. Principalmente nas prostitutas.

Como é essa história da sua primeira vez ser com sexo anal?

Eu tinha uns 15 anos e minhas amigas falavam que transar doía muito. Aí pensei ‘bom, vou experimentar por trás então’. Achei que doeria menos. Ledo engano.

Tem alguma coisa que você fazia como prostituta e não faz como namorada?

Ai, tem várias. Fazer papel inverso é uma delas. Não curto ser o homem da relação, não tenho um pênis. Quando isso acontecia brincava que eu não tinha sido a Bruna aquela noite, mas sim, o Bruninho.

E seu namorado nunca te pediu isso?

Não e se ele me pedisse eu ia achar muito estranho. Não é preconceito, cada um tem sua fantasia. Mas que é estranho é.

E os apetrechos, como os que você venderá na sua butique erótica, funcionam mesmo?

Muito, uma novidade é uma calcinha com um minivibrador que fica bem na região do clitóris e é comandado por um controle remoto sem fio.

Você já usou essa calcinha? Como foi?

Já fui até para a balada com ela. O homem fica totalmente no controle da situação. Ele pode te encher de tesão no meio de todo mundo, sem ninguém perceber. É uma cumplicidade dos dois. O vibrador só liga e desliga quando ele bem entender, e pode ser naquele momento ótimo para a mulher. Afinal, os homens adoram dominar e ficar no controle da situação.